Oi, oi gente! Bora ler mais um capítulo? Prontos para as peripécias da Mione?

Lell Ly: Essa história é muito bacana mesmo, foi indicação de uma amiga minha. Sobre o vilão, quando li a história pela primeira vez, já pensando na adaptação, logo veio esse personagem para o vilão. Principalmente no clímax dele.
Tem uma outra história que gosto muito e que já adaptei também, a personagem é ruiva também. Foi tão confuso no momento de adaptar, eu via a Hermione, mas não conseguia vê-la de outra forma, se não ruiva. rs

Dama Layla: Ele quem? Você está suspeitando do Evan ou do Lupin? Quero ler suas teorias.

Kely Lopes: Seja muito bem vinda. Fico muito contente que esteja gostando das fics!

Mary Snape: Muitas coisas, sabemos o que a Hermione é capaz quando está determinada.

Sandra Longbottom: Muitas coisas aconteceram nesse capítulo e a viagem promete. Vai montando sua listinha de suspeitos, quero ler suas teorias.

Sincepotter: Fico contente que esteja gostando, aproveite o capítulo.

Lembre-se, comentar nunca é demais!

Bjs e uma boa leitura!


O administrador do moinho em Skipton saudou os nobres visitantes com efusão. Chamava-se Argus Filch e não parecia gostar de andar na moda, com os cabelos compridos e desalinhados e roupas aparentemente velhas. Trazia uma vara de madeira na mão, que usava para indicar os lugares de interesse.

Severus escrevera-lhe com antecipação, marcando a visita, mas não lhe falara sobre seu propósito principal. Imaginava se o administrador os receberia com tanto entusiasmo se soubesse dos verdadeiros objetivos de Hermione.

A área de trabalho do moinho era grande e bem iluminada, o que surpreendeu o conde de Caldbeck, que a imaginara sombria. Entretanto os rostos dos homens e mulheres que manejavam as diversas máquinas denotavam cansaço e envelhecimento precoce. De vez em quando uma tosse seca fazia-se ouvir acima do barulho normal. Snape viu algumas crianças, mas não eram muito pequenas.

Com certeza apreciando o fato de ter uma plateia e desempenhar um papel importante naquele momento, Argus conduziu as visitas de instalação em instalação e de andar em andar, explicando os mistérios da tecelagem.

Fascinado pelo trabalho complicado, Severus ouviu com atenção as explicações de como as fibras de lã eram alongadas e torcidas para serem fiadas.

Um som inesperado vindo do outro canto do salão o distraiu, e então percebeu que a castanha não estava ao seu lado. Virou o rosto para onde partira o grito e viu-a se aproximar, puxando pela mão um menino pequeno. A julgar pela expressão no rosto da esposa, a visita iria se tornar mais interessante, refletiu com seus botões.

Entretanto o garoto não parecia compartilhar tal entusiasmo e tentava se desvencilhar de Hermione, que tinha a saia suja de poeira e fiapos de lã. A altura da criança deixou Severus espantado. Parecia não ter mais de quatro anos, mas o conde recusava-se a pensar que admitissem crianças dessa idade para trabalhar.

Os joelhos ossudos do menino surgiam da calça curta, e ele parecia fraco e desnutrido. Ostentava apenas alguns fios de cabelos louros na cabeça quase calva e cheia de feridas, e quando a castanha se aproximou o suficiente, Snape viu que as pequenas mãos da criança estavam cheias de cortes e arranhões.

— Sr. Filch — murmurou Hermione com voz contida e olhar feroz — poderia, por favor, me explicar por que uma criança tão pequena fica se arrastando debaixo dessas máquinas perigosas? Não deve ter mais de quatro anos de idade!

A expressão do administrador, até o momento cordial, tornou-se sombria.

— Não, lady Caldbeck. Ele tem mais de seis anos, porém já está aqui há um ano. Sua função é entrar debaixo dos equipamentos e limpar os fios que travam os movimentos.

A castanha fitou o menino, que continuava se debatendo.

