Capítulo 14: Tsumi no Irezumi

Nota da autora: Olá! Esse capítulo volta um pouco no tempo. Vocês se lembram que, no começo da fic, eu disse que Riza foi até a fronteira entre Amestris e Drachma? Pois bem, ela não foi lá à toa. Voltemos algumas semanas no tempo, e vejamos o que realmente aconteceu. Antes, algumas coisas precisam ser ditas. São informações do mangá, que eu coletei com amigos, e que serão aproveitadas apenas parcialmente. Aos fãs do mangá, por favor, não me maltratem, são apenas idéias soltas aproveitadas no contexto da fic. E aos que não conhecem, tudo bem também, porque isoladamente não são spoilers, e eu não vou estragar a festa de vocês. Então... respondendo às reviews...

Lika Nightmare:Você sem criatividade? Ah, tá, conta outra que essa não cola... ¬¬'... Hehehe, mas obrigado pela review mesmo assim, tá?

Clara Evans: Olá! Bem, você não é a primeira pessoa que me fala que o filme não ficou grande coisa., mas por favor, vamos evitar os spoilers porque eu ainda quero assistir. Mas obrigado pela review super-duper-legal! E acredite, nenhuma fã é chata (especialmente para alguém como eu, que já tem tão poucas e não pode ficar se dando ao luxo de perder as que têm...). Agora vou ter tempo de escrever, tô de férias e vou seguir a fic num ritmo legal.

Dóris Bennington: Ai, gente... Eu sei, meninas, vocês querem EdWin, e eu já vou avisando que vai rolar (até mais rápido do que vocês imaginam), mas por enquanto vamos ter que deixar o romance um pouquinho de lado. Quanto a você não entender, bem, é porque, por enquanto, não há muita coisa pra entender mesmo. Mas as coisas vão se esclarecer em mais alguns capítulos. Daqui para frente, vou tentar fazer a fic mais rápida, para que ela não fique tão longa (mas vai acabar ficando, de qualquer jeito). De qualquer forma, vou fazer o possível para esclarecer tudo em breve.

OK, agora que já respondemos as nossas reviews, podemos prosseguir! Ao capítulo!

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"Olha só o que você me faz passar, seu velho idiota!".

Riza olhava pela janela do trem, entediada. Se havia alguma coisa que ela odiava no mundo, essa coisa era neve. A simples idéia daquela coisa gelada, insossa e branca já a deixava cansada. Por que, depois de tantos anos, ele resolvera se enfiar naquele lugar esquecido por Deus? Por quê?

Riza era uma das filhas do deserto, um nome que designava todas as mulheres descendentes dos povos dos desertos do leste. Apesar de seu pai ser amestriano de Youswell, sua mãe era descendente direta de Ishbal, e dela Riza herdou os olhos castanho-avermelhados. Talvez por isso o deserto, quente e seco, exercesse tanto fascínio sobre a major. Mas agora, a idéia de ter que enfrentar um lugar que odiava por uma pessoa que odiava igualmente lhe parecia cada vez mais absurda.

O trem parou, rangendo as rodas. "Eu não esperava nenhum comitê de boas-vindas, mas podia ao menos mandar alguém para me receber", ela pensou, olhando a janela. De qualquer forma, não importava. Pretendia ficar lá o mínimo possível e, se conhecia bem o sr. Angus Hawkeye, ele também não apreciava muito a presença dela por perto, desde aquele dia...

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Riza fechou os olhos, e sentiu as lágrimas queimarem neles. Na mão direita, cerrada, estava a ficha de inscrição para a prova de admissão da academia de cadetes do Exército de Amestris.Os cabelos, longos, caíam-lhe pelo rosto, escondendo-o. Mas ela recusou-se a chorar, e sibilou, com uma raiva há muito tempo contida:

Você não irá me proibir, entendeu? Nem você nem ninguém!

Com quem pensa que está falando, menina? – o homem à sua frente, louro, alto e forte, riu com um deboche que provocou ânsias em Riza – Você fará o que eu mandar, entendeu? Preciso de alguém para me ajudar em minhas pesquisas. Além do mais, em breve o meu aluno vai chegar e vou precisar das informações que estão com você.

