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Janeiro passou muito rápido para mim, apesar dos dias se arrastarem dolorosamente. Voltei para a faculdade uma semana depois do recesso para o Natal terminar, todos os meus professores cientes do que havia ocorrido. Foi um pouco estranho voltar a me concentrar quando minha mente ainda estava difusa com a falta que minha mãe me fazia. Charlie ficou em Phoenix algumas semanas após o enterro, sem coragem para voltar a correr o mundo sem sua companheira, e eu quis mais do que nunca ficar ao seu lado, mas não podia. Tive que voltar para as salas de aula e aos livros intermináveis.
Katy me ajudou a enfrentar a faculdade novamente, me acompanhando até minha primeira aula quando eu voltei. Eu não queria que ela se preocupasse comigo, mas era quase impossível convencê-la que eu conseguia fazer aquilo sozinha. Eu não conseguia na verdade, queria que alguém estivesse ao meu lado para que eu pudesse sentir um pouco de segurança, mas também não suportava demonstrar fraqueza.
- Qualquer coisa pode me ligar que eu venho te ver. – ela disse quando paramos em frente à porta de minha sala.
- Eu vou ficar bem, Katy. Vá para sua aula.
- Boa sorte, B. – disse me abraçando.
- Obrigada.
Avistei Mike sentando ao lado de uma cadeira vazia e eu deduzi que fosse para mim. Sorri um pouco discretamente quando sentei ao seu lado e coloquei minha bolsa no meu colo.
- Oi Bella. – ela disse com um olhar triste. – Fiquei sabendo ontem sobre sua mãe. Sinto muito.
- Obrigada.
- Como você está?
- Tentando continuar. – respondi sinceramente. – Todo mundo está me ajudando muito.
- Percebi quando Edward foi à aula de Filosofia para avisar sobre o que aconteceu para o professor. Ele realmente parecia preocupado com você.
- É... – foi a única coisa que eu consegui dizer.
Naquele mês, Edward estava sendo impossivelmente mais perfeito do que era antes. Enquanto eu estava em casa, no meu luto doloroso, ele ia me visitar todos os dias. Ficava sentado na minha cama comigo, enquanto eu me lembrava de todos os momentos ao lado de René estragando várias camisas dele com minhas lágrimas incontroláveis, sem fazer nada. Eu podia ficar o dia inteiro sem falar uma palavra, mas ele nunca deixou de sair do meu lado. Pediu uma semana de folga do estágio para ficar mais tempo cuidando de mim, insistindo para que eu comesse algo ou tentando me tirar da cama. Eu não tinha mais vontade de fazer nada, só queria sofrer em paz um pouco, mas meus amigos não deixavam.
Cada dia que passava e Edward ficava mais tempo tentando me animar, eu me sentia mal por obrigá-lo a fazer aquilo. Não conseguia entender que ele estivesse se privando de sua vida para cuidar de mim porque queria, me parecia que era tudo uma obrigação, o fardo que carregava por ter prometido ao meu pai que iria cuidar de mim. Eu era capaz de ver a tristeza em seu olhar por ter uma namorada quase depressiva e isso me deixava mais mal ainda.
Eu não conseguia mais dormir sozinha, tinha pesadelos quase todas as noites com a morte de minha mãe, e Edward sempre ficava ao meu lado, acordado enquanto eu gritava de medo e chorava descontroladamente. Aos poucos a expressão de cansaço começou a dominar sua face e eu quase não via seu sorriso torto que tanto me acalmava. Ele estava sumindo aos poucos.
Nossa relação começou a entrar no modo automático, tudo que fazíamos era apenas o fantasma do que antes nós tínhamos. Eu quase não sabia o que era ter seus lábios contra os meus, era raro quando nós nos beijávamos com a paixão do começo de namoro. Sexo era algo inexistente, eu não conseguia mais sentir tesão por causa de toda a tristeza que sentia e incrivelmente ele não forçava a barra. Sentávamos na sala de meu apartamento para assistir qualquer coisa que passava na televisão, almoçávamos juntos na faculdade – cada um concentrado no próprio prato – ou íamos para sua casa ver sua família. Essa era nossa vida.
