Os nomes

Havia um caminho de pedra longo e curvo no meio do vazio escuro e confuso. Hinata olhou em volta, em busca de algo que lhe indicasse onde estava, mas nada aparecia a não ser o aparentemente indeterminável vácuo.

Engolindo em seco, começou a caminhar. O espaço era leve, como se a gravidade fosse fraca, e ela sentia-se a flutuar lentamente, como se cada passo fosse um salto em câmara lenta. O seu cabelo negro esvoaçava com a mesma demora dos seus movimentos, tal como as suas roupas simples. Os seus pezinhos pequeninos mal pareciam tocar na pedra cinzenta daquela linha perdida no breu e com apenas um pequeno impulso, lá ia ela para a frente.

Nada se ouvia e Hinata nem tinha a certeza que o seu próprio corpo estava a fazer qualquer tipo de som. Tal como o vazio, o silêncio parecia correr aquele sítio.

Mas isso não a parou. Ela continuou a caminhar daquela forma flutuante pelo caminho rochoso, sempre com a breve esperança de encontrar algo. Semicerrava os seus olhos brancos para ver se detectava algum objecto ou luz que não estavam lá antes.

Sem sucesso, aparentemente. Tentou correr, mas só conseguiu fazer umas espécies de saltos mais alongados. Movimentou os braços para a frente e para trás em busca de ganhar alguma velocidade, porém o mundo estava contra ela, e não "corria" mais depressa do que antes.

Onde é que ela estava, afinal? E como é que tinha ido ali parar?

Franziu o sobrolho escuro, descontente. Ir para um espaço negro, escuro e silencioso não faziam parte dos seus planos.

Tentou lembrar-se do que fizera antes de acordar naquele local, mas nada a não ser um borrão confuso aparecia na sua mente. Havia algo que a maçava mas ela não conseguia lembrar-se do quê. Algo importante… algo terrível.

Mas o quê?

_ Ah, ah, ah!

Hinata petrificou. Um riso percorrera o vazio, claro e doce como o de uma criança. Rodou o corpo em várias direcções na esperança de encontrar o portador da gargalhada, mas mais uma vez só encontrou a escuridão.

_ O-olá? – Gritou na esperança de ser respondida – Está aí alguém?

Nada de novo. Nem um som.

Suspirou, derrotada, e passou a mão pelo seu cabelo curto, desalinhando-o. Provavelmente tinha sido a sua mente a delirar e a criar coisas. Sorriu tristemente. Talvez estivesse a ficar louca. Bem, isso não seria interessante? A filha do grandioso Hyuuga Hiashi, sempre tão fraquinha e inútil, tinha ficado insana no meio do nada.

Suprimiu um soluço de tristeza e tentou animar-se, dando leves palmadinhas no rosto para se concentrar. Fez uma expressão determinada e começou novamente a caminhar e a saltar.

Aquele local era estranho. Era escuro, silencioso, quente e só tinha um caminho de pedra que não aparentava ter fim. Hinata nunca ouvira falar de um espaço como aquele… parecia tão… irreal.

De repente parou. Havia um leve som a pairar, um som estranho, agudo, como se houvesse metal a embater em pedra. Parecia vir lá mais á frente, ao longe.

Talvez ela encontrasse alguém.

Um pouco mais animada, Hinata tentou correr novamente. O som ia aumentando á medida que ela ia-se aproximando do que quer que estivesse a provoca-lo. Sorriu, esperançosa e tentou dar mais impulso naqueles saltos estranhos que ela dava quando os seus pés tentavam correr.

Mas a sua corrida não durou muito. Teve que se travar. Abriu muito os olhos, incrédula e ergueu a cabeça.

Á sua frente, surgido praticamente do nada, estava um enorme portão de ferro maciço. Era liso, sem qualquer adorno ou gravura e enrolada às suas maçanetas prateadas estava uma corrente presa por um grande cadeado.

Lenta e cuidadosamente, Hinata ergueu a mão e rodeou os seus dedos ao cadeado com a intensão de o abrir. Talvez aquele portão fosse a passagem para a saída.

Um estrondo do outro lado fez com que ela largasse o cadeado como se este o queimasse. Hinata guinchou e deu um passo para trás, assustado. Ficou muito quieta, parou de respirar para tentar ouvir.

Passos, passos lentos e preguiçosos, acompanhados pelo som de correntes a arrastar no chão de pedra dura. Era isso que vinha do outro lado daquele monstruoso portão.

