Como eu disse, deveria haver um sistema diferente. Deveria haver algum tipo de arranjo universal que não deixasse espaço para mal-entendidos. Poderia envolver sinais de mão, talvez. Ou pequenos adesivos discretos presos na lapela, com código de cores para diferentes mensagens:
Disponível/Não disponível.
Com relacionamento/Sem relacionamento.
Sexo iminente/Sexo cancelado/Sexo meramente adiado.
De que outro modo a gente vai saber o que está acontecendo? Como?
Na manhã seguinte pensei muito e com intensidade e não cheguei a lugar nenhum.
Ou a)James ficou ofendido com minhas referências ao sexo e não está mais interessado ou b) ele está bem, tudo continua de pé, ele só estava sendo homem e não dizendo muita coisa, e eu deveria parar de ficar obcecada.
Ou algo no meio.
Ou alguma outra opção que nem considerei. Ou ...
Na verdade acho que isso cobre as hipóteses. Mas mesmo assim. Estou totalmente confusa só de pensar.
Desço de roupão por volta das nove e encontro Frank e Alice no saguão,vestidos com muita elegância. Frank num blazer com botões dourados brilhantes e Alice num conjunto de seda branca, com o maior arranjo de rosas falsas que já vi. Também parece estar tendo um probleminha para fechar os botões do casaco. Por fim ela enfia o último na casa e recua para se olhar no espelho, ofegando ligeiramente.
Agora parece que não pode mexer os braços.
- O que acha? - pergunta a Frank.
- Sim, muito bom - diz ele franzindo a testa para um exemplar do Mapa Rodoviário da Grã-Bretanha, 1994. - É a A347? Ou a A367?
- Ah ... acho que fica bonito com o casaco desabotoado - sugiro. - Mais ... à vontade.
Alice me dardeja um olhar semicerrado, como se suspeitasse que eu esteja deliberadamente sabotando sua aparência.
- É - diz por fim. - Talvez você esteja certa. Faz menção de abrir dois botões, mas está tão atada que não consegue chegar com as mãos suficientemente perto. E agora Frank foi para o estúdio.
- Será que posso... - ofereço.
- Sim. - Seu pescoço fica vermelho. - Se puder fazer a gentileza.
Avanço e abro os botões o mais gentilmente que posso, o que não é muito, visto como o tecido está esticado. Quando termino ela dá um passo atrás e se olha de novo, ligeiramente insatisfeita, repuxando a saia sedosa.
- Lily - diz em tom casual. - Se você me visse agora pela primeira vez, que palavra usaria para me descrever?
Ah, inferno. Tenho certeza de que isso não estava na minha especificação profissional.
Reviro o cérebro rapidamente em busca da palavra mais lisonjeira que posso encontrar.
- Ah ... ah ... elegante - digo por fim, assentindo como se quisesse dar convicção ao que falo. - Diria que você é elegante.
- Elegante? - Seus olhos giram rapidamente para mim. Algo me diz que errei.
- Quero dizer magra -emendo percebendo subitamente.
Como posso ter deixado de ver o magra?
- Magra. - Ela olha para si mesma por alguns instantes. - Magra.
Ela não parece totalmente feliz. O que há de errado em ser magra e elegante, pelo amor de Deus?
Não que ela seja nenhuma das duas coisas, sejamos honestas.
- Que tal. .. - Ela sacode o cabelo para trás, deliberadamente evitando meu olhar. - Que tal... "jovem"?
Por um momento fico muito confusa para responder. Jovem?
Jovem comparada a quê?
- É ... sem dúvida - digo finalmente. - Isso ... não precisa ser dito.
Por favor não diga "Quantos anos você acha que eu ... "
- Quantos anos você diria que eu tenho, Lily?
Ela está balançando a cabeça de um lado para o outro, tirando pó do casaco, como se não estivesse realmente interessada na resposta. Mas sei que seus ouvidos estão a postos e esperando, como dois microfones gigantes prontos para captar o menor som.
Meu rosto está pinicando. O que vou dizer?