Eu não quero ser seu quadro-negro, tá bem? – ela se exasperou, os olhos faiscando de ódio – É o meu futuro! Eu vou me juntar à tropa do Exército quer você queira quer não! – ela parou, ofegante,encarando-o profundamente – E você não irá me impedir!

Ah, é, quer ver? – ele fez um gesto rápido de mãos, e de repente faíscas elétricas começaram a surgir por todo lado – Vai querer mesmo se meter com o Alquimista Eletromagnético?

Acha mesmo que eu não consigo? – ela cerrou um punho – Não preciso da sua maldita alquimia para me virar. Aliás, não preciso de nada relacionado a você para me virar, ouviu bem? NADA!

Ela se virou, altivamente, e começou a subir as escadas que levavam ao seu quarto em passos largos, mas ele segurou-a pelo pulso dizendo:

Você não vai simplesmente me deixar aqui falando sozinho, menina!

Não me toque, seu patife! – ela puxou o braço, com força, mas ele não soltou – Minha mãe já assinou a autorização, e eu não preciso da sua permissão para nada!

Você não entende, não é? – Angus agora assumia um tom baixo e calmo, como se tentasse convencê-la por bem – Estou lhe ensinando algo que pode mudar a sua vida para sempre!

Não quero viver sob a sua sombra, pai – com um movimento brusco do pulso, conseguiu se soltar, e retrucou com ironia na voz – Vou chegar muito mais longe do que você jamais sonhou, e pelo meu próprio mérito, não graças a um inútil como você!

INSOLENTE! – o homem berrou, exasperado, e deu uma bofetada no rosto dela, fazendo-a se desequilibrar e quase cair da escada – VOU LHE ENSINAR BOAS MANEIRAS! – e ergueu a mão para acertá-la novamente, antes que ela se recompusesse, mas...

PARE AGORA MESMO!! – então, uma voz vinda da porta o interrompeu – O QUE ESTÁ HAVENDO AQUI? POR QUE ESTÁ BATENDO NELA?

Emily? – ele estreitou os olhos, ao focalizar a mulher baixa e miúda com cabelos negros escuros e olhos castanhos-avermelhados – O que está fazendo aqui?

Solte a minha filha agora mesmo, seu animal! Riza, venha para cá! – a mulher começou a sapatear, furiosa – Quem pensa que é para bater nela?

É o que nós fazemos com crianças malcriadas, Emily – respondeu o homem, seco – Não se meta, ou vai levar também, ouviu?

Acho que pelo menos uma coisa você me ensinou, pai – então, ele ouviu a voz de Riza. Baixa. Fria. Austera e sem emoções – Nunca... baixe... a sua... GUARDA!

E então, com um movimento rápido, ela se abaixou, deu uma rasteira nele e o jogou no chão, depois pisou em seu pescoço, não forte o suficiente para sufocá-lo, mas apenas para imobilizá-lo. Os olhos dela brilhavam com uma intensidade diferente, que o fez tremular. Sim, aquele brilho insano... o brilho que só os olhos dos ishbalianos tem...

POF! Com um salto, ela acertou um chute diretamente em sua cara, atordoando-o. Depois, ela encarou a mãe, os olhos brilhando de ódio, enquanto desabotoava a blusa.

Olha o que o canalha do seu marido fez comigo – e arrancou a blusa, exibindo uma imensa tatuagem nas costas. Emily arregalou os olhos, mas não conseguiu dizer nada – É por isso que ele não quer que eu me vá, porque toda a maldita pesquisa dele está tatuada nas minhas costas.

Emily, não acredite nisso... – balbuciou Angus, ainda caído, mas Riza respondeu acertando-o novamente no rosto, e retrucando, entre os dentes:

Eu não vou ficar nem mais um dia nessa casa. Minhas malas já estão prontas, e quer você queira, quer não, eu vou embora, nem que não consiga entrar na Academia – encarou a mãe – Se quiser, você pode vir comigo, eu sei o que ele faz com você.

Riza, entenda, eu não posso... – Emily começou, mas a garota a cortou, dizendo:

Não seja covarde, uma vez na sua vida! Venha comigo... ou fique para trás, porque eu não vou voltar.

