DIA 14
- ILHAS DA NOSTALGIA -
Quantos dias será que faz desde
a última vez que nós fomos
chamados para a Távola Redonda?
Lexci estava sentado em seu assento, esperando que Milnuxos aparecesse.
Metade dos treze assentos na fileira
estão vazios. O Alex está sentado
no assento dele, de braços cruzados.
Ele não parece muito feliz. Parece
que a Onix ainda não veio. Parando
para pensar, a Onix não tem um
assento. Talvez ela se sente em um
dos assentos vazios. Se for o caso,
em qual deles ela se sentará?
O ar na sala tremulou, e a figura de Milnuxos surgiu.
Mas a Onix ainda não chegou.
Lexci pensou em falar alguma coisa, mas Milnuxos abriu a boca.
Milnuxos: Onix se foi.
Ouvindo palavras tão inesperadas, tudo o que Lexci conseguiu fazer foi olhar para Milnuxos. Os outros membros também pareciam tão surpresos quanto ele.
Mas por que — por que
ela iria embora?
Edmyx encolheu os ombros.
Edmyx: Whoa, whoa, calma lá... quer dizer que ela, tipo, simplesmente deu no pé?
Dilxan: Hah, absurdo. O que a levaria a escolher a sua própria liquidação?
Ela jamais faria algo assim. De jeito nenhum.
Ela só pode ter tido uma razão. Talvez o
tal impostor da Organização tenha feito
alguma coisa horrível com ela novamente...
Uma infinidade de pensamentos rodeavam e rodeavam por dentro de sua cabeça, aparecendo e desaparecendo.
O que fazer, o que eu
devo fazer —?
Foi quando Milnuxos voltou a falar, interrompendo seus pensamentos.
Milnuxos: Pelo contrário. Ninguém deverá buscar por Onix sem a minha permissão expressa.
Lexci nem sequer pensou.
Lexci: O quê? Por que não?!
Por que eu não posso
buscar por ela?
Diante daquele grito impulsivo, Milnuxos encarou Lexci por um instante, mas não disse nada em resposta. Asïx foi quem abriu a boca.
Asïx: A sua "amiga" será deixada de lado. Ou você prefere que a gente pense em uma punição?
Lexci: Eu prefiro que vocês a tragam de volta!
O tom que Lexci usara era forte. Mas Asïx respondeu com um tom gelado.
Asïx: E por que faríamos isso?
Diante de tais palavras, Lexci se paralisou — ele não foi capaz de formular uma resposta de imediato.
Eu só queria que as coisas
fossem como estavam sendo até
agora. Mas mesmo se eu dissesse
isso, o Asïx não consentiria.
Enquanto Lexci hesitava, Milnuxos voltou a falar, lentamente, em um tom de advertência.
Milnuxos: Tudo será revelado quando a hora chegar.
Alex, que havia permanecido sentado em silêncio, com os braços cruzados, durante todo o tempo, ergueu o olhar.
Alex: Uhm... ou seja, se a hora não chegar, tudo pode ficar como está.
Asïx o encarou.
Asïx: Lorde Milnuxos já se pronunciou. Obedeçam, ou encarem seu fim.
A figura de Milnuxos desapareceu. E então, um por um, os outros membros se foram, até que apenas Alex e Lexci restassem na Távola Redonda.
Lexci: ...Alex —
Alex: Missão, vem.
Como se para evitar que Lexci falasse sobre Onix, Alex desapareceu.
O que isso quer dizer...? A Onix tem
estado estranha já há um bom
tempo. Mas agora que eu paro pra
pensar, o Alex... também me
pareceu estranho. Parece que todo
mundo sabe sobre o que estava
acontecendo com a Onix, menos eu.
Lexci abaixou o olhar, observando o centro da sala.
