Correr era a única ordem que sua mente lhe gritava e mesmo a floresta ficando cada vez mais fechada, à medida que adentrava mais nela, pouco lhe importava os cortes que se formava em seu rosto por passar descuidadamente por entre os galhos baixos ou o vento gélido batendo de frente e seguindo por seu dorso. Era prazeroso sentir o sangue pulsando em seus ouvidos, os pequenos seres noturnos correndo receosos, a terra úmida sob seu toque rude.. Como queria que fosse daquela maneira sempre.

Subitamente parou. Encontrava-se numa clareira e seu cérebro registrava que nunca estivera lá antes. Farejou o ar e moveu as orelhas em busca de qualquer sinal de perigo, mas somente sentiu o cheiro de terra e ouviu o vento. Sentou esperando, quando naquele momento sentiu outros cheiros.

Logo mais três vultos aproximaram-se. O primeiro pertencia a um enorme cão negro de olhos azuis acinzentados. Balançava o rabo alegremente e latiu chegando mais perto com a língua áspera de fora. O coração batia contra o peito velozmente, mas não se importava em correr pela escuridão no meio da mata.

O segundo e o terceiro vulto pertenciam, respectivamente, a um cervo e um rato. Ambos chegaram mais atrás e ficaram apenas observando os dois caninos interagindo. Apesar de gostar das noites de lua cheia, tornou-se difícil, de uns tempos para cá, acompanhar o ritmo dos dois à frente visto que, quando um saía correndo desembestado, o outro ia atrás. Contudo, eles tinham quase a mesma velocidade e era mais fácil de se acompanharem, já um cervo e um rato acompanhar um cão e um lobo era outros quinhentos.

O lobo continuava sentado sendo rodeado pelo cão que, após um tempo, parou e deitou-se. Só então o lobo deitou também. Mais atrás, o cervo copiou os dois e o rato, nas costas deste, desceu e ficou perto das raízes de uma árvore já velha.

A lua iluminava toda àquela parte em que se encontravam. Mesmo o lobo não sendo racional a ponto de perceber sua beleza, algo nela o fazia admira-la.

Minutos depois, o cão levantou-se parecendo mais descansado e passou a dar leves mordidas no lobo. Queria chamá-lo para brincar, mas o lobo o ignorava ou rosnava para que o deixasse em paz. Até que se deu por vencido e levantou.

Pouco antes do amanhecer, os quatro retornaram para uma casa abandonada e que parecia prestes a desmoronar.. O lobo e o cão deitaram numa cama velha num dos quartos do piso superior enquanto o cervo e o rato ficaram na sala do piso inferior.

Ao amanhecer, no lugar do cão, havia um jovem rapaz de cabelos negros desgrenhados. Ao seu lado, um jovem de cabelos castanhos dormia serenamente.

"Remus." Disse uma voz distante, porém firme. "Remus, acorde."

Remus mexeu-se no lugar onde estava, mas não abriu os olhos de imediato. Respirou profundamente então parou, mas a outra pessoa sabia que ele já estava acordado. Apenas criava coragem para levantar-se. Poucos segundos depois, o lupino abriu os olhos e encarou Severus.

"Bom dia." Murmurou roucamente.

"É. Isso." Disse o professor de poções estendendo-lhe uma muda de roupa. "Vista-se e venha."

Severus deixou o quarto para que o lupino pudesse se vestir sem inibições. Apesar de, há alguns anos, ser ele quem buscava o outro após a lua cheia, Remus ainda sentia-se constrangido de ficar nu na frente do amigo. Minutos depois, o lobisomem apareceu, já vestido. Severus estendeu-lhe um frasco contendo um líquido róseo no qual o lupino tomou sem hesitar.

"Vamos." Disse Severus tocando-o no ombro aparatando logo em seguida.

Ao chegarem à casa de Remus, Severus o ajudou a chegar até a cozinha onde a mesa já estava posta com chá, biscoitos, pães e algumas barrinhas de chocolate. O lupino sorriu sentando à mesa e começou a servir-se debilmente sendo auxiliado pelo professor.

"Obrigado, Severus." Disse Remus quebrando o silêncio.

"Termine logo de comer e vá descansar. Também tenho mais o que fazer." Replicou rudemente fazendo o outro apenas sorrir.

Após alimentar-se, o lupino arrastou-se até o quarto e lá ficou. Logo dormiu. Severus lavou a louça e deixou uma nota para o homem então aparatou.

Lucius, após o início das férias de seu filho, fez questão de viajar com este e a esposa. Reservou um dos melhores hotéis de Paris, deixou um aviso no trabalho e liberaram uma via Pó de Flú. Contavam agora duas semanas aproveitando a cidade. Visitavam museus, galerias, algumas lojas trouxas, entre outros pontos turísticos tanto para bruxos quanto para trouxas. Estava sendo um passeio agradável até aquela manhã quando, já acordado e tomando seu café calmamente na varanda, apreciando uma bela vista, recebeu a coruja de Severus e tencionou devolver a mesma morta e, talvez, fazer o mesmo com o dono dela por estragar suas férias.

Com muito autocontrole, foi até a sala onde havia uma lareira para fazer a ligação até a do professor de poções. Após chamar duas vezes, o mesmo atendeu.

"Olá, Lucius. Vejo que recebeu minha coruja."

"E você me diz isso nessa calma?" Fala erguendo uma sobrancelha.

"Deseja que eu grite?" Perguntou sem conseguir evitar o tom irônico. "Então, o que achou da boa nova?"

"Como diabos isso foi acontecer?" Perguntou amassando o jornal numa mão, o que mostrava sua opinião acerca do assunto. "Sabe onde ele está? Se está atrás.." Deu uma pausa respirando fundo, percebeu que estava se descontrolando. "Se está atrás de Harry?"

"Sei tanto quanto você." Deu de ombros.

"E Remus?"

"Ainda não sabe. A fuga foi durante a lua cheia."

"O que farei?" Perguntou massageando as têmporas. "Conto ao garoto sobre o biruta do padrinho dele?"

"Eu contaria primeiramente à Narcisa." Pontuou. "Em seguida, ajudaria Severus Snape a contar à Remus sobre o marido fugitivo deste para que este possa lhe ajudar quando for contar ao Harry."

"Pai." Chamou Harry aproximando-se. "Oh, não sabia que estava com Severus. Me desculpem."

"Tudo bem, Harry." Disse Lucius. "O que quer?"

