Jogos e Desafios

Por Mukuroo

Obs 1: Saint Seiya não me pertence, como todos devem saber. Por ser um fic de Universo Alternativo os personagens deverão sofrer algumas alterações em suas personalidades.

Obs 2: Este é um fic dedicado especialmente à minha querida amiga Akane M.A.S.T., aquela que está presente sempre quando estou escrevendo um fic difícil. Àquela que me enche de porrada quando penso em matar um personagem e que me ajuda sempre com as idéias absurdas que tenho quando quero escrever uma história. O aniversário dela está longe, mas esse fic não é um presente de aniversário porque acredito que não precisamos de uma data especial para presentear alguém. É mais como um agradecimento pelo apoio e pela infinita paciência que ela tem comigo. Beijos, Akane. Te adoro

Obs 3: O casal principal dessa história é Shura e Aiolos. No entanto, não é uma continuação de Proposta Irresistível apesar de que eu recebi alguns pedidos para continuar aquele fic. Essa história é independente daquela, totalmente diferente inclusive se passa em uma outra época. Mas eu a escrevi justamente porque o casal é maravilhoso e eu amo esses dois juntos.

XIII

Aiolos vestiu-se em silêncio, sem compreender os motivos da paz que o invadia. Permitir que Shura esgotasse nele a frustração represada era um pensamento que o acovardava. Mesmo assim, no recôndito de sua alma, era obrigado a reconhecer a própria participação no ato que se desenrolara em meio à natureza luxuriante.

Não podia e nem deveria acusá-lo injustamente. Afinal, o loiro não gritara por misericórdia e nem implorara para que o marido interrompesse o desenrolar do comportamento agressivo. Na verdade, fora impelido para além da própria capacidade de resposta e deixou que Shura trilhasse o caminho pretendido.

Corou intensamente enquanto vestia a calça e dava um nó desconfortável no cinto de couro. Escutou as risadinhas caçoístas de quem o observava.

- Eu disse que estava magro demais – o moreno afirmou e curvou-se para desatar o nó. – Espere que farei mais um furo.

Shura tirou a faca do bolso e fez o marido sentar-se no chão a seu lado.

Ajoelhou-se a seu lado, estendeu o cinto em cima de uma pedra e segurou a ponta da faca no lugar certo. Com um movimento brusco, fez um furo minúsculo e alargou-o.

Em segundos, terminou a tarefa, guardou a lâmina no bolso e ofereceu-lhe a mão.

Aiolos levantou o rosto e procurou decifrar a expressão de Shura. A impassibilidade o deixou indeciso entre aceitar ou não o oferecimento de ajuda. Acabou segurando a mão estendida com os dedos trêmulos.

O calor da pele do marido era envolvente, o loiro refletiu ao ficar em pé a pouca distância dele.

- Não me olhe assim, Olos – Shura pediu muito sério, deixando a emoção presente em cada sílaba.

- Como é que eu devo olhá-lo? – Aiolos indagou e pegou a camisa, nem um pouco ansioso para vestir a peça suada.

Mas não suportava ficar despido diante de Shura. Ele pareceu decifrar-lhe os pensamentos e sentir-lhe a aversão pela roupa imunda.

- Se quiser, tenho uma camisa limpa – o moreno ofereceu.

Aiolos segurou a veste de algodão xadrez diante do peito com ar de dúvida e depois anuiu.

- Tio Dohko ficará admirado de me ver voltar com outra camisa. Hoje de manhã, estava muito aborrecido comigo.

- Pode culpá-lo? – Shura perguntou.

O moreno deu alguns passos até o alforje que estava ao lado de sua roupa amontoada, debaixo de uma árvore. Curvou-se, indiferente à própria nudez e remexeu dentro da sacola de couro, de onde tirou uma camisa amassada, porém limpa. Voltou-se e entregou-a a Aiolos.

- Não – o loiro enfiou os braços nas mangas e fechou os botões. Pensou em Dohko e no gesto de reconciliação. – Ele guardou meu café da manhã.