— É verdade? Você tem seis anos? — o pequeno acenou que sim e limpou o nariz com a manga da camisa imunda — Como se chama?

Não houve resposta, e então, como um raio, a varinha na mão de Filch desceu sobre os frágeis ombros infantis.

— Responda à dama! Quer levar outra surra?

O pequeno rangeu os dentes de dor e se encostou na castanha, mas não respondeu. A varinha voltou a se erguer na mão do administrador, e a condessa se interpôs entre a criança, a fim de receber o golpe. Com gesto rápido, Filch baixou o instrumento, talvez porque viu no olhar do conde de Caldbeck um brilho ameaçador.

Naquele instante, Hermione afrouxou o aperto nos dedos do menino, que se agachou no solo e rastejou sob um dos teares. Mas também a condessa era rápida e saiu em seu encalço, ajoelhando-se. Conseguiu agarrar um minúsculo pé, antes que desaparecesse. Arrastou o pequeno para fora de seu esconderijo, enquanto a pluma do elegante chapéu que usava desabava sobre seu rosto de maneira cômica.

Porém a presa lutava com todas as forças para se desvencilhar de novo, e Severus foi premiado com a visão do traseiro da esposa, emergindo de sob o tear e balançando as saias de um lado para outro, na luta para não deixar escapar seu alvo.

Muitos rostos presenciavam a cena, e o conde pigarreou. Os trabalhadores correram a reassumir suas funções, e mesmo Filch se afastou, a fim de não constranger a castanha.

Por fim ela se levantou, arrastando consigo a criança fujona.

— Muito bem, chega de malcriação! Como é seu nome? — Filch deu de ombros.

— Não vai responder. O teimoso não fala há seis meses. Chama-se Willy.

Severus fitou o administrador do moinho com enorme frieza.

— O que houve com os cabelos dele?

O homem voltou a balançar os ombros com pouco caso.

— Tentamos curar as feridas e pusemos piche quente em cima, mas quando retiramos o emplastro, os cabelos vieram junto.

A condessa mal conseguia falar, presa de indignação.

— O que?! Arrancaram os fios pela raiz? — o olhar hostil de Filch a observou.

— Lady Caldbeck, piche quente é um excelente remédio para feridas.

— Talvez, mas não sempre. E onde, afinal, o menino adquiriu as feridas? Parecem cortes feitos pela sua vara, Sr. Filch

— Morreram, milady. Willy teve sorte de conseguir alimento e um lugar para dormir.

— E isso? — perguntou o moreno, apontando para as mãos machucadas da criança.

— São ferimentos provocados pelos teares. Ossos do ofício — assim dizendo, Filch tentou afastar Willy de Hermione.

— Se me dá licença, minha senhora, é hora do menino voltar ao trabalho. Já vadiou o suficiente.

— Claro que não! — redarguiu a castanha, furiosa — Willy vai conosco.

Parecia que toda a gentileza deixara Filch. Agarrou o braço do menino com mais força.

— Milady, fui muito paciente até agora. Preciso dele no trabalho. Muitos desses pirralhos indigentes tentam escapar, e só nesta semana dois deles fugiram das minas de chumbo de Grassington. Então, se me dá licença...

A condessa de Caldbeck postou-se na frente da criança.

— De jeito nenhum! Não permitirei que Willy fique aqui.

Enquanto isso, Severus observava a cena com seus modos displicentes e calmos, imaginando por quanto tempo o chapéu de Hermione permaneceria em sua cabeça, já que a pena ameaçava desabar, e se Wiíly não iria ser partido no meio, com ela e o administrador puxando de cada lado. Por fim, decidiu que era hora de agir.

Aproximou-se e pousou de leve sua bengala nos dedos de Filch, fitando-o com seus frios olhos de aço. O homem pareceu ficar paralisado e, no silêncio pesado que se seguiu, deixou cair a mão e deu um passo atrás.

— Muito bem, milorde, será como lady Caldbeck deseja. Tenho certeza de que encontrarei outro garoto menos problemático para trabalhar aqui. Boa tarde.

