Nota da Autora: Os personagens aqui mencionados não me pertencem, mas sim a nossa ilustre e maravilhosa J.K Rowling. A história original desse livro pertence a Tawny Weber, não estou recebendo lucro nenhum ao fazer essa adaptação, é apenas por diversão e hobby, por isso não é plagio, e sim uma transposição da trama para o mundo Potteriano, como Universo Alternativo. Então, divirtam-se!


Capítulo 13

Harry queria socar algo mais sólido do que um frágil travesseiro. Uma parede de tijolos. Uma porta de aço. Uma fera enraivecida da selva. Qualquer coisa.

Por que naquele momento? Por que a mensagem teve que ser enviada justamente naquele momento? Por que não uma hora depois? Ou duas, até? Isso teria lhe dado tempo para lidar com o turbilhão emocional em que caíra. Para concluir a conversa e poder... O quê? Encerrar o assunto?

Sim. Encerrar o assunto.

Porque fatos eram fatos. Sentimentos, não importando o quanto fossem intensos e convidativos, não mudavam os fatos. Não podia pedir – não pediria – a Ginny que se tornasse parte da vida que ele escolhera. Apesar do quanto a amava.

– Você está pronta? A equipe de resgate vai estar à nossa espera no alto da montanha, dentro de quinze minutos.

– Temos que subir uma montanha?

Harry quis rir. Desejou poder encontrar um pouco de humor nesse final. Para que ambos concluíssem aqueles momentos ali com sorrisos. Mas, não conseguiu.

– O veículo de resgate não tem como chegar a esta área. É um terreno muito acidentado – explicou num voz um tanto ríspida. – Não é uma subida muito grande, e a equipe terá um sistema de cabos preparado para nos puxar até lá. Será como subir de escada rolante até o segundo andar de um shopping.

– Oh, exatamente como em um shopping – resmungou Ginny, parecendo tão irritada quanto ele próprio se sentia no momento. – A não ser pela temperatura de congelar, o vento tentando nos derrubar e a neve fustigando. Talvez até haja uma "praça de alimentação" à nossa espera quando chegarmos ao topo.

Harry sentiu-se péssimo. Sabia que ela estava reagindo ao seu tom áspero, à sua atitude. Apenas porque ele sabia que não havia um futuro para ambos juntos não significava que queria deixá-la zangada. Ou pior, aborrecida.

Só você mesmo, Potter, pensou zombeteiro. Resgatou uma garota de um lunático perigoso, fez sexo com ela quase a noite inteira, mesmo sabendo que não deveria, e então faz com que ela se sinta mal por isso. O troféu de Garanhão do Ano deve chegar a qualquer momento.

– Praça de alimentação, hein? – disse, tentando soar espirituoso. Respirando fundo, aproximou-se para terminar de lhe ajeitar os trajes de inverno. – Vou ver o que posso conseguir.

Explicando a ela, que em vez de um helicóptero, que não pudera ser mandado naquelas condições de tempo, um veículo terrestre os pegaria na montanha, ele terminou de equipá-la rapidamente. Logo, Ginny estava pronta para enfrentar o rigor dos elementos. Embrulhada quase como uma múmia, com o rosto e o cabelo ocultos, apenas os olhos podiam ser vistos. E estavam expressivos como nunca, dizendo mais do que mil palavras. Transmitiam preocupação, tristeza e, um doloroso adeus. Eram mensagens altas e claras. Assim como os remanescentes de paixão que se alastrava tão facilmente entre ambos. Bastaria ele retribuir com um olhar. Uma só palavra, nem mesmo uma promessa.

E poderia fazer com o que havia entre eles prosseguisse.

Ela lamentaria o fato eventualmente.

Passaria a odiar o trabalho dele, a ligação com um homem em relação ao qual ela tinha sentimentos tão negativos, o próprio pai.

Ele odiaria o fato de magoá-la, se ressentiria da pressão silenciosa para que ele mudasse, e, com o tempo, não tão silenciosa.

