************************Cap 14 O filho que eu quero ter. - Parte 2. ************************

O geminiano respirou aliviado quando finalmente conseguiu manobrar o automóvel e partir rumo à Rodório sem mais contratempos.

Ao chegar ao vilarejo, a Mercedes de Saga dobrou a primeira entrada à esquerda, pegando uma rua sem saída onde havia apenas duas pequenas e tradicionais lojas, sendo uma delas uma singela, porém convidativa, bomboniere.

O cavaleiro então estacionou o veículo em frente ao comércio e saltou o deixando destrancado, em seguida caminhou calmamente para dentro da loja de doces.

Enquanto se acomodava em frente ao balcão de atendimento observava discretamente através da vitrine a movimentação na rua.

Foi enquanto aguardava a atendente que estava de costas embrulhar uma pequena torta de maça que Saga avistou uma figura feminina dobrar a esquina e caminhar serena até seu veículo estacionado. Ao lado dele, discretamente ela abriu a porta do lado do carona e entrou.

Gêmeos logo se apressou em pagar a compra e pegar o pacote para em seguida se dirigir ao automóvel.

Animado, e um tanto eufórico, entrou pelo lado do condutor e se acomodou já divisando a figura sentada no banco do carona.

— E então? Correu tudo bem? — Gêmeos perguntou com voz calma.

— Sim. — respondeu Geisty tranquila com um sorriso discreto no rosto, enquanto retirava os óculos escuros para poder enxergar melhor o rosto do namorado — Ninguém nos portões do Santuário estranhou minha saída para Rodório.

— Está se sentindo melhor hoje, querida? Sentiu algum mal estar enquanto esteve aqui sozinha no vilarejo? — o grego perguntou preocupado, ao mesmo tempo em que estendia o pacote que acabara de comprar à amazona.

— Não senti nada de anormal. Estou ótima, Saga. Não precisa se preocupar tanto. — disse a morena com desdém.

— Como não? Não faz nem dois dias você desmaiou... — deu partida no carro já manobrando para pegar a rua.

— Mas, já estou bem, cavaleiro! Não precisa me tratar como uma boneca de louça. — disse em tom irônico.

— Sim senhora, amazona! — respondeu o grego no mesmo tom que o da namorada.

— Mas, o que é isso que você trouxe? — ela perguntou com curiosidade, mirando o pacote caprichosamente embrulhado que tinha nas mãos.

— Ah, isso? Isso é um mimo para uma certa amazona que não tem se alimentado direito, sabe? — disse Saga sarcasticamente — Porém, ela disse que não quer ser mimada... o que é uma pena, porque essa torta de maçã está com uma aparência ótima!

— Torta de maçã! — exclamou a amazona com os olhos violetas em um rutilo de alegria e gula.

— É... Torta de maçã. — disse o cavaleiro com uma expressão vitoriosa no rosto, ao mesmo tempo em que olhava para frente enquanto manobrava o automóvel na intenção de tomar a estrada rumo à Atenas.

Afoita, a amazona já desmanchava o embrulho para se servir de um pedaço da torta quando a mão do namorado pousou sobre as suas.

— Não prefere esperar para comer quando chegarmos em casa?

—- Mas, por quê? Eu quero agora! — respondeu a italiana, impaciente.

— Tem certeza? Vai ficar com as mãos meladas. Essa torta está cheia de cobertura caramelizada.

O geminiano havia usado do pior argumento possível com Geisty, atiçando ainda mais o apetite da gestante que chegou a salivar involuntariamente só de ouvir a palavra caramelizada.

— Mas Saga, eu estou com fome... — olhava para o geminiano com uma expressão de desalento aguardando uma resposta positiva do namorado, que não veio de imediato, dada a sua concentração na estrada, a obrigando a usar o próximo argumento — E os bebês também estão.

Saga sabia que a amada estava jogando baixo para tentar convencê-lo e isso lhe causava vontade de rir da situação, pois era adorável a cara de zanga que ela sempre fazia diante da contrariedade de coisas tão banais. Porém, o cavaleiro continha o riso com muito custo e evitava olhar para os olhos pidões da moça mantendo seu olhar fixo na estrada.