Assim dizendo, lançou um último olhar furioso para o casal e lhe deu as costas.

— Bem, está resolvido — disse a castanha com um suspiro — Obrigada, Severus. Como é que faz isso? Precisa me ensinar a me impor sem dizer uma só palavra.

Sorriu, ajeitou a pena quebrada no chapéu e espanou a poeira da saia. Uma voz soou as suas costas.

— Senhora...

A condessa voltou-se e entregou Willy para o marido.

— Não o deixe fugir de novo, milorde — a voz repetiu.

— Senhora...

Era uma mulher quem falara, e a condessa aproximou-se.

— Sim?

A operária fez um gesto discreto.

— Por favor, não permita que o administrador me veja conversando.

A castanha entendeu e fingiu se interessar pelo trabalho da mulher, murmurando:

— O que deseja?

— Há uma outra criança que precisa da sua ajuda. Chama-se Laurie e trabalha naquela sala. — a mulher fez um gesto imperceptível de cabeça na direção do lugar — Está aqui há muitos anos e é tão fraca que em breve não conseguirá mais andar.

— Que horror! — sussurrou Hermione, sempre fingindo observar o trabalho — Obrigada. Se também precisar de mim, não hesite em me procurar em Wulfdale, ao norte de Grassington.

— Farei isso, milady.

A castanha rumou para a outra sala à procura de Laurie.

*.*.*.*.*

No quarto da taverna em Skipton, Severus observou a esposa.

— O que acha que Filch dirá quando descobrir que levamos não apenas Willy, mas Laurie também?

— Pouco me importo! Meu coração dói quando vejo as pobres pernas da menina. Ela parece ter dez anos de idade, em vez de quinze, e em breve Filch a poria para fora do moinho.

— Então, talvez não ponha a Justiça em nosso encalço.

— Bem, se isso acontecer, valeu a pena.

A condessa sentou-se na beira da cama, e o moreno acariciou-lhe a coxa sedosa.

— Não sabia que havia me casado com uma fora-da-lei — a esposa sorriu com malícia.

— Ora! Não sou assim tão má.

— Sim, valeu a pena exibir seu traseiro debaixo do tear, para todos verem.

Hermione soltou uma gargalhada.

— Verdade? Nem percebi! Por favor, não me diga que a saia se ergueu! Deus! Acho que fiz papel de tola outra vez.

— Uma de suas qualidades mais encantadoras. Faz isso com muita graça — Snape pareceu recordar a cena e falou mais para si mesmo — Seu traseiro erguido, o chapéu desabando sobre a orelha, as anáguas aparecendo...

De repente, começou a rir. Havia muito esquecera a sensação gostosa provocada por uma gargalhada. Rira na infância quando a mãe lhe fazia cócegas, a irmã, caretas, e o pai brincava de cavalinho com ele nos joelhos. Todo aquele prazer inocente voltou-lhe, e ele fitou a esposa.

Tomou-a os braços e, ainda às gargalhadas, deitou-se sobre ela na cama e começou a beijá-la na boca, ombros e pescoço, em uma alegria incontrolável.

— Ah, Mione! Espero que tenha valido a pena.

*.*.*.*.*

De modo prudente, resolveram partir de Skipton logo cedo pela manhã, e Willy e Laurie foram postos sob a guarda de Winky e Dobby. A aia ficou muito contente com o papel de ama, mas o valete de Snape torceu o nariz.

Dirigiam-se para casa, quando a carruagem estacou, e o conde pôs a cabeça para fora.

— Por que nos detivemos, Jem?

— O coche da criadagem parou na beira da estrada, milorde.

Logo Dobby apeou, a postura digna abalada pela expressão aborrecida, e correu a avisar Caldbeck.

— É o pequeno, milorde. Não se sente bem.

— Enjoo, sem dúvida. Não está acostumado a viajar em veículos fechados. Já vomitou?

— Ainda não, milorde, mas acho que logo isso vai acontecer.

