O que não podemos deixar para trás

Resumo: Eu o amava até confessar meus sentimentos e ele rejeitá-los, ficar com outra e ainda ir embora. Agora, quatro anos depois, ele volta e quer que eu ainda sinta o mesmo de antes?

Disclaimer: "Twilight" pertence a SM. Acham que eu estaria aqui escrevendo fanfictions se fosse meu? Eu estaria no Coachella numa hora dessas!

Capítulo 14

Na frente dele, eu não conseguia parar de me remexer na cadeira.

O certo seria eu manter uma pose indiferente, como quem realmente não queria aquele emprego na frente do cara que estava lendo no momento o seu currículo.

Peter Moore, diretor da Kennedy Preparatory School de Port Angeles, começou a ler minha vida profissional há pelo menos uns dez minutos, e se eu mesma não conhecesse tudo o que já fiz na vida, podia até jurar que ele estava achando interessante.

Finalmente, com mais dois minutos de agonia, ele fechou a pasta e ajeitou os óculos. Descruzei as pernas e disfarcei a agonia que sentia apenas mexendo meu nariz. Foi um truque que Rosalie me ensinou. Há algum tempo ela aprendeu que podia apenas remexer o nariz para parar de torcer as mãos com o nervosismo, o que as pessoas notam com mais facilidade.

-Bem, senhorita Swan... – ele deu um suspiro.

Já começou mal.

-Hmm... Sim? – forcei um sorriso. Por mais que eu não conseguisse, parte de mim agradecia apenas por ter tentado uma entrevista para emprego.

Levei um fim de semana para pensar sobre a proposta de trabalho de Garrett. Durante os dias que pernoitei na casa de Rose, conversamos sobre o que realmente poderia ser bom se eu mudasse para Port Angeles e tentasse começar uma nova vida na cidade. Vimos juntas os prós e os contras.

Havia mais prós que contras.

Concluímos que seria bom ter uma chance de emprego numa cidade não tão pequena e liguei para marcar uma entrevista.

Dez dias depois consegui me sentar com o senhor Moore para mostrar meu currículo.

O pensamento me assustava. Se conseguisse a vaga, eu teria que mudar para Port Angeles. Não porque eu não conhecesse a cidade. Eu conhecia pouco. Minhas passagens pela cidade se resumiam a visitar as livrarias quando eu ainda morava em Forks com meu pai. Mas desde que mudei para Seattle nunca mais a visitei.

-O seu currículo mostra que você tem pouquíssima experiência profissional.

Não me diga, Sherlock.

Minha única experiência profissional foi numa faculdade particular onde um aluno me perseguia e tentou matar o diretor porque ele me demitiu quando a situação ficou fora de controle de todos.

E sim, eu sei agora que Garrett e ele são primos e que meu ex-patrão arranjou tudo isso.

-Mas está contratada.

Hã?

-Quer uma semana de preparo? Minha secretária pode mandar por email todas as ementas das disciplinas que deve ministrar. – ele devolveu minha pasta com o currículo, dando um sorriso meio que comercial. Ele realmente queria mostrar que não estava sendo forçado a fazer aquilo.

-Hmm... S-Sim, obrigada. – peguei meus documentos e coloquei dentro da pasta de couro que trouxera – Preciso disso o mais rápido possível.

-Não se preocupe. Ainda hoje você vai receber tudo que precisa. Instruções, calendário de reuniões e todas as ementas. – ele me garantiu ao se levantar – Deixe-me acompanhá-la até a porta.

Inacreditável.

Rose vai adorar tudo isso.


Cheguei zonza em Seattle com a quantidade de informações que peguei de antemão da secretária de Peter, Charlotte. Ela era uma moça muito simpática e percebi logo que não teria com ela os mesmos problemas que tive com Heidi.

Durante a viagem de ônibus entre Seattle e Port Angeles, mandei uma mensagem para Rosalie confirmando o sucesso da entrevista. Em pouco mais de uma hora e meia ela já havia organizado por WhatsApp uma festa para comemorar o evento, além de me fazer prometer que eu não deixaria de dar notícias todos os dias para ela e meu pai, além de marcar encontros e visitas com ela e Emmett todos os fins de semana.

Cheguei a Seattle um pouco depois das quatro da tarde e rumei direto para casa. Ao subir para meu apartamento, fiz logo todos os planos para os próximos dias.

O primeiro item da lista era casa.