Emburrada, com as sobrancelhas levemente arqueadas, testa franzida e um biquinho discreto de contrariedade, a gestante voltou a embrulhar o pacote que tinha no colo em silêncio. Este, no entanto, não se fez perdurar por muito tempo, sendo irrompido por ela mesma.

— Sabe... Eu andei lendo ontem que o apetite na gravidez aumenta.

— Eu já imaginava isso. — respondeu o cavaleiro concentrado no trajeto que fazia.

— É... E muitas mulheres tem vontades súbitas de comer determinados alimentos em específico.

— Hãm... — o grego se fazia de desentendido, dando corda para ver até onde ela iria chegar, e tentando ao máximo não olhar para a amazona ou sua dissimulação cairia por terra ao rir.

— E que, reza a lenda, se não comerem o que sentem vontade o bebê nasce com algum tipo de defeito ou característica bem peculiar...

— QUE? — respondeu em assombro o geminiano, que no mesmo instante desviou sua atenção do trânsito para olhar firme para a namorada — Que absurdo, Geisty! Você agora deu para acreditar em crendices populares?

— Saga, por favor! Nós acreditamos em uma deusa grega que reencarna de tempos em tempos para impedir que seus irmãos deuses malucos dominem a Terra e que seu tio megalômano, Imperador do Submundo, extingue a humanidade... Você acha que eu não vou acreditar em crendice popular?

Atordoado, o cavaleiro olhava ora para a pista, ora para o rosto da namorada, num misto de medo e incredulidade diante daquela constatação que lhe parecia estapafúrdia em um primeiro momento, mas que, ainda mais depois do que Mu havia lhe relatado horas antes não ousaria a desacreditar. A graça em troçar com a amada perdera totalmente o sentido dando lugar à preocupação.

— Abra logo esse embrulho e mate de uma vez essa fome de vocês três. Por Zeus, coma isso logo! Não deixe nossas crianças passarem vontade de nada, Geisty.

Com um sorrisinho vitorioso no rosto, Geisty abriu o pacote satisfeita e soltou um suspiro de deleite ao ver a guloseima que parecia extremamente apetitosa. Sem cerimônia se serviu de uma das fatias, fechando os olhos e soltando um gemido de prazer pelo sabor delicioso que era degustado.

— Huummm que gostoso! Quer um pedaço, amore mio? — perguntou sorrindo enquanto estendia a fatia que comia.

Saga olhou para a amada se rendendo a um sorriso satisfeito e respondeu:

— Não, amore mio, obrigado. Podem comer, é tudo de vocês. — voltou a concentração para a direção, mas ainda podia perceber pela sua visão periférica as expressões de alegria da amazona enquanto comia o doce.

Alguns minutos depois, ainda lambendo os dedos sujos pelo recheio de maçã, Geisty retomou a conversa com o namorado.

— Saga, esse médico que estamos indo... Ele é de confiança? Digo, não corremos o risco de ele falar para alguém do meu estado?

— O Doutor Ulisses? Ah, querida, pode ficar tranquila, ele é de confiança sim. Já está envolvido com a máfia grega desde o início. Sempre nos presta serviços de emergência. Sem contar que ele precisa mais de nós do que nós dele. — disse com uma expressão confiante no rosto que se mantinha concentrado no trânsito.

— Como assim serviços de emergência? — perguntou a italiana com uma expressão de dúvida.

— Vez ou outra ele sutura uma artéria, retira umas balas ou recoloca algum membro deslocado no lugar...

— E é nesse médico que você está me levando para me consultar? Em um açougueiro que costura os seus capangas?

O assombro da amazona arrancou uma risada do geminiano.

— Calma, querida! Eu disse que ele faz alguns favores para nós, e não que ele só faz isso. Doutor Ulisses é cirurgião e obstetra. Ele possui um consultório renomado, diga-se de passagem, e discreto em Pangrati.

— Pangrati? Mas lá é tão movimentado... Não vamos passar despercebidos.