Vou dizer... 35. Não. Não seja ridícula. Ela não pode ser tão iludida.
40? Não. Não posso dizer 40. É perto demais da verdade.
- Você tem uns ... 37? - sugiro por fim. Alice vira-se; e com sua expressão presunçosa de prazer percebo que consegui mais ou menos o tom exato de lisonja.
- Na verdade tenho 39! - diz ela, com duas manchas de cor aparecendo nas bochechas.
- Não! - Exclamo tentando não olhar seus pés de galinha. - Incrível!
Que mentirosa! Fez 46 anos em fevereiro passado. E, se não quer que as pessoas saibam, não deveria deixar o passaporte na penteadeira.
- Bom! - diz ela, claramente animada. - Vamos ficar fora o dia inteiro, na festa da minha irmã. James virá trabalhar no jardim, mas acho que você sabe.
- James? - Sinto um choque elétrico. - Ele vem aqui?
- Ligou hoje cedo. As ervilhas de cheiro precisam ser... podadas, arranjadas, ou sei lá o quê. - Ela pega um lápis labial e começa a delinear os lábios já delineados.
- Certo. Não sabia. - Estou tentando ficar composta mas tentáculos de excitação se esgueiram sobre mim. - Então... ele vai trabalhar num domingo?
- Ah, ele frequentemente faz isso. É muito dedicado. - Alice recua para olhar seu reflexo, depois começa a pintar os lábios com mais batom ainda. - Ouvi dizer que ele te levou ao pequeno pub dele.
O pequeno pub dele. Qual é a dessa mulher?
- É... foi. Levou.
- Fiquei tão feliz com isso, verdade. - Ela tira um pincel de rímel e começa a colocar mais camadas nos cílios já pontudos. - Quase tivemos de procurar outro jardineiro, dá para imaginar? Se bem que, claro, foi uma grande pena para ele. Depois de todos os planos.
- O que foi uma pena?
- James. O horto. O negócio de plantas. - Ela franze a testa para o próprio reflexo e tira um torrão de rímel de baixo do olho. - Orgânico, sei lá. Ele mostrou à gente a proposta de negócio. Na verdade estávamos até pensando em financiar. Somos patrões que dão muito apoio, Lily. - Alice me fixa com um olhar azul como se me desafiasse a discordar.
- Claro!
- Pronta? - Frank sai do escritório usando um chapéu Panamá. Vai fazer um calor dos infernos, você sabe.
- Frank, não comece - reage Alice, enfiando o pincel de rímel no tubo. - Nós vamos a essa festa e ponto final. Pegou o presente?
- E o que aconteceu? - pergunto, tentando arrastar a conversa de volta aos trilhos. - Com os planos de James?
Alice faz um biquinho lamentoso para si própria no espelho.
- Bem, o pai dele faleceu muito de repente e houve aquele negócio pavoroso com os pubs. E ele mudou de ideia. Não comprou o terreno. - Ela dá um olhar insatisfeito para si mesma. - Será que eu deveria usar o conjunto rosa?
- Não - dizemos Frank e eu em uníssono. Olho o rosto exasperado de Frank e contenho um riso.
- A senhora está linda, Sra. Longbottom - digo. - Verdade.
De algum modo, Frank e eu conseguimos afastá-la do espelho, sair pela porta da frente e atravessar o cascalho até o Porsche de Frank. Ele está certo, vai ser um dia quentíssimo. O céu já é de um azul translúcido, o sol uma bola ofuscante.
- A que horas vocês voltam? - pergunto quando eles entram no carro.
- Só no fim da tarde - diz Alice. - Frank, onde está o presente? Ah, James, aí está você.
Olho por cima do teto do carro numa ligeira apreensão. Ali está ele, vindo pela entrada de veículos, usando jeans, alpargata e uma velha camiseta cinza, com a mochila no ombro.
E aqui estou eu, de roupão e com o cabelo espalhado por todo canto.
E ainda sem saber como ficaram as coisas entre nós.