Por algum motivo, a oferta anterior de Edward reapareceu na cabeça: a casa de Port Angeles. Ele tinha uma casa lá e me ofereceu para ficar lá até encontrar uma nova.

Só depois eu lembrei que era uma oferta de Edward Cullen e resolvi deixar de lado.


No outro dia eu estava de volta a Port Angeles. Peguei o ônibus de seis da manhã e cheguei por volta das nove horas, com fome e já um pouco cansada. Eu havia dormido cedo para dormir um número considerável de horas antes de partir. Mas não deu certo. Estava ansiosa. Eu queria arrumar um lugar para ficar hoje e começar a planejar minhas aulas. Eu queria deixar minha preguiça de lado e ligar para qualquer mecânico que não fosse Jake para consertar minha picape e não ficar mais dependendo dos ônibus da Olympic Bus Lines com horários miseráveis para ter que ir e vir a Seattle.

Uma coisa por vez, Swan.

Passei novamente na escola onde iria trabalhar para, desta vez, fazer o cadastro na biblioteca e pegar emprestado alguns livros para começar a fazer os planos de aula.

Depois disso, parti em busca da casa. Durante a noite anterior, fiz uma lista com endereços e telefones que procurei na internet e nos jornais de PA vendidos em Seattle. Tinha em mente que não deveria ser tão extravagante. Uma sala onde coubesse um sofá-cama, um quarto, cozinha e banheiro. Não precisava nem ter sacada nem nada.

Ao sair pelos portões da escola, eu quase fui repelida pelo brilho intenso de um Volvo prateado estacionado próximo à entrada.

Edward Cullen estava esperando por mim, de óculos, braços cruzados em frente ao peito, com jaqueta e calça jeans.

O que ele fazia aqui?, perguntei-me depois que minha visão havia voltado ao normal.

Aproximei-me dele carregando meus livros emprestados contra o peito, a bolsa presa num dos ombros e meu celular pronto para ligar para Emmett. Ele estava ali porque com certeza absoluta Rose contou para o filho da mãe sobre meus planos e ele foi contar para o novo amiguinho dele.

Traidor.

-Bom dia, Bella. – ele deu um sorriso – Emmett pediu pra avisar que ele não teve nada a ver com a minha ideia de vir até aqui ajudar a procurar uma casa.

-Não adianta, eu não vou perdoá-lo. – falei ao parar na frente dele – Sério, Edward, não precisava vir aqui.

Vi-o mexer os lábios e forçar um sorriso. Eu já sabia com aquilo que ele não dava a mínima para minha opinião.

-Você veio de Seattle só pra isso? Você não tinha que... sei lá, arrumar um emprego?

Edward riu. Sim. Riu da minha sugestão.

Desde o dia da nossa conversa na casa de Rose, concordamos que poderíamos tentar ser amigos. Fui sincera ao dizer que achava muito difícil as coisas voltarem ao normal e ele aceitou minha opinião, mas completou dizendo que não ia machucar tentar.

Não ia causar mais danos.

E desde então ele tenta me convencer a sair em todos os momentos possíveis. Convidou até mesmo para a festa de aniversário da mulher de Jasper Whitlock, e eu nem sabia que as pessoas planejavam essas coisas com quase quatro meses de antecedência.

Mas eu não tinha muito ânimo para sair quando estava ainda tentando resolver minha vida. Trabalho e casa eram minhas prioridades no momento.

-Entre no carro, Bella. – ele disse com um sorriso – Vamos procurar umas casas por aí.

-Hmm. – ergui uma sobrancelha e olhei o carro dele. Antes ele tinha outro carro da mesma marca, um Volvo SVU preto. Ele sempre foi preocupado com essas coisas de segurança – Eu nunca vou conseguir um desconto especial no aluguel se eu aparecer com um carro desses na frente do corretor.

Edward riu de novo. E eu comecei a me irritar.

-Não faz pouco caso. É sério. Eu preciso de uma nova casa hoje.

-Ok, ok. – ele ergueu as mãos, mesmo assim, abrindo a porta para eu entrar – Mas vamos lá.

Olhei o carro. Olhei Edward.

Não custava nada passar aceitar uma carona e usufruir das vantagens de procurar uma casa com um motorista para levar você a qualquer canto.

Agora, será que era possível encontrar uma casa em duas horas e pegar o ônibus de volta a Seattle à uma da tarde ou eu poderia arriscar passar a noite num quarto de hotel da cidade mesmo sem trazer nem uma peça de roupa para trocar?

Decisões, decisões.


