CAPÍTULO 14

Benjamin Nott

Benjamin Nott sorria minimamente ao constatar que paciência realmente era uma das suas características mais marcantes. Estava agora a andar pelas ruas da Londres bruxa, sem sentir o mínimo temor. A poção polissuco o havia transformado em um bruxo qualquer e ele só esperava que ninguém reconhecesse aquele insignificante mago. Ele havia seguido os passos de Grindelwald durante todos aqueles meses, indo a todos os lugares em que eles estiveram. Ele sabia que Tom e Abraxas estavam obviamente escondendo o paradeiro da náiade, e percebeu também que ela era apenas uma pálida – muito pálida por sinal – necessidade do bruxo das trevas que atormentava a Inglaterra naquele tempo. Grindelwald estava interessado em outra coisa e ele a buscava incessantemente como um louco, seja lá o que isso fosse. Nott não saberia dizer e a verdade era que não era do seu real interesse saber. Ele tinha outras coisas em mente, outras obsessões.

Essa é tua primeira e tua última vitória. Última vez que sacrifico meu tempo - e que escrevo isso, mas o tempo é uma prostituta - entrega-se rapidamente. Há tempos estou farto de te odiar.

Ele queria vê-la de novo. A maldita náiade. Se aquela gestação houvesse ido adiante, agora sim ele obteria verdadeiro poder e só aquela perspectiva enchia-lhe de verdadeira excitação. A náiade na verdade não era mais o seu foco. O filho que ela carregava, no entanto... Ah sim, isso sim poderia mudar verdadeiramente a sua magia, amplificando-a malignamente até que ela alcançasse proporções inimagináveis. Grindelwald seria brincadeira de criança perto do que o bruxo ambicioso pretendia se tornar e ele não se importava que a sua alma fosse incorrigivelmente rompida e marcada ou que as suas pretensões trouxessem sofrimento eterno a alma da criança que pretendia sacrificar no ritual. Ele teria força. Era tudo o que ele precisava. E os primeiros que ele mataria na sua nova empreitada poderosa seriam o hipócrita Tom Marvolo Riddle e o seu capacho veela macho – como ele gostava de pensar a respeito do Malfoy.

Essa é a tua hora. Essa é a tua hora de queimar. Essa é a minha hora. Essa é a minha hora de te queimar. Um dia tu estarás em um lugar escuro. Eu te enviarei o fogo e então te ouvirei gritar.

E o bruxo sob efeito da poção polissuco parou na frente do St. Mungus. Ele tinha um novo palpite a respeito do padrinho do veela macho. Ele estava se comunicando de alguma forma com Dr. Remulo Doggis. Seguir aquele medimago era o que ele estava fazendo todos os dias há uma semana. Seguindo os passos tão ridicularmente metódicos do medimago.

Minha simpatia eu concedo apenas àqueles que a merecem. Sim – é solitário viver na arrogância. Teu copo não está meio cheio e não –, teu copo não está meio vazio. Tudo que tens é essa mancha de água onde teu copo uma vez esteve

Naquele momento o bruxo grisalho e levemente arredondado saia sorridente em companhia da sua fiel escudeira, Madame Nora Pilpes. E então aconteceu. O maldito elfo doméstico do Malfoy apareceu na frente dos dois medimagos. O pequeno parecia aflito tentando explicar que algo grave havia acontecido à sua senhora. E tão rápido quanto ele chegou ele desapareceu levando consigo o medimago. Não demorou mais que cinco minutos para que ele voltasse e levasse a Madame Pilpes também.

Tua ignorância – tua satisfação. Tua superioridade – teu egoísmo. Tudo implodirá. Um dia tu estarás em um lugar escuro eu te enviarei o fogo e então te ouvirei gritar.

Nott sorriu novamente ao juntar as palavras apressadas que o elfo havia pronunciado. Chalé do meu senhorzinho, escadas, Malfoy. Era uma propriedade que pertencia ao loiro e ele só tinha certeza de uma coisa: ele descobriria onde era o local, muito mais breve do que qualquer um pudesse imaginar.

(...)