Se bem que algumas partes do meu corpo já estejam reagindo à sua visão. Elas não parecem nem um pouco confusas.
- Oi - digo quando ele chega perto.
- Oi. - Os olhos de James se franzem de modo amigável, mas ele não faz qualquer tentativa de me beijar nem de sorrir. Em vez disso simplesmente pára e me olha. Há algo em seu olhar atento, objetivo, que me deixa com as pernas meio bambas.
Ou as coisas foram deixadas como estavam no meio do beijo, ontem, ou meu destino é achá-lo desesperadamente sensual, independentemente do que ele esteja transmitindo.
- Então. - Arranco meu olhar para longe e examino o cascalho por alguns instantes. -Você... vai trabalhar duro hoje.
- Seria bom ter alguma ajuda - diz ele casualmente. - Se você estiver disponível.
Sinto um salto ofuscante de deleite, que tento esconder com uma tosse.
- Certo. - Dou de ombros ligeiramente, quase franzindo a testa. - Bem ... talvez.
- Ótimo. - Ele assente para os Longbottom e vai lépido na direção do jardim.
Alice esteve olhando essa conversa com insatisfação crescente.
- Vocês não são muito afetuosos um com o outro, são? - pergunta ela. - Sabe, na minha experiência ...
- Deixe-os em paz, pelo amor de Deus! - retruca Frank, ligando o motor. - Vamos acabar com essa porcaria logo.
- Frank Longbottom! - berra Alice, girando no banco. - Você está falando da festa da minha irmã! Você percebe...
Eddie acelera o motor, abafando a voz dela, e com um jato de cascalho o Porsche desaparece pela entrada, deixando-me sozinha ao sol silencioso e ardente.
Certo.
Então ... somos só James e eu. Sozinhos juntos. Até as oito da noite. Este é o cenário básico.
Uma pulsação começa a latejar em algum lugar dentro de mim. Como um maestro determinando o ritmo; como uma introdução.
Deliberadamente casual, viro-me no cascalho e começo a voltar para a casa. Quando passo por um canteiro de flores chego a parar e examinar uma planta ao acaso, por um momento, segurando as folhas verdes entre os dedos.
Acho que eu poderia descer e me oferecer para dar uma mãozinha. Seria educado.
Obrigo-me a não correr. Tomo um banho de chuveiro, me visto e engulo o desjejum, consistindo de meia xícara de chá e uma maçã. Depois vou ao andar de cima e coloco um pouco de maquiagem. Não é muita coisa. Mas o bastante.
Vesti algo discreto. Uma camiseta, uma saia de algodão e sandálias de borracha.
Enquanto me olho no espelho sinto-me quase trêmula de antecipação. Mas afora isso a cabeça está estranhamente vazia. Sinto que perdi o raciocínio. O que provavelmente não é ruim.
Depois da casa fresca, o jardim parece sufocante; o ar parado e quase tremeluzente. Fico à sombra, indo pelo caminho lateral, sem saber onde ele está trabalhando; para onde vou.
Então o vejo, no meio de uma fileira de flor cor de lavanda e lilases, a testa franzida por causa do sol enquanto amarra um pedaço de barbante.
- Oi - digo.
- Oi - ele ergue os olhos e enxuga a testa.
Fico um pouco na expectativa de que ele pare o que está fazendo, venha e me beije. Mas James não faz isso. Simplesmente continua amarrando, depois corta o barbante com uma faca.
- Vim ajudar - digo depois de uma pausa. - O que estamos fazendo?
- Amarrando as ervilhas de cheiro. - Ele indica as plantas que crescem no que parecem armações cônicas de bambu. - Elas precisam de suporte para não cair. E joga uma bola de barbante para mim. - Tente. É só amarrar com cuidado.
Não é brincadeira. Realmente estou ajudando na jardinagem. Com cuidado desenrolo um pedaço de barbante e imito o que ele faz. As folhas e pétalas macias me fazem cócegas enquanto trabalho e enchem o ar com um cheiro incrível e doce.
