In a Different Light
Capítulo 13: Acertando o Estágio
Autoria: TheMaven
Tradução: Shampoo
Depois de deixarem a casa de InuYasha, Rin e Sesshoumaru voltaram por diferentes caminhos. Ele ordenou que ela voltasse ao acampamento antes de continuar o caminho entre as árvores. Rin ficou parada e o viu se distanciar ao adentrar a floresta, ascendendo ele aos céus depois.
Ah, sim, ela disse a si mesma, ele vai matar algumas coisas. Muitas coisas.
Suspirou e balançou a cabeça, depois dirigiu-se ao acampamento. Os deuses proíbem que eu fique de um lado ruim. Se ele voltar para atacar Takeda de novo... Respirou fundo e soltou o ar. Depois de tudo o que ele disse e fez, eu definitivamente preciso agradecer a Sesshoumaru por manter a palavra. Eu sei o quão difícil deve ter sido aquilo. Ele está tão acostumado a sair e resolver as coisas ao modo dele... E tinha todo aquele orgulho... Desculpar-se àquele homem e deixá-lo viver depois de tudo que dissera... especialmente com aquele temperamento... Não daria tanto crédito.
Mas como ele mesmo dissera, Sesshoumaru não era um animal. Só porque alguém o provocou não significava que ele tinha que responder. E porque ele não respondeu, claramente apareceu como um homem de bem para aquele confronto.
Homem de bem? Ela riu um pouco envergonhada. Eu tenho o melhor homem que existe. Ou demônio, como o Destino quis. E assim que o ritual de cortejo se completar...
O sorriso dela aumentou como o de um gato. "Porque...", começou suavemente, "Você me deseja tanto quanto eu desejo você".
"E em breve vamos ter o que queremos".
Riu com a lembrança do "duelo". Ela deitada de costas com o lorde por cima dela. Apesar das palavras e da expressão dela serem de desafio, o corpo de Rin era uma trêmula massa de nervos, e ele uma sólida e quente massa de músculos.
Sim, ela tinha uma clara recordação da temperatura que o corpo dele tinha sob ela, a radiação dele saindo em ondas.
"Diga-me, Rin. Por que está tão obcecada que a toque sem a sua permissão?"
Não tinha dado uma resposta na hora, e nem tinha uma até agora. Mas agora queria saber de uma coisa...
Quão breve seria aquilo?
O amanhecer deu lugar ao dia, e o festival recomeçou. Rin sentou-se numa clareira com Jaken e Ah-Un, escutando a música tocar e, de novo, as pessoas se movimentando pelo vilarejo, com aquelas conversas desinteressantes e risadas enchendo os ouvidos dela, deixando-a com vontade de ficar em companhia deles. Jaken, por outro lado, caía e saía da consciência, murmurando coisas sem sentidos durante o sono enquanto ainda se recuperada da surra que recebera de Sesshoumaru. Um pouco antes, Rin removeu a cela de Ah-Un e cuidou dos mantimentos, depois o deixou vagar e comer pela floresta, preferindo ficar acordada enquanto a besta cuidava das necessidades mais básicas. Ele retornou, depois ela o afagou e deu tapinhas nele até que Ah-Un caísse num sonoro descanso, o corpo enrolado em torno da senhora dele.
Rin deu risadas discretas. Esses servos tinham mesmo uma maneira de relaxarem quando o mestre estava longe. Mas quando ele retornaria era a questão.
Talvez ele estivesse mais zangado que ela imaginava. Houve os insultos de Takeda e também a relutância dela em falar sobre o assunto. Houve a interferência de Jaken e a censura de InuYasha. E ela falara fora do momento certo em defesa de Sesshoumaru - mesmo depois que ele dissera para não falar, porque isto era um problema entre homens. E, claro, houve o confronto com Takeda – o modo como ele se aproximara dela, a covardia inicial em se apresentar a Sesshoumaru, chamando-a depois de mentirosa.
