House continuava ao lado da cama de Cuddy, horas depois de toda a confusão envolvendo seus pais. Era como se ele tentasse arrumar uma solução para todos os seus problemas, mas nem mesmo sua mente brilhante era capaz disso. Tal fato o deixava frustrado, impotente, e mais miserável do que em todos os outros momentos de sua vida.
Gregory House não sabia chorar, mas naquele momento, ele chorava por dentro, sem derramar nenhuma lágrima sequer e sem que seus soluços fossem audíveis, porém ele estava sofrendo, à sua maneira. De repente, tentou usar sua última cartada, decidiu que aquele seria o momento certo, levantou-se da cadeira e deixou o quarto de Cuddy, certo de que essa seria a última tentativa de salvá-la.

Sala de Wilson
Seu fiel amigo estava com Claire no colo, oferecendo-lhe a mamadeira quando House entrou. Ambos se olharam por alguns segundos, desconfortáveis a respeito dos últimos acontecimentos.
- Eu vou levar a Claire...diz House tentando tira-la do colo do amigo.
- Não acho que isso seja uma boa idéia, House.
- Quem é você para achar alguma coisa? Eu sou o pai dela! Grita House, exaltado.
- Você está certo, e só agora acordou para esse fato? Retruca Wilson.
House estava mais nervoso que o habitual e diante da resposta de Wilson esboça o ódio no olhar e levanta um dos punhos, mas recua antes que fosse tarde demais.
- Você ia me bater? É assim que se resolve as coisas, tentando bater nas pessoas? Esse não é você House, está fora de si! Exclama o oncologista.
- Como você queria que eu estivesse? Se ela morrer...Diz House.
- Você precisa entender, que ela já está praticamente morta, desligar os aparelhos é apenas uma questão burocrática. Responde Wilson.
- Eu não vou deixar que isso aconteça! Cuddy não está morta! Claire precisa dela, esse hospital precisa dela! Grita House.
- E você precisa dela, não é mesmo House? Indaga Wilson.

Nesse instante, House perde a razão, desvia o olhar do amigo e fecha os olhos por alguns segundos, tentando conter o sofrimento.
- Eu não preciso de ninguém, nunca precisei e jamais precisarei...Fala House, tentando convencer a si mesmo disso.
Após dizer essas palavras, House retira Claire dos braços do amigo e deixa a sala.

Quarto 301

Já havia anoitecido quando ele chegou ao quarto de Cuddy. Claire estava adormecida em seus braços e ele se aproximou do leito. Apesar de tudo, Cuddy continuava linda. Seus cachos caíam sobre o rosto muito pálido, cachos que House reconhecia nos cabelos de sua filha, que começavam a crescer. Ele colocou Claire na cama, ao lado da mãe e ficou observando as semelhanças entre as duas pessoas que mais lhe importavam na vida, apesar de viver negando tal realidade.
- Claire, essa é sua mãe. Começa House.
- Cuddy, essa é a Claire. Ela se parece tanto com você...para sua infelicidade,com meus olhos e meu temperamento, mas o resto é basicamente todo seu. Conta ele, esboçando um suave sorriso.
- Se você estiver me ouvindo agora...Claire precisa de você...Nós dois precisamos de você.
House aproximou o rosto de Cuddy, sentindo o cheiro de seus cabelos, a suavidade de seu rosto, e beijou-a ali, sentindo logo em seguida uma gota molhada atingindo seus lábios. Era uma lágrima, Cuddy derramou uma lágrima como único meio de dizer a ele que ela o ouvia.

Ele se levantou e enxugou a outra lágrima que caía do rosto de Cuddy. Ela não estava em coma, e House não sabia o que sentir.Era uma mistura de medo e felicidade aos quais ele não estava acostumado. Quando House levou as mãos ao rosto sentiu que elas estavam molhadas, só não sabia se era devido às lágrimas de Cuddy ou às suas próprias. House era capaz de chorar, ele mesmo só descobriu isso depois desse momento.