"Mamãe quer que eu a acompanhe às compras e quer saber se o senhor deseja ir junto."

"Já irei." Viu-o acenar com a cabeça levemente.

"Sim, senhor." Voltou a atenção para Severus. "Como está Remus? A lua cheia acabou hoje, não é?"

"Sim. Ele ficará bem."

"Mande lembranças a ele e diga que espero por notícias."

"Direi."

Harry sorriu e retirou-se.

Estava a duas semanas dos exames finais daquele ano, encontrava-se na biblioteca, mais uma vez, estudando para os mesmos. Passava da hora do jantar e desde o fim das aulas do dia ele estava lá, mas ignorava a fome. Ainda tinha muito que revisar. O lugar estava deserto e tudo que era possível de se ouvir era sua pena arranhando o pergaminho extenso e o passar de folhas do grosso livro.

"Faltou ao jantar mais uma vez essa semana, Moony." Uma voz rouca disse-lhe ao ouvido fazendo-o arrepiar-se entre a surpresa e o prazer. "Estava tão concentrado que nem me percebeu chegar." Continuou apoiando-se, em pé, na mesa.

"Tenho que terminar aqui, Padfoot." Respondeu numa voz calma continuando a riscar o pergaminho.

O denominado Padfoot era um rapaz moreno. Pela careta que fez, não gostou da resposta do outro, Moony, o rapaz de aparência doentia, mas tudo que fez foi puxar a cadeira e sentar ao lado deste. O encarou por um tempo até que puxou um dos livros espalhados sobre a mesa.

"Você está estudando as mesmas matérias todas as noites, Moony."

"Estudo, resumo e reviso."

"Você precisa descansar. Está exagerando."

"Sei cuidar de mim, obrigado."

Padfoot franziu o cenho e o puxou pelo pulso rudemente fazendo-o encará-lo. Moony o olhou surpreso, mas logo se recompôs e tentou se soltar, mas o moreno não deixou e nem o outro quis tentar insistir ou poderia machucá-lo por ser mais forte.

"Idiota." Disse o moreno. "Está perdendo refeições, tem dormido pouco e a lua cheia está próxima." Falou sem se incomodar em manter o tom baixo. "Estou preocupado, Remus. Você está me deixando maluco."

Remus mirou-o por um tempo, então voltou a atenção aos livros, mas não voltou a escrever. Respirou fundo fazendo o outro soltá-lo, mas continuar a mirá-lo. Fechou os olhos por alguns instantes, voltando a abri-los e fitar Padfoot.

"Me desculpe." E sorriu-lhe. "Você tem razão, Sirius."

"Ótimo." Sorriu triunfante levantando-se. "Vamos." E o puxou fazendo-o levantar-se também.

"Vamos?" Perguntou confuso. "Para onde?"

"Passei na cozinha antes de vir e pedi para os elfos prepararem alguns dos seus doces preferidos." Deu de ombros.

"Obrigado."

"Sou ou não sou o melhor namorado?" Perguntou divertido fazendo o outro rir.

"Sim, você é, Pad." E o beijou nos lábios suavemente. "Venha, estou com fome."

Quando acordara o quarto estava escuro. Ficou imóvel na cama fitando o teto do quarto apenas ouvindo a chuva branda caindo do lado de fora. Voltou a fechar os olhos e farejou o ar, queria sentir o cheiro de terra molhada. Queria poder voltar a tocar a mesma, a correr lá fora sem se importar com nada nem ninguém. Queria esquecer. Então sentiu um novo cheiro e soube que já não estava mais sozinho em casa. Forçou-se a se levantar e desceu até a cozinha onde Severus havia colocado água para ferver e posto a mesa.

Remus sorriu levemente sentando à mesa.

"Tome sua poção." Disse Severus sem olhar para o lupino. "Depois que se alimentar, quero falar com você."

"Aconteceu algo?" Perguntou percebendo o tom sério na voz do professor.

"Depois, Remus. Agora coma."

O lupino passou a se servir, tomando o chá que Severus preparava, ao fim. Depois ambos foram para a sala onde cada um sentou numa poltrona de frente para o outro. Remus percebeu a inquietude do moreno e resolveu começar falando.

"Como estão Lucius, Narcisa e Harry?"

"Bem. Falei com Lucius e Harry hoje. Seu afilhado mandou melhoras e pediu por notícias suas."

"Eles já têm uma previsão de volta?"

"Não sei dizer quando, mas acredito que depois da minha visita, Lucius voltará em breve." Percebeu o outro franzir o cenho em confusão. "Tenho notícias de Black."

"O que houve?" Perguntou sem conseguir conter a preocupação na voz.

"Ele fugiu." E conjurou um jornal entregando-o ao lobisomem.

Remus pegou o pedaço de papel e o leu com afinco até o fim. Após a leitura, pousou o jornal sobre o colo e fechou os olhos massageando as têmporas. Severus sabia que era uma maneira do lupino controlar-se. Remus era conhecido pelas maneiras gentis e a educação exemplar. Não que ele realmente não fosse daquela maneira, mas o lupino costumava retrair-se muito e quando não, era como estar de frente com o próprio transformado em lobisomem.

"Como ele conseguiu isso, Severus? Achei que Azkaban fosse a prova de fugas." Disse após um tempo, o mirando. Severus percebeu um brilho avermelhado perigoso nos olhos cor de âmbar do outro.

"Como você leu, dizem ter sido ajudado por Voldemort."

"E como Voldemort o tiraria de lá sem ser visto? No meio da noite, ele simplesmente some. Sirius..." Pausou achando diferente falar o nome do marido após tanto tempo. "Sirius, pelo o que eu me lembro, não evapora. E, até onde sei, há feitiços que impedem de aparatar dentro de Azkaban. Como ele fugiria? Nadando?" Cerrou os olhos.

"Eu não duvidaria." Viu o outro suavizar as expressões.

"O pior, é que nem eu." Seu olhar voltou ao brilho normal. "Lucius contará a Harry sobre Sirius?"

"Eis a grande questão." Ouviram a voz arrastada vinda da lareira e olharam para as chamas que brilhavam até que se acenderam revelando a figura elegante de Lucius. "Severus, Remus." Cumprimentou-os adentrando o recinto.

"Não pensei que fosse voltar hoje." Disse Severus erguendo uma sobrancelha.