O olhar triste e desiludido da sua mãe era resposta suficiente. Lançando aos dois um último olhar de decepção e raiva, correu até seu quarto, pegou suas malas e disparou em direção à porta. As economias que tinha eram mais que suficientes para pagar o trem, a inscrição e a estadia até o término das provas. E, depois, vida nova... Uma vida nova em que seu pai não tinha lugar...

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"Igual à nossa casa em Youswell... escura, fria, empoeirada e cheirando a mofo..."

Ela apertava em sua mão o papel com o endereço da casa, e agora parava em frente à porta aberta para a sala. A casa era muito parecida com aquela de sua infância e adolescência, e o mesmo detalhe perturbador na casa de Youswell também aparecia naquela sala: um enorme símbolo, parecido com a letra ômega, no chão, feito com tabletes de ébano no chão de madeira clara.

"O círculo da morte... o fim de tudo, assim como o ômega é o fim do alfabeto", ela pensou, tentando entender qual era a atração mórbida que o seu pai tinha por aquele símbolo. Ele usava, tatuado no pulso, o mesmo sinal. Foi por isso que não se envolvera com a alquimia: independente do tipo de transmutação realizado, ela sempre tinha uma conotação de morte, de destruição, de decomposição para que algo novo fosse criado. E ela tinha medo de pensar no que aquele círculo era usado...

–O que está fazendo aqui, Riza Hawkeye? – uma voz roufenha e áspera soou do andar de cima. "Bata continência, Riza, ele é seu superior!", ela pensou, ao lembrar-se que tinha ouvido em algum lugar que ele havia conseguido ser promovido a general de brigada. A continência foi desajeitada, feita de má-vontade, e ela sabia que ele tinha percebido – Uma missão oficial, talvez? E pare com essa bobagem cerimoniosa, eu já me desliguei do exército há anos.

–Na verdade, estou aqui a mando do coronel Roy Mustang, sr. Hawkeye – até a ela soava estranho chamar alguém pelo seu próprio sobrenome, mas mais estranho ainda seria chamá-lo de pai, algo que ela jurou jamais fazer novamente – O senhor, como especialista em alquimia por excelência, poderia nos esclarecer algumas dúvidas a respeito de uma série de crimes.

–Vocês já não tem investigadores suficientes para isso? – Angus sorriu, debochado, enquanto descia as escadas para encontrá-la pessoalmente. Ele não havia mudado em nada... absolutamente nada... Ainda era alto, os cabelos ainda tinham alguns traços louros entre os fios grisalhos, o formato do rosto... Sim, ele era muito parecido com ela própria, uma semelhança que chegava a ser assustadora. Pelo menos os olhos dela eram diferentes: enquanto os dele eram cinzentos, os dela tinham a cor da terra de Ishbal.

–Na verdade, contratamos a melhor do país, e estamos apenas esperando que ela chegue até a Cidade Central para começar a trabalhar – Riza se forçou a controlar a raiva – Mas infelizmente não dispomos de ninguém com o conhecimento em alquimia que o senhor tem, e por isso precisamos da sua ajuda.

–Por que está agindo como se não me conhecesse, Riza? – ele começou a provocá-la – Vamos, não precisamos agir com essa frieza mútua...

–Precisamos sim, sr. Hawkeye – ela o cortou, encarando-o com um olhar gélido – E, para ser bem sincera, eu odeio este lugar, odeio o frio que está fazendo e quero ir embora o mais rápido possível, então será que podemos manter essa conversa num nível estritamente profissional?

Angus se assustou, e recuou dois passos. "Talvez só agora ele tenha percebido que eu não sou mais uma garota de dezesseis anos, e sim uma mulher adulta. Talvez ele tenha ficado espantado pelo fato de eu não ser igual à minha mãe... De qualquer forma, não sou a mesma que partiu naquele dia."

–C-como quiser, Ri... tenente Hawkeye.

–Na verdade, é Major Hawkeye – ela o corrigiu, enquanto estendia alguns papéis para ele – E então, o senhor deve saber dos assassinatos cometidos por uma organização chamada Black Rose. Temos razões para acreditar que eles usam alquimia, mas não temos evidências concretas, por enquanto. Precisamos saber qual é o tipo de alquimia que eles usam e, principalmente, o que querem.

