Mia dormiu umas poucas horas até o almoço, depois se reuniu com Minerva para combinar as aulas de Poções. A escola inteira borbulhava de fofocas, a maioria sem o mínimo lastro de realidade. Só os grifinórios que, esclarecidos por Harry Potter, sabiam mais ou menos o que se passava. Mas ninguém tinha a dimensão da tragédia.
Nos aposentos improvisados nas masmorras, Mia sentiu falta das janelas que davam para a Floresta Proibida. Ela queria se concentrar nos planos de aula, mas não conseguiu. Desistindo, pediu um chá a um dos elfos.
Tomando um chá de maçã e usando canela em rama ao invés de uma colher para mexer a bebida quente, ela pensou na injustiça de tudo. Toda a sua vida podia ser diferente. Ela podia ser outra pessoa.
Tudo podia ter sido tão diferente.
Uma batida suave à porta interrompeu seus pensamentos. Ela pôs o chá na mesa e atendeu. Sorriu com sinceridade ao ver quem estava em sua porta.
– Meu filho.
– Estava descansando, mãe?
– Claro que não, querido. Entre. – Ele obedeceu e ela o abraçou. – Nós mal conseguimos nos ver, com toda essa confusão.
– É verdade – disse o rapaz. – Como você está?
– Bem, mas quero saber de você! Não me disse por que aceitou vir para a Inglaterra. E Annika?
– Annika achou melhor dedicar-se à luta política, mamãe. Ela pretendia se juntar à resistência em Kosovo. Tivemos que terminar tudo.
– Oh, meu filho. Lamento. Sei o quanto você gostava dela.
– Talvez tenha sido melhor, mãe. Eu teria que lhe dizer que era um bruxo, e provavelmente ela ia querer que eu usasse meus poderes para a causa.
– E como você se sente em relação a isso?
– Agora estou melhor. Claro que estou triste, mas vai passar. E pare de querer bancar a psicóloga comigo!
– Não estou bancando a psicóloga e sim, bancando a mãe. Se quiser falar sobre isso...
– Já sei. Mas estou mais preocupado com você, com tudo isso que está acontecendo, mãe. Que loucura. Como você está?
– Eu dormi um pouco, e agora estou estudando para dar minha primeira aula em Hogwarts! Ainda é muita coisa ao mesmo tempo. Estou lutando para me adaptar.
Heitor a encarou e indagou:
– Mãe, você não está bem, está?
Mia o encarou, vendo no rosto jovem do filho uma idade que ele não tinha. Mas a sabedoria mediterrânea o acompanhava. Bem dizia o ditado, sobre o Mar Mediterrâneo. "Aquele que sabe olhar suas águas milenares adquire a sabedoria dos antigos."
– Não, meu filho. Sua mãe não está bem. Mas eu vou ficar.
– Esse professor... Snape... Foi mesmo seu namorado?
– Sim, foi. – Então ela olhou para ele, captando um leve ar de reprovação. – Heitor, eu era mais nova do que você. Fiz o que qualquer jovem faz. Nessa idade, é normal ter uma paquerinha.
– É só isso que ele foi? Uma paquerinha?
– Bom, ele foi um namoradinho. Mas isso foi anos antes de eu conhecer seu pai.
– Então você gostava dele.
– Claro! Eu não namoraria se não gostasse. Não pense que eu era namoradeira. Na verdade, eu só namorei Severus. Depois conheci seu pai, casei-me e não tive mais nenhum namorado. Você sabe disso.
– Mãe, eu tenho que perguntar: você ainda gosta desse Snape?
Mia não pôde evitar enrubescer:
– Heitor, que pergunta é essa?
– Na verdade, é uma pergunta profissional. Bill Weasley passou a maior parte do dia num lugar secreto, a tal mansão dos Black. Ele está pesquisando ainda, mas ele acredita que tenha havido uma interferência emocional na mágica envolvida por esse feitiço. Emoções intensas podem ter modificado a natureza de uma azaração inocente, transformando-a numa maldição de primeira categoria. Por isso eu pergunto de novo: você ainda gosta dele?