- Que tal?
- Vejamos. - James se aproxima e dá uma olhada. - É. Pode amarrar um pouco mais apertado. - Sua mão roça brevemente na minha quando ele se vira. - Vejamos como faz a próxima.
Minha mão pinica ao toque dele. Será que fez isso de propósito? Insegura, amarro a planta seguinte, apertando mais do que antes.
- É, está bom. - De repente a voz de James está atrás de mim e sinto seus dedos na minha nuca, roçando o lóbulo da orelha. - Você precisa fazer a fila toda.
Ele definitivamente pretende fazer isso. Sem dúvida. Viro-me querendo responder ao gesto, mas ele já está do outro lado da fila, concentrado numa ervilha de cheiro, como se nada tivesse acontecido.
Ele tem um plano de jogo, percebo subitamente.
Certo, agora estou realmente ligada.
A pulsação vai ficando mais forte dentro de mim enquanto sigo de planta em planta. Há silêncio, a não ser pelo farfalhar das folhas e o som fraco do barbante sendo cortado.
Amarro mais três plantas e chego ao fim da fileira.
- Pronto - digo sem me virar.
- Fantástico, vejamos. - Ele vem inspecionar minha planta amarrada. Sinto sua outra mão subindo pela minha coxa, puxando a saia para cima, os dedos tateando minha carne. Não consigo me mexer. Estou hipnotizada. Então, de repente, ele se afasta, profissional de novo, pegando um cesto.
- O que... - Nem consigo formar uma frase direito.
Ele me beija na boca brevemente, com força.
- Vamos em frente. As framboesas precisam ser colhidas.
Os viveiros de framboesas ficam mais adiante na horta, como salas de tela verde, com pisos secos de terra e fileiras de pés de framboesa. Quando entramos não há qualquer som a não ser os insetos zumbindo e o bater de asas de um pássaro preso, que James espanta para fora.
Trabalhamos na primeira fileira sem falar, atentos, colhendo as frutas nos pés. No fim da fileira minha boca está travosa com o gosto delas; as mãos arranhadas e doendo da colheita constante e estou suando por todo o corpo. O calor parece mais intenso nesse viveiro de framboesas do que em qualquer outro lugar do jardim.
Encontramo-nos no final da fileira e James me olha por um segundo imóvel, com suor escorrendo pelo lado do rosto.
- Trabalho quente - diz ele. Em seguida pousa o cesto e tira a camiseta.
- É. - Há um segundo imóvel entre nós. Então, quase em desafio, faço o mesmo.
Estou parada, de sutiã, a centímetros dele, a pele pálida e leitosa em comparação à sua.
- Fizemos o bastante? - indico o cesto, mas James nem olha para baixo.
- Ainda não.
Algo em sua expressão me deixa úmida e pinicando atrás dos joelhos. Encontro seu olhar e é como se estivéssemos brincando de desafiar um ao outro.
- Não pude alcançar aquelas - aponto para um cacho de frutas mais alto.
- Vou ajudar. - Ele se inclina por cima de mim, pele contra pele, e sinto sua boca no lóbulo da minha orelha enquanto colhe a fruta. Todo o meu corpo reage. Não suporto isso; preciso que pare. E preciso que não pare.
Mas a coisa continua. Subimos e descemos pelas fileiras como dois bailarinos num minueto. Por fora nos concentrando nos movimentos mas ao mesmo tempo percebendo apenas o outro. E no fim de cada fileira ele roça alguma parte de mim com a boca ou os dedos. Numa das vezes ele coloca uma framboesa na minha boca e eu roço seus dedos com os dentes. Quero pegá-lo, quero minhas mãos em cima dele, mas a cada vez ele se afasta antes que algo possa progredir.
Estou começando a tremer inteira de desejo. Ele abriu meu sutiã duas fileiras atrás.
Descartei a calcinha. Ele abriu a fivela do cinto. E ainda, ainda estamos colhendo framboesas.