Mas entre o agora e o momento em que tudo isso acabasse acontecendo, poderiam ter muito tempo explorando essa paixão. Tendo sexo incrível. Desfrutando deliciosamente a companhia um do outro.

Isso era viver o presente, não?

Mesmo sabendo que seria algo que se tornaria extremamente doloso depois que terminasse, que tivesse um fim.

– Vamos botar para quebrar.

Com isso e um sorriso rápido, ele ajeitou os próprios apetrechos em torno do rosto e fez um gesto para que ela passasse pela abertura de saída da tenda.

Não trocaram mais nenhuma palavra, nem mesmo depois que ele a prendeu com segurança ao cabo e lhe mostrou como subir enquanto a içassem para o alto da montanha. Levaram dez minutos para chegar até a base da elevação. Quando chegara ao local, depois que montara a tenda, Harry deixara preparado os ganchos e roldanas para os cabos e cavara buracos para os pés e as mãos na neve congelada. Um pouco de neve se acumulara dentro deles durante as trinta horas ou mais desde então, criando momentos um tanto mais complicados, mas, no geral, foram içados até o alto da montanha de maneira fácil.

Como havia feito anteriormente, Ginny manteve o pique e cooperou ao máximo. Ele quis lhe dizer que ela tinha sangue militar nas veias. Era tão corajosa, determinada e forte quanto muitas das pessoas com quem ele já servira. Mas, acho que ela não veria o seu comentário como um elogio e, portanto, absteve-se de fazê-lo.

No alto da montanha, para onde alguns homens da equipe tinham sido enviados previamente, ele afundou os dedos na neve espessa e ergueu-se na beirada com a ajuda do cabo. Então, virou-se, estendendo o braço até Ginny. Sem hesitar, apesar de estarem a dez metros de distância do chão, ela lhe deu a mão e deixou que ele a ajudasse a subir, primeiro erguendo-a junto à beirada e, então, colocando-se de pé, com o auxílio do cabo e dos demais.

Ele mal havia trocado algumas palavras com os homens pelo aparelho de comunicação quando luzes surgiram na trilha montanhosa do lado oposto, para além de onde o veículo em que a primeira equipe subira estava parado.

– A sua carruagem já está vindo – explicou Harry a Ginny, apontando na direção das luzes.

– Escoteiro, aqui é Tapete Mágico – disse-lhe prontamente o motorista do jipe militar que se aproximava através do aparelho de comunicação. – Está me ouvindo?

– Aqui é Escoteiro – respondeu Harry. – Já o temos no nosso campo visual.

– O pacote já está pronto para ir?

– Afirmativo.

O "pacote" o observava com seus imensos olhos castanhos enquanto ouvia o diálogo através dos próprios fones de ouvido.

– Estamos chegando. CAOS levará a encomenda pessoalmente. Tapete Mágico desligando.

Droga.

O almirante estava no jipe?

Ele deveria avisar Ginny. Podia estar livre da responsabilidade pessoal por não ter contado a ela sobre a sua ligação profissional com o almirante, levando em conta as circunstâncias da ocasião. Mas e dessa vez? Sabia quem era o pai dela, exatamente onde ele estava e que chegaria a qualquer momento no jipe.

Se ele contasse, estaria infringindo completamente as normas.

Se não contasse, seria o fim de qualquer chance de ambos ficarem juntos.

Então, ele recordou o rosto da mãe de Cedric no funeral. Algum dia, poderia ser ele mesmo a estar num caixão coberto por um bandeira. Poderia pedir a Ginny que aceitasse uma possibilidade dessas? Correr o risco de que, algum dia, fizesse parte de uma cerimônia daquele tipo, aceitando uma bandeira dobrada e condolências militares?

Porque ele a amava o bastante para querer estar ao seu lado para sempre, compreendeu com um doloroso aperto no coração. E estarem juntos para sempre era lago que ele não tinha como prometer.

Era melhor não prometer nada, não pedir nada. E não deixar nada disponível. Desse modo, Ginny não sairia magoada.