Depois de repetidas tentativas em fazê-lo revelar a identidade, Takeda chamou os outros aldeões, que vieram com arcos e flechas, arados e facas enferrujadas para presenciar o espetáculo diante deles. InuYasha e ela pensaram que Takeda estava apenas assentando o estágio de um ataque organizado, no qual incentivaria Sesshoumaru a demolir tudo e qualquer coisa no caminho dele, deixando nada menos que destroços e corpos no rastro dele – uma visão que ambos esperavam evitar. Então InuYasha impôs a autoridade dele, fazendo calar a curiosidade dos aldeões e deixando Takeda encarar o próprio destino. Alguma coisa que tinha que ser acertada entre dois deles – o chefe do vilarejo e o Lorde das Terras do Oeste – tornou-se o acontecimento mais importante daquele vilarejo.
Tivesse o lorde simplesmente ficado parado para arrancar um pedido de desculpas da boca de Takeda, ela tinha certeza de que ele não se importaria com a plateia. Mas ter todos aqueles... humanos, como Sesshoumaru os chamava com certo escárnio, presentes quando tinha que se mostrar humilde antes de enfrentar o inimigo. No mínimo, tinha sido um enorme golpe para o orgulho dele.
Um ar de cara amarrada se formou no rosto de Rin. Pedir desculpas para aquele homem e pagar por algo que nem ao menos fez... por causa daquele sapo estúpido... E depois de se desculpar, ainda ser cuspido...
Rin pegou uma pedra e atirou para acertar a cabeça de Jaken.
-Quê? O quê? Mestre, estou acordado! Este Jaken está totalmente a seu serviço! – ele ficou em pé num salto, segurando o Bastão de Duas Cabeças, olhando de um lado a outro da clareira – Onde está nosso mestre? – perguntou.
-Ele não está aqui. – ela replicou, irritada.
Jaken olhou a pedra, depois para Rin.
-Sim, eu fiz isso. – ela falou – E você mereceu.
O sapo amaldiçoou, depois aquietou-se para tirar outra soneca.
-Garota violenta. – ele resmungou antes que o sono mais uma vez o dominasse.
-Sapo inconsequente. – ela murmurou, igualmente cheia de veemência.
Sim, era tudo culpa de Jaken. Se ele não tivesse tomado a decisão de incendiar a casa e as outras propriedades do chefe do vilarejo... Mas, Rin suspirou, Takeda merecera. Era por culpa dele que os aldeões começaram a comentar a respeito dela. É por culpa dele que ela não podia ir ao vilarejo agora.
Suspirou pesadamente e sentou-se, descansando as costas contra Ah-Un. Se fosse ao vilarejo, sabia exatamente o que diriam, e simplesmente não queria ouvir. Ela não era uma prostituta, Sesshoumaru não era um monstro – como aquele rápido debate com Takeda pôde provar... Mas algumas pessoas eram lentas para aprender, e muitas nunca aprendiam. Demônios não eram automaticamente sinônimos de maldade.
O lorde tinha sido nada menos que gentil, educado e... atencioso por ela, mesmo durante os tempos mais difíceis.
Sorriu e permitiu que os olhos ficassem parcialmente fechados. Os pensamentos e ações deles eram sempre com relação ao bem-estar e segurança dela. Era verdade que aquelas conversinhas a respeito das transformações do corpo dela e das reações dos homens a essas mudanças eram terrivelmente embaraçosas, mas agora sabia o quão necessárias foram. Ele queria mantê-la segura e ter certeza de que estava protegida. Como ele dissera, homens eram criaturas muito astuciosas, e diriam e fariam quase de tudo para conseguir algo e levá-la para cama... até mesmo demônios, ele acrescentara.
Muitos homens usam palavras doces, lembrancinhas e presentes para testar e ganhar você. Mas seus afetos não podem ser tão baratos ou facilmente comprados, ele falou. Outros homens, de poucas gentilezas, não hesitariam em tomá-la contra a sua vontade.