Um Mês Depois

Tom e Abraxas estavam agora em uma vila trouxa, perigosamente perto do caminho que levava ao bosque onde as suas companheiras estavam escondidas. Mas aquele definitivamente não era o problema. Eles confiavam nos feitiços de proteção ancestral e os reforços que o seu padrinho havia colocado no perímetro da propriedade para protegê-las. O problema foi que daquela vez os trouxas não estavam sendo capturados como de costume. Os bruxos comandados por Gindelwald simplesmente matavam os trouxas a sangue frio. Em plena luz do sol, os feitiços voavam para todas as direções e gritos de terror se sobressaíam por cima da grande confusão que se formava na pequena vila de Griff. Pessoas implorando por suas vidas, pelas vidas de seus filhos, pessoas que eram brutalmente assassinadas por bruxos sem alma que lançavam avada kedavras como se fossem um feitiço de fazer cócegas.

Não é necessário mencionar que os garotos estavam paralisados. Por mais que fossem frios e indubitavelmente competentes em seus disfarces, aquilo era um massacre, algo contra o qual eles não podiam se opor, eles não podiam lutar. E então eles fizeram tudo o que podiam no momento, lançando a maldição da falsa morte na maior quantidade de trouxas que avistaram. Ao menos assim o Ministério poderia salvá-los depois. E foi quando tudo aconteceu.

Havia em média vinte bruxos, contando com Tom e Abraxas na vila trouxa. Naquele momento, pelo menos cinco deles aparataram parecendo extasiados com alguma coisa que os jovens não entenderam.

Dez minutos depois o jorro de conhecimento abalou o núcleo de ambos. Um dos bruxos que terminava de matar cruelmente o último trouxa da vila falou com desdém.

— Enfim encontraram a náiade. Será que eles já terminaram o serviço?

Naquele momento o tempo ficou em suspenso. O ar não parecia entrar nos pulmões dos dois jovens. "Não pode ser" era a única coisa que rodava como um furacão de construção lenta na cabeça deles. Não. Não podia ser verdade.

(...)

Minerva estava em sua cadeira de balanço preferida ninando Miguel. Ele era um ótimo bebê na verdade. Agora com um mês de vida, devido as poções receitadas por Dr. Doggis, ele tinha a aparência de qualquer criança saudável que havia nascido no tempo certo. Os cabelos loiros mais crescidos agora tomavam toda a sua cabecinha, não tendo mais o aspecto careca, as bochechas rosadas davam-lhe um aspecto de anjo, tal qual o seu nome. E os olhos azuis acinzentados da criança, ao contrário da frieza que geralmente olhos gris mostravam, refletiam calor, suavidade. Expressivos. Sim. Eram olhos brilhantes e expressivos. Atentos.

Minerva continuou cantando para a sua criança. Uma canção de ninar escocesa com palavras que a sua amiga castanha nunca entendera. A castanha estava na sala conversando com Dobby a respeito de coisas sem muito significado. Ela apenas gostava da companhia dele. Ele era agradável.

Elas não perceberam, no entanto, o que acontecia além das árvores que cercavam o chalé.

Ali, esperando os bruxos das trevas, estava Fenrir Greyback. O jovem lobisomem cruel estava em sua forma humana, mas a sua juventude em nada lhe acrescentava beleza. Ele era repugnante. As unhas amareladas e crescidas, a voz como um latido e a crueldade latente de suas ações indicava o quanto ele estava afoito. Ele farejara uma criança. A sua presa favorita.

Infelizmente para o lobo, ele estava magicamente atado aos bruxos das trevas que haviam acabado de aparatar ao seu lado, e consequentemente, atado a Grindelwald, fazendo o que ele mais detestava. Seguindo ordens.

— É aqui Greyback? — o homem de aparência lupina farejou o ar sorrindo malignamente ao olhar o nada a sua frente. Ele não se deixaria enganar por feitiços de proteção. Era ali.

— Exatamente. — ele falou em sua voz latida.

Então os bruxos de vestes negras apontaram suas varinhas para frente, para o espaço vazio entre as árvores e começaram a lançar uma chuva de feitiços. Luzes piscavam e chocavam-se contra uma barreira invisível. A proteção foi enfraquecendo, enfraquecendo e enfraquecendo diante a impetuosidade dos feitiços lançados. Então houve a brecha. Eles viram quando uma parte da barreira cedeu e eles tiveram o vislumbre do que havia por dentro. Um chalé e um lago, uma garota ruiva sentada numa cadeira de balanço com uma criança no colo. Fenrir sorriu. A palavra jantar rodou em sua mente louca e distorcida.