Se dentro do carro era estranho e difícil engatar numa conversa com Edward (também era bem possível o contrário – ele tentar conversar comigo e não conseguir), na inspeção das casas a coisa era diferente. Eu pensei em alugar um apartamento pequeno próximo à escola. O problema era que não havia nada de "pequeno" em nada do que procuramos.

Tive que me resignar em procurar uma casa pequena em bairros com pelo menos vinte minutos de trajeto com transporte público e não encontrei quase nada. Edward tirava todo meu ânimo ao ver os menores defeitos em tudo: a sala era pequena demais para um sofá-cama, o quarto tinha umidade, o teto era baixo demais, as escadas tinham degraus cheios de problemas.

A parte positiva era que ele sabia com o que estávamos lidando. Pelo menos tirei da cabeça que não queria algo só pequeno, como também queria algo que pudesse ser meu lar.

Finalmente, quase quatro horas de buscas depois, sem contar o intervalo para o almoço, achei o lugar perfeito. Não era um apartamento num prédio modesto, mas sim uma pequena residência a quinze minutos de ônibus do meu trabalho. Isso seria reduzido drasticamente assim que meu carro estivesse consertado ou se (seeee) eu comprasse um novo.

A casa em si era pequena, com uma sala, uma suíte não muito grande, um pequeno quarto que poderia servir de escritório, um banheiro social e a cozinha. Na parte da frente tinha um jardim, e a antiga moradora cuidou tão bem que eu senti remorso ao pensar em não cuidar dele.

Minha nova casa.

Depois, cansada, só restava eu passar a noite em algum hotel/pousada até o dia seguinte, pois o próximo ônibus para Seattle só sairia às seis da manhã.

Dei a sugestão para Edward me deixar em algum hotel que ele conhecia e ele simplesmente balançou a cabeça.

-Tenho uma ideia melhor. – disse ele.

-Que ideia?

-É surpresa.

Dei um gemido e ele arqueou as sobrancelhas.

-Ainda não gosta de surpresas, Bella?

-Ainda odiando, na verdade. – dei um suspiro cansado – Sério, Edward, pode me deixar no hotel mais próximo da rodoviária. Vou ter que comprar algumas coisas pra passar a noite na cidade. Eu vim sem nada.

-Achou que daria tempo de procurar uma casa antes de pegar o ônibus de uma da tarde para Seattle? – ele perguntou calmamente. Foi aí que entendi que minha ideia foi absurda – Rose pensou o contrário e arrumou uma mochila com suas coisas. Está no porta-malas.

Minha boca abriu e fechou tantas vezes que pensei que tinha virado um peixinho.

-Ela arrumou, foi?

Edward coçou o pescoço numa hesitação.

-Foi ideia de Emmett, sabe? Ela não gosta muito de mim. Mas ele explicou que você ficaria muito cansada e não teria tempo de pegar o segundo ônibus do dia para voltar pra casa. Ela acabou preparando uma mochila com suas coisas.

-Eu imagino que isso tenha acontecido mesmo. – falei ao deixar escapar outro suspiro. Rose havia contado no final de semana que passamos juntas que estava cada vez mais irritada com a presença de Edward na casa dela. Ela até discutiu com Emmett por conta disso.

Só sei que nos últimos dias Emmett agora saía com mais frequência, sempre com os amigos.

-Ela não gosta de mim. – ele comentou de repente.

Não pude e nem havia como negar nada. Era verdade. Rose nunca mais teve contato com Edward também depois de tudo o que havia acontecido. Na opinião dela, ele foi um babaca na história toda.

-Pra onde estamos indo? – resolvi perguntar para mudar de assunto. A estratégia não passou despercebida por ele.

-Ela soube do que aconteceu entre nós?

Senti meu corpo gelar.

Meu Deus, ele quer conversar de novo sobre isso.

Quis ter um minuto para me recuperar do choque, mas demorou mais que isso. Meu silêncio então foi a resposta que ele queria.

-Tá explicado então.

-Edward... – falei com um suspiro cansado.

-Ela e eu sempre fomos sociáveis, mas nunca brigamos nem nada. E eu tenho muita consideração por Rosalie porque foi ela quem nos apresentou, Bella.

Remexi-me inquieta no assento do carona. Olhei pela janela.

Rose e Edward estudaram juntos o Ensino Médio inteiro. E eu já era amiga dela há bastante tempo quando um dia ela me convidou para conhecer Edward Cullen.

