Capítulo 14
Despedida de Solteiro
Faltando apenas cinco dias para o casamento, Aioros estava entrando em pânico em seu apartamento. Nunca desejou tanto ser organizado.
Procurou por seu quarto e nada. Sala, cozinha, até mesmo no banheiro. Se sentou no pufe que havia na sala e suspirou.
-Não acredito que eu perdi o convite! – Olhava para os lados perdido.
A primeira coisa em que pensou foi ligar para Shura. Ninguém atendeu. O próximo da lista era Máscara da Morte. Também não conseguiu.
-Só me resta, Kanon.
O grego ligou e também não teve êxito. Será que só poderia contar com a própria sorte? Olhou novamente para a agenda e começou a brincar com as pequenas páginas. Uma delas se soltou. Era a letra "D".
Aioros encarou aquilo como um sinal e discou. Começou a chamar.
-Alô? – Perguntou o chinês do outro lado da linha.
-Dohko! Como está?
De repente, ouviram um barulho estranho na ligação.
-Alô? Você está aí, Dohko?
-Sim! Quem é?
-Aioros! Como vai?
-Oi! Nossa, há quanto tempo... Estou bem e você?
-Um pouco desesperado! Será que você pode me tirar uma dúvida?
Dohko franziu a testa.
-Sim... Está com problemas com a justiça, Aioros?
-Não! Hahahaha! Nossa... Também não é assim, Dohko.
-Desculpe, eu não tive a intenção de magoá-lo. Sua voz está um pouco tensa.
-Você sabe se as pessoas têm que apresentar o convite do casamento no saguão do hotel?
-Que convite de casamento, Aioros? Hotel?
-O nome... O nome do hotel era Rax... REX! Era esse! A partir de que horas eles fazem o check-in?
-Eu não estou entendendo... – De repente, Dohko arregalou os olhos – Você está falando do casamento do Afrodite?
-Isso! Eu não deveria estar falando isso com você, mas é que eu não encontrei ninguém em casa, Kanon, Máscara da Morte e Shura saíram, aí a folha com seu nome caiu de dentro da minha agenda, achei que fosse um sinal... Precisam do convite?
-Er... Bem... Acho que sim... Eu não estou entendendo o que você está falando...
De repente, Aioros olhou debaixo do telefone e encontrou o que queria. Um grito invadiu o ouvido do chinês.
-ACHEI!! UHU!! Dohko, você me deu sorte! Valeu, cara!
-Achou o que?
-O convite! Muito obrigado mesmo, Dohko. A gente se vê, né?
-Er... Eu não sei... – O advogado fazia força para tentar entender o que Aioros estava dizendo.
-Até mais!
O grego desligou e colocou o convite na geladeira, com um imã. Correu para seu banho, tinha que dar uma aula ainda naquela noite.
-X-
-Quem era no telefone, Dohko? – Perguntou Lígea ao namorado.
O chinês continuou olhando para o telefone, sem entender nada. Achou melhor não dizer nada para Lígea. Sabia que ali tinha algo de errado.
-Do escritório... – O advogado voltou a olhar para o computador.
-Do escritório a essa hora da noite? São mais de nove horas...
-Meu estagiário... Ele disse que ia ficar lá, pra terminar de ler umas cláusulas...
Lígea olhou para o porta-chave na porta. Apertou os olhos. Sabia que Dohko estava mentindo.
-E você teve coragem de deixar a chave do seu escritório com o seu estagiário?
-O Mike é de confiança.
-Sei... Estou indo dormir, Dohko. Você não vem?
-Já vou, Lí. Só vou terminar de mandar um e-mail e já vou.
A grega deixou a sala e Dohko ficou encarando a página de e-mail em branco. Pensou em mandar um e-mail para Shina, mas achou melhor não.
"Será que ela convidou o Aioros? Será que o Afrodite finalmente o perdoou por tudo? Melhor eu não me meter nas decisões do casal... Melhor eu não tocar no assunto com ninguém."