— Eu já pensei em tudo, amore mio... — disse passando a mão na coxa da namorada carinhosamente enquanto recebia de volta um olhar preocupado — O prédio possui estacionamento próprio no subsolo. Basta pegarmos o elevador que vai direto para o andar onde se localiza o consultório dele. Marquei um horário exclusivo, assim não corremos o risco de ter mais algum outro paciente aguardando.

— Ele vai ao consultório propositalmente para me atender?

— Sim.

— E por que ele vai fazer isso?

— Como eu disse, ele precisa mais de nós do que nós dele.

A namorada continuava o observar o cavaleiro com uma expressão interrogativa e cheia de dúvidas no rosto jovial.

Olhando para ela Saga então soltou um suspiro resignado. Não adiantaria poupar a amazona dos detalhes, e se continuasse fazendo talvez a deixasse mais preocupada e ansiosa, o que não era exatamente o recomendável a uma gestante. E como eram poucos os segredos que havia entre o casal, o geminiano não via motivo para não contar à amada mais aquele.

— Doutor Ulisses é um pobre diabo viciado em jogo.

— Ah!... Eu sabia que a história não estava completa...

— Ele praticamente vive para trabalhar, e trabalha justamente para gastar tudo o que ganha em apostas. Desde que tive contato com os negócios da Vory v Zakone aqui na Grécia e passei a gerenciá-los, um dos primeiros setores que peguei foram os cassinos. E não houve um só dia em que eu não tivesse notícias de Ulisses deixando uma quantia diária em apostas. O sujeito é um completo descompensado em apostas, em todo o tipo delas, desde a roleta até o caça níquel. Todos os dias ele põe os pés em um cassino e faz uma varredura em todas as formas de jogos. É tão fissurado que já apostou até o que não tinha, e obviamente ficou devendo verdadeiras fortunas.

— Devendo? — perguntou Geisty alarmada — Em um cassino russo? Esse homem é louco?

— Pois é, para você ver a que ponto ele é viciado em apostas... A sorte dele é que nessa época quem gerenciava os cassinos era o Kanon, que acabou aliviando sua barra apenas o expulsando daquele Cassino em específico. No entanto, ainda havia algumas dezenas de outros pela cidade para ele frequentar.

— Eu não acredito que ele continuou jogando!

— Claro que continuou! Ele é um viciado em jogos. Melhor para nós! Assim ele continua endividado, e cada vez mais me devendo favores, os quais faço questão de cobrar um por um.

— Saga, você está tirando vantagem desse pobre diabo! — comentou a amazona em tom contrariado.

— Mas é claro! Ele vive devendo dinheiro nos cassinos. Não sabe a hora de parar. Só ainda está vivo porque me é mais útil vivo do que morto. E antes de dever ele gasta muito dinheiro. Sem contar que agora ele gasta toda essa grana é no MEU cassino, porque sou o único que ainda aceita a entrada dele. Todos os outros que são controlados pelos russos vetaram sua entrada.

A italiana mantinha seu olhar firme sobre o geminiano, que ao notar sua expressão de desagrado se sentiu desconfortável.

— Geisty, meus negócios não são filantropia. — disse Gêmeos evitando cruzar olhares com a amada, se mantendo focado no trânsito agitado.

— Estou ciente disso. Então é nesse tal médico que você confia?

— Confiança é uma palavra muito extrema... Mas, sim, ele é o que nós temos para contar como suporte mais seguro nesse momento de urgência.

— E você já supôs que ele, por ventura, pode me reconhecer?

— Ele não vai te reconhecer. Como eu disse, ele é viciado em apostas, não em mulheres. Ulisses nunca pôs os pés lá no bordel, então, não há a menor possibilidade dele lhe reconhecer, amore mio. Quanto a isso você pode ficar tranquila. Esse, por sinal, é um ponto importantíssimo. Ele não pode lhe conhecer.

— Menos mal! — respondeu aliviada a amazona, que fez uma breve pausa e voltou com mais um questionamento — Mas, vai ficar óbvio o nosso envolvimento para ele... Depois... já que ele é um homem tão... descontrolado... não sei se estamos fazendo bem em confiar minha saúde e a dos nossos filhos a ele.