"Nem eu, mas você é incrível em estragar meus prazeres." Sentou numa terceira poltrona ficando entre os dois. "Narcisa viu o jornal e tivemos uma adorável discussão sobre o assunto. Obviamente Harry ainda não sabe de nada, a não ser que um bruxo muito perigoso está à solta e, por ter trabalhado para Voldemort, podemos ser alvo em potencial então o melhor foi retornar para casa."

"Então você dirá que Sirius é padrinho dele?"

"Um padrinho pancado das idéias que matou três dos melhores amigos e foi para a pior cadeia do mundo bruxo rindo como se tivesse ganhado o melhor presente de natal?" Acrescentou Severus acidamente.

"Eu não seria tão expositivo." Disse Remus olhando-o de forma reprovadora.

"Não sei se quero meu filho exposto a esse maluco. Logo os Aurores irão capturá-lo. Por que tenho de contar a história de vida de Black para ele?" Perguntou Lucius.

"É direito de ele saber." Falou Remus. "Assim como ele sabe que é adotado, ou quem é Voldemort."

"Sabe que contar sobre o Black seria contar sobre seu envolvimento com ele, não é?"

Remus não respondeu de imediato. Encarou os dois homens então suspirou resignado. Contar à Harry que seu padrinho era Sirius Black, o homem responsável pela morte de seus três melhores amigos, era uma coisa, mas contar que o mesmo Sirius Black era também seu marido... Que Sirius, dias antes do assassinato de James e Líly, passara a agir estranho, que podia ter evitado a morte de seus amigos... Como Harry reagiria?

"O que pretende, então?" Perguntou Remus.

"Não contar e vigiar Harry. Fontes me informaram que Black, antes de fugir, estava perfeitamente são e lúcido. Que em sua última manhã em Azkaban, ele pedira o Profeta do Ministro em pessoa e, durante a noite, ele não parou de murmurar 'ele está em Hogwarts".

"Então você acha que Black está atrás de Harry?" Perguntou Severus.

"Sim."

"O que quer que façamos?" Perguntou Remus resignado.

"Terei algumas reuniões de negócios em minha casa até o final das férias de Harry."

"Ou seja, festas." Completou Severus.

"O que facilitaria a entrada de Sirius, caso ele tentasse algo." Continuou Remus.

"Confio nos feitiços de segurança, mas ele é um Black, afinal e não quero novos incidentes como os de Bellatrix. E mesmo ele não tendo ajuda de Voldemort, fugiu de Azkaban por conta própria, o que por si só, é um feito visto que bruxo nenhum nunca conseguiu. Vivo ao menos."

"Você nos quer em cada uma de suas festas." Concluiu Severus.

"Exato."

Harry não era um garoto muito observador. Na verdade, por mais que Lucius e Severus o ensinassem a estar sempre atento a pequenos detalhes, estes geralmente passavam despercebidos ou tinham de ser muito óbvios para lhe chamarem a atenção. Remus costumava ligar isso à genética, pois James também não era uma pessoa observadora a menos que se tratasse de Lílian ou de alguém com quem se importasse muito e tivesse longos anos de convivência.

No entanto, bastaram três festas consecutivas com a presença de Severus e Remus para o moreno perceber que algo não estava bem. Mesmo todos agindo como se a presença de ambos fosse algo normal, Lucius e Narcisa continuarem agindo como os anfitriões perfeitos que eram e seus dois pseudos-padrinhos socializarem-se com os bruxos mais elitistas da sociedade, Harry sabia que havia algo acontecendo. Só não sabia o que era, mas estava disposto a ter sua resposta.

Era mais uma noite com mais um jantar de negócios oferecido por Lucius e novamente a Mansão Malfoy estava cheia. Harry somente desceu quando o salão de entrada já estava com alguns bruxos, cumprimentou quem pode e decidiu ficar próximo a Lucius. Quase uma hora depois de ouvir sobre política, viu Remus e Severus chegarem juntos e quase correu para cumprimentá-los.

"Remus. Severus." Disse polidamente sem conter o sorriso ao vê-los.

"Boa noite, Harry." Cumprimentou Remus de volta. Severus deu apenas um vago aceno com a cabeça.

Harry, então, parou de sorrir e virou-se par onde Lucius estava. Aparentemente, ele não percebera a chegada do lobisomem e do professor de poções. Se o moreno queria respostas, poderia tê-las, mas tinha de ser rápido.

"Quero falar com vocês." Disse virando-se de volta para Remus e Severus.

"Aconteceu algo?" Perguntou Remus preocupado.

"Venham comigo."

Os três saíram andando por entre os convidados até saírem do salão de entrada indo em direção à biblioteca. Ao chegarem lá, entraram e Harry encostou a porta indo para o centro do cômodo. Remus e Severus o olhavam parecendo preocupados e confusos.

"Nada aconteceu." Falou os fitando. "Mas sei que há algo de errado. Vocês nunca aparecem nas festas que Lucius promove e, de repente, estão vindo à todas elas. Quero saber o que há."

"Você costumava ser menos observador." Disse Severus erguendo uma sobrancelha.

"Não há nada, Harry. Só achamos estar na hora de nos socializarmos."

"Essa é a melhor desculpa que tem?" Perguntou Severus acidamente. "Grifinórios." Rolou os olhos.

"Então dê você, uma desculpa." Rebateu.

"Querem voltar o foco à minha pergunta inicial, por favor." Pediu Harry os interrompendo.

Remus e Severus pararam a discussão e se encararam para depois encararem Harry, mas nada disseram.

"Então?"

"Eu pedi que eles viessem." Disse Lucius entrando no recinto.

Severus rolou os olhos e sentou na poltrona próxima. Já previa que logo teria uma dor de cabeça. Remus não sabia se agradecia ou não a interrupção de Lucius. Harry fitava o pai sem entender mais nada.

"Por quê?" Indagou o moreno. "Não que eu não esteja feliz por isso." Completou. "Mas não entendo. Eles nunca vieram e agora.."

"Sirius Black." Falou enquanto aproximava-se parando a alguns metros do filho.

"O que tem ele?"

"Você sabe quem ele é?"

"Um assassino que trabalhava para Voldemort."

"E que fugiu de Azkaban." Complementou Luciu. "Eu já lhe disse isso, mas Black é perigoso e nós somos alvos em potencial. Principalmente você, Harry."

"Então Severus e Remus estão aqui como guarda-costas?"

"Algo do tipo." Gesticulou despreocupadamente. "Não que eu tema Black, mas ele é um bruxo poderoso, convenhamos."

