Capítulo 14 – Explosão
Era um sábado ensolarado, e todos estavam de folga no colégio. Yoruichi e Kukkaku decidiram sair pela cidade para fazer compras. Compraram tanto ingredientes para o almoço quanto besteiras para elas mesmas. As duas se divertiam muito no shopping. Comeram hambúrguer, tomaram sorvete e até foram ao cinema. Kukkaku estava maravilhada, pois não imaginava que naquele mundo tão estranho para ela pudesse haver coisas tão legais. Mas nenhuma das duas sabia que outros Shinigamis acabavam de chegar ao nosso mundo pouco antes. As duas sentaram em uma mesa para saborear um grande copo de milk-shake. A morena apreciava o líquido como se fosse a coisa mais deliciosa que já provou, mas, momentos depois, seu semblante mudou radicalmente e ela assumiu uma expressão preocupada e melancólica. Dentro de sua cabeça, a única imagem que lhe veio foi de Ukitake bem próximo de sua Professora. O fato de ele ter contado toda a verdade sobre os Shinigamis para ela não lhe agradava nem um pouco, só que não era bem isso que incomodava o coração da Shiba. O que incomodava era o fato dos dois estarem muito próximos ultimamente. A Ex-Capitã da Segunda Divisão percebeu a mudança no comportamento da amiga e imediatamente começou a questioná-la.
— E então, como estão indo as coisas no colégio?
— No colégio? – Falou desinteressada ao mexer o milk-shake com o canudo enquanto mantinha um olhar cabisbaixo.
— Kukkaku, você está ouvindo o que eu estou dizendo?
— Sim. Você perguntou como estou indo no colégio.
— E então?
— O que eu vou dizer? Aquele lugar é uma droga. Estou rodeada de pirralhos imbecis que vivem me assediando. Além disso, ficar estudando é uma verdadeira chatice. A verdade é que eu gostaria de voltar para a minha casa.
— É só isso que está te chateando?
— E por que você acha que tem alguma coisa me chateando?
— Basta olhar para a sua cara no último minuto. É óbvio que você lembrou de alguma coisa que a está te chateando. Pode me contar o que é, afinal de contas é para isso que somos amigas.
— Tudo bem... O problema é Juushiro Ukitake. – Revelou sem cerimônia.
— HAHAHAHAHAHAHAHA! – Yoruichi riu alto, dando vários tapas sobre a mesa. — Eu sabia! Eu sempre soube que você era caidinha pelo Capitão bonitão, mas eu não posso te culpar por isso. Você sabe, o nosso veterano faz um tremendo sucesso com as mulheres. Desde as criadas mais humildes até membros da nobreza. Todas caem aos pés dele não apenas por sua beleza, mas também pelo seu admirável caráter. A mulher que casar com ele pode ser considerada de muita sorte. E pode ter certeza de que será muito invejada. Aliás, eu não sei como ele está solteiro até hoje. – Alfinetou a gata.
— Mas você quer parar de falar besteira? Não é nada disso, caramba! Eu estou pouco me lixando para o fato de ele ser lindo ou não ou de quantas mulheres beijam o chão por onde ele passa.
— Ah... – Suspirou entediada. — Então o que está te incomodando, afinal, mulher?
— Ele contou tudo sobre os Shinigamis para nossa Professora.
— QUEEEE?!
— É isso mesmo que você ouviu.
— Mas por que ele faria isso?
— Acontece que esta mulher é uma humana que possui uma Reiatsu elevada e pode ver tanto os Shinigamis quanto os Hollows. O idiota presumiu que ela acabaria sendo atacada por algum dos Hollows e a estava protegendo. Pensou que ela estivesse desmaiada e acabou usando seus poderes para derrotar o Hollow, só que a mulher acabou vendo tudo e o questionou.
— Resumindo: ele não teve escolha a não ser dizer a verdade, então eu não entendo porque você está irritada.
— Mas você é burra ou o quê? Por que está defendendo ele?
— A mulher já tinha visto tudo. Mentir para ela não adiantaria nada mesmo. Por que você tem que ser tão teimosa?
