Livro 14
O E-mail
Deveria ser apenas uma noite de coquetéis, ele falava para si mesmo enquanto se arrumava no quarto de hotel, escolhendo as abotoaduras de seu terno. Matt não estava nervoso, muito pelo contrário, adorava essas exibições, as "premieres", especialmente as de Doctor Who, quando poderia se encontrar com tantos outros atores talentosos e grandes amigos. Steven, Arthur, Jena, que provavelmente o perseguiria boa parte da noite, Karen, cuja lembrança do fora que ela o deu ainda doía, mesmo que não a amasse mais como antes, e até Miss. Kingston.
Olhou-se diante do espelho, aquela gravata borboleta não era legal, em tom preto, gostava mais da vermelha. As vezes sentia-se mais confortável fazendo um personagem do que vivendo a si mesmo, então precisava pensar que estava apenas interpretando também para conseguir passar por determinadas situações. Esta era uma delas.
Arrumou os cabelos e deixou o quarto, indo com o motorista até o teatro em que seria feita a exibição do primeiro episódio da sétima temporada, sua última grande contribuição como o Décimo Primeiro Doutor.
Por que estava tão incomodado? Acabara, tinha que aceitar, uma hora sempre chega ao fim. Foi para ele assim como para David. "I don't wanna go", recordava da frase. Fizera tantos grandes amigos, isso agora machucava, ter que dizer adeus a todos.
O motorista parou diante do tapete vermelho, ao que Matt deixou o carro sendo alvejado por muitos flashs de câmeras. Acenava de forma cordial enquanto andava para dentro do teatro, posando ocasionalmente e sorrindo. Já reunido com todos os patrocinadores, os figurões da BBC e seus colegas de trabalho, seu nome foi apresentado diante das portas do salão e aplaudido. Alguém assobiava, só poderia ser Karen.
- Espero que todos aproveitem essa noite a melhor obra de minha vida - ele disse.
Sendo mais uma vez aplaudido, foi misturar-se aos outros convidados. Andava por estes, recebendo apertos de mão, cumprimentos, tapinhas nas costas. Todos desejavam um pedaço dele e isso era enfadonho. Foi quando Steven se aproximou.
- Ei, Matt, se divertindo? Todos amam a sua estrela - falou dando um tapinha nas costas do ator.
- Claro, Steven, a festa está ótima - ele respondeu sorrindo.
- E aí? - Karen se aproximava e abraçava também o colega. - Será que consigo falar com você?
- Sempre, querida - Matt respondeu mantendo a normalidade entre ambos, como fora o desejo da garota.
- Vocês estão se escondendo aqui? - Jena também se unia ao grupo.
- Arthur já chegou? - Karen perguntou olhando ao redor.
- Eu o vi com Alex junto as bebidas - Steven respondeu.
Karen fez uma expressão engraçada, olhando para a taça de champanhe em mãos.
- Já sabemos quem vai beijar o vaso sanitário hoje - ela comentou.
- Arthur? - Jena perguntou.
Mas ninguém respondeu. A morena ainda era nova no programa e não conhecia praticamente nada sobre os seus colega. Não era bom falar sobre tais assuntos depreciativos ainda no começo da noite. Logo um par de mãos chegava por trás de Matt e tapava os seus olhos. Ele imediatamente segurou os pulsos finos, sentido uma pulseira de pérolas.
- Hello, sweetie - sussurraram ao seu ouvido.
Ele teve certeza de quem se tratava imediatamente. Abaixou as mãos dela e trocaram beijos no rosto de forma polida.
- Como vai, Alex? - Matt perguntou.
- Excelente - ela respondeu pegando sua taça de champanhe das mãos de Arthur, que vinha junto dela.
Mas a conversa precisou ser interrompida. Um dos produtores da BBC se colocava acima de alguns degraus e pedia a atenção, convidando-os a seguir para a sala de exibição, para a estréia do primeiro episódio desta temporada do show. Todos então seguiram como indicado, tomando seus assentos devidamente marcados, os atores na primeira fileira, produtores em seguida e restante dos convidados mais atrás.
Sem dúvida o resultado foi muito favorável, os atores conheciam as cenas de que haviam feito parte, porém, vê-las na tela sempre era diferente. Quando acabou, deixaram o teatro e seguiram para um enorme salão, no qual eram servidos aperitivos e bebidas.
Mais uma rodada de apertos de mãos, de elogios, até de lamentos pela sua saída da série. Matt não sabia como conseguia agüentar ainda tais coisas, o incomodava tanta falsidade. E sabia que não era o único sofrendo, os seus colegas passavam pela mesma situação, exceto Jena, que parecia sempre muito feliz.