Após aquela resposta, um elfo apareceu a mando de Narcisa que exigia a presença, de volta, do marido e do filho, além de Severus e Remus. Ninguém esperou por uma segunda chamada, mas Harry ainda não se sentia satisfeito totalmente. Ele e seus pais sempre eram alvos em potencial de Comensais vingativos. Naquele momento havia Comensais na Mansão e Lucius não parecia tão preocupado com eles. O que Sirius Black haveria de tão especial? E por que tinha a familiar sensação com aquele nome?

Odiara o fato de estar, quase literalmente, na cova dos leões. Seus pais haviam lhe enviado um berrador logo que souberam e falaram pessoalmente com Dumbledore para que tivesse uma chance de novamente passar pelo Chapéu Seletor, mas o Diretor foi claro ao dizer que não houve engano e que o primogênito Black estava na casa certa.

Sirius, quando não estava nas aulas ou no Salão Principal tendo suas refeições, ficava vagando pelos corredores do castelo ou andando pelos jardins. Sempre sozinho ou seguido de perto por algum sonserino que tentava se aproximar e dar o discurso de 'que pena ter sido selecionado para a casa errada, Black, mas não se preocupe, você continua sendo um dos nossos'. O que deixava o garoto mais irritado, pois este sabia que quem quer que fosse, só se aproximava porque era um Black.

Pertencer a uma das famílias mais antigas e tradicionais tinha suas vantagens. Com os gestos e olhares certos, poderia conseguir o que queria, de quem queria. Desde pequeno, Sirius era ensinado dessa maneira, a ser superior. Ele gostava disso, mas aos poucos, foi percebendo que nem sempre ser superior era bom. Principalmente quando se prejudicava alguém.

Era um sábado e o castelo estava relativamente vazio. Alunos do terceiro ao último ano haviam saído para o vilarejo próximo sobrando apenas os do primeiro e segundo ano e poucos dos outros anos. Sirius andava pelos jardins esperando ver a coruja do irmão menor voltar com a resposta da última carta que enviara. Havia visto o garoto Potter com o Pettigrew perto do lago com alguns outros alunos de outras casas. Pareciam se divertir com algum jogo trouxa. Achou as risadas irritantes e imaginou o que a senhora Walburga Black faria se os visse agindo como crianças trouxas. Sirius sorriu de forma quase macabra lembrando dos feitiços que levava quando agia de forma inadequada.

"Você é um dos poucos que vem para esse lado do jardim." Ouviu uma voz vindo de trás de si e virou-se pronto para expulsar quem quer que fosse.

"Não é da sua conta por onde ando." Disse rudemente. "Vá embora."

"Não pode me expulsar daqui, Black." Falou gentilmente fazendo o moreno franzir o cenho irritado.

"Posso obrigá-lo a sair." Sibilou.

"Eu poderia deixá-lo tentar." Deu as costas. "Quem sabe outro dia." E afastou-se.

Sirius acompanhou-o, com o olhar, enquanto o outro se afastava. O garoto de cabelos castanhos, com aparência doentia.. Tinha a sensação de que Remus Lupin sabia mais do que aparentava. Mesmo tendo apenas onze anos, ele vivia na biblioteca e pouco falava. Respondia a maioria das perguntas feitas pelos professores, era sempre gentil e calmo. Sirius não queria admitir, mas fascinara-se pelo outro.

Harry sentia-se como um prisioneiro. Desde que Sirius Black fugira, suas férias tornaram-se monótonas. Sempre que queria ir para algum lugar, seus pais discutiam por horas o assunto e deixavam, se deixavam, somente se acompanhado por Severus e Remus. Não que não gostasse de sair com ambos, mas sentia-se como uma criança que precisa de babá – duas! – e somente iam para lugares trouxas após longas horas de conversa sobre segurança e o que fazer no caso de Black aparecer. Era quase como viver um filme trouxa sobre conspiração e isso começava a enlouquecê-lo.

Hermione e os Weasley mandavam cartas o chamando para passar as férias em variados lugares. Queria ter ido para o Egito, soubera que Arthur Weasley ganhara na Loteria Anual do Profeta Diário e viajara para lá com a família. Exceto Draco que preferiu ir para a Romênia, visitar Carlinhos. A última carta que recebera dos amigos, os Weasley já haviam voltado e o chamavam para ir à Toca. Hermione passaria parte das férias lá. Harry queria muito ir, mas imaginava a reação de Lucius.

Até que numa tarde decidiu perguntar, transformando a imagem que tinha da reação do pai em realidade.

"Absolutamente não." Disse Lucius determinado. "Você não vai sair dessa casa a menos que seja para Hogwarts."

"Pai, por favor." Pediu Harry. "Eu respeito muito suas decisões, mas estou enlouquecendo ficando trancado aqui."

"Você não fica trancado. Você já saiu algumas vezes com Remus e Severus."

"Para bairros trouxas." Rolou os olhos. "Sinto falta dos meus amigos."

"Você vai ter tempo o suficiente com eles ao retornar para a Escola. Até lá, fica conosco."

"Qual o problema em passar as últimas semanas na Toca?" Perguntou irritado. "Sirius Black não é o único obstáculo aqui, não é? Há algo mais." Disse de cenho franzido.

"Você está me irritando com esse questionário, Harry. Eu já dei minha resposta." Sibilou.

Harry o encarou por algum tempo, mas nada disse. Deu as costas e voltou para o quarto, trancando a porta logo que entrou. Deitou na cama irritado pensando em como diria para Rony, Draco e Hermione que não podia sair de casa por causa de um bruxo das trevas seguidor de Voldemort. Então uma idéia lhe passou pela mente e sentou. Pensou em todas as possibilidades de dar certo ou não e nas conseqüências e decidiu seguir com o plano. Fugiria de casa para A Toca.

Levantou e foi arrumar as coisas. Escreveu uma carta à Rony e Draco avisando sobre sua fuga àquela noite e mandou por Edwiges. Esperaria anoitecer, então sairia pelo portão dos fundos que levava para um bairro trouxa rico e esperava pegar um ônibus ou táxi até próximo o Caldeirão Furado. Lá poderia usar a lareira para chegar À Toca. Só esperava que seus pais não descobrissem antes de chegar lá ou, com certeza, seria, no mínimo, expulso da família.

Com o malão pronto e Edwiges já a caminho, Harry só tinha de sair da Mansão sem ser visto. Pelo horário, Narcisa deveria estar instruindo os elfos sobre o jantar e Lucius deveria estar na biblioteca. Foi até a própria janela e olhou a altura. Não poderia sair por lá ou correria o risco de machucar-se seriamente caso caísse – o que seria bem provável, visto que ainda tinha de carregar o malão -. Buscou alguma outra saída.. Voltou o olhar para a cama e teve uma idéia.

