A Princesa Palatina estava sentada na secretária de sua saleta particular em Saint-Cloud. Havia aproveitado aquele breve momento de sossego para escrever uma carta à sua querida tia Sophie. Posto que se correspondessem frequentemente, o nascimento de Alexandre havia interrompido, ainda que por um curto período o fluxo epistolar entre as duas damas.

"Minha muito estimada tia,

Espero que esta carta encontre a senhora, o meu tio Ernst, meus primos e minha querida priminha, todos com excelente saúde e em grande estado de felicidade. Peço-lhe que me desculpe a demora em escrever, mas como deve ter adivinhado, meu primeiro filho e, provavelmente o único, nasceu. É um lindo menino. Monsieur deu-lhe o imponente nome de Alexandre-Louis. Não sei se todas as mães são assim, mas acho meu bebê muito lindo. Ele sorri o tempo todo e eu poderia passar a maior parte do meu tempo a olhá-lo e seria uma mulher muito feliz e bem ocupada.

Uns dizem que ele é parecido comigo, outros afirmam que ele é idêntico a Monsieur em criança. Meu marido garante que o menino é igualzinho a ele quando tinha a mesma idade, o que já lhe valeu várias sentenças irônicas do rei, seu irmão, curioso de como ele se lembrava de si próprio com menos de dois meses de idade. Philippe não se deixou abater e foi buscar um retrato antigo e umas miniaturas que pertenceram à rainha-mãe. O rei teimou que o retrato não se parecia em nada, que o modelo das miniaturas era ele e não Philippe, enfim, aqueles dois adoram teimar entre si. Mas uma coisa há que se dizer, o pequeno promete ser voluntarioso como o pai. Tem muita fome, gosta de atenção e quando não é atendido com presteza, chora a valer. No fundo espero que ele seja ele mesmo, único e incomparável.

O nascimento do pequeno Alexandre alivia as pressões sobre nós dois. A hipótese de ser repudiada ou de um divórcio por motivo de infertilidade está agora descartada. Não que eu julgasse Philippe capaz de tais ações, mas nunca se sabe o que vai na mente daqueles que resolvem nossos destinos. Não tendo mais a obrigação de produzir um herdeiro masculino, Monsieur pode se dedicar aos afetos e às atividades que realmente lhe proporcionam prazer. Ele é um homem culto, um conhecedor profundo das artes e um generoso mecenas para vários artistas. Gosta também de reformas e melhorias, ultimamente vive ás voltas com arquitetos e pintores.

De minha parte, em pouco tempo retomarei minhas cavalgadas, minhas leituras e meus escritos. Além, do meu filho, há as duas meninas, filhas do primeiro casamento de Philippe. São encantadoras, uma delas ainda é bem pequena. Precisam de atenções e cuidados, e como a senhora bem sabe, eu sempre fui louca por crianças. Lembro-me constantemente de meus meios-irmãos. Sinto a falta deles, principalmente dos menores. Por falar nisso, meu irmão Karl esteve adoentado, mas agora já está bem.

A vida é imprevisível na maior parte das vezes. Dificilmente acontece da forma que sonhamos e desejamos. E a senhora, mais que ninguém, sabe em quem estou pensando e ao que me refiro. Mas não olho para trás. O passado é só lembrança. Nunca pensei que me casaria com quem me casei, que viveria onde vivo, que levaria essa vida de rígidas convenções na qual procuro me movimentar sem grandes erros. E na qual tento causar o minimo de danos, sobretudo a Philippe, por quem tenho um imenso carinho. Tento não ser um peso para meu marido, trabalho sempre no sentido de deixar a vida dele mais leve e fácil. Por comparação, vendo os tipos de homem que evoluem nestes salões, reconheço nele excelente caráter e um grande coração. Gostaria que a senhora pudesse um dia nos visitar e conhecer a nossa família.

Um grande beijo de gratidão por tudo o que a senhora fez por mim. Meu pequeno Alexandre só precisa crescer mais um pouco para aprender a respeitá-la e amá-la como eu, minha querida tia. Que Deus abençoe a todos vocês.

Liselotte"

Dobrou cuidadosamente, lacrou com seu sinete e chamou o criado para enviá-la. Depois foi para o jardim encontrar Sophie, as enteadas que brincavam e a ama com o bebê. Olhou para o céu firme e para as árvores. Fazia, indiscutivelmente, um lindo dia de verão.

FIM