Aquilo não era a saída, concluiu ela com amargura, era uma prisão. Alguém estava no outro lado daquele portão, acorrentado sem grande força para ser possível fazer algum tipo de movimento. Ela perguntou-se porquê.

_ Bem, bem, bem. – Fez uma voz fria, abafada pelo ferro. Hinata sentiu o seu coração parar ao ouvir som – Vejam quem veio rastejar aos meus pés.

O prisioneiro era uma mulher, a julgar pela agudez da voz. A condessa engoliu em seco e colocou a mão em cima do ferro escuro do portão. Houve outro estrondo e ela retirou-a de imediato.

_ Não lhe toques. Ele fica zangado. – Disse-lhe a voz – Ele não quer que eu saía daqui. – E riu-se, uma risadinha alegre, jovial e feminina.

Hinata sentiu o seu sangue congelar ao ouvi-la.

_ Q-quem és t-tu? – Gaguejou infantilmente enquanto tremia dos pés à cabeça.

_ "Q-quem és t-tu?" pff. Nem falar consegues. És patética, fraquinha como um coelhinho.

Hinata respirou fundo e tentou controlar o seu nervosismo. Lançou um olhar determinado ao portão e clareou a garganta.

_ Quem és tu? – Repetiu novamente, ainda com o medo a impregnar-lhe a voz, mas sem gaguejar.

A pessoa do outro lado riu-se novamente. Uma gargalhada dura, cruel. Hinata sentiu os seus cabelos do pescoço ficaram em pé.

_ Assim é que é. E respondendo á tua pergunta… acho que isso não importa, pois não? – Riu-se novamente – Agora, a verdadeira questão é: O que é que queres de mim?

Hinata pestanejou, confusa.

_ O que q-quero de…? Eu não quero nada! A-apenas quero ir embora!

_ MENTIROSA!

As grandes portas abanaram-se como se uma enorme força as tivesse tentado abrir. As correntes chocalharam e o cadeado abanou.

Hinata sentia-se a tremer dos pés á cabeça. Levou as mãos ao peito e começou a brincar com os dedos, o seu gesto habitual para quando estava especialmente nervosa.

_ Oh, lá 'tás tu outra vez com esse teu gestinho inútil.

Os seus dedos pararam de se mover.

_ C-como é que tu…?

_ Eu vejo tudo o que fazes, ouço tudo o que dizes, provo tudo o que provas, cheiro tudo o que cheiras, sinto tudo o que sentes. – Disse-lhe a voz num tom aborrecido – Não há nada que faças que eu não saiba. Às vezes penso que sou Deus.

_ Mas q-que blasfema.

_ Achas que alguém te leva a sério contigo a falares assim? Pareces um pardal a morrer. – Ouviu-se passos lentos aproximarem-se do portão e as correntes a arrastarem-se – O mundo é cruel para os fracos de espírito, sabes? Não vais aguentar muito se continuares a agir dessa maneira.

Fracos de espírito? Ela não era fraca de espírito! Podia não ter muita confiança, nem muita coragem, nem muita força de vontade, nem…

Talvez a voz tivesse razão, afinal.

_ O-o… o que é que eu faço? – Perguntou baixinho, olhando timidamente para o portão.

_ Liberta-me.

Hinata pestanejou, espantada. Olhou para as correntes e para o cadeado, que brilharam de forma sugestiva. Ela ergueu a mão lentamente para lhes tocar porém a centímetros de distancia hesitou e lançou um olhar desconfiado.

_ C-como é que me p-podes ajudar?

_ Depois descobres… agora liberta-me.

Ela olhou para o portão de sobrolho franzido e baixou o braço.

_ N-não.

_ O quê? – A voz ficou mais gelada que nunca, como uma tempestade destruidora.

Hinata estremeceu e abraçou-se, engolindo em seco.

_ N-não te vou libertar enquanto não m-me disseres o que tu q-queres.

Um som semelhante a um murro no metal ecoou pelo espaço de escuridão onde Hinata se encontrava. As portas, a corrente e o cadeado que as trancavam abanaram um pouco.

_ Liberta-me. – Ordenou a voz.

_ N-não!

_ Agora! – Mas Hinata abanou a cabeça, afastando-se – Tu precisas de mim. Liberta-me.

_ Eu nem sequer sem quem és! – Gritou a Condessa em pânico quando ouviu as correntes do outro lado mexerem-se com mais violência. Outro estrondo fez o grande portão abanar e desta vez abriu alguns centímetros as duas portas que o constituíam antes de se voltarem a fechar.