Foi aqui aonde eu vi a Onix pela primeira
vez. Naquela vez — como estava o
rosto dela...? Estou tentando me lembrar,
mas não consigo. É como se fosse algo
que aconteceu há muito, muito tempo
atrás. Hoje é o 256º dia desde que eu me
juntei a Organização. Eu contei ontem, daí
eu sei. Então, como a Onix veio no meu
7º dia, fazem certamente 249 dias.
Lexci deu um suspiro, e deixou a sala para ir atrás de Alex.
{ . . . }
Essa sala branca meio que me faz
lembrar do Castelo do Esquecimento.
Yami se sentou em uma das cadeiras ali dispostas. Ele estava em uma sala no interior da construção conhecida como mansão mal-assombrada, posicionada nos arredores da Cidade Crepuscular. E do outro lado da mesa, uma jovem garota loira estava sentada — seu nome era Maiko. E a outra garota, uma com um cabelo de outra cor, que estava adormecida em outro lugar, se chamava Onix.
Essas duas garotas tem mais pontos em
comum do que apenas a aparência. Sim. Ambas
cooperaram com a Organização no passado.
Maiko: Eu não sabia se o veria novamente.
Yami: Você me fez uma promessa.
Maiko: Cuidar do Sora — eu me lembro.
Maiko abaixou o olhar, encarando o caderno de desenho em suas mãos. E então, ela murmurou.
Maiko: Me desculpa... eu não sei se cumpri muito bem com a minha promessa.
Yami: O que houve?
Maiko: Algumas das memórias do Sora estão faltando.
O olhar de Maiko se voltou para a mesa adiante.
"Cuida do Sora."
Essa fora a promessa que Maiko fizera a Yami no Castelo do Esquecimento, muitos meses antes. Maiko, a bruxa de memórias, era a única pessoa com o poder especial de desatar e reconectar as memórias que haviam sido reescritas no interior de Sora.
Tenho certeza que uma vez Maiko disse
que memórias nunca desaparecem.
Que poderia demorar um tempo, mas
que depois disso, ele voltaria ao normal.
Yami: Como pode ser?
Memórias faltando? Como pode?
Maiko: Elas estão escapando pelo Incorpóreo do Sora, para uma terceira pessoa —
Ela parecia falar consigo mesma. Por fim, ela olhou para Yami.
Maiko: — E agora elas estão começando a se tornar parte dela.
Sua voz era clara. Maiko estava falando a verdade.
"Dela" — ela está falando da Onix. E agora,
a Onix está dormindo naquele lugar. Pode ser
que isso seja um efeito que as memórias do Sora
que fluíram para ela tenham sobre seu corpo.
Yami: E você não pode pegar as memórias de volta?
Maiko: Se elas continuarem separadas... então sim, acho que eu posso...
Maiko voltou a olhar para a mesa.
Maiko: Mas se elas se unirem com as memórias dela, as coisas ficarão muito mais complicadas. Eu teria que desembaraçar as memórias dela antes de poder terminar com o Sora — o que devia levar meses, pode levar anos. TeZ ficaria furioso.
Maiko observava um desenho feito em seu caderno de desenho. De onde estava sentado, Yami não conseguia ver o que era.
Yami: Então qual é a solução?
Maiko: Se eu simplesmente fosse lá e rearranjasse as memórias dela... então eu arriscaria fazer com que o Sora acordasse apenas para descobrir que ninguém se lembra dele. Eu não posso fazer isso com ele. As memórias dela incluem aquelas memórias falsas criadas no Castelo do Esquecimento, as memórias do Sora, e as memórias que fluíram para ela, vindas de várias coisas, tudo misturado. Eu não sei dizer quais são as certas e quais não são.
Se damos a maior prioridade ao despertar
do Sora, creio que todo o resto acaba mesmo
sendo descartado. Mas, ainda assim... será
que não há mesmo nada que possa ser feito?
Será que dois indivíduos tem mesmo que
ser sacrificados pelo bem do Sora? TeZ com
certeza diria que Incorpóreos nem sequer
são indivíduos. Mas agora que eu me
envolvi com tudo isso, eu não quero fazer
essas coisas. Como aniquilar a Onix — uma
vez que o rosto dela era daquele jeito.