— Um pouco de ar fresco fará com que se recupere logo. Aliás, a parada foi boa para que todos estiquem as pernas — semicerrou os olhos e fitou o criado — É o que conversamos na semana passada, Dobby. A oportunidade que esperava para fazer um pouco de exercício.

O valete permitiu-se um leve sorriso.

— Está certo, milorde.

Severus desceu da carruagem e ajudou Hermione a apear, explicando a situação.

— Pobrezinho! Winky disse que ele devorou um enorme desjejum. Tenho certeza de que aquele homem horroroso, Filch, o matava de fome, mas talvez o pobrezinho tenha comido demais.

Caldbeck segurou-lhe o braço.

— Estou certo de que Winky está controlando a situação. Que tal se formos examinar aquele outeiro? — sugeriu, apontando para o local.

— Claro! Também preciso de ar fresco. A comida da taverna não era das melhores.

Partiram na direção do outeiro, de braços dados, e viram-se no meio de um círculo de pedras.

— Veja só isso! — exclamou a castanha — É um círculo feito de pedras.

— Sim, ouvi dizer que existiam aqui em Grassington, mas não sabia onde.

— Gostaria de saber para que eram usados. Existe algo de mágico nessas construções.

Ela sentou-se em uma das pedras arredondadas, com a mão no queixo.

— E muito mais receptiva para os ambientes do que eu, porém também consigo sentir que existe algo diferente em lugares como este — comentou Severus. Naquele instante, viu um movimento ali perto — Não olhe agora, mas parece que estamos sendo observados.

Hermione mexeu-se de leve é murmurou:

— Sim, também vi. Parece uma cabeça.

— É isso mesmo — replicou o moreno, aprumando-se e fingindo alisar o paletó com gesto casual.

Então, sem aviso, atirou-se sobre a pedra onde surgira o movimento e puxou. Uma figura minúscula surgiu de repente, e logo fugiu. Severus olhou ao redor, calculando para onde teria ido. De repente, ouviu sussurros e sons roucos e abafados, que pareciam brotar de seus pés.

Afastou uma pedra com a ponta da bota, e uma fenda surgiu no solo.

— Vamos, Timmy. Corra! Ele pode vê-lo! — uma voz murmurou de novo.

Severus aproximou o rosto da fenda escura, e os rumores tornaram-se mais fortes. Pôde ver a barra esfiapada de uma , calça. Estendeu a mão, e a calça emergiu, acompanhada por um corpo que se debatia e gritava com pavor.

Era uma criança, e o conde a depositou no solo, tomando cuidado para não largá-la.

— Solte-me! Não tem o direito...

Uma outra criança apareceu na abertura escura, e Hermione surgiu ao lado.

— Não vamos machucar vocês.

Dobby veio correndo, atraído pelos gritos, e a criança começou a se aquietar.

— Bem — sorriu a condessa. — Parece que encontramos os fugitivos da mina de Grassington.

Snape aquiesceu e voltou-se para o menino mais velho.

— O que tem a dizer, rapazinho?

O garoto parecia ter dez anos, magro, pálido e vestido de farrapos. Mas ergueu o queixo em desafio.

— Não fizemos nada de mal. Deixe-nos ir — com voz mais branda, dirigiu-se para o outro menino.

— Pare de chorar, Timmy.

O conde mirou a criança que mantinha presa pelo braço.

— Foram vocês que fugiram da mina de chumbo? Como se chamam?

— Sim. Eu sou Thom e ele é Timmy — respondeu o mais velho.

— É seu irmão?

— Sim.

— Mas é tão pequeno! — exclamou a castanha — O que podia fazer em uma mina?

— É um armador.

Ante o olhar perplexo de Hermione, Thom explicou com desdém:

— Ele abre os respiradouros para que entremos. Tem só cinco anos. Eu sou mais forte e faço carregamentos.

Severus voltou-se para a castanha e explicou:

— Ele puxa as carretas cheias. Quantos anos tem, Thom?

O menino pareceu hesitar.

— Acho que... dez.