_ Se me libertares, vais descobrir.

_ P-porque é que não me dizes logo!

_ Porque é mais divertido se me veres com os teus próprios olhos. – Outra gargalhada e… aquilo era o som de unhas a arranhar o ferro? – Liberta-me.

Hinata abanou novamente a cabeça e fungou, dando outro passo para trás. Quem quer que fosse a pessoa do outro lado, parecia-lhe ser perigosa. Não era de confiança. O melhor era voltar para trás e tentar encontrar uma saída.

_ A tentar fugir outra vez? Vejam só a cobarde, sempre mariquinhas a chorar para o papá! – Hinata lançou um olhar admirado para o portão – Oh sim, minha querida, também sei o que pensas. Pensei que já tínhamos discutido isso. É óbvio que precisas de mim para sobreviver. Então já sabes… é apenas tirares esse cadeado e essa corrente e faço de ti alguém na vida. Liberta-me.

_ Já disse que não!

_ Liberta-me.

_ N-não!

Mais um estrondo, as portas abanaram, a corrente balançou.

_ Liberta-me!

_ N-não posso!

Hinata levou as mãos á cabeça enquanto a voz exigia cada vez mais a sua liberdade, aquela voz fria, tão cruel e directa.

_ Não posso, não posso! – Gritava ela, acompanhando a pessoa do outro lado do portão de ferro.

_ LIBERTA-ME!

Outro estoiro, maior que qualquer outro, como um grande trovão que destruía tudo á sua passagem. As duas portas afastaram-se o tanto quanto a corrente que as prendia o permitiu, revelando parcialmente o que ia no outro lado.

Hinata arregalou os olhos, horrorizada, pois de repente, ela reconhecia a voz que lhe falara e a insultara e a assustara de forma tão impiedosa. Ela reconhecia a voz, porque a ouvira em toda a sua vida, mesmo sem o querer.

Olhos brancos encararam-na durante os poucos segundos em que o grande portão esteve entreaberto. Olhos iguais aos dela, mas ao mesmo tempo diferentes, pois aquele tom alvo não era doce nem belo como uma pérola, mas sim gelo puro, tão frio e cortante como o sorriso que os lábios pálidos envergavam orgulhosamente, mostrando uma fileira de dentes alvos e perfeitos.

Hinata reconhecia agora a voz muito bem.

Reconhecia-a, porque era a dela.

Ela gritou de horror enquanto as portas se fechavam novamente. Aos tropeções, começou a correr novamente pelo caminho de pedra, afastando-se daquele local o mais depressa que conseguia. Lágrimas escorriam pelo seu rosto, um choro de medo e confusão.

Ouviu outra gargalhada enquanto fugia e claro, a voz não a deixaria ir-se embora sem uma ultima tirada.

_ Tu vais voltar, minha querida. Tu vais voltar.

Tudo que Hinata se lembra é de acordar de repente. A claridade foi dolorosa, comparada á escuridão que ela se tinha habituado naquele vazio. Descobriu que estava deitada em algo macio e fofo. Quando os seus olhos se habituaram á luz ela viu um tecto com uma abobada elegante, acompanhado por um lindo candeeiro que ela já vira antes.

Ela estava de volta ao seu quarto da mansão Hyuuga.


Enquanto Sasuke andava por ali a matar o seu tempo perdido com os seus amiguinhos indígenas esquisitos que pareciam tudo menos indígenas (sim, esta frase faz sentido), Hinata preferia ficar com as ruinas ou os templos que ainda estavam belos e funcionais.

Tinha tirado o seu bloco de desenho para apontar e fazer rascunhos de tudo o que via, pois do ponto de vista arqueológico, aquele local era uma mina de sabedoria.

Ela sentia os olhares curiosos das criancinhas indígenas que estavam pobremente escondidas nas folhagens. Eles seguiam-na enquanto ela vagueava pelas ervas e analisava cada gravura feita nas pedras das paredes dos templos.

Hinata não os culpava, como era evidente. Ela podia ser bastante interessante para os olhos de uma criancinha que tinha sido isolada do resto do planeta. Além disso o facto de ela não tentar camuflar-se ao aceitar as suas tradições e os seus costumes faziam amentar a curiosidade daqueles pequenos seres sedentos de conhecimentos.

Cuidadosamente, Hinata traçou as linhas das gravuras de um dos muros mais antigos. Pareciam ter o mesmo tipo de desgaste que as pirâmides do Egipto, levando-a a imaginar que aquela construção deve ter sido feita na mesma altura.

