Enquanto o fogo crepitava na lareira e os créditos finais do filme subiam, House observou o quão estranho era aquela situação. Ele tinha Rachel adormecida com a cabeça em seu colo, e Cuddy encostada ao seu ombro. Tanto quanto repugnava cenários familiares, ele desejava que o momento durasse para sempre.

- melhor colocá-la na cama, não? - falou Cuddy, retirando-o de seus pensamentos.

- Eu ponho.

- E a sua perna?

- Tudo bem, se eu consegui arrastar homens de mais de 100 kg até a maca, acho que posso lidar com uma monstrinha.

Lisa sorriu, agradecendo-o silenciosamente. Não tardou muito para que ele retornasse a sala, trazendo consigo duas colheres e o tal vasilhame que ela havia visto quando ele chegara.

- Obrigada por essa noite, House.

- Você sabe que pode me agradecer de outras formas, certo? – disse House, balançando as sobrancelhas de modo... Divertido.

-Então, nesses três anos, você teve outra mulher?

- Digamos que nunca encontrei uma bunda como a sua.

- Oh, quanta sutileza.

- Na verdade, houve a Rhetta.

-Rhetta?

- Sim, foi a minha salvação. Uma mulher e tanto... Doze anos mais velha.

- Agora sim me senti ameaçada.

- O bisneto dela tomava conta da tenda em que fui mantido. Sobrevivi porque ela caiu de amores por mim.

- Claro quem pode resistir a toda sua humilde simpatia?

- Você iria gostar dela... Fazia coisas incríveis com as mãos. Uma mulher e tanto. – disse House, suspirando.

- E o que aconteceu, com essa 'mulher e tanto'?

- O bisneto dela descobriu que além de levar-me alimentos, ela dava-me também algum serviço de mão, e a proibiu de chegar perto da tenda novamente.

- Que pena. – disse Cuddy, com uma falsa cara de aflição.

- Não, abriu muitas portas. Recebi boas visitas das netas dela, se é que você me entende.

- Sim, você é nojento.

- Agora falando sério, o garoto que me ajudou a entrar em contato com as autoridades e ser resgatado foi um dos tantos netos da Rhetta. Era ele quem me levava o alimento todos os dias...Era um bom moleque. No final das contas, nem tudo foi ruim.

- E essa vasilha, será que descobrirei o conteúdo dela, ou é segredo? – disse Lisa Cuddy, apontando para o vasilhame sobre o centro. Ela sabia o quão sombrio ele se tornava ao falar dos anos que passara a serviço do exército.

- Vamos lá, hora da sobremesa. – disse House, trazendo o recipiente com as duas colheres para repousar sobre o colo.

- Já comi demais por uma noite. Serei forçada a recusar a sobremesa, mas prometo comer amanhã.

- What? Mas você é apaixonada pelo meu tiramisú.

- Tanto quanto amo o seu tiramisú, eu nunca como doce antes de dormir.

- Sabia que em italiano, Tiramisú quer dizer 'iguaria dos deuses'?

- Não, não é. – disse Lisa, revirando os olhos.

- Deixa disso, prova um pouco. – disse house, fazendo com que ela aceitasse a colher, servindo-se da sobremesa.

Naquele momento, Lisa pôde jurar ter visto um sorriso surgir no canto do rosto de House. Atitude que fora confirmada segundos depois, quando o mesmo aproximou-se, alegando haver um pouco do creme na lateral do seu rosto.

- Pronto, menina suja. Tirei. – ele disse, lambendo lentamente o pouco de creme que havia sido retirado do rosto de Lisa. Passaram-se alguns minutos em silêncio, provando a sobremesa, até que House pigarreou, chamando-a a atenção.

- Então... Melhor eu ir. – disse House, dando um rápido e suave beijo na lateral dos lábios da mulher a sua frente.

House pegou o casaco militar que estava encostado próximo a porta e partiu, deixando uma Lisa Cuddy abobada, sorrindo tolamente aos pés do sofá.