- Dohko tem feito isso todos os dias. Você o fez sofrer, Olos, e não sei se tomou alguma atitude hoje de manhã para redimir-se. Mas creio que tem um débito para com ele que provavelmente lhe consumirá o resto da vida para pagar.

- E acha que não sei disso? – Aiolos fez beicinho, enquanto enfiava com dificuldade o excedente de tecido da camisa para dento da calça. Depois fechou a fivela do cinto no furo recém-feito. – Suponho que lhe devo um também.

- Em meu livro de registros não consta nada. Você não me deve coisa alguma.

Shura voltou para onde estavam suas roupas. Enfiou os pés na calça e balançou-se para levantá-la por cima das coxas. Virou-se. Desprevenido, Aiolos corou, por estar de olhar fixo no físico musculoso do marido.

- Segundo as probabilidades, você está esperando desculpas, não está? – Shura perguntou.

A dureza do tom surpreendeu o loiro.

Aiolos negou com um gesto de cabeça, desviou o olhar e enrolou as mangas para cima.

- Você não me forçou a nada – o loiro falou, depois de alguns instantes, de olhos fixos nas mãos de Shura fechadas em punhos nos quadris.

- Reconheço que fui muito rude.

- Foi...

- Talvez eu tenha deixado marcas.

Aiolos anuiu.

- Você não pediu permissão, mas...

- Mas o quê? Olos, você detestou o que houve? Será que o perdi inteiramente, que o forcei demais?

- Não, Shu. Sou seu marido. Você teve todo o direito de fazer o que fez. Eu o evitei durante semanas. Quando o encontrei aqui, tive a intuição de que estava acossado e que não agüentaria por mais tempo.

Aiolos suspirou, sentou-se no chão, procurou as meias, vestiu-as e depois o fitou com um sorriso esmaecido.

- Talvez eu precisasse saber que ainda estou vivo. Pelo menos será um motivo para uma reflexão. Meu pai costumava dizer que... A vida é para os vivos – Aiolos levantou-se. – Olia está morto, mas eu continuo respirando. Há uma fazenda para ser administrada, cavalos para serem cuidados e tio Dohko em casa à minha espera.

- E eu estou aqui, Olos.

Aiolos procurou na fisionomia do marido algum traço da raiva anterior, mas só encontrou uma lassitude que o surpreendeu.

- Sei disso, Shu. Como também sei que não deve ter sido você quem disparou o tiro que matou Aiolia. Mas não consigo afastar o circulo de culpa em que o envolvi. Dohko disse que eu transferi a raiva que sentia de Aiolia para você. Talvez ele esteja certo.

- Você tem de resolver isso por você mesmo. Eu não devo influenciá-lo e nem brigar com você. Mas tenho de desculpar-me por minha atitude intempestiva de há pouco e que pode ter-lhe causado algum sofrimento. Embora eu não me arrependa do que aconteceu entre nós. Se isso diminui a minha imagem de homem a seus olhos...

Shura levantou as mãos em um gesto de desânimo.

- Eu quero que fique irado, Olos, e que essa fúria incendeie as barreiras que você erigiu entre nós. Acredito até que possa ter tido um pequeno sucesso. – Shura pôs a mão no ombro do marido e virou-o na direção da égua cujas rédeas se arrastavam pelo chão. – Vá para casa. Voltarei para a divisa, ajudarei por mais algum tempo e o verei no jantar.

- Quando levará os bezerros a leilão? – Aiolos perguntou, com as correias nas mãos.

- Talvez em uma semana. Ficaremos fora uns dez dias.

- Eu já imaginava. Cheyenne é bem longe daqui.

- Você sempre ia com seu pai?

Aiolos anuiu e procurou uma mensagem oculta na pergunta. Pôs o chapéu na cabeça e montou.

- Sempre, mas não quero ir dessa vez.

Com aquela resposta curta, Aiolos entendeu que fechava mais uma vez a porta de acesso à felicidade. O caminho para casa foi feito pela égua. Aiolos nada enxergava por causa das lágrimas amargas que lhe turvavam a vista.

* * *

Depois do jantar Shura decidiu esquecer os dias passados, pelo que acontecera naquela manhã e pelas linhas de comunicação novamente abertas.