Um segundo que ele conseguiu para si, foi pegar uma bebida, mas logo Jena se aproximava, tocando-o no braço.
- Noite cheia - ela comentou.
- Noites de estréia são assim - ele disse sem muita empolgação.
- Então... - Ela comentou timidamente. - Vai ter um after party?
- Como assim? - Se fez de desentendido.
- Depois daqui, o pessoal vai sair pra algum lugar? - Jena explicou. - Meus antigos colegas costumavam a sair depois das noites de estréia.
- Não sei.
Ele passou os olhos ao redor, perscrutando quem poderia estar passando, quando avistou Karen. Fez um gesto para que ela se aproximasse, ao que a ruiva veio.
- Jena está falando de sairmos depois daqui - disse logo.
- Ah, por mim tudo bem - ela aceitou. - Já falou com Arthur e Alex?
- Vai chamar Steven também? - Jena perguntou.
- Não falei ainda, mas vamos chamar. Jena - ele voltou-se para ela. - Poderia fazer o favor de chamar Arthur e Alex? Eu vou falar com Steven.
Sem esperar uma resposta, ele simplesmente se afastou. Foi andando entre as pessoas, até ser alcançado por Karen.
- Hey - a ruiva perguntou. - O que está havendo?
- Uma festa que não estou interessado em ir - ele respondeu chateado.
- Diga isso a Jena - ela sugeriu.
- Ah, eu não posso...
A verdade era que ele tinha dificuldades para negar qualquer coisa, especialmente quando se tratava de uma situação na qual precisava ser educado. Era uma questão de trato social. Foi o momento em que Steven passou próximo a ambos, quando Matt aproveitou para agarra-lo pelo braço.
- Hey, Steven! Jena está chamando para um after, que tal?
- Ah, eu até apreciaria, mas já tenho planos com a minha cama de hotel - e deu um tapinha no ombro de Matt.
Jena então se aproximou também, unindo-se ao grupo.
- Você também? Arthur disse que vai, mas Alex recusou.
- Por que? - Karen perguntou.
- Vai viajar amanhã cedo pra Los Angels - a morena respondeu.
- Ah, se eu vou ela também vai - Matt falou decidido.
Seu objetivo era puramente ficar longe de todos quando se afastou dos seus colegas. Neste momento, um dos patrocinadores o chamou, obrigando-o a parar com seus pensamentos e conversar. Foram alguns minutos levando um diálogo agradável, cheio de polidez, do qual ambas as partes tentavam obter lucros com favores.
Quando finalmente conseguiu um segundo para si, foi andando pelo salão. Seguia em direção a uma grande varanda, em um espaço aberto nos fundos do teatro. Encostou-se no para-peito, respirando fundo, quando sentiu o cheiro de cigarro no ar. Olhou para o lado, lá estava Alex, conversando com um dos patrocinadores da BBC. O homem fumava um cigarro e ela também acendia um usando a chama do dele. Ela ria de algo que ele falava. Foi quando ela percebeu que Matt estava por perto, sorriu e dispensou o seu companheiro, indo em direção ao colega de trabalho. Apagou o cigarro no mármore do para-peito.
- Não sabia que fumava - ele comentou.
- Não fumo - ela respondeu.
Era tudo parte do jogo para lidar e agradar as pessoas que pagavam o seu salário. A tradicional prostituição do ramo do entretenimento.
- Soube que não poderia ir para a festa - Matt falou.
- Tenho um vôo cedo pra pegar, uma filha me esperando em casa - ela respondeu. - Mas se divirta, depois me conte como foi.
- Ou...
Ele simplesmente não sabia de onde essa palavra viera, pois a ideia lhe parecia ridícula em sua mente, ou ainda, nem por seus pensamentos passou, saía direto pelos lábios.
- Podemos apenas fugir daqui à francesa, enquanto ainda temos tempo - concluiu.
Alex o olhou um pouco surpresa com o convite. De fato, Matt sempre se mostrara muito espontâneo, criativo, uma verdadeira alma livre. Mas daí a fazer um convite ousado desses, era algo diferente. Ela pareceu encarar da forma mais amigável possível e respondeu como sendo tudo uma brincadeira:
- Se formos agora, podemos pegar um táxi e chegar no hotel em dez minutos.
- Miss. Kingston, você é genial - ele respondeu com um sorriso.