–O Exército sempre coloca seus maiores abacaxis nas mãos dos alquimistas federais... – Angus deu um sorrisinho debochado, enquanto passava a vista sobre os papéis – Hum... entendo... sem sinais de agressão externa... criminosos que praticamente evaporam no chão... Vocês estão com um caso bem interessante nas mãos... Mas acho que não posso ajudar.

–Não pode? – mais uma vez, o autocontrole de Riza foi testado – Ótimo... Eu bem que avisei ao coronel a perda de tempo que seria vir aqui, mas tudo bem... eu já estou indo...

–Espere um pouco! – ele a cortou, e ela se virou – Eclipse? É esse o nome de um deles?

–É uma mulher – respondeu ele – Achamos que ela é a alquimista mais poderosa, mas não sabemos quase nada a respeito dela. Aqui está uma foto – ela deu a ele uma foto da mulher – Achamos que ela não é amestriana, mas o albinismo dela nos impede de determinar de onde ela é com certeza.

–Ela é das Ilhas do Leste, com certeza – ele respondeu, com um sorrisinho – O formato dos olhos é inconfundível, puxados, mas não tão estreitos quanto os das mulheres de Xing.

–Isso explicaria o fato de ela ser a alquimista-mor da Black Rose! – disse Riza, mais para si do que para Angus – A alquimia das Ilhas é muito mais antiga que a daqui, e muito mais desenvolvida...

–Foram eles que me ensinaram o significado do círculo da morte – Angus começou a falar, e Riza abaixou a cabeça, impaciente. "De novo esse maldito círculo..." – Um ciclo com começo e fim... mas, ao contrário do que todos pensam, ele não foi feito para matar pessoas...

–O quê? – ela ergueu os olhos, confusa – Mas... para que ele serve, então?

–Na verdade, ele não é um círculo de transmutação propriamente dito – explicou ele – Sozinho, ele não é usado para realizar alquimia, e sim para controlá-la. Isoladamente, ele costuma funcionar como uma marca, e aliado com outros círculos, pode ter uma função diferente, como um lacre. Geralmente, ele é mais usado para transmutações que envolvem vidas humanas, não para tirá-las, mas para transformá-las em algo diferente.

–Lá vem você de novo com essa palhaçada a respeito de transmutação humana – ela deu de ombros, aborrecida – Olhe, é impossível realizar esse tipo de transmutação, e sei disso porque já conheci alguém que tentou. Hoje, nem sei mais se ele está vivo ou não.

–Sua mente é tão minimalista, Riza... – ele sorriu, irônico – A transmutação humana não se resume a trazer pessoas de volta à vida, o que é realmente impossível. Ela pode tratar de manipulação de almas, de unir duas ou mais almas e criar algo mais forte, sem contudo matar o dono dessa alma.

–Se está falando da Pedra Filosofal, esqueça, porque eu também sei o que ela faz – ela o cortou mais uma vez – Esqueça, eu não quero saber desse tipo de coisa. Já convivi com almas seladas a armaduras, homúnculos, conheci casos de pessoas que passaram séculos trocando de corpos...

–Não acho que a Black Rose seja amadora a ponto de repetir esses truques velhos, jovem major Hawkeye. É melhor reportar tudo o que eu disse a seu superior, porque um dia vocês vão se lembrar dessas informações. E a garota das Ilhas é perigosa, tomem cuidado com ela.

–Seja sincero, sr. Hawkeye, o senhor está mesmo me contando tudo o que sabe? – ela ergueu uma sobrancelha. Como ela podia saber tão bem quando ele lhe escondia algo? – O seu fascínio por esse símbolo parece ser inversamente proporcional ao seu conhecimento a respeito dele...

–Sim, ele me fascina, e eu realmente sei algo a respeito dele – os olhos cinzentos dele faiscaram insanamente – Nas Ilhas, ele é chamado de Shinu no Junkan, e tem muitos poderes... infelizmente, muito poucos sabem usá-lo, e eu não sou um deles. Mas sei que, se bem utilizado, pode permitir a qualquer um manipular a sua própria alma, transferindo-a para outros lugares... E, diz a lenda, uma pessoa cuja alma está marcada com esse símbolo tem poder pleno sobre qualquer alma.

–Que tolice! – Riza quase riu – Como alguém pode ter uma alma marcada? Por favor, eu sou uma pessoa racional, e preciso de fatos, não de lendas!