E quanto à própria mágoa dele? A angústia profunda que se apoderava do seu coração? Bem, ele era um soldado especialmente treinado, preparado para lidar com qualquer tipo de dor e sobreviver.

– Obrigada – disse Ginny numa voz tão suave quanto um sussurro através dos fones.

Temendo o que mais ela pudesse dizer, Harry sacudiu a cabeça depressa e apontou para o grande jipe fechado, montado sobre um grande chassi de tração para neve, que se aproximava do alto da montanha pela trilha. O tempo de privacidade terminara. As comunicações estavam abertas desde o momento em que tinham começado a subir a montanha e não havia mais volta. E logo o almirante estaria ali.

Harry enrijeceu o maxilar.

Era hora de dizer adeus.


Ginny observou enquanto o veículo monstruoso se aproximava, parecendo uma tartaruga gigantesca de metal atravessando a neve. Era o seu meio de voltar para casa. De escapar do bizarro inferno em que sua vida se transformara inesperadamente, naquela semana.

Então, por que foi tomada por uma desesperadora vontade de descer a encosta da montanha e se esconder na tenda?

Ou melhor ainda, de se aninhar nos braços de Harry e lhe implorar para que não a deixasse ir?

Ele não lhe permitira agradecer. Porque seriam ouvidos pelos demais, sabia, ou porque talvez também não se sentisse à vontade com agradecimentos. Mas ele a salvara. Salvara sua vida. Sua virtude. E provavelmente sua sanidade.

Era um herói. Observou-o enquanto ele se colocava entre ela e o veículo que se aproximava, com um rifle de prontidão, como os demais homens da equipe também estavam. Era o procedimento padrão. Embora Harry tivesse falado com o motorista do jipe pelo aparelho de comunicação, não correria risco algum em relação à segurança de Ginny e só ficaria tranquilo depois que tivesse certeza de que eram militares americanos que se aproximavam no veículo.

Ginny deu-se conta disso enquanto o observava, vigilante, de prontidão, e, de repente, tudo o que ele fizera povoou-lhe a mente numa avalanche de lembranças. Tudo porque era um soldado. Um fuzileiro. Um herói. Como ela podia ter reservas quanto a isso, se era graças a todas essas coisas que estava viva? Como podia desejar que Harry trabalhasse em outra coisa, sendo tão incrivelmente talentoso com um fuzileiro? Enquanto houvesse facínoras e lunáticos e o mal no mundo, homens como Harry os combatiam. Mantinham o restante do mundo a salvo, exatamente com ele a mantinha à salvo agora.

Quis agradecê-lo novamente. Dizer-lhe o quanto ele significava para ela, quanto se sentia grata por tudo que fizera. E o quanto estivera errada em rejeitá-lo por causa do trabalho como militar.

Queria um chance.

Uma chance para ambos.

Mas agora era tarde demais.

Como se zombasse da demora dela em se dar conta dos verdadeiros sentimentos, o enorme jipe parou ruidosamente a poucos metros.

As luzes piscaram. Era um código, compreendeu ela, quando Harry e os demais baixaram as armas.

– A sua carruagem – falou ele, apontando para o veículo.

Tudo o que Ginny queria dizer ficou preso dentro de si, como uma bebida gasosa tampada. Era tudo intenso, mesclado e estava pronto para explodir. Queria lhe dizer tantas coisas...

Mas tivera a sua chance.

Como fizera tantas vezes no decorrer daquele dia, segurou o cinto dele e colocou os pés nas marcas que seus pés iam deixando primeiro na neve.

Chegaram ao veículo e ele lhe fez um gesto para que ela o contornasse. Dois soldados estavam em ambos os lados da porta aberta, com os rifles de prontidão. Dando-lhes cobertura extra, percebeu ela com nervosismo.

– Fique a salvo – disse Harry, enquanto Ginny se aproximava dos degraus.