Prontamente ele a segurou pelo pulso, deixando a varanda e dando a volta no teatro pelo jardim do lado de fora, para não ter que cruzar o salão cheio de convidados. Não era a primeira vez que fazia isso, já agarrara esse mesmo pulso algumas vezes, para as várias cenas do seu show. Mas agora era diferente. Não era River Song a quem puxava, mas Alex Kingston, sendo ainda assim um pouco difícil dissociar as duas. No fim, mais uma vez, a cena era a mesma. "Watch us run". Pararam diante da entrada do teatro, agora já vazia de fotógrafos. Os dois riam e respiravam recuperando o fôlego.
- Certo, e para onde vamos agora? - Ela perguntou.
- O que? Vamos para o hotel, não era o plano? - Ele a lembrou.
- Eu achei que estava brincando - Alex não acreditava no que ele falava. - Matt, aquele salão está cheio de pessoas que vieram apenas para te ver!
- E eu não quero ver nenhum deles, já os vi demais por hoje - ele já acenava pedindo um táxi.
- Tem certeza disso?
Mas Matt nem ao menos deu resposta. O táxi já parava diante deles e ele abria a porta para que ela entrasse primeiro. Seguiram então para o hotel, não muito distante dali, escolhido propiciamente para que os atores pudessem seguir para o teatro no horário certo e sem atrasos.
Ele não sabia exatamente porque estava fazendo isso, ou esta era a mentira conveniente que contava a si mesmo. Claro que ele sabia. Estava cansado dos sorrisos, das mentiras, de toda aquela falsidade. Seu contrato já acabara de qualquer forma, não tinha mais que se preocupar tanto, especialmente por já ter outros projetos alavancados para o seu futuro. Só queria um pouco de paz e privacidade, além de boa companhia. Claro que ele gostaria de ter saído com todos os seus amigos, Karen, Arthur e Steven. Porém, o final com a ruiva ainda pesava em sua mente e as coisas entre ambos nunca mais foram iguais. Além disso, significaria levar Jena também. Não tinha nada contra a garota, porém, era como se fosse um agouro em sua vida profissional, pois marcava uma grande mudança na vida do Doutor, a perda dos Pond. Nunca se lamentara tanto no afastamento de colegas de trabalho quanto ao ter que dizer adeus a Karen, Arthur e Alex, trocando os três pela morena. A menina era esforçada, mas não se comparava aos outros.
- "Penny in the air" - Alex falou casualmente.
Ele foi trazido de volta a realidade. Ela estava certa, ele precisava parar de devanear e estabilizar os seus pensamentos. Foi quando o táxi parou. Matt pagou a corrida e abriu a porta do carro, saindo primeiro e depois estendendo a mão para Alex. Passaram juntos pelo lobby, depois pegaram o elevador e finalmente chegavam ao andar em que estavam os quartos de ambos.
Não houve pergunta, nem convite, Matt simplesmente passou o cartão na porta de seu quarto e abriu, estendendo a mão para que ela entrasse primeiro. Havia um grande buquê de flores na mesa de centro, um cartão da BBC assinado pelo presidente da rede. Ao lado, havia uma garrafa de champanhe, colocada no gelo, que certamente não devia estar ali há muito tempo. Alex pegou a garrafa e a abriu com um estalo, sem deixar que a bebida sequer pingasse no chão. Serviu duas taças e entregou uma a Matt. Ele ainda parecia cabisbaixo, taciturno e muito pensativo, o que a preocupava.
- O que tanto o abate? - Ela perguntou. - Detesto te ver desta forma, essa noite foi pra você.
E ela estava completamente certa, a noite fora para ele. Não, não, nada para ele, para o Doutor, fora para aquele seu trabalho e pronto, agora tudo havia se encerrado e ele voltaria apenas a ser ele mesmo e nada para aquele bando de produtores, diretores, atores, nada. Nesses pensamentos, virava a taça inteira em um gole. Alex ergueu uma sobrancelha, nunca o tinha visto beber daquele jeito.
- Me desculpe, Miss. Kingston - ele falou subitamente.
- Sabe que pode me chamar de Alex - ela disse com ternura.
Matt não aguentou e precisou rir, esse diálogo o lembrava algumas coisas.
- Ou Mrs. Robinson - ele ria e se servia da segunda taça.
- "Oh, I hate you" - ela repetia a linha de sua personagem.
- "No you don't" - Matt exibia a mesma expressão, o sorriso malicioso que moldara para aquela cena.
Alex riu e estendeu sua taça para que ele a servisse também. Porém, diferente dela, que fora tão delicada, ele era um pouco desajeitado e acabou servindo champanhe demais, provocando uma grande quantidade de espuma que desceu pela lateral do copo, molhando os dedos dela.
