No último capítulo…

Sir Heero e Sir Trowa tem um duelo na segunda etapa das justas do torneio de Sanc. Ambos cavaleiros demonstram tamanha maestria que empatam, algo que há muito tempo não era observado. Naquele mesmo dia, está programado o evento de um baile e a princesa Relena, decidida em ganhar a afeição de sir Heero, o aborda no final dos duelos, indagando a cor de sua veste para poder combinar.

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Capítulo 14 – O baile

Meia-hora depois do início do baile, Heero estava pronto e em rumo do jardim do palácio. Como o tratado, vestia um traje cinza, mas este era de um tom ainda mais escuro do que o traje que usara no banquete, e destacava com ainda mais força o azul límpido e melancólico dos olhos dele, deixando-o acrescidamente bonito, prova de que o charme da rudeza e da insolência dele podia sempre ser realçado.

Envolta num pano ele levava a Bíblia dela numa das mãos. Caminhava debaixo do céu nublado, sentindo o brilho disperso e embaçado de uma Lua perdida na colcha de nuvens densas. Estava demorando a chover. Quase não havia vento, só mesmo a brisa habitual, por causa do litoral, que logo cessava ao entrar na cidade.

Fez todo o trajeto em menos de trinta minutos. Passou pelos dois portões e chegou ao amplo jardim iluminado, coberto de tapetes onde estava a pista de dança, e havia uma longa mesa com vários pratos fragrantes de aparência bonita, além de decorações requintadas, e corria pelas bocas que foram feitas pelo bom-gosto da senhorita Lucrezia Noin. Senhorita esta que já estava por lá.

Heero aproximou-se dela com um ar circunspeto e terrível, mas ela o recebeu com seus olhos fortes repletos de brandura. E como ele não sorriu, ela também não sorriu, apenas colocou-se numa posição de mesura.

_Pois não?

_É a ama de Vossa Alteza? –e ele a viu responder com um leve aceno de cabeça, sem sair da posição de mesura. –Entregue isto para ela. –e estendeu a Bíblia envolta no pano. Noin endireitou-se e apanhou o embrulho, sem saber do que se tratava, sem ouvir sequer um "por favor" ou "obrigado", e viu Heero distanciar-se.

É este o dileto de Relena?, perguntava-se, horrorizada. Mas via no porte dele e nos olhos de dignidade que, apesar do interior ser ameaçador, o exterior era muito convidativo. Era inegável o quanto ele era bonito, e havia algo mais na aparência dele, algo atraente que vinha sabe-se lá de onde, a despeito do halo carregado de maldade no qual ele se envolvia.

Ele deu as costas e abandonou Noin com a Bíblia. Rumou até um canto da mesa, onde viu os outros quatro "Formidáveis" ali.

_Milorde! –e então escutou a ama chamá-lo. Virou-se para trás, afrontado, e via que a jovem mulher lhe sorria. Ela tomou a liberdade de se aproximar com um sorriso maroto. –Por que o senhor mesmo não entrega para Vossa Alteza?

_O quê?

_Estou ansiosa em testemunhar a legendária cortesia de um cavaleiro. –ela provocou com um ar reprovativo, como se pudesse repreendê-lo e tivesse poder para isso. E assim, do mesmo jeito que ele lhe deu o embrulho ela o devolveu, olhando-o capciosa.

Logo Heero notou que ela era um tipo difícil de mulher. Via nela certa chama no olhar lavanda como ele também já vira nos olhos de esmeralda de Akane. Era o viço de uma atitude presente, testemunho de que a aparência submissa e frágil era só máscara para uma sobrepujante irreverência e resistência. Heero não respondeu nada, mesmo assim ela o olhou com solicitude:

_Queira me acompanhar.

E saiu caminhando com elegantes passos convictos e Heero relutou por um instante. Olhou os lados, olhou a Bíblia embrulhada e por fim, bufando, ele seguiu a moça mais velha. Apressou o passo para alcançá-la, quase numa corridinha atlética, e ela prosseguia sem alterar seu ritmo, como uma militar, elegante e imponente, a cabeça sempre altiva.

Ao deixarem o jardim, ela pediu:

_Por qual nome devo anunciá-lo?

_Por nenhum.

_Não seja assim tão impossível! –e ela nunca o olhava, e prosseguia altiva na sua considerável estatura. Mas ele observava-a incrédulo, caminhando próximo dela, por entre os corredores do castelo.

_Heero. Anuncie-me por Heero. –por fim ele cedeu, a voz soou grave e cavernosa. Noin desviou rapidamente os olhos para ele, imperceptível.

_Senhor. –ela expressou sua submissão com sua voz refinada vibrando. E por fim olhou-o com atenção. –Me chame por senhorita Noin, Sir Heero. O duelo do senhor esta tarde foi mesmo memorável. Como te agrada o empate?

E ele apenas fitou-a demoradamente, ao pé da escada. Não sabia se Noin estava sendo irônica e apenas sentiu-se impressionado pela pergunta dela. Fracamente, ele suspirou e nada disse. Parecia enfastiado. Ela mesurou com a cabeça e eles subiram a escada até os aposentos da princesa. Noin conhecia bem os homens do tipo de Heero. Só se agradam da vitória e nada mais é válido então. Ela sabia tais coisas porque teve onde observar: seus irmãos, todos militares, seguiam um código rígido de triunfos e derrotas, e estava acostumada em ver a frustração latente aparecendo sob olhares azuis diante de qualquer resultado adverso. E enquanto ia pensando no assunto, logo se achou diante da porta.

_Chegamos. Espere apenas um momento, milorde.

Noin abriu-a com pulso e delicadeza, e olhou lá dentro. Relena já estava vestida para o baile, caminhava pelo quarto aparentando confusa, como se procurasse por algo.

_Noin? Oh, olá… você por acaso viu…

_Um momento, princesa. –Noin interrompeu Relena com brandura. E Relena parecia ler nos olhos da amiga algo eufórico. Sorriu suspeitando, estacada. –Vossa Alteza tem uma visita.

_E quem é?

_Sir Heero. –foi concisa, mas aquilo foi o suficiente. Relena olhou-a com um ar desacreditado e sentou.

_Ótimo. Diga para ele entrar. –disse de um modo grave, ficando séria de repente.

Noin sorriu divertida, achando o susto de Relena bem engraçado. Voltou até a porta e com um ar confidencial e risonho murmurou:

_Pode entrar.

Ele prestou atenção no que ouviu, mesmo assim demorou em responder coerentemente. Por um momento olhou a ama dentro dos olhos azuis dela, e ela esperava calmamente. E quando ele se deu conta, fez-se sisudo de repente, e Noin quase riu dele, e ao vê-lo entrar, entrefechou a porta e saiu.

Quando Heero entrou, com seu porte altivo e principesco, viu Relena sentada numa banqueta. Ela tinha olhos parados e face imóvel, fitando-o insistentemente. Ele olhou a porta encostada atrás dele, olhou o chão, relutando em se aproximar ou olhar Relena. Não se sentia a vontade, não sabia por que precisava ter ido até ali.

_Boa noite. –e era sempre assim que começava os diálogos entre os dois. Um corajoso abria a boca e murmurava um cumprimento superficial. Relena, com sua voz expressando segurança, o recebeu. Sorriu por fim, e ele odiava o sorriso dela. Ele com um breve assentir de cabeça respondeu o cumprimento.

_Eu vim lhe devolver. –e estendeu o embrulho de tecido. Ela olhou-o curiosa, mas ele não fez nem um ensaio de que ia deslocar-se até ela. Ela sorriu nervosamente, como sempre decepcionada, e assentiu:

_Obrigada. Mas o que é?

_Sua Bíblia.