– O quê? – Ela se virou, sacudindo a cabeça. – Você não vem? – Ele tinha que acompanhá-la. Ela precisava dizer a ele tantas coisas. Havia tanto a ser resolvido. – Não vai ficar aqui, vai?

– Vou voltar com os demais no outro jipe que já está à espera. Tenho que retornar ao complexo para encerrar os últimos detalhes da missão. – Ele falou num tom oficial de um militar, como se estivesse fazendo um relatório a um superior. Ou falando com uma pessoa estranha...

Apenar de não estarem sozinhos, sem se importar com a maneira com os demais interpretariam seu gesto, ela estendeu a mão enluvada. Antes de poder pensar no que dizer e como, uma voz familiar interveio:

– Bom trabalho, Potter. Agora prossiga com o encerramento da missão no complexo.

Ginny sentiu o gelo subir pela espinha. Teve a sensação de que se fizesse um movimento brusco acabaria se partindo em mil pedacinhos.

Subitamente, dominada pelo mesmo frio intenso que sentira no cativeiro, virou-se para olhar para o homem à porta do imenso jipe. Como ela, Harry e o restante dos soldados, ele usava roupa camuflada branca, um capacete, máscara e óculos protetores ocultando-lhe os traços do rosto. Não importava; teria sido capaz de reconhecê-lo em qualquer lugar.

– Pai – cumprimentou-o num tom manso. – Eu não sabia que você estava aqui.

– Vamos. – Foi tudo o que ele disse. Sem saudação, sem explicação. Apenas uma ordem.

Como o coração pesado, Ginny olhou para Harry. Sua falta de reação dizia que não estava surpreso em ver o almirante. Soubera que ele estaria ali. E não a avisara.

Nem mesmo se tivesse pendurado uma placa no pescoço com os dizeres "Não estou interessado", a mensagem para ela, não teria sido mais clara.

Trêmula da cabeça aos pés, com os joelhos tão fracos que apenas o orgulho lhe permitiu subir no veículo, de repente quis ir para longe dali. E nunca mais ver neve na vida.

– Tenente – disse, olhando por sobre o ombro para dirigir a Harry um aceno de cabeça como forma de reconhecimento por tudo que fizera. Incluindo partir seu coração. – Obrigada.


– Tem certeza de que não quer uma fatia de bolo de chocolate? Ou talvez sorvete? Posso sair e ir comprar morangos frescos para acompanhar?

Ginny precisou reunir todas as suas forças para desviar o olhar do jardim dos pais para além da janela. Durante todo o tempo em que estivera fazendo a sua terapia de ex-refém, como o seu irmão a designara quando ele conseguira parar de chorar, ela sonhara com a sua própria cama. Ainda assim, três dias depois que entrara naquele gigantesco jipe militar e saíra do inferno congelado, não tivera essa chance.

No início, foi mais fácil ficar ali. Os contatos e a influência do seu pai haviam assegurado que as reuniões com a equipe de investigação do caso, para os seus relatos de vítima sobre o que acontecera, e também as consultas com o psicólogo da Marinha fossem conduzidas através de visitas a domicílio. A atitude seca do almirante levara Dean, tomado de culpa por ela ter sido sequestrada, devido a pesquisas que ele iniciara, a reduzir suas visitas exaustivas ao mínimo. E a recém-descoberta veia maternal da mãe – e de sua chef – significava que Ginny estava sendo paparicada como jamais havia sido em sua vida antes. Molly até chamara a equipe de beleza de seu salão habitual e, uma massagista naquela manhã para que a filha tivesse um necessário atendimento especial.

– Não é necessário. Estou bem assim, obrigada – disse à mãe com ar preocupado. Nunca percebera que ela tinha todo aquele instinto maternal, mas, ao longo dos dias anteriores, era algo que viera à tona com toda a força. – Ainda estou satisfeita com o que comi no almoço.

– O almoço foi há quatro horas. Você não está se alimentando direito.

