Capítulo XIV – Inexplicável
Gina acordou com o barulho das colegas de quarto e percebeu que todas já estavam devidamente prontas para a aula.
"Você vai se atrasar, Gina," disse uma delas, antes de sair do quarto.
Mesmo sabendo que perderia o café da manhã, Gina não teve pressa em se arrumar. Depois da noite anterior, ela se sentia indisposta. Madame Pomfrey a manteve na Enfermaria por pelo menos uma hora depois de seu "encontro" com Draco e por pouco não a obrigou a dormir por lá. Com um bilhete na mão escrito pela enfermeira, caso tivesse que explicar à alguém o porquê de sua caminhada noturna, Gina saiu da Enfermaria quase às duas da manhã.
Chegando no dormitório, a ruiva tinha se jogado na cama, na esperança de dormir o mais rápido possível, mas o sono só chegou quando o sol já começava a aparecer no horizonte.
Com o corpo pesado e num tremendo esforço, Gina arrastou-se até o banheiro. Talvez um banho frio fosse exatamente o que ela precisava. Principalmente depois das poucas horas de sono, que foram preenchidas por sonhos onde ela e Draco continuavam o que começaram naquele canto escuro próximo à Enfermaria.
Draco tentou inutilmente concentrar-se nas palavras de Snape, mas era impossível. As lembranças da noite anterior pareciam vir à tona a cada segundo em sua cabeça. A maneira como Gina gemia em seu ouvido, a sensação do corpo dela pressionado contra o dele, a maneira como os dois se encaixavam tão bem. Tudo parecia funcionar do jeito certo.
Imagine o Snape pelado, ele pensou, ao perceber desesperado, que seu corpo já começava a dar sinais de que seus pensamentos não tinham absolutamente nada a ver com a aula de Poções.
"Algum problema, senhor Malfoy?" Snape perguntou, fazendo com que Draco despertasse imediatamente do transe.
Draco tentou inutilmente responder à Snape, mas pareceu não encontrar palavras.
"O senhor está se sentindo mal?"
Draco meneou positivamente a cabeça.
"Pode ir até a Madame Pomfrey," Snape disse, rumando até sua mesa e pondo-se a escrever uma nota num pedaço de pergaminho.
"Claro, se a princesa está com algum problema, o Snape logo dá um jeito de libera-la dos trabalhos," Rony comentou baixinho com Harry, mas alto o suficiente para que Draco – e infelizmente, Snape – ouvisse ao passar pelos dois.
"Algum problema, senhor Weasley?"
"Nenhum," Rony respondeu friamente, olhando para sua mesa.
"Menos mal," Snape disse de forma rude, entregando o bilhete à Draco. "Melhoras, senhor Malfoy."
Com um aceno de cabeça, Draco pegou o bilhete e rumou para fora da sala. De fato, ele tinha um problema. Mas um problema que Madame Pomfrey jamais poderia solucionar.
Gina caminhava sem pressa pelos corredores do castelo. Ela já estava oficialmente atrasada para a aula de Herbologia, mas que fosse. Ela nunca gostou da matéria e também não morria de amores pela Professora Sprout. Um atraso e talvez uma simples detenção não seriam um problema. Sem prestar atenção a nada, a ruiva dobrou no fim do corredor, apenas para esbarrar de frente com ninguém menos que Draco, que pelo visto, também andava desatento pelos corredores.
"Descul—o quê você está fazendo aqui?" Os dois perguntaram em uníssono.
"Eu estou indo pra aula."
"Eu estou indo pra Enfermaria."
"Por quê?"
"Não estou me sentindo bem."
"Ah."
"Você parece cansada."
"Eu estou cansada."
"A Madame Pomfrey te prendeu por muito tempo na Enfermaria?"
"Tempo mais do que suficiente."
Silêncio. Um silêncio pesado e constrangedor. A conversa até ali não tinha sido das mais informais e os dois pareciam apenas estar evitando chegar ao assunto óbvio: o que tinha acontecido na noite passada.
"Eu preciso falar com você," Draco disse, quebrando o desconfortável silêncio.
"Eu estou ouvindo," Gina respondeu, mais rudemente do que pretendia.
"Não aqui, Gina, em algum lugar privado."
Ao ouvi-lo chamá-la pelo nome, Gina pareceu esquecer que pretendia agir da maneira mais formal possível. Ela ainda não tinha certeza de como se sentia com relação à noite passada e preferia não parecer vulnerável diante de Draco.
"Na sala de DCAT?"
"Não, o Lupin deve estar dando aula lá."
"Não agora, Draco, à noite," a ruiva disse, impaciente.
"Mesmo assim, ele pode estar por lá à noite, não é lua cheia."
"Você acha que o Lupin vive naquela sala, por acaso? Nós nos encontramos várias vezes lá e--"
"Você quer mesmo discutir esse assunto?"
Gina suspirou baixo e continuou. "Ok, então aonde?"
"Quando estiver anoitecendo, na terceira àrvore à esquerda do lago."
"Por quê não à direita?"
"Porque é próximo à cabana do gigante, Weasley," ele respondeu, também impaciente, mas Gina percebeu que aquele Weasley não teve a mesma conotação de insulto que tiveram os outros quando ele a chamava assim.
"Certo então, te vejo mais tarde."
"Não deixe de aparecer."
"Alguma vez eu já deixei de aparecer, Malfoy?"
Draco deu um meio sorriso. "Não, mas dessa vez o assunto é mais importante."