Então ela fez-se sorridente de espanto. Sabia que tinha esquecido o livro em algum lugar e não conseguiu lembrar-se de onde. Foi dar por falta dele só fazia um dia, e há minutos atrás o estava buscando pelo quarto.

Ele parecia inconformado com o modo distraído dela ao informar-lhe o conteúdo do pacote. E ainda parado no mesmo lugar, ficou esperando alguma coisa. E ele nem sabia direito o quê.

_Você poderia trazer até aqui? –então ela pediu, educada, simulando inocência, e os olhos parados dele expressaram um incontido desgosto. A passos largos foi até ela e quase que empurrou o embrulho nela.

Agradecendo outra vez, Relena desdobrou com esmero o pano que envolvia o livro. Mas ele ficou em pé diante dela, como um monumento, hirto e incomodado, esperando a deixa para se ver livre dali. Maldizia sua obrigação com a polidez. E enquanto Relena olhava a Bíblia, seus pensamentos estavam atribulados. Ela pensava no que devia dizer quando erguesse os olhos para ele outra vez. Tinha receio dele, aprendera como ele era impetuoso. Tomou um profundo fôlego de revigoramento e por fim ergueu os olhos cristalinos.

O que ele tinha diante de si? Era a visão de um anjo. A face dela era tão lisa e ele não precisaria tocar para saber que era suave e aqueles olhos claros e luminosos emitiam uma luz pura e nobre, gentil, escondendo o dourado de um prestígio poderoso. E quando ela sorriu para ele, enquanto a fitava sem fala, ele não conseguia nem respirar, era sempre acometido de uma sensação que para ele era desconfortável, e sentia-se sempre ferido e queimado como se olhasse direto para o Sol.

_Me perdoe a mediocridade, milorde, mas o duelo que vi hoje travado pelo senhor foi o mais bonito. –ela disse com muita sinceridade, olhando-o, insegura, com um sorriso meio menina meio mulher.

A humildade dela o impressionava e até comovia. Ele sabia que a princesa era moça como nenhuma outra: havia algo de nobre estampado nela e na beleza de valquíria da face dela e havia força e destreza ao mesmo tempo, embutidos, desusados, em algum lugar da alma justa e sossegada.

Assentiu num agradecimento espartano. Tudo aquilo que a moça emitia o enfraquecia, mas ele demonstrava desassombro completo diante daquela fraqueza. Afinal, ela era só uma garota, como qualquer outra que ele já desprezara, e não haveria de ser diferente o desprezo dele.

_Já me demorei demais. –disse gravemente, mesmo que ele visse naqueles olhos azuis que não havia importância se ficasse.

_Você veio mesmo vestido de cinza… –ela comentou depois, esquecendo de que ele queria sair dali.

_Não foi o que eu disse? –cobrou dela, assumindo outra vez a ferocidade lupina.

Ela assentiu:

_Por algum motivo eu temi que você não agiria conforme sua palavra.

_Sou um cavaleiro. Tenho de fazer cada palavra minha valer. Por isso me arrependo tanto de ter dito a você que viria… –havia amargura e frieza na voz dele, e nada estava escrito em seus olhos de metal.

Ela o olhou franzindo as sobrancelhas, sentindo a estocada gélida dele, e suspirou. Estava a ponto de sentir-se trêmula. O olhar dele era muito forte, a inquiria, condenava, assassinava e despia – ela era toda incapacitada diante daqueles olhos frios. Não adiantaria nada, ele podia se mostrar gentil, mas por dentro continuava só espinho e rocha.

_Por que você é assim? Que espécie de pessoa é você? O que foi que te fizeram para você ter esta rispidez e esta blindagem toda? –ela estava chocada e intimidada, sempre intrigada por causa dele.

Relena foi a primeira pessoa que falou francamente com ele. Foi a primeira vez que ele ouviu alguém dizer exatamente o que ele era, e nada foi mais estranho e irritante do que aquilo.

_Você já sabe exatamente como eu sou! Por que faz estas perguntas? –e então a atacou com suas palavras sempre duras e poderosas, que machucavam no primeiro contato.

_Eu não sei! –ela defendeu-se e olhou para baixo, a voz tensa, mas alta. –Eu ainda insisto em te ver como alguém que você não é e me confundo toda! –disse, frustrada e irritada com ele.

_Não sabe como me canso dessas conversas! Não sabe como eu não suporto o que você fica fazendo comigo… isto aqui não é um teste! Esta é a vida real, princesa, e eu não estou aqui para satisfazer ninguém!

_Arrogante! E por isso é caprichoso e me trata como se eu não fosse humana? –ela disse ultrajada diante do modo desdenhoso dele referir-se a ela.

_É você quem procura. O problema não é meu. Não me importo com você ou com o que você sente.

A jovem princesa ficou desprovida da força para falar qualquer coisa. Arrebatada, sentia-se esmagada. A voz dele era inflexível o tempo todo, jamais gritante, e sempre tão séria e sincera e rompante.

_Você não quer sofrer, quer? Eu acho bom você me esquecer.

E ele girou nos calcanhares e foi de encontro à porta.

_Só faltou você dizer que me odeia! –Relena soluçou num misto de raiva e assolação, e ele voltou os olhos por um instante.

_Eu te odeio. –e sem dó, atirou nela a frase agra, como se isto fosse fazê-la mais feliz.

_Heero! –chamou-o de volta, erguendo-se da banqueta, com algumas verdades para dizer-lhe.

Mas ele não sabia o que era arrependimento. Saiu do quarto dela e desceu direto para o jardim.

E assim que saiu, largando a porta aberta, Relena largou-se outra vez na banqueta. Ela respirava com dificuldade, impressionada com o que vivia. Logo depois, Noin entrou, serena, e sentiu-se subitamente preocupada ao ver como Relena estava acuada.

_O que foi que houve?

_Por que ele me trata tão mal? Eu não entendo… ele… ele… –mas a menina nem sabia o que dizer, com olhos aflitos e ultrajados fitando a porta, sem ver Noin ao seu lado. –Como pode ele ser daquele jeito tão rude?

Noin meneou a cabeça, ouvindo a princesa, e não sabia o que fazer. Tinha um ímpeto de sorrir diante da infantilidade da ocasião, ao mesmo tempo imaginava como Relena se sentia diminuída e ultrajada. Não devia estar sendo fácil para a princesa receber aquele tratamento de um rapaz do qual se esperava tanta nobreza.

_Acho que foi uma má coisa que eu fiz, trazer este moço até aqui… –Noin lamentou seriamente. –Ainda sente-se disposta para descer ao baile?

Relena olhou-a por um momento demorado, com uma expressão concentrada e séria, respirando aceleradamente.

Quanto a Heero, ele continuava o mesmo. Um pouco exaltado, é certo, mas nada incomodado com que escutara ou dissera, e voltou a dirigir-se até a mesa onde estavam os rapazes de seu nível. Foi chegando e sentando, não tinha ânimo para cumprimentos. Ninguém na verdade estranhou o jeito dele, mas sempre há aquele que não deixa passar despercebido.

_Olha quem chegou! –Duo teve de comentar. Ele estava pedindo para que Heero o assassinasse só com o olhar.

_Calado, seu insuportável. –mas desta vez, Heero também esfaqueou com as palavras.

_Ah, está amoroso hoje, hein? –Duo riu-se, tratando tudo com sarcasmo.

_Que prova hoje, hã? Nem você, nem Trowa deram o braço a torcer! –Quatre iniciou um novo assunto, comentando ainda impressionado com a astúcia dos amigos.

Os dois guardaram silêncio sobre o assunto, como se não estivessem envolvidos, talvez desgostosos do resultado, mas Quatre não se incomodou com a apatia:

_Amanhã é que veremos quem vai ter mais sorte! –e foi meio que de propósito que se expressou daquele modo, usando a palavra "sorte", já que sabia previamente que ia levantar assunto.