Maiko: Além disso, também já é tarde demais para isso. O despertar dele terá que sofrer um atraso. Eu jamais cheguei a imaginar que o Incorpóreo do Sora e aquela outra lutariam tanto assim pelo seu ser original. Infelizmente, a única solução de verdade... é que ambos se vão.
Maiko mostrou seu caderno de desenho para Yami. Ela havia desenhado três pessoas vestindo casacos da Organização.
O cara ruivo eu conheci no Castelo
do Esquecimento. O outro, esse loiro, é
o Incorpóreo do Sora. Eu nunca o conheci.
E a pessoa de cabelos negros é a Onix.
Maiko: Você sabia que no início ela não tinha um rosto? É só agora que eu consigo ver alguém.
Ela não tinha um rosto — o que será
que ela quer dizer com isso?
Antes que Yami pudesse perguntar, Maiko continuou.
Maiko: Isso prova que algumas das memórias do Sora estão dentro dela. Algumas dentro dela, algumas dentro do Sora... outras dentro do Incorpóreo do Sora... já não consigo mais separá-las. Tudo o que eu posso fazer é recolher as peças quando o que tiver de ser feito for feito.
Maiko fechou a boca.
Então realmente não há outra
forma... mas ainda assim —
Yami se levantou.
Yami: Muito bem, então.
E então, ele deixou o quarto para trás.
{ . . . }
Eu não sei quando desmaiei. Quando
acordei, eu estava nessa sala
quieta. Mas ela me parece tão solitária.
Despertando, Onix se sentou, erguendo lentamente sua cabeça. Não havia ninguém no quarto aonde ela se encontrava.
Eu devo ter — é, eu desmaiei no Castelo
do Esquecimento. Eu descobri sobre
mim naquele castelo. A minha verdadeira
identidade — eu... não era eu. Eu não
era ninguém. Mas, e então, quem sou eu?
E então, Onix se lembrou que lugar era aquele.
Esse lugar — essa é a Fortaleza das
Trevas. O mundo aonde o Yami e
o Sora lutaram. E esse é o quartinho
que Yami usou durante o tempo
que passou com a Malévola. Eu me
lembro. Eu me lembro de tudo
sobre o que aconteceu na primeira
vez que vim para esse mundo.
Sobre o Yami, sobre o Sora, tudo.
Onix se levantou da cama e deixou o quarto.
E então, Onix — para onde você
acha que devemos ir agora?
{ . . . }
Hoje é o meu 257º dia, e o 2º dia
desde que a Onix foi embora.
{ . . . }
Hoje é o meu 258º dia, e o 3º dia
desde que a Onix foi embora.
{ . . . }
Eu sei que tenho que fazer alguma
coisa, mas eu não sei o quê.
Lexci se sentou no ponto de encontro, abraçando seus joelhos. Ele não havia comprado um picolé.
O Alex não tem vindo. Talvez ele esteja me
evitando. Eu não sei por quê ele faria isso.
Mas eu não consigo deixar de pensar a
respeito, vendo que ele não vem mais pra cá,
mesmo estando as coisas como estão.
Eu não ouvi nada sobre a Onix abandonar
a Organização, mas talvez o Alex tenha
ouvido. Eu devia perguntar diretamente pra
ele, mas por algum motivo eu estou com
medo. Não consigo nem ir pro quarto dele.
Por que algo assim seria assustador?
Sem fazer nada, mas se perguntando o que fazer, os dias foram se passando para Lexci.
Hoje é o meu 262º dia, e o 7º dia
desde que a Onix foi embora.
Os dias tão passando tão rápido.
Tudo o que eu sei é a data. Eu nem
sequer me lembro o que tenho
feito nas minhas missões. Por algum
motivo, eu tenho me sentido de
fato muito confuso. Não consigo
reunir meus pensamentos. E eu sonho.