Sentado na varanda, observava a figura esbelta de Aiolos confinar as aves no galinheiro para passarem a noite. O loiro segurava a frente da camisa afastado do corpo como um apoio para os ovos recolhidos do ninho.

Na obscuridade, ele se aproximou, subiu os degraus da varanda e chegou até a porta dos fundos.

- Eu trouxe ovos frescos – avisou a Dohko.

- Deixe-os na vasilha de barro – o tio falou, enquanto analisava um catálogo aberto sobre a mesa.

Aiolos fez o que o tio pediu. Dohko olhou pela janela e Shura mexeu-se, para se fazer notado.

- Vou até a sala de visitas – o tio anunciou, com o periódico na mão.

- Está bem – Aiolos respondeu, de dentro da despensa. – O senhor precisa de alguma coisa do defumadouro para o desjejum?

- Uma peça de presunto viria a calhar – Dohko murmurou, fitando a varanda – Peça a Shura que traga um daqueles grandes que estão pendurados.

- Eu posso fazer isso – Aiolos afirmou, saindo da cozinha.

- Eu sou mais forte – afirmou Shura, levantando-se.

O moreno foi com o marido até o recinto onde se defumavam as carnes e os peixes. Segurou a porta aberta para o outro entrar e seguiu-o. Era um local escuro, quase fantasmagórico, com as carnes penduradas nos caibros. Sombras estranhas se formavam depois que os olhos se acostumavam à penumbra. A pouca luminosidade vinha apenas do luar que se infiltrava pela abertura do teto.

- Pode pegar aquela para mim? – Aiolos suspirou e olhou para cima depois. – Veja, uma estrela cadente...

Shura alcançou a peça apontada por Aiolos e depois o viu sob um novo ângulo, em um momento de vulnerabilidade. – Fez algum pedido? – o moreno desejou que o marido fosse atendido.

- Bobagem – o loiro murmurou e fitou o marido. – As coisas que sempre almejei agora me parecem tolas.

- Por exemplo?

Shura encostou-se na porta para receber o impacto do que Aiolos diria. O olhar dele teve laivos de desdém.

- Felicidade para sempre. E aprendi que isso não existe. Pensei que meu pai iria viver eternamente, que meu irmão se modificaria e que formaríamos uma equipe afinada.

- Nunca pretendeu nada para você em particular?

- Tudo isso seria para mim.

- Nunca se sentiu atraído por roupas bonitas, homens que o cortejassem ou uma família?

- Não sou como certos homens. Não preciso de coisas extravagantes e nem de palavras lisonjeiras. Nada disse me agrada.

- Concordo que você é diferente de todos os que já conheci. Você é mais corajoso, valente e mais capaz do que quatro deles juntos. Mas é homem e por isso talvez precise de um pouco de...

Shura hesitou, procurando as palavras adequadas que funcionassem como um bálsamo para aquele coração solitário.

- Acho que você precisa de carinho, Olos.

- Como o de hoje? – o loiro perguntou, mordaz.

- Não, claro que não. Aquilo foi deflagrado pela necessidade, pela raiva e pelo sofrimento. Querido, acho que não fiz nada para agradá-lo. – Shura falou com hesitação, enquanto ele fitava a janela convidativa e iluminada da casa. – Sonhos de infância algumas vezes se tornam realidade, Olos. Os meus se tornaram.

- Os seus?

- Sim – ele afirmou, enquanto voltavam à casa, com a mão no ombro do marido. – Fui uma criança normal, com idéias comuns. Queria ter cavalos e ser dono de um sítio, sem ter que receber ordens de ninguém. Meu pai trabalhava duro na terra e as colheitas assumiam importância máxima.

Aiolos diminuiu os passos, quando se aproximaram da casa, e escutou, interessado. Encorajado, Shura continuou a lembrar-se dos dias da infância.

- Papai usava mulas na maior parte das vezes. Tinha uma égua para puxar a charrete, mas ganhar dinheiro sempre foi a sua prioridade na vida. Dizia que brincar com cavalos era tolice. E que eu deveria dedicar-me ao cultivo de algodão para "fazer" dinheiro.