Mas ela nunca pensou que as coisas ficariam terríveis anos depois.

O carro deu então uma volta, entrou numa rua cheia de casas elegantes e deu uma parada em frente a uma delas.

-Onde estamos? – perguntei, já imaginando a resposta.

-Minha casa. – ele deu um sorriso meio forçado – Você pode passar a noite aqui e amanhã volta para Seattle. Nem precisa ser tão cedo. Pode ficar aqui pela manhã e voltar no ônibus da tarde.

Olhei desconfiada para a casa.

-Bella, eu... – ele deu um suspiro cansado e apertou a ponte do nariz – Eu sei que não gosta que os outros façam favores por você porque acha que fica devendo. Mas, acredite, eu só estou pensando em ajudar. Não é um favor.

Mordi meu lábio inferior e olhei de novo pela janela. Era uma casa de três andares, com portas e janelas francesas, com pintura renovada e um enorme jardim. As mãos da mãe de Edward com certeza eram responsáveis por ele.

-Sua família está aí?

-Não. – ele respondeu, desligando o carro antes de abrir a porta. Ele saiu e deu a volta no carro, abrindo meu lado para eu descer – Raramente meus pais aparecem aqui. Eu venho pra cá quando quero sossego. Depois de tanto tempo longe, eu havia esquecido que Seattle pode ficar insuportável algumas vezes.

Dei mais uma olhada na casa e nas outras da mesma rua. Elas certamente eram usadas por essas famílias ricas para passar os fins de semana longe da correria da cidade grande. Aposto que os vizinhos conseguiam ouvir quando alguém abria uma torneira na mansão da esquina.

Depois de pegar minha mochila preparada por Emmett no porta-malas, Edward me conduziu pelo jardim até a casa, comentando alguma coisa sobre a mãe dele usar apenas em ocasiões especiais e não sei mais o quê. Eu não comentei nada. Não entendo nem uma vírgula sobre ocasiões especiais de gente rica.

-Podemos preparar o jantar ou pedir para entregarem comida. – ele explicou ao abrir a porta e dar passagem para que eu entrasse primeiro – Vim mais cedo pra deixar a geladeira preparada e pedi pra limparem os quartos também.

Ao entrar, fui tomada de assalto pelos cheiros de produtos de limpeza e pelo brilho da superfície de cada móvel. Eu não tinha nem ideia se era possível alguém conseguir esse efeito ao limpar a casa.

A sala de estar mais parecia um enorme salão de recepção. Havia duas escadas que levavam para o outro andar – uma pelo lado esquerdo e outra pelo direito. Pelo que dava para ver do ponto onde eu estava, os outros andares só tinham uma escada levando para o topo da casa.

-A cozinha é lá atrás. – Edward deu um sorriso forçado, talvez porque eu ainda não havia falado nada enquanto observava os detalhes – Você quer subir e ver o quarto onde vai ficar?

Confirmei com a cabeça e ele me conduziu pelas escadas do lado esquerdo. Ao chegarmos ao outro andar, ele tomou a direção de um corredor até chegar a um dos quartos. Atrás dele, vi quando ele abriu a porta e deu passagem para mim.

-Wow... – murmurei. Acho que a casa que eu havia acabado de alugar podia caber ali. Tinha até uma cama king size que dava para oito Bellas dormirem juntas.

-Pode se trocar. – ele me entregou a mochila com minhas coisas e deu um sorriso mais sincero. Entrei e fiquei parada no meio do quarto, olhando entre a cama e a porta, observando o detalhe dos móveis, enquanto ele apoiou o corpo na batente da porta – Pode tomar um banho enquanto eu decido sobre a comida, ok?

-Ok. – falei de onde eu estava. Ele deu outro sorriso e afastou-se, fechando a porta para eu ter mais privacidade.

A primeira coisa que fiz ao ficar sozinha? Joguei-me na cama e comecei a pular nela.

Era a primeira vez que eu tinha uma daquele tamanho só para mim, oras.


-Não está mesmo com frio? – Edward perguntou pela terceira vez desde que, depois de jantarmos comida italiana, sentamos na sacada para apreciar a vista do Ediz Hook e os demais navios ancorados próximo ao porto. A casa não ficava perto, mas era possível ver os contornos do estreito e da baía por conta da iluminação.

-Não. – respondi, balançando a cabeça. Ele segurava uma manta para que eu me cobrisse caso sentisse frio, então dei um sorriso e continuei – Não está tão frio assim.