_ O povo conta a sua história com símbolos e desenhos. – Escreveu ela antes de copiar as figuras que viam – Os símbolos parecem-me uma espécie de escrita… como uma descrição para cada imagem.

Sentou-se no chão, encostada a uma árvore e olhou fixamente para o muro, com o seu bloco de desenho na mão. Ela não conseguia decifrar as mensagens contidas nos símbolos, pois desconhecia a língua, mas talvez conseguia descodificar as imagens gravadas.

_ Na primeira vejo umas formas quadrúpedes. Possivelmente cavalos. – Escreveu – Parece-me uma guerra, não tenho bem a certeza. Vejo homens e armas… armas que não têm nada a ver com um povo como este… - Pousou o seu lápis e olhou para a folhagem que se encontrava lá em cima – Este lugar é demasiado confuso.

Olhou para a segunda imagem com o sobrolho franzido, e bateu com a base do seu lápis na folha de papel.

_ Há um círculo da segunda imagem. Tem oito círculos mais pequenos junto ao seu perímetro. Existe algo estranho no meio. Está um pouco gasta pelo tempo, por isso não consigo saber bem o que é. – Continuou a sua escrita e a sua análise, fazendo pausas para rabiscar um esboço da imagem ao lado do texto que formara na sua folha branca – Acho que posso deduzir que este circulo se refere ás oito peças… enquanto aquela figura que se encontra no meio deve ser a nona peça.

_ Deduzes correctamente. – Disse uma voz profunda e sem grandes emoções algures á sua direita.

Hinata não se virou nem tirou os olhos do que escrevera. Comprimiu os lábios e semicerrou os olhos.

_ Ainda estás despido?

_ Estou.

_ Então vai-te embora. Não quero arriscar olhar para ti. – Ela ergueu a cabeça e observou a terceira imagem que estava gravada no muro.

_ E porque não? Estamos no meio da natureza e o povo encara a nudez com naturalidade.

_ Só existem duas razões para eu encarar a nudez de um homem natural: em pornografia ou depois de fazer sexo comigo. – Disse ela secamente enquanto escrevia as suas deduções no caderno – Por isso a não ser que faças pornografia, ou faças sexo comigo, não te quero ver nu.

Ouviu Sasuke suspirar com aborrecimento e de repente um peso caiu ao seu lado. Hinata ficou chocada ao ver pernas cobertas com tecido negro.

_ Como via que me evitavas, decidi vestir umas calças quando estou ao pé de ti.

Hinata reparou que ele realmente tinha umas calças vestidas, mas andava sem camisola. Menos mal. Afinal de contas o peito do homem não era assim tão desagradável.

_ Ainda bem que voltaste a ver as coisas pelos olhos de uma pessoa do mundo distante do século XVI. Apesar de eu achar que geralmente a população usa sapatos. – Disse enquanto apontava para os pés descalços do homem.

_ Ignora isso. Deixa ver o que escreveste. – Relutantemente, ela entregou-lhe o caderno. Os seus olhos negros percorreram as letras elegantemente escritas pelo lápis de Hinata e o sobrolho escuro franziu-se – Tens uma óptima capacidade de decifrar as imagens. És mais esperta do que eu pensava.

_ Eu vou preferir tomar isso como um elogio antes que te espete o meu punho nessa tua cara irritante. – Fez ela num rugido enquanto lhe arrancava o caderno das mãos. – As imagens são imagens, não é preciso ser-se um génio para as descodificar. O problema são as imagens que têm legenda. Essas sim, têm algo escondido dentro delas.

_ Os egípcios não utilizavam palavras, pois não? Apenas símbolos.

_ Mas símbolos com significados. Para mim aquilo – Apontou para as formas estranhas gravadas na parede – Não quer dizer nada.

Sasuke olhou para onde o dedo dela indicava e inclinou a cabeça.

_ Quer dizer: " A batalha entre os condenados encheu os campos de sangue impuro." Mais ou menos isso.

Mas Hinata escreveu o que ele lhe tinha dito, fazendo uma careta.

_ Sangue impuro?

_ Quem mata é impuro.

_ É bom saber. – Murmurou ela antes de ergueu a cabeça novamente – O que é que diz mais.

_ "Ninguém salva os impuros a não ser a própria pureza.

_ "Ninguém salva…" – Dizia ela enquanto escrevia as palavras do outro, deitando a língua de fora como uma criancinha esforçada – "… a não ser a própria pureza". Ok, isto está a ficar estranhamente estúpido.