- Droga! - Ele reclamou.
Mas ela não pareceu se incomodar tanto, apenas ria, o que o fazia se perguntar o quão alcoolizada a colega já deveria estar, algo não muito diferente dele próprio. Na concepção de Karen, Alex era uma pessoa que sabia beber, mesmo quando tinha trabalho a ser feito. Mais de uma vez comparecera de ressaca para as filmagens, não que qualquer um pudesse criticá-la, pois simplesmente não afetava seu fabuloso desempenho.
Alex pousou a taça sobre a mesa e colocou os dedos sobre os lábios, lambendo-os discretamente, gesto que não passou despercebido por Matt. Ele já deixava a própria taça e a garrafa sobre a mesa e, antes que pudesse se dar conta, passava uma das mãos pela cintura dela, a outra pela nuca e respondia quase num sussurro:
- "Penny drops".
Ele então a beijava, ao que era imediatamente correspondido com fervor. Havia uma única certeza naquele momento, finalmente a moeda caíra e a ideia se fixara em sua mente do que deveria fazer. Lembrava de como ela beijava bem, dissera isso algumas vezes, em todas as cenas que filmaram envolvendo beijos. Porém, ele sempre tratou de nunca colocar a língua, sabia da fama de Alex de morder nesses casos e não queria ter a sua amputada. Agora era diferente, podia utilizar de todas as suas habilidades.
Não foi algo planejado, algo que esperara durante toda a festa, que tinha a intenção se fazer, que imaginara um dia fazer. Claro que, como todo rapaz, aos seus quinze anos assistira "Fortunes and Misfortunes of Moll Flanders", um filme no mínimo tentador, que fizera toda uma geração sonhar com Alex Kingston. Ele agora estava ali com ela. Então seria uma mentira dizer que jamais desejara aquele momento, apenas, quando a conheceu finalmente, achou tê-lo feito no momento errado.
Enquanto suas mãos passavam velozes pelas costas dela, abrindo o vestido, ela, por sua vez, retirava a gravata e desabotoava a blusa. Matt pensava como nada daquilo poderia ter sido planejado. Uma pequena esperança, que nunca chegou a ser uma esperança de verdade, antes um sonho, quando o seu real desejo ao entrar para aquele elenco fora relacionar-se com sua paixão Karen. Mas a ruiva nunca quisera nada e ele ficara tão preso nessa circunstância, que esquecera de sua outra colega de palco. Erro dele, um erro muito feio.
Ambos estavam deitados na cama e ele a tinha sob seu corpo, posicionado entre suas pernas. O vestido era arrancado, o terno e a camisa social eram jogados no chão, a calça era abaixada. Logo ele a invadia lentamente, provocando um longo gemido, um ato que poderia durar toda a noite.
O sol avançava alto no horizonte quando o telefone do quarto de Matt tocou. Ele virou-se na cama, estendendo o braço para alcançar o objeto. Sua cabeça doía, parecia ter sido atingido por um trem. Ao pegar o fone, se deu conta de haver algo faltando. Sentou-se de imediato, olhando ao redor e desligou a ligação.
- Alex? - Ele chamou.
Mas nem sinal da mulher. Olhou o relógio e, pelo avançado da hora, ela partira enquanto ele ainda dormia, deixando-o para ir pegar o avião de volta para casa. Sentia-se estúpido com isso, não usado, mas estúpido, como se ele tivesse se aproveitado em seu momento de fraqueza. Como pudera deixar que ela fosse embora sem nem ao menos se despedir? Ou ainda, como ela pôde ir sem nem acordá-lo. Devia ter estado bêbado demais, ou era ela quem estivera, mas ele não se arrependia e tinha medo ao se questionar se o sentimento era recíproco.
Respirou fundo, o telefone voltava a tocar, então atendeu.
Alguns dias se passaram. A estréia da sétima temporada do show chegava cada vez mais perto e o estúdio da emissora BBC se encarregou de montar um painel com os atores da série em Londres como uma forma de promoção. Para tanto, os mesmos atores da estréia foram convidados, bem como o chefe de redação, além de terem sido abertas inscrições via internet para os fãs comparecerem e interagirem com os ídolos, fazendo perguntas após a exibição do episódio.
Matt estava em seu quarto de hotel, terminando de arrumar o cabelo, colocando um par de óculos escuros, quando bateram na porta. Ele foi abrir.
- Já está pronto? O carro está lá embaixo esperando - Karen ia entrando no quarto.
