Casaram-se tão breve quanto possível e a cerimônia foi memorável. Marcava o início de uma era em que os Santuários de Athena e Apolo estariam unidos para sempre.

Assim, em novembro de 1974, Helena foi levada para o outro lado da Grécia. Um lugar onde as mulheres se cobriam e os templos eram austeros. Um lugar onde as pessoas conservavam-se solitárias para o resto de suas vidas, em homenagem à deusa à qual serviam.

Porém, de longe, o maior choque foi a noite de núpcias. Mal tinha deixado de ser uma menininha e Shion era um guerreiro em todos os seus aspectos, sem muito cuidado ou carinho. Encolhida na cama de noite, chorava se perguntando a Apolo "por que eu?"

"Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas"

"Quando amadas se perfumam
Se banham com leite, se arrumam

Suas melenas"

Descobriu por um simples acaso que o seu Albie estava ali, no mesmo templo que ela. Não exatamente um acaso, descobriu-o no banquete de sua recepção, mas só tiveram contato quase um ano depois.

Estava grávida e irritada de ser mantida em casa, irritada de ser tratada como um bibelô por todos os criados, por seu marido que ela só amava quando via o seu rosto. Quando Shion se ausentava ou de noite, dormindo ao seu lado, Helena voltava à razão e percebia a loucura que tinha cometido ao aceitar morar com ele.

Saiu do Grande Templo e foi caminhando até a arena, em Delfos, sempre tivera prazer em ver os Hélios lutarem.

Lá estava ele, batendo-se com um moleque um pouco mais novo – loiro, olhos azuis, convencido de sua própria magnitude ao extremo – de forma fria e metódica que Anne Marie nunca imaginaria em seu irmãozinho.

O seu Albie sempre fora uma criança sonhadora e delicada, uma criança que era o oposto de um guerreiro. Mas ela sabia o que ele estava se tornando, sonhara com tudo aquilo.

Ao vê-lo receber um golpe certeiro no queixo que fez espirrar sangue pelo chão de pedra, Anne lamentou ter se deixado seduzir pelo mármore faiscante e seu posto no Templo de Apolo. Nunca deveria ter desviado de seu caminho, nunca deveria ter esquecido seu irmão. Nunca deveria ter tornado-se Helena.

Finda a luta, ele olhou acidentalmente – ou não, nunca era possível medir até onde ia a influência dos deuses – para o ponto onde estava sentada na arquibancada. O olhar que lançou a ela doeu. Era mágoa em sua essência.

"Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas, cadenas"

"Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos
Poder e força de Atenas"

Apesar de saber que nunca teria amado Shion não fosse a interferência divina em sua vida, Helena não era capaz de rejeitá-lo. De seu jeito, ele era atencioso com ela, preocupava-se em mantê-la sempre confortável e feliz, em ordenar às criadas que fizessem seus pratos preferidos. Ele era um homem ocupado, apenas.

E ela estava se tornando uma mulher solitária e infeliz.

Claro que este quadro mudou um pouco depois que nasceu Menon. Conforme houvera pedido aos deuses, ele veio com um tom de violeta nos olhos tão escuro que poderia ser confundido de longe com preto.

Seu nascimento foi festejado, claro. Mas quando Sibila lhes disse que aquele não era deus nenhum, Helena percebeu o que todos no Santuário estavam se perguntando: "será que é realmente ela a mulher da profecia?"

Shion e ela mesma também se perguntavam isso. Será que aquela paixão louca e avassaladora que os dominava às vezes nada mais era do que um homem mais velho encantado por uma garotinha que queria na figura masculina um pai?

"Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas"

"E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obscenas"

Novamente a solidão voltou a assombrá-la naquele lugar hostil. As únicas pessoas que se importavam com ela e lhes faziam companhia eram os Cavaleiros de Capricórnio e Sagitário. Não que Shura realmente gostasse dela, mas fazia questão de acompanhar Aiolos em suas visitas.