É claro que eu não me lembro sobre
o que tenho sonhado. E não são
só os sonhos — ultimamente, eu não
tenho conseguido me lembrar de
nada. Eu sei que não estou me
lembrando. Eu sinto que tem algo de
errado comigo, mas... mas eu também
não consigo entender isso. A Onix
não tá aqui. E eu também não tenho
visto o Alex. É por isso que eu não
entendo. Como eu fico só sonhando e
sonhando, mesmo que seja o meu
próprio eu fazendo isso, eu nunca tenho
certeza se estou dormindo ou não.
Até parece que eu estou. Talvez seja
tudo um sonho. Será que eu estou
me sentindo mal porque não tenho
dormido bem? Ou estarei dormindo
mal porque não me sinto bem durante
todo o dia? Eu me sinto sonolento mesmo
durante as missões. Na verdade, não
é sono. Sinto como se a minha cabeça
estivesse sempre nebulosa — como se
eu sempre estivesse no crepúsculo.
{ . . . }
Na Távola Redonda, estavam reunidos o mesmo trio de sempre — Milnuxos, Braxig e Asïx.
Milnuxos: É preciso um maior reforço para com as memórias de Lexci, agora que Onix se foi.
Asïx: Os preparativos já estão prontos.
Segurando uma risada, Braxig se voltou para Asïx.
Braxig: Como você vê a Onix?
Asïx: O que você quer dizer com isso?
Palavras vagas. Uma clara
motivação é tudo o que importa.
Braxig abriu um largo sorriso, e então se voltou para Milnuxos.
Braxig: Não importa o que eu quero dizer. Mas e quanto a você?
Milnuxos olhou para Braxig.
Braxig: De vez em quando, nós não vemos nela a cara de um e o focinho do outro, como dizem?
Braxig deu de ombros, e Milnuxos sorriu.
Isso é um sim ou um não?
Milnuxos: Fique de olho no Lexci.
Sem responder a pergunta de Braxig, Milnuxos desapareceu.
Braxig: Isso aí, faça o seu melhor.
Braxig foi logo atrás dele.
O que será que o Braxig estava
tentando dizer...?
{ . . . }
Onix vagava pelos mundos como um errante, e Yami a seguia todo o tempo. Foi quando — ela chegou em um mundo familiar. Yami sentiu seu coração começar a bater levemente mais rápido. Ele podia sentir o cheiro da água salgada. E ouvia o som das ondas — o mar azul e o céu azul. A terra natal que ele abandonara um ano antes.
Eu não pensei que voltaria
para cá desse jeito, sem tempo
de preparar o meu coração.
Onix vagava rumo a margem da praia. Yami lançou um olhar ao horizonte. Essas eram as Ilhas do Destino. O oceano de sua terra natal — a sua casa.
"Foi você quem destruiu a sua casa!"
Essas palavras ecoaram por sua mente, palavras que Ixenzo o havia dito no Castelo do Esquecimento.
Eu tinha vindo para casa uma vez,
para umas Ilhas do Destino falsas, no
Castelo do Esquecimento. E lá, eu
vi o Wakka, e a Selphie, e o Tidus. A
Hikari, é claro, e a Maiko também.
Mas era uma ilusão feita de memórias.
Sentindo uma breve dor de cabeça, Yami pressionou suas têmporas. E então Onix se virou, sentindo alguma coisa. E aquele rosto —
Sua dor de cabeça se intensificou. As ondas iam dissolvendo as pegadas de Onix. E levando um pouco de areia consigo, as ondas revelaram uma concha. Era uma concha de Netuno.
"Antigamente, os marinheiros sempre levavam consigo as conchas de Netuno. Elas lhes garantiam uma viagem segura."
É como um amuleto
para os viajantes.
Onix pegou a concha. Foi quando Yami sentiu a presença de alguém. Onix se virou. Ela murmurou.
Onix: — Lexci!
