Dor.
Muita dor; frio, gelo.
Nevoeiro?
Tinha o olhar desfocado; a dor era alucinante. Estava dormente, sentia os membros perderem a sensibilidade - se ainda tinha dedos era impossível saber.
Merda.
Foda-se!
Lembrava-se daquele rosto falso, do cabelo flamejante com palavras amargas.
Não podia desistir facilmente, tinha de ir ter com ela, tinha de lhe mostrar o que ele lhe fizera, não seriam umas feridas insignificantes que o iriam...
Moveu-se… dor... muita dor.
"Por Salazar..." murmurou zonzo.
Devia estar pior do que pensava. Moveu o braço esquerdo, olhou para a mão e notou que estava cheia de sangue.
Tinha de ser forte.
Puxou o corpo para se tentar levantar.
Gemeu de dor. A dor de cabeça era gritante; ergueu-se. Tinha a consciência fosca, sentia-se prestes a apagar. Estava de joelhos, mas só o sabia porque via; o frio era intenso, tremia por tudo o que era sítio...
Meteu a mão em cima da ferida e ficou admirado ao ver que sangrava muito.
Não soube como chegou à porta dela.
Bateu.
Nada.
Bateu de novo. Tinha a visão demasiado turva e deixou-se cair, ficando de joelhos, estava cada vez mais tonto e a dor cada vez pior. Olhou para trás, ninguém na rua, o rastro de sangue que tinha deixado atrás de si reluzia na neve.
Tentou sentar-se mas escorregou, batendo com o maxilar no degrau. Sentiu o gosto de sangue na boca.
Merda.
Era o que lhe faltava.
Levantou os olhos para a porta. Já estava tudo desfocado, tinha pontos negros na visão. Levantou a mão esquerda mas não chegou a bater.
Desmaiou antes disso.
**
"Desculpa... acho que ando meio sem cabeça..." disse Cormac fitando um ponto demasiado acima da cabeça de Harry.
"Isso é inadmissível, McLaggen! Se não estás bem, falas comigo e dou-te uns dias de folga... ou férias... mas patos?.. Num relatório de Azkaban... " disse Harry desolado apontando para a folha de relatório. Cormac fez um ar envergonhado, baixando o rosto.
"Desculpa, chefe... não volta a acontecer."
"Acho bem que não... para a próxima não posso tolerar tal coisa, Cormac..." disse, severo.
Para sua admiração, Cormac simplesmente anuiu de rosto baixo.
"Dispensado." Murmurou Harry surpreendido com aquela submissão repentina dele, mas também para alguém que fez desenhos infantis num relatório de alta importância, era a melhor alternativa.
"Sim, chefe" dito isso levantou-se para sair, mas bateu ruidosamente na porta.
"Cormac!" exclamou Harry preocupado.
"Estou bem... estou bem..." exclamou o auror zonzo, e saiu.
Harry suspirou. Abanou a cabeça, aquele rapaz não estava bem. Levantou-se e saiu de sua sala, o grupo de aurores andava animado já que tinham apanhado o último Devorador da Morte.
Montaram guarda à porta do quarto de Malfoy, deviam estar com medo que ele fugisse... o rapaz tinha sido fatiado e estava inconsciente!
Enfim a noite de vigia iria ser por sua conta, ainda contava ir a Hogsmead. Mas antes de tudo, tinha algo a rever.
Desceu ao departamento dos mistérios, a antiga sala das profecias, que ele e um grupo de pessoas fantásticas tinham destruído.
Hoje continha um artefacto fantástico. O ministro tinha-lhe dado autorização para usar aquela sala, já que era um dos poucos que não se perdia no rodar das salas. Ao entrar na que pretendia, avistou ao fundo aquela aura de luz azul.
O Pensatório de Dumbledore dava imenso jeito.
Havia uns tempos que tinha na cabeça algo que Ron Weasley lhe tinha dito, que Malfoy tinha matado Arthur Weasley. Harry queria rever o que se lembrava disso. Ron tinha-o feito ficar com dúvidas do que se lembrava... abriu o pequeno frasco de vidro e debruçou-se sobre o Pensatório:
O ar estava irrespirável... Para o mundo dos feiticeiros tinha morrido e estivera exposto aos pés de lord Voldemort, até o corajoso Neville Longbottom ter decapitado a maldita serpente. Viu-se mover na confusão e meter-se debaixo do manto da invisibilidade, quando a voz desesperada de Hagrid se fazia ouvir:
"HARRY! HARRY! ONDE ESTA O HARRY?"