Harry transfigurou os lençóis numa corda malfeita e a amarrou na alça do malão. O desceu pela janela que dava no jardim. Depois pegou a vassoura e saiu voando pousando delicadamente no gramado. Desamarrou a corda e levitou o malão. Seguiu até o portão dos fundos, o abriu desarmando os feitiços que se ergueram logo que saiu. Não parou de caminhar com o malão, agora sendo devidamente puxado pela forma trouxa, sempre com o cuidado de não fazer muito barulho e certificar-se de que não estava sendo seguido.

Algumas horas depois, o moreno parou no que parecia ser um parque infantil trouxa. Sentou no balanço, com o malão do lado, e suspirou cansado. Sabia onde estava e para onde devia ir, mas também sabia que demoraria, a pé, a chegar lá. Ainda mais com o peso extra. Com o tempo que andara e por ainda não ter nenhum movimento, seus pais deviam pensar que ainda estava chateado por não terem permitido sua ida à casa dos Weasley e por isso não tiveram o importunado. Isso lhe dava algum tempo.

Queria apenas que a sorte aumentasse e, pelo menos, um ônibus aparecesse. Não tinha dinheiro trouxa, mas antes de sair de casa, transfigurara papéis de bombons em algum e devia servir. Sem querer perder mais tempo, levantou-se pronto para continuar a caminhar, mas um formigamento estranho na nuca o fizera sentir que estava sendo observado e Harry parou. Olhou para os lados, a rua deserta e escura, exceto pelos poucos postes.

Prestes a voltar a andar, ouviu um barulho vindo das folhagens de arbustos próximo a um dos brinquedos. Olhou tentando enxergar algo, mas tudo que via era um vulto negro que parecia pertencer a um animal. Apertou a varinha e esperou o vulto se mexer ou vir à luz do poste próximo, para saber se era mesmo um animal ou outra coisa.

O vulto andou alguns passos à frente, mas continuava na escuridão.

"Lumus." Murmurou Harry fazendo a varinha acender na ponta.

O vulto pertencia a um enorme cão negro, com olhos brilhantes e cinzentos. Harry assustou-se um pouco ao ver um cão tão grande. Parecia ser da rua, pois não tinha coleira e estava muito magro e abatido. Foi então que o cão deu novos passos à frente e o moreno, surpreso e assustado, andou para trás tropeçando no malão e caindo deitado. Rapidamente, levantou-se e ergueu a varinha olhando para os lados procurando pelo cão, mas não o achou.

Então ouviu uma buzina e, de repente, um ônibus azul estava parado à sua frente. Letras douradas no pára-brisa informavam: O Nôitibus Andante.

"Bem-vindo ao Nôitibus Andate, o transporte de emergência para bruxos e bruxas perdidos. Basta esticar a mão da varinha, subir a bordo e podemos levar aonde quiser. Meu nome é Stanislau Shunpike, Lalau, e serei seu condutor por esta noi.." Parou Lalau, um rapaz de uniforme roxo, com orelhas de abano e muitas espinhas. "Você está me ouvindo?" Perguntou vendo o moreno olhando de instante em instante para os lados.

"Er.. desculpe. Estou procurando um cão."

"Você perdeu seu cão?"

"Não é meu. Eu o vi por acaso e estou tentando ver aonde ele foi."

"Como ele é?" Perguntou olhando para os lados.

"Grande e preto."

"Hum.. acho que já foi."

"É."

"Que é isso na sua testa?" Perguntou fitando-o.

"Nada." Disse rapidamente colocando alguns fios de cabelo cobrindo a testa.

"Qual o seu nome?"

"Neville Longbottom." Respondeu. "Então.. este ônibus.. você diz que vão para qualquer lugar?"

"Isso mesmo." Confirmou. "Desde que seja em terra."

"Quando custaria para me levar para Londres?"

"Onze sicles, mas por catorze você ganha chocolate quente e, por quinze, um saco de água quente e uma escova de dente da cor que você quiser."

Harry tirou um dinheiro do malão e entregou a Lalau que o deixou entrar e o ajudou a levar o malão para dentro.

Dentro do ônibus não havia lugares para sentar como num ônibus trouxa, constatou Harry, mas estrados de latão protegidos por cortinas. Ao lado de cada cama, ardia uma vela em suportes, que iluminavam as paredes revestidas de madeira.

"Você fica com essa aí." Disse Lalau empurrando o malão de Harry para baixo de uma da cama logo atrás do motorista, que se achava sentado em uma cadeira de braços diante do volante. "Este é Ernesto Prang, nosso motorista. Este aqui é o Neville, Ernesto." Disse ao bruxo idoso que usava óculos de grossas lentes.

Ernesto cumprimentou o moreno com um aceno de cabeça, então voltou a atenção ao painel do ônibus.

"Pode mandar ver, Ernesto." Disse Lalau, sentando-se na cadeira ao lado do motorista.

Com um estampido assustador, o ônibus andou e Harry foi achatado contra a cama pela velocidade. Endireitou-se e espiou pela janela escura vendo que deslizavam por uma rua completamente diferente. Lalau observava o rosto surpreso de Harry e achava divertido.

"Estávamos aqui antes de você dar sinal."

"Como é que os trouxas não ouvem vocês?"

"Eles lá vêem ou ouvem direito? Não reparam em nada." Disse dando de ombros. "Não é, Ernesto?"

"É melhor ir acordar Madame Marsh, Lalau." Disse Ernesto.

Lalau passou pela cama de Harry e desapareceu por uma estreita escada de madeira. Harry continuou a espiar pela janela pensando se seus pais já haviam percebido que não estava em casa. Talvez Lucius houvesse chamado Severus e Remus para procurá-lo. Narcissa devia estar uma pilha de nervos agora. Esperava conseguir chegar à Toca logo. Sabia que estando lá, Lucius seria cruel em seu castigo, mas não o faria voltar para casa. Não se Narcissa, Remus e Severus se intrometessem, claro.

Lalau voltou do primeiro andar ao lado de uma bruxa meio esverdeada embrulhada numa capa de viagem.

"Chegamos, senhora Marsh." Disse Lalau alegremente, enquanto Ernesto freiava fazendo as camas deslizarem para a dianteira do ônibus.