Aiolos era uma luz em seu dia, com aquele sorriso grego e luminoso que lhe fazia lembrar-se de casa, de Delfos. Brincava com Menon mais do que o pai do garoto fazia e este o chamava de titio. Às vezes, para tranquilizá-la, ele lhe contava histórias de seu irmão caçula, Aiolia e de como tinha certeza de que se tornaria um grande Cavaleiro de Leão.

Foi horrível quando percebeu que o desejava com uma intensidade ainda maior do que desejava Shion. Desejava-o com uma intensidade própria.

Mordia os lábios de noite quando o marido vinha visitá-la em seu quarto para impedir-se de falar o nome dele. E, depois, quando ele ia embora a deixando sozinha novamente, Helena chorava até encharcar o travesseiro.

A loucura passou um pouco quando veio a segunda gravidez. Então teve certeza de que esperava Athena e todo o resto também, quando sua inteligência se elevou a um nível irritante. Desafiava todos para jogos de lógica e devorava livros de Cálculo avançado. Claire nasceu dia primeiro de setembro do ano de 1977, assustadoramente parecida com o pai.

"Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas"

"Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas"

O Santuário não era sua casa de forma alguma, mas ainda podia dizer que gostava de lá, de alguma forma. Claire não foi amamentada por ela, ninguém no templo permitiu que amamentasse nenhum de seus filhos, quiçá Athena, a sem-mãe.

Então seu espaço mudou, todos passaram a respeitá-la e convidarem-na para suas casas, oferecerem-lhe banquetes. Confiava apenas em Aiolos, no jovem aprendiz de seu marido – que havia tornado-se o guardião da Casa de Áries ao mesmo tempo em que Aiolia tornara-se da casa de Leão –, em seu irmãozinho – mesmo não falando com ele – e na ama-de-leite de seus filhos, Gisele.

Eram eles suas companhias diárias – exceto por Albert – e as pessoas para quem contava seus maiores medos. Foi para eles quem contou primeiro sobre o sonho em que o Santuário cobria-se de negro. Esse sonho passou a atormentá-la desde que engravidou de Claire e foi tornando-se cada vez mais frequente. Tinha medo.

"Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas"

"Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos
Os novos filhos de Atenas"

Engravidou novamente e todos brincavam consigo de que ela parecia brilhar naturalmente. Só acreditou no que diziam quando, em uma noite, Shion resmungou que apagasse a luz que o impedia de dormir. Todo o quarto estava no escuro.

Abriu os olhos e viu as próprias mãos brilhando como se fosse radioativa ou algo assim. Era Apolo que crescia dentro dela.

Ficava cada dia mais bonita e quente e sabia que poderia ter seduzido Aiolos se o quisesse, mas não era capaz. Tinha lealdade a Shion assim como ele mesmo.

A luz foi ficando mais forte e mais insuportável de modo que tiveram de mandá-la para Delfos, já que ninguém era capaz de olhá-la.

Às cinco e meia da manhã do Solstício de Verão do ano de 1978, vieram as contrações com violência total. Nem mesmo Claire tinha machucado-a tanto ao nascer.

A luz da lua cheia rivalizava com a luz de seu próprio ventre e inundava o quarto completamente, dando a impressão de que o Sol já tinha nascido.

Sophia nasceu primeiro. Tinham todos se esquecido completamente do óbvio: Apolo e Ártemis sempre vinham juntos ao mundo, eram inseparáveis.

Só às seis da manhã, quando o Sol nasceu de vez, que veio Edésio. Eram duas crianças lindas, com os cabelos ruivos como os dela.

"Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas"
"Não tem sonhos, só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas, morenas"

Voltou para casa perguntando-se qual seria seu destino, uma vez que já havia cumprido sua função na profecia. De fato, todo o amor que sentia por Shion morreu de uma só vez ao se reencontrarem e ele não voltou a olhá-la.

Não que tivesse deixado de ser bom e atencioso ou deixado de mimar a pequenina Claire, apenas Helena tinha tornado-se mais um adereço dispensável da roupa de Grande Mestre.