Os cestos estão cheios e pesados, e meus braços doem, mas mal percebo. Só percebo que todo o corpo está latejando; que a pulsação se transformou em pancadas; que não aguento muito mais. Quando chego ao fim da última fileira pouso o cesto e o encaro, incapaz de esconder como estou desesperada.
- Acabamos?
Minha respiração está saindo em jorros curtos e quentes. Preciso tê-lo. Ele precisa notar.
Não sei mais o que fazer.
- Nós trabalhamos bastante bem. - Seu olhar vai para os outros viveiros de frutas. - Ainda há mais a...
- Não - ouço-me dizendo. - Chega.
Fico parada ali no calor e na terra poeirenta, ofegando e ardendo. E quando acho que vou explodir, ele se adianta e baixa a boca sobre meu mamilo, e quase desmaio. E desta vez ele não se afasta.
Desta vez é de verdade. Suas mãos estão se movendo sobre meu corpo, minha saia está caindo no chão, seus jeans estão escorregando. Então estou tremendo e agarrando-o, e gritando. E as framboesas são esquecidas, espalhadas no chão, esmagadas sob nós.
Depois parece que ficamos deitados imóveis por horas. Estou entorpecida de euforia. Há poeira e pedras encravadas nas minhas costas, nos joelhos e nas mãos, e manchas de framboesa por toda a pele. Não me importo. Nem consigo me obrigar a erguer uma das mãos e tirar a formiga que está andando na minha barriga como um ponto de cócegas.
Minha cabeça está no peito de James, e as batidas de seu coração parecem um relógio tiquetaqueando reconfortante. O sol está quente na minha pele. Não faço ideia das horas.
Não me importa que horas são. Perdi todo o sentido de minutos e horas.
Por fim James move a cabeça ligeiramente. Beija meu ombro e sorri.
- Você está com gosto de framboesa.
- Isso foi ... - paro, quase estupefata demais para formar qualquer palavra sensata. - Sabe... normalmente eu ... - Um bocejo enorme subitamente me domina e aperto a mão na boca.
Quero dormir agora, por vários dias.
James levanta a mão e traça círculos preguiçosos nas minhas costas.
- Seis minutos não é sexo - ouço-o dizer enquanto meus olhos se fecham. - Seis minutos é um ovo cozido.
Quando acordo, os viveiros de framboesas estão em sombra parcial. James saiu de baixo de mim, deu-me um travesseiro feito com minha saia amarrotada e manchada
de framboesas, vestiu os jeans e trouxe algumas cervejas da geladeira dos Longbottom. Sento- me com a cabeça ainda grogue e o vejo encostado numa árvore na grama bebendo na garrafa.
- Preguiçoso - digo. - Os Longbottom acham que você está amarrando as ervilhas de cheiro.
Ele se vira para mim, com um brilho de diversão passando no rosto.
- Dormiu bem?
- Quanto tempo eu dormi? - Passo a mão no rosto e tiro uma pedrinha. Estou totalmente desorientada.
- Umas duas horas. Quer um pouco? - Ele sinaliza a garrafa. - Está gelada.
Fico de pé, tiro um pouco de poeira de mim, ponho a saia e o sutiã como um meio-termo de vestimenta e chego perto dele na grama.
Ele me dá uma garrafa e eu tomo um gole cauteloso. Nunca bebi cerveja antes. Mas esta, gelada, espumante da garrafa, é a bebida mais refrescantes que já provei.
Encosto-me na árvore, os pés descalços na grama fresca.
- Meu Deus ... estou tão ... - levanto uma das mãos e largo, pesada.
- Não está tão irritadiça como antes - diz James. - Você pulava um quilômetro sempre que eu falava alguma coisa.
- Não, não pulava!
- Ahã, pulava sim. - Ele assente. - Como um coelho.
- Achei que eu era um texugo.
- Você é um cruzamento de coelho com texugo. Bicho muito raro. - Ele ri para mim e toma um gole de cerveja. Por um tempo nenhum de nós fala. Olho um avião minúsculo lá no alto, deixando uma trilha branca no céu.