Edward deixou a manta em cima de um puff que tinha ao lado da cadeira de descanso onde ele estava e começou a olhar a vista comigo.

-Nunca teve essa vista, Swan? – ele perguntou ao meu lado quando o silêncio ficou forte entre nós.

-Nunca. Quer dizer, só por fotos. – dei um sorriso. Enquanto Edward estava sentado, eu preferi ficar em pé, curvando meu corpo ao apoiar os braços na proteção da sacada. A vista era muito bonita mesmo.

-Já foi a algum desses restaurantes? – ele perguntou. Sem tirar os olhos das luzes da baía, escutei quando ele se levantou e se aproximou de mim.

Pelo canto dos olhos, vi Edward se apoiar também ao meu lado ao curvar o corpo. Ele então virou para mim, arqueando uma sobrancelha enquanto esperava minha resposta.

-Nunca. – finalmente respondi – Acho que agora terei tempo, não é?

-Um deles é o New Moon. – ele falou animado.

Acho que Edward pensava que eu já havia ouvido falar desse restaurante, porque ele parecia animado demais. Não sei se era um lugar importante, então fiquei esperando pela explicação, arqueando uma sobrancelha.

-É um lugar famoso daqui.

-Ah. – dei de ombros ao ouvir a explicação. Devia ser um desses restaurantes onde o consumo mínimo devia ser de quinhentos dólares onde eu nunca na vida colocaria meus pés.

-Minha mãe conta que o lugar é abençoado. O New Moon fica numa ilhota pra onde as pessoas levam alguém especial. Foi lá que meu pai a pediu em casamento.

Dei uma risada e Edward me olhou, curioso.

-Desculpe, eu não estou rindo da sua história. – tratei logo de explicar, abafando o riso – É que logo que você falou o nome, achei que seria um lugar onde nunca pisaria por causa do preço. Agora com a explicação eu realmente sei que nunca vou pisar lá.

Percebi que o rosto tinha uma sombra de confusão, como se ele não entendesse o que eu falava.

-Como assim?

Olhei-o fixamente porque eu não achava possível que alguém não percebesse uma coisa tão óbvia.

-Eu não sou especial pra ninguém nesse sentido, Edward. – expliquei, voltando a olhar o estreito de areia – Vou passar o resto da vida longe desse lugar. – falei com bom humor, tentando fazer com que ele risse do que eu falava.

Ele não riu. Pelo contrário – ele me olhava como se eu tivesse agora duas cabeças.

-O que... – ele começou. Parou, umedeceu os lábios e continuou – Por que... por que diz essas coisas?

Ficamos em silêncio. Foi tão constrangedor que doeu.

-Porque é verdade, oras. – dei de ombros, evitando encará-lo. A vista era mais importante no momento – Eu não sou especial pra ninguém.

-Não, não é verdade, Bella. – ele tentou enfatizar o "verdade" na frase dele – E eu gostaria que evitasse falar assim de você mesma na minha frente.

Desta vez, eu que havia ficado confusa e olhava para ele como se tivesse duas cabeças.

Voltamos a ficar em silêncio, olhando a paisagem, até que ele resolveu falar de novo:

-Isso é tudo culpa minha.

-Culpa de quê? – perguntei, curiosa.

-Você ser desse jeito agora. – ele admitiu, olhando não para mim, mas para os pontos iluminados próximo ao estreito de areia – Achando que vai ficar sozinha, que não é especial pra ninguém, afastando todo mundo.

-O que você tem a ver com isso? – franzi o cenho, tentando entender o ponto dele.

-Você ficou assim depois que nos separamos, Bella. – ele apertou a ponte do nariz, os olhos fechados com força – Antes você era a mais positiva de todo mundo, sempre nos animando e incentivando, sempre ajudando e fazendo companhia aos outros. Agora você mal sai de casa, tem poucos amigos e ainda é negativa a ponto de sempre esperar pelo pior das coisas como se não quisesse se decepcionar se derem errado mesmo! – ele se exasperou no final e eu não pude deixar de ficar absolutamente pasma com o que ele dizia.

-Edward, eu...

-Você nem faz questão de manter contato com as pessoas. Foi difícil eu conseguir descobrir onde você estava depois de todos esses anos porque você havia sumido. – ele me cortou, passando a mão pelo cabelo e deixando-o mais bagunçado que o normal – Emmett falou que isso é por causa da depressão, e ele e Rosalie fazem o possível pra evitar que as coisas voltem a ser como antes. Que voltem a ser depois que nós nos separamos.