Eu tentava me manter presente enquanto os Cullens conversavam comigo, mas meus pensamentos sempre estavam longe demais, os obrigando a chamar minha atenção quando eu não prestava atenção no que eles falavam. Eu estava sendo tão ingrata com todos, eles não mereciam minha presença para estragar seu dia quando nos meus olhos só se podia ler a tristeza que eu sentia.
Pensei que com o passar do tempo as coisas fossem voltar ao normal, eu fosse me acostumar com a ausência de minha mãe e voltar a viver como antes, mas nada mudou. Só piorou. Quando fevereiro chegou e eu finalmente voltei a ter a rotina de uma estudante, eu tentei voltar a ser Bella pré-enterro, mas acho que foi tudo em vão.
Edward começou a agir estranho comigo, a ir me ver com menos frequência. Colocou a culpa na faculdade, cada vez mais preenchendo seu tempo livre com seminários e aulas práticas, e eu foquei mais ainda nos estudos e no jornal para não me importar com isso. Passamos a nos ver apenas na faculdade, durante o almoço, algumas vezes quando as aulas terminavam, mas com o tempo nem o almoço era um tempo nosso. Entramos no estágio da relação em que só nos víamos quando cruzávamos um com o outro sem querer pela faculdade, nos falando pelo telefone no final do dia, contanto as coisas banais que fizemos sem entusiasmo na voz.
Eu nunca pensei que meu amor e admiração por Edward fosse um dia acabar, mas com aquela ausência de espíritos que estávamos estava começando a concretizar aquele novo pesadelo em minha vida.
Era véspera de Dia dos Namorados quando Katy sentou ao meu lado no sofá com um olhar preocupado. Desloquei meus olhos do jornal para encará-la.
- B, eu preciso conversar com você.
- Sobre o que?
- O que está acontecendo com você e Edward?
- Como assim?
- Vocês estão cada vez mais distantes um do outro, mal se vêem e se falam. Isso não é normal em uma relação e eu estou preocupada com você.
Franzi minha testa tentando encontrar a melhor forma de expor tudo que realmente estava sentindo, eu precisava conversar com alguém e agora só confiava em Katy naquele momento. Seria horrível, mas eu precisava admitir aquilo.
- Acho que estamos terminando... – eu respondi com a voz meio esganiçada por causa das lágrimas se formando em meus olhos.
- Por quê isso, Bella?
- Não sei, tudo tem estado tão estranho entre nós depois do... enterro. Ele foi tão perfeito, ficou ao meu lado o tempo todo, mas eu não consigo deixar de imaginar como deve ter sido horrível para ele ter que cuidar de mim.
- Isso não é verdade, Bella. Você sabe muito bem que ele quis cuidar de você, fez tudo aquilo porque te ama.
- Eu sei, mas ele não é o mesmo agora. Ele está sempre ocupado, nunca tem tempo para me ver. É como se ele estivesse desistindo aos poucos de mim, Katy. Eu não sei mais o que fazer. – comecei a chorar nesse ponto da conversa.
- Bella...
- Ele nunca mais me chamou de Prince, você acredita? – eu falei começando a soluçar.
Katy me abraçou forte enquanto eu desabava em um pranto que não conseguia – nem queria – controlar. Eu tinha tomado consciência que meu namoro estava arruinado e aparentemente não tinha mais conserto, mas eu não queria terminar com Edward. Não conseguia, já estava envolvida demais com ele naquele ponto de minha vida. Mas eu me sentia muito mal por fazê-lo triste, preso a um peso morto que eu estava sendo agora.
- Não fique assim, Bella. – ela disse acariciando meu cabelo. – Vocês precisam conversar, só isso.
- Eu não quero que ele seja infeliz comigo, Katy. Edward merece alguém melhor do que eu, uma garota idiota e depressiva.