Marido e mulher trocaram um olhar de entendimento, e Hermione disse:

— É claro que vamos levá-los também.

— De volta para a mina? — gritou Thom, desesperado.

— Não. Para Wulfdale, onde mantemos um lar para crianças como vocês. Aprenderão ofícios melhores. Seus pais ainda vivem?

Thom balançou a cabeça em negativa, com olhar desconfiado, e a castanha apressou-se a dizer:

— Temos uma ótima cozinheira no orfanato e servimos quatro refeições por dia.

— Verdade? — perguntou Timmy.

— Sim.

— Está bem. Ficaremos lá por um tempo — concordou Thom, mantendo o queixo erguido, sem dar o braço a torcer.

*.*.*.*.*

Hermione percebia que cada vez mais dependia de Severus. Voltava-se para seus braços protetores em busca de conforto, e sempre com renovada alegria.

Parecia que a esperança de um casamento por amor ia se tornando mais provável, porém primeiro precisava descobrir uma coisa: o marido possuía ou não uma amante da época de solteiro?

Não tinha muitos motivos para suspeitar disso, pois o conde a procurava quase todas as noites para fazer amor, porém vez ou outra desaparecia "a negócios" e, quando regressava, nunca lhe contava exatamente o que fizera, alegando que eram assuntos desinteressantes.

Seriam mesmo?

Assim que regressara de Skipton, ela tivera uma conversa muito proveitosa com a cunhada, Helen, em Wulfdale. Tomavam chá na ocasião e a castanha dava tratos à bola sobre como abordar o assunto, quando Helen de súbito perguntara:

— E como Severus está se comportando?

Hermione engasgou, tomada de surpresa, e a cunhada bateu-lhe nas costas, explicando.

— Continua querendo mandar em sua vida o tempo todo?

— Oh! Isso! — a castanha enxugou a boca no pequeno guardanapo rendado — Diria que melhorou um pouco. Falei-lhe com franqueza de como me sentia a esse respeito, e Severus me garantiu que não pretende me controlar. Acredito.

— Acho que você é a mulher certa para meu irmão.

— Espero que sim — a castanha torceu a ponta do guardanapo e olhou pela janela — Mas há uma coisa... que desejava lhe perguntar, Helen, e não sei como.

— Apenas pergunte.

— É um assunto delicado — suspirou fundo e prosseguiu: — Jamais ouvi comentários em Londres sobre Severus possuir uma amante.

Helen fez um gesto de compreensão.

— Certo. E desejava saber se mantém uma em Yorkshire — a condessa fitou a cunhada de frente.

— Isso mesmo.

Helen inclinou-se e tocou-lhe a mão.

— Então devo-lhe dizer que está se preocupando por nada. Com certeza Severus teve suas aventuras, mas há anos não mantém nenhuma ligação.

— Anos?

A cunhada fitou as labaredas na lareira, escolhendo as palavras certas.

— Sim. Quando era muito jovem, teve uma triste experiência amorosa. Acreditou que estava muito apaixonado, e depois compreendeu que a moça não retribuía seus sentimentos e só estava interessada em seu dinheiro.

Hermione sentiu um nó na garganta, e Helen prosseguiu.

— Foi isso que ela lhe disse, quando meu irmão a encontrou com outro homem. Tiveram um duelo, mas...

— Duelo! E Severus...

— O adversário estava muito nervoso e falhou. Severus poderia tê-lo matado, mas desviou o tiro. Já sabia que a mulher em questão não merecia tanto sacrifício, entretanto a experiência o marcou muito.

— Sem dúvida. Meu marido oculta muito bem , mas é muito sensível.

Helen passou-lhe um prato com bolinhos, porém ela recusou.

— Não, obrigada. Meu estômago não está muito bem hoje.

— Está pálida. O que mais sente?

— Ando cansada e não entendo a razão, porque sou sempre muito ativa. Talvez seja a mudança do clima.

— Talvez — repetiu Helen com displicência — ou, quem sabe, esteja grávida.

— O quê?!