— E justo por causa disso, agora os dois estão cheios de segredinhos e não se desgrudam mais...
— Já entendi. Era exatamente como eu pensava. Esse piti todo é porque você está com ciúme.
— Vá à merda! E quanto a você também?
— Eu o quê?
— Por que você não vai caçar um macho? Vai dizer que você nunca deu para o Urahara?
— Kisuke?
— E tem outro? Eu não acredito que vocês passaram todos esses anos juntos e nunca deram uma trepada.
— Pois eu vou ser sincera com você. Pode ser que ninguém acredite no que eu vou dizer, mas eu e o Kisuke não passamos de bons amigos. Nós nunca fomos nada além disso.
— HAHAHAHAHAHAHAHA! – Foi a vez da Shiba sorrir divertida. — Tá de sacanagem, né? Está querendo dizer que você está há centenas de anos sem trepar?
— Você pirou? Mas é claro que não. Lógico que eu dou as minhas fugidinhas de vez em quando e pego alguns garotinhos virgens por aí, mas não o Kisuke. Ele é meu amigo e eu não queria estragar a nossa relação apenas por prazeres bobos e casuais.
— Acho que entendo... mas você nunca se apaixonou?
— Me apaixonar? E eu lá sou de perder tempo com essas bobagens? Estou muito bem do jeito que estou.
— Cínica! – Gargalhou acusadora. — Quer me criticar quando você mesma acha tudo uma bobagem? Eu não aceito isso! Tomara que você bata de frente com o homem e que caia doidinha aos pés dele. – Completou morrendo de rir.
— Tá bom, tá bom! Deixa de gracinhas. Mas ainda assim, eu se fosse você seria sincera sobre os seus sentimentos. Se você disser a ele como se sente, estou certa de que ele irá entender, e o máximo que poderá acontecer será uma conversa franca em que ele irá expressar a sua compreensão, e se não tiver que acontecer, pelo menos você vai ter tirado esse peso de suas costas, pois dá para ver claramente que não está lhe fazendo bem.
— Você deve estar brincando se acha que Shiba Kukkaku é mulher de se arrastar aos pés de um homem.
— Ok, senhora teimosa. Quando ele estiver namorando a Professorinha de vocês, não venha choramingar no meu ouvido.
— Ora, sua...!
— Vamos voltar?
— Vá você na frente e leve o almoço. Eu vou mais tarde.
— Tudo bem então... Você que sabe.
As duas se separaram. Yoruichi deixou Kukkaku sozinha, deixando a morena lá por mais algum tempo. A gata seguiu a passos lentos até o hall dos elevadores, e foi até o último andar do prédio, onde usaria shunpo para chegar mais rápido à loja, sobrevoando os prédios ao redor. A cada passo que dava, a bela morena se lembrava das palavras ditas pela Líder do Clã Shiba momentos atrás. Se apaixonar? Isso era algo que ela jamais cogitou em todos os seus séculos de vida. Primeiro porque nunca foi uma mulher romântica ou melosa, e segundo, sempre achou tais coisas uma besteira. Outro fator importante é que ela também nunca havia conhecido um homem que realmente mexesse com o seu coração. Nunca encontrou um homem que a fizesse tremer com um único olhar ou que não saísse de seus pensamentos a cada noite.
— Será que algum dia eu vou encontrar um homem assim? E por que eu estou me preocupando com isso agora? Mas que merda. Culpa da Kukkaku que me faz pensar essas besteiras... – Pensou alto, ao tirar essas ideias loucas de sua mente e continuar seguindo seu caminho.