_ "Apenas oito viveram no mar de morte" – Continuou Sasuke sem ligar ao que ela dizia – "Desesperados pediram aos céus por uma arma".

_ Os oito cavaleiros… - Murmurou Hinata enquanto se lembrava da história que o homem que se encontrava ao seu lado lhe contara anos antes – Estás a falar dos oito cavaleiros que pediram ajuda aos deuses, certo?

Sasuke anuiu sem grandes emoções.

_ Mas… eu pensava que eles eram bons. Porque é que eles os referem como impuros?

_ Por muito boas que as suas intenções fossem, no momento em que a lâmina da sua espada tirou a vida a outro ser humano, o seu sangue e a sua alma ficaram impuros. – Ele encostou a cabeça ao tronco da árvore e olhou para cima – No ponto de vista desta gente tu e eu somos impuros.

Hinata olhou para o chão com alguma culpa, apertando o seu caderno com os dedos. Então lembrou-se de algo e franziu as suas sobrancelhas negras.

_ Tu disseste-me que eles tinham lutado com criaturas malignas!

_ Foi um erro de tradução daquele livro. – Respondeu enquanto pegava numa pedra e a analisava como se essa fosse a coisa mais interessante de todo o planeta – Depois de várias investigações descobri que os oito cavaleiros lutavam contra um exército cujos soldados eram tão humanos quanto eles. Apenas mais… cruéis. Pilhavam, matavam e violavam tudo por onde passavam. Os líderes dos oito decidiram por um fim a esse pandemónio, mas pelos vistos o exército inimigo era realmente poderoso. Tão poderoso que pareciam estar a lutar contra demónios.

_ Estou a ver. – Murmurou ela lentamente, absorvendo a informação – Tenho que admitir que esta história é absolutamente fascinante. – Deu-lhe uma leve palmada no braço – Diz-me o que está ali escrito – Apontou para o que parecia ser a legenda da segunda imagem.

Ele bufou e lançou-lhe um olhar desagradado pela sua atitude.

_ "Juntas as oito almas irão libertar a pureza."

_ Achas que é isso o que a nona peça significa? Pureza? – Perguntou Hinata animada, escrevendo o que ele lhe dissera.

Sasuke abanou a cabeça.

_ A pureza é algo subjectivo. Para nós é, geralmente, algo associado ao sexo. Para os antigos católicos, por exemplo, o sangue que as mulheres derramam todos os meses era sangue impuro. Não creio que a nona peça seja pureza… talvez algo que leve á pureza.

_ Uma vez impuro já não há retorno. – Disse Hinata secamente – É como juntar preto ao branco. Por muito branco que voltes a juntar, vai estar sempre tingido.

_ Talvez seja outro tipo de pureza… ou talvez eu esteja a traduzir mal… ugh. Vou ter que voltar que ler mais uns quantos livros quando chegar a casa. – O homem estava obviamente desapontado consigo mesmo, mas Hinata não se conseguiu levar a dar-lhe um pouco de simpatia.

_ Por quanto tempo vamos ficar aqui, afinal? Se eu como mais um daqueles animais esquisitos juro que me suicido.

_ Não sejas tão dramática, só cá estamos há dois dias. – Ele lançou-lhe um olhar de desaprovação – E nem te destes ao trabalho de tentar conhecer os teus hospedeiros.

_ Eu tenho a certeza que eles são encantadores. – Hinata levantou-se e sacudiu as suas calças sem grandes preocupações – Mas o meu trabalho aqui não é socializar. Temos que descobrir pistas que nos levem ao paradeiro da última peça, coisa que tu… - Apontou de forma acusadora em direcção do rosto atraente de Sasuke – Não estás a fazer devidamente. Pensei que tínhamos um contrato!

Ela não queria socializar. Hinata não tinha nada contra aquele bando de pessoas nuas, mas havia algo naquele lugar que a deixava constantemente em alerta. Durante a noite, enquanto Sasuke dormia no seu colchão, Hinata enrolava-se no saco de cama e estremecia por cada som que ouvia.

Parecia que algo vagueava pela selva. Algo perigoso e letal. Hinata não sabia o que era, mas a sua mão estava constantemente em cima do seu coldre até ao amanhecer, caso fosse necessário tirar de lá a sua arma.

A única coisa que ela queria era descobrir uma pista e sair daquele lugar de uma vez por todas.

_ Eu não posso simplesmente chegar aqui e exigir informações, Hinata.