Esse nome pertencia à silhueta que havia surgido. Ela deu um passo adiante, hesitou, e então se escondeu nas sombras de uma rocha, deixando a concha aonde estava antes.
Esse garoto que surgiu na praia está
vestindo um casaco negro, como
nós — é o Lexci... o Incorpóreo do Sora.
Yami verificou a imagem do rapaz.
Não consigo dizer se ele se
parece com o Sora daqui.
Lexci pegou a concha que Onix derrubara. E então, Onix suspirou. Ela levou as mãos até a cabeça.
Yami: — Onix?
O corpo de Onix despencou na areia, e Yami instantaneamente se lançou em sua direção, tomando-a em seus braços.
{ . . . }
Ao som da minha voz, um garoto abriu
os olhos. Não... fui eu quem abriu
os olhos? Tive a impressão de que eu
estava falando com alguém na beira
dessa ilha, aonde aquela garota estava
sentada antes, por isso que eu vim
para cá. Mas eu não consigo entender.
Eu... era um garoto? Ou alguma outra
pessoa? Quem sou eu, afinal? Eu
quero assistir o sol afundado em meio
ao mar na beira dessa ilha, junto
com eles dois. Nós prometemos. Nós
prometemos que iríamos todos para
a praia. Não se esqueça, Lexci.
{ . . . }
A missão que ele recebera era a de investigar um novo mundo. Era um lugar aonde ele nunca havia estado — um mundo que ele nunca havia visto.
Normalmente, eu costumo gostar de
ir para lugares desconhecidos.
Mas agora, não tenho tanta certeza.
Lexci observou o mundo que começava a se abrir do outro lado do Corredor das Trevas.
O mar azul — o céu claro e brilhante. Esse
mundo se chama... devem ser as... ah é, são as
Ilhas do Destino. É um lugar meio estranho.
Lexci caminhava pela costa, as ondas quebrando sob seus pés. Foi quando ele sentiu que havia esbarrado em algo. Diante dele, havia uma concha.
É igual àquelas que eu ganhei da Onix.
Será que a Onix também já esteve
nesse mundo? O oceano... talvez essa
seja a praia que combinamos de ir juntos.
Foi quando ele viu uma figura obscura no píer usado para se atravessar para uma pequena ilha a sua esquerda.
Uma figura obscura — um
casaco negro. Onix?
Lexci saiu correndo. Ele gritava, já subindo pela praia.
Lexci: Onix!
Onix se virou, seu capuz ainda erguido, e então levou as mãos até ele. Por debaixo do capuz, quem se revelou era — Ixenzo.
Por quê? Ele não tinha sido aniquilado? O que
o Ixenzo tá fazendo num lugar como esse?
Ixenzo: Certamente, você já devia saber que isso aconteceria.
?: Por que é que eu saberia?
Uma voz surgiu atrás de Lexci, e ele se virou. Lá estava um rapaz de cabelos prateados que Lexci não conhecia. Ixenzo estava falando com o tal rapaz.
Ixenzo: Porque, na sua memória, você já esteve em um número de mundos antes de vir para este. E, é claro, nesses mundos, os únicos com quem você se encontrou foram seres das trevas.
Minha cabeça tá doendo.
Sinto como se ela
estivesse se partindo.
O rapaz de cabelos prateados encarava Ixenzo.
Ixenzo: Isso é tudo o que resta no seu coração — as mais obscuras das memórias. Suas memórias de casa se foram. Cada uma delas.
?: Isso é mentira! Eu me lembro de todos daqui das ilhas! Eles são os meus... meus melhores amigos.
Esse garoto... tá gritando.
Não... esse grito... tá vindo... de
quem? De mim? Da Onix...?
Ixenzo: E quem foi que se desfez desses amigos?
Até parece que eu me
desfaria dos meus amigos.
Ixenzo: Talvez seja das suas próprias ações que você se esqueceu.
Eu jamais me esqueceria.
Ixenzo: Foi você quem destruiu a sua casa!