Kukkaku continuou passeando pelos corredores do Shopping. Foi até a escada rolante para chegar no pavimento de baixo. Colocou uma das mãos sobre o corrimão deslizante e começou a apreciar a paisagem do interior do prédio. Seus olhos se abriram até o limite que conseguiam quando a bela avistou algo que lhe pareceu surreal. No hall do térreo, Ukitake conversava animadamente com a Misato-sensei. Ambos estavam sentados em um dos bancos do local tomando um sorvete de casquinha. Ela piscou os olhos várias vezes, achando que sua mente estava lhe pregando algum tipo de peça. Mas não. Realmente era ele. Trajando uma calça jeans preta e uma camisa cinza com dois botões abertos e os cabelos costumeiramente soltos e alinhados, calçando elegantes sapatos marrons, o belo Capitão se divertia na companhia de sua Professora, que vestia uma bermuda vermelha de alfaiataria um pouco acima dos joelhos, um scarpin preto e uma blusa azul céu de mangas curtas, usando seu sempre rabo de cavalo.
— Eu não estou acreditando nisso. Aquele cretino se divertindo com a Professora como se fosse um adolescente... – Falou irada, rangendo os dentes e cerrando os punhos. — Mas que inferno! Até quando eu não o estou seguindo esse idiota cruza o meu caminho!
Desceu até o andar do térreo pelas escadas normais, pois temia ser vista se fosse pelas rolantes, já que as mesmas ficavam na direção dos bancos. Aproximou-se dos dois lentamente até estar perto o suficiente para ouvir o que conversavam. E foi exatamente isso que ela fez, pois não perderia a oportunidade de vigiá-lo, temendo que ele revelasse mais do que devia a respeito da Soul Society. Colocou a boina que tinha comprado na cabeça e abriu uma revista frente ao rosto para não ser reconhecida caso um deles olhasse em sua direção, e discretamente começou a ouvir a conversa.
— Misato-sensei, obrigado por me convidar para vir até aqui hoje. Eu não imaginava que tivesse um lugar tão legal assim aqui no mundo dos vivos. Como não estou acostumado com este mundo, eu agradeço por estar me ajudando a conhecê-lo um pouco melhor.
— Que nada. Sou eu que agradeço por ter vindo. Eu devo muito a você, afinal de contas jamais esquecerei que você salvou a minha vida. Serei eternamente grata, e tudo o que eu puder fazer por você não hesite em me falar.
— Para dizer a verdade, eu estou bastante aliviado.
— E por que diz isso?
— Eu imaginei que você fosse ter medo de mim... Por eu não ser um humano, você sabe... Não é todo mundo que acha normal alguém ter esse tipo de poder. Me achariam uma aberração.
— Bobagem! Quem no mundo poderia achar um jovem tão lindo como você uma aberração?
— Que sujeitinha! Já começou a dar em cima dele na cara dura! E o paspalho continua com aquela cara de idiota e nem sequer percebe as segundas intenções da bisca! – A morena pensou consigo.
— Desculpe a minha ignorância, mas eu não entendo o que isso significa.
— Como não? Você tem um rosto de anjo e o seu comportamento doce e gentil com todos apenas reforça sua bela aparência. Não sei se já lhe contaram, mas você e o Kuchiki-kun se transformaram em verdadeiras celebridades naquela escola. As garotas estão verdadeiramente enlouquecidas desde que vocês dois chegaram, e muitas falam que os amam e que querem casar com vocês. Essas jovens... – Falou sorrindo, lambendo mais um pouco de seu sorvete.
Ukitake nada respondeu, apenas inclinou a cabeça um pouco para a frente, fazendo alguns longos fios caírem para perto de seu rosto e baixou o olhar. A sensação de incômodo do platinado foi rapidamente percebida pela Professora.
— O que foi? Eu disse algo de errado? Você parece ter ficado chateado com o que eu falei agora.
— Byakuya já andou se irritando por conta desse assunto anteriormente. Quando a Sensei não foi nos dar aula ontem, um grupo de garotas estava nos cercando na sala de aula, fazendo exatamente o que a senhora acabou de dizer. Nos brindando com declarações de amor vazias e palavras fúteis.
— Isso te incomoda? Você não faz ideia de quantos garotos naquele Colégio queriam ter essa sorte e essa popularidade que vocês dois conseguiram em apenas uma semana.
— Imagino que sim. Apenas... As pessoas não sabem o que dizem. Usam a frase "eu te amo" de maneira descuidada, falsa e sem sentido. Amar alguém apenas por achar bonito... Isso me deixa bastante revoltado.