_ É Lady Hyuuga para ti.

_ Eu chamo-te o que bem me apetecer. Este povo tem uma cultura delicada, é preciso sermos cuidadosos com o que dizemos. Eu preciso de tempo até conseguir arrancar alguma coisa da boca do chefe.

Hinata bufou e começou a desenhar algo sem significado no seu caderno. Quantas noites iria ela passar sem dormir? A falta de sono iria começar a afectar o seu desempenho e isso era algo que não queria.

Passou a mão pelo cabelo e mordeu o lábio. Não tinha um espelho consigo, mas conseguia imaginar os círculos negros que já lhe apareciam á volta dos olhos. Mais algum tempo com aquela rotina, e Sasuke iria notar.

_ Anda. – Disse ele enquanto se levantava – Vou-te mostrar um sítio. Ajudou-me bastante a encontrar as outras peças, quem sabe, contigo ao meu lado posso descobrir mais alguma coisa.

Ele não fez qualquer menção em a ajudar a levantar-se e Hinata franziu o sobrolho com a sua falta de cavalheirismo. Com um breve impulso já se encontrava de pé e colocou o seu bloco de desenho na mochila.

_ Estás a admitir que a minha presença te dá mais inteligência? – Ela sorriu maliciosamente ao dizer tais palavras, e colocou uma madeixa de cabelo negro atrás da sua orelha.

Ele lançou-lhe um olhar desagradado.

_ Não, é claro que não.

_ Certo.


O que fazia ela ali, na casa onde vivera durante toda a vida? Hinata fez uma expressão confusa enquanto atirava os lençóis e cobertores para o lado e se sentava na cama, olhando em volta.

Não era suposto ela estar…? Onde é que era suposto ela estar? Naquele momento nada a não ser um desfoque de pensamentos confusos atingia a sua mente, mas ela sabia que deveria estar noutro lugar qualquer.

Levou a mão á cabeça para tentar acalmar a súbita dor que a atingiu. Grunhiu com agonia e massajou as têmporas.

Após algum tempo a dor passou e ela respirou fundo, arqueando as costas. Estalou os dedos dos pés e colocou as pernas fora da cama, levantando-se.

Teve que se segurar á parede para não cair, pois os seus joelhos cederam ao peso do seu corpo durante alguns momentos. Arfou, exausta apesar de ter acabado de se levantar, e tentou erguer-se novamente.

Com as pernas a tremer, Hinata foi a cambalear até á porta do seu quarto. Desajeitadamente rodou a maçaneta e saiu da divisão que lhe pertencia, espreitando para o corredor.

_ Neji? – Chamou fracamente, com a voz rouca.

Nada lhe respondeu a não ser o silêncio e ela suprimiu um soluço de desespero. Começou a caminhar enquanto as suas pernas tremelicavam. A sua mão apoiava-se constantemente á parede ou a uma peça de mobiliário.

A sua memória ainda falhava. A única coisa que se lembrava era de uma voz fria e de um portão gigante no meio da escuridão, mas não tinha a certeza que tais coisas fossem reais. Fez um esforço para se lembrar de algo mais , mas nada a não ser um zumbido nas suas orelhas apareceu.

Ouviu vozes no salão principal e tentou caminhar mais depressa. Com um pequeno gemido agarrou-se á porta e abriu-a lentamente, espreitando para ver se estava lá alguém no corredor que dava até às escadas.

Ao ver que o caminho estava livre, Hinata vagueou até se esconder atrás de uma coluna e olhou para baixo, onde se encontrava o seu pai e tio acompanhados por mais três homens que ela não conhecia.

_ … Admitir que é suspeito. – Terminou um dos intrusos desconhecidos. Ele tinha uma cara de poucos amigos.

_ E o senhor tem de admitir que está a ser ridículo! – Respondeu o seu tio Hizashi num tom feroz, estalando os seus dedos elegantes.

_ Hizashi. – Fez o Lord Hyuuga para o seu irmão gémeo, ordenando-o sem palavras para que se acalmasse.

_ Mas Hiashi, ouviste bem o que eles disseram?

_ Ouvi, meu irmão. É óbvio que acho tais acusações contra a minha filha são absolutamente grotescas. – A voz de Hiashi estava calma, mas Hinata conhecia bem o seu pai. Ela sabia que por debaixo daquela aparência pacífica estava um fogo de raiva a consumir a paciência do conde.

Hinata franziu o sobrolho e sentou-se no chão, ainda escondida. Ela tinha sido acusada de alguma coisa? De quê?

