Capítulo 14

_Não ainda._falou o Demônio dos olhos amarelos, impedindo que Sam saísse da cova. Sam, impotente, mal continha sua raiva, sabendo que por sua causa o pai não tinha conseguido matar a criatura, a mesma que estivera anos atrás conseguira manipular sua mãe e contaminá-lo. O sorriso sarcástico e o olhar intrigante pareceram o mesmo de alguém que está feliz em cumprir uma missão, e Sam apenas queria subir e de algum modo enfrentá-lo, mas suas mãos escorregavam na terra gelada das paredes da cova.

Então, o demônio jogou uma pá daquela terra escura sobre Sam. Tudo ficou por um momento escuro.

_Ei, calma, maninho... Não é pra tanto.

O irmão mais velho de Sam manobrou o braço livre para evitar o golpe às cegas do mais novo, enquanto manobrava o Impala pela estrada. Sam descobriu que o mais velho estava tentando colocar um cobertor em seus ombros.

_Eu cochilei?_ Se endireitou no banco ainda assustado. Olhou a paisagem, na pista sinuosa e ascendente, floresta de ambos os lados.

_É pra responder?

Sam olhou para o irmão de esguelha, tentando entender porque Dean estava de mal humor, se era ele que tinha acabado de ter um pesadelo. Ficou alguns minutos em silêncio, para forçar a mente a compreender seu sonho. Percebeu que não havia música e o irmão olhava fixamente a estrada. Parecia péssimo.

_Quer que eu dirija?

Com certeza a resposta iria ser 'não', mas ao menos ele conseguiria um pouco de atenção do irmão. Com efeito, Dean desviou os olhos para ele por um momento. Depois checou pelo retrovisor a caminhonete que o pai dirigia vindo logo em seguida.

_Não. Logo chegamos.

_Se vamos caçar juntos, eu também tenho o direito de dirigir. E você está cansado.

_Tecnicamente, esta não é 'nossa caçada'. É do pai. E nem é realmente uma caçada.

_Então, quando nós caçarmos...

_Você continuará tendo direito à vista. Minha garota é muito ciumenta e você sempre arranha a embreagem.

-Ah, claro._tudo bem que Sam já tinha arranhado a embreagem do Impala uma ou duas vezes, mas o irmão parecia nunca se esquecer disto. Isto definitivamente afastou qualquer possibilidade que tinha de Sam contar sobre o sonho que tivera. E Sam sabia que a pior coisa para começar oficialmente sua vida de caçador seria demonstrar fraqueza. Nem para os monstros, nem para as pessoas fora da família, e muito menos para o pai e o irmão, que já costumavam ser hiperprotetores e sufocantes normalmente.

_Não entendo porque você está com tanto mal humor.

_Não estou com mal humor, e sim com dor de cabeça._Dean respondeu sombrio, e Sam percebeu que era melhor não insistir. De algum modo, achava que Dean talvez estivesse ressentido pelo fato do pai vir com eles. Afinal, estavam combinados que os dois caçariam juntos. Mas então tinha surgido o telefonema de Céu Vermelho no celular do Dean. Depois disso, Dean não conseguiu mais contato com o amigo caçador. E já fazia alguns dias desde os telefonemas.

Na verdade, Dean falou que, quando encontrou Jonas Dreyer e Céu Vermelho McKeenan no Roadhouse, eles haviam lhe contado sobre uma cidade com problemas. Dean e McKeenan tinham combinado de verificar isto, mas por causa da formatura de Sam, Dean desistiu. Então o irmão tinha achado por bem dar uma verificada, mas então o pai tinha um novo elemento. Ou uma desculpa para ir junto com os filhos.

O pai dissera que duas das crianças que ele rastreava tinham ido para a mesma cidade e estavam desaparecidas.

Sam abriu seu laptop, pensativo. Podia ser realmente só uma desculpa do pai, e neste caso, não seria só o Dean que tinha motivos para estar irritado. Ele tinha tanto treinamento quanto o irmão e era perfeitamente capaz de lidar com o que caçavam. Mas, se realmente o problema na cidade tivesse a ver com as crianças que o pai rastreava, então estavam muito mais perto de compreender o grande cenário de uma vez por toda. E talvez, perto novamente do demônio de Olhos Amarelos que o pai tinha jurado destruir.