A bruxa desceu e, com um novo roncado do motor, o ônibus voltou a andar. Lalau voltou a sentar, com um exemplar do Profeta Diário em mãos, onde havia uma enorme foto na primeira página.

"Esse homem!" Exclamou Harry reconhecendo o motivo de todos os seus problemas daquele ano.

"Sirius Black." Disse Lalau olhando para a foto. "Carinha sinistro, não? Matou treze pessoas com um feitiço numa rua trouxa. Foi um trabalhão pros Aurores."

"Imagino."

"Fugiu a algumas semanas de Azkaban. Um bruxo poderoso. Dizem que era o favorito de Você-Sabe-Quem e que fugiu para terminar o que o mestre começou."

"Vamos mudar de assunto, Lalau. Me da uma dor só de pensar em Você-Sabe-Quem e de saber que um seguidor dele está à solta." Pediu Ernesto.

Lalau fechou o jornal e deu o assunto por encerrado. Harry voltou a olhar pela janela.

Estava deitado e descansando. Havia chegado há algumas horas, aqueles dias foram excepcionalmente difíceis. Não sabia dizer o que estava errado, sempre se machucava, mas saíra com mais ferimentos que o normal. O diretor em pessoa fora vê-lo e disse que estava com o resto da semana livre para se recuperar.

"Shh." Ouviu um sussurro vindo do seu lado direito. "Não faça barulho, seu imbecil. Vai acordar ele."

"Não sou eu quem está falando."

"Não?" Disse uma terceira voz.

Eram vozes e vozes conhecidas. Abriu os olhos e procurou por quem estava, àquela hora – quase sete da manhã – na enfermaria. Não via ninguém, mas podia sentir os cheiros. Ajustou-se na cama o melhor que pode e esperou, movendo o olhar à espreita, como um animal a procura da presa.

"Ele está acordado, Jamesy."

"Não sou cego, Siri."

"Que tal saírem debaixo da Capa?" Sugeriu Remus olhando para um ponto próximo ao seu lado esquerdo.

De repente, três figuras de garotos surgiram. Um magricela de óculos e cabelos desgrenhados, um gordinho louro e um garoto esguio de olhar acinzentado. Os três se aproximaram da cama sendo fuzilados pelo olhar de Remus que, sempre âmbar, estava um pouco avermelhado.

"O que fazem aqui?" Perguntou Remus.

"Soubemos que estava aqui e viemos." Disse James enrolando o que parecia ser uma capa.

"Você está péssimo." Disse Peter analisando as ataduras do amigo.

"Foi um acidente. Tive de voltar mais cedo do que o previsto. Sabem como minha mãe-"

"Não minta." Cortou Sirius rudemente.

"Calma, Sirius." Pediu James tocando no ombro do amigo. "Lembre do que conversamos."

"E do que combinamos." Completou Peter.

"Do que estão falando?" Perguntou Remus desconfiado.

Os três olharam para o rapaz machucadoo e se entreolharam. Peter então deu de ombros e James aproximou-se.

"Somos amigos, não somos?"

"Que tipo de pergunta é essa?" Perguntou Remus.

"Eu sou um tagarela, mas não foi fácil saber que por ser filho único sou extremamente carente. Peter começou meio tímido, mas logo se abriu conosco e sabemos que mora com a mãe e a avó e que elas o pressionam muito. Sirius é de uma família sangue-puro tradicional, por isso o começo foi difícil e por ele ser a ovelha negra da família. Já você.. sabemos tão pouco. Desde o início você fala pouco, sorri pouco, interage pouco.. Foi realmente difícil descobrir certas coisas. Tínhamos de observar bem."

"Do que você está falando?" Perguntou Remus de olhos cerrados.

"Sabemos que sobre suas comidas preferidas, seus horários, algumas manias, coisas que o irritam e o agradam." Continuou Peter. "Também sabemos uma coisa ou outra da sua família e de quando era menor."

"Pela última vez, do que estão falando?" Sibilou perigosamente e seus olhos vibraram num tom avermelhado.

"Sabemos que é um lobisomem." Disse Sirius por fim.

Silêncio. Um que podia ser sentido por qualquer pessoa que visse a cena. James continuava em pé, ao lado da cama de Remus. Peter estava sentado na cama ao lado. Sirius estava, em pé, em frente à cama do garoto machucado. Remus olhava para Sirius que o encarava de volta.

Então o ele fez algo que nunca fizera antes, gargalhou. Mas não de alegria. Era vazio e ecoava pela enfermaria. Quando parou, era observado por garotos surpresos e assustados.

"O que querem saber? Que minha mãe tem depressão e sempre que olha na minha cara chora ou que meu pai é trouxa, em todos os sentidos, e provocou o lobisomem que me mordeu?" Falou seco encarando os três. "Eu não vou sair de Hogwarts. Mesmo que eu tenha de apagar a memória de vocês."

"Queremos saber tudo." Disse Sirius.

"Somos seus amigos, Remus." Disse James.

"Você pode confiar em nós. Nós confiamos em você." Concluiu Peter.

Remus estava em casa, lendo um livro, quando recebeu a coruja de Lucius avisando que Harry sumira. O lobisomem aparatou imediatamente na Mansão do louro e dirigiu-se à biblioteca onde estavam Severus e Lucius, que parecia ler algo. Olhou em volta e viu a coruja de Harry.

"O que houve?" Perguntou o lupino.

"Harry fugira de casa, pegara o Nôitibus e fora ao Caldeirão Furado onde usara a lareira para ir à Toca. Ele acabou de mandar Edwiges dizendo que passará o resto das férias lá e que entenderá o castigo, seja ele qual for." Explicou Severus.

"Oh."

"Isso é o sangue Potter, nele." Murmurou Lucius, logo depois jogou o pergaminho na lareira acesa. "Vou buscá-lo agora mesmo."

"Não." Disse Severus.

"Você vai se acalmar, primeiro." Completou Remus.

"Ele me desobedeceu. Eu disse que ele não podia ir e ele fugiu de casa."

"Você o trancou aqui, praticamente." Disse Severus. "Surpreende-me que ele não tenha colocado fogo na casa."

"Harry agiu mal, não tiro sua razão, Lucius, mas você não vai aparecer lá e lançar feitiços em todo mundo." Falou Remus.

"E o que devo fazer? Deixa-lo aproveitar as férias e passar por cima da minha autoridade?"

"Não. Você vai conversar com ele de maneira civilizada."

"Você será pai e diplomático. Como o Malfoy que é." Completou Severus.