— Perdão. Não fazia ideia de que você se sentisse assim. Achei que como todo rapaz, você gostasse de ter a atenção das garotas.
— Apenas por ser bonito? Não, eu não gosto. Todo mundo pode achar que beleza é a melhor coisa que pode existir, mas não é bem assim. Para dizer a verdade, ser bonito dá até mais trabalho do que ser feio. Quando somos feios, temos que lidar com o preconceito e a rejeição das pessoas. Mas quando somos bonitos, precisamos contornar a falsidade e conviver com futilidades. As pessoas nos rodeiam de forma superficial, sem enxergar nossa verdadeira beleza, aquela mais importante, mais digna, que é justamente a beleza que trazemos dentro de nós, os sentimentos puros de nossos corações.
— Que lindo! Estou comovida. Isso apenas comprova que nada do que eu disse sobre você é mentira. Você é lindo. Não apenas por fora, mas também por dentro. Acho que dezenas de pessoas já devem ter lhe dito isso, mas parece que você não acredita.
— Está enganada. Eu acredito. Mas eu apenas queria ser admirado pelo que eu sou, e não pelo que eu pareço.
— Fique tranquilo quanto a isso. – Disse compreensiva, levando as mãos aos ombros dele. — Pode ter certeza de que você é duplamente admirado. O que eu acho estranho é o fato de você se incomodar com isso. Tire essas ideias da cabeça. Você é perfeito do jeitinho que você é. Além do mais, não se zangue com as meninas. É muito fácil dizer "eu te amo" para alguém como você.
— Mas é uma pena... Que justamente a pessoa que eu amo não pensa assim.
De onde estava, Kukkaku arqueou uma sobrancelha, percebendo claramente de que era dela que ele falava.
— Mas que mulher abusada! Está com as mãos em cima dele! Ai que ódio! – Pensava quase rasgando a revista. — Que vontade de arrebentar a cara dela!
— Você está apaixonado? Poxa, que pena... Isso significa que eu perdi todas as chances? – Perguntou sem cerimônia.
— O que? – Rebateu, confuso, e seu rosto ficou pálido no mesmo instante.
— É brincadeira. – Piscou divertida ao sorrir. — Precisava ter visto a sua cara agora. Não se preocupe com isso. Ao contrário das meninas do colégio e não sou uma adolescente, e não estou apaixonada pela sua beleza. Você é uma pessoa adorável, alguém de quem se pode gostar com tremenda facilidade. E sim, eu gosto muito de você, mas como meu aluno querido por quem eu tenho uma infinita gratidão e carinho.
— Obrigado. Não faz ideia de como eu me sinto aliviado em ouvir isso.
— Mas e aí? Me conta sobre a sua eterna apaixonada. Por que disse que ela não entende o seu verdadeiro caráter?
— É complicado. Acontece que eu me apaixonei exatamente pela mulher que pensa que eu sou o assassino do irmão dela.
— Isso é algum tipo de piada? Pelo pouquíssimo tempo que te conheço, sei que você seria incapaz de matar alguém, bom, desde que não seja um monstro. E se essa mulher não é capaz de enxergar algo tão óbvio, eu diria que ela sim tem sérios problemas.
— Filha da mãe... Não acredito que ela está dizendo que eu sou uma pessoa problemática. Eu vou matar ela! – A morena ainda tentava se controlar de onde estava.
— Infelizmente as coisas são como são. Ela é bonita, forte e determinada, mas para a minha desgraça, tem um gênio impossível de lidar. Ela só acredita no que ela acha ser a verdade dela, e não me dá oportunidade de defesa. Mesmo sabendo com todos os detalhes do ocorrido, ela ainda insiste em me culpar e dizer que eu sou um assassino. Mas eu jamais faria isso. Tudo não passou de uma infeliz tragédia, e eu também sofro muito até hoje por causa disso. Ele era meu Tenente, meu subordinado direto, e aconteceu uma fatalidade durante uma missão que tivemos.