_Não existe sorte, só perícia e momentos desfavoráveis e favoráveis. –Trowa contrapôs logo, controlado.

_Só existe aquilo que é imprevisível. –Heero adicionou, defendendo sempre seu regimento de que tudo é pertencente a ele e pode ser controlado por ele, sempre com a exceção daquilo que não pode ser previsto – o considerado destino, mas para Heero, tal coisa inexistia. Destino é mistificação, imprevisão é realidade.

Trowa assentiu, achando o pensamento muito aceitável. Sempre havia certa concordância entre o conceito dele com o de Heero. Talvez fosse por isso que empataram – o nível deles era semelhante.

_Cada um faz seu próprio caminho… "Sorte" é coisa de gente fraca. –claro que esta era uma frase de Wu Fei, nos seus galantes trajes orientais de seda brilhante, esnobando como sempre aquilo que julgava ser fraco e covarde.

_Mas você não acredita na "sorte"? –Duo perguntou. Afinal, Wu Fei era chinês, e os orientais tinham muitos costumes envolvendo este tipo de crença.

_Eu não! Sempre achei tolice! É uma visão muito simplista da vida. "Ah, eu ganhei porque eu tive sorte!" Bobagem! Você ganhou porque você prestava!

_Mas e a derrota? A derrota sempre significará que eu não 'prestei'? –Quatre levantou a pauta então, olhando todos, que pararam para pensar. Wu Fei não ia responder o que pensava, mas ele encarava a derrota como sinal de incapacidade, por isso que abominava derrotas, mesmo que já tivesse sofrido as suas.

_É simples: a derrota é uma parte totalmente natural da vida daqueles que competem. É meramente inescapável, não dá para ser perfeito em tudo, não dá para prever tudo. É aí que entra a tal história de momentos desfavoráveis ou favoráveis. –Duo disse despretensiosamente. –Sorte ou azar, na minha opinião, não é coisa de gente fraca, mas sim mesquinha.

_É fácil culpar coisas imateriais e não aceitar as próprias falhas. –Trowa murmurou, parecendo alheio, mas na verdade envolvido no assunto. Além de cavaleiros, todos eram bons sábios.

A vida deles era bem fundamentada numa série de valores e pensamentos que admitia certa interpretação pessoal, mas tinha bem o seu lado dogmático. Tinham de ser muito hábeis, não só na espada, mas também nas faculdades mentais, para aplicarem a consciência e tomar a atitude mais sensata, falar a coisa mais decente e reagir do modo mais correto. Era esperado deles uma vida virtuosa e inculpe, era requerimento para ser cavaleiro uma quase perfeição e uma total obediência ao código das virtudes cavalheirescas.

_Então, amanhã assistiremos aquele que se provará o melhor. Pelo menos, o melhor naquele momento. –Quatre fingiu consertar sua declaração anterior, sorrindo simplesmente, olhando tanto Trowa como Heero.

Mas Heero, soturno, não se pronunciava. Ele tinha as próprias expectativas. Não permitiria uma vitória que não fosse a dele e sabia que Trowa tinha ciência disso. Seria muito acirrado o embate que aconteceria, porque havia uma chama de soberba ardendo tanto e esta poderosa capacitaria o seu receptáculo com grande força.

_Falemos de coisas mais felizes, deixemos este assunto de competições de lado. Não há realmente ninguém que pode ser melhor do que nós, os "Formidáveis". Aquele que amanhã conquistar a vitória será apenas mais bem-aventurado. –Duo disse, tranquilamente, querendo quebrar o gelo. Assumia que não havia mais ninguém melhor do que eles, e mesmo que houvesse ali aquele que se destacasse, não importava: cada um era insuperável a seu próprio modo. Porque, como já tinha expressado, apenas um poderia vencer aquela e justa, e consequentemente, apenas um poderia vencer todo o torneio.

Era um baile, mas eles não dançavam. Alguns casais já executavam as quadrilhas complexas, porém eles prosseguiam sentados, gabando-se e discutindo um pouco como sempre, acompanhados de alguma cerveja, ainda que agissem de um modo retraído e houvesse aquele que não falava nunca.

As trombetas anunciaram a entrada da família real no baile. Foi quase que um déjà-vu da cena do banquete: o Príncipe Zechs entrando todo prosa, num traje azul-marinho, sorrindo para todos, simpático e bom anfitrião, acenando, cumprimentando respeitosamente ao passo que se dirigia para seu lugar privilegiado. Logo após vinha Relena, arrastando suas orlas de tecido vaporoso em um lindo tom de cor-de-rosa, usando um arranjo de rosas-chá entre as mechas de cabelos trançadas presas para trás, sorrindo docemente a todos, gentil e graciosa, mas sempre muito discreta.

O espírito guerreiro presente na princesa não permitiu que combalisse: ela não daria o prazer para Heero ao não comparecer a festa depois do assunto seco que trataram. Ela ia mostrar que não era exatamente como ele achava que era.

Assentou-se no trono, régia e charmosa, e parecia que propositalmente vinha um raio de luar, vencendo a escuridão de todas as nuvens que obstruíam a Lua, incidir nela e conferir-lhe um ar fascinante e misterioso, exaltando sua beleza e formosura.

Heero a olhava à distância, notando quão agraciada parecia ser aquela moça, que até a Lua vinha banhar-lhe especialmente e emprestar encantos. E ele sentia que havia vingança ali, e mesmo que ela não olhasse em direção dele, sabia que ela queria mostrar que não se importava, e quanto mais ele pisasse nela, mais forte ficaria.

Soltou um suspiro pesado, e preocupou-se em mirar o além. Nunca antes este tipo de coisa havia lhe acontecido. Nunca tinha se juntado a um grupo numa mesa para ouvir asneiras, nunca foi desafiado por uma princesa e provocado por ela, nunca fora servido por uma jovem que sem reservas queria dedicar cuidados a ele. Estava tudo fugindo do controle, ele parecia render-se sem mais relutar, sem mover um dedo. Cedia sem nunca saber por quê. Focalizando um pouco mais os olhos a sua volta, via todos os cavaleiros, se alegrando e rindo, como se sempre houvesse um motivo de regozijo, mas, qual era este? Ele via as moças, conversando delicadamente entre elas, ou recebendo um galanteio honroso de algum rapaz, agindo tranquilas, serenas e graciosas, como se houvesse uma esperança, mas, qual era esta?

Que mundo era aquele em que Heero estava imerso? Para ele tudo era tão falso, supérfluo e passageiro. O que ele ia levar dali? Nada, tudo era descartável e inútil. Tudo o que ele desejava era conquistar o máximo possível de glória, mas ele era errante e não tinha objetivo para nenhum deste prestígio. O único sentido da vida dele era justar, e por isso não parava nunca, por mais vitórias que conquistasse e por mais fama e riqueza que recebesse.

Os outros quatro rapazes próximos dele estavam animados nalgum assunto, mas ele prosseguia como um falcão peregrino observando tudo com o máximo de atenção. Sua visão captou algo realmente chamativo mostrando-se na entrada do jardim, aproximando-se com um pouco de pressa, com um pouco de descuido, sorrindo com travessura, num ritmo suave e harmônico, com todas as orlas de tecido dançando a sua volta como ondas que se partem ante um navio em cruzeiro.

Ele não conseguiu reconhecer quem era a moça vestida no traje cor de vinho intenso na primeira fitada. O vestido dela era vaporoso e possuía mangas compridas que pareciam muito incômodas. Os cabelos dela eram cor de fogo, e tinham algumas tranças pendendo aqui e ali num visual um tanto desleixado e natural, e havia narcisos presos entre as tranças, iluminando os cabelos pouco ondulados. E ao mesmo tempo, ele sabia exatamente quem era a dama, mas tendo medo de reconhecer e confuso pelos motivos dela, mantinha-se intrigado.