A imagem de Takeda assombrou-lhe a mente.
Sesshoumaru a avisara para se prevenir contra esse tipo de homem o tempo todo. Mas, estranhamente, o treinamento com Mestre Li só aconteceria dois anos depois.
E também há demônios, ele explicara.
Youkai's machos que eram controlados primariamente pelo instinto quando precisavam casar. Eles escolhiam a fêmea baseados na aparência física e no cheiro dela.
Não dissera ele mais nada a respeito dos aspectos físicos das mulheres, mas ela soubera que quadris largos e seios fartos eram qualidades ideais não só para as youkai's fêmeas, mas humanas em geral. Significava saúde e capacidade de procriação. E, da parte dela, Rin estava muito feliz de dizer que era muito saudável.
Mas Sesshoumaru tinha entrado em alguns detalhes sobre os variáveis cheiros femininos. O cheiro de uma mulher dizia muito ao homem. Através disso, ele detectava a saúde e a idade dela. Podia também usar esse fato para saber mais a respeito das emoções dela: medo, ansiedade, raiva... excitação.
Riu. Na época, não sabia ao certo o que "excitação" era, mas tinha uma pequenina ideia, o que a deixava embaraçada demais para perguntar por mais detalhes. O porquê de outra pessoa não ter aquela conversa com ela, não sabia. Tivera tutores para praticamente todo tipo de assunto, então por que não a esse?
Mas suspeitava que era algo muito... delicado e importante para confiar a outra pessoa. Ela era uma boa aluna, mas tinha uma tendência a ficar aérea nas aulas de vez em quando. Se alguém fosse com ela ter essa conversa, provavelmente Rin os ignoraria por não querer discutir detalhes tão... íntimos com um estranho. E se Jaken fosse a pessoa para conversar com ela, simplesmente riria da cara dele, instantaneamente caindo num acesso de risadas. Mas a presença majestosa e o comportamento reservado de Sesshoumaru não deixaram pontas soltas nesse departamento. Ela ficou sentada quieta e calmamente, com as bochechas tingidas num vermelho profundo enquanto o lorde explicava o quão... irresistível o cheiro de uma mulher com desejos poderia parecer a qualquer demônio... inclusive a ele.
Começou a rir daquela admissão. Poderia o lorde achar a ela irresistível?
Depois ele falou a respeito dos desejos incontroláveis e do sangue youkai, e como, nesse estado de consciência, não importava se a fêmea era humana ou não, ou se ela desejava ou não. O cheiro dela despertaria o sangue dele, e virtualmente não havia recusa.
Apesar do calor oferecido por Ah-Un, um calafrio percorreu a espinha dela. Havia algo pior? Ela ponderou... Não que ela fosse recusá-lo, mas... naquela época, naquela idade, aquele pensamento a aterrorizava. O lorde adentrando de súbito o quarto dela no meio da noite, atirando-se sobre ela, rasgando-lhe as roupas de dormir porque o cheiro dela fez esquentar o sangue dele, e não havia escolha além de usar o corpo dela para satisfazer aos desejos dele.
Por causa desse pensamento, ela colocou uma barreira inconsciente entre os dois. Não mais se sentiu inteiramente em casa. Sesshoumaru podia sentir o cheiro de cada mudança nela, e o sangue dela tinha o poder de fazê-lo desdobrar-se a atos impronunciáveis. Fazia-a rir que algo tão simples pudesse fazer alguém tão grande afundar tão baixo.
Era impensável – o grande e nobre Lorde das Terras do Oeste cair de joelhos por causa de um filete de sangue entre as pernas de uma mera garota mortal.
Engoliu em seco e deixou cair algumas lágrimas. Ela queria tanto ir embora durante esses tempos. Teria feito qualquer coisa para se livrar da vergonha e culpa que o novo corpo trazia sob o teto dele. E aquele olhar que recebeu dele na noite em que ela silenciosamente o admirava enquanto ambos estavam sentados perto do fogo. "Você está com outro cheiro", ele dissera. "Vá lavar-se".
