Há coisas que a medicina não consegue explicar, e o paciente Jared Padalecki era a prova viva disso. Depois de 3 semanas em coma, uma semana de febre altíssima sem nenhuma infecção, e total falta de perspectiva de quando ele iria acordar, ele acordou, totalmente saudável fisicamente. Mas o Dr. Collins estava preocupado com o psicológico de seu paciente, que desde que acordou não emitiu uma só palavra, e só chorava sem parar.

-Jared, você está sentindo alguma dor? – perguntou Misha

Jared apenas negou com a cabeça.

-Seus sinais vitais estão normais, mas já faz 24 horas que você acordou e estamos preocupados, pois você não falou nada até agora.

-Não sinto dor física, se é isso que quer saber... – respondeu Jared, tão baixo que Misha teve que se esforçar para ouvir.

Neste momento Zach entrou novamente no quarto. Ele estava triste e confuso, achava que quando Jared acordasse seria um momento de alegria, não de tristeza. Até agora eles não tinham conversado nada, e ver a tristeza no rosto de seu melhor amigo o deixava chateado.

-Dr. posso conversar com Jay em particular? – perguntou Zach.

-Sim, já fizemos todos os exames e provavelmente amanhã ele terá alta. – respondeu Misha e saiu do quarto.

Um silêncio desconfortável se fez no quarto. Jared olhava para o nada e Zach respirava fundo e pensava em como iria começar aquela conversa.

-Você está bravo comigo Jay? – perguntou Zach, com lágrimas nos olhos.

-O que? Não Zach...não... – respondeu Jared olhando pela primeira vez para o amigo nos olhos. Ele notou que ele estava com olheiras e com os olhos vermelhos provavelmente de tanto chorar.

-Tem certeza? Porque desde que você acordou não fala comigo, e... e parece que está chateado por ter acordado, então eu pensei que talvez o problema seja eu, porque eu estava aqui quando você acordou e de repente eu falei alguma coisa que te magoou e...

-Zach! Oh meu Deus! Me desculpe! Eu sou um idiota... não estou bravo com você, prometo! É que... eu estou confuso... eu o perdi...

-Perdeu quem? Qual a última coisa que você se lembra?

Jared não sabia como responder àquela pergunta. Como ele iria dizer a Zach que a última coisa que se lembrava era de Jensen no chão, gritando, e da dor forte que sentiu no peito ao levar um tiro?

-Eu...não sei... me conte o que aconteceu? – disse Jared, inseguro.

-Você estava saindo da escola e foi atropelado. Ficou em coma por 3 semanas, teve febre, eu confesso que estava sem esperanças, então você acordou gritando daquele jeito, assustado... você estava sonhando?

-Eu...não sei... sim...acho que... não. – Jared começou a chorar.

-Jay, você sabe que pode me dizer tudo, certo? Me diga, o que está acontecendo?

-Não pode ter sido apenas um sonho Zach...foi tão real!

Jared começou a chorar convulsivamente. Zach o abraçou e deixou que o amigo chorasse. Ele estava preocupado, e iria fazer o que fosse preciso para ver o amigo sorrir novamente.

1945

Jensen estava em seu quarto, deitado em sua cama e com febre alta. Dor era a única coisa que ele sentia, era uma dor física e também na alma. Será que Deus o estava castigando? Porque isso estava acontecendo com ele? Ele não merecia ser feliz? Jensen não ouvia ninguém, já fazia um dia desde que Jared sumira. Ao acordarem no galpão, Jensen e Chris se depararam com a Polícia e alguns paramédicos os atendendo. Alec fora levado preso em flagrante, já que arma estava em sua mão. Jensen e Chris foram levados ao hospital para serem examinados, pois ao que parece ficaram sem sentidos por muito tempo. Alice foi levada junto com eles. Mama, juntamente com alguns amigos, foi até o hospital pra vê-los. Ao perguntarem por Jared, a Polícia disse que não havia mais ninguém no galpão ao chegarem, mas foi encontrado sangue no chão, e uma bala, do mesmo calibre da arma de Alec.

Nunca foi encontrado nenhum corpo. Do mesmo jeito surreal que Jared apareceu na vida deles, ele foi embora.

Chris entrou no quarto de Jensen e sentou-se na beira da cama em que ele jazia. Mama já havia feito tudo o que sabia pra abaixar a febre, eles chamaram um médico, que não havia encontrado nenhuma infecção que pudesse estar causando a febre, mas mesmo assim receitou remédios para ele. Mas nada disso iria adiantar. A doença de Jensen estava na alma.

-Ei Jens... eu falei com os policiais, e... e eles vão tentar descobrir mais coisas sobre o sumiço do Jared, provavelmente ele sumiu enquanto nós estamos desmaiados e...

-Não Chris...ele me abandonou...ele não vai voltar...eu sei, eu sinto... – disse Jensen, tristemente.

-Ele não te abandonou Jens... ele te ama! Ele deve estar perdido em algum lugar... – Chris respondeu, nervoso.

-Eu vi Chris...ele levou um tiro! Ele se foi e não vai mais voltar... eu estou novamente sozinho...novamente vazio... sem meu Sunshine... – disse Jensen, fechando os olhos.