Desligou o computador, escovou os dentes e foi se deitar. Ao chegar no quarto, Lígea estava lendo papéis impressos de um caso que estava cuidando. Olhou por cima dos óculos quando o namorado se sentou na cama. Mas quando ele foi tentar dar um beijo nela, ela virou o rosto.
-O que foi, Lígea? Deixa eu te dar um beijo.
-Não. – Ela empurrou o peito de Dohko com a mão sem tirar os olhos do papel – Estou ocupada.
-Ocupada com o que? – Agora o chinês estava tentando abraçá-la.
Lígea colocou os papéis sobre o colo e suspirou. Depois olhou seriamente para Dohko.
-São papéis de um caso de assassinato. Me deixa ler em paz, Dohko.
Ele se levantou e começou a tirar a camisa.
-O que aconteceu nesse assassinato, Lí?
-A mulher matou o marido. – Disse com calma na voz.
Dohko se assustou com o conteúdo que a grega lia.
-Como? Por quê?
-Facadas. Traição, mentiras... Ela achava que o marido escondia algo dela... – Disse ela, virando a página.
Dohko, que estava pegando a camisa de seu pijama, parou e arregalou os olhos.
-E ela... Tinha razão em desconfiar dele?
-Absoluta... – Lígea olhou firmemente para o chinês – Ele escondia um segredo dela... Que deu muita confusão depois...
Dohko vestiu a camisa e continuou encarando a namorada.
-Tem gente sem noção no mundo, não Lí?
-Pois é... Mas o pior é que tem gente que TEM NOÇÃO e faz de conta que não tem...
Dohko não respondeu nada. Deitou ao lado dela e logo adormeceu, antes mesmo da luz ser apagada.
"Vamos ver, Dohko, durante quanto tempo você vai tentar me enganar."
-X-
Afrodite sorriu ao ver que tinha finalmente conseguido deixar os arranjos todos prontos para o casamento. A ajuda de Mouses e Asterion foram imprescindíveis. Os companheiros de trabalho de Afrodite eram muito prestativos. Enquanto não estava com Shina, o sueco se divertia muito com eles. Diante disso, como Afrodite não havia tido uma despedida de solteiro, os dois colegas de trabalho o convidaram para ir a uma balada, juntos.
A primeira resposta do biólogo foi não, mas Asterion insistiu tanto que ele por fim acabou cedendo. Antes de sair, avisou a noiva sobre o que ia fazer e com quem ia e depois de várias recomendações, lá estava ele, pronto para sair e mais bonito do que nunca.
-Se a Shina estivesse aqui, vendo você, com certeza ia brigar.
-Não diga bobagens, Asterion. Shina e eu temos uma relação ótima e independente.
-É mesmo! – Riu Mouses – Eu vejo mesmo quem manda na relação.
Afrodite não podia fazer nada a não ser rir junto dos amigos.
-Qual é o nosso destino, rapazes?
-Nordiska House! A melhor balada da Suécia! A Shina também vai ter festinha de despedida de solteira?
-Não. Ela preferiu guardar dinheiro para a nossa viagem de lua de mel.
-Mas festa de despedida são as amigas e os amigos que fazem.
-As amigas da Shina estão uma em cada canto da Europa. Ela avisou todas de sua preferência.
-Vamos? – Perguntou Mouses.
-Vamos logo, antes que eu me arrependa! – Pediu Afrodite.
Entraram no carro de Mouses e rumaram para a melhor balada sueca. Quando chegaram na frente da boate, os três ficaram boquiabertos. Nunca tinham visto uma aglomeração tão intensa. Era realmente o point onde os jovens se encontravam.
Depois de uma hora de fila, os três conseguiram adentrar na casa noturna. O local fervia de calor e com isso, Afrodite precisou dobrar as mangas de sua camisa.
Asterion estava animadíssimo e dançava na pista de maneira descontraída. Sua pele morena e seus cabelos azul petróleo pareciam estar fazendo sucesso. Um grupo de garotas o observava dançar e algumas até se arriscavam a ir para o meio da pista com ele.