– Só fiquei fora por cinco dias, mãe. Não foi tempo o bastante para perder peso e precisar me alimentar constantemente. – Ginny usou de um tom de gracejo para tranquilizar a sua mãe. Deu um tapinha na cintura do jeans para mostrar que não ficara folgada.

O sorriso que abriu dissipou-se quando viu que sua mãe contraiu o rosto e, soube que não foi por ficar horrorizada com a sua perfeita forma física.

– Por favor – suplicou ela, levantando-se do sofá diante da janela para ir abraçar a mãe pelos ombros. – Não chore, está bem? A cada vez que você chora, acabo chorando também. Sabe que não consigo me conter. E, desse jeito, vamos acabar sem uma gota de líquido no corpo.

– Tive muito medo – admitiu Molly. – Jamais tive tanto medo na vida. – Segurou a mão dela com força por um momento antes de dar um passo para atrás e se recompor, enxugando delicadamente os olhos.

Ginny afundou de volta no sofá e a olhou com espanto.

– Você teve medo? – Mas sua mãe parecera tão calma quando a recebera em casa na volta do Alasca. Era verdade que passara a agir de modo um tanto estranho com todos os cuidados e atenções. No entanto, ela não se dera conta de que fora por medo.

– O que você acha? – replicou Molly. – A minha filha, sequestrada por um lunático. Levada à força para o meio do gelo, para sabe-se lá onde. Não sabíamos quem havia raptado você, nem o motivo. E quando ficamos sabendo, foi ainda pior.

Ela fez uma pausa para respirar fundo e, então, prosseguiu:

– Fiquei aterrorizada. Seu pai também ficou, embora tentasse não demonstrar. Ligou para cada contato que tinha. Recorreu a todos os recursos possíveis e imagináveis. Escolheu a equipe de fuzileiros a dedo, exigiu o melhor para resgatar você. Mesmo assim, não tínhamos ideia de que...

Com as palavras morrendo-lhe na garganta, fungou, mas ergueu a mão para dizer que estava recobrando o controle. Assim, permaneceu sentada. Na verdade, estava surpresa demais em saber que o seu pai se preocupara a ponto de sequer conseguir se levantar.

– Colin e eu ficamos esperando aqui, é claro. Mas seu pai se recusou a ficar. Insistiu em ir ao Alasca para ir buscar você. Até esbravejou com Kingsley Shacklebolt.

– Ele esbravejou com o contra-almirante?

Com a mente rodopiando e sem saber como lidar com aquilo, Ginny deu um tapinha distraidamente na almofada a seu lado. Para sua perplexidade, a sua mãe viu aquilo como um convite e sentou-se a seu lado.

– Como falei – prosseguiu Molly, dando-lhe uma tapinha no joelho –, jamais tive tanto medo na vida.

– Mas, já deve ter tido. Quero dizer, o meu pai serviu a vida inteira, dedicando-se à carreira militar. Ele lutou em duas guerras. Isso deve ter deixado você com medo, sem dúvida.

Ora, só de pensar em Harry voltando àquele maldito complexo para concluir a missão já ficara com palpitações...

– Esse era o trabalho dele. – Molly sacudiu a mão adornada de joias no ar, como se achasse o comentário tolo.

Ginny esperou até sentir-se diminuída, estúpida, como acontecera tantas vezes no passado quando sua curiosidade costumara ser ignorada. Mas a sua mãe não estava encerrando o diálogo. Apenas respondendo.

– É assim tão fácil? Pelo fato de ser o trabalho dele, você não sentia medo?

– Querida, ele foi treinado para lutar. Treinado em estratégia. Sabia usar armas e todos aqueles equipamentos de ar assustador e tinha um pelotão inteiro de homens, igualmente treinados e dedicados, lutando do seu lado. Como falei, era o trabalho dele. E ele sempre foi muito bom no que fazia.

– Mas o trabalho o colocava em perigo constante. Inimigos atiravam nele, tentavam matá-lo. Isso não preocupava você?

– Você assistiu ao noticiário ontem?