- Você morava no sul? Ah, é claro que sim. Eu já deveria ter adivinhado.

- É assim tão evidente? – o moreno perguntou, com um sorriso malicioso.

Aiolos cruzou os braços sobre o peito, sorrindo também.

- De vez em quando, eu percebia... Uma pista.

- Devia ser quando eu esquecia de mim mesmo. De qualquer forma, o decorrer dos acontecimentos não foi dos mais felizes. Minha casa pegou fogo e foi destruída. Meus pais estavam dentro, quando tudo aconteceu. Minha mãe...

Shura pensou na mulher que lhe dera a vida.

- Ambos morreram naquele dia. Quando soube do que acontecera, já era tarde demais. Só me restou a tarefa de esquadrinhar as cinzas. Mas não pude continuar mais lá, nem para reclamar minha herança ou o que restava dela. Fui embora e trabalhei no norte e no oeste, à procura de algum lugar onde pendurar meu chapéu.

- Bem, você achou um. Você queria seu próprio espaço e conseguiu ganhá-lo em um jogo de pôquer – Aiolos comentou em tom monocórdio.

- Isso mesmo – Shura admitiu. – Na ocasião, eu já tinha dinheiro para comprar terras, mas a A&A caiu em meu colo. E não sou nenhum idiota para rejeitar uma coisa certa quando a vejo.

- E eu? Também sou uma "coisa certa"?

- De jeito nenhum. No começo achei que fosse atirar em mim. Nunca vi um homem tão furioso.

- Eu tinha o direito de estar irado. – Aiolos subiu o primeiro degrau da varanda e parou. – Ou talvez não – o loiro sussurrou, encarando o marido. – Eu dirigi minha raiva para a pessoa errada, Shu.

Aiolos tentou pegar a peça de carne da mão de Shura.

- Pode deixar que eu levo.

Shura achou que seria mais seguro não concordar com a opinião do marido. Ele já estava em condições de admitir seus erros. Não seria necessário insistir no assunto. Seguiu-o pela cozinha e foi até a despensa. Pendurou a carne defumada no gancho que pendia do forro.

Aiolos virou-se e assoprou a lamparina, voltou para o hall e deu boa-noite para Dohko antes de ir dormir. Na porta do quarto, o loiro hesitou com a mão no trinco e curvou a cabeça, deixando a nuca exposta.

Atrás dele, Shura observou-lhe a respiração que lhe ergueu os ombros e sentiu a hesitação que o fez retardar a entrada no quarto. De repente, ele se rotulou como o ultimo dos homens, ao recordar-se do tratamento rude que lhe dispensara na lagoa.

Tinha quase certeza de que Aiolos trazia marcas pelo corpo. E estava novamente pronto para renovar o assédio. Seu corpo palpitava cheio de desejo, que ele provocava por sua simples presença.

- Shura? – Aiolos se virou para encará-lo.

Na escuridão, o som de seu nome nos lábios de Aiolos era um verdadeiro convite.

- Sim.

Shura aprendera cedo na vida a fazer valer as vantagens e era o que vinha fazendo nos últimos meses. Não era hora de recuar, não quando o marido permanecia vacilante e Shura o tomaria de assalto.

Cruzou a soleira e fechou a porta. Observou Aiolos andar pelo quarto e dar a volta na cama. Sua camisa era uma sombra pálida na penumbra.

Shura se sentou na cadeira, tirou as botas e jogou-as no chão. Levantou-se e tirou a roupa. Já despido, aproximou-se de Aiolos e ergueu-lhe o rosto. Segurou-lhe a cabeça por entre os cabelos ondulados. Curvou-se com a boca ávida, faminta e investigante.

Aiolos gemeu, os lábios atormentados sob os de Shura, e agarrou-se nos pulsos do marido. Os corpos estavam separados e a união era apenas boca a boca. Foi então que o loiro fraquejou, como se as pernas não mais o sustentassem.

- Olos, agora as coisas serão diferentes – Shura prometeu em voz baixa, mas firme, tornando-o consciente de suas intenções. – Quando eu entrar nessa cama, não ficarei imóvel no seu lado. Não o deixarei mais sozinho. Entenderei quando estiver sofrendo por seu irmão. Se você tiver vontade de chorar, eu lhe concederei amparo. Só não posso aceitar a culpa por sua morte.