— Eu sinto muito por isso. É mais um motivo para eu achar que essa mulher não bate bem. Eu vi uma forte sinceridade em seus olhos enquanto me contava tudo agora, e se ela não acredita nas suas palavras, acho que o melhor que você deve fazer é esquecê-la, já que isso não te faz bem.
— Muito obrigado pelo apoio, Sensei. Mas acredite, já aprendi a lidar com meus sentimentos em relação a com ela. Já não sofro por isso.
— Que bom. Isso mostra que ser bonito não significa que se possa ter tudo, não é? Já que justamente a garota de quem você gosta te acha um monstro.
— Deixe que ela continue pensando assim. De qualquer forma, ninguém é capaz de mudar a visão ou a opinião de ninguém, então o jeito é deixar para lá.
— Você está certo. Caramba, parece que nossos sorvetes acabaram. Você quer mais um? Eu posso ir lá comprar para nós? – Disse ao levantar do banco.
— Não. Eu não quero. – Respondeu ao também se levantar.
Nesta hora, Misato levou um susto, pois Ukitake a surpreendeu com um carinhoso abraço. Kukkaku sentiu seu sangue ferver como nunca antes em sua vida vendo tal cena, e sua vontade foi de dar uma surra nos dois.
— Aquele desgraçado... A um minuto atrás falou que me amava e agora abraça essa mulherzinha?! Vou matá-los! Desta vez eu mato os dois!
Ambos estavam de olhos fechados, apenas apreciando o abraço um do outro. A Professora realmente sentia um carinho muito especial pelo Capitão, e o platinado sentia o mesmo. Estava muito agradecido e aliviado depois da conversa que teve com ela, e o abraço foi uma forma de agradecer por ela tê-lo feito se sentir tão bem consigo mesmo. Momentos depois, os dois foram surpreendidos quando começaram a ouvir gritos ofensivos, e foram bruscamente separados por mãos iradas e nervosas.
— Tire suas mãos pervertidas de cima dele! Eu não permito que toque nele, entendeu bem?! – Gritou irada empurrando a Professora para longe do veterano.
— Shiba-san? – Misato perguntou confusa, sem entender absolutamente nada sobre atitude dela.
— Kukkaku-san? O que está fazendo aqui?
— A pergunta é o que vocês estão fazendo aqui?! Acha certo uma Professora ficar se envolvendo romanticamente com um de seus alunos?
— Quê? Você ficou completamente louca. Não faz ideia do que está dizendo. – Rebateu o platinado.
— Você cale a boca! Quanto a você, eu vou arrebentar a sua cara para você aprender que não deve se meter com seus alunos.
— Não faça isso, Kukkaku-san! Não toque nela!
— Você não vai me impedir! – Berrou descontrolada, empurrando Ukitake, que caiu no chão enquanto a morena acertou um tapa tão forte em Misato, que a mesma também foi ao chão, seguida pela morena, que foi de encontro aos cabelos da pobre educadora.
— Pare com isso! Ficou louca? Está querendo me matar?! – Misato gritou desesperada ao ser agredida.
— Já chega, Kukkaku-san! Não temos porque aturar os seus escândalos. – O Capitão Ukitake protestou ao puxar os dois braços da morena para trás, a colocando novamente de pé.
— Me solta! Eu ainda não bati em vocês.
— Cale a boca. Já chega de baixarias. Saia daqui agora! Eu não quero mais ver a sua cara! – Juushiro falou sério, e Kukkaku sai correndo envergonhada.
— Meu Deus... você saberia me dizer o que aconteceu aqui?
— Está machucada, Sensei?
— Um pouco. Aquele tapa doeu muito. Pelo jeito ela também é uma Shinigami como você, estou certa?
— Não exatamente. Mas vivemos no mesmo mundo.
— Imaginei...
— De qualquer forma eu vou curar o seu rosto. – Falou tranquilo, colocando a palma de sua mão no rosto da Professora, e usando um Kido, a curou instantaneamente.
— Impressionante! Vocês também têm poder para curar as feridas!
— Sim, mas isso não importa agora. Eu preciso ir atrás dela. Desta vez ela foi longe demais e vai ter que me ouvir.