- Bella, você é a única mulher que ele merece, entendeu? Não existe pessoa no mundo que combine mais com ele do que você.
- Eu não tenho mais certeza disso...
Não tinha mesmo. Estava confusa demais, sem saber o que se passava em sua mente e se ele ainda me amava. Eu o amava muito ainda, mas da maneira que nós estávamos lidando nossa relação o amor não iria durar o suficiente para sobreviver àquela fase.
Eu não acordei naquela manhã de 14 de fevereiro sabendo que tudo aconteceria como aconteceu. Para minha sorte era um dia de sábado e eu pude ficar na minha cama mais um pouco, sentindo perfume fraco de Edward que ainda estava impregnado no meu travesseiro. Eu sentia muita falta do efeito que aquele aroma me causava, mas agora a única coisa que eu era capaz de sentir era uma dor no coração ao lembrar como tudo estava ruim.
Fechei meus olhos para recordar como nosso amor era antes. Eu nunca fui tão completa como fui ao lado dele, realmente não tinha do que reclamar. Ele soube me fazer feliz como nenhum outro homem seria capaz de fazer, soube ser tão ele ao ponto de me deixar loucamente apaixonada por aquele homem educado, engraçado e maravilhoso que ele era. Mas agora... tudo estava se fraquejando sem que nenhum dos dois pudesse fazer nada. Ninguém tinha forças suficientes para melhorar nada.
As batidas em minha porta me fizeram abrir os olhos.
- Bella? – Katy disse abrindo a porta. – Tá acordada?
- Tô. – respondi sentando na cama.
- Edward está aqui. – ela me informou com um olhar preocupado. – Posso deixar ele entrar?
- Claro.
Prendi meu cabelo bagunçado com um nó na nuca e afastei o cobertor grosso do meu corpo enquanto tentava arrumar um pouco minha aparência antes dele chegar. Precisei respirar fundo algumas vezes para controlar minha ansiedade que estranhamente começou a se manifestar em mim.
Ele atravessou a porta e a fechou antes de me fitar com um sorriso fraco nos lábios e uma pequena rosa na mão. Sorri de volta para ele e meus estúpidos olhos começaram a querer lacrimejar, mas funguei alto para não estragar aquele momento.
- Bom dia. – ele disse sentando em minha frente na cama.
- Bom dia. – respondi beijando seus lábios brevemente.
Edward olhou minha mão solta em cima do colchão e a pegou delicadamente, como se temesse tocá-la. Estávamos agindo como dois adolescentes que descobriam o amor e tinham medo de demonstrá-lo, aquilo não combinava com nós dois.
- Vim te desejar um feliz dia dos namorados. – ele disse estendendo a rosa murcha para mim. – Não tive tempo para comprar um presente melhor para você.
- Não precisava comprar nada. – eu disse cheirando a rosa discretamente. – Eu não comprei nada para você, acabei esquecendo...
- Eu não me importo.
Ele inclinou o rosto e me beijou delicadamente, eu mal sendo capaz de sentir seus lábios mexendo contra os meus. Sua mão acariciou meu cabelo na altura da orelha e eu me aproximei mais um pouco dele, passeando meus dedos trêmulos pela pele de seu pescoço enquanto tentava fazer minha língua voltar a se acostumar com a dele.
- Eu sinto sua falta... – ele sussurrou sem que nenhum dos dois abrisse os olhos.
- Eu também... – respondi deixando as lágrimas desceram por meu rosto. – O que está acontecendo com nós?
- Eu não sei, Bella...
- Nada está como antes, Edward. E eu não consigo ver melhoria nisso...
- Por que você está dizendo isso? – ele perguntou me fitando com um olhar severo.
- Eu não quero te ver infeliz. Não quero que você fique comigo por pena. – falei olhando para baixo, com medo de encará-lo. – Acho melhor não insistirmos mais nisso.
Senti o corpo dele se enrijecer e ele pigarreou para limpar a garganta em um ato que demonstrava nervosismo. Não sei ainda porque eu disse aquilo, mas no momento me parecia a única coisa sensata a falar. O silêncio seria martirizado demais para que eu aguentasse.