Mia começou a ficar inquieta e logo detectou o motivo:
– Sinceramente, querido, eu não acho que gostaria de discutir isso com meu filho.
– Tá bom, eu chamo Bill, então. Mas você precisa ter resposta para essa pergunta, mãe, porque alguém vai lhe perguntar isso.
– Heitor – disse Mia, com sinceridade –, não duvide nunca do quanto eu amava seu pai. Ele foi uma pessoa muito importante na minha vida, e meu coração sempre guardará um lugar especial para Dimitri. Eu nunca, nunca, nunca vou me esquecer dele enquanto viver. Seu pai foi único para mim.
O rapaz, que não era bobo nem nada, franziu o cenho:
– Eu sei disso, mamãe. Por que está me dizendo isso?
– Porque não quero que pense que Dimitri tenha sido um prêmio de consolação, ou que eu o tenha amado menos. Não. Mas você tem que entender uma coisa. Por causa do que aconteceu, Severus foi um relacionamento abortado. Ele foi meu primeiro amor, o despertar desse amor romântico na minha vida. Como terminou desse jeito, eu nunca tive uma boa resolução desse relacionamento. Então, sim, esse é um relacionamento que ainda mexe comigo.
Heitor assentiu, observando:
– Você está falando como psicóloga, não está?
– Bom, conhece o ditado: "Curador, cura-te a ti mesmo", não conhece?
– E você está respondendo minha pergunta com uma outra. Isso nunca é bom.
Mia sorriu. Ela tinha um filho tão esperto...
– Heitor, querido, lembra-se de quanto você era pequeno e seu pai lhe contava as histórias dos deuses, dos semideuses, dos mitos?
– Claro. Eu adorava esses momentos.
– Lembra-se da história de Quíron?
– O centauro amigo de Hércules, claro que lembro. Ele era um curador, não?
– Isso mesmo, você lembra o que aconteceu com Quíron. Segundo a lenda, Quíron era imortal, mas foi ferido com uma das flechas de Hércules, impregnadas do sangue venenoso da Hidra. O centauro sofria dores horríveis, que nem seus conhecimentos médicos eram capazes de aliviar. Desesperado, Quíron renunciou então à sua imortalidade para conseguir morrer e escapar do terrível sofrimento.
– O que isso tem a ver...?
– Quíron é muito estudado no simbolismo médico justamente por ser o curador que traz uma ferida incurável. Em muitos aspectos, todos nós carregamos uma ferida que não parece ser capaz de cicatrizar jamais. É um simbolismo psicológico. Um Muggle chamado Jung estudou isso.
– Então... a sua ferida é esse Snape?
– Sempre achei que sim. Talvez eu esteja errada. Talvez, se nós tivéssemos namorado até o fim, naquele tempo, não teríamos durado mais do que algumas semanas. Talvez tivéssemos nos casado, talvez eu nunca tivesse arrumado as malas e saído da Inglaterra. Talvez ele não tivesse se voltado para Voldemort, talvez ele jamais precisasse ter virado espião. Mas o fato é que eu jamais saberei a verdade. Nem ele. Você é jovem demais para saber o que isso significa, querido. Nós dois estamos há 25 anos carregando essa ferida. Você nem completou 21 anos de vida.
Heitor ficou em silêncio. Depois indagou:
– Será que ele também tem esses sentimentos?
– Não sei. Posso apenas calcular que, se ele esteve com essa dor física durante esse tempo todo, é óbvio que algum sentimento ele tem. Mas acho difícil que seja amor. Deve ser mágoa, rancor, amargura. Isso corrói uma pessoa por dentro. Pode ter corroído também por fora, na pele dele. Quem sabe essa seja a natureza da maldição?
– Droga, mãe. Acho que você descobriu o enigma. Odeio psicólogos. A gente parece não ter qualquer segredo para vocês.
– Ah, não sei, não. Eu não me canso de me espantar com o que as pessoas fazem umas às outras. – Ela suspirou. – Mas, confesso, não sei em que isso pode ajudar Severus.
– Vou falar com Bill. Ele pode ter alguma idéia brilhante.