Sacudindo a cabeça numa negativa, Ginny franziu a testa. O que aquilo tinha a ver com o restante.

– Não lembro em que cidade foi. Peguei apenas o final do noticiário. Era a hora do tráfego e alguém ficou furioso. Ele parou o carro no meio do congestionamento, empunhou uma arma e começou a atirar. Matou três pessoas antes de ser detido.

Ginny conteve a respiração, horrorizada.

– Pobres pessoas.

– Exatamente. Estavam apenas tentando chegar em casa normalmente, levando suas vidas seguras e diárias. E alguém tentou matá-las. – Um misto de raiva, desgosto e compaixão contraiu o rosto de Molly. – Ao menos um soldado é treinado e preparado. Ninguém sabe quando sua hora chegará, querida. Pode ser numa missão, ou no mercado da esquina. Sendo assim, ficar sentado torcendo as mãos e se preocupando é um desperdício de tempo e energia, não acha?

Ginny maneou a cabeça, e o terror que se espalhara por seu íntimo quando se dera conta de que estava apaixonada por Harry começou a se dissipar. Mas, ao lado desse, havia um medo bem maior.

Respirando fundo, perguntou:

– Mas e quanto ao restante? O fato de que ele dedicou a maior parte da vida ao serviço militar. De que esconde milhares de segredos de você. Como isso não a incomoda?

Sua mãe pareceu atônita por um instante, como se nunca tivesse ponderado essas perguntas. Então, deu de ombros.

– Bem, isso também sempre fez parte do trabalho dele, certo? Eu estava ciente disso quando me casei com seu pai. Sendo assim, por que essas coisas me incomodariam? Quanto aos segredos... – Molly lançou um olhar para porta e, então, riu e ergueu ambas as mãos, como se dissesse "Ora"? – Querida, tenho uma porção dos meus próprios segredos. Segredos que seu pai nunca descobrirá.

Ginny arregalou os olhos chocada.

– Está brincando!

– Meus segredos podem não estar de acordo com as linhas de inteligência militar, mas são interessantes o bastante. Como a verdadeira cor do meu cabelo, por exemplo. Ou o meu peso de verdade, a coleção de cintas e modeladores Spanx. Seu pai pensa que eu como metade de uma toranja a cada manhã, mas nem imagina que saboreio vários bombons depois que ele sai. – Molly levou o indicador aos lábios, enquanto pensava no que mais estava escondendo do marido. – Há dois cartões de crédito que seu pai não sabe que eu tenho. Para as minhas compras de artigos femininos supérfluos, é claro. Ele não faz ideia de que eu adoro programas de auditório na TV durante o dia, ou que, quando ele sai, como doces na cama.

– E você esconde tudo isso dele? – Ginny estava aturdida, não tanto pelo fato de sua mãe ter segredos, mas por ela ter tantas coisas divertidas a esconder.

– É claro. Tudo isso faz parte dos meus esforços para me manter feliz, enquanto, represento a imagem de dama de classe que é tão importante para apoiar a carreira do seu pai. E não se esqueça, essas informações são confidenciais, minha filha, e as contei apenas a você.

Ginny riu para valer, até que algumas lágrimas escorreram por seu rosto. Sua mãe, observando-a com um sorriso alegre, afastou-lhe uma mecha de cabelo para detrás da orelha, afagando-lhe a face com a ponta dos dedos quando o fez.

Sorrindo, Ginny teve certeza de que esses foram os momentos de maior proximidade e mais felizes que já tivera com sua mãe.

– Por que nunca me contou nada disso antes?

– Você nunca quis ouvir antes, querida. Sempre esteve ocupada demais se rebelando e fazendo as coisas do seu próprio jeito. – Molly deu-lhe um tapinha no joelho e levantou. – E você tem o hábito de se ater à raiva. Muito tempo depois que uma batalha termina, você ainda fica nas trincheiras, pronta para disparar novamente. O que torna a comunicação difícil.