— Pode ir. Eu vou ficar bem. Estarei indo para casa agora.
— Então vá com cuidado.
Ukitake foi até o elevador e subiu rumo ao último andar, onde sentiu a perturbada Reiatsu de Kukkaku. Sentada no chão com as pernas dobradas para cima e a cabeça abaixada com a testa apoiada nos joelhos, ela vestia um short jeans curto que deixava praticamente toda a sua coxa à mostra, botas de cano longo pretas e uma blusa frente única quase igual à que usa normalmente, amarrada atrás, deixando suas costas nuas completando o generoso decote. Ukitake parou de pé bem diante dela, e indignado começou.
— Levante-se. Precisamos conversar.
— Suma. Pensei ter dito que não queria mais olhar na minha cara. – Falou com raiva, sem desfazer a posição em que estava.
— E não quero mesmo, mas antes disso precisamos acertar algumas contas pendentes.
Mesmo contrariada, Kukkaku levantou. Sempre se vestia de forma chamativa e provocante, e mesmo que quisesse, Ukitake não pôde deixar de olhar o perfeito exemplar feminino diante de seus belos olhos verdes. As belas coxas grossas, os fartos seios, a pele lisinha que certamente ele sabia ser gostosamente macia era deveras tentadora, mas ele olhava para tudo aquilo com certa decepção.
— Que foi? Vai ficar aí me olhando o dia todo? Se quer me dar sermão, fale logo. Eu não tenho o dia inteiro.
— É lamentável. Olhe para isso. – Disse ele, estendendo a mão na direção dela. — De que lhe serve tanta beleza, quando o que sai de sua boca se resume a gritos, insultos e agressões? De que lhe serve essas mãos, se você só as usa para bater, agredir e acusar? É uma lástima... Eu olho para você, Shiba Kukkaku, e só consigo sentir pena. – Falou decepcionado.
— Pena? – Disse com ódio, fechando o punho direito. — Você veio atrás de mim para dizer na minha cara que tem pena? Quem você pensa que é?
— Quem você pensa que é?! Vai me dizer agora mesmo porque anda me seguindo o tempo todo. Acha que eu não percebi por quantas vezes você já me seguiu às escondidas? Por que vive me espionando? Se quer saber algo sobre mim, porque não me pergunta diretamente?
— Eu? Seguindo você? Não seja convencido. Pelo jeito você está mais louco do que o normal.
— Vai ter coragem de negar? Eu não esperava nada diferente. Sabia que seria perda de tempo discutir com você. Por que fez algo tão baixo? Como se atreveu a bater em uma humana? Isso foi covardia.
— Vai defender a Professora tarada agora? É bem típico vindo de você.
— O que te incomoda? Por acaso está com ciúme de mim?
— HAHAHAHA! Mas é mesmo muito convencido! Acha que eu sou como aquelas ninfetas sem cérebro que cercam você e o Kuchiki no colégio?
— Eu estou tentando entender, mas é uma total perda de tempo. Bem que o Kyoraku me avisou que não vale a pena me desgastar com alguém como você. – Disse derrotado, andando em direção à porta de saída, dando a conversa por terminada enquanto ela o via se afastar de costas.
— Não sou obrigada a ouvir isso do assassino do meu irmão!
Foi a vez de Ukitake apertar o punho com força, sem acreditar que mais uma vez estava ouvindo as mesmas acusações. Deu meia volta, ficando de frente para ela, colocando as duas mãos sobre os ombros da Shiba, que arregalou os olhos surpreendida.
— Já chega! Eu já cansei de ouvir as mesmas acusações! Eu não matei o Kaien! E passou da hora de você entender isso de uma vez por todas. Se quer me odiar, odeie. Mas eu não aceito carregar comigo uma culpa que não é minha. Pare de se comportar como uma criança birrenta e mimada! – Falou indignado em tom sério, o que a deixou desarmada.