— Não me importa o que ele vai pensar ou achar, Geisty. Me importa é se ele falar o que não deve, e acredito que o doutor não seja louco para isso, porque se o fizer eu mesmo o mato, e ele sabe disso... Quanto a sua competência, pode ficar tranquila. Apesar do vício ele é um excelente profissional. Renomado e conhecido internacionalmente. Celebridades se consultam com ele, e também empresários, políticos... Ele tem várias publicações em seu nome, palestras, congressos... Não fosse o vício e os problemas com a máfia seria um profissional exemplar. Eu jamais te levaria a ele caso duvidasse de sua competência como médico.

A amazona desviou o olhar que mantinha fixo em Saga para a janela do automóvel a seu lado e se pôs a observar a paisagem que passava acelerada através do vidro. Tentava disfarçar a tensão que a tomava se desligando daquela situação, enquanto tinha seus pensamentos perdidos e tão vagos como tudo que passava rápido diante de seus olhos através do vidro fumê.

Contudo, a tentativa da morena não foi bem sucedida.

Saga logo percebeu que a namorada divagava, por certo mergulhada em preocupação, então soltando uma das mãos do volante buscou a mão delicada na italiana que descansava sobre uma das pernas e a segurou carinhosamente, atraindo a atenção da jovem para si.

— Geisty, amore mio, não temos muito com o que contar nesse momento, somente com um ao outro. Vamos ter que nos arriscar de certa forma, mas confie em mim. — disse o Santo de Gêmeos com uma voz envolvente e um olhar amável.

A morena ensaiou um sorriso resignado, mas com um olhar profundo e sincero direcionado ao amado respondeu com a voz serena, tão incomum a ela.

— Eu confio. — entrelaçou seus dedos aos dele em resposta ao afago — Já estamos chegando?

— Sim. — respondeu Saga levando a mão da namorada até os lábios e depositando um beijo enquanto encarava os olhos violetas raros — Já chegamos à Pangrati. Só mais algumas quadras até alcançarmos o prédio. — disse se soltando sutilmente da mão da amazona e voltando sua atenção novamente para a direção e o trânsito agitado do bairro comercial ateniense.

Alguns minutos depois, após encontrarem o edifício e estacionarem o carro na garagem localizada no subsolo, o casal seguiu de elevador para o penúltimo andar com a maior discrição possível, evitando uma aproximação maior, com Saga seguindo na frente e Geisty logo atrás.

Para alívio da amazona não cruzaram com qualquer pessoa que fosse durante o percurso até o consultório do obstetra.

E tudo o que Saga havia combinado com o médico fora cumprido minuciosamente.

A sala de espera se encontrava vazia, e a porta mais a diante que dava para o consultório estava entreaberta, deixando escapar o barulho sutil dos passos do doutor que caminhava pelo recinto e que, aparentemente, chegara minutos antes do casal.

Chegando próximo à porta o cavaleiro deu uma batida sutil na madeira atraindo a atenção do médico, que rapidamente seguiu para recebe-los todo solícito.

— Bom dia, senhor Saga, pode entrar, e... também a sua companhia. — disse o obstetra, ligeiramente ansioso, enquanto já estendia a mão para o geminiano o cumprimentando, depois correu o olhar rapidamente pela beldade que vinha logo atrás e que evitava trocar olhares consigo — Por favor, sentem-se.

— Doutor Ulisses, essa é a paciente que mencionei. Nosso tempo é curto, então precisamos ser breves... E claro... conto com a sua total discrição nesse assunto. — disse enfático Saga, que encarava os olhos castanhos do homem por trás das lentes dos óculos que insistiam em escorregar do rosto.

— Sim, sim, claro. — respondeu o médico nervosamente já seguindo para sua mesa para pegar um cartão colorido, enquanto era acompanhado pelos olhos curiosos de Geisty e Saga que se mantinham de pé no meio do consultório — Por favor, senhorita, tire seu calçado e suba na balança.

Geisty em silêncio cumpriu a ordem, enquanto Ulisses anotava os dados.