Edward finalmente parou e respirou fundo, soltando o ar lentamente.

-Edward... – comecei num hesitação. Tinha medo que ele explodisse comigo como aconteceu há alguns minutos – Nada disso é culpa sua.

Ele me olhou irritado. Os olhos verdes chegavam a brilhar como um dos faróis perto do estreito.

-Isso poderia ter acontecido mesmo que não tivéssemos nos separado. – forcei um sorriso porque no fundo ele tinha razão em dizer que as coisas ficaram desse jeito depois do que aconteceu entre nós. O terapeuta já havia falado sobre esses meus problemas de isolamento – Eu gosto de ter poucos amigos, de ver House sozinha e...

-E agora prefere mudar pra uma cidade sem Jacob, Rosalie e Emmett, os únicos amigos que manteve em quatro anos.

-Edward...

-Deixe-me pelo menos ajudar. – ele implorou – Vamos voltar a ser amigos.

Por que isso, meu Deus? E tão de súbito... Ele nem parecia o Edward confidente que eu conhecia antes.

-O-Ok... eu acho. - respondi depois de um momento no qual ficamos nos olhando sem piscar – Eu vou tentar.

Ele deu um suspiro de alívio e passou de novo a mão no cabelo, enquanto eu voltava a olhar a baía.

E toda essa discussão por causa de um restaurante... Imagine se fosse por algo sério. Será que ele iria...

Subitamente senti meu corpo ser envolvido por uma fonte de calor que veio junto com os braços de Edward. Em poucos segundos eu estava involuntariamente abraçada a ele.

-Você me perdoa? – ele falou com a voz abafada no meu cabelo – Perdoa pelo que aconteceu entre nós?

-Edward, pare... – senti um pavor enorme por me ver tão próxima a ele depois de tantos anos longe – Do que...

-Só responda, Bella, não pense demais.

-O-Ok... – murmurei de novo, sentindo-me sufocada.

Achei que ele me soltaria depois da minha resposta, mas estava errada. Ele continuou me sufocando com o abraço e o calor dele, e não parava de suspirar como se estivesse muito cansado.

-Eu sinto muito... – ele murmurou – Eu sinto tanto...

-Oh.

Finalmente entendi.

Edward se sentia culpado.

Sem quebrar o contato, girei meu corpo para ficarmos de frente, ele ainda me abraçando.

-Eu sinto muito também. – murmurei, enterrando meu rosto na camisa dele.

Uma risada curta fez com o que o corpo dele tremesse.

-Você sente pelo quê, Bella? Você não fez nada.

Dei também um suspiro cansado.

-Se eu tivesse sido mais forte, eu não teria ficado... obcecada pela minha paixonite aguda. – senti os braços dele me apertarem nesse momento – Eu queria ter sido mais forte, seguido em frente e evitado tudo isso. E nem teria sido preciso me isolar pra esquecer tudo.

Edward deu mais um suspiro e continuou me abraçando.

-Lembra quando foi a última vez que nos abraçamos? – ele perguntou do nada.

Sim.

Havia sido uma semana antes de descobrir sobre o relacionamento dele com Kate.

Uma semana antes de tudo mudar.

Fechei os olhos para evitar que as emoções negativas tomassem conta de mim. Ele havia pedido para eu parar com aquelas coisas.

Não sei por quanto tempo ficamos daquele jeito, mas perdemos a noção do tempo depois que tiramos todo o peso do mundo de nossos ombros.


Desculpem de novo pela demora. Segunda vez que atraso tudo por aqui :(

Nossa, dez pessoas lindas comentaram no capítulo passado, isso é tão bom, eu fico tão agradecida a quem se manifesta e me diz se estou indo pelo caminho certo... :) Obrigada a todos! Parei um pouco de responder por falta de tempo. Vou procurar voltar a responder, prometo! :(

Tenho três ideias para o outtake no PoV do Edward:

1) Primeira vez que reencontra Bella em quatro anos;

2) A última vez que se abraçaram:

3) Edward cuidando de Bella depois da morte de Felix.

Haverá outros, claro :) No momento gostaria mais de ver qual desses vocês gostariam de ler.

Digam o que acharam deste capítulo. Gostaram da conversa entre os dois? Gostaram do início da segunda fase da história?

Aos que apoiam Bellinha arranjando outro namorado para deixar Edward com ciúmes... aguardem! *evil smile*

Próximo capítulo dia 05 de maio.

Um beijo!