Bem, ali estava. Ginny deixou os ombros caírem diante do peso da verdade. Seus pais não eram perfeitos. Nem tampouco estava tão abalada com a tribulação do sequestro, a ponto de achar que eles eram ótimos. Eram voltados para os próprios interesses, teimosos, preconceituosos e ambiciosos.

No entanto, ela se deu conta de que também era assim.

– Mãe, está tudo bem se eu ficar aqui mais esta noite?

– Vou adorar se você ficar – exclamou Molly, mas, então, seu sorriso diminuiu um pouco. – Contudo, teremos companhia para o jantar. Fique à vontade para se reunir a nós, mas, se ainda estiver se sentindo melancólica, faça a refeição no seu quarto.

– Vou jantar com vocês – decidiu Ginny, surpreendendo a ambas. Bem, talvez uma refeição em que ela não estivesse se atendo à raiva fosse interessante.

– Então, irei avisar a cozinheira – exclamou Molly com os olhos novamente alegres.

Saiu com um breve aceno. Ginny ouviu-a no corredor e, então, a voz mais grossa do seu pai. Ele voltara para casa depois do dia na base naval. Exceto pela insistência dele em estar ali durante as conversas com a equipe de investigação do caso – o que ela achara que era para ter certeza de que a sua filha não o constrangeria, mas agora ela se perguntara se não fora para dar apoio –, ela quase não o vira desde o retorno da Encosta Norte do Alasca. Nem disso se lembrava muito bem. Depois de dez minutos de um silêncio angustiante no jipe, tentando não chorar, ela adormecera e, só acordara num porta-aviões que estivera prestes a seguir viagem rumo à base naval do Coronado.

Deveria ir conversar com seu pai?

Tentar descobrir se havia uma ponte entre ambos como a que acabara de descobrir com a sua mãe?

Perguntar se tinha notícias de Harry e, se a equipe de fuzileiros navais já voltara ou não da missão?

Verificar se não havia falado durante o sono no catre do porta-aviões na viagem para casa?

Deveria.

Se queria um diálogo aberto e comunicação entre ambos, caberia a ela dar o primeiro passo.

E talvez sua mãe tivesse razão. Talvez ela costumasse se ater mesmo à raiva, criando barreiras desnecessárias.

Por outro lado, e se tudo que o seu pai quisesse fosse lhe passar mais um sermão? Ou criticá-la pelas suas escolhas na carreira? Ou qualquer outra das várias coisas negativas da lista?

As coisas sempre tinham sido tensas entre ambos. Seu pai sempre fora o intolerante a ela, a pobre filha injustiçada e incompreendida. Ele era rígido e ela, forte. Ele era o errado, e ela, a certa. Tudo sempre nesses moldes.

Agora, Ginny não sabia mais. Não tinha mais certeza.

– Quem quer rosquinhas de canela?

Salva de ter que convencer a si mesma a tentar uma aproximação com seu pai, Ginny olhou com um ar agradecido na direção da porta onde seu irmão segurava um saco de aroma delicioso de uma confeitaria.

– Colin – cumprimentou-o, levantando-se para lhe dar um abraço apertado. – Está aqui de novo? Pensei que você tivesse um show esta noite.

– Nada disso. Tirei uma folga. Afinal, não é sempre que a minha irmã quase me mata de susto.

– Esse parece ser o tema de hoje. – Ela pegou o saco de rosquinhas mesmo sem estar com fome. Desse jeito, acabaria engordando cindo quilos antes de sequer ter tido a chance de voltar para casa.

– Você está bem? – perguntou seu irmão, puxando uma cadeira para perto e sentando-se. – O que andou amedrontando você? Lembranças recentes? Pesadelos? Finais bruscos?

Ginny curvou os lábios. Pegou um pedacinho de uma rosca, mas não comeu.

– Mamãe disse que ficou com medo por minha causa. Quando me levaram, ela falou que vocês todos ficaram com medo. Quero dizer, eu sei que você ficaria. Mas nem sequer me ocorreu que nossos pais também ficariam.