_ As provas apontam para ela! – Disse o segundo homem – A sua filha era a única pessoa que se encontrava com a vítima e o sangue dessa mesma vítima foi encontrado nas suas roupas. Gostaríamos imenso de interrogar Hinata, se não for um incómodo.

Vitima? Sangue? De que falavam aqueles homens? Ela tentou lembrar-se de alguma vez ter sangue de outra pessoa nas suas roupas, mas mais uma vez nada lhe ocorreu.

_ Hinata é tão vítima como o rapaz. – Disse Hizashi no mesmo tom irritado – Ela não pode ser suspeita.

_ Temos que ver os factos como eles são, senhor Hyuuga. A sua sobrinha é considerada suspeita de momento, mas quem sabe, até pode ser uma testemunha valiosa.

Testemunha de quê? Ela não se lembrava de nada!

De repente Hizashi virou-se para o terceiro homem, aquele que ainda não tinha aberto a boca.

_ E o senhor Uchiha? Ele também acha que a Hinata é uma assassina?

Uchiha?

Sasuke!

Foi a primeira coisa que veio á mente da jovem condessa, mas quando ela olhou para o homem sentiu o desapontamento invadi-la.

Era jovem, mas não tão jovem quanto Sasuke. Deveria ter vinte e poucos, não mais. O seu cabelo negro estava apertado num baixo rabo-de-cavalo e o seu rosto não mostrava mais nada do que uma máscara de pura e gélida frieza.

_ Eu não sei em que devo acreditar, senhor Hyuuga. – Disse o homem e a sua voz, apesar de possuir um tom tão cruel como a sua expressão, era profunda e convidativa – Parte de mim quer acreditar que uma jovem tão doce e gentil como a sua filha nunca faria tal coisa ao Sasuke.

Hinata sentiu o sangue gelar com as palavras daquele homem que nunca antes tinha posto a vista em cima. O seu corpo estremeceu violentamente e ela teve que se encostar á coluna onde se escondia para não cair de cara no chão.

_ Mas o corpo do meu irmão está desaparecido e a única coisa que temos é um vestido tingido com o seu sangue e uma rapariga convenientemente desmaiada no local do crime.

Um som de pura agonia quase escapou dos lábios de Hinata, se não fosse uma grande mão masculina a tapar-lhe a boca. O mundo desfocasse á frente dos seus olhos, que iam humedecendo cada vez mais até lágrimas gordas caírem-lhe pelas faces abaixo. O seu corpo elevou-se, erguido por braços fortes e ela apoiou-se a um corpo quente, chorando lentamente até sentir-se cair em cima da sua cama.

_ E-eu… eu n-não matei… eu n-não… - Murmurou incansavelmente para Neji, que a abraçou e afagou-lhe o cabelo, deixando que ela encharcasse a sua camisa com lágrimas.

_ Shhh – Murmurou ele lentamente, enchendo o seu cabelo de beijos afectuosos – Eu sei que não.


_ Este sítio é lindo. – Murmurou Hinata fantasmagoricamente enquanto aterrava ao lado de Sasuke.

Estavam num templo antigo, já meio danificado pelo tempo, mas era óbvio que ainda era usado. O sol penetrava alguns buraquinhos que existam no tecto, enviando raios de luz para os altares decorados com monstros de pedra e para os murais cuidadosamente pintados nas paredes.

Sem sequer dirigir uma única palavra ao seu companheiro de viajem, Hinata avançou, olhando para todos os lados com um ar curioso estampado no rosto. O som das suas botas a embaterem na pedra ecoava pelo espaço, dando-lhe uma aura mais mística do que já tinha.

Hinata olhou para os murais das paredes e reparou que também eles tinham legendas feitas com os mesmos símbolos que vira algumas horas antes.

_ "O espírito dos oito será o derradeiro escudo" – Leu Sasuke ao notar na expressão curiosa que ela fizera ao olhar para a parede.

_ É bom saber que eles têm alguma utilidade milénios depois de terem sido mortos. – Murmurou Hinata para ninguém, tocando no murar levemente como se tivesse medo de o danificar.

_ A minha teoria é que as peças deverão vir aqui, para este mesmo lugar. – Sasuke acenou para o local onde se encontravam – Aqui é o único sitio em todo planeta onde a nona peça poderá ficar protegida.

Hinata lançou-lhe um olhar incrédulo e coçou o queixo.