Harry chegara à Toca próximo a hora do café da manhã. A senhora Weasley já estava acordada e preparara biscoitos, tortinhas salgadas, pães, sucos e café. O senhor Weasley já servia-se, pois sairia mais cedo para o trabalho. Não havia mais ninguém acordado.

O moreno foi recebido muito bem, com um forte abraço de tirar o fôlego da senhora Weasley e um aperto de mão do senhor Weasley. Seu malão fora levado para o quarto de Rony e Draco, que já havia sido preparado para sua chegada, e, no momento, estava sentado na sala, esperando Lucius fazer a conexão com a lareira para que pudessem conversar. Edwiges havia retornado há poucos minutos e descansava junto de Errol, no poleiro.

De repente, a lareira acendeu e logo era possível ver o rosto de Lucius.

"Pai."

"Você é só uma criança. Uma criança tola e teimosa que acha que pode ir contra uma ordem minha." Disse Lucius de forma perigosa.

"Não pedirei desculpas, pai. Não me arrependo do que fiz."

"Espero receber um pergaminho de, pelo menos, dois metros seu, Harry, todo mês. Quero que me conte sobre cada feitiço de defesa novo que aprender."

"Sim, senhor."

"E a cada mês que não mandar, mande três a mais no próximo."

"Sim, senhor."

"E você não terá permissão para o passeio em Hogsmead. Já mandei uma coruja avisando a Professora McGonagall sobre isso."

"...sim, senhor."

"Isso é tudo. Aproveite bem suas férias." E desfez a conexão.

Harry suspirou resignado. Comparado aos castigos anteriores, redações sobre feitiços defensivos não eram nada. Levantou e seguiu para a mesa. O senhor Weasley já havia terminado de comer, despediu-se rapidamente e foi para o trabalho. Foi quando ouviu passos descendo a escada e, em minutos, Draco entrava no recinto ainda de pijamas. O cabelo estava maior e parecia mais sedoso, seu queixo estava mais afilado e, constatou um pouco surpreso, que o louro crescera alguns centímetros e estava maior do que ele. Não pensava que algumas semanas mudassem tanto uma pessoa. Queria ver como Rony estava.

"Você veio mesmo." Disse Draco com a voz rouca, ainda pelo sono. "Devemos esperar seus pais aparatando no jardim a qualquer momento?"

"Não. Eles já sabem que estou aqui."

O louro deu de ombros e sentou à mesa passando a servir-se também. A senhora Weasley colocou a louça do marido para lavar magicamente e subiu para ver se algum dos outros filhos estava perto de acordar.

"Você está diferente." Disse Harry após um tempo.

"Não é o primeiro a dizer isso." Falou despreocupadamente. "Gina deu um grito ao me ver quando voltei da Romênia. Disse que estou mais bonito."

"Você está."

Draco parou de comer e olhou o moreno que percebeu o que dissera e corara furiosamente. O louro apenas erguera uma sobrancelha e sorriu de lado.

"Você acha?"

"Bom.. você não é feio, certo? Er.. mas como foi na Romênia?" Perguntou querendo mudar de assunto o mais rápido possível.

O louro percebeu o nervosismo do outro, mas preferiu não comentar mais nada. Voltou a comer normalmente. Harry percebeu que o assunto foi categoricamente encerrado e suspirou aliviado.

"Legal. Carlinhos me ensinou muito sobre dragões e saímos algumas vezes para eu conhecer o lugar. Também conheci os amigos dele e revi aqueles que buscaram Noberto."

"Falando nele, como ele está?"

"Muito bem. Está enorme e é um dos dragões mais temperamentais que já tiveram por lá."

"Harry!" Disseram Fred e George, juntos, entrando no recinto. Ambos de pijamas e cabelos bagunçados. "Como tem andando?" E sentaram um em cada lado dele.

"Imaginávamos se conseguiria chegar." Disse Fred.

"Ir sozinho e no meio da noite até Londres para o Caldeirão Furado para usar a lareira e vir." Continuou George.

"Arriscado e perigoso." Completou Fred.

"Por isso sabíamos que conseguiria." Finalizaram juntos.

"Não foi tão difícil. Fui de Nôltibus até o Caldeirão Furado."

"Transporte coletivo." Murmurou Draco. "Nem se eu fosse um trouxa usaria isso.

"Falou o rico da família." Zombou George.

"O que você faria, Dracalbino? Usaria uma de suas lareiras particulares?" Perguntou Fred num tom divertido.

"Aparataria ou usaria uma chave de portal." Rebateu. "Qualquer coisa é melhor que um transporte coletivo. Sabem quantos germes e bactérias são transmitidos num? Milhares de milhares."

"Sempre tão instrutivo." Disseram os gêmeos juntos.

Não demorou muito até os gêmeos começarem a fazer piadas que envolvessem barulho, talheres quicando pela mesa e a senhora Weasley gritando a plenos pulmões pela casa. Logo Rony, Gina, Hermione e Percy estavam despertos e juntaram-se aos outros para o café da manhã.

Era seu primeiro dia na escola e estava nervoso. Nunca saíra da proteção de casa e do vilarejo onde crescera - que era pequeno e resumia-se a todo mundo conhecendo todo mundo -. Além disso, depois que fora mordido, poucos eram o que ainda o tratavam normalmente. A maioria o olhava de forma penosa ou com medo como se ele fosse virar o monstro que escondia em si, de uma hora pra outra e atacar.

Seus pais o acompanharam à plataforma e esperaram até a partida do trem, mesmo dizendo que não era necessário. Ao embarcar, andou até a última cabine sem olhar para nenhum rosto, e entrou. Queria ser invisível e passar os próximos setes anos focado apenas nos estudos. Contudo, em poucos minutos, outro garoto entrou na cabine. Um baixo e gordinho, olhos e cabelos claros. Mal o encarou, mas foi educado e perguntou se podia ficar na cabine também. Quis dizer não, mas acenou a cabeça de forma positiva e o garoto sentou no outro. Ao menos ficou calado lendo uma revista bruxa qualquer.

Mais algum tempo depois, outro garoto entrou na cabine. Um magricela de óculos, cabelo revolto e moreno. Olhou para ambos e abriu um sorriso largo como se acabasse de reencontrar velhos amigos, então entrou na cabine e começou a tagarelar sobre o primeiro dia e qual casa gostaria de ir. Depois falava sobre Quadribol e seus olhos pareciam brilhar. O garoto gordinho, que antes parecia tímido, agora falava acompanhando a empolgação do outro. Já o terceiro garoto, olhava os dois de forma quase ausente. Lembrava de seus pais, do seu problema e da chance única que tinha ao poder ir para Hogwarts. Então continuou calado.