— Seu nome qual é mesmo? Preciso para preencher sua ficha. — perguntou ele de cabeça baixa.

Reticente a amazona buscou os olhos do namorado em dúvida.

— Não precisa por o nome dela Doutor Ulisses. Estamos aqui apenas para que se faça o acompanhamento do seu estado de saúde e da gravidez. E não se preocupe que sempre virei com ela, logo não tem como confundi-la com outra paciente sua.

O médico sentiu um frio na espinha diante daquela situação, pois o chefe da máfia grega estar pessoalmente em seu consultório, acompanhado de uma jovem de beleza extravagante e estrutura física bem incomum para a maioria das mulheres era algo bem suspeito.

Sem contar as circunstâncias exigidas pelo mafioso para que acontecesse aquele atendimento.

Involuntariamente suas mãos suavam, e Ulisses se amaldiçoava pelo dia em que pôs os pés em um cassino pela primeira vez. Agora só lhe restava ser discreto o máximo que a sua função ali lhe permitisse.

— Sim, claro. Pode descer da balança. Sabe a data da sua última regra?

— Não me lembro.

— Certo... — o médico até cogitou perguntar o motivo, mas desistiu ao se lembrar de que nem sequer o nome da paciente lhe fora revelado, então quanto menos soubesse melhor para si.

— Sente-se aqui, vou aferir sua temperatura e pressão. — disse o médico evitando o olhar da jovem, que fazia o mesmo enquanto o procedimento era executado.

Saga se mantinha de pé no meio do consultório, calado, de braços cruzados e observando todo o atendimento.

— Você sentiu algum mal estar?

— Sim, na última semana passei por enjoos e vertigem.

— Aconteceram com qual frequência?

— Os enjoos a maioria era pela manhã, assim que eu acordava, e as vertigens sempre que me esforço fisicamente.

— Houve episódios de vômitos e desmaios?

— Sim, na maioria deles.

— Sente-se mal consumindo algum alimento?

— Sim, alguns eu não suporto nem mesmo o cheiro.

— Melhor evita-los por enquanto. Tem conseguido se alimentar normalmente?

— Não.

Um minuto de pausa foi feito enquanto o médico concluía as anotações, depois estendeu à Geisty o cartão que havia preenchido junto de alguns receituários.

— Esse é o cartão de acompanhamento de seu pré-natal. Deverá trazê-lo a cada vez que vier se consultar, pois nele será anotado o andamento de sua gestação, como o ganho de peso, temperatura corporal, pressão arterial e qualquer episódio considerado anormal... Esses são pedidos para exames: sangue, para dosagem de hormônios, hemograma completo, averiguação de DSTs, curva glicêmica, para avaliarmos como seu corpo se comporta com a absorção de glicose, e também para descartar a possibilidade de diabetes gestacional, urina e, por fim, uma ultrassonografia. Assim que todos estiverem prontos entre em contato para marcarmos o retorno. Não deixe passar mais de um mês, pois o acompanhamento nesse primeiro trimestre de gestação é mensal.

Geisty ouvia a tudo atenta enquanto observava o que o médico havia escrito em cada pedido.

— Neste outro receituário estão os remédios que você deve tomar nesses primeiros meses. — continuou o médico — Ácido fólico, vitaminas simples para compensar essa sua má alimentação, e esse remédio para enjoo, que deve ser tomado apenas se sentir-se mal. Esses enjoos matinais, assim como a sua falta de apetite, tendem a desaparecer com o decorrer dos dias. São sintomas comuns presentes no primeiro trimestre de gestação, mas você precisa se alimentar de três em três horas, beber muito líquido e guardar repouso para não se repetirem as vertigens. Alguma pergunta?

— Não. — respondeu Geisty resignada.

Já Saga se pronunciou em seguida.

— Durante quanto tempo ela vai tomar essa medicação, Doutor Ulisses?

— Depende do resultado dos exames. Se os exames vierem normais, somente nesse primeiro trimestre gestacional eles são necessários, depois alteramos para vitaminas mais complexas. O medicamento para alívio dos enjoos pode ser tomado sempre que necessário.