Mas... esses dias já passaram. Como o lorde dissera, e recentemente provou, ele não era um animal. Simplesmente alguma coisa o provocou... ou o atraiu, ele não tinha a obrigação de responder. Naquela noite, nas cascatas, ele prometeu não tocá-la sem consentimento, e não o fez. E apesar da imensa provocação de Takeda, ele manteve a palavra que deu a ela e não o matou.
O lorde provou ser o máximo da compostura, e ela não deixou de se sentir um pouco... culpada por ter duvidado dele.
Indubitavelmente, o lorde só contara aqueles histórias sobre sangue youkai e desejos incontroláveis para assustá-la e deixá-la em alerta, forçá-la a ser mais cautelosa do que já fora. E fez isso porque se importava com ela e não queria vê-la machucada – não pelos outros e, certamente, não por ele. Rin era a única humana num castelo cheio de demônios, e era importante reconhecer os riscos envolvidos ao lidar com o sangue de demônios e de menstruação.
Ficaria assustada, ficaria mais cautelosa. Selando-se no próprio quarto, embora fosse solitário e repressor, era um tipo de "mal necessário". E quando realmente queria companhia nessas épocas do mês, ela recorria a Mestre Li, que morava fora dos portões do castelo. Saía um pouco antes do ciclo começar, e retornava o mais rápido possível depois que acabava. E Mestre Li, pela parte dele, era, de um modo geral, amável. Era realmente um avô que ela nunca tivera – severo, mas carinhoso; gentil e protetor; rigoroso, mas magnânimo; cheio de sabedoria arcana e histórias divertidas. Ele podia acalmar qualquer medo dela, e sempre a fazia sentir-se confiante com as habilidades que tinha.
É claro que, com Sesshoumaru, ela percebia que não tinha nada a temer, e em poucas coisas estava insegura. Sim, era humana, e ainda assim ele se importava com ela. Ele admitira.
"Eu não sei ainda o que você é, Rin. Eu apenas sei que... Eu prefiro viver com você do que sem você."
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dela. Ela se perguntava se seria apropriado dizer a ele que estava... orgulhosa pelo comportamento dele com relação a Takeda.
Não, ela balançou a cabeça com uma risada. Sesshoumaru não era uma criança. Era um homem... em breve, o homem dela. Ele não precisava de elogios ou de afirmação dos gostos dela. Perceberia ele isso como afabilidade.
Mas talvez ela encontrasse outra forma de mostrar o quão... satisfeita estava com ele. Estavam no Estágio Dois agora, então havia algo que deveria dar a ele.
Um sorriso matreiro passou-lhe pelos lábios. Mas não aquilo. Não ainda.
Agora que sabia dos diferentes estágios, não havia mais desculpas para pular um ou sair da ordem. Ele não ficaria feliz se ela fizesse aquilo de novo. De acordo com ele, havia um lugar e uma hora para tudo, e o lorde era um mestre no decoro apropriado.
Então, ela teria que esperar para mostrá-lo quão satisfeita estava com ele... pelo menos agora.
Presumiu que foi estranho como foi fácil confiar o coração dela a uma criatura tão "sem coração".
Riu discretamente. Sim, algumas pessoas eram lentas para aprender, e muitas nunca aprendiam. Nunca saberiam quão gentil e carinhoso e, algumas vezes... confuso o lorde poderia ser. Jamais veriam um demônio, um monstro, um assassino que cuida de mais ninguém além dele mesmo.
Mas sabia mais que isso. E se existia algum homem ou "monstro" que mais merecesse o amor, tempo e atenção dela; a mente, o corpo e alma dela, o passado, presente e futuro dela... Ela não o conhecia, e nem queria conhecê-lo. Apesar do que os outros diriam, sabia que Sesshoumaru era o único homem para ela, e iria esperar por ele pelo tempo que fosse necessário.