-Enfermeira! Enfermeira!! Grita House, não conseguindo se conter.
Em questão de segundos a enfermeira chega ao quarto, assustada.
- O que houve Dr. House? pergunta ela.
- Ela está consciente! Ela chorou na minha frente! Exclama ele, enquanto segurava Claire nos braços.
E a enfermeira olha para Cuddy, sem acreditar no que House dizia. Os boatos que corriam no hospital, desde os últimos acontecimentos, eram de que House havia realmente perdido a noção da realidade e estava enlouquecendo. E para a enfermeira, tais boatos acabaram de se confirmar.
- Me desculpe Doutor House, mas para mim a Doutora Cuddy está do mesmo jeito...Responde a enfermeira.
- Sua idiota! Você não consegue ver! Chame o Wilson, ele vai saber!
- Doutor House, o senhor precisa sair daqui agora...Diz ela tentando retira-lo do quarto.
- Eu não vou sair daqui, ela está consciente, eu vou provar a você! Continua ele, exaltado, passando Claire para os braços da enfermeira.
- Cuddy, mostre a ela, acorde Cuddy! Acorde!! Exclama ele enquanto apertava suas mãos sobre os ombros de Cuddy, chacoalhando-a, tentando fazê-la reagir.
Nesse instante os seguranças se aproximam para retirar House dali.
- Tirem suas mãos de mim! Ela não está em coma! Vocês não podem desligar os aparelhos! Vocês vão matá-la! Grita ele enquanto os seguranças o puxam pelos braços.

Porém ele estava fora de si, e não havia ninguém ali que acreditasse nele, nem mesmo Wilson. House estava sozinho, mais sozinho do que nunca e precisava provar a todos mais uma vez, que ele estava certo.

- Me soltem! Tirem as mãos de mim! House continuando gritando enquanto os seguranças o levavam pelos corredores do Hospital.
- Ei, o que está acontecendo aqui? Soltem ele! Exclama Wilson, ao se dar conta da situação.
Muito relutantemente os seguranças o soltam.
- Wilson, Cuddy...ela não está em coma! Eu a vi chorar, bem na minha frente, ela viu Claire e ...
- O que você está dizendo? Isso é impossível, House. Afirma Wilson, incrédulo.
- Você também não acredita em mim? Acha que eu estou ficando louco? Questiona House, com mágoa no olhar.
- Não estou dizendo isso, mas talvez você tenha imaginado, afinal, todos queremos que a Cuddy acorde...
- Eu não imaginei! Eu a vi chorar! Não precisa acreditar, mas eu vou provar a vocês! Grita House enquanto se afastava do amigo.
- Onde você está indo, House? Pergunta Wilson.
- Vou buscar Claire e ir para casa. Responde ele secamente.
Wilson engole seco, sem saber o que dizer a House naquele momento.
- É sobre isso que eu gostaria de conversar com você...
- Sobre a Claire? Diz House.
- Os pais da Cuddy emitiram uma ordem judicial, a partir de hoje você não pode mais se aproximar da Claire.
- Do que você está falando, eu sou o pai dela! Exclama House.
- Eles alegam que você está passando por um momento de insanidade e é uma ameaça para ela, House.
- Isso é bobagem, eles não podem me impedir de levar minha filha para casa. Afirma House.

- Na verdade a ordem judicial acabou de ser emitida, eles tem influência, para conseguir isso a essa hora da noite. Estão vindo buscá-la. E isso não é tudo...
- Tem mais? Vão me expulsar do hospital também, declarando que estou incapacitado de fazer meu trabalho? Pergunta House, sarcasticamente.
- Vão desligar os aparelhos amanhã de manhã, enquanto isso, eles também tem uma ordem judicial para manter você longe da Cuddy.
Ao ouvir as palavras de Wilson, House fica atônito, sem saber como agir e o que pensar. Tudo que ele amava estava sendo tirado dele, e House tinha apenas algumas poucas horas para tentar achar uma solução, se é que havia uma. Ele tenta se manter calmo, recobrando a razão em seguida.
- Que horas vão desligar os aparelhos? Pergunta House, engolindo seco.
- Às 10 da manhã. Responde Wilson.
House olha no relógio, que marcava exatas 10 da noite. Ele teria 12 horas para salvá-la, seria uma corrida contra o tempo.