- Minha mãe diz que você mudou, também.- James me lança um olhar rápido, interrogativo. -Disse que a pessoa de quem você fugiu ... a coisa que aconteceu... está perdendo o domínio sobre você.
A pergunta está ali, em sua voz, mas não respondo. Penso em Iris, ontem. Deixando-me jogar todas as frustrações sobre ela. Não é como se a vida dela tivesse sido fácil.
- Sua mãe é incrível- digo finalmente.
- É.
Pouso a garrafa e rolo na grama, olhando o céu azul. Sinto o cheiro de terra sob a cabeça e as hastes de grama nas orelhas, e ouço um gafanhoto cricrilando ali perto.
Mudei. Sinto isso por dentro. Sinto que estou ... mais quieta.
- Quem você seria? - digo torcendo uma haste de grama no dedo. - Se pudesse simplesmente fugir. Virar uma pessoa diferente.
James fica em silêncio por um momento, olhando o jardim por cima da garrafa.
- Seria eu - responde por fim, dando de ombros. - Estou feliz com o que sou. Gosto de morar onde moro. Gosto de fazer o que faço.
Eu me viro de repente e olho para ele, semicerrando os olhos por causa da luz do sol.
- Deve haver algo mais que você queira fazer. Algum sonho que você tem.
Ele balança a cabeça, sorrindo:
- Estou fazendo o que eu quero fazer.
De repente lembro da conversa com Alice e me sento na grama.
- Mas e o horto que você ia fazer?
O rosto de James salta em surpresa.
- Como você...
- Alice contou hoje cedo. Disse que você tinha planos de negócios e tudo. O que aconteceu?
Por um momento ele fica em silêncio, os olhos afastados dos meus. Não posso dizer o que está acontecendo por dentro.
- Foi só uma ideia - diz ele finalmente.
- Você desistiu por causa da sua mãe. Para cuidar dos pubs.
- Talvez. - Ele estende a mão para um galho baixo e começa a arrancar as folhas. – Tudo mudou.
- Mas você realmente quer cuidar dos pubs? -Adianto-me na grama, tentando interceptar seu olhar. - Você mesmo disse que não é um proprietário de bar. Que é jardineiro.
- Não é uma questão de querer. - A voz de James tem um súbito tom de frustração. - É um negócio de família. Alguém precisa tomar conta.
- Por que você? - insisto. - Por que não o seu irmão?
- Ele ... é diferente. Faz as coisas dele.
- Você poderia fazer suas coisas!
- Tenho responsabilidades. - Sua testa fica mais franzida. - Minha mãe...
- Ela iria querer que você faça o que quer fazer - insisto. - Sei que sim. Ela iria querer que você fosse feliz na vida, e não que desistisse da vida por causa dela.
- Eu sou feliz. É ridículo dizer...
- Mas não poderia ser mais feliz?
Há silêncio no jardim. James está olhando para outro lado, seus ombros se encurvam como se ele quisesse se trancar longe do que falo.
- Você não sente vontade de largar as responsabilidades? - Abro os braços num súbito abandono. - Só ... sair pelo mundo e ver o que acontece?
- Foi o que você fez? - pergunta ele, virando, com uma súbita agressividade na voz.
Olho-o incerta.
- Eu ... não estamos falando de mim - digo finalmente. - Estamos falando de você.
- James. - Ele expira e esfrega a testa. - Sei que você não quer falar do passado. Mas quero que me diga uma coisa. E seja sincera.
Sinto um profundo tremor de alarme. O que ele vai perguntar?
- Vou tentar - digo finalmente. - O que é?
James me olha direto nos olhos e respira fundo.
- Você tem filhos?
Estou tão aparvalhada que por um momento não consigo falar. Ele acha que eu tenho filhos?
Um gorgolejo de riso aliviado sobe dentro de mim antes que eu possa impedir.
- Não, não tenho filhos! O quê, você acha que eu deixei para trás cinco boquinhas famintas?