- Não estou chorando.

Era verdade. A voz não demonstrava vestígios de lágrimas. Porém era lógico que a tristeza permanecia e Aiolos ergueu o rosto.

- Eu não me negarei mais meu marido – Aiolos prometeu e fez uma advertência triste. – Mas não sei quais serão meus sentimentos.

- Está bem – o outro aceitou, triunfante.

Ganhar a aceitação de Aiolos era tudo o que desejava. Reforçar os laços que estabelecera não seria difícil.

Dessa vez, o moreno prometeu a si mesmo, teria paciência e faria emergir cada gemido e sussurro de desejo que pudesse arrancar de seu interior.

Dessa vez... Acariciou-o com gentileza e tirou-lhe a roupa. Levantou-o e levou-o para o leito. Aiolos abriu os braços em um convite.

Dessa vez... Shura cobriu-o e protegeu-o do ar frio da noite, envolvendo-o em um abraço de corpo inteiro. Capturou os sons suaves da paixão, quando ele ergueu os quadris para ir ao encontro da rigidez e do impacto de seu desejo.

Dessa vez... Não houve pressa em possuí-lo, nenhuma loucura ou precipitação em aceitar o que Aiolos entregava aos seus cuidados. Apenas cortejaria suave e ternamente um homem que, para ser conquistado, valia qualquer sacrifício.

* * *

- Tem certeza de que não quer ir junto?

Shura estava ao lado de sua montaria e oferecia a ultima oportunidade para o marido mudar de idéia. Aiolos sacudiu a cabeça em gesto negativo e um traço de desapontamento escureceu os olhos do moreno.

- Tenho muito o que fazer por aqui – Aiolos sorriu. – Quando você voltar, o interessado do Bar X estará aqui, com o dinheiro na mão, para comprar o lote excedente de cavalos.

- Se ele vier antes de eu voltar...

Aiolos interrompeu-o, erguendo a mão.

- Eu já sei. Eu o farei esperar. – Os lábios de Aiolos estremeceram. – Nos últimos meses, Shu, aprendi algumas coisas. Você é mais valente do que eu e respeito-o por isso.

- Você ficará bem mesmo? Já estou com saudade. Ikki tomará conta do que for necessário por aqui e atenderá às suas ordens. Seiya ficará por lá, atento ao resto do rebanho, e Astérion... – Shura fitou o caubói alto que estava perto da estrebaria – Astérion será o responsável por todos.

- Por que ele?

Shura deu de ombros.

- Porque ele está aqui, só por isso. Shion fica mais sossegado quando Astérion está por perto e não vou discutir com ele. Não enquanto não tivermos certeza de que o ultimo ladrão foi preso e termos todo o gado de volta. Shion acha que os bezerros estão em um desfiladeiro ao norte daqui.

- E você, o que acha?

- Bem, eu não sei. Estou apenas ansioso para vender o rebanho e as coisas voltarem ao normal. Quando eu voltar, provavelmente daremos mais uma volta por lá. Nesse meio-tempo, Shion manterá os olhos abertos. O pessoal do Scorpio vai se juntar a nós no caminho. Quando chegarmos a Cheyenne, separaremos os rebanhos.

Shura curvou-se para beijar-lhe os lábios e o loiro correspondeu. Embora ciente de que eram observados pelos vaqueiros, não queria que o marido fosse embora sem o calor da despedida que lhe devia como esposo. O moreno pulou na sela com um movimento ágil, endireitou o chapéu e brindou-o com um olhar de satisfação.

Shura era mesmo petulante, Aiolos concluiu. Mesmo assim, não poderia negar-lhe o direito de ostentar a arrogância que lhe caía como uma luva. Shura Capricorn era dono de uma masculinidade agressiva e confiante. Por um momento, arrependeu-se pela decisão de permanecer na fazenda, pelo orgulho que não o permitiu seguir no seu encalço durante aquela aventura e pelos dias que passaria sem o marido.