- Vai ser como na outra vez com o conversível azul? - Ele perguntou.
- Quem dera - ela respondeu insatisfeita. - Dessa vez temos uma pessoa a mais, não caberia todo mundo.
- Como assim? - Matt não entendia. - Achei que éramos cinco de novo.
- Está contando com Jena e com Steven?
- Estou.
- Então não está contando com Alex.
Ele podia sentir seu estômago revirando lentamente. Havia havia um assunto muito forte e pendente a se tratar com a colega, a respeito de uma manhã vazia, nenhuma ligação ou mensagem. Porém, ele precisava admitir que também tivera culpa nesse aspecto, pois nunca a procurara, com medo de ser rejeitado mais uma vez, pois já presumia que houvesse sido.
- Alex também vem? - Matt falou dando as costas para a colega e fingindo que procurava por algo em uma gaveta.
Karen começou a rir, cobrindo a boca com as mãos.
- Oh meu Deus! Você é um péssimo ator! - Ela disse ainda rindo. - Você dormiu com ela!
Matt então voltou-se para ela, o rosto mais vermelho do que lhe seria conveniente para negar qualquer coisa. Não conseguia mentir, não para Karen, depois de tanto tempo trabalhando juntos, a garota simplesmente aprendera a lê-lo. Ela parava de rir completamente, falando muito séria e chocada por seu blefe ter dado certo:
- Oh meu Deus, você realmente dormiu com ela!
- Não conte isso pra ninguém! - Ele pediu quase numa ameaça.
- O que aconteceu? - Karen perguntou preocupada. - Ela foi embora enquanto você dormia?
Novamente, ele desviou o olhar, já nervoso com a capacidade da amiga de adivinhar as coisas, ao que ela abriu a boca espantada:
- Mentira! E você ligou pra ela? Diga que ligou!
Matt apenas balançou a cabeça de forma negativa, escondendo o rosto enquanto passava a mão de forma nervosa pelos cabelos.
- Você não ligou!? - Karen o repreendia. - Você realmente não ligou? Ainda bem que você saiu do show, ela agora é responsabilidade do próximo.
- Não, eu não liguei! - Ele se irritava, tendo jogado de forma agressiva contra si o fato de ter sido completamente insensível e idiota.
- Mas você queria ligar?
A ruiva trazia agora uma questão importante. Ele tinha real interesse em manter um contato com Alex? Claro que o momento que passara com ela fora bom, muito bom por sinal e ele gostaria de repetir, pois ela beijava muito bem, dentre outras coisas. Porém, a questão era se ele realmente desejava, ansiava por tê-la mais uma vez daquela forma. Estava confuso e incapaz de responder a própria pergunta.
O telefone de Karen tocou e logo ela pegava Matt pelo braço, passando pela porta do quarto de Arthur. Os três desceram as escadas e, no lobby do hotel, Steven e Alex já os esperavam.
Matt saía dos elevadores e conseguia reconhecer de longe os grandes cabelos cacheados e loiros. "Nice hair", ele ainda lembrava a fala do episódio da temporada passada. Continuou andando, como se nada estivesse acontecendo, mal percebendo que, tal qual seu personagem antes de encontrar a Doutora Song, ele também passava as mãos pelos cabelos e ajeitava a camisa.
- Como vão todos? - Steven perguntou. - O carro já nos espera.
- Mas onde está Jena? - Arthur lembrou-se.
- Aqui! - A moça chegava quase correndo, saindo de outro elevador.
Os atores e o escritor seguiram para fora do hotel e entraram em uma limusine, que os levou para o local do painel. Foi uma viagem um pouco tensa, ou assim Matt achou, mesmo que tentasse de todas as formas não transparecer.
Chegando, foram recepcionados por fotógrafos e fãs, todos indo a loucura. Foram algumas poses, alguns autógrafos, nada que não estivessem acostumados.
- Matt, tire uma com Alex! - Ouvia-se um dos fotógrafos pedindo.
Não era algo incomum, ele possuía centenas de fotos com ela, especialmente por serem casados no show, o público desejava vê-los juntos. Sendo assim, ele estendeu a mão, que ela prontamente, com todo o seu profissionalismo, aceitou, deixando-se ser envolvida por ele pela cintura e tirando algumas fotos. Nenhum dos dois disse ou tentou dizer nada, apenas trabalhando e vendendo sua imagem.