–Essa marca só pode ser feita num inocente, por um pecador. É por isso que é chamada de Tsumi no Irezumi, ou, numa adaptação para a nossa língua... a Marca do Pecado – ele disse num tom baixo e reverente – A pessoa que leva essa marca, apesar de tornar-se impura, tem poderes extraordinários, uma inteligência fora do comum e uma incrível sensibilidade no que diz respeito à morte. Mas, para marcar alguém com esse sinal, é preciso dar algo muito poderoso em troca, e eu não sei de ninguém que tenha tentado.

–E o que o senhor está insinuando? Que, entre o pessoal da Black Rose, há algum super-homem ou mulher-maravilha com essa marca? – Riza não escondia o tom jocoso de sua voz – Ora essa, me poupe! Eu preciso ir, ou vou perder o último trem. De qualquer forma, obrigada pela ajuda mesmo assim, apesar de não ter sido muito útil...

Ela deu as costas, rindo mentalmente do que havia acabado de ouvir. Almas marcadas, isso era o fim! Quando já se dirigia à porta, porém, ouviu-o dizer:

–Você se tornou uma bela mulher, Riza. Se soubesse o quanto você está me lembrando a sua mãe...

Ela hesitou por alguns instantes, sem se virar, mas logo depois, sem dizer nada, continuou seu caminho em direção à porta e saiu. Como ele se atrevia a citar a mãe dela? Ele mesmo foi o responsável pela destruição dela, e era um hipócrita por mencioná-la!

Emily Hawkeye era miúda, tinha a pele morena e longos e ondulados cabelos negros. Os olhos, castanho-avermelhados, eram iguais aos seus, vivos, doces, faiscantes. Mas a mãe dela, apesar de ser uma mulher boa e gentil, de amar as pessoas e se dedicar a elas, não tinha a mesma determinação e força de Riza. Não, isso ela foi obrigada a aprender sozinha, enquanto lutava para que a reconhecesse não somente como a filha do lendário Angus Hawkeye, mas como uma oficial que tinha todas as condições de também se tornar lendária. Sua mãe, por outro lado, era capaz de abrir mão de tudo, até da própria dignidade, para fazê-lo feliz. De tão boa e dedicada, acabou se tornando fraca.

Depois que Riza foi embora, Emily embarcou numa jornada autodestrutiva. Sem ter quem a defendesse contra os ataques verbais e até físicos de Angus, tornou-se uma mulher cada vez mais triste e deprimida, e acabou ficando doente, por causa do excesso de remédios e de bebidas. Por fim, apenas dois anos depois da partida de Riza, ela soube que a mãe havia morrido. Angus não comparecera ao enterro, mas alguns anos depois pediu que as relíquias dela fossem transferidas de Youswell para o cemitério daquela cidade de fronteira, na neve. Uma coisa que Emily também odiava.

Antes de ir embora, porém, ainda restava algo a se fazer...

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Aquela era a primeira vez em anos que Riza usava um vestido. Desde que entrara para a Academia, praticamente só vestia os uniformes de cadetes de lá. Mas aquela ocasião era diferente. De uma forma estranha e mórbida, poderia até ser considerada uma ocasião especial, dito que "especial", no sentido estrito da palavra, significava simplesmente algo fora do comum.

Ali, sozinha, parada em frente ao túmulo da mãe, pensava no que havia acontecido entre o momento que deixara sua casa para trás e aquele momento. É claro que amava a mãe, é claro que seu coração estava sangrando muito e que aquilo lhe doía terrivelmente, mas por alguma razão não conseguia chorar. Seus olhos estavam secos e límpidos, sem nenhum sinal de lágrimas, e quem a visse ali poderia considerá-la insensível e até mesmo má.

Mas nenhum deles sabia que a pior dor de todas é aquela pela qual não se consegue chorar.

De certa forma, era responsável por aquilo. Se tivesse ficado, talvez conseguiria ter salvo a sua mãe de si mesma, mas... provavelmente, muito antes disso, as coisas teriam saído do controle, e uma desgraça poderia ocorrer. O verdadeiro responsável, chegou à conclusão, não era ela. Era seu pai, o patife do seu pai, que gostava de brincar com a vida das pessoas e torturar aqueles que o amavam. Doía nela quando as outras garotas riam do fato de ela só usar camisas escuras de gola alta, estando frio ou calor. Mas sabia que, se vissem a imensa tatuagem em suas costas, os risos seriam ainda mais cruéis, e isso ela não podia suportar.