As noites foram mais longas do que os dias. Shion aparecera duas vezes na primeira semana e ficara na cozinha com Dohko. Aiolos se desculpara e fora tratar dos cavalos.

Naquela manhã, Shion tornou a vir, inspecionou tudo e cumprimentou Aiolos com alegria. Depois entrou depressa na casa e Aiolos teve a impressão de que estava sobrando.

Empoleirado na cerca que rodeava o pasto, Aiolos riu quando um capão meio domado dava patadas no chão. Ele ouviu o rangido de couro atrás de si e virou a cabeça. Ikki se aproximava. Ele estava abaixado na sela e girava a corda em uma órbita lenta. Aiolos abriu a porteira e ele passou. O animal sacudiu a cabeça. Ikki jogou o lado em um círculo largo e sem fazer esforço e apanhou o pescoço do capão. Depois puxou com firmeza, quando seu cavalo empacou. O capão laçado estremeceu antes de render-se à tração exercida em seu pescoço e seguir Ikki até o portão.

- Você faz tudo parecer tão fácil.

Aiolos apressou-se em levantar a tranca de novo. Segurou a porteira aberta e fechou-a depois da saída de Ikki em direção à estrebaria.

- Nunca tive muito sucesso em jogar o laço. Meu pai dizia que o segredo estava no pulso.

- Que nada, o senhor tem muito bom desempenho. Já o vi laçar um ou dois bezerros.

Ikki apeou do cavalo e aproximou-se do animal castanho que havia domado. Enfiou devagar o bocado na boca do animal e o freio foi para o lugar.

- Este aqui já aprendeu alguma coisa. Será um bom pastor de rebanhos.

O capão sacudiu a cabeça e relinchou.

- Você gosta do que faz – Aiolos afirmou, enquanto Ikki amarrava as rédeas em um anel metálico ao lado da cavalariça.

- Tenho feito isso a vida inteira – Ikki respondeu enquanto alisava a manta no lugar, antes de levantar a sela pesada do chão.

- Você acha que estamos preparados para os compradores?

- Sem dúvida nenhuma – o garoto garantiu, apertando a cilha. Saiu de lado quando o capão, inquieto, começou a mover-se sem cessar. – Não se preocupe, Sr. Aiolos. Aqueles fazendeiros sabem o que os espera. Pelo que sei, seu pai sempre teve bons exemplares e a fama correu longe. Não é qualquer um que cria cavalos. A maior parte dos fazendeiros das redondezas concentra-se em negócios com bois.

- E quando os potros nascerem na primavera? – Aiolos indagou. – Shura acredita que o garanhão malhado nos dará um bando de cavalos para treinar.

- Ele está certo – Ikki anuiu, com entusiasmo. – O patrão sabe o que está fazendo, Sr. Aiolos. – Ele levou o capão até o curral e virou-se antes de abrir o portão. – O senhor agiu com inteligência ao casar-se com ele. Ou talvez o inteligente tenha sido ele. Não sei bem.

- Aiolos? – Shion chamou o outro.

O loiro atravessou a estrebaria e foi ao encontro do xerife do lado de fora das portas enormes. Shion espiava a pintura nova das tábuas.

- A reforma está sendo bem-feita.

- Logo terminaremos – o loiro também examinou os detalhes. – Ainda falta refazer o piso e uma parte do telhado. O pior foi perder todo aquele feno. Foi um prejuízo e tanto.

Mais um pecado para adicionar na lista de Aiolia, Aiolos pensou com amargura.

- Ontem recebi um telegrama de Cheyenne. Shura pediu para avisar-lhe que está voltando para casa. Deve demorar apenas dois dias, agora que estão sozinhos.

- Por isso é que o senhor veio até aqui?

Aiolos achou, e não pela primeira vez, que ele parecia cansado.

- Em parte. Também queria ver Dohko. Mas antes queria falar com você, Aiolos. Você é a única família dele por aqui.

- O que houve, Shion?

Shion segurou Aiolos pelo ombro, para tranqüilizá-lo. A pele branquinha de Shion pareceu ficar vermelha. Os olhos lilases o fitavam com ansiedade. E, pela primeira vez desde que o conhecera, Aiolos achou que Shion Áries não encontrava palavras para expressar-se.