Kukkaku abaixou a cabeça e fechou os olhos. Se sentia horrível. Estava errada em tudo o que tinha feito, mas não conseguia evitar. Tinha consciência de que tudo o que ele dizia era verdade, e ouvir aquilo de repente fez seu cérebro "sacudir". Foi como se suas emoções entrassem em ebulição, e lágrimas invadiram seu rosto, surpreendendo tanto a ela quanto a Ukitake, que tirou as mãos dos ombros dela devagar, um pouco impressionado, já que a última coisa que ele pensava ver em sua vida era Shiba Kukkaku chorando bem diante de seus olhos. Eu... Não tinha chorado desde que o Kaien morreu.
— Eu nunca consegui chorar pela morte do meu irmão. Eu já tinha esquecido como era chorar. E a culpa é só sua. É tudo culpa sua! É culpa sua! Dizia repetidas vezes, batendo no peito do platinado com as mãos fechadas incessantemente.
Ukitake fechou os olhos lamentando. Sentiu seu coração se partir em pedaços ao vê-la naquele estado, e a única coisa que ele conseguiu fazer naquela hora foi pegar os pulsos dela, cessando a agressão e dando-lhe um forte abraço consolador. Ela se debateu diversas vezes em protesto, onde a frase "me solta" seguida de inúmeros outros insultos eram gritadas por ela sem sucesso. Os braços de Juushiro eram fortes, e ele não estava disposto a soltá-la até que ela se acalmasse. Derrotada, a morena soltou os próprios braços e apenas se entregou ao momento. Soluçava de tanto chorar, e Ukitake segurava a cabeça dela com cuidado, sentindo sua camisa se encharcar com as lágrimas da bela mulher.
— Kaien... Kaien! – Gritava repetidas vezes em meio ao pranto desesperado, esfregando o seu rosto no peito do Capitão, que mais parecia uma muralha sólida e indestrutível, onde ela poderia bater, bater e bater eternamente sem causar o menor dano.
Ficou assim por longos instantes, até que mais uma vez a raiva assumiu o controle de suas ações, e ela empurrou o platinado para longe de si subitamente.
— Me solta, seu maldito. Não posso acreditar que tenha se aproveitado do meu momento de fraqueza para me abraçar assim. Você não presta. – Falou sem pensar, e cada insulto soou como dolorosos espinhos se cravando dentro do peito do belo Capitão.
— Quer saber de uma coisa...? – Disse triste, cruzando os braços e balançando a cabeça num gesto negativo com os olhos fechados. — Kyoraku estava mais do que certo. Não vale a pena perder um segundo sequer do meu tempo com uma pessoa como você. Como sou estúpido. Como eu pude... – Se deteve no que ia dizer, interrompendo a frase.
— Como você pôde o quê? Por que não termina o que ia dizer? Está com medo de acabar dizendo que teve toda a culpa na morte do meu irmão?
— Não é nada disso! Sobre este assunto, eu já lhe disse tudo o que tinha para dizer. Se você insiste em não acreditar, eu lamento.
— Então o que? Diga logo o que ia dizer!
— Não. Você não merece ouvir isso de mim. Eu já suportei mais insultos do que qualquer outra pessoa jamais suportaria. Você passou de todos os limites do tolerável. O que você fez com a Misato-sensei agora a pouco foi o fim. Como se atreveu a bater em uma humana muito mais frágil? Suas atitudes extremistas e agressivas são completamente desnecessárias e eu não estou mais disposto a ficar aguentando isso. Você precisa de uma lição para ver se acorda para a vida.
— Ah, é? E vai fazer o quê? Você é quem vai me dar essa lição? Vai me bater, por acaso? Então cai dentro! Acha que eu tenho medo de homem?
— Bater em você? Isso jamais! Você se enganou comigo mais uma vez. Se pensa que eu sou homem de encostar um dedo em mulher, está muito enganada.
— Machista! Eu já surrei muito macho com muito mais cara de macho do que você. Então não me subestime! Se quer me dar uma lição, assuma a postura de luta, use até sua Zanpakutou se quiser. Pelo menos assim eu posso vingar o meu irmão.