Eu jamais destruiria nada —!
Mas... eu não sei. Talvez eu tenha
destruído a minha casa. Mas aonde é
que fica — a minha casa? Eu tenho uma
casa? O som das ondas é tão alto e
chato. Minha cabeça tá doendo.
{ . . . }
Maiko olhava para a capsula aonde Sora dormia. Ela murmurou.
Maiko: Será que... Yami...?
Tem memórias fluindo para fora do
Sora, e ao mesmo tempo, fragmentos
de memória estão voltando para ele.
Estou sentindo um grande número
desses fragmentos. E não é apenas
um — são bem mais. Fragmentos
de memórias de muitas pessoas — e
as memórias do Yami também estão
misturadas aí. Eu já manuseei as
memórias do Yami antes, uma vez,
quando copiei essas memórias para a
Réplica, e por isso eu as reconheço.
Por que será que ela está absorvendo
até mesmo as memórias do Yami?
O que está acontecendo, afinal?
E, você — o que será ela?
{ . . . }
Yami quietamente segurava o corpo caído de Onix em seus braços. Parecia que ela havia perdido a consciência. A cabeça de Yami doía, fazendo-o franzir as sobrancelhas.
Qual é a dessa dor...? Ainda agora, quando
eu me lembrei das palavras do Ixenzo, a fraca
dor de cabeça que eu estava sentindo ficou
terrivelmente pior — a dor está realmente muito
forte. Eu nunca havia sentido uma dor como
essa antes, e ela me fez perder a consciência
por um momento. O que tá acontecendo?
Ainda de olhos fechados, Onix sussurrou.
Onix: Quem sou eu...? Por que é... que eu estou aqui?
Sentindo-se inquieto, Yami ergueu brevemente sua venda e olhou para Onix. Por um momento, o rosto de Onix — parecia o de outra pessoa.
Essa não é a Maiko, nem
a Hikari. É — é ele.
Nesse instante de alucinação, a dor de cabeça de Yami se extinguiu quase que por completo.
O que diabos é isso?
Então, ao ouvir passos de alguém que corria pelo píer, Yami ergueu o olhar. Ele viu a figura de Lexci correndo, até desaparecer num Corredor das Trevas.
{ . . . }
Nós três estamos assistindo
ao pôr-do-sol. Nós prometemos que
viríamos à praia, não é? Então, foi
isso o que fizemos — certo?
Onix assistia o sol que se punha afundando no horizonte. Lexci estava logo ao lado dela, e Alex também. Eles pareciam envolvidos pelo som das ondas.
Nós três já assistimos ao pôr-do-sol
desse jeito há um bom tempo, não é? Mas,
eu sei. Isso é uma ilusão. É apenas um
sonho, me mostrando o que eu mais quero.
Numa pequena voz, Onix murmurou.
Onix: Quer dizer que eu não deveria existir?
Alex se voltou para ela.
Alex: Bem, o que você quer fazer, Onix?
Onix pareceu pensar por um momento.
Essa é a primeira vez que me
perguntam uma coisa e eu tenho que
parar e pensar sobre a resposta.
Onix: Eu quero — eu quero ficar com vocês dois.
Sim. Eu apenas quero ficar junto com
eles dois. Mas eu sou irregular, sou só uma
cópia. Eu nem mesmo me qualifico para
ser um membro da Organização.
Lexci: Então volte conosco.
Eu adoraria, se eu pudesse.
Onix: Eu não posso... não da forma como estou agora. Mas... do que eu precisaria para ser como vocês?
Lexci e Alex apenas observaram o pôr-do-sol, sem lhe dar uma resposta.
{ . . . }
Onix se mexeu nos braços de Yami. Ele nunca pretendera de fato entrar em contato com ela desse jeito, ou salvá-la desse jeito. Ele apenas pretendia dar para esta pessoa chamada Onix — que afetava as memórias de Sora — uma pequena ajuda para deixar a Organização. E ele também pretendia ficar de olho nela, para saber o que estava fazendo.
