Capítulo 13.
Acordei com o telefone ressonando com violência em meus tímpanos.
Meu corpo todo doía.
Abri os olhos num susto, estendi a mão, tateei e peguei o objeto, o colocando no ouvido. Tinha remotas esperanças de que fosse Hermione. Eu mal sabia que horas eram.
- Alô. – Disse rapidamente esperando ouvir a voz dela. Meu coração palpitava estranhamente e meu estômago se revirava. É tolo quem pensa que o amor é um mero estado de espírito ou um pensamento efêmero. Aliás, ela que me ensinou o que efêmero quer dizer.
- Harry? – Não, não era ela. E para piorar era meu chefe. – O que aconteceu com você? – Sua voz parecia agitada. Mirei o relógio de pulso e me surpreendi ao ver que já eram 9:20. Levantei-me num pulo.
- Oi, Call. – Disse tentando esconder a sonolência e rouquidão da minha voz. – Eu acabei me atrasando, já estou saindo! – Disse me levantando rapidamente e pegando uma camisa social qualquer. Odiava ter que usar terno todos os dias.
- Não demore, você tem que fazer um treinamento com sua turma hoje. – Que maravilhosa notícia ruim. - Ron já está aqui! – Tinha me esquecido de que Ron viria para me auxiliar com os novatos. Finalmente algo bom. Fazia muito tempo que eu não o via. Ele estava voltando de alguma missão. Meu verdadeiro melhor amigo. Não o Antony.
Falando nisso, eles se odiavam.
Apesar de toda tristeza pelos últimos acontecimentos era sempre bom rever um grande amigo.
Dei duas batidas na porta assim que parei defronte a sala de Call. Tinha tido uma noite de sono nada agradável. Acordei umas três, quatro vezes com a lembrança de Hermione me assombrando. Era incrível como minha vida havia se tornado tão complicada em pouquíssimo tempo.
Nada é perfeito.
- Entre. – O ouvi dizer do lado de dentro e obedeci. E lá estava ele, sentado, lendo algum relatório.
- Sinto muito pelo atraso. – Disse assim que vi seu rosto turrão me fitar no local silencioso.
- Tudo bem. Apenas faça seu trabalho, como sempre fez. – Assenti. – Pode ir. – Dei as costas e abri a porta. Queria sair logo dali.
Caminhei rapidamente pelos corredores, queria não ter que falar muito, mas hora ou outra tinha de cumprimentar alguém. Quando finalmente abri a porta e entrei em minha querida sala vi que o dia seria demasiado longo assim que notei Anthony sentado em minha cadeira como se nada houvesse acontecido e ainda fossemos ótimos amigos.
- Oi, cara. – Ele disse com um sorriso sem graça, que não me convencia e eu apenas o mirei com o coração cheio de furor.
- O que quer? – Perguntei seco.
- Vim esclarecer as coisas. – Respondeu girando a cadeira despreocupadamente sem perder o contato visual comigo. Deveras mau caráter.
- Acho que as coisas estão bem claras para mim. – Não me sentei. Não queria alongar a conversa, nem mesmo ouvi-lo. Nada que dissesse tiraria da minha cabeça tudo o que ele havia me feito. Ele sabia que eu a amava e foi até ela apenas pelo desafio.
- Não quero que deixemos de ser amigos, cara. Não planejei nada. – Ele se levantou e foi até mim. Achava que realmente poderia me convencer de algo?
- Não seja estúpido! – Quase gritei a ele, que não se alterou. – Eu disse para você que a amava! Você foi atrás dela apenas para conquistá-la! – Eu estava ficando nervoso. Prestes a explodir. E ele ali, sem mover um dedo. Inabalável. Daquela maneira pude ver o quanto Anthony era frio.
- Eu a amo também! – Rebateu num sorriso. O que ele sabia de amor?
Aquilo me caiu como uma bomba. Ele nem tinha coração. Como poderia amar alguém? Como iria amar a Hermione? A MINHA Hermione. Minha melhor amiga. A mulher que mora comigo. A mulher que eu amo desde quando eu nem sei. Por quem eu deixaria tudo para trás. Como ele podia dizer aquilo? Soava tão injusto. Era uma blasfêmia.
Diante daquilo tudo minha única reação decente foi fechar o punho e lhe socar a cara com muita força. Tanta que me chegou a doer a mão. Ele cambaleou para trás segurando o nariz. Não me assustaria se houvesse quebrado, mas infelizmente não havia acontecido.
Era a atitude atual que mais me orgulhava. Pelo menos eu havia feito um bem para o mundo.
Eu poderia me gabar. Ou até socá-lo novamente. Ainda assim, ao ver que Hermione havia chegado e presenciado tal cena, senti que as coisas se tornariam ainda piores para mim. A olhei assustado. Como uma criança que apronta e é pego em flagrante pela professora. Eu temia Hermione bem mais do que temia uma professora.
Parabéns, Potter.
- Harry, o que você está fazendo? – Ela perguntou irritada, indo até Anthony e analisando seu nariz, que sangrava um pouco. Um ponto positivo, pelo menos ele era humano. Fitei minha mão, a do soco, estava tudo bem. Apenas um pouco vermelha. Em seguida levantei o olhar para ela enquanto ofegava um pouco. Bater me cansa.
- Vocês precisam conversar um pouco. – Ele disse tentando parecer compreensivo e saindo dali com o resto de dignidade que ele tinha. Se é que algum dia ele havia sido digno.
Se eu achava que aquilo era o pior que poderia me acontecer, eu estava bem enganado.
- Por que fez isso? – Questionou com azedume assim que seu caro namorado saiu.
- Porque ele mereceu. – Disse simplesmente tentando fazer parecer não me importar. É claro que ela sabia que eu me importava. Conhecia-me melhor do que eu mesmo.
- A escolha foi minha. – Se Hermione Granger desejava ferir meus sentimentos ela estava conseguindo. Esfregar aquilo na minha cara era uma boa artimanha.
- Eu não entendo suas escolhas. Aliás, não me importo com elas. – Eu queria machucá-la também. Sentia-me humilhado o suficiente, não iria sair perdendo de forma tão patética.
- Você só se importa com você! – Rebateu alterando a voz e eu senti meu coração palpitar novamente. Mas era raiva.
- Talvez eu me importe mesmo! – Gritei a centímetros de seu rosto. Vi seus olhos formarem algumas lágrimas e aquilo doeu. – Eu nunca faria com você o que fez comigo! Nunca, Hermione! – Eu estava fora de controle e ela apenas ouvia tudo sem reação. – Nunca usaria sua melhor amiga para te magoar! Nunca feriria seus sentimentos! Você gosta muito de ser a defensora da moral, da ética e dessas baboseiras. Mas você é tão ruim quanto eu, Hermione! Você me magoou da mesma forma que eu magoei as outras mulheres. Nós somos iguais. – E por fim respirei fundo, ofegante e sai dali lhe deixando com seus milhares e milhares de pensamentos. Eu a conhecia melhor do que ela mesma.