Mas Sam não gostava de dúvidas.

_Dean...

_Uh?

-As crianças que subiram para esta cidade...Você acha que podem ter ligação com o que o Céu Vermelho pode ter encontrado lá?

Dean fez todos os seus meneios de quando estava tentando formular algo inteligente para falar_Sam conhecia cada um daqueles gestos, inclusive o velho e bom roçar dos próprios cabelos curtos, da nuca para o alto_ antes de contemporizar:

_Nem sabemos se o Céu Vermelho realmente esteve na cidade. Quanto mais se tem algo a ver com este negócio do pai.

Pronto. Ali estava. Dean estava mesmo achando que o pai estava se metendo, embora jamais, em hipótese alguma, fosse falar isso.

E isto muitas vezes irritava Sam. Dean parecia condicionado a nunca falar o que realmente pensava. Sobre nada. A não ser que fosse banal. E ainda assim, Sam por vezes não tinha certeza se ele estava sendo sincero.

_Você podia falar o que pensa de vez em quando. Não é como se eu fosse correndo dedurar para o pai.

Sam sentiu uma mudança no clima entre os dois, mas definitivamente ele tinha entrado em modo de combate verbal. E nunca perdia neste campo.

_Como se o mundo fosse ficar melhor com a minha sabedoria.

_Você não sabe. Você não deixa as pessoas saberem.

_Por que você quer que eu fale algo sobre isto? Exatamente? Você está tentando me dizer que acha que esta é só uma caçada inútil? Não acha que está querendo levar isso para uma discussão onde você só quer me fazer falar algo que você é quem quer?

Definitivamente, Dean estava com dor de cabeça. Ele não tinha apelado para nenhuma piada ou xingamento. Embora ainda não quisesse discutir.

_Só se você soubesse o que eu quero dizer, e o que você não quer dizer._Sam ainda não deu o braço a torcer. Por que era tão difícil o irmão dar uma opinião, afinal?

_Então eu vou dizer, se você prometer ficar quieto até a gente chegar lá.

_Uhun. Prometo, se você me disser o que está te deixando com esta dor de cabeça.

_Você, claro.

_Sem essa, irmão mais velho. É a sua vez, de verdade.

Dean suspirou, e ficou um bom tempo calado, antes de admitir, com uma voz grave:

_Você devia confiar mais no pai. Quando é que ele precisou mentir pra nós?

_Mas ele podia ter nos deixado vir sozinhos! Este é o ponto!

Dean balançou a cabeça, exasperado, como se não conseguisse compreender o que o caçula queria com aquilo tudo.

_Ok, Sammy! Ele podia. Mas pensou que devia ver com seus próprios olhos o que pode atrair duas crianças que, como você foram visitadas pelo maldito Amarelão e que cresceram, como você, com poderes paranormais. Ao invés de mandar mais um paranormal para o lugar, não é mesmo?

_Não é como se eu estivesse sozinho. Ou fosse indefeso._Sam protestou veementemente._Estamos juntos. Você me protegeria, não é?_brincou, tentando fazer o humor do irmão melhorar. Os olhos de Dean apenas faiscaram, embora ele tenha dito com um sorriso torto:

_Tem horas que eu mesmo tenho vontade de te entregar pro diabo.

Não era a resposta que Sam esperava, mas neste momento sabia que Dean não estava realmente bravo, não de verdade, com ele.

_Só porque eu sou mais bonito._Sam abriu um largo sorriso, ainda provocativo.

_Nem pensar!

Acabaram rindo, Sam pensou que estava com saudade do seu irmão insuportável.

Isto talvez tivesse deixado Dean com o espírito mais leve. Mas ao ver a placa na estrada, anunciando que Sheneny, 4852 habitantes, estava a 7 milhas deles, Dean olhou o irmão sorrindo e pareceu muito soturno ao falar:

_Você podia levar isto mais a sério, Sam, se realmente quer ser um caçador.

Sam ainda não estava convencido de que tinha toda a verdade.

CONTINUA