- Nada errado, Aiolos. Na verdade, tudo está melhorando. É que seu tio e eu... Estivemos conversando sobre algumas coisas. E eu lhe disse que falaria com o senhor.

Aiolos percebeu qual seria o assunto. E deu uma risada, ao imaginar o sorrido enorme de Dohko às palavras de Shion.

- Vamos lá, posso adivinhar do que se trata. O senhor quer casar-se com meu tio, depois quer vir morar aqui com ele, pois Dohko não pretende mudar-se para a cidade. É isso?

Shion pareceu desapontado, apoiou as mãos na cintura da calça e puxou os suspensórios com um estalido.

- Puxa, Aiolos, você nem me deixou fazer o discurso que eu estava preparando!

- Estou certo? Quer mesmo casar-se com meu tio?

- É isso mesmo. – Shion olhou em direção à casa e sorriu. Dohko abriu a porta de tela e apareceu na varanda. – Tudo certo – o xerife gritou e acenou-lhe – Venha até aqui.

Aiolos correu para abraçar o tio no meio do caminho. Com as mãos nos bolsos do avental, Dohko espiou Shion parado mais atrás.

Aiolos admirou-se de ver o olhar de afeição de seu tio. Quando se encontraram, Aiolos foi prensado de encontro ao peito amplo por braços carinhosos.

- Eu disse para o velhote que você ficaria contente – Dohko afirmou, com seu vozeirão – Mas ele quis fazer tudo da forma correta. – Ele afastou Aiolos para fitar-lhe o rosto. – Você já sabe que não vamos morar na cidade. Shion pode mudar-se para cá. Acho que temos quartos vagos em número suficiente.

Não era para admirar-se que o telegrama de Shura estivesse em segundo plano. Shion estava interessado em assuntos mais importantes.

- Estou feliz pelo senhor, tio. – Aiolos falou, antes de ser apanhado em novo abraço majestoso. – Mas Shion não precisa ficar perto da cidade?

- Ele pretende aposentar-se – Dohko anunciou. – Uma vez terminada essa confusão com os ladrões de gado e quando tudo estiver resolvido, ele entregará o distintivo. Acredito que você e Shura poderão contar com mais um braço por aqui.

- Dohko, você disse que ficaria fora desse assunto – Shion reprovou o noivo. – Eu mesmo tratarei disso, quando Shura voltar.

- O senhor pode mudar-se quando quiser – Aiolos apressou-se em dizer – Sou sócio desta fazenda e posso contratar quem eu bem entender – o loiro hesitou. – Bem, acho que será melhor se casarem primeiro. Quando pretende fazê-lo, tio?

- Logo – Shion respondeu.

Uma só palavra e que deixava claras as suas intenções, Aiolos pensou.

Ikki aproximou-se, conduzindo o capão manchado de suor, e escutou as novidades. Aiolos deixou-o conversando com Shion enquanto levava o cavalo de volta.

Shura está voltando para casa, pensou.

As palavras cantavam em sua mente enquanto caminhava e ele as escutou inúmeras vezes, no ritmo de seus passos. Calculou a distancia e reconheceu, com um sorriso, que talvez Shura chegasse no dia seguinte.

Atrás dele, o cavalo sacudiu-se com barulho e Aiolos riu ao ver as partículas de suor flutuando no ar.

- Você teve um belo treinamento, não é, amigo? – O animal sacudiu a cabeça. – Que tal uma boa fricção?

Aiolos foi recompensado pelo focinho que lhe acariciou o ombro e depois o pressionou para frente. Ao chegar à gamela de água, ele parou até o capão saciar a sede e depois voltaram à cocheira.

- Sr. Aiolos? – a voz ansiosa chamou-o.

Um cavaleiro aproximou-se, vindo do leste. Seiya, com as feições escondidas sob a aba do chapéu, desmontou rapidamente.

- Shion está aqui?

- Lá em casa. O que há de errado, Seiya?