Com sua entrada atrasada e conturbada, ela foi alvo de muita atenção. Olhavam-na e perguntavam quem era a moça que chegava só agora. Ninguém sabia quem era ela, e os que sabiam não conseguiam reconhecer de imediato. Mas ela não parecia nem encabulada, nem deslocada. Caminhou para dentro do jardim como se fosse da casa, sorrindo efusiva para todos os lados, arrebatando olhares por causa da beleza que exibia, era algo que vinha de dentro, assim como a virtude de um cavaleiro escapa-lhe pelo sorriso.

_Quem é? –Duo perguntou intrigado, interessado, olhando para o lampejo carmesim que passava diante deles, e Heero dando de ombros, não desgrudava os olhos dela.

_Ah, é aquela abusada… –Wu Fei respondeu rabugento, desdenhoso dela. Reconheceu logo, a espetaculosidade espontânea e despretensiosa dela não o enganava.

_Realmente, é ela; incrível, mas não parece ser… –Quatre comentou encantado, acompanhando-a com um olhar.

_A princesa e a plebeia talvez possam ser a mesma pessoa… –Trowa disse brincando, superior a tudo, como se tivesse liberdade para flertar com ela sem comprometer-se.

Heero nada disse, o que ele queria era observar. Akane foi até Relena e curvou-se respeitosamente perante as altezas, cumprimentando sua amiga princesa, e ambas trocavam sorrisos cúmplices e íntimos. Akane cumprimentou Noin depois, que a apresentou para uma série de outras moças nobres, e Akane travava um assunto ali, outro cá, granjeando simpatia, exibindo nobreza e polidez aristocráticas, como se fosse uma lady. Chegou até trocar algumas palavras com Lady Catherine, que pareceu gostar muito dela no imediato, e depois Akane foi misturando-se cada vez mais entre os presentes. Passou um bom tempo integrando-se, conversando pouco, mas com várias pessoas, e até com rapazes ela trocou palavras, sorrisos e flertes, e num espaço de tempo curto, foi aceita e tratada como velha conhecida.

_Jovem senhorita Akane, quer juntar-se a nós? –por fim Quatre foi convidá-la para sentar-se com eles. Ela mesurou e cumprimentou-o. Estava representando naturalmente o papel de dama da corte.

Quatre veio com ela enganchada nele até o canto da mesa que ocupavam, e ela mesurou diante deles com humildade e graça antes de sentar-se numa cadeira de espaldar alto.

_O que a traz para prestigiar o baile, jovem senhorita? –Quatre pediu os motivos dela com sua agradável brandura e com polidez.

_Meu senhor laureado, Sir Arcus, não teve possibilidades de comparecer e de último instante pediu que eu viesse por ele, para prestar os respeitos ao príncipe e prestigiar a hospitalidade do reino. –ela explicou com seu palavreado fluente.

_Como pode ser assim, o homem não vem na festa, mas manda você vir?! –Wu Fei achou aquilo um absurdo.

_Não, este Arcus é muito tímido… –Duo disse, rindo-se.

_Meu senhor é muito reservado e discreto de fato. –ela manteve com firmeza sua lealdade a Arcus, defendendo-o. Só ela conhecia os motivos de seu mestre. –Quem sou eu para contestar os pedidos e decisões dele? Ele me pediu para vir e isto muito me apraz, obviamente! –e riu-se, era tão franca e descontraída que só podia ser chocante. Não tinha a ver com as meninas da nobreza, que geralmente fingiam agradarem-se, mas de fato morriam é de tédio, ou mostravam-se enfastiadas, enquanto na verdade estavam deleitando-se extremamente.

_Mas é um prazer recebê-la aqui. –Quatre comentou galante e ela fez-se agradecida.

E estavam todos em volta dela, dois a sua direita e três a sua esquerda, ela parecia entrosada ali, e ninguém a estranhava em meio aos rapazes, e se por acaso estranhasse, ela não dava a mínima.

_Ai, que inveja! –Relena segredou com um sorriso nervoso para Noin, que riu.

_Inveja do quê exatamente? –ela não via muitos motivos.

_Por que ela tem todos eles tão acessíveis, e eu estou sempre tão remota?

_Vocês duas pertencem a mundos diferentes. Não tenha inveja…

Relena suspirou e assentiu, mas o que Noin lhe dissera não consolava. Ela queria fazer parte daquele outro mundo e também ser aceita pelos cavaleiros como alguém com os mesmos assuntos e preferências deles. Mas será que isto era possível? Com certeza não. Se ela fosse um rapaz, estaria lá com os cavaleiros, porque como príncipe também era versado nas artes bélicas; mas era moça, e as princesas têm também de manter um porte e um exemplo eternos, mas de um modo mais reprimido.

Guardando suas suspeitas e dúvidas, Heero olhava Akane. Havia algo aguçando sua mente, ele estava intrigando-se cada vez mais. E ela o olhava do mesmo modo, como se soubesse o que ele pensava ou como se sentisse do mesmo jeito sobre ele. Aquela era outra sensação muito ruim.

_Como é que conseguiram vocês dois empatarem daquele modo tão perfeito? –ela perguntou maravilhada, olhando tanto Heero quanto Trowa, e havia congratulações no sorriso dela. Ela era tão entusiástica quanto aos duelos, principalmente se envolviam um dos "Formidáveis".

_Vamos parar de falar sobre isto? –Heero entediou-se, estalando os lábios e parecendo muito desagradado.

_Mas o que houve que está azedo, Cachorrinho? É tão desgostoso assim empatar? –ela perguntou, usando de suas liberdades roubadas, e ele olhou-a irritado pela timidez. Não gostava do jeito que ela o tratava como íntimo.

_Não, só estou cansado disto! Todo mundo só fala disto…

_Ele está assim desde que chegou. –Duo explicou, travesso, e Akane abafou a risadinha com as mãos. E deixando as pontas dos dedos sobre os lábios, ficou a devanear um pouco, distante, com olhos maliciosos.

_Há de ter algo mais por trás deste mau humor. –ela disse de modo atrevido e cáustico, mas ele voltou para ela olhos de rixa.

_Não há de ter mais nada se eu assim desejar. –ele disse, odiando o modo intrometido dela.

_Você está precisando de uma focinheira, Cachorrinho antissocial! –ela provocou com maldade e um sorriso de enlevo, e os quatro rapazes que sobravam assistiam a ninharia deles um tanto espantados.

_Mas já vão começar outra vez? Deixe ele quieto… –Duo veio para fazê-los sossegar de um modo bonachão e despreocupado, com um meio-sorriso debochado, e mais parecia incentivar a discussão do que calá-la.

_Venha me fazer deixar… –ela empertigou-se provocante, e bebeu um gole de cerveja, atrevida, com um fito insistente, enquanto esperava que ele respondesse.

_Ah, milady… você está abusando. –e debochado, repetiu uma fala de Wu Fei, coisa que nunca pensou que faria um dia.

Mantendo sua ligação elétrica com Duo, ela bebeu mais um gole de cerveja, nem sabia de quem era a caneca.

_Não vá exagerar. –Heero tomou a caneca dela, numa rudeza protetora, e ela lhe lançou um sorriso sereno e leal, quase agradecido, sorriso que não escapou dos olhos dos outros. Ali estava escrito devoção, admiração, afeição, era um laço estranho que os rapazes viam atado entre Heero e Akane, e era interessante ver aquilo.

E mesmo que ela tivesse sido subestimada, porque ela sabia beber, convivera com homens a maior parte da vida e adquirira alguns dos tratos, não bebeu mais durante toda a festa.