Eu nunca pensei que entraria
em contato com ela nesse lugar — na
minha ilha, na minha casa.
Onix abriu os olhos. Ela parecia estar em dor.
Onix: Você é o...?
Depois de hesitar por um momento, pensando em como deveria responder, Yami decidiu contar a verdade.
Yami: Yami — amigo do Sora.
Onix: Sora? Você conhece o Sora?
Yami: Aham.
Yami ajudou Onix a se erguer.
Onix: — Obrigada.
Yami encolheu brevemente os ombros. As pessoas não tinham o costume de demonstrar esse tipo de gratidão para ele.
Onix: Você me salvou... mas eu não sei porque... o fez.
Yami: Acho... que só me deu vontade de fazê-lo.
Yami parecia evasivo, escutando cuidadosamente ao som das ondas.
Esse som nunca muda. O som das
ondas — o som da maré.
Onix olhou para a beira da ilha, e então abriu a boca.
Onix: Yami, por favor... me conte mais — sobre o Sora, e aquela garota que está sempre junto com ele.
Yami: Se refere à Hikari.
Falar o nome dela fez com que o peito de Yami doesse um pouco.
Onix: Hikari... isso mesmo. É ela que tanto se parece comigo.
Yami: Para o Sora, ela é alguém muito especial.
Yami olhou para o horizonte. Ainda não se fazia nem um ano, mas aquele dia em que eles conversaram naquela ilha parecia ter acontecido há muito tempo atrás.
Onix: É que... eu me lembro de coisas sobre eles dois. Mas eu não sou nada além de uma marionete — algo que alguém criou. Então por que eu teria... as memórias deles?
Sem responder, Yami observou as ondas.
Onix: Você sabe aonde o Sora está agora?
Yami: Esse segredo fica comigo.
Onix: Mas por quê?
Diante daquela pergunta, Yami resolveu contar tudo para ela.
Se a Onix nasceu das memórias
do Sora, então a Onix é uma
parte da totalidade do Sora. Me
parece errado mentir para ela.
Yami: Onix... as suas memórias... na verdade, elas pertencem ao Sora.
Onix: Então quer dizer... que eu sou como uma parte dele?
Onix abaixou o olhar. As ondas molhavam os seus pés.
Yami: O que acontece é que quando as memórias dele se dispersaram, algumas delas se deslocaram para dentro de você. Agora, Sora foi posto para dormir, para que possamos realinhar as peças da memória dele — só que...
Yami ia continuar, mas Onix se virou, erguendo o olhar.
Onix: Vocês não podem, porque parte delas está dentro de mim. E isso quer dizer... que ele não pode acordar.
Yami: Isso — você entendeu. Mas... se você viesse comigo até o Sora agora, nós poderíamos devolver as memórias que estão dentro de você para ele.
Onix desviou o olhar por um segundo, mas se virou novamente, voltando a olhar para Yami.
Onix: Então — você me odeia por eu ter tirado o seu amigo de você?
Yami: Não. Só acho... que estou triste.
O que eu entendi depois de ter falado
com a Onix — é que ela é uma
garota que me faz pensar no Sora, e
na Hikari que há dentro do Sora.
É por isso que eu não consigo odiá-la.
Só o que consigo fazer é ficar triste.
Onix: Me desculpa, mas... eu não posso ir com você. São os meus amigos — eles precisam de mim. E eu também preciso deles.
Amigos...
Yami usou sua consciência para refletir sobre essas palavras.
A força de notar clara e francamente o que
há no coração de alguém. Essa é uma força do Sora.
Yami: Talvez... você deva tirar um tempo para pensar sobre o assunto. Descubra quem é que mais precisa de você. E qual é o seu lugar.
Onix: E como eu posso saber... qual realmente é o meu lugar?
Onix abaixou a cabeça novamente.
A hesitação, a agonia dela.
Também é exatamente como no Sora.