Hermione quase deixou a xícara cair, e a morena a segurou em tempo.

— É apenas uma possibilidade, Mione.

— Sim, mas não pode ser!

A cunhada estranhou seu desespero.

— Qual o problema se for verdade?

— Nenhum, porém tenho certeza de que não estou esperando um filho.

Não conseguia explicar para si mesma o motivo de tanta apreensão, quanto mais para Helen, porém, de fato, a vida sexual com Severus era intensa, e suas menstruações estavam irregulares. Suspirara fundo. Sim, pensara, estava grávida.

.

Mais tarde, já sozinha, sentira muito enjoo. Uma criança! O que tanto temia e ansiava ao mesmo tempo iria acontecer. Pensara que aceitaria a possibilidade de se tornar mãe quando se casara, mas no momento sentia um grande medo.

E se morresse no parto? E se o marido não se interessasse pelo filho, deixando a criança com pessoas estranhas que não lhe dessem amor? A lembrança de sua própria infância infeliz a fez soluçar. Pensou nas milhares de crianças órfãs que gostaria de ajudar e sentiu o coração em frangalhos. Enxugou as lágrimas e tratou de manter a calma.

Um bebê! Começou a sorrir ao pensar em quanto iria amá-lo, Murmurou com fervor:

— Por favor, meu Deus, permita que possa educá-lo e ficar ao seu lado por muito tempo! Dê-me forças, Senhor!

*.*.*.*.*

Com frio e cansado, Snape conduziu o cavalo até a estrebaria de Wulfdale muito depois da hora do jantar, e começou a tirar os arreios do animal, mas logo Carlinhos surgiu para fazer o trabalho.

O conde sorriu, percebendo como toda a criadagem se escandalizava ao vê-lo executar tarefas "indignas" de um nobre.

Entrou em casa e foi saudado pelo Sr. Weasley.

— Boa noite, milorde.

— Boa noite. Lady Caldbeck já foi dormir?

— Não tenho certeza, senhor. Ela pediu uma ceia leve em seus aposentos, e a sua criada, Winky, informou que não se sentia muito bem.

O moreno voltou-se para o mordomo com expressão alarmada.

— Lady Caldbeck está doente?

— Winky disse que se trata de uma simples indisposição, milorde.

Porém o conde já subia as escadas de dois em dos degraus, lembrando-se de que nos últimos tempos Hermione estava sempre cansada e muito pálida. Mas não devia ser nada de grave, não podia ser.

Poderia ter passado a noite em uma pousada à beira da estrada, mas enfrentara o cansaço e o frio só para ficar ao lado da esposa. Animara-se ao imaginá-la sorrindo, enlaçando seu pescoço à chegada, e isso lhe dera forças e ânimo para prosseguir viagem, enchendo-o de desejo e paixão.

Quando persuadira a castanha a desposá-lo, pensara apenas em sua beleza e vivacidade, porém aos poucos uma maravilhosa sensação de aconchego e calor tomara conta de Wulfdale, e Severus percebera como era importante uma boa mulher em sua vida.

O conde nem mesmo entrou nos próprios aposentos, dirigindo-se logo para o quarto de Hermione.

Ela estava sentada na poltrona junto à lareira, segurando o queixo com a mão e fitando as chamas com ar pensativo. O brilho do fogo lançava cintilações na cabeleira castanha e destacava o perfil delicado. Snape estacou, apreciando a visão. Como era linda, pensou.

Ela se voltou para fitá-lo, mas não se levantou. Desapontado, o conde deu alguns passos e ajoelhou-se diante da poltrona, tomando as mãos da esposa.

— Arthur me disse que não se sente bem. Devo chamar o Dr. Slughorn?

— Não estou doente, só...

Hermione interrompeu-se e voltou a fitar as labaredas na lareira.

— Mione, o que há? Conte.

Mas ela apenas balançou a cabeça sem nada dizer, enquanto um lágrima escorria em sua face. Isso pareceu acalmar o moreno, que refletiu que devia estar apenas triste, não doente.