Apoiava-se em Gisele e nas pequenas filhas gêmeas que ganhara há pouco tempo. Duas meninas lindas e espertas, crescendo junto com Sophia e Edésio.

"Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos
Heróis e amantes de Atenas"

Apenas Gisele sabia dos pesadelos que voltavam cada vez com mais frequência intensidade. Tornando-se cada vez mais cruéis e detalhados.

A sombra se estendia por toda a Grécia, começando por Shion, que era o primeiro a ser engolido. Pessoas gritavam e corriam, choros, lágrimas. Helena tentava segurar seus filhos, encontrá-los no meio da multidão, mas estes também se perdiam.

Até que tudo virava silêncio.

Uma menininha ruiva e pequena encarava-a com seus olhos da cor do céu nublado. Ela não chorava, mas o ódio estampado em suas feições feria Helena profundamente.

-Você me abandonou. –Não era uma pergunta. Não era uma acusação. Era uma sentença.

Quem era aquela criança? Talvez uma mistura dela mesma com seu irmão. Afinal, abandonara Anne Marie e Albert naquelas tardes de verão nos anos sessenta.

Por isso demorou tanto a perceber que aquele sonho – ao menos uma parte dele – era um presságio.

"As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas, não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas"

Shion desapareceu por dias e, quando o Mestre do Santuário voltou, não era mais ele. Helena podia sentir em seu ventre.

Não visitava mais nenhum integrante de sua família, nem mesmo sua adorada Claire.

Passou noites chorando e tentando entender o que acontecia. Se ao menos pudesse fugir para Delfos, mas ele havia trancado-a em sua ala. Estava tão longe de casa, tão longe.

Em um gesto desesperado, pediu a Gisele que chamasse Mu e Aiolos em seu quarto, precisava falar com eles. Nessa noite, antes que qualquer um chegasse, ele entrou no cômodo.

-Saia desse quarto. –Disse, a voz rascante e baixa. Tão cruel, tão diferente.

Estava com Sophia em seus braços e Edésio brincava com um cavalinho aos seus pés. Demorou a reagir. Claire começou a chorar.

-Saia desse quarto, já disse. Você não precisa passar por isso. –Não entendeu nada e foi pegar a filha, para acalmá-la. O homem segurou seu braço. –Não. Deixe a criança aqui.

Foi então que viu o punhal dourado em sua mão direita e entendeu o que aquele homem pretendia. Gritou. Gritou com todas as suas forças rezando para que alguém escutasse e passaria os próximos quinze anos gritando sozinha.

Aiolos foi o primeiro a chegar ao quarto, a encontrá-la com lágrimas nos olhos e a boca aberta sob a mira do punhal.

Lutaram.

Não conseguia pensar naquele momento e, posteriormente, percebeu que os deuses tinham agido por intermédio de seu corpo. Estendeu Edésio a Gisele e Sophia para Mu.

-Salvem meus filhos, por favor. –Precisava ficar e tirar Claire e Menon daquela situação. Precisava salvar Aiolos.

Vítima involuntária da violência, Menon caiu com um golpe desviado no meio da batalha. Ninguém nunca saberia dizer de quem partiu.

Chorando silenciosamente, apertou o corpo do único filho com o qual nenhum Santuário nunca se importou nos braços e deixou sua alma perecer com ele.

Aiolos conseguiu agarrar Claire e sair correndo, sem sequer olhar para trás ou preocupar-se com ela. Não que fizesse diferença, ela nunca fora nada além de seu papel na profecia.

Apenas para certificar-se de que não teria de matá-la, Saga ajoelhou-se diante dela logo após chamar os guardas. E os dois souberam que, daquele dia em diante, não haveria mais um ser humano habitando aquele corpo, só uma sacerdotisa a serviço de seus deuses.

O homem suspirou, sendo por um instante um Cavaleiro, mas o monstro a serviço de Chronos retornou ao poder do corpo e avisou aos guardas que Helena de Delfos estava louca.

"Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos
Orgulho e raça de Atenas"