_ Não quero arruinar a tua teoria, mas este templo está um bocado decadente para proteger alguém.

_ Estas a ver estes pilares? – Sasuke colocou a mão numa das colunas que se erguia no meio da divisão. Eram oito ao todo e estavam todas em círculo em volta de um altar de pedra – Julgo que devemos por as peças dos oito cavaleiros em cada um deles e a nona peça aí nesse altar. Depois, como diz naquela inscrição, irá formar-se um escudo.

_ E onde é que vais buscar os fundamentos para alimentar essa tua linda teoria? – Perguntou ela secamente, cruzando os braços.

_ Em todo o lado, nas paredes. Olha ali: "O circulo sagrado irá afastar os impuros" e ali também "O Nono será intocado por mãos repletas de sangue", "A pureza irá prevalecer quando as nove se unirem de novo". Este lugar é o ponto de encontro das nove peças, Hinata. Só aqui poderão ficar em segurança. E olha aqui, se não acreditas em mim. – Apontou para o pilar onde tivera a mão.

Hinata aproximou-se e semicerrou os olhos. No pilar, gravados na pedra, encontravam-se uns símbolos estranhamente familiares.

_ Darkness… - Murmurou ela atónita – Sasuke, isto é inglês.

_ Eu sei. Vai ver os outros.

Ela assim o fez e correu para o pilar mais próximo.

_ Este aqui diz "fogo" em francês! – Exclamou, admirada e correu para o seguinte – "Água" em africano! E este diz "Terra" em chinês! "Ar" em muçulmano! "Vida" em alemão! "Morte" em espanhol! – Correu para o ultimo pilar – "Lux"… - Leu num murmúrio – "Luz" em latim… Sasuke, como é que palavras do mundo lá de fora vieram cá parar?

_ Não faço ideia.

_ Isto é tão confuso e assustador ao mesmo tempo. – Murmurou ela fascinada, sorrido levemente.

Afastou-se do pilar, observando as palavras com contemplação. Havia ali um mistério delicioso que fazia o seu coração palpitar com expectativa. Respirou fundo, inalando aquele aroma de antiguidade e olhou para o tecto novamente.

Franziu o sobrolho.

_ Está ali qualquer coisa estranha em cima. – Disse ela sem baixar a cabeça.

Sasuke levantou o olhar e ergueu uma sobrancelha.

_ É só o tecto, Hinata, não há nada de estranho.

_ Há sim! São… umas linhas… não consigo ver bem daqui, o meu ângulo não é o melhor. – Então viu o altar que se encontrava no meio do círculo formado pelos pilares – Talvez…

Lançou um olhar indeciso a Sasuke, que tinha uma expressão de espectativa e interrogação. Sem mais demoras, Hinata deitou-se de barriga para cima no altar, deixando as suas mãos caírem ao seu lado e olho novamente para o tecto.

_ Sabes, isso é um lugar sagrado. Estás a desrespeitá-lo seriamente. – Disse Sasuke num tom de aborrecimento.

Hinata não respondeu de imediato. Os seus olhos ainda estavam fixos nas supostas linhas que ela viu e de repente o seu rosto bonito brilhou com reconhecimento.

_ É japonês.

_ O que é que é japonês?

_ As linhas no tecto. – Disse ela como se fosse a coisa mais óbvia que existia á face da terra.

Sasuke olhou para cima outra vez e franziu as suas sobrancelhas escuras.

_ Eu não vejo nada remotamente parecido com japonês no tecto.

_ Não nesse ângulo, mas aqui… - Hinata semicerrou os olhos – Lê-se bem.

_ O que é que diz?

Hinata franziu o seu sobrolho. Apesar das suas descendências asiáticas, o japonês nunca tinha sido o seu forte. Respirou fundo e comprimiu os lábios, recorrendo á sua memória.

_ Sa… Ku… Ra.


E é o fim do capítulo 14! Desculpem o meu desaparecimento demorado, nem sei o que meu deu. Bem, espero ter retomado aquela vontade de voltar a trabalhar nas minhas fics, porque diverti-me imenso a escrever este capítulo 8D

Agradeço a todas as pessoas que me mandaram reviews e que puseram esta história nos seus favoritos, rezo para que a vossa espera não tenha sido em vão com este capitulo. Eu sei que não há muitos momentos engraçados ou sexys, mas este capitulo é mais ou menos um ponto de avanço para a narração da história.

Bem, até ao próximo capítulo, tenho a sensação que não vamos ter que esperar tanto tempo por ele.

Bjs,

Evil.