— Chega! Eu não aguento mais! Cale a boca! Cale já essa maldita boca! – O platinado gritou em meio a sua irritação, a puxando pelos braços, até que ela ficasse com o rosto a centímetros do seu.
— Então cala. Eu quero ver você conseguir me calar. – Ela respondeu um tanto ofegante, mas sua voz saiu estranhamente baixa e tensa, sentindo todo o seu corpo tremer devido à proximidade de seus corpos.
Juushiro estreitou os verdes olhos, e Kukkaku estranhou, pois nunca o tinha visto tão alterado. Ele apertou seus braços em volta do esbelto corpo feminino, fazendo-a ficar sem ar, e posicionando a mão direita estrategicamente na nuca da Shiba, a beijou de forma ardente e apaixonada, que em nada condizia com sua forma mansa de falar e sua expressão e gestos gentis. Assustada e ao mesmo tempo indignada, Kukkaku apertava os lábios como podia, tentando impedir que aquele beijo se tornasse mais profundo até o fim. A mão esquerda aberta de Ukitake segurava firmemente as costas nuas, não dando chance para que ela escapasse. A mão direita de Kukkaku apertava a camisa do Capitão com força na altura de sua cintura, enquanto a outra fazia o mesmo na altura do ombro, amassando a roupa como podia, mostrando a ele que ela resistiria até o fim. A mente da morena ficou uma bagunça. De repente, tudo passou como um filme dentro dela. Lembrou do sorriso encantador, dos belos cabelos, os olhos sinceros e o caráter admirável que a fez amá-lo desde sempre. Tudo aquilo a desarmou, e ela abriu suas mãos, deslizando-as sobre a camisa até que uma chegou na nuca masculina, passando por todos os fios prateados que encontrou pelo caminho. A outra mão pousou na lateral do rosto de Juushiro de forma doce e protetora, abrindo a boca e invadindo a dele com uma rapidez fora do comum, aproveitando ao máximo tudo que aquele momento poderia ter de melhor. Ao notar que "a fera" já estava rendida, Ukitake deslizou sua mão pela pele macia das costas nuas da mulher, tomando cuidado para não desamarrar a curta peça de roupa e deixá-la parcialmente nua. Sentir os grandes seios imprensados contra seu tronco era deveras excitante, e o Capitão já sentia esses efeitos em si. A intimidade de Kukkaku já fervia em brasa, e sentiu-se encharcar de tesão, reagindo involuntariamente ao colocar a perna esquerda para cima, envolvendo-a na cintura de Juushiro, fazendo as partes íntimas de ambos se chocarem no processo. Mesmo sob as roupas, a morena sentiu o quão duro Ukitake já estava, e um sorriso sacana brincou nos lábios dela ao mesmo tempo em que provava da boca gostosa do atraente Capitão que ela tanto ansiava. As pernas dela tremiam e sentiu que lhe faltavam forças nelas quando de repente, Ukitake pegou o joelho de Kukkaku e a soltou, rompendo o excitante contato entre ambos. Ele a encarou sério. A Shiba estava vermelha, suada e ofegante, e muito, muito excitada.
— Eu não sei como pude me apaixonar por alguém como você. Apenas confirmei que você é incapaz de sentir algo bom. Você não sentiu todo o carinho do meu abraço, ou abriu seu coração para receber o amor do meu beijo. Como eu pude me enganar tanto? Como pude sequer cogitar que você era a mulher que merecia o meu amor?
— Ei... – Kukkaku tentou rebater. — Escute aqui...
— Escute aqui você! Se queria algum motivo para me odiar, agora você já tem. A partir deste momento eu não quero que você me dirija a palavra. Não olhe para mim, esqueça completamente que eu existo. Eu nunca mais quero tornar a olhar para a sua cara.
O platinado se afastou e saiu dali, praticamente desaparecendo no ar, deixando para trás a líder do Clã Shiba em pedaços. A morena foi ao chão, caindo de joelhos quando as forças lhe faltaram. Apoiando as mãos no chão de concreto puro, ela começou a chorar de um jeito que jamais imaginou que pudesse fazer em vida...
つづくcontinua...