— O que a aborreceu, Mione? Diga.

Mas ela apenas continuou a chorar em silêncio, e o conde viu-se possuído do mesmo receio de todos os maridos zelosos, desde o tempo de Adão e Eva.

— Mione, está zangada comigo? Fiz alguma coisa que a magoou?

Ela soluçou mais forte. Seria um sim ou um não?

— Pare com isso, Mione. Conte o que houve.

A esposa o fitou com os olhos embaçados pelas lágrimas e disse com a voz entrecortada:

— Vou... ter um bebê... — ele caiu sentado no chão.

— Vai... Então, por que está chorando?

Em resposta, a castanha escondeu o rosto entre as mãos e prorrompeu em um choro histérico. Sim, pensou Snape, ela não desejava ter um filho. Sua bela e adorável esposa rejeitava a criança que ele gerara.

.

Hermione permanecera sentada em seu quarto a noite toda, à espera dele, mas quando ele chegara, não conseguira externar seus sentimentos. Enquanto soluçava, após anunciar a gravidez, percebeu que o marido já não estava ajoelhado ao seu lado, e a fitava, de pé, o rosto uma máscara de dor.

— Severus, está magoado? Não foi minha intenção!

— Você repudia meu filho.

— Não é isso!

— Sabia que não desejava se casar comigo, mas pensei que... talvez...

— Oh, não! — a castanha agarrou-lhe as mãos — Não pense assim! — levantou-se de um salto e enlaçou-lhe a cintura — Por favor, não me entenda mal.

Aos poucos Caldbeck foi percebendo que havia algo a ser explicado, e esperou, enquanto a esposa tentava se acalmar e prosseguia.

— Estou feliz por esperar um filho seu. O problema não é esse.

— Não compreendo, Mione.

— Estou com medo!

A terrível dor que o invadira começou a se dissipar, e ele sentiu um grande alívio.

— Percebo. Vamos começar de novo, do ponto em que entrei aqui.

Acomodou-se no sofá e, como sempre, a fez sentar em seu colo. Hermione apoiou a cabeça em seu ombro e suspirou meio tremula.

— Tem medo do parto? Da dor? — quis saber o marido.

— Não muito.

— Então, o que é?

— Receio morrer e que você não deseje enfrentar a paternidade e entregue a criança para estranhos.

As palavras jorraram como uma torrente, e ela calou-se de súbito, como se não quisesse falar demais. Mas Snape era compreensivo.

— Entendi. Teme reviver em seu filho seu próprio sofrimento quando criança.

— É isso mesmo. Não quero que o meu bebê seja infeliz. Por isso nunca pensei em me casar. Desejava e receava, ao mesmo tempo, a maternidade. Depois nos casamos, e eu me entreguei a você sem reservas — as palavras continuavam a sair de seus lábios, sem controle, de maneira apressada. — Adoraria ter um filho seu. É o meu sonho mais secreto e querido.

— E vai tê-lo — replicou Severus, a alegria renovada pela constatação de que Hermione ansiava pela criança que haviam gerado — Terá nosso filho, e ambos o educaremos e amaremos de todo o coração, tomando conta dele e de nós mesmos, para que nada de mau aconteça à família.

A castanha tentou sorrir, em vão.

— Mas... se algo acontecer...

O conde a estreitou nos braços.

— Mione, ninguém pode prever o futuro. Gostaria de prometer que nada de mau acontecerá, mas não posso. Só precisamos ter fé em Deus.

Ela observou as próprias mãos por um instante e murmurou:

— Não tenho certeza se Deus se importa. Veja a quantidade de crianças sem pais que existem espalhadas pelo mundo.

— Ele nos entregou este mesmo mundo, e muitas coisas somos nós mesmos que fazemos — fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado — Veja você, por exemplo. A perda da sua fortuna lhe pareceu um desastre, mas acabou se casando comigo, e agora vamos ter um filho.

— Também estou feliz por ter você — sussurrou ela.