O caos estava instalado, Harry esperou na rua, onde as pessoas corriam como loucas, era horrível ter de reviver aqueles malditos momentos onde perdera tanta gente que gostava. Entrou finalmente no castelo, sabia que a Mrs Weasley iria dar a lição na malvada Bellatrix dentro de momentos, algo que recordava com prazer. Era nessa altura que tinha de estar presente...
"O que acontecerá aos teus filhos quando eu te matar?" disse maliciosa a voz de Bellatrix, Harry olhou para o outro lado do salão, viu a figura de Draco escondido atrás de um pilar, com o rosto coberto de medo, quando Arthur Weasley passou por ele. Tinha o braço direito partido de certeza, pois estava num ângulo estranho. Olhava aterrorizado ao ver a esposa fazer frente a Bellatrix. Harry viu Draco puxar uma manga de Arthur. Viu o rapaz falar com ele, parecia gritar, e suplicar, mas não havia som, a memória de Harry não se tinha fixado naquele momento, sentiu-se frustrado, Draco continuava a falar, Arthur encolheu os ombros parecendo desorientado. Na altura em que Voldemort se apercebe da morte da sua fiel Bellatrix, soltando um grito de raiva, um devorador da morte aproximou-se de Arthur e Draco., Harry só ouviu "...Ordem da Fénix..." ser proferida, no momento em que Arthur se meteu a frente de Draco com a varinha estendida na mão esquerda, numa clara intenção de o proteger. Para um destro, a mão esquerda não funciona tão bem. O Devorador da Morte foi mais rápido. Arthur caiu sobre Draco, que o susteve com um ar indecifrável no rosto. Nesta altura o devorador da morte tinha desviado a sua atenção, Harry Potter tinha-se finalmente mostrado a Lord Voldemort...
Voltou à realidade, ao presente. Sentiu-se com dúvidas, não sabia interpretar o que tinha visto, não sabia qual fora a intenção do Malfoy ao parar Arthur... só sabia que Arthur o tinha protegido.
Merda! Ficara na mesma.
Tinha de esperar Malfoy acordar, era a única maneira... nem que tivesse de lhe dar veritasserum.
Depois de virem de Hogsmeade…
"Juro-te Harry! Passei-me! Eles não me contaram do roubo e quando lá fui ficaram a olhar para mim com ar perdido como se não entendessem a minha língua!" exclamou Ginny Weasley irritada descascando batatas com a varinha a uma velocidade considerável, Harry tentava manter-se sério diante da frustração da esposa, desviou os olhos para Hermione que olhava para longe pela janela escura. Sabia que ela ansiava por notícias de Malfoy.
"Eles não fazem ideia de como o dinheiro desapareceu..." disse Harry voltando o olhar para Ginny "mas dizem que no tempo que estiveram na loja não viram o Malfoy por perto..." continuou Harry " há qualquer coisa que não encaixa... eles nem sabem quem fez a denúncia... só eles é que sabiam..."
"Pois, só mesmo eles!" exclamou Ginny de mau humor descarregando a fúria numa cebola, Harry teve pena do pobre vegetal.
"Levas-me no teu turno, hoje?" murmurou Hermione. Harry hesitou, já que não sabia o que lhe responder. Era arriscado.
"Hoje não..." ela deixou descair os ombros não acreditando nas palavras do amigo "não... ouve... " disse fitando-a muito sério "Temos de ter cuidado... deixa-me ver como está a situação... e logo se vê... se der, eu meto-te debaixo do manto da invisibilidade, ok? Prometo."
Hermione acenou positivamente.
"O Ron sabia do roubo...!" exclama Harry de repente "Foi ele que me contou..."
"Estás a pensar o quê?... Que foi o Ron que denunciou o Malfoy?" disse Hermione admirada.
"Não faz sentido?... Afinal... ele sabe que andas com o Malfoy... e está completamente transtornado..."
"Amanhã vamos almoçar a casa da minha mãe... ele deve lá estar..." disse Ginny.
Harry acenou com a cabeça, iria ser uma boa oportunidade para o abordar.
Meia-noite, S. Mungus…
Era horrível fazer turnos nocturnos, saber que enquanto vai trabalhar tem de deixar a esposa sozinha em casa na sua enorme e confortável cama de casal... sortuda!
Haviam dez minutos que estava sozinho na entrada do quarto de Malfoy. Harry espreitou pela porta, vendo um Draco inconsciente que respirava lentamente.
Será que iria acordar bem?
As feridas dele tinham mau aspecto, e estranhou ao ver que algumas das compressas ainda estavam ensanguentadas.