Havia ruído das conversas, da música e das risadas, o baile estava bem animado, as quadrilhas eram muito bem dançadas sem parar, havia boa comida e boa bebida. Tudo parecia agradável. Ao mesmo tempo, a alegria de todos era refinada e saudável, eram todas pessoas de estirpe nobre ali, e precisavam manter a boa fama. Zechs observava tudo no jardim, satisfeito. Por experiência sabia o que deveria oferecer para o agrado dos cavaleiros. Ele ainda se lembrava de quando frequentava festas como aquelas em outros reinos. Pensava em como gostaria de poder continuar viajando pelos circuitos de torneios, mas seu pai estava muito velho, e logo teria de assumir o trono. Suas aventuras da juventude acabaram muito cedo. Assim, sediar um torneio era o único meio de poder viver outra vez as antigas emoções cavalheirescas tão intensas dentro dele, tão recentes.

E via na face marmórea de Relena o olhar comprido dela que se derramava sobre o canto da mesa onde estavam os cinco "Formidáveis" acompanhados daquela mocinha linda que ele não conhecia. E definitivamente uma coisa Zechs não era: tolo. Assim, desconfiava qual o motivo da irmã dirigir aquele olhar absorvente para lá. Noin estava muito ocupada, conversando com algumas moças, e então ele resolveu puxar assunto.

_Quem é a garota ruiva que veio nos cumprimentar, irmã?

Relena o olhou com um ar disperso, e pensou no que ia responder.

_Seu nome é Akane Yora, ela é serva e ferreira de Sir Arcus de Estherallis.

_Ah… E como a conheceu? –ele ficou interessado. Olhou Akane mais uma vez e não se conformou em saber que ela se tratava de uma serva plebeia.

_Por acaso. Ai, Zechs, você não vai gostar… –por fim, Relena disse sorrindo travessa e ele deu-lhe um olhar de reprimenda, debochado.

_Está bem, está bem, já posso imaginar que a senhorita andou dando mais escapadelas do que eu imaginava…

Relena posou-se de santa, quase rindo, e Zechs meneava a cabeça, achando-a impossível.

_Ela é uma boa garota, irmão.

_O problema é que a minha irmã é uma garota má!

_Eu? –ela questionou com um ar cômico de ingenuidade e ele apenas riu dela, assentindo.

Por um instante, mantiveram o silêncio outra vez. O olhar longínquo da princesa parecia triste e continuou repousando sobre os jovens na mesa. Zechs perguntava-se o que ansiava a irmã. A situação dela era diferente. Talvez, ela quisesse mais liberdade, mas ele não estava em condições de dar e não sabia se ela tinha condições de recebê-la. Mas não achava justo que a juventude dela fosse daquele jeito, tão abnegada aos deveres reais e sempre discreta e remota, não podendo aproveitar da despreocupação e da tolice que a melhor fase da vida oferecia.

_Por que não vai dançar? –sugeriu, olhando-a com bondade. Talvez um empurrãozinho bastasse. Mas ela olhou-o com um sorriso etéreo, e não disse nada. E então ele via que tinha algo mais ali. E precisava resolver aquela situação. –Vamos dançar a próxima quadrilha. –informou sem pedir opiniões, e ela assentiu estranhando a atitude do irmão. Talvez, se vissem Relena dançar, os outros cavalheiros tivessem mais abertura para pedir-lhe uma dança.

Enquanto isso, na mesa, Akane parara um pouco de falar para ouvir. Ficou observando os rapazes ali trocando as palavras vaidosas deles, gabavam-se um pouco, porque eram homens, e até aquele que nunca dizia uma palavra, arriscava dizer algo para poder valer sua posição. Ela ria, mas nunca se intrometia ou opinava, e passava despercebida deles, aproveitando a situação para aprender mais sobre as personalidades dos rapazes. Eles eram interessantes, ela sabia que havia muito mais neles do que aquela aparência galante, nobre e bonita, que eles tinham um íntimo complexo, e por que não dizer atribulado, e era em poucos momentos que eles conseguiam agir espontaneamente.

Quatre estava narrando um episódio emocionante no qual Sandrock lhe salvara a vida durante uma batalha, e todos o ouviam pacientemente, às vezes aparecendo com algum comentário.

_Não sei como conseguimos escapar ilesos de tantas situações de risco. Ás vezes é simplesmente aterrador se ver vivo e são após uma batalha. –Quatre murmurou depois, ainda sentindo-se agradecido á lealdade de seu cavalo, que quase se sacrificou por ele, saltando em frente a um atacante, tomando uma flechada no pescoço.

_Pensar no fato de termos restado entre muitos que não sobreviveram é que é o impressionante. –Duo disse com um ar sério e fúnebre, olhando dentro da caneca de cobre rasa de cerveja.

_Quantas vezes você já achou que não ia sobreviver? –Trowa questionou, retórico, e suspirou. –Quantas vezes você perdeu a esperança de lutar e simplesmente imaginava que a próxima flechada seria fatal?

_Por isso que o melhor é jamais ter esperança. Você apenas vai e executa o que for preciso. –Heero disse imperioso com sua voz sempre impassível, as sobrancelhas cerradas sempre tensas, sempre com a face inexpressiva.

_Isto é um problema. –Akane finalmente disse alguma coisa, sem perceber. –Se você não tem esperança, é porque está procurando uma. É impossível existir uma pessoa sem uma motivação qualquer.

Os rapazes a ouviram com atenção assaz e ficaram depois num silêncio completo, como que emudecidos pelas palavras dela. Ela não olhava para eles, os olhos se deitavam para um canto como pedrinhas verdes, e tinha um sorriso pacificado entreabrindo os lábios.

Será que eu tenho uma motivação?, Heero perguntou-se em pensamentos depois de ouvi-la. Mas se ele tinha, qual era? Qual era? Qual era o motivo, a força para continuar a viver, qual era? Mas por mais que se perguntasse, não sabia responder. Porém, não precisou ficar intrigado por muito mais tempo, porque Akane lhe respondeu:

_A motivação de alguns é vencer, a de outros é conseguir a fama, e ainda existem aqueles que o importante é competir. E eu não estou falando só dos duelos, na vida também é assim. –e finalmente olhou-os sem muito que expressar na face.

Eles ouviam e ficavam incomodados com o que viam nas palavras da mocinha. Como podia ela entender a filosofia de um cavaleiro daquele modo? Era como se vivesse aquilo também, mas ela era apenas uma garota, uma simples ferreira. Será que a convivência a fizera tão entendida no modo de vida deles?

_Olhem, a princesa vai dançar… –comentou depois, saindo do assunto.

Heero olhou para Relena dançando com o irmão, com aquele sorriso calmante nos lábios, aquele ar de anjo celeste, e olhou Akane após. Será que ele tinha ouvido alguma indireta no comentário dela?

Akane estava parecendo diferente, mas não ficou daquele modo por muito tempo. Assim como um relâmpago risca o céu tempestuoso, é a rutilância da paz e do sossego em Akane. Logo, um súbito sorriso iluminou-lhe a face, e ela reassumiu aquele caráter que assustava:

_E então, o que me dizem: de baixo da cama de quem as suas botas têm ficado?

_Como é que você pergunta isso?! Menina abusada você! –Wu Fei ficou escandalizado. Akane riu faceira.

_Arre! Se você se irritou é porque entendeu a pergunta e está escondendo algo! –ela o provocou especificamente então, rindo dele, mas não de um modo malvado. Ele não gostou, mas desta vez não ficou bravo, e só desdenhou.

_Já faz dois anos que as minhas botas estão no mesmo lugar… não há nada que me condene quanto a isso… –Trowa respondeu com um riso arrogante, e embora não falasse nenhum nome, olhou de relance Catherine, no seu delicado vestido lilás, conversando com outra lady, e isto explicou tudo.

_Ah, você é o único que tem uma resposta decente para minha pergunta… –Akane comentou suavemente, escondendo sua traquinagem.