Abraçaram-se de modo impulsivo, comungando em um silêncio cheio de paz. Nada mais havia para ser dito. Por fim, quando um graveto estalou na lareira, o moreno voltou ao momento presente.

— Podemos tomar algumas providências, Mione. Se tivermos um menino, deixarei sacramentado que será o herdeiro de Wulfdale e de tudo que possuo.

— E se for uma menina?

— A fortuna será administrada por pessoas responsáveis e honestas, até sua maioridade.

— Isso é ótimo, mas... Quem dará amor à nossa criança?

— Nós mesmos, é claro. Se eu faltar, você estará aqui, e vice-versa — colocou um dedo sobre os lábios da esposa — Pare de se preocupar com coisas que não pode prever. Só precisamos providenciar alguém que ame nossos filhos, no caso de nós dois desaparecermos.

Hermione pareceu pensar.

— Minha amiga Ginny é a melhor pessoa que conheço. Talvez ela e Harry...

— É uma possibilidade, e Helen é outra.

— Oh, sim! Helen é da família. Quem mais?

— Pensaremos a respeito — Severus levantou-se, carregando a castanha nos braços — Vá para a cama. Pretendo tomar conta de você de agora em diante, e vou me tornar um tirano.

Hermione riu.

— Justamente quando prometeu não me dar ordens — o conde deu-lhe um beijo rápido.

— Preciso tomar cuidado com o que prometo — ela passou um dedo pelos lábios do marido.

— Está sorrindo de novo.

— Verdade? Talvez se torne um hábito — depositou-a sobre a cama e começou a despir-lhe o roupão — Nos últimos tempos tenho tido muitos motivos para sorrir.

— E para dar risadas?

— Isso também.

Assim dizendo, ele retirou as próprias roupas e deitou-se ao lado da esposa. Desatou o laço que prendia os cabelos dela, deixado-os se espalhar pelos travesseiros.

Segurou um caracol entre os dedos.

— Espero que nossas filhas tenham cabelos como os seus — enterrou o rosto nos fios sedosos. — São da cor do conhaque. E que possuam sua tez também.

Beijou o pescoço macio, deslizando os lábios por seu rosto e sentindo o desejo invadi-lo.

Beijou-lhe os seios, e Hermione arqueou os quadris.

— Não, Mione. Não é bom cansá-la. Só desejo... admirá-la — ela relaxou, enquanto o marido puxava as cobertas para baixo e acariciava-lhe o ventre e a beijava. Mas logo se deteve, sabendo que se continuasse com aquilo, as boas intenções iriam por água abaixo, e eles fariam amor de modo apaixonado.

— Severus, não estou tão cansada assim — murmurou com ar de provocação.

Ele a fitou nos olhos, viu a paixão que lá havia e deixou-se levar pelo desejo, cobrindo-lhe o corpo com o seu. Amou-a com ternura, gemendo de prazer e fazendo-a suspirar também. Por fim, permaneceram abraçados até o sono chegar.

*.*

Viu as luzes se apagarem uma a uma. A lua desaparecera, e estrelas brilhavam no firmamento da noite fria, como olhos vigilantes. O vento brandia nos montes, nas árvores e em seus ouvidos.

O ar gelado penetrava em seus ossos, mas não parecia incomodá-lo. O que importava um pouco de frio? A escuridão o protegia, e no escuro ninguém zombava dele nem o censurava. Ninguém reconhecia o mal.

Mas ele, sim. A maldade o consumia, dia a dia, ano a ano, e por fim descobrira seu poder. Era hora de atacar na surdina, destruindo a imperfeição. Atacar, atacar sem piedade! Um rugido escapou de sua garganta. Ela dormia atrás das janelas escuras, aconchegada e protegida. Porém ele estava pronto para iniciar seu trabalho e plantar a semente do medo. E depois... Voltou a grunhir como um animal, contendo o desejo de uivar como um cão, despertando todos que dormiam por ali.

Precisava aguardar mais um pouco. O medo necessitava de tempo para se instalar, e até lá tinha muito a fazer. Sim, muito trabalho.