Capítulo14. À mudança

- Bem, é o suficiente de emoções por hoje – Esme apertou seu lindo rosto em minha bochecha esquerda. Eu suspirei ao toque dela, tentando dissipar meu medo – Vocês dois precisam conversar a sós e todos nós temos o que fazer. Emmett, preciso que tire minha mesa de desenho do quarto sul e a leve para meu quarto. Depois, quero que você desça e traga a mala de Alice aqui para cima. Rose, pode pegar as compras no carro?

Emmett assentiu e Rosalie saiu com ele, soltando uma risadinha de escárnio no caminho. Edward olhou para ela por um instante, o olhar ligeiramente confuso, mas logo voltou sua atenção para Esme, que o abraçava pela cintura.

- Fiquem à vontade, por favor – Carlisle disse – Esta também é a casa de vocês.

- Sou muito grato, Carlisle – Jazz respondeu, encarando-o com seriedade – Por tudo.

- Não há de quê, Jasper. Você e Alice fazem parte da nossa família agora e estamos felizes por tê-los conosco.

Eu andei até ele e o abracei. Carlisle retribuiu e deu um leve beijo em minha testa. Todos os olhares do quarto caíram sobre nós. Eu me senti aquecida e amada, como uma filha é pelo pai. Esme encostou a cabeça no ombro de Edward e fungou levemente, como se fosse começar a chorar. Jasper nos olhava com a expressão suavizada, mas um pouco constrangido com as demonstrações de afeto não-explicadas.

- Boa noite, querida – Carlisle disse, antes de sair.

- Tudo vai ficar bem! – Esme deu um beijo estalado no rosto de Edward e se soltou dele, se dirigindo ao guarda-roupa. Ela o abriu e se pôs a pegar pilhas de roupas e cabides nos braços, saindo e voltando sem eles muito rápido.

Emmett entrou no quarto e colocou minha mala no chão. Rose veio logo atrás, os braços abarrotados com as caixas coloridas das compras que havíamos feito durante a tarde.

- Obrigada, queridos – Esme entrou pela porta, trazendo caixas nos braços, e se dirigiu para a imensa estante de Edward. – Em, assim que eu terminar de levar os discos, quero que leve a estante de Edward para o quarto vazio. E a cama... bem, podemos deixá-la hoje aqui, assim como o biombo e os criados-mudos; mas leve também a vitrola.

- Espere... – o olhar satisfeito de Edward voltou à confusão – Mãe, por que está tirando minhas coisas daqui?

- Ora, porque os móveis de Alice e Jasper chegarão amanhã, querido – Esme estava de volta em um segundo – Precisamos deixar espaço livre para eles, não?

- Eles vão ficar com o meu quarto? – Edward falou indignado, seguindo Esme quando ela saiu novamente. Jasper me olhou preocupado, me repreendendo. Eu apenas dei de ombros.

- Você já sabe a resposta, querido – ela passou como um risco por ele, pegando a vitrola de madeira branca – Edward Cullen, você não vai me fazer passar a vergonha de se recusar a hospedar seus irmãos, não é?

Eu vi Jazz engolir em seco ao meu lado. Mesmo que Esme fosse absolutamente meiga e doce o tempo todo, eu tinha que admitir que ela também era muito persuasiva com aquele tom de voz.

- Mãe... – Edward choramingou.

- Não quero ouvir nem mais uma palavra! – ela o cortou – Alice escolheu este quarto e é aqui que ela e Jasper ficarão! – Esme saiu.

Emmett se encostou ao batente da porta, tentando segurar o riso.

- Existem 15 quartos nesta casa, Alice! – Edward olhou feio para mim – Por que justamente o meu?

- Porque a vista do seu é a mais bonita – eu me balancei nos calcanhares, sorrindo inocentemente para ele.

- Alie... – Jasper tocou minha mão – Não podemos tirar Edward do quarto dele!

- Edward, pare de importuná-los! – a voz de Esme veio do andar de baixo.

- Você a ouviu – eu caminhei até a porta e indiquei o corredor. Ele me lançou um olhar mortal.

- Agora, Edward! – a voz de Esme ficou mais alta.

Ele fez um bico e rolou os olhos nas órbitas, se dirigindo para a saída. Emmett tirou uma das colunas da estante do chão e a passou pela porta.

- Bem, pelo menos alguém vai estrear a sua cama! – Emmett e Rose explodiram em risadas, seguindo Edward assim que ouvimos um novo grito de Esme.

Eu gargalhei com eles e desejei boa noite antes de fechar a porta. Encostei-me à madeira clara e olhei para Jasper. Eu ainda ria, me lembrando da careta contrariada de Edward. Mas a expressão grave de Jazz me trouxe de volta à situação crítica em que nos encontrávamos. Ele me lançou um olhar repressor e preocupado.

