Tarado?

Naquela cidade as pessoas entravam no ônibus pela porta de trás e saiam pela da frente.

Sentado no fundo do ônibus, atrás da porta, Joílson voltava do seu colégio para à casa. Ele era um garoto normal de dezoito anos, levando-se em conta que normal é um termo muito relativo. Seja lá como for, estava longe de ser mau intencionado. Ao contrário, ele era considerado inocente, até mesmo bobo, pelos seus conhecidos. O adolescente tinha pele morena, cabelo encaracolado e um porte físico regular. Era bonito, mas sua falta de traquejo social não o transformou em um namorador.

A viagem seguia a mesma rotina de sempre, até que um fato atípico e embaraçoso aconteceu. Joílson não sabia se era o fato de, por coincidência, muitas meninas bonitas terem entrado no veículo e, por ele estar no fundo, ter tido o privilégio de ver as partes mais atraentes de seus corpos, o bumbum, com enfase.

O suor frio desceu de sua testa enquanto um calombo subia de sua calça. Ele desejava ter um classificador, um caderno ou qualquer coisa para esconder aquele inconveniente. Para o seu azar, ao seu lado haviam duas meninas lindas que não tardaram a notar a excitação do garoto. Ambas o secaram com o canto do olhar. Achavam graça do ocorrido ao mesmo tempo que a visão do evento despertava nelas certo interesse.

Quando fingir que nada acontecia se tornou impraticável, Joílson saiu do ônibus sem se importar de ter saltado muitos pontos antes de sua casa. Ao descer ele ainda teve que ouvir o grito de uma das garotas que estavam sentadas ao seu lado. De tão envergonhado ele nem entendeu o que ela havia falado, mas deu para perceber que era alguma putaria.

- Por que está andando estranho? - Mães amorosas e protetoras gostam de cuidar dos filhos, mas essa característica as vezes fazem com que sejam inconvenientes.

Joílson tratou de ir ao banheiro e com fúria fez com que o líquido que provocou sua humilhação fosse expelido do seu corpo. O prazer que adveio da ação não fez com que sua dor no peito passasse. Com baixa autoestima, se achando uma aberração, o adolescente tomou um banho e cogitou absurdos achando que aquele tipo de problema nunca tinha acontecido com outro homem da Terra.

Sem saber o motivo, Joílson percebeu que as coisas pioraram. Chegou ao ponto de durante uma aula ele ter que pedir licença para ir ao banheiro. Por sorte, daquela vez ninguém havia notado. No entanto, o medo de ser pego criou uma excitação que aumentou o prazer. O ser humano é contraditório. As vezes pesadelos e sonhos andam de mãos dadas. As mesmas coisas que originam os medos e vergonhas geralmente são as que criam as fantasias e os fetiches.

Apesar de parecer sem ligação, o evento a seguir foi uma evolução do que estava acontecendo. Dependemos mais do cérebro do que gostaríamos de admitir. Somos donos de poucas das nossas vontades. O livre arbítrio pode existir, mas ele não é tão amplo quanto desejaríamos. O mau de Joílson não era esquizofrenia (nem todos distúrbios alucinógenos se resumem a isso). Porém, também era algo que o tirava da realidade, com o agravo de deixá-lo hiper-sexualizado. Rotulá-lo como tarado além de cômodo seria uma covardia.

Sua mãe falava uma coisa, mas ele ouvia outra completamente diferente. Os programas televisivos, os sons que vinham da rua, os livros escolares que lia... Não importa o significado real das coisas, seus sentidos interpretavam de uma maneira totalmente adversa.

- Tira sua roupa. - Foi o que Joílson ouviu de sua mãe apesar dela não ter dito nada parecido com aquilo. Joílson nem reconhecia aquela mulher como uma figura materna, seu rosto estava deformado, escorrido. Simplesmente era impossível ignorar uma ordem sua. Temendo uma represaria que nunca viria, Joílson removeu sua roupa na sala. No "mundo real" sua mãe ficou desesperada com a cena. Não por ver seu menino nu, mas sim por perceber que algo não ia bem. A mulher falou outras coisas que só fizeram aumentar o problema. Joílson começou a se tocar.

Para os olhos de uma mãe poucos gestos vindos de um filho chocam. O que choca é perceber ele enlouquecer. Alucinações nem sempre são só visuais, podem ser também auditivas, um "pare com isso, amor" pode virar um "continua". Algo que poderia levar alguém até a acreditar em possessão demoníaca, ação de um deus maléfico ou de algum espírito obsessor. Mas se for esse o caso porque com a medicação e o tratamento certo tudo se estabilizava? Daqui há um mês Joílson retomará a sua consciência e lembrará muito pouco dessa fase da sua vida.