Abanou a cabeça triste.
Nunca gostara dele, mas não gostava de o ver acusado de algo que não fazia o seu tipo. Sendo assim, duvidava seriamente que ele tivesse assaltado uma loja; se lhe dissessem que ele tinha matado alguém, não se surpreenderia tanto.
Lançou-lhe mais um olhar.
Ia sair quando:
"Potter?" a voz baixinha interrompeu o silêncio do quarto, Harry quase tropeçou de susto. Voltou-se e olhou a cama.
Draco Malfoy estava acordado.
Pálido que nem um fantasma, mas acordado.
"Nem um piu, ó cabeça rachada!"
E pelo insulto concluiu que estava em perfeito juízo.
"Tu estás acordado!!" disse em surdina.
"Mestre a reconhecer o óbvio! O grande Harry Potter no seu melhor!" disse Malfoy escarninho.
"O que é que andas a armar? Ninguém me disse que já tinhas recuperado a consciência!"
"Daaah! Ninguém sabe..." disse Malfoy com ar óbvio.
"Que andas a armar?" perguntou de novo.
"Eeeeu?... Nada!!! Estou numa cama de hospital, ia ficando sem cabeça!!..." dramatizou Malfoy gemendo de dor em seguida.
"Estás bem?" disse preocupado.
"Estou..." disse em voz fraca "Houve alguém que já me tinha preparado para isto no meu sexto ano..."
Harry não sorriu. Claro que se lembrava da situação. Se não fosse Severus Snape, Draco ter-se-ia esvaído em sangue na casa de banho da Murta Queixosa.
"Ok... então porque é que estás a contar a mim agora?" perguntou.
"Hermione..." murmurou mordeu o lábio inferior, fitou Harry Potter "ela... disse-me para confiar em ti... várias vezes... mas eu... devido as nossas diferenças... e antigos..." hesitou.
Harry assentiu, compreendia o que ele queria dizer.
"E se me estiveres a mentir?"
"Não tenho razões para isso... não tenho nada a perder... e Azkaban não me parece um futuro muito acolhedor..."
"Ok... quem foi?" murmurou Harry duro, o olhar de Malfoy hesitou. Deu um meio sorriso.
"Se eu te disser será que acreditas?"
**
Toca:
Harry Potter estava com um ar estranho. Calado, aparentemente calmo, olhava a família Weasley, ou melhor, o que restava dela, almoçando no jardim das traseiras da casa.
Bill e a esposa tentavam alimentar a filha de três anos que teimava em fazer birra por não querer comer.
"Victoire!" exclamou a bela Fleur sem paciência.
George e Percy falavam de uma brincadeira nova que tinham em mente, Hermione olhava atenta para eles mas não ouvia nem uma palavra, e viu Ginny e a mãe levantarem-se da mesa.
"Ele está demasiado quieto..." disse Mrs Weasley para a filha referindo-se a Harry "Comeu pouco, esta magro..."
"Não se preocupe mãe... não é nada de mais... ele trabalhou a noite toda hoje... tem tido imenso trabalho...."
"Não é saudável, filha... qualquer dia acaba como teu pai... tolo!..."disse sorrindo carinhosamente "A trazer trabalho para casa... ainda por cima artefactos muggles!!"
Ginny odiava quando a mãe falava do pai como se ele ainda estivesse presente. Olhou para a mesa, sabia que havia algo que estava a importunar Harry. Tinha de falar com ele, mas não ali, com tantas paredes com ouvidos.
"Mãe, o Ron?"
" Não sei querida, ele disse que vinha... mas... pelos vistos...!"
Hermione estava farta de estar sentada. Levantou-se com a desculpa de ir à casa de banho.
Molhou o rosto, cansada, fitou-se no espelho velho, e viu que estava com mau aspecto. Não dormia há dias e sabia que deveria alimentar-se melhor. Suspirou, saiu da casa de banho e olhou para as escadas.
Bolas.
Aquela casa trazia-lhe tantas memórias boas à mente… deu por si subindo as escadas e parou em frente do quarto de Ron. A velha e enferrujada placa "Ronald" ainda lá estava. Passou os dedos por ela, e a porta abriu-se um pouco; olhou para o quarto com a estúpida decoração laranja, mas não esperava vê-lo sentado na beira da cama.
"Ron....!" exclamou. Ele levantou o rosto assustado, mas relaxou ao ver que era ela.
"Hermione..." murmurou "Porque não estas a almoçar com toda a gente lá em baixo?"
"Porque não estas tu também?" respondeu.