- Agora somos eu, você e o quarto de Edward – eu sorri levemente, tentando dissipar meus receios.

- Não acredito que realmente expulsou Edward, Alice... – ele disse baixo, não dando tanta importância ao episódio.

- Ah, ele vai sobreviver! – balancei uma mão no ar e parei de rir.

De repente, hesitei. E um arrepio subiu por minhas costas. O modo com Jasper me encarava – impassível, tenso – era uma imagem dolorosamente parecida com minha visão.

O olhar dele se tornou preocupado e uma ruga surgiu entre suas sobrancelhas claras. Por um instante, eu achei que ele me lançaria um olhar duro, mas ele não o fez. Ele fechou os dedos dentro das mãos e deu um passo a frente, estudando minhas ações.

Ficamos nos olhando por muito tempo, ainda à distância. Eu me sentia estranha, tendo diante de mim o contraste gritante entre os dois Jaspers que eu conhecia. O cruel e o amoroso. O vampiro e o homem. O monstro e o herói.

- Ninguém vai machucar você... – ouvi sua voz sussurrar – Não era eu, lembra?

Não poderia ter sido ele! Era óbvio! Porque, para mim, Jasper era o homem amoroso, o herói. Sempre seria! E nunca deveria ter deixado de ser!

Eu senti a felicidade e o alívio crescerem dentro de mim e sorri, dando um passo na direção dele. Jazz me olhou com expectativa. Eu estendi meus braços no ar, como se pedisse que ele me pegasse no colo. De repente, aquela distância era insuportável. Eu corri para ele, ao mesmo tempo em que ele corria para mim.

No exato momento em que subimos os dois na enorme cama no meio do quarto, ele me ergueu com um braço e puxou minha perna para sua cintura, me pegando no colo. Minha boca foi coberta pela dele e seu gosto delicioso e familiar invadiu meus sentidos.

Foi absolutamente rápido, completamente instintivo, totalmente apaixonado. Assim, abraçados e nos beijando freneticamente, éramos apenas um do outro. Ter Jasper ao redor de mim, trilhando beijos molhados pelo meu pescoço, era a única coisa que me parecia coerente. Nada mais fazia sentido fora daquele abraço. Eu era dele, para o que ele quisesse. Ele era meu, todo meu.

Lentamente, os carinhos começaram a abrandar, a ficar mais lentos e demorados. Jasper passou uma mão por baixo de meu cabelo e a encaixou em minha nuca, encostando a testa à minha e roçando o nariz no meu. Eu suspirei e sorri quando ele começou a distribuir beijos por toda a extensão do meu rosto, ao mesmo tempo em que respirava ruidosamente contra minha pele, aspirando e soprando.

Ficamos em silêncio novamente, fechados em nossa própria bolha, completamente absortos na presença um do outro. Jazz parou de me causar arrepios assoprando minha pele e encostou a testa em minha boca. Eu dei um beijo no local e esperei que ele se afastasse para me olhar, mas ele não o fez. Eu sorri contra a pele dele e fechei os olhos, inclinando um pouco a cabeça, para sentir o cheiro do cabelo dele. Então, eu me sentir ser balançada, levemente, de um lado para o outro, numa dança lenta e silenciosa.

- Em que está pensando? – eu não me segurei.

- Que uma cama é novidade... – ele tirou sua testa dos meus lábios e sorriu levemente, os olhos se estreitando.

- Sim, é – eu o acompanhei no sorriso, me sentindo aquecida pelo olhar e pelos braços dele ao redor de mim.

De repente, uma sombra perpassou os olhos de Jasper. Ele me olhou apreensivo, suspirou e se sentou sobre os calcanhares, ainda me segurando sobre as pernas.

- O que há? – eu me inclinei para olhar seu rosto melhor.

- Sabe o quanto eu preciso de você, Alice? – novamente, lá estava a ruga em sua testa.

- Eu sei – sorri de modo presunçoso – Sou linda e irresistível, não sou?

- É claro que sim – ele riu levemente pelo nariz, mas a sombra voltou ao seu olhar – Mas não é somente a isso que me refiro... – ele me tirou de cima de suas pernas e se encostou aos vários travesseiros da cama, puxando meu corpo até que estivéssemos frente a frente, deitados – Alice, você tem ideia do quanto minha sanidade é afetada quando não estou com você? Não posso suportar a ideia de lhe perder, consegue compreender?

- Sim, eu entendo – eu respondi, sussurrando também – Eu também sinto isso, Jazz.