A porta da cabine foi aberta mais uma vez, revelando duas figuras. Um rapaz alto com um distintivo de monitor que usava e vestes revelando sua casa sonserina. O outro, um garoto de cabelos desgrenhados tão escuros que pareciam azuis e olhos que escondiam revolta, curiosidade e orgulho. O monitor olhou de forma desdenhosa para os ocupantes mirins.

"Vê, Sirius? Essa é a ralé com que sua mãe me pediu de que o protegesse." Disse o rapaz de forma ácida.

"Quem você chama de ralé?" Perguntou o garoto magricela corajosamente.

"Você e seus amigos, Potter-Traidor-do-Sangue." Respondeu quase cuspindo. "E olhe como fala comigo, fedelho. Sou monitor."

"E só por isso acha que pode nos tratar mal?"

"Vamos embora, Thomas." Pediu Sirius, o garoto de cabelos desgrenhados que, até então, só assistia.

"Sou seu superior." Continuou Thomas, o monitor, ignorando o pedido de Sirius.

"Nos seus sonhos, donzela."

Thomas, num gesto rápido, tirou a varinha de dentro das vestes e apontou para o garoto magricela que não mexeu um centímetro. O garoto gordinho arregalou os olhos e afastou alguns passos temendo o pior. O terceiro garoto olhava a cena entre a surpresa e a preocupação.

"Me dê só um motivo." Sibilou Thomas.

"Seu cara de bosta." Disse o garoto magricela quase cantando.

O rapaz monitor até chegou a dizer as primeiras palavras do feitiço, mas uma luz avermelhada o atingiu primeiro. Todos os olhares se voltaram para Sirius que estava com a própria varinha erguida e depois para Thomas que estava desacordado no chão. Mesmo o terceiro garoto estava agora de pé, junto do garoto magricelo e do gordinho.

"Oh, droga." Disse Sirius guardando a varinha nas vestes.

"Er.. obrigado." Agradeceu o garoto magricela.

"Não me agradeça, Potter." Falou rispidamente. "Não fiz nada que mereça ser agradecido. Ataquei um monitor, seu imbecil. Por sua causa."

"Mas você o salvou. Ele poderia ter estuporado o James." Disse o garoto gordinho.

"E o que me importa? Vocês são plebe!"

"Plebe?" Repetiu o garoto magricela indignado. "Eu não pedi sua ajuda. Você se meteu porque quis."

"Não fale comigo." Disse Sirius rudemente.

"Com licença." Disse o terceiro garoto de forma polida atraindo a atenção dos outros três. "Sugiro a vocês, James e Peter, que entrem de volta na cabine. E você, Black, não sei o que o levou a nos ajudar, mas obrigado. De qualquer forma, se não era sua intenção não deveria te-lo feito." Voltou para dentro da cabine e fechou a porta.

Sirius foi escolhido para a Grifinória e dividiria o dormitório junto do garoto magricela, do garoto gordinho e do terceiro garoto. Naquela mesma noite, recebeu detenção por dois finais de semana seguidos por atacar um monitor com mágica sem permissão, mas recebeu pontos por proteger colegas.

Harry havia enviado uma coruja para Remus. Não via o lupino há algum tempo e queria saber como ele estava. Após Edwiges virar apenas um pontinho distante, desceu até a sala para juntar-se aos Weasley e Hermione. Desde sua chegada, passaram a tarde entre jogos bruxos, torneios de Quadribol e revisões das tarefas – apesar dos resmungos de Rony -. Estava próximo a hora do jantar e todos concentravam-se perto da cozinha ajudando a senhora Weasley a pôr a mesa ou simplesmente esperando a comida ficar pronta.

"Harry, querido." Chamou Molly. "Lave as mãos e venha jantar."

Quando todos estavam à mesa e já se serviam, o senhor Weasley chega adentrando a casa, mas não vinha sozinho. Ao seu lado estava Cornélio Fudge, o Ministro da Magia. Todos pararam a conversa e olharam entre a surpresa e a confusão, para Fudge.

"Molly, crianças." Cumprimentou Artur.

"Boa noite." Cumprimentou Fudge.

"Harry, pode vir um instante até a sala?" Perguntou Artur sorrindo.

Todos olharam para o moreno que trocou levantou-se calmamente e foi até os dois que o guiaram até a sala. O senhor Weasley os fez sentar, ofereceu todas as bebidas possíveis – que foram, educadamente, rejeitadas – e retirou-se deixando Fudge a sós com Harry.

"Como tem andado, senhor Malfoy? É um prazer revê-lo." Disse Fudge.

"Bem, obrigado." Disse Harry. "E o senhor, senhor Fudge?"

"Bem, bem. Obrigado." Sorriu. "Vou direto ao assunto, Harry. Você deve estar sabendo sobre a fuga de Sirius Black."

"Sim."

"E o que você sabe sobre ele?"

"O que dizem no jornal, que é um seguidor de Volde... Você-Sabe-Quem e fugiu para continuar o serviço do mestre." Franziu o cenho. "Mas o que isso tem haver comigo?"

"Você bem sabe, Harry, que Lucius foi um seguidor de Você-Sabe-Quem. Só estou preocupado com sua segurança. Ainda mais agora com Black a solta."

"O senhor está insinuando que meu pai possa ter ajudado Black a escapar?"

"Como eu disse, só estou preocupado com sua segurança." Defendeu-se. "O Ministério está com todos os Aurores trabalhando fervorosamente, dia e noite, em busca de Black. E nunca vi os Dementadores tão irritados. Acredito que o pegaremos logo."

"Fico aliviado em ouvir isso." Sua voz era seca.

"Bom, acho melhor eu ir." Levantou-se. "Tenho certeza de que os Weasley tomarão conta de você. Boa noite, Harry."

Ai, demorei. Desculpae :~

O capítulo não saiu muito grande e pode parecer estranho para alguns ver o Sirius tão Black e o Remus um pouco menos gentil, mas vocês vão entender com o passar dos capítulos. Sem pressa e sendo feliz :)

E novidade, tenho uma beta! Mah Jeevas, um olá especial pra você e, de novo, obrigada pela betagem!

E já sabem, né? Críticas, sugestões ou o que for, mandem :D

Sorrisos.