Mouses, com seus mais de dois metros de altura, permanecia sentado em um dos bancos que havia no bar. Preferia apenas olhar o movimento de longe. Afrodite estava ao lado dele, mas em pé. Dançava timidamente o rítimo techno que tocava na danceteria. Não demorou para uma primeira garota se interessar por ele.
Era loira, alta, de olhos azuis e atirada. O sueco tentou se desviar das investidas, mas era inútil. Precisou mostrar a ela que usava um anel de noivado.
Pouco tempo depois, Asterion voltou para perto dos outros amigos acompanhado de uma garota baixa, ruiva e de pele clara.
-Vamos dançar, vocês dois! Que graça ficar sentando aí, Mouses? Afrodite, aproveite os seus últimos dias de solteiro!
O dinamarquês segurou Afrodite com sua mão que estava disponível e o puxou para o meio da pista, junto de si e de sua ruiva.
Mouses tomou o último gole do whisky que estava bebendo e resolveu seguir o exemplo de seus amigos.
Ao chegar no meio da pista, Afrodite começou a dançar igual a Asterion. Uma roda se formou ao redor dos dois e além de os observarem, batiam palmas. O sueco, apesar de gostar de ser o centro das atenções, não se sentia bem com todos o olhando.
As mulheres os olhavam fascinadas. Os homens desenvolviam um certo ciúme por Afrodite ser tão bonito.
A sorte também estava sorrindo para Mouses. O jovem de cabelos verde-musgo tentava trocar algumas palavras com uma norte-americana que estava em férias na Suécia.
Depois de um bom tempo dançando, Afrodite se cansou e voltou para o bar, para beber um pouco de água. Enquanto ele pedia a bebida, foi abordado por um rapaz de cabelos curtos, quase brancos de tão loiros. Olhos pequenos e uma camisa bem colada em seu corpo cheio de músculos.
-Olá... Te vi dançando no meio da pista... Você dança muito bem.
-Obrigado. – Afrodite abanava seu rosto com a mão à espera do liquido que ia saciar sua sede.
-Você está sozinho? – Perguntou o garoto para o biólogo.
-Não... Meus amigos estão dançando também.
-Meu nome é Breno... E o seu?
-Afrodite.
Breno sorriu quando recebeu a resposta de Afrodite. Estava com um copo com um líquido verde, cheio de gelo. Ofereceu ao sueco.
-Não, obrigado. Minha água já vem.
O barman voltou com a água que Afrodite tinha pedido e esse o agradeceu. Quando ele fez menção de voltar à pista, Breno segurou em seu braço. O sueco parou e franziu a testa para o rapaz.
-Você é muito bonito...
-Obrigado... Você poderia me soltar, por favor? Eu quero voltar para a pista.
Breno o soltou e quando Afrodite se virou de costas, o rapaz se aproveitou desse fato.
O rosto do sueco corou imediatamente após a ação do loiro. Voltou a olhar para o rapaz, com muita raiva.
-O que pensa que está fazendo?
-Você é tão lindo, preciso tirar uma casquinha. – O loiro deu uma breve piscada para ele.
-Eu sou noivo! Me respeite!
-Humm... – Breno olhou para os lados – E ele está por aqui?
-O que você disse? ELE?
-Sim... – O sueco sorriu – Eu sei que você joga... No mesmo time que eu. Reconheço isso de longe. Essa pintinha no seu rosto é tão sexy... É de verdade?
Afrodite agarrou o rapaz pela camisa e o aproximou de seu rosto.
-EU NÃO SOU GAY! OUVIU BEM?
-Eu entendo o seu medo... Não são todos que assumem...
A vontade do biólogo naquele momento era de dar um murro bem dado naquele rapaz atirado e insolente. Porém, optou resolver as coisas de uma maneira mais branda, pois sabia que se socasse o rapaz, ia ser expulso da festa e talvez passar o resto da noite numa delegacia.
-Procure outra pessoa para satisfazer as suas fantasias, panaca!