Em seguida, rumaram para dentro do local. Era como um grande teatro, capacidade para cem ou duzentas pessoas, ele não saberia dizer, já completamente preenchido de fãs. Foram ovacionados na entrada, sendo chamados um a um por Steven e sentando-se da direita para a esquerda ao lado do escritor na seguinte ordem: Matt, Jena, Karen, Arthur, Alex.
Primeiramente, Steven fez um pequeno discurso de agradecimento aos fãs e depois deu início às perguntas.
A grande maioria dos questionamentos recaíam sobre o papel de Jena na série, sobre a possibilidade dos Pond irem embora, bem como sobre o fato de ser a última temporada de Matt.
- Para Matt, o que você mais vai ficar triste em deixar para trás com a sua saída? - Um fã perguntou.
- Sem dúvida serão as pessoas que conheci - ele respondeu prontamente. - Fiz grandes amigos, eu também conheci vocês, um fandom tão carinhoso e que me acolheu tão bem, eu vou sentir muita falta.
- Para Matt, como você se sente com a ideia de que estará deixando a Professora Song para o próximo Doutor? - Uma garota da platéia perguntou.
Ele precisou pestanejar por alguns segundos, sem nem olhar para a colega, tão distante, antes de pegar o microfone e responder:
- Nem me pergunte! - Foi bem enfático, tratando de uma forma tranquila, como uma brincadeira. - Eu sou muito possessivo quanto a Alex. Eu já falei para Steven, eu disse "escuta, cara, apenas não faça! Não a Alex! Qualquer outro, mas não dê ao Décimo Segundo a River". Sabe? O que mais eu posso fazer além de ficar... - E grunhiu como se estivesse furioso. - Mas eu tenho muito orgulho do fato de que Alex foi parte da vida do Décimo Primeiro. Minha esposa!
Houveram muitos aplausos depois dessa declaração, o público foi ao delírio. Claro que não passava de estratégia de marketing, Matt e Steven sabiam o que vendia e que a relação de River com o Doutor vendia muito bem para os fãs. Então cada uma daquelas palavras foi bem calculada e usada ao seu favor, sem segundas intenções. Ou não? O coração dele batia rápido e, mesmo que a declaração parecesse espontânea ou inocente para quem assistia, havia um pequeno, escondido, fundo de verdade que lhe comprimia o peito.
Quando o painel acabou, os atores fizeram uma sessão de fotos e autógrafos que durou ainda cerca de duas horas, antes de retornarem para o hotel. Todos estavam muito cansados, claramente destruídos após o trabalho.
Seguiram para os seus respectivos quartos para descansar, porém, Matt fez diferente. Ele ficou apenas alguns minutos em seus aposentos, antes de seguir mais uma vez pelo corredor. Parou diante da porta do quarto de Alex, respirou fundo duas ou três vezes e então bateu.
- Serviço de quarto - disse em seu tom brincalhão, disfarçando o nervosismo.
Logo ela vinha abrir a porta, exibindo uma expressão confusa que logo deu lugar a surpresa. Podia ler em sua mente que ela não o estava esperando.
- Posso entrar? - Ele perguntou sem demora.
- Claro.
Foi uma resposta automática de Alex, abrindo a passagem para que Matt entrasse em seu quarto e tendo o cuidado de fechar a porta em seguida. Ele andou um pouco pelo lugar, parando quase no centro e retornando para perto dela.
- Como você está? - Perguntou tentando parecer casual. - Não conversamos desde aquele dia.
- Bem, obrigada por perguntar.
As palavras dela eram frias, educadas, demonstrando que ou ela estava ainda se perguntando o motivo daquela visita, ou estaria com raiva pela mesma.
- Precisei sair cedo para pegar o meu vôo - Alex se explicou, começando a falar subitamente sobre aquele assunto. - E você estava dormindo tão cansado, preferi não te acordar.
- Ou não conseguiu me acordar? - Ele sorria malicioso, brincando com as palavras para ver se conseguia extrair mais informação.
- Não consegui - ela riu, um pouco sem graça.
- E como tentou? - Ia chegando cada vez mais perto, até ficarem muito próximos.
Matt já havia deixado clara sua intenção, ou ao menos para si era clara. Antes de pisar naquele quarto, poderia ser que estivesse perdido, sem uma decisão tomada, porém, ao se encontrar sozinho com ela mais uma vez, foi como se todas as dúvidas e hipóteses sumissem. Ele realmente desejava por aquilo de novo.
- Matt, não faça isso - Alex falou com um suspiro cansado. - Eu tenho idade para ser sua mãe.
- Não tem não - foi automático dizer.
- Temos uns vinte anos de diferença - ela falava séria.
- Dezenove e eu não ligo.