- O que você quer dizer com isso, Bella? – ele perguntou depois de um tempo sem falar.
- Não sei...
- Você quer terminar comigo, é isso?
- Não sei... – respondi chorando mais alto. – Eu realmente não sei.
- Bella, seja um pouco mais clara comigo. – ele pediu e eu percebi a alteração em seu tom de voz. Ele estava nervoso. – Você não quer mais ficar comigo, é isso?
- Eu quero, mas não consigo. Eu sinto que você está infeliz ao meu lado, Edward. É inevitável perceber isso.
- Mas eu não estou infeliz...
- A gente mal se vê e se fala. Que tipo de relacionamento é esse?
- O tipo que está passando por uma crise e que pode superar.
- Será? Será que nós vamos conseguir passar por isso e fingir que nada aconteceu? – perguntei limpando uma lágrima que escorreu por minha bochecha. – Eu acho que não suportaria mais sofrer, Edward. Eu estou cansada...
- Depois de tudo o que fiz por você, Bella. – ele disse balançando a cabeça negativamente e respirando lentamente. – Como você consegue ser tão ingrata dessa forma?
- Ingrata? – perguntei ultrajada. – Você pensa que eu estou sendo ingrata com você? Eu estou tentando te fazer feliz e você não consegue perceber isso, seu idiota. – gritei nesse momento.
- Eu era feliz ao seu lado. – ele gritou de volta para mim.
Nós dois estávamos em pé sem que percebêssemos que fizemos aquilo. Eu ofegava de raiva por ele estar pensando que eu era ingrata e a respiração dele era irregular, oscilando entre o rápido demais e o ofegante. Com certeza minha face estava ruborizada e meus olhos cheios de lágrimas, mas não me importei com aquilo naquele momento.
- Eu não estou mais aguentando te ver dessa forma, Bella. – ele disse passando a mão pelo cabelo. – Você não vive mais, só consegue ser um fragmento do que você era antes comigo.
- Eu perdi minha mãe! Você quer que eu saia por ai dando gargalhadas e sendo feliz quando eu não estou?
- Isso já tem quase dois meses, Bella. Você poderia tentar voltar a viver um pouco agora, não é mesmo? Já está na hora de superar isso um pouco...
Suas palavras sem sentimentos me fizeram perder a cabeça naquele momento. Não era meu Edward falando aquilo, era impossível alguém perfeito como ele era ser tão estúpido e arrogante como ele estava sendo.
Inacreditável...
- Saia daqui. – pedi engolindo o choro.
- O que...
- Saia do meu quarto, da minha casa, da minha vida, Edward. – eu gritei o assustando. – Eu não vou aceitar você desdenhando do meu sofrimento. Cansei disso!
Ele me lançou um último olhar cheio de raiva antes de bater a porta do meu quarto com força e sumir do meu campo visual. Eu esperava que para sempre, não suportaria mais olhar para ele depois daquela discussão idiota que tivemos.
Meu corpo todo tremia de raiva e minha face estava brilhando por causa das lágrimas que caiam de meus olhos sem controle algum. Escutei longe a porta do apartamento bater com força e um barulho de passos apressados em direção ao meu quarto. Meu coração parecia que tinha murchado, assim como a rosa quase em pedaços na minha cama.
- Bella, o que aconteceu? – Katy perguntou entrando no quarto. – Por que Edward saiu transtornado daquela forma?
- Nós terminamos. – eu respondi dando de ombros.
- Como assim terminaram?
- Ele não suportava mais ficar comigo dessa forma, foi isso.
- B, eu sinto muito.
Quando os braços de Katy envolveram meu corpo trêmulo, eu desabei de vez tomando consciência do que tinha acontecido. Estava tudo terminado, aquela briga tinha colocado um fim na história que eu tive com Edward. Nada mais poderia ser feito. Eu agora estava mais machucada ainda por causa de sua atitude infantil demais. Não tinha mais volta...
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