Aumentaram mais as brechas e três bruxos entraram enquanto dois se mantinham atando Greyback, mantendo-o sobre rédea curta. Ele não podia se mexer. Era como uma coleira bruxa.

...

Tudo aconteceu muito rápido.

Minerva sentiu algo abalando as estruturas da casa. O chão tremia levemente e então, num reflexo, ela olhou para frente. Homens em vestes negras corriam em sua direção lançando feitiços que ricocheteavam nas paredes, explosões, gritos, palavrões. Dobby saiu da sala e tentou defender sua senhora, mas o feitiço de um dos bruxos atingiu o pequeno elfo que caiu desacordado na grama da área externa do chalé. Minerva levantou-se, apertou o seu bebê em torno do seu colo enquanto corria para a porta da casa gritando para que Hermione não saísse de lá de dentro quando um feitiço atingiu-lhe as costas. Ela não saberia dizer o que era, mas doeu. Doeu infernalmente. Ela gritou diante da soleira da porta. As pernas cederam enquanto ela caia de joelhos e logo em seguida de lado. Ela apertou o pequeno bebê mais ainda contra o peito. Então quando a dor piorou, ela não conseguiu evitar o grito que saiu por seus lábios. As suas costas doíam, mas o medo que a acometei foi muito mais intenso. Ela havia caído numa posição que permitia que ela visse os homens que empunhavam as varinhas sorrindo sarcasticamente.

— Isso... Pode gritar bastante mulher. Ninguém vai te ouvir. Não há ninguém vivo por perto de qualquer forma.

Um dos bruxos que passava chutou o corpo desacordado do pequeno Dobby.

— Não! Não por favor, não façam mal ao bebê! — ela implorou trêmula.

O bruxo negro que parecia ser o mais velho meneou a cabeça enquanto via com deleite as lágrimas da ruiva. Então ele viu mais uma garota saindo da casa, ajoelhando-se diante da outra e a abraçando, numa tentativa débil de protege-la e proteger a criança que agora chorava irritantemente, segundo os pensamentos dos bruxos malignos.

— Soltem Greyback. — ele falou lentamente. — Fenrir... — ele virou na direção do homem lupino. — Pode matar a ruiva e a criança se for da sua vontade, mas deixe a grávida viva. — ele disse num tom indiferente murmurando o feitiço que desatou a coleira do lobisomem.

Sem pensar duas vezes, assim que se viu livre, o lobo correu numa velocidade impressionante na direção das garotas. Os gritos desesperados de Hermione poderiam ser ouvidos à quilômetros de distancia. E foram.

Assim que Tom e Abraxas aparataram do lado de fora da proteção, os garotos viram os dois bruxos que haviam ficado do lado de fora. Foi instintivo. Eles não quiseram pensar por causa da fúria que sentiam, mas era uma guerra. De qualquer forma, eles não eram dignos de respirar. Eram monstros. Monstros que mereciam estar mortos.

— Avada Kedavra! — falaram rapidamente apontando as varinhas para o coração dos homens cruéis em vestes negras. Os jatos de luz verde bateram em suas costas. E eles não tiveram como se defender. Caíram mortos, lívidos e pálidos enquanto os meninos passavam sem nenhum resquício de dó por cima de seus cadáveres abomináveis.

O grito de Hermione implorando por ajuda preencheu o ambiente como num filme trouxa de terror. Os dois jovens apontaram as suas varinhas para dois dos bruxos que estavam de costas e lançaram mais dois avadas. O que restou, o negro que tinha o poder de atar e desatar Greyback, virou-se para trás e olhou bem nos rostos dos garotos e antes que eles pudessem exprimir qualquer reação, o bruxo aparatou.

Foi quando Abraxas olhou a cena. Minerva estava no chão, segurando um bebê em seu colo. Ele estava totalmente coberto por um manto verde e chorava muito alto. Hermione estava debruçada sobre eles, a grande barriga fazendo volume sobre as costas de Minerva de um modo estranho, e Fenrir Greyback estava a menos de três metros de distância. Não daria tempo. Merlin. Não daria tempo! Ele gritou alto enquanto Fenrir dava os seus últimos passos em direção à criança. Era tudo o que ele queria. Era tudo o que ele mais desejava. A boca de dentes afiados arreganhou-se e um segundo depois ele estava em cima dos três pequenos e frágeis corpos comparados ao tamanho descomunal do homem lobo.