Casa de House - 11 da Noite

Ele havia acabado de chegar em casa. As coisas de Claire estavam espalhadas pela casa. Um patinho de borracha estava caído no chão, quando House se abaixou para pegá-lo. Era incrível como Claire fazia falta naquela casa, tudo parecia vazio e triste sem uma criança por ali. House apertou o brinquedo entre os dedos e olhou para o relógio na parede, cujos ponteiros pareciam andar mais rapidamente que o habitual. A única vontade que o médico sentia nesse momento era tomar um frasco inteiro de vicodin, misturado com muito uisque e uma dose de morfina. Mas isso seria impossível naquele momento. Ele se contentou apenas com alguns comprimidos de vicodin e ainda com o patinho de borracha entre as mãos começou a pensar numa maneira de impedir que os aparelhos que mantinham Cuddy viva fossem desligados. Quando a idéia finalmente surgiu em sua mente, os ponteiros do relógio marcavam 2 da manhã.Ele pegou o telefone, discou e esperou que alguém atendesse.
- Preciso de sua ajuda, agora. Diz House para a pessoa do outro lado da linha.
E ele fez mais algumas ligações em seguida, dizendo sempre a mesma frase.

Casa de Wilson
A campainha tocava insistentemente, e Wilson logo percebeu quem era.
- O que você quer a essa hora da madrugada House? Pergunta ele, abrindo relutantemente a porta.
- Preciso de sua ajuda...Responde House.

Princeton Hospital - 4 da manhã

Sala de House

A equipe já estava reunida quando House e Wilson chegaram
- Então, do que se trata, você tirou todos nós da cama no meio da noite, parece ser um caso meio importante importante,não é mesmo? Pergunta Foreman contrariado.
Nesse momento House começa a escrever alguma coisas na lousa, e todos começam a ler incrédulos.
- Aneurisma, Eclâmpsia, coma...quais são os diagnósticos diferenciais? Pergunta House, sem tirar os olhos do relógio.
- Você quer um diagnóstico diferencial para coma? Eu acho que você está realmente ficando louco House! Exclama Foreman.

- Trombos? Talvez eles estejam induzindo o coma...Diz Kutner tentando agradar.
- Mais alguma hipótese? Pergunta House.
- Coma induzido por drogas? Talvez alguma dosagem errada...Indaga 13.
- Sobre qual paciente estamos falando aqui? Não é sobre quem estou pensando não é mesmo? Pergunta Taub.
- Exatamente, a paciente se chama Lisa Cuddy. House acha que pode curar o coma. Responde Wilson. Deixando todos os presentes com reação de insatisfação.
- Eu só quero provar que ela não está em coma, e que estão cometendo um erro ao desligar os aparelhos! Exclama House, lutando contra o tempo.
- House nós não somos deuses, não podemos tirar uma pessoa do coma, não podemos salvar a Cuddy. Diz Wilson, esboçando uma tristeza no olhar.
- Eu concordo com parte do que você disse, podemos tirar uma pessoa do coma, eu fiz isso uma vez se lembra? Fala House, com um sorriso nos lábios.
- House, você não está pensando em...isso pode matá-la! Grita Wilson.
- Ela vai morrer se eu não fizer nada. E como ela nao está em coma, isso não vai mata-la. Retruca House.
- Você vai arriscar? Se ela morrer por sua causa, vai conseguir viver com essa culpa? Questiona Wilson.
- Minha culpa vai ser maior se eu não fizer nada para salvá-la. Responde House, tentando se manter calmo.
Ele olha mais uma vez para o relógio, que marcava quase 5 da manhã. Ele teria pouco mais de 5 horas para colocar seu plano em prática.
- Não vou permitir que você faça isso House! Você pode ir para a cadeia! Avisa Wilson.
- Você tem alguma idéia melhor? Pergunta House.
- Se o problema é não deixar desligarem os aparelhos, já pensaram em roubá-la? Sugere Kutner.
House e Wilson se entreolham diante da idéia de Kutner.
- Tá vendo, foi por isso que eu contratei ele! Diz House, não escondendo seu contentamento diante da simples idéia.
-Uou, não vai ser tão simples assim, tem um segurança na porta do quarto. Avisa Wilson.
- Eu acho que 13 pode dar um jeito nele, ou você acha que ele vai preferir o Foreman? Pergunta House, ironicamente.