Era algo que ele estava muito ciente. Idade nunca fora um problema para ele, ainda que só tenha se relacionado com garotas de sua idade ou mais novas, como Karen. Mas ela ainda o olhava abatida.
Foi então que ele se deu conta de alguns detalhes. Há algum tempo, ele conseguia lembrar relativamente bem, quando recebera a proposta para trabalhar no show de Doctor Who, Matt fizera uma breve pesquisa sobre os seus colegas de trabalho, nada muito difícil em se tratando do poder da internet, somado à falta de pudor da mídia britânica. Nessa época, descobrira alguns fatos sobre Alex que o levaram a concluir que ela era uma mulher perturbada, insegura e muito, muito ferida emocionalmente devido a relacionamentos anteriores.
Tocou-a no rosto com carinho, tentando passar a pouca confiança que poderia com apenas um gesto.
- Você é tão linda...
Com essas palavras, foi ela quem o atacou desta vez, avançando contra ele, superando qualquer expectativa, beijando-o de forma agressiva. Matt precisou dar um passo para trás e envolvê-la com os braços para que não fosse derrubado no chão. O próprio já ia tirando suas roupas, abrindo a calça, precisando se afastar por alguns instantes para tirar a camisa, enquanto Alex arrancava o vestido.
- Me desculpe não ter te ligado - ele aproveitou a oportunidade para falar.
- Oh, cale a boca - ela respondeu impaciente, agarrando-se a ele mais uma vez.
Agora não fazia diferença, e ela parecia saber muito bem disso. Não importava o que ele houvesse feito ou deixado de fazer, os motivos que levaram a tomar ou não qualquer atitude, desde que não parassem o que estavam fazendo naquele exato momento.
Logo estavam na cama mais uma vez, depois na mesa, no banheiro. Foi uma tarde muito ocupada para ambos, que passaram da melhor forma possível, terminando deitados nus entre lençóis, conversando sobre trivialidades.
Naquela noite, Matt a acompanhou até o aeroporto e vê-la partir não foi algo tão fácil. Ainda checou o celular para conferir se realmente possuía o telefone de Alex. Não tinha intenção de ser algo casual, ou talvez pudesse ser assim apenas no começo, mas desejava avançar. Desta vez faria certo.
Assim, pouco mais de um ano se passou entre agosto de 2012 e dezembro de 2013, da estréia da sétima temporada de Doctor Who até o seu verdadeiro fim com o especial de natal "The Time of the Doctor", marcado pela primeira aparição oficial de Peter Capaldi como o Décimo Segundo Doutor. Certamente que os produtores da BBC não perderiam a oportunidade e, para lançar sua nova estrela, fizeram um grande espetáculo, no começo de dezembro, exibindo em primeira mão o trailer do episódio para um auditório cheio de repórteres e fãs.
Matt fora, logicamente, convidado para participar da mesa, visto que seria sua última aparição nas telas como o Décimo Primeiro Doutor. Arrumava a camisa diante do espelho, passando a mão pelos cabelos e deixando-os um pouco bagunçados, como gostava. Já eram quase um cartão de visitas seu, sempre em movimento como o Doutor.
- Deixe que eu faço isso.
Uma voz feminina falou em seu quarto. Alex chegou por trás dele, entrando no banheiro e ficando de frente. Passou uma mão delicadamente pelos cabelos castanhos, arrumando-os da forma como achava que ficavam melhor.
- Agora todas as garotas só vão ter olhos pra você - ela disse tocando-o no peito com carinho.
- Eu só preciso de uma garota.
Foi a resposta, enquanto a envolvia com os braços ao redor da cintura e a puxava para um beijo.
- Há quanto tempo não participamos juntos de um painel? - Ela comentou ao final.
- Desde aquele dia - Matt respondeu. - A última vez que estivemos juntos em Londres.
- Foi um bom dia.
- Se foi.
E a beijava novamente. O gesto tornava-se quente, as mãos dela subiam para a nuca dele, enquanto ele a apertava mais em um abraço. Não desejavam parar ou se soltar, jamais interromper, porém um telefone tocou. Era o celular de Matt e eles precisaram encerrar. Ele respondeu com uma mensagem depois largou o aparelho.
- Está pronta, querida? - Matt perguntou.
- Sempre pronta - Alex respondeu passando perfume.
Ele se aproximou e beijou-a no pescoço, sentindo o cheiro da fragrância.
- Acha mesmo que não vai ser inadequado? - Ela perguntou. - Quer dizer, vamos chegar em carros diferentes, eu nem ao menos estarei no painel. As pessoas vão se perguntar o que estarei fazendo ali.