— Quanto tempo ela mantem o repouso? E quais atividades ela pode executar?

— Acredito que em média quinze dias esteja de bom tamanho o repouso. — Ulisses olhou mais uma vez para a paciente a sua frente, e correndo os olhos por sua belíssima figura, somada à preocupação que Saga demonstrava ao fazer tantas perguntas, o médico já supunha onde o mafioso queria chegar — Quanto às atividades físicas é recomendável que nesse período ela não faça esforço nenhum, nem que pegue peso. Quanto a ter relações sexuais, essas são permitidas com os devidos cuidados e sem excessos, respeitando os limites do corpo da gestante. Caso sinta algum desconforto procure outra posição ou outro ritmo. Mas, recomendo que as evite pelo menos essa semana. — disse Ulisses observando a reação de ambos. Saga em uma expressão neutra e Geisty a olhar de soslaio para o grego.

— Se é só isso, por enquanto, Doutor Ulisses, eu lhe agradeço. — disse o cavaleiro pondo fim à consulta, depois caminhou até o médico e apertou-lhe a mão amigavelmente — Nos vemos em breve.

Ulisses fez um sinal afirmativo com a cabeça, depois voltou-se a Geisty que também lhe estendeu a mão e a cumprimentou com um sorriso.

— Cuide-se. E qualquer imprevisto pode me ligar. — disse solícito.

Gêmeos deixou o consultório saindo na frente, sendo acompanhado por Geisty que vinha logo em seguida.

Ulisses os acompanhou por um momento com os olhos até que entrassem no elevador. Tinha total consciência de que quanto menos soubesse sobre aquele casal melhor seria para si.

Gêmeos e Serpente seguiram de volta para o Santuário, e durante o percurso pouco conversaram acerca do médico, mas muito falaram sobre planos futuros.

Com todo o cuidado possível seguiram para o Décimo Terceiro Templo, indo direto para os aposentos do Grande Mestre.

Enquanto Saga fechava a porta do quarto, Geisty já se sentava na beira da cama para retirar os sapatos. A amazona tinha uma rusga de preocupação impressa na fronte, e um semblante nada confortável.

Amore mio, eu não gostei desse médico. — disse ela de forma direta enquanto massageava os dedos dos pés.

— Não gostou? Mas, por quê? Ele foi tão solícito e comedido. Não tem motivos para não gostar dele, Geisty. —disse Saga abrindo os braços como quem faz uma indagação muda. Depois, caminhando em direção à namorada, se colocou de pé à sua frente esperando por uma resposta.

— Não sei... — a amazona deu de ombros — Não gostei, simples assim. Não sei explicar, só não gostei.

— Geisty, nos fomos pegos desprevenidos, a verdade é essa. Seu estado de saúde agora requer acompanhamento médico contínuo, e você está debilitada por conta dos enjoos, vômitos e desmaios... Isso expira cuidados urgentes e, como disse antes, jamais levaria você até ele caso duvidasse da competência de Ulisses como médico.

— Sim, eu sei disso.

— Eu pensei em todas as possibilidades mais seguras e ágeis nesse momento. É bem complicado achar alguma parte da Europa que não tenha a presença da Vory atuando fortemente. Infelizmente, nessa hora todas as possibilidades estão distantes de nós... Podemos até ir para outro país, se você assim se sentir mais segura, porém teríamos que voltar para cá periodicamente para não levantarmos suspeitas, e viagens frequentes em um curtos períodos de tempo chamaria também muita atenção, além de ser uma péssima escolha para quando a sua gravidez estiver mais avançada... Lembre-se disso.

— Sim... Estou ciente de que vai ser tudo cada vez mais complicado. — respondeu a amazona em um misto de resignação e cansaço — Acho que toda essa situação de precisar agir em segredo, com medo de tudo, nos escondendo como ratos que tentam fugir de gatos, tem me deixado bem estressada.