Onix: Não sei se eu posso te prometer que encontrarei a resposta certa.
Yami: Bem, a resposta que você encontrar não pode ser a certa apenas para você. Tem que ser uma que funcione melhor para todos — para você e seus amigos, e para todos os outros.
Acho que eu só estou tentando
fazer a cabeça dela. Não,
não tem razão para acreditar nisso.
Yami olhou para o horizonte novamente. O sol, que já afundava, pintava o oceano de vermelho.
Onix: Eu vou tentar. Obrigada, Yami.
E por fim, Onix abriu um pequeno sorriso.
{ . . . }
Eu devia aceitar logo isso.
Alex mordeu seu picolé, observando vagamente o sol que se punha.
O que eu devo fazer? O que eu quero
fazer? Parece que eu só tenho pensado
nisso, já há um bom tempo. Réplicas
construídas, e Incorpóreos inexistentes.
Nós não somos tão diferentes assim.
Alex suspirou.
Corações não existem para os Incorpóreos. Nós
só temos um ser. Um ser controlado por memórias.
Eu estive pensando ultimamente — se todas as
minhas ações são controladas por memórias, então
talvez eu não seja controlado apenas pelas minhas
memórias humanas, mas também pelas memórias de
ontem, pelas memórias de um segundo atrás. É que
provavelmente aquelas memórias dos meus dias
humanos, de quando havia um coração, apenas são
excessivamente vívidas. O que eu quero fazer?
E o que eu devo fazer? Eu não sei se trazer a Onix
de volta para a Organização seria mesmo a melhor
coisa para ela. Apesar de que, é claro, a resposta
para isso não é algo que seria decidido enquanto
eu tomo picolé aqui. A evidência — está vindo.
E então — Lexci apareceu.
Lexci: Nossa, você tá mesmo aqui.
Ele parecia surpreso. Alex se virou, dentre um sorriso.
Alex: Faz um tempão, né?
A expressão no rosto do Lexci me parece meio
distante. Bem, acho que já era de se esperar.
Lexci se sentou ao seu lado, como sempre, e começou a falar.
Lexci: Eu tive que ir pra praia na minha missão de hoje.
Ele deu uma mordida em seu picolé.
Lexci: Tinha uma garota meio parecida com a Onix...
Alex olhou para Lexci. O olhar de Lexci parecia um tanto apagado.
Lexci: Mas eu não pude me aproximar o bastante para ter certeza. Provavelmente foi a minha imaginação. Para ser honesto, eu não tenho nem certeza se a missão de hoje realmente aconteceu.
Lexci deu outra mordida em seu picolé.
Lexci: Eu sinto como se tivesse acabado de acordar de um sonho, ou algo assim.
Parece que o desaparecimento
da Onix mexeu com o Lexci.
Lexci voltou a falar, sem nem ao menos olhar para Alex.
Lexci: Isso vai parecer loucura, mas você lembra que a gente prometeu que iríamos todos para a praia?
Alex: Aham.
Lexci: Bem, eu acho que só a vi lá... porque eu queria que ela estivesse lá.
Lexci observou o pôr-do-sol.
Eu devia — aceitar logo isso,
não é...? Definitivamente.
Alex se levantou vagarosamente, alongando-se largamente.
Alex: — Tá afim de procurar por ela?
Lexci: Uhm? Mas as ordens do Milnuxos...
Lexci enfim olhou para Alex. Alex sorriu para ele.
Alex: Ordens? Danem-se as ordens. A partir de amanhã, vamos usar o tempo vago que temos entre o trabalho e nossos encontros aqui para tentar encontrar a Onix.
Lexci: Beleza... é, tá combinado!
Lexci consentiu, e se levantou junto a Alex. E então, ele sorriu. Ver aquele sorriso fez com que um pensamento surgisse dentro de Alex.
Quando será o dia em que nós três
poderemos ir para a praia...?
E então, como se quisesse negar o próximo pensamento que surgisse, ele olhou para o sol.