- Não sei. - Ele franze a testa, parecendo sem graça mas na defensiva. - Por que não?
- Porque... bem... eu pareço que tenho cinco filhos? - Não consigo evitar um tom de indignação e ele começa a rir também.
- Talvez não cinco ...
- O que isso quer dizer? - Estou para acertá-lo com sua camisa quando uma voz corta o ar.
- Lily?
É Alice. Vindo da casa. Eles estão em casa?
Encontro o olhar de James, incrédulo.
- Lily? - a voz dela trina de novo. - Você está aí fora?
Ah, merda. Meu olhar gira loucamente examinando nós dois. Estou nua, a não ser por uma saia e um sutiã e coberta de poeira e manchas de framboesa. James está praticamente igual, só que com os jeans.
- Depressa! Minhas roupas! - sibilo ficando de pé.
- Onde elas estão? - pergunta James, olhando em volta.
- Não sei! - olho-o e sinto um riso impotente surgindo. - Vamos ser demitidos.
- Lily? - Posso ouvir o som das portas da estufa sendo abertas.
- Merda! - guincho. - Ela está vindo!
- Tudo bem - diz James, pegando sua camiseta no viveiro de framboesas. Passa-a pela cabeça e imediatamente parece bastante normal. - Vou criar uma distração. Vá pelo lado, entre os arbustos, chegue à porta da cozinha, suba correndo e troque de roupa. Certo?
- Certo - respondo ofegante. - E qual é a nossa história?
- Nossa história é... - Ele pára, pensando. - Nós não transamos no jardim nem pegamos cerveja da geladeira.
- Certo. - Não consigo evitar um risinho. - Bom plano.
- Vá depressa, Coelho Ruivo. - Ele me beija e vou correndo pelo caminho até me esconder atrás de um rododentro enorme.
Esgueiro-me pela lateral do jardim, ficando o tempo todo atrás dos arbustos, tentando não fazer muito barulho. Meus pés descalços estão frios na terra úmida e sombreada; piso numa pedra afiada e me encolho em silêncio total. Sinto-me com dez anos, brincando de esconder, a mesma mistura de terror e prazer martelando no coração.
Quando estou a apenas uns dez metros da casa agacho-me atrás de um arbusto e espero.
Depois de uns dois minutos vejo James guiando os Longbottom com firmeza pelo gramado até o lago de nenúfares.
- Acho que podemos ter um caso de bolor seco – está dizendo. – Achei que vocês deveriam ver pessoalmente.
Espero até terem passado e corro com pés leves até a estufa, atravesso a casa e subo a escada. Quando estou no quarto com a porta fechada desmorono na cama, querendo rir do meu próprio alívio, da hilaridade, da idiotice daquilo tudo. Depois me levanto e olho pela janela. Posso vê-los perto do laguinho. James está apontando para alguma coisa com um graveto.
Entro correndo no banheiro, abro o chuveiro no máximo e fico embaixo por uns trinta segundos. Depois visto roupa de baixo limpa, jeans limpos e uma recatada blusa de manga comprida. Até coloco batom. Depois, calçando um par de alpargatas, desço e saio no jardim.
James e os Longbottom estão voltando à casa. Os saltos altos de Alice afundam no gramado e ela e Frank parecem com calor e incomodados.
— Oi — cumprimento casualmente quando eles se aproximam.
— Aí está — diz James. — Não vi você a tarde inteira.
— Estava estudando receitas — respondo inocente e me viro para Alice com um sorriso educado. — Gostou da festa, Sra. Longbottom?
Tarde demais vejo James fazendo gestos mortais, de dedo cortando a garganta, pelas costas deles.
— Obrigada por perguntar, Lily.— Alice inala com força. — Mas prefiro não falar da festa, obrigada.
Frank faz um som irritado, soltando o ar.
— Você não vai desistir dessa porcaria, não é? Eu só falei que...
— Foi o modo como você falou! — berra Alice, — Algumas vezes acho que seu único objetivo na vida é me envergonhar!