— Eu sinto muito, mas Doutor Ulisses é a melhor opção que temos no momento. Ele é um ótimo médico. Por enquanto vamos seguir as orientações dele e voltamos em mais uma consulta para levar os exames. Dê a ele mais uma chance... Se mesmo assim você ainda não se sentir confortável, procuramos outro profissional. — disse o grego de forma compreensiva, porém que por dentro se encontrava atormentado ao lhe vir a mente o que Mu contara sobre o atentado sofrido pela mãe do bebê muviano. Se perguntava em seu íntimo quem teria a perversidade de atacar uma grávida com a intenção de lhe subtrair a vida, e era com dor no coração que percebia que a amada e seus bebês estavam também vulneráveis a isso.

Sob o olhar desanimado da namorada, Saga se agachou à sua frente e segurou em seu rosto delicado com ambas as mãos, tentando lhe passar segurança.

— Certo! — disse Geisty — Vamos dar mais uma chance para ele, não custa nada. Vou ser mais complacente. Vamos fazer dar tudo certo!

— Confie em mim, amore mio, vai dar tudo certo. Ânimo!

Aproximando seu rosto ao da amada, Gêmeos a beijou de forma apaixonada e terna. Um beijo que há muito se conteve, mas que agora, na privacidade de seu quarto, enfim podiam trocar sem medo.

As línguas se provavam com volúpia e paixão, e os lábios eram sugados em ansiedade. As mãos ágeis da amazona corriam pelo corpo do cavaleiro puxando-lhe a camisa e infiltrando-se por dentro para buscar o calor da pele. Com as unhas longas ela arranhou levemente os ombros do namorado arrancando-lhe um suspiro, e logo em seguida, embebida pela lascívia desmedida daquele corpo forte e viril, desceu as mãos até o cós da calça de Saga, segurou forte no cinto de couro preto e inclinando-se para trás puxou o cavaleiro junto consigo, para que se deitasse sobre seu corpo na cama.

— Hum... Não devíamos estar fazendo isso, não? — o geminiano disse num sussurro.

— Não. — a amazona respondeu com outro.

— Você precisa... fazer repouso... — ele disse entre um beijo e outro.

— Preciso... Não vamos fazer nada... Só quero ficar um pouco aqui, junto de você.

— Eu também quero... mas, não posso, Geisty. Preciso voltar para o bordel. Deixei tudo lá nas mãos do Afrodite... Mu tirou férias... E se bem conheço o desmiolado do Peixes aquilo deve estar caótico! — o grego falou manhoso, sem encontrar coragem o suficiente para se separar dos lábios doces da amada.

— Mu tirou férias? Logo agora no final de ano? — ela perguntou curiosa, enquanto beijava o pescoço perfumado do cavaleiro.

— Hum... Pois é... tirou. Longa história... Depois te conto. — respondeu o grego remexendo-se sobre ela.

— Ah... tudo bem. Melhor você ir para lá mesmo. Sem o Mu, sem mim e sem você lá o Afrodite é um perigo! — disse morena deixando escapar um suspiro desanimado enquanto tombava a cabeça para trás — Depois, tem o jejum sexual de uma semana na lista de recomendações do aclamado Doutor Ulisses, não é mesmo?

— Sim... uma semana... Hades! Nem me lembre disso. — desabafou o cavaleiro com uma expressão de desalento, a qual rapidamente foi trocada por um sorriso sedutor — Mas, podemos dar um jeito de burlar esse jejum se você estiver disposta. Há várias outras maneiras de fazer sexo além das convencionais.

Geisty deu um sorriso sacana, em seguida cochichou ao pé do ouvido do cavaleiro alguma possível saída para o jejum deles, arrancando uma reação animada do amado que agora tinha um sorriso lago no rosto.

— Eu gostei da ideia! — exclamou em seguida o geminiano.

— Ótimo! — Geisty lhe piscou um dos olhos num gesto sapeca.

— Eu vou tentar voltar o mais rápido possível, amore mio. Enquanto isso fique aqui quietinha cumprindo o seu repouso.

A italiana na mesma hora revirou os olhos em desagrado.