Abraxas queria fechar os olhos, mas apenas não conseguiu. Tom gritou. Ele gritou. E foi quando tudo aconteceu.

Minerva gritou mais alto que os dois. Um grito agudo de romper os tímpanos.

— O MEU FILHO NÃO SEU MALDITO! — as palavras fizeram o seu corpo emitir uma explosão espontânea de magia. Num segundo, Greyback estava lá, dobrado diante de Minerva, Hermione e Miguel e no segundo seguinte, seu corpo levitava enquanto o olhar de Minerva era puro ódio. Ela gritou novamente mais alto. Todos sabiam sobre aquele lobisomem. Sabiam da sua preferência por crianças. Sabiam como ele já havia matado tantas quanto pode, destruindo lares sem que isso lhe causasse o mínimo remorso, e motivada por isso Minerva desejou, desejou que aquele ser explodisse. O seu ódio consumiu-a completamente, sua magia natural amplificando no ambiente. Era magia antiga, magia ancestral, magia em sua forma mais bruta. Magia motivada pelo amor de uma mãe por seu filho. Então aconteceu. Greyback explodiu em incontáveis pedaços. O sangue espirrando, manchando a grama verde, a madeira branca da parede da casa, a cadeira de balanço, o rosto de Minerva, o manto de Miguel, o vestido de Hermione. E de repente Minerva sentiu-se muito fraca para fazer qualquer coisa, mas não perdeu os sentidos.

As duas jovens não queriam entender realmente o que estava acontecendo, só sabiam que Greyback não era e nunca mais seria ameaça a nenhuma família, a nenhuma criança indefesa.

Os dois garotos saíram do transe e correram em direção as duas garotas, mas não esperavam pelo que aconteceu em seguida.

Elas levantaram a cabeça em direção aos dois jovens. Elas estavam com medo, o pânico dominando-as enquanto viam mais dois deles aproximando-se. As vestes negras esvoaçando enquanto pisavam nos restos mortais do lobisomem morto e corriam em suas direções.

Minerva olhou para eles, o desespero gravado em suas feições. Miguel não parava de chorar. Aquele choro alto que provavelmente estava deixando a sua garganta arder, que vinha do fundo dos seus pulmões. Hermione sentiu que ela podia fazer alguma coisa. O auge do seu desespero indicava-lhe isso. Ela sentiu a onda de magia invadir o seu corpo, e ela sabia que mesmo sem uma varinha, ela podia pará-los. E foi o que ela fez.

Enquanto ela olhou fixamente no rosto do moreno ela lançou a sua magia, era diferente, a sua magia náiade a deixava mais poderosa. Ela não pensou no nome de um feitiço, apenas pensou que queria pará-lo. Desejou que ele parasse. E ele não só parou. O corpo de Tom foi lançado para trás violentamente enquanto ele batia dolorosamente as costas no chão, soltando um guinchado de dor. Isso fez com que o loiro hesitasse em seus passos, e ele parou por um instante. Então ele percebeu. Não era medo no rosto das duas garotas. Era ódio.

Se ele ousasse se aproximar mais um milímetro sequer da mulher que amava, ele teria o mesmo destino que Greyback. Ou mesmo se ele recuasse, pelas expressões que as duas garotas ostentavam em seus rostos, não haveria jeito.

E agora, enquanto eu puder estarei te segurando com ambas as mãos... Pois sempre acreditei que não há nada que eu precise a não ser você.

Outro jorro de conhecimento o invadiu. Elas não se lembravam deles, mas elas não deixariam que eles saíssem vivos dali. Estava escrito nos olhos, na linha dura da mandíbula, no ódio que elas expunham em suas feições. No ódio que era dirigido a eles. Melin... Eu vou explodir em milhões de pedaços e eu nem consigo dizer que a amo...— foi o último pensamento de Abraxas enquanto ele fechou os olhos esperando cegamente pelo pior. Morrer violentamente através da magia de alguém que ele amava.

(...)