Largou o rapaz e foi procurar seus amigos. Queria ir embora.
-Asterion, podemos ir embora? Já me diverti o suficiente.
O dinamarquês olhou no relógio e protestou.
-Ainda são duas da manhã, Afrodite! Vamos curtir mais!
-Eu não quero mais ficar aqui, Asterion. Vamos embora.
-Vejá só! Até o Mouses está curtindo! – Apontou Asterion em direção do neozelandês e viu que ele estava beijando a garota que havia conhecido.
-Tudo bem, eu vou embora sozinho.
-Espera aí!
Afrodite não ouviu o chamado de Asterion. Caminhou em direção ao caixa, pagou o que precisava e saiu o mais rápido possível da casa noturna.
Enquanto esperava pela aparição de um táxi, começou a ouvir pessoas se aproximando. Arregalou os olhos mais que pôde ao ver que Breno estava liderando um grupo de pessoas.
-Vejam! Lá está ele! – Apontou o loiro o olhando com raiva – Ele quase me bateu!
Afrodite olhou aflito para a rua. Nenhum táxi aparecia. Só carros em movimento.
De repente o grupo que estava andando começou a correr em sua direção.
"Meu Zeus! O que foi que eu fiz contra o Senhor?"
Sabia qual seria o seu destino se ficasse parado. Correr era a melhor solução. Seus sapatos novos o faziam patinar enquanto corria e sua expressão facial era de extremo desespero. Se o pegassem, iriam detonar a sua aparência impecável e o pior: Seu casamento estava para acontecer. Rezava em todas as línguas que conhecia por clemência.
A distância entre e ele e o grupo de pessoas ficava menor a cada quarteirão. Não imaginava que possuía um fôlego tão forte, sua barriga começou a doer de falta de ar.
"O Senhor precisa me ajudar! O Senhor sabe que eu não fiz por mal!"
Já estava quase desistindo de correr quando viu a salvação próxima dele. Zeus havia atendido suas preces. Um táxi apareceu e ele entrou na frente do carro. O veículo parou.
-FICOU LOUCO? – Gritou o motorista.
-Abre!! Por favor! – Afrodite forçou a maçaneta até que o táxi destravou a porta.
O sueco se jogou no banco, caindo no colo de uma senhora de idade avançada.
-Minha nossa! – A senhora pegou o jornal que estava no carro e começou a bater na cabeça do sueco.
Uma garrafa acertou o vidro do passageiro da frente. Pessoas começaram a se aproximar do carro, gritando.
-PISA FUNDO!! – Gritou Afrodite ainda mais.
O motorista resolveu atender o pedido do rapaz.
-Sai daqui! – Gritava a senhora ainda batendo na cabeça do biólogo.
-Calma! Por favor! Não vou fazer nada com a senhora! -Afrodite segurou o jornal e se sentou ao lado dela.
Já longe do tumulto, o motorista começou a resmungar.
-Você é um louco! Quebraram meu vidro por sua causa!
-Eu vou pagar... – Disse ele enquanto seu coração parecia querer sair pela boca – E pago a corrida dessa senhora também.
-Mas veja só que jovem gentil... – Disse ela rindo para ele.
"Nunca vou entender as pessoas... Há minutos atrás ela estava querendo me matar com o jornal... Maldito dinheiro!"
O taxista deixou a senhora em seu destino e depois seguiu para a casa do biólogo. Quando viu o casarão, assobiou.
-Será que 120 euros resolvem nossos problemas? – Perguntou Afrodite já descendo do carro.
O motorista olhou para o vidro, depois para a casa do sueco.
-150 e não se fala mais nisso.
Afrodite olhou com raiva para o motorista. Deu mais 30 euros e o táxi acelerou, sumindo de sua vista. Suspirou aliviado ao entrar pelos portões de sua casa. Quando um portão se chocou com o outro, passou a mão em sua testa. Ainda suava.
"Céus... Essa foi por pouco! Desejava mesmo era dormir e acordar somente no dia do meu casamento!"