— Não faça essa cara. É para o bem de vocês três. E vou solicitar a Gigars que venha aqui trazer seu almoço. Coma! Você precisa se alimentar, ouviu? — disse ele depositando um beijo rápido nos lábios da namorada, outro em um de seus seios e um último na barriga. Depois, se levantou rapidamente da cama e passou a ajeitar a roupa desalinhada.

— Sim senhor, Grande Mestre. — ela respondeu mandando um beijinho no ar para o grego, sorrindo enquanto via o cavaleiro sair do quarto e fechar a porta atrás de si.

Já do lado de fora, Saga seguia apressado cruzando o salão do Décimo Terceiro Templo até encontrar seu assessor, Gigars, que o atendeu solícito, fazendo uma breve mesura.

— Bom dia, Grande Mestre.

— Bom dia, Gigars. Preciso que execute algumas tarefas.

— Pois não.

— Primeira delas: não quero ninguém nos meus aposentos até que eu volte.

— Sim senhor. — respondeu o homem gorducho e barbudo que usava uma gema de pedra polida na cavidade ocular direita como olho artificial.

Para Gigars nada mais precisaria ser explicado. Há dois dias já tinha conhecimento da presença da amazona de Serpente naquele Templo e da necessidade de se manter o máximo de sigilo acerca do fato.

— Daqui a uma hora quero que você leve o almoço até meu quarto. Mande as servas prepararem uma refeição reforçada. Não faça perguntas, e seja breve.

— Sim senhor.

— Quero, também, que providencie esses medicamentos e os entregue no meu quarto junto com o almoço... Depois marque todos esses exames listados aqui para a data mais breve possível. — disse Gêmeos entregando todos os receituários para o secretário.

— Pois não, Grande Mestre. — o homem respondeu apanhando os papeis com os pedidos.

— Ótimo. Estou contando com isso com a máxima urgência. — disse Saga ao sair em seguida sob o olhar meticuloso do assessor.

Passados alguns breves minutos, Gigars seguiu para a própria sala se trancando lá dentro.

Agora em total privacidade podia correr seu olho curioso pelos papéis entregues a si enquanto um sorriso malicioso começava a se desenhar no rosto mal-apessoado.

Analisou um por um, agitado, depois rapidamente abriu a pequena gaveta de sua escrivaninha e de lá pegou um papel onde escreveu, ansioso, um bilhete.

Olhou uma última vez para a porta trancada para assegurar-se de que não seria abordado de supetão, e percebendo o corredor em total silêncio tomou o fone do gancho do aparelho de fax e rapidamente digitou um número já memorizado em sua mente.

Ao ouvir a resposta sonora do sinal liberado enviou o bilhete, em seguida encerrou a chamada sem precisar da resposta de volta do envio.

Apressado, amassou o papel no qual havia escrito e o enfiou em um dos bolsos de seu manto. No outro bolso guardou todos os receituários com a lista de remédios que deveriam ser comprados e finalmente saiu de sua sala.

No caminho chamou a chefe da criadagem e lhe passou a ordem que o Grande Mestre havia dado, a de não entrarem em seus aposentos até segunda ordem, então pediu-lhe que aprontassem a refeição do Patriarca que ele mesmo iria entrega-la.

Ao passar pela porta de entrada do grande salão, Gigars avisou aos guardas que faziam a sentinela que o Grande Mestre não receberia ninguém em seu Templo. Depois, retirou-se descendo a escadaria das Doze Casas.

Iria a Rodório providenciar os medicamentos, e depois até o centro de Atenas marcar os exames em uma clínica cujo diretor tinha negócios firmados com a máfia grega.

Gigars, não era nenhum débil.

Em seus longos anos de vida sabia muito bem que aqueles não eram medicamentos receitados a um homem com a saúde perfeita como Saga, muito menos o exame de imagem.

Aqueles receituários em suas mãos só reforçavam uma suspeita que já havia traçado quando o Grande Mestre trouxera a amazona de Serpente para seu Templo exigindo sigilo total sobre sua presença ali.

Gigars não chegou ao posto elevado de secretário particular do Patriarca sem saber o momento exato no qual deveria se calar... e no qual deveria agir!