"Nem imagino o que poderia ser," Gina disse, sorrindo ironicamente.
"É, é sobre a noite passada," ele disse, sério.
Gina ficou séria também. "Tudo bem, eu irei."
Antes que Draco pudesse dizer mais alguma coisa, um vulto branco sobrevoou a cabeça dos dois em disparada, apenas para voltar logo em seguida e flutuar sobre eles, gritando à plenos pulmões.
"O MALFOY E A WEASLEY, JUNTOS NOVAMENTE! O MALFOY E A WEASLEY, PIRRAÇA NUNCA MENTE!"
"Merda," Draco murmurou.
"Perfeito, agora a escola toda vai saber--"
"Não falte, Gina," Draco a interrompeu, decidido e continuou a rumar na direção que seguia antes de esbarrar na garota.
Gina não teve tempo de dizer nada. Draco já ia vários passos à frente e Pirraça continuava gritando pelo corredor. Só lhe restou continuar rumando para a aula de Herbologia.
"Juntos? Novamente? Draco, de onde ele tirou isso?" Goyle perguntou, sentando ao lado de um Draco com cara de pouquíssimos amigos.
Draco bufou. "Desde quando você dá atenção ao Pirraça, Goyle? Ele me viu esbarrando na Weasley no corredor e começou com essa idiotice."
"Ah. Foi só por isso?"
"Mas é claro que foi só por isso, Goyle," Blaise Zabini respondeu antes que Draco pudesse dizer algo. "Quer dizer, é óbvio que o Draco jamais se envolveria com a Weasley, não é Draco?" Perguntou ele, sentando de frente para Draco.
"É óbvio, Zabini," Draco respondeu, encarando o moreno como se quisesse jogá-lo ali mesmo, na mesa da Sonserina, no Salão Principal, e enchê-lo de pancadas.
"Só mesmo o Pirraça pra começar uma bobagem dessas, não acham? O Draco jamais pensaria em se envolver com a Weasley, isso é completamente--"
"Já entendemos o quê você quer dizer, Zabini," Draco interrompeu, friamente.
"Perdão Draco, eu só estava enfatizando quão fortes são os seus princípios. Um Malfoy jamais se envolveria com uma Weasley, não é?"
"Chega, Zabini," disse Pansy, sentando-se ao lado do moreno. "Só pessoas sem imaginação dão crédito às insinuações do Pirraça."
Draco encarou a garota, surpreso. Ele achava que depois do incidente com Pansy, em seu quarto, ela seria a primeira pessoa a encorajar tais boatos.
"Obrigado, Pansy."
"Não me agradeça, Draco, só observei o óbvio," ela respondeu, friamente, concentrando-se na refeição à sua frente.
Draco suspirou, encarando-o e tentando decifrar o que se passava na cabeça dela. Com um outro suspiro, o garoto observou o Salão Principal. Todos pareciam estar comentando algo e Draco não conseguiria contar quantos olhares desviaram quando os olhos dele alcançaram tais direções. Um olhar, porém, não desviou.
Gina. Ao vê-la, Draco percebeu que ela também o olhava. Os dois permaneceram daquela forma, olhando um para o outro, sem expressão alguma no rosto. O contato visual só foi cessado quando Rony apareceu ao lado de Gina, gritando à plenos pulmões com a irmã.
"VOCÊ ENLOUQUECEU, GINEVRA?" Rony gritava, chamando-a pelo seu nome de nascimento, o que já demonstrava quão irritado ele estava. "VOCÊ E AQUELE TRASTE DO MALFOY? VOCÊ QUER MATAR A NOSSA FAMILIA INTEIRA?"
Gina encarou Rony, com uma expressão que muito se assemelhava à tristeza e não disse uma palavra.
"Eu exijo uma explicação!" Rony bradou, ainda nervoso, mas um pouco mais "controlado," e aparentemente sem perceber a expressão da irmã.
Gina olhou para Harry, que se encontrava atrás de Rony, com uma expressão de dúvida intensa, e em seguida olhou para Hermione, que parecia tão concentrada em Rony e em seu próprio desespero silencioso que nem notou que a garota a olhava.
Draco e praticamente todo o Salão Principal assistiam estáticos à cena. O loiro já imaginava qual seria o desfecho. Gina gritaria à plenos pulmões que Rony não tinha absolutamente nada a ver com aquilo e que se ele acreditava que ela e Draco estavam juntos era porque não a conhecia. O garoto levantou-se, atraindo a atenção de algumas pessoas, que esperavam atentas à resposta, ou melhor, ao escândalo de Gina.
"Ginevra, eu estou esperando uma explicação."
Gina encarou novamente o irmão. A expressão de tristeza se intensificou.
"Eu não tenho uma explicação, Rony," ela respondeu, com uma frieza que contrastava com a melancolia de seu rosto. Sem dizer mais palavra alguma, Gina rumou para fora do Salão.
Metade das pessoas agora olhavam para Draco, que encarava o espaço em que Gina estava há segundos atrás. Rony, completamente boquiaberto, direcionou seu olhar de ódio para Malfoy. Draco encarou o ruivo, sem pestanejar. Eles pareciam batalhar entre si, silenciosamente.
Depois de segundos tensos naquela troca de olhares, Draco desistiu. Sem dizer nada, o garoto rumou para fora do Salão, na direção oposta à que Gina tinha seguido.
Ele também não tinha uma explicação.