- Estará indo como minha acompanhante, já disse - ele falava muito tranquilo. - Assim como veio como minha acompanhante.
- E não divido o quarto com você - Alex acrescentava mais séria.
- Isso a incomoda? Foi uma escolha sua não vir ao público e eu respeito isso - Matt a lembrou.
- Eu tenho uma filha, querido, tenho que prezar pela minha privacidade - ela respondeu. - A última coisa que preciso são de paparazzis na minha janela tentando flagrar "Sr. e Sra. Who".
- Eu sei, querida - com essas palavras, se aproximava tocando-a no rosto gentilmente.
- Além disso... - Alex se afastava, claramente incomodada. - Também não mereço ouvir comentários sobre a idade.
- E não vai, não vou permitir - ele lidava com muita tranquilidade, indo atrás dela e beijando-a mais uma vez. Se distanciava apenas um pouco, exibindo o visual. - Como estou?
- "Amazing" - ela respondeu com um sorriso.
Logo era chegada a hora de Matt partir para o teatro juntamente com Steven, Jena e Peter. Alex foi em um táxi, chegando alguns minutos depois.
Os nomes foram chamados por Steven para se apresentarem a mesa, na ordem de Peter, Jena e Matt, sentando-se o redator entre os dois atores que permaneceriam no show. O antigo Doutor podia ver Alex sentada na primeira fileira, bem diante dele, aplaudindo-o como os demais, cheia de orgulho.
- E é com enorme prazer - falava Steven após se sentar -, que contamos também com a ilustre presença da maravilhosa e talentosa Alex Kingston.
Mais uma salva de palmas, agora para ela que estava ali totalmente sem ter sido convidada, o que levava a muitas especulações sobre o futuro de sua personagem naquele show.
Foram então abertas as rodadas de perguntas do público.
- Para Steven, aproveitando que Alex está aqui, eu acho que todos gostariam de saber se a Professora River Song ainda vai aparecer na próxima temporada junto com o Décimo Segundo Doutor - pediu uma fã.
- Bem - Steven começava a responder -, eu diria que, sobre isso, estou mais intrigado é com o que Matt vai pensar de Capaldi e Kingston ficando juntos.
Matt fazia uma expressão sorrindo, porém nada contente com a provocação do escritor e Jena, presa entre ambos, percebia isso, pois passava as mãos nos cabelos de forma nervosa, sem olhar para um ou para o outro.
- Eu posso ter um e-mail de cortesia se houver outro Doutor pegando a minha esposa? - Ele comentou insatisfeito.
- Você enviou um desses para David? - Steven o provocava ainda mais, rindo.
- É diferente! - Matt também ria, evitando olhar para Alex.
Toda a platéia começava a rir, bem como os atores que faziam parte da mesa.
- Eu acho que Alex tem o direito de ser esposa de todos os Doutores - o redator empurrava até o limite.
- Não tem direito não, de fato...
Matt levantou-se de sua cadeira e pulou do palco. Filmadoras, câmeras fotográficas e de vídeo focavam nele, bem como os olhares de seus colegas e dos presentes. Ele simplesmente parou diante de Alex e se ajoelhou no chão com uma só perna.
- Não se atreva! - Ela ameaçou, mas não teve qualquer efeito.
Os fãs começavam a gritar, todos estavam filmando, enquanto ele tirava uma caixinha do bolso e abria, exibindo um anel de brilhantes. Alex estava completamente sem reação, cobrindo a boca com ambas as mãos enquanto as lágrimas escorriam.
- Miss. Kingston, Alexandra Elizabeth... Me daria a honra de ser para sempre minha esposa? - Ele pediu com o microfone na mão.
- "You and me, time and space"... - Foi a resposta dela com a voz vacilante.
Matt então se levantava e a puxava para que fizesse o mesmo, envolvendo-a em seguida com os braços para depois vir o beijo apaixonado, levando os fãs ao delírio.
- Parece que eu uni um casal - comentou Steven rindo.
Finalmente se separaram do beijo e Matt pôde colocar o anel no dedo de Alex, que ainda tentava parar o choro.
- Minha esposa! - Ele gritou no microfone.
Depois disso, se abraçaram mais uma vez e ele retornou ao palco, tomando o seu lugar, bem como Alex entre a platéia. Os fãs ainda aplaudiam e faziam muito barulho sobre o assunto. Matt brincava com Steven e Capaldi:
- Eu disse, vai ter que mandar o e-mail.