- Muita coisa... – ele completou a frase com uma imprecação. – Temos problemas novamente e Astérion pediu que eu viesse atrás de Shion e Ikki. Ele disse para o senhor ficar alerta e manter a espingarda na mão.

- Vou buscar outro cavalo – Aiolos avisou-o, apanhou as rédeas e amarrou-as na cerca.

Dali a minutos, ele voltou com um capão preto e Seiya aproximou-se, com um pacote embrulhado em uma toalha.

- Obrigado, senhor. Dohko entregou-me algo para comer, mas terei de levar comigo. – Seiya fitou o curral. – Precisamos de Ikki na divisa. Será melhor mandá-lo até lá.

Aiolos deu seu consentimento.

- Eu trouxe uma manta. A sua precisa secar. – Com movimentos precisos e rápidos, Aiolos jogou o tecido de lá sobre as costas do cavalo e Seiya pegou a sela.

- Deixe-me segurar a comida – Aiolos ofereceu e afastou-se, enquanto o caubói trabalhava. – O que aconteceu?

- Encontramos pistas de um pequeno rebanho a nordeste. Astérion apressou-se a sair no encalço dos animais. Aldebaran está vigiando a manada. – Seiya apertou a barrigueira e empurrou os estribos para baixo. Montou e pegou o pacote que Aiolos segurava.

- Obrigado, Sr. Aiolos. Desculpe-me ter deixado meu cavalo para o senhor cuidar. Diga a Ikki que vá o mais depressa possível.

- Ele irá em seguida. – Aiolos afirmou e afastou-se.

Seiya virou-se em um círculo apertado e juntou-se a Shion. O xerife acenou para a casa e os cavalos saíram a galope.

- Deixei o baio no pasto, Sr. Aiolos. Ele está em ótima forma. Mas o que está acontecendo aqui? – A voz de Ikki soou aguda e curiosa.

Aiolos repetiu o que Seiya lhe dissera. Ikki escutou-o com ar de dúvida e sacudiu a cabeça como quem pretendia desafiar as instruções.

- Não gosto nada da idéia de deixá-lo sozinho e tenho certeza de que Shura também não gostaria.

- Talvez fosse melhor eu ir também, Ikki – o loiro considerou, aflito para ajuntar-se aos homens.

Sentia-se frustrado em pensar que ficaria esperando dentro de casa, enquanto outros se encarregavam de tudo.

- Não acho que seria uma boa idéia, senhor – o garoto opinou.

- Mas, Ikki, é meu rebanho e minha fazenda. Terei de fazer o que tem de ser feito.

- Senhor, é melhor fazer o que Astérion pediu. O patrão incumbiu-o de ficar como responsável lá na divisa e eu, por aqui.

- Bem, nenhum deles está aqui. Tio Dohko poderá encarregar-se da vaca e das galinhas, enquanto eu estiver fora – Aiolos falou com determinação.

Ikki anuiu, com expressão cada vez mais intrigada.

- Então esperarei pelo senhor.

- Não, vá na frente. Vou preparar comida e mais algumas coisas para levar. Sairei daqui a uma hora.

Aiolos empinou o queixo, em um gesto de desafio. Antes de se voltar, Ikki lançou-lhe um olhar de esguelha.

Continua...

Notas da autora:Para quem pensou que esse fic estava no acabando (eu também pensei), creio que ainda teremos ao menos uns 3 capítulos antes do fim. E olha que fiz de tudo para me livrar logo desse fic, já que tenho outras milhares (exagerada!) para atualizar. Mas ainda existem algumas coisas que precisam ser colocadas nos devidos lugares, não? Gostaria de agradecer todos aqueles que vêm seguindo o fic e me dando o maior apoio para continuar escrevendo-a: Dea, Silas Fiorella, Leo no Nina, Akio Youko, Dark Wolf 03, Paula-chan, Condesa Oluha e P-Shurete. Agradecimentos especiais também à Akane M.A.S.T. pela betagem e infinita paciência comigo. Obrigada, linda! E não se esqueçam: "Dedinhos Felizes Digitam Mais Rápido". Tomara que essa onde de inspiração que têm me atingido ultimamente não passe logo. U.U Beijos a todos. Muk-chan \o/