Ele nem se deu ao trabalho de ir ao enterro. Ótimo, seria muita hipocrisia da parte dele ir até lá. Mas, de certa forma, sabia que ele tinha consciência de que aquilo era culpa sua. A família dela, de Ishbal, também não foi, e isso era algo que ela realmente lamentava. Na verdade, a única que realmente tinha algum laço sanguíneo com Emily, naquele lugar, era ela.

Não havia mais nada que pudesse fazer. Encarando o túmulo de sua mãe uma última vez, ela depositou sobre a lápide um pequeno buquê de rosas brancas. Depois, deu as costas e não olhou para trás uma única vez, enquanto se afastava daquele lugar – para nunca mais voltar.

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"Bem, analisando friamente, eu cumpri a minha promessa... depois daquele dia, nunca mais coloquei meus pés em Youswell..."

Fazer piadas de si mesma definitivamente não era o forte de Riza, porque nem mesmo ela achava que aquilo fosse engraçado o bastante para se fazer piadinhas. Mais uma vez estava parada em frente ao túmulo de sua mãe. Dessa vez, porém, teve que se ajoelhar e tirar a neve fofa de cima da lápide, para poder lê-la e ter certeza de que era ela.

Há muito tempo, deixara de questionar o que acontece depois que alguém morre. Mas, na época, quase ficou louca. Haveria mesmo algo do outro lado? Ou a morte era o fim definitivo e implacável de tudo? Onde estaria ela, naquele momento? Isso era algo que a alquimia não conseguiu explicar. Mas, depois de ir para Ishbal e ver tantas mortes, deixou de pensar a esse respeito. Sua hora chegaria, ela sabia, mais cedo ou mais tarde, e quando chegasse ela descobriria. Não havia motivos para tentar apressar as coisas.

"Desculpe, mãe, dessa vez eu precisei vir, mesmo prometendo que jamais voltaria para casa", ela começou a dizer, mentalmente. "Pessoas estão morrendo, e eu pensei que ele poderia ajudar... talvez alguma coisa que ele tenha dito até faça sentido, seja real, mas não posso confiar totalmente. Tudo o que sei é que, agora, o coronel Mustang precisa da minha ajuda mais do que nunca. Quem sabe...".

Foi então que pensou em algo que talvez pudesse ajudar...

Rapidamente, registrou-se na única pensão da cidade para passar a noite lá. Depois, trancou-se em seu quarto e tirou a parte de cima de suas roupas, revelando seu busto. A pele dela, pálida, contrastava com as linhas escuras tatuadas em suas costas. Só ela sabia o quanto aquilo havia doído... e a cada vez que olhava para ela... mas agora tinha coisas mais importantes com o que se preocupar.

E lá estava ele. O ômega. Um pouco disfarçado, mas ainda assim era ele, bem perto da base do pescoço. A parte de cima da curva, substituída pelas palavras "Igne Natura Renovatur Integra", ou A natureza é completamente renovada pelo fogo. Se havia uma coisa capaz de fascinar o sr. Hawkeye tanto ou mais que o círculo da morte, era o fogo. "Roy adoraria ver isso, por vários motivos...", ela pensou, dando um sorriso enviesado.

Geralmente, ela evitava ficar observando com muita atenção aquelas marcas em suas costas, mas naquela hora, à medida que olhava, ficava cada vez mais fascinada. Nada daquilo fazia sentido, ainda, do mesmo jeito que não fazia na época em que recebeu aquelas marcas, mas agora... bem, agora precisava investigar a fundo. Fosse o que fosse a tal Marca do Pecado, descobriria. Mas, por enquanto, era melhor não afligir Roy com suas descobertas. Ele ainda estava abalado – e ela se perguntava se, um dia, ele se recuperaria totalmente – e Marion Hughes, a investigadora, era o ceticismo em pessoa, e jamais levaria aquela história a sério. Sua lista de ajudantes, então, se via reduzida.