Frank bufa com fúria e vai batendo os pés até a casa, com o chapéu Panamá torto na cabeça.
Epa! Levanto as sobrancelhas para James, que ri de volta por cima do penteado bambo de Alice.
— Gostaria de uma bela xícara de chá, Sra. Longbottom? — digo em tom tranquilizador.-Ou de... um bloody mary?
— Obrigada, Lily — responde ela erguendo o queixo num gesto digno. — Um bloody mary seria otimo.
Enquanto vamos até a estufa, Alice parece se acalmar um pouco. Até mistura seu próprio bloody mary em vez de ficar dando ordens enquanto eu preparo, e faz um para mim e um para James.
— Bom — diz depois de cada um ter tomado um gole e se sentado em meio às plantas frondosas. — Há uma coisa que eu precisava falar com você, Lily. Vamos receber uma visita.
— Ah, certo — respondo tentando não sorrir. James está sentado ao meu lado, roçando minha alpargata com seu pé por baixo da mesinha de centro.
— Minha sobrinha vem se hospedar por algumas semanas. Ela precisa de um pouco de paz e silêncio do campo. Tem trabalho a fazer e é muito importante que não seja perturbada, de modo que o Sr. Longbottom e eu oferecemos para ela ficar aqui, Gostaria que você preparasse o quarto de hóspedes.
— Muito bem — assinto obedientemente.
— Ela vai precisar de uma cama arrumada e uma mesa... acho que vai trazer um laptop.
— Sim, Sra. Longbottom.
— Melissa é uma garota muito inteligente. — Alice acende um cigarro com seu isqueiro Tiffany. — Extremamente poderosa. Uma daquelas garotas de cidade grande.
— Ah, certo — digo contendo um riso quando James finalmente consegue tirar minha alpargata. — O que ela faz?
— É advogada — responde Alice, e eu levanto os olhos, sem fala. Advogada?
Uma advogada vem ficar nesta casa?
James está fazendo cócegas na sola do meu pé, mas só posso reagir com um sorriso débil. Isso pode ser ruim. De fato pode ser um desastre.
E se eu conhecer essa advogada?
Enquanto Alice prepara outro bloody mary estou revirando o cérebro freneticamente.
Melissa. Poderia ser Melissa Davis da Freshwater. Poderia ser Melissa Christie da Clark Forrester. Poderia ser Melissa Taylor que trabalhou na fusão da DeltaCo. Passamos horas na mesma sala juntas. Ela me reconheceria imediatamente.
— Então... ela é sobrinha do seu lado da família, Sra. Longbottom? — pergunto casualmente enquanto Alice se senta. — Também se chama Longbottom?
— Não. O sobrenome é Hurst.
Melissa Hurst. Não traz nenhuma lembrança.
— E onde ela trabalha? — Por favor, que seja fora do país...
— Ah, ela é de um lugar muito importante em Londres. — Alice sinaliza vagamente com o copo.
Certo. Então não a conheço. Mas isso não está parecendo legal. Uma advogada poderosa de Londres. Se for em alguma das grandes firmas de advocacia certamente ouviu falar de mim. Deve saber sobre a advogada da Carter Spink que perdeu cinquenta milhões de dólares e fugiu. Deve saber cada detalhe humilhante da minha desgraça.
Estou sentindo frio no corpo todo, só de pensar. Só é preciso que ela reconheça meu nome, que some dois e dois... e toda a história vai surgir. Ficarei tão humilhada aqui quanto estava em Londres. Todo mundo vai saber do meu passado. Todo mundo vai saber das minhas mentiras. Olho James e sinto uma pontada de pavor.
Não posso deixar as coisas se estragarem. Agora, não.
Ele pisca para mim e eu tomo um gole comprido de bloody mary. A resposta é simples. Preciso fazer todo o possível para manter o segredo escondido.
N/A: Oláaaaaaaa, mas olhem só quem voltei! Com mais um capítulo! Com muito James e Lily! Feliz Páscoa atrasado hehehehe! Até o próximo capítulo!