- Então você entende – seu olhar se desviou para o canto da minha boca – porque não quero que se envolva na minha questão com Maria.

Precisei me impedir de fazer uma careta, porque o modo com ele havia colocado as palavras fez surgir em minha cabeça um estranho quadro em que ele e Maria apareciam juntos, entretidos em um beijo pervertido.

- Eu vou impedi-la, Jasper – eu murmurei.

- Nunca! – ele subiu seu tom de voz, me encarando com cólera – Nunca vou deixar que chegue perto de Maria, Alice!

- Bem, isso não depende de você! – eu rebati, de novo irritada pelas palavras dele.

- Claro que depende! Isso é só entre ela e eu! – ele falou mais alto, irritado, e rolou o corpo para o lado, colocando um braço sobre os olhos.

Eu me coloquei sobre um cotovelo e fiquei em silêncio, observando-o. Seu maxilar estava trancado e todos os seus músculos se contraíam de tensão. Ele parecia estar raciocinando freneticamente.

- Jazz, por favor, não quero brigar – eu estendi minha mão para tirar o braço dele do caminho de seus olhos, mas, repentinamente, minha visão periférica começou a falhar. Eu ofeguei.

- O que foi? Você está bem? – Jasper se sentou, alarmado.

- Nada... – eu arregalei meus olhos, tentando enxergá-lo. Não queria deixá-lo preocupado com minhas visões, principalmente porque ele começaria a surtar a todo momento sobre isso. Logo esta passaria. – Não é nada.

- Tem certeza? – ele aproximou seu rosto do meu – Você está nervosa...

- É só o estresse da situação, Jazz – eu desviei meu olhar dele e pisquei rápido para me concentrar. Então, para me desviar de sua inspeção atenta, me aproximei dele e encostei minha cabeça em seu ombro, enlaçando seu pescoço com os braços.

- Vou fazê-la ficar mais calma – ele sussurrou para mim.

Jasper passou a distribuir pequenos beijos em meu ombro, mas a sensação gostosa que isso deveria proporcionar não chegava aos meus sentidos. Eu tentava me focar em um ponto qualquer do carpete claro do quarto, enquanto sentia minha visão estremecer cada vez mais rapidamente.

Mas os beijos dele se tornaram mais molhados, mais intensos, mais apaixonados, mais impossíveis de se ignorar. Eu senti o desejo tomar conta de mim e virei minha cabeça para pegar a boca dele na minha.

Em um instante, eu estava pegando fogo. Avancei sobre ele e arranquei sua camisa, mordendo seu pescoço e ignorando o que ele falava. Mesmo com meus olhos fechados, eu os sentia estremecerem nas órbitas e me desesperei por um momento, tentando me segurar ao máximo à realidade.

Quando comecei a afundar minhas unhas na pele de Jasper, ele pareceu ficar tenso e me afastou de si.

- Está me ouvindo? – ele segurou meus braços e me olhou. A visão que eu tinha dele estremeceu mais.

- Sim, meu Jasper – eu puxei o ar com força e rosnei, tentando alcançar sua pele novamente – Venha, você pertence a mim... você me deve tudo...

Mas seu corpo ficou fora do meu alcance faminto em um instante. Jasper me soltou e saiu da cama, ficando parado como uma estátua no meio do quarto, me encarando.

- Do que você me chamou? – ele parecia perturbado.

- Não importa! – eu avancei novamente, me içando para o corpo dele – Você é meu – eu falava com selvageria, tentando beijá-lo, rasgando a pele dele com os dentes.

- Alice, o que está fazendo? – ele me colocou no chão e me segurou pelos braços – Essas... essas coisas que está dizendo... de onde tirou isso?

Jasper entrou e saiu de foco. Eu sacudi a cabeça, tentando ver mais claramente, mas cada vez mais ele se tornava um borrão à minha frente. Meus lábios se abriram contra minha vontade.

- O que foi? – senti minha boca se contrair num sorriso – Não quer brincar com a monstrinha?

Meu assombro sobre o que estava acontecendo, sobre porque eu estava agindo daquela maneira, me atingiu de modo atordoante. Mas não foi maior do que o desespero de ver Jasper marchar em minha direção, lindo e ensandecido. Como se alguém tivesse abaixado o som do mundo ao meu redor, eu parei de ouvir. Senti Jasper apertar meus braços e me sacudir violentamente. Ele gritava, mas eu não entendia, apenas via seu rosto contorcido em cólera. Meus olhos começaram a se fechar e minhas pernas ameaçaram fraquejar. Eu segurei os punhos de Jasper e tentei abrir minha boca.

- Jazz – minha voz saiu muito baixa – sou eu, Jazz...

Mas eu já tinha mergulhado na escuridão.