_Se isto é lá pergunta que mereça resposta decente… –Heero disse rude, mas debochado, e Akane o olhou desagradada. Mas tudo que ele fez foi dar-lhe um sorriso mau.

_O problema é que eu não tenho botas o suficiente… –Duo respondeu, malandro, e horrorizou alguns na mesa. Akane deu uma risada de espanto, e meneou a cabeça, repugnada.

_É tarefa difícil esta, menina, escolher, não onde ficará minhas botas, mas sim o meu coração. –Quatre disse, sorrindo bondosamente, e ela assentiu.

_Eu sei, eu também não achei um bom lugar, nem para deixar minhas botas, nem para deixar meu coração. –ela disse depois, se colocando no mesmo nível deles. Mas ela não era; para eles, ela não era, e isto os chocava, espantava e intrigava, por causa da irreverência dela nas perguntas comprometedoras e nos comentários profundos e abalizados sobre o modo de vida cavalheiresco.

_O amor é complicado demais para o meu gosto… –Wu Fei murmurou um pouco menos acalorado –Cansei de tentar entender, é tolice! Casamento arranjado é a solução: é bem impessoal…

Heero queria manter-se fora do assunto, mas observava bem disfarçadamente, de vez em quando, Relena graciosamente dançando as quadrilhas, mudando de pares conforme a coreografia e a música.

_Quando é que você vai assumir que é uma pessoa normal, Wu Fei? –Trowa questionou entediado, e levantou-se. Cansara de ficar ali parado, ia esticar as pernas e dançar com sua senhora.

_Hey, Heero, vamos dançar também! A quadrilha já está no fim… –Akane incentivou, mas ele olhou-a sem ânimo. Ela puxou-lhe os braços enquanto se levantava. –Vamos, venha dançar também! Aposto que você dança tão bem quanto justa…

_Ah, Akane, me deixe em paz.

_Olha, se você não vai dançar com ela, eu vou… –Duo comentou com um ar de urgência, e Akane lhe sorriu.

_Vá à cata de outro par, Duo! Eu só danço se o Heero dançar! –Akane comentou espevitada, frustrando Duo, e ele dando de ombros, seguiu o conselho dela.

_Então senta. –Heero rosnou, grosseiro. Ela o olhou chateada.

_Do que você está com medo?

Heero estava sentindo nos ossos que Akane estava sabendo demais, ou pelo menos desconfiando demais. Enfim, se ergueu da cadeira, arrumou um pouco a veste e Akane sorriu animada.

_Ah, mas tudo isso por que vai dançar comigo?

_É sim, seu arrogante… Tudo isso porque vou dançar com você. –ela disse com um tom de voz bonito e alegre, sem travessura, olhando-o com ternura. Ele bufou e meneou a cabeça, buscando paciência para lidar com a menina.

As quadrilhas eram danças nobres, sofisticadas e harmônicas, bonitas de se assistir. As coreografias eram feitas com vagareza e naturalidade, e tudo dependia da boa organização e habilidade dos dançarinos. Heero começou dançando com Akane, mas tinha a ciência de que passaria por todas as outras moças até voltar ao seu par original. Relena ainda dançava, e ele tinha agora a perspectiva de encontrá-la outra vez de perto naquela noite.

_Como será que é ser uma princesa? –ele ouviu Akane dizer, ao passo que eles giravam de mãos juntas. Ele deu de ombros. Isto pouco o interessava, obviamente, e julgou a menina patética. Akane suspirou, e olhava Relena dançando com Sir Victorious, que era um cavaleiro de Sanc. –Você andou maltratando a Relena? –e de repente saiu com esta. As sobrancelhas arquearam-se bravas, repreendendo e cobrando-o e Heero não conseguiu segurar a indignação:

_O quê?

_Não se faça de desentendido, Sir Heero.

_E você não seja intrometida, menina Akane. O que é que você tem a ver com isso?

_Oras, não é certo você maltratá-la…

_E como você chegou a esta conclusão, Lady Dona-da-verdade? –ele perguntou com um sarcasmo cruel, mas um tanto burlesco, e um sorriso arisco abriu-se no rosto de Akane, depois que ela mesurou, e eles começaram a girar em direção contrária.

_Eu consigo ver no jeito que você olha para ela… Quanto tempo mais você vai negar que tem alguma coisa especial acontecendo?

_Você se acha tão esperta. –ele disse com um ar enfadado, e erguendo-a brevemente, estavam para trocar de par.

_E você, não se acha também? –e ela deixou esta frase atormentadora antes de passar para outro cavalheiro.

Ele a olhou com ultrajo refletido nos olhos azuis, e mesurou mecânico, quase nem vendo que dama vinha dançar com ele agora. E ao passo que executava a coreografia repetitiva com a moça, pensava no que Akane quis dizer com aquela frase capciosa.

Quanta tolice mais teria de ouvir e suportar daquelas garotas? Akane sugerir que havia algo "especial" entre ele e Relena era o pingo que faltava. Como podia atrever-se a dizer que ele estava, ao menos, gostando da princesa? Era absurdo! Ele não aceitava a insolência de Akane, e eles trocavam olhares distantes, os dela eram sagazes e os dele aborrecidos, e travavam um estranho jogo do siso.

Heero dançou com mais duas garotas, e dali a pouco ia ter de dançar com Relena. Nem olhava mais para os lados, impessoalmente ia dançando com as moças, que não se atreviam a puxar conversa com aquele rapaz sisudo e assustador. Mas como ele dançava bem! Não errava um único passo, e tinha uma rapidez leve de movimentos que era perfeita.

E enquanto isso, Relena sentia o coração acelerar-se. Teria de dançar com Heero, e não sabia o que ia acontecer. Não estava ansiosa, só perdida – será que ele ia maltratá-la mais? – e ela olhava o lado com uma curiosidade felina de quem está incomodado. Mas ele não estava prestando nenhuma atenção nela. Ela o olhava arisca e assustada, mas não se fazia comprometer. Ninguém podia entender bem o que é que espreitava.

Quando chegou a hora da troca de pares, Heero e Relena relutaram. Pararam, um na frente do outro, olhando-se fixamente, como se houvesse uma placa de vidro separando-os eternamente. E pareceu que ficaram horas daquele modo, mesmo que tivesse sido menos de um minuto, os olhos dos dois se chocavam, como se um estranhasse o outro, como se nunca tivessem se visto.

Com um leve inclinar de cabeça, Relena suspirou. Estava diante de uma de suas obrigações principescas – suportar cordialmente homens intragáveis. Vamos terminar logo com isso, pensou ela.

Heero sentia-se do mesmo jeito ao observá-la em sua frente. Ele também se deparara com mais uma obrigação de sua carreira cavalheiresca – ou seja, parte de sua missão – e ele a cumpriria com a perfeição que era exigida.

Relena mesurou diante dele, e ele curvou-se em resposta, mecânico, e a quadrilha recomeçou. Enquanto dançavam de mãos juntas, Relena olhava com firmeza dentro dos olhos intensos de Heero, e via algo mais neles, algo suave e não frio de crueldade. Sabe-se lá o que era, mas ela sentia, era triste e enternecedor. E aquilo compensou toda a raiva e decepção que passou por causa dele, e não conseguia continuar irritada ou amedrontada, e com olhos corajosos queria entrar fundo na alma dele, fitando-o com força. E ele não fugia do olhar dela. Ele também a encarava, como se a instigasse a algo, sem jamais desviar os olhos, em completo silêncio, como se o mundo fosse mudo. Aos olhos de todos, formavam um casal que combinava perfeitamente, incluindo os tons dos trajes: o rosa suave e leve do vestido de Relena aliviava a seriedade e o peso do cinza intenso da veste de Heero, as cores ficavam bem próximas. As cores eram epítomes adequados das personalidades de cada um. E o modo que um plantava o olho no outro demonstrava uma grande força de caráter da parte dos dois, algo que não se podia destruir ou superar.