-Jens... não fala assim – Chris estava chorando – eu...eu prometo pra você que vou trazer o Jared pra você de novo! Nem que isso seja a última coisa que eu faça!

Jensen não respondeu nada. Manteve os olhos fechados e rezou para aquela dor acabar logo. Ele sentia, ele sabia, que sua alma gêmea não voltaria. Quando a vida começou a fazer sentindo, quando ele começou a se sentir vivo e completo novamente, o destino lhe tirou tudo.

2012

Jensen estava em sua casa esperando a visita de Misha, que não pôde ir no dia anterior, pois um paciente havia acordado do coma. Jensen estava ansioso, tenso e com medo. Um pouco por conta da história de Chris, ele estava com medo de não conseguir adotar o garoto. Nunca havia passado pela cabeça dele ter um filho, a verdade era que ele não tinha muita perspectiva de nada. A vida dele era sempre tão vazia, tão sem esperanças que ter alguém era algo que nunca havia passado por sua cabeça. E ele sabia que seria difícil adotar uma criança sendo solteiro, apesar de ele conhecer outros casos similares. Mas não era só isso. Tinha algo a mais acontecendo, mas ele não conseguia saber o que.

Misha chegou à casa de Jensen juntamente com Sacha Collins, seu irmão advogado. Jensen ficou surpreso, mas grato, ele não tinha ideia do que teria que fazer, e um advogado ajudaria muito.

-Olá Jen! Desculpe trazer Sacha sem avisar, mas é que foi uma loucura lá no hospital e me esqueci de te avisar. – disse Misha, sorrindo.

-Sem problemas Mish... agradeço a sua preocupação e eficiência. – respondeu Jensen, também sorrindo.

Sacha fez todas as perguntas de praxe para Jensen, que iam desde se ele tinha relacionamentos, até a renda e bens. Jensen se sentiu incomodado com tantos questionamentos, apesar de saber que isso era necessário. Ele não gostava de se expor, de ficar em evidência. Depois de todas as perguntas resolvidas, Sacha disse que entraria com o pedido de guarda provisória e ele estava confiante, pois tinha amigos trabalhando no serviço social, sem contar que garotos da idade de Chris dificilmente eram adotados, o que era uma vantagem neste caso. Jensen tinha um emprego fixo, referências, e dinheiro, tudo isso ajudaria a apressar o processo. A única parte que deixou Jensen tenso foi saber que ele faria uma avaliação psicológica para saber se estava apto para adotar uma criança, ele odiava terapeutas, mas sabia que era preciso e iria fazer de tudo para dar certo. Ele mal conhecia Chris, mas já sentia amor por ele. O destino os fez se encontrar novamente porque Chris tinha uma promessa a cumprir.

Sacha foi embora, mas Misha ficou para conversar um pouco mais com seu amigo. Ele ainda estava preocupado, apesar de Jensen ter melhorado consideravelmente desde que saíra do hospital.

-Ei Jen, como você está? De verdade.

-Eu estou melhor... aquele aperto no meu peito passou...acho que eu só estava assustado com tudo o que aconteceu. – disse Jensen, dando um fraco sorriso.

-Você sabe que pode conversar comigo sobre qualquer coisa, não é? Eu estou aqui para lhe ajudar no que for preciso.

-Eu sei Mish... e obrigada por tudo. Me desculpe se te assustei, não foi minha intenção...

-Qual é cara, pare de se desculpar! Tudo certo! Vamos mudar de assunto... você não vai acreditar, tinha este paciente em coma lá no hospital, jovem, atropelamento, e o cara acordou do nada.

-Ouvi falar...quando liguei lá no hospital para saber sobre as férias que eles vão me dar, acho que na verdade eles estão com medo de serem processados devido o ataque que sofri... – Jensen sorriu- e bem, foi Julie quem me atendeu, ainda não entendi o que ela estava fazendo no escritório atendendo telefone, mas bem, ela me disse.

Misha deu uma gargalhada, Julie era a enfermeira fofoqueira que tudo sabia e que dava em cima de todos os médicos do hospital.

-Ela sabe de tudo mesmo... e me disse que até o paciente em coma tinha uma queda por você. – disse Misha rindo alto.

Jensen corou, mas sorriu também. Misha tinha o dom de fazê-lo sorrir.

- Bem, falando nele, me conte mais, você me parece intrigado com o caso. – disse Jensen, tentando mudar de assunto.

-Oh sim, foi um caso estranho, deixe-me lhe contar...

Misha contou todo o caso para Jensen, usando todos os termos médicos que ambos conheciam. Jensen ouvia atentamente, curioso e fascinado. Ele já havia visto casos estranhos em sua carreira de médico, mas sempre acontecia algo que lhe surpreendia. Mas então Misha disse:

-Realmente, o caso deste garoto, Jared Padalecki, nunca será esquecido por nós...

Jensen sentiu o ar faltar em seus pulmões. Seu coração acelerou, sua visão ficou turva, e ele perdeu os sentidos.

Alec havia tentando encontrar Chris no hospital, mas mudou de ideia ao ver a assistente social levando o garoto embora. Maldito garoto ele pensou. Ele não tinha pressa, uma hora ou outra Jensen seria seu, ele não iria desistir dele, mas iria traçar um plano mais eficaz desta vez.