Então, lentamente, vestiu novamente sua blusa preta de gola alta, que escondia totalmente a tatuagem. O círculo da morte de seu pai, então, tinha algum sentido além da simples destruição... mas o quê? Será que isso teria alguma relação com o fato bizarro de vários corpos nem apresentarem sinais de violência? Ela não podia negar o fato de que almas humanas eram poderosas demais. Lembrava-se dos anos em que Alphonse Elric ficou selado a uma armadura, e sua alma a fazia se mover, ver, ouvir e falar. Lembrou-se das ocorrências da Pedra Filosofal, um ajuntado de centenas e centenas de almas, e sabia que aquele material era um dos mais poderosos existentes no mundo. E, principalmente, sabia que, se eles estavam fazendo algo relacionado ao uso e transmutação de almas humanas, tudo mudava.

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Você está pedindo para jogar um jogo perigoso, major Hawkeye – a frase de Roy soou mais sarcástica do que ela gostaria. Por que o pedido para integrar as equipes de investigação parecia tão absurdo assim para ele? – Estamos enfrentando pessoas que não conhecemos, que tem um objetivo que não sabemos. Tudo o que sabemos a respeito deles é que matam pessoas de uma forma absurdamente fria, e não temos a menor idéia de quem será o próximo. É por isso que quero que vá falar com o sr. Angus Hawkeye para ver se ele pode nos ajudar.

O QUÊ? – os olhos dela se estreitaram, furiosos, e de repente todo o decoro profissional foi para o espaço – Por que está me pedindo isso? Sabe que... sabe que não nos falamos há anos!

Acontece que não estou mandando você até lá como Riza, entende? – o tom de voz dele se tornou mais sério e melancólico – Estou mandando você como a major Hawkeye, meu braço direito e a pessoa em que eu mais confio nesse mundo. Sei que vai se sair bem, e não faria isso se não soubesse.

Mas... eu... ah, está bem, senhor! – ela concordou, por fim. Se ele dizia que sabia o que estava fazendo, acreditaria – Mas não posso prometer nada.

Tudo bem – ele sorriu – Apenas vá e traga o que você puder, e eu me dou por satisfeito.

Ela saiu da sala dele, séria. Ele disse que sabia o que estava fazendo. E, mais uma vez, depositaria toda a sua confiança sobre ele. Roy nunca a trairia. Disso, pelo menos, ela tinha certeza. A única coisa da qual poderia ter certeza naquele momento...

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Nota da autora: Olá! E então, o que vocês acharam desse capítulo? Eu já aviso: prestem atenção no que o senhor Hawkeye disse, porque isso vai influenciar TODA a fic daqui para frente. Mas sinto que preciso fazer alguns esclarecimentos.

1-Como eu já disse no começo, o que eu falei aqui não pode nem ser considerado spoiler do mangá. A tatuagem existe, sim, o pai da Riza é realmente um alquimista (inclusive ele foi sensei em alquimia do Roy), mas tudo pára por aí. Pra começar, eu dei uma interpretação totalmente diferente à tal tatuagem (no fórum Fullmetal Alchemist BR, vocês encontram um tópico analisando a tatuagem). Segundo, eu não mencionei no capítulo o fato do sr. Hawkeye ter sido sensei do Roy. E, terceiro, céus, eu nem sei o nome do cara, eu coloquei esse porque achei que era bem sonoro.

2-Eu não falo japonês. Meu conhecimento em relação a essa língua se resume a um glossário de 32 páginas do Word. Tentei ser fiel a elas, pelo menos. "Shinu no Junkan" tem significado. "Junkan" foi tirado de "Chikara no Junkan", o nome em japonês dos círculos de transmutação, e "shinu" significa "morte". Já o título do capítulo, "Tsumi no Irezumi", é mais complicado. "Tsumi" realmente significa "pecado" (é só lembrar de Kesenai Tsumi, primeiro encerramento de HagaRen). Agora o "irezumi" eu tirei de um pequeno glossário do site fullmetal-alchemist . com, da expressão "ouroborus no irezumi", que significa "tatuagem do ouroborus" (o símbolo que os homúnculos carregam). Então, deu uma forçadinha, transformei "tatuagem" em "marca" e é isso aí. Me desculpem pela ignorância, estou sempre aberta a correções e sugestões, e a ajuda de vocês é SEMPRE bem-vinda. Beijos a todos!