Tudo não passou de cinco minutos de comunicação visual. Aos poucos, parecia que a firmeza dos olhos deles ia cedendo à brandura ou a uma languidez profunda, e aliviava as feições dos dois, que já não pareciam inimigos. Ele a ergueu, e depois a assistiu mesurar com toda a beleza majestática dela, e Relena foi para seu próximo par. Parecia que tinham dançado por uma eternidade. E quando ela saiu de perto dele, dando a mão para o seu próximo par, curvando-se, Heero se sentiu estranhamente abandonado, e ficou olhando para ela ali ao lado, enquanto a sua próxima acompanhante o esperava, confusa, para poder continuar a dançar.

E enquanto Heero recebia uma senhorita desconhecida para dançar, Akane ia dançar com um senhorzinho conhecido.

Ela estendeu a mão para o próximo que a ia conduzir, com toda a classe de uma lady, mas com toda a desatenção de uma camponesa. Sentiu sua mão ser apertada forte e calorosamente, e quando voltou os olhos para seu par, antes de mesurar em cumprimento, sorriu surpreendida e luxenta diante de Duo.

_Acho que não vai dar para escapar… –comentou, enquanto mesurava, provocando-o. Ouviu que ele riu de um modo charmoso, e ela o inquiria com olhos aveludados e vivos.

_É, acho que não… –ele comentou depois, de um modo malicioso, olhando-a com gatimanha, sorrindo malvado. –Você sabia que está muito bonita?

_Sabia! –respondeu audaz, com os olhos verdes destacados por contornos de antimônio e aguçados por uma exuberante arrogância.

Ele olhou-a debochado, meneando a cabeça e sorrindo do descabimento, enquanto giravam com as mãos juntas. E ele buscava entrelaçar os dedos com ela, olhando-a firmemente, flertando com ela, mas ela não era inocente. Olhou-o de um modo picante, mas extremamente repreensor, com um sorriso entreaberto que o atentava. E enquanto eles giravam no ritmo lento, Duo sentia-se envolvido por uma atmosfera estranha e se perdia dentro dos olhos verdes dela, amortecido. Ele estava preso numa sensação hipnótica de rendição, e, apesar de ser ele quem a cortejava, de algum modo, ela o sobrepujava, deixando-o completamente tonto, como se cheirasse a incenso embriagador, e sua sedução era mais forte que a dele, e o controlava.

_Mocinha, mocinha… –ele comentou com divertido aspecto de advertência, e ela revirou os olhos fingindo-se ingênua. E Duo sabia que por mais difícil que ela aparentasse, ela gostava que ele empenhava-se por ela, e o provocava de volta em incentivo. O que Akane mais amava era correr um risco.

Há algum tempo Duo notava que estava caído por Akane, mas não soube por qual motivo. Foi muito fulminante, como se tivesse realmente sido acertado pela flecha do cupido. Não se lembrava de tê-la visto em duelos anteriores, apesar do mestre dela ser muito afamado, e não a conhecia em nada, mas parecia saber exatamente o quão afável e divertida ela era mesmo antes de ouvi-la pronunciar a primeira palavra. Havia algo de muito misterioso naquela moça, e era isto que o agradava mais, e sentia-se diferente ao lado dela, de um modo que nunca sentira antes, e não sabia direito definir o quê era aquela sensação; e mesmo assim, não a escondia, e brincava com Akane um jogo de flertes maroto e sem compromisso.

E depois de erguê-la na sequência final da coreografia, sentindo aquele perfume que era a assinatura dela, e trocarem mesuras, deu jeito de roçar de leve os lábios no rosto dela, sem preocupar-se com quem poderia vê-los ou com a reação que ela poderia ter.

Os olhos de esmeralda dela, com algo maligno e atraente neles, crivaram-no por um segundo muito demorado e Duo não conseguiu saber se ela o aprovava ou desaprovava, e a assistiu estender a mão de modo convicto para seu próximo par. Um pouco estonteado, ficou estacado no lugar, olhando-a, e depois se lembrou de continuar a dançar, apanhando a mão da próxima moça. Mas após aquela quadrilha, nada lhe pareceria ser a mesma coisa.

Quando a quadrilha finalizou-se, todos aplaudiram, os senhores e as damas trocaram as últimas mesuras, e outra quadrilha diferente estava pronta para se iniciar. Mas Heero se retirou dela, e assim, Akane o acompanhou. E ela resolveu ir conversar com algumas moças, mas ele resolveu caminhar um pouco pelas áreas mais sossegadas do jardim. Estava sentindo-se descontente por tudo que lhe acontecia. Como os arredores da fonte estavam ocupados por casais que conversavam amistosa e respeitosamente, Heero foi refugiar-se no outro extremo. Ficou caminhando paralelo a uma colunata, dividindo o jardim de um corredor pavimentado que não estava com as arandelas acesas, e ligava o jardim à outra parte do castelo. Quando se afastou o suficiente, encostou-se a uma das colunas e ficou observando o prosseguimento do baile.

Estava muito bem camuflado naquele canto remoto, ninguém ia lembrar-se dele. Às vezes fitava o céu nublado, às vezes olhava a movimentação na festa, sentindo-se alheio e deslocado. Nada o convenceria que pertencia àquele mundo. Mesmo que fosse nobre, mesmo que fosse de família rica e tradicional, não se sentia habituado àquelas ocasiões festivas, não fazia parte daquele mundo, tampouco faria um dia. Era assim que ele queria, era daquele modo que aprendeu que a vida tinha de ser.

_Sir Heero. –ele escutou. Achou que era sua imaginação que lhe pregava uma peça, reproduzindo aquela voz colombina e ao mesmo tempo atormentadora, mas ouvira de verdade. A noite ainda não tinha entregado tudo que reservara para ele.

Olhou o lado e viu a princesa caminhando lentamente e torcendo as mãos, com uma expressão fascinante na face toda, algo muito sereno pintado nela, que apaziguava até os conflitos inquietantes dele. Como se ela fosse um ser fantástico, era translúcida envolta daquele vestido rosa como se feito de pétalas de flor, que parecia ir se desfazendo ao passo que ela caminhava, como se desaparecesse no ar, absorvida pela penumbra da meia luz presente ali. Luxento, Heero esnobou-a, virando o rosto para outra direção, mas ela sorriu meigamente diante do jeito dele.

Sabia que ali poucos notariam os dois. E ainda com aquele lindo sorriso único e meigo na face, chegou-se o mais próxima que já estivera dele, parando bem ao seu lado, e conseguia ouvi-lo respirar pesadamente.

_E agora, o que quer? –Heero indagou com desprezo.

_Eu vim aqui pedir perdão.

_Perdão pelo quê? –ele achou-a tola e finalmente olhou-a.

_Eu fui muito rude com você, milorde, me desculpe.

_Você? Rude?

_É sim. Você tem os seus motivos para me tratar deste jeito, mas quanto a mim, não tenho nenhuma justificativa para ser rude com você.

_E o que você quer com isso?

Ela quase riu, mas algo a impediu, tinha nos olhos dele uma suspeita abundante. E enquanto os olhos dele pareciam brilhar na meia-luz, os olhos dela estavam enevoados.

_Eu não tenho nenhuma segunda intenção. –explicou singela.

E ele ficou fitando-a de perto, demorado e desdenhosamente, cheio de desconfiança. Não entendia muito bem aquela garota, mas já não conseguia mais repeli-la. A presença dela era poderosa e firme, não havia como se sentir alheio dela.

Noin olhava a pista de dança e não via Relena em nenhuma parte.

_Vossa Alteza, sabe onde está a sua irmã? –perguntou para Zechs, educada e suspeitosa, e ele abriu um sorriso jocoso.