- Você está fora de si. Afirma Wilson.
- Vamos preparar tudo e mãos a obra! Exclama House.

Quarto 301 - 8 da manhã.

O segurança estava sentado próximo a porta do quarto quando 13 e aproximou e fingiu tropeçar próximo a ele.
- Me desculpa, não tive a intenção de machucar você...
Enquanto ele se levantou para ajuda-la. Wilson e Kutner entraram no quarto, levando uma maca e o equipamento necessário para fugir com Cuddy.
- Gostaria de tomar um café comigo? Pede 13 ao segurança, tentando distraí-lo.
Assim que o segurança deixa a porta do quarto, Wilson e Kutner saem com Cuddy na maca, levando o oxigênio para mante-la viva. House esperava no elevador. Tudo parecia simples e fácil demais para ser verdade. Até que os pais de Cuddy surgem no fim do corredor, eles haviam vindo se despedir da filha antes de desligarem os aparelhos. Kutner se assusta e para de apertar o balão de oxigênio. Eles a colocam dentro do elevador o mais rápido que conseguiam mas já era tarde demais, Arthur e Karen Cuddy já haviam percebido tudo. House aperta o botão do elevador rapidamente, enquanto os seguranças corriam para impedir que eles levassem Cuddy dali, e em questão de segundos a porta do elevador se fecha e os seguranças descem pelas escadas.
- O que vamos fazer agora, não vamos conseguir tira-la do hospital! Exclama Kutner.
As portas do elevador de abrem e eles partem em disparada, empurrando a maca de Cuddy, seguidos de perto por House, que andava o mais rapido que sua bengala permtia. Cercados por todos os lados, sem ter para onde fugir,Wilson e Kutner param a corrida.
- House nós tentamos...Diz Wilson.
Mas House não desiste, se aproxima da maca antes de tentar remove-la, percebe que Cuddy já não estava respirando.
- Cuddy, por favor, não faça isso comigo! Grita House, em desespero.

Ele tenta em vão achar seu pulso. E começa uma massagem cardíaca, com todas as forças que lhe restavam.
Os seguranças se aproximam para tentar retira-lo dali. Mas diante do desespero em que ele se encontrava, seria impossível.

- Por favor, volte...Acorde Cuddy!! Grita ele, sem parar a massagem.
Todas as pessoas em volta se afastam, dando espaço para que House pudesse se despedir, a seu modo.
- O que vocês estão fazendo, fugindo? Venham me ajudar! Tragam um desfibrilador! Grita ele.
- Ela está morta House, não há nada que possamos fazer. Sinto muito. Diz Wilson, colocando uma mão sobre o ombro do amigo.
- Não! Ela não está morta! Isso é um pesadelo, não está acontecendo! Exclama ele, perdendo a razão.
House abraça o corpo sem vida de Cuddy, retirando-a da maca e sentando-se ao chão, abraçando o corpo dela junto ao seu, enquanto suas lágrimas insistentemente caíam. Ele a apertava contra si, como se pudesse passar toda a vida que ele ainda tinha para o corpo sem vida da mulher em seus braços. Todos em volta olhavam-no com pena, e House odiava que sentissem pena dele. Aos poucos foi recobrando o pouco da razão que ainda lhe restava. Passou uma das mãos sobre o rosto ainda quente de Cuddy e a beijou suavemente nos lábios, despedindo-se. Não havia como negar, ela estava morta.
Wilson ajudou o amigo a se levantar, colocando Cuddy de volta na maca, para que seus pais pudessem se despedir dela.House desapareceu de vista logo em seguida. Afinal, ele ja havia dado a ela seu adeus.