– Ela ficou bastante assustada – confirmou Colin. – E, sim, tenho que dizer que o nosso pai ficou também. Ele teve um acesso de fúria, atirou algumas coisas longe, me ordenou que ficasse aqui e tomasse conta da nossa mãe, enquanto ele lidava com a confusão toda.

Ginny curvou os lábios.

– Confusão?

– Sim. Mas, pela primeira vez, ele não se referiu a você – garantiu Colin, provocando-a com uma piscadela. – Ele estava falando sobre o Instituto de Ciência. O Dr. Certinho estava agindo como um cretino em relação ao sequestro, querendo livrar a própria pele antes de levar o caso às autoridades. Ele não queria que as notícias vazassem antes que tivesse conversado com os investidores.

Livrando a própria pele, sem dúvida.

– Esse Dean é mesmo uma figura – disse sardônica. Contudo, não estava surpresa. Ele mantivera contato com o terrorista durante quase um ano e nem sequer desconfiara que o sujeito era um assassino lunático. Se isso se tornasse de conhecimento público, a imagem dele ficaria arruinada. E a imprensa poderia ter criado um escândalo e feito o instituto perder sua verba. Ainda assim, o homem havia dito que eles eram perfeitos um para o outro. Talvez ele tivesse tido mais pressa para salvá-la se eles houvessem dormido juntos.

Como se estivesse lendo seus pensamentos, Colin se inclinou para lhe apertar o ombro de leve, num gesto solidário.

– Que bom que você não namorou com esse cara, não é? Quero dizer, que panaca.

Ela emitiu um som em concordância, tornando a olhar pela janela. Havia achado que o único obstáculo em relação a Dean, fora o fato de não excitá-la de modo algum. Mas, ao que parecia, nem mesmo todas as habilidades de comunicação do mundo tornariam ele um herói.

– Você vai ficar para o jantar? – perguntou à Colin.

– Sim, e você, vai?

– Claro. Mamãe me disse que teremos companhia. Mas, você pode se sentar ao meu lado na mesa e me entreter.

E distrair. Porque todas as suas reflexões de agora, estavam realmente interferindo em sua resolução em aceitar que as coisas haviam terminado entre ela e Harry.

Era evidente que, com ou sem resolução, não fazia diferença.

Agora, era ele que não queria mais nada com ela.


N/A: E aqui está pessoal, o penúltimo capítulo...

Opa! Penúltimo capítulo? Sim, eu não escrevi errado, e vocês não entenderam errado... Este sem dúvida, é o penúltimo capítulo... Então preparem-se, pois, o fim está próximo...

Nossa, essa frase ficou meio apocalíptica, não é mesmo? HAHAHA.

Mas, enfim, a Ginny tadinha, está sofrendo com os males da rejeição... Pois é né, é àquela velha frase clichê: "Cuidado com o que você deseja, você pôde conseguir."

Então, até o último capítulo pessoas!

Isinha Weasley Potter – Garota, também gosto muito desses momentos quentes entre os dois, Ui!... Pois é, eles se amam, só que não sabem dizer isso um para o outro, aí fica essa confusão... Nossa, que bom que não deu para perceber que eu dei umas modificadas, mas se um dia você for ler o livro original, você vai perceber – lógico né haha. Mas infelizmente, não foi nesse capítulo que eles se resolveram. Porém no próximo, quem sabe? Hahaha. Espero que você goste desse capítulo Isii. Um grande abraço.

Kahh – Caramba, fico muito, muito feliz que esteja gostando da adaptação. Nossa, ainda bem que você percebeu isso hahaha, porque, era exatamente essa a minha intenção, deixar o Harry da adaptação, o mais parecido possível com o nosso menino-que-sobreviveu ahaha. Então, aqui está mais um capítulo. Espero que goste.

LivBlack – Fico muito feliz que tenha gostado da história. E fico muito agradecida também. Volte sempre, hein! Espero que aprecie esse capítulo.