_Pensei que este fosse o seu trabalho!

_Deveras engraçado. –e tinha a liberdade para tratá-lo daquela forma. Ele riu, com aquela arrogância inocente dele:

_Realmente. –e cessando o riso –Ah, Noin! Deixe ela… Relena deve estar se divertindo. É preciso deixá-la mais livre, para que ela possa viver a vida dela. Ela não teve esta oportunidade ainda, deixe-a solta…

Noin o olhou por certo tempo, meditativa nas palavras do príncipe. Talvez tivesse realmente razão, talvez Relena estivesse presa demais, talvez ela precisasse perder a proteção e se expor às responsabilidades dos próprios atos e escolhas.

_Está bem, Alteza, eu concordo. –ela disse depois, mesurando.

_Além do mais, confio nela, acredito na responsabilidade dela. –Zechs disse depois, despreocupado, demonstrando calorosa afeição pela irmã.

_Sim, eu também, mas o que for necessário podar, podaremos. –Noin disse, ainda resolvida a exercer certo controle na vida da jovem. Ela confiava desconfiando, não ia abandonar Relena de vez, além do mais, Noin tinha carinho demais para fazer isto com ela. Tornaram-se amigas, e uma cuidava da outra.

_Deixe de ser má, dona ama! –Zechs implicou, achando-a cruel, e ambos riram cúmplices.

E depois, Noin voltou os olhos para a pista de dança sem nenhum propósito, ainda parada em frente à Zechs, que ficou mirando-a num momento de devoção.

_Senhorita Noin? –ele a chamou, delicado, sem querer tirá-la da aparente paz que se mergulhara. Ela o olhou com diligência, esperando o que ele tinha para dizer. –Vá você também viver um pouco a sua vida, milady. Relena já não precisa de babá. –ele sugeriu bondoso, olhando Noin com singeleza, e ela quase corou. Como não soube o que responder, mesurou novamente, expressando acatamento e foi ter com outras moças qualquer conversa, resolvida a distrair-se.

Mas Relena ainda prosseguia estacada perto de Heero, sem pronunciar som, apenas observando aquele rapaz misterioso e cruel. Ele causava um assombro, um fascínio estranho, Relena quase não podia respirar enquanto ficava profundamente intrigada por ele, que cercado numa nuvem de mistério, parecia remoto, triste e intraduzível.

_Você é muito perfeita, Relena. –ele por fim murmurou, de um modo que não insultava, muito menos elogiava.

_Como? –não o entendeu.

_Eu ainda não acredito que você seja real… –Heero não acreditava que realmente existissem pessoas como Relena.

_Não, não se iluda. Eu estou realmente aqui, agora você precisa ver se você também está.

_Certo. –ele disse rude ao ouvir a frase dela.

Será que ela estava certa? Talvez fosse ele que não era real, que não estava ali e que não existia. Tudo parecia diferente do que conhecia então, estava começando a enxergar muitas coisas por outra perspectiva e um mundo novo estava revelando-se perante ele, mas não estava completamente agradado com a nova situação, esta que ele não sabia dizer quando começara. Um dia acordaria e tudo não passaria de um sonho, um momento desperdiçado que ele passou, ou pelo menos era isto que queria que acontecesse.

_Os seus olhos são a síntese de sua força interior. Nunca vi olhar tão decidido e digno como o teu. São olhos frios, mas tão cativantes… –ela comentou depois como se flertasse, mas a voz era séria e refletida. Mas, se ela estivesse realmente flertando, era de um jeito ameno e puro, sem perceber o quanto se revelava. Ele ficou sem graça depois disto, e quase enrubesceu, e ela prosseguiu olhando-o com ternura, magnânima.

_Eu não sei devolver elogios. –alegou rispidamente, e Relena, imersa numa inesperada onda de ternura, se permitiu aproximar, colocando as mãos no peito dele. Era atraída por ele, sem escapatória, fascinada pelo jeito rude e incompreensível dele e pela aparência hostil e admirável.

E com força, ele agarrou-a subitamente, assustando-a, e entrando no corredor escuro, segurava os braços dela. A respiração de Relena estava acelerada, tudo estava sombrio e ela mal podia vê-lo em sua frente, o coração batia forte e não entendia o que ele queria com aquilo.

_Por que me faz sofrer? –indagou, confundida e triste de repente. Ele a ouviu e não se sentiu desconfortável ou irritado com a pergunta, e logo respondeu com seus modos sempre arrogantes:

_Porque você gosta.

_Não, não gosto. –achou a resposta dele estranha, e corrigiu-o.

_Então, por que vem até mim, se só o que eu sei é impingir sofrimento? –e desta vez foi ele que não a entendeu e achou a resposta estranha. Mas havia uma instigação na pergunta dele que contradizia tudo o que comunicava.

Ela sabia que olhava fixo nos olhos elevados dele. A voz rouca que escutava vir dele era áspera em seus ouvidos, mas não a insultava. Ela gostava da força das mãos dele em seus braços, e o sentia respirar rapidamente, assim como ela, e havia uma tensão envolvente no ar.

_Então diga para mim que não me quer por perto, que me repudia; diga outra vez que me odeia. –ela desafiou com um ar irreverente e provocante, sem hesitar, e sua voz era sempre bonita.

_Relena… –ele começou uma frase que não sabia terminar. E ainda a mantinha presa, olhando o rosto branco dela.

E enquanto ela esperava, compreendeu repentinamente que ele não era capaz de nada daquilo e muito menos de dizer-lhe aquelas coisas, e uma onda de consolo se jogou sobre ela, aumentando a onda de ternura na qual já estava imersa, e sorriu.

_Me esqueça, princesa. –por fim, ele murmurou feroz, sem compreender o que tinha dado nele e o porquê não podia ser mau e ríspido com ela outra vez.

_Não. É a primeira vez que eu decido lutar por alguma coisa, e não vou desistir enquanto não conseguir. Se é que existe destino, você é o meu. –ela foi fortemente convicta em suas palavras. Sua voz não vacilou ou perdeu a ternura, mesmo que se mostrasse firme e resoluta. E ela mesma estranhou sua atitude, mas sorriu com o sabor da vitória, sem arrepender-se de sua coragem e ousadia. Tinha de dizer para ele o que desejava e precisava fazê-lo ver que era tão determinada quanto ele.

Heero conseguia ver um pouco da face dela, já com os olhos fortes e claros acostumados à penumbra, e ofegava, admirado. Nunca imaginou ouvir aquela intimação da princesa dócil e meiga. Mas não se deixou abalar, e suas mãos geladas ousaram tocar aquela face, por um instante em que os olhares se encontraram sem resistência e se absorveram.

Mas tão repentinamente quanto sua primeira ação, ele a largou bruscamente, afastando-se. Olhou-a por um segundo mais, incerto e impressionado, e saiu do corredor de volta a luz do jardim, como um assustador lobo feroz e voraz.

Relena não conseguiu forças imediatas para sair do corredor, e encostou-se a parede fria, ofegando de assombro no escuro. Soube então que estivera próxima de alcançar o coração rochoso dele. Afinal, Heero não era assim tão impossível, e por um pequeno intervalo de tempo conseguiu prevalecer sobre ele. Portanto, sorria jovial e deleitada, como se tivesse tido um vislumbre da boa recompensa por todo um árduo esforço.

Mas para Heero, nunca uma noite tinha sido tão tortuosa e ele jamais a esqueceria.


Quem quiser se inspirar um pouco visite endlessduel. tumblr. com

Lá tem a lista de capítulos concluídos da fic!

Como esse capítulo é meio longo, essa semana, será o único. Semana que vem eu trago outra postagem dupla.

Espero que estejam gostando!

Beijos e abraços!

21.07.2016