Ron sorriu, abanou a cabeça negativamente.
"Não consigo... não os consigo encarar..." fitou-a, ela hesitou e foi sentar-se junto dele na beira da cama.
"São a tua família Ron... precisam de ti..." disse pousando a mão direita em cima da dele.
Ron baixou os olhos para a mão dela.
"Eu sei... mas não é a mesma... eu não sou o mesmo..." suspirou "Não consigo ficar naquela mesa rindo e fingindo que está tudo bem..."
"Eu sei... é difícil... mas precisamos de continuar... já passaram muitos anos Ron..." disse melancólica, olhando os tristes olhos azuis à sua frente.
"Isso não apaga nada..." murmurou num fio de voz.
"Algumas coisas apaga..." disse Hermione sabiamente, passando a outra mão carinhosamente pelo cabelo ruivo do amigo.
"Como o teu amor por mim?" cortou ele. Ela tentou tirar a mão de cima da dele, que não deixou. Não insistiu. Resolveu ter paciência com ele.
"Adoro-te Ron, a sério, mas... não posso. Eu deixei de te amar quando me trocaste pela tua dor... fizeste tudo ao contrário..."
"Contrário?..."
"Podias ter tentado aliviar a dor com amor... e ter ficado, ter criado uma família comigo como eu queria na altura..."
"E porquê o Malfoy?" murmurou com um tom meio zangado meio magoado.
Tentou parecer calma, levantou o olhar e enfrentou-o. Puxou a sua mão.
"Isso é uma das coisas que não..." murmurou.
"Essa aliança de prata... foi ele que te deu?" interrompeu.
Ela corou. Tinha a aliança dele no dedo anelar direito; era o que lhe fazia sentir-se perto dele já que não o podia ver. Levantou-se da beira da cama, parando junto da janela.
"Não vás por ai..."
"O que viste nele? O que te fez olhar para ele de outra maneira? Como é que ele conseguiu?" disse com ódio em cada palavra. Levantou-se passando as mãos pelos cabelos ruivos, estava possesso.
"O Draco mudou muito..."
"Draco?... Draco?..." exclamou quase mastigando o nome dele "Vai ser até caíres em ti, Hermione! Ele não vale nada! É um Malfoy! É uma merda de um Devorador da Morte!! Só espero que não te apercebas da merda que estás a fazer tarde demais... ele é um cabrão de merda que roubou os meus irmãos!" aproximou-se dela agarrando-lhe o braço com força, tinha as orelhas vermelhas de raiva. Quando uma batida na porta lhes chamou a atenção. Harry entrou. Estava com um ar espantado.
"Ron!...O que...!"
Ron Weasley largou o braço de Hermione.
"A Hermione ausentou-se, a tua mãe disse para eu vir procurá-la... o que fazes cá em cima?"
"O que não faço lá em baixo..." disse de maus modos passando por Harry saindo do quarto.
"Estás bem?" questionou a amiga que o tranquilizou acenando com a cabeça, deu meia volta e foi atrás de Ronald.
"Calma aí, pá!" agarrou-lhe no ombro fazendo-o parar.
"Ela é uma ingrata que se meteu com o gajo errado! Eu só estava a conversar com ela, não tens razões para estares armado em parvo!" disse furioso. Harry abanou a cabeça em descrença.
"Só espero que o filho da puta apodreça em Azkaban!"
"Ele está quase morto...!" disse Harry. O olhar de Ron brilhou. Quase sorriu.
"Sim, eu sei... li no Profeta..."
"Preciso de fazer prior incantatem na tua varinha..." disse Harry fitando o amigo com ar duro, Ron vacilou. Abriu muito os olhos.
"Desconfias de mim?"
"Desculpa, amigo... mas preciso de confirmar..."
Harry não estava a espera de ser atingido por um murro certeiro, e quando se recompôs já Ron se tinha Desmaterializado.
"Estás bem, Harry?" disse Hermione que tinha assistido a metade da cena.
"Aquele filho da mãe bateu-me!" Harry estava indignado.
"É porque esconde algo, Harry querido..." murmurou Mrs Weasley entrando na sala.
"Mrs Weasley... você ouviu... peço desculpa..."
"Não tens pelo que te desculpares..." disse a matriarca, triste. Harry virou-se para Hermione e hesitou, agarrou-a pelo braço e levou-a até ao jardim.
"Acho que foi o Ron que atacou o Malfoy..."
Ela empalideceu, levou a mão a boca.
"Tens a certeza?"
"Não... mas tenho um plano..." murmurou Harry Potter.
