CHECKMATE
PARTE II – O JOGO
Capítulo 14
You could not give me
More than you gave me.
Why should there be something in me
Still discontented?
I've been a fool to allow
Dreams to become great expectations
But if you hear today
I'm no longer
Quite so devoted
To this affair,
I've been misquoted.
Você não poderia me dar
Mais do que já me deu.
Por que haveria algo em mim
Ainda descontente?
Eu fui um tolo por permitir
Que sonhos virassem grandes expectativas
Mas se você ficar sabendo hoje
Que eu não sou mais
Tão devoto
A esse caso,
Minhas palavras foram distorcidas.
Letras de "You and I" por Chess de Benny Anderson, Tim Rice e Björn Ulvaeus
…
…
Harry estava sentado na mesa da Grifinória no Salão Principal, cutucando nervosamente os restos do ovo cozido e da torrada em seu prato com um garfo. Na sua frente, Seamus estava envolvido em uma discussão alta e animada com o Neville e o Dean acerca do projeto deles de Herbologia. Eles tinham recebido a nota minutos atrás da Professora Sprout, e, apesar de não ter sido a melhor nota da sala, eles foram muito bem. A Gina estava sentada com o Seamus e parecia estar interessada enquanto os três meninos adentravam nos detalhes, mas Harry realmente não estava nem aí com qual seria o resultado de se cruzar uma planta bubotuber com uma Mumbulus mimbletonia. Mesmo se o cruzamento permitisse que uma forma pré-diluída de pus de bubotuber fosse coletada com um simples e firme cutucão no caule da planta, ao invés do método prévio e tedioso de ter que apertar cada bolha. O fato de o híbrido estourar seiva nojenta e grudenta em todas as direções – seiva que cheirava como uma combinação de petróleo e estrume rançoso – era nojento demais para se contemplar. Rony, que estava sentado ao lado de Harry, parecia achar a descrição nojenta também, e se virou para conversar com a Hermione sobre os planos da estadia deles na Toca. A partir desse ponto, Harry começou a ignorar todo mundo.
Mais cedo, quando ele tinha acabado de sentar-se à mesa, Harry tinha sido o centro das atenções. Todo mundo tinha exclamado sobre seu anel, e Seamus tinha lhe provocado sem dó. Rony tinha desviado o olhar em resignação e até mesmo conseguiu soltar um sorriso de aprovação em algum momento. Sentindo-se felicíssimo e satisfeito, Harry tinha observado atentamente as portas, esperando por Draco, enquanto comia seus ovos e torrada. Mas agora o sucesso do projeto de Herbologia havia dominado a conversa. Mais importante do que isso, entretanto, era o fato de que já fazia mais de meia hora desde que Harry havia deixado o quarto de Draco, e o outro garoto ainda não tinha descido. Harry estava ficando cada vez mais preocupado, imaginando se deveria voltar e tentar encontrá-lo, certificar-se que ele estava bem. Se aquela coruja tivesse vindo de Lucius¹. . .
Então finalmente as portas se abriram e Draco entrou, fazendo o seu caminho até a mesa da Sonserina com a cabeça abaixada, sem mesmo um olhar na direção de Harry. Isso era, em si só, não tão perturbador, mas Harry já estava preocupado e, portanto, ficou observando Draco atentamente, torcendo para encontrar seu olhar, tentando interpretar pela linguagem corporal dele o que estava acontecendo. Mas o Draco apenas se sentou, preparou seu café da manhã, e passou a ignorar todo mundo, inclusive o Harry.
…
…
Na mesa da Sonserina, Draco cutucou tensamente seu café da manhã, um olho fixado discretamente no Harry e o outro em Dumbledore. Até o momento, ele tinha conseguido evitar os olhares questionadores de Harry de uma forma direta, apesar de ele conseguir praticamente sentir a preocupação e a curiosidade crescentes vindas do Grifinório do outro lado do salão, enquanto Harry tentava sutilmente, e sem sucesso, capturar sua atenção. Ele ouviu a Pansy tossir forçadamente e ele se virou para lançar um olhar frio ainda mais significante para ela. Se ele era obrigado a fazer uma cena com o Harry, ele não iria fazer na frente do Dumbledore e do resto dos professores. Até mesmo a Pansy, ele pensou com irritação, deveria se tocar disso.
Mas ele não teve que esperar muito. Dumbledore bebeu o resto do seu chá e se levantou para sair da mesa. A McGonagall se levantou também, continuando sua conversa com o diretor enquanto ela o acompanhava para fora do salão. Foi apenas uma questão de tempo até que o resto dos funcionários terminasse de comer e partisse. Draco se preparou; ele tinha que cronometrar o que iria fazer perfeitamente, e teria que ser rápido. No segundo em que as portas do Salão Principal se fecharam por trás do último professor, ele se levantou, lançou à Pansy um olhar muito perfurante e ridicularizador, e então caminhou com força e intenção até onde Harry estava sentado com os outros Grifinórios. Ele não tinha muito tempo – então estava contando muito com a rápida percepção do Harry. Por favor, Harry, ele pensou, dando os últimos passos até a cadeira do outro garoto. Ele respirou profundamente enquanto Harry, sorrindo, virou-se para encará-lo. Por favor, perceba o que estou fazendo.
"Bispo para F1," Draco anunciou com o seu tom mais malvado. Sua voz era alta o suficiente para os amigos de Harry ouvirem, mas não tão alto quanto ele havia dito à Pansy que seria. Os amigos do Harry já sabiam sobre eles – ele não tinha intenção alguma de expor o relacionamento deles a outras pessoas fora desse círculo, e Pansy conseguia ver a reação do Harry bem o suficiente do outro lado do salão. Era tudo que ele iria permitir.
Demorou um segundo para que o sorriso de Harry caísse e confusão fizesse suas sobrancelhas se juntarem em um franzido enquanto ele registrava o movimento de xadrez que Draco tinha acabado de anunciar. "Espera," ele disse rapidamente, "isso não é possí-"
"Eu quero o anel de volta, Potter," Draco exigiu, cortando Harry, sua voz ainda alta o suficiente para que os outros ouvissem. Ele estendeu a mão. "Você não acha que eu realmente iria dar a você uma coisa como essa, não é?"
Um silêncio muito perturbador reinou na mesa da Grifinória enquanto os amigos de Harry, chocados ao silêncio, esperavam pela resposta do Harry. "Mas você deu," Harry disse quietamente, sem estremecer, apesar de seu coração estar repentinamente estourando em seu peito.
"Ah!" Draco jogou a cabeça para trás e riu desdenhosamente. "Você é um tolo, Potter," ele disse, sua voz tirando sarro e cheia de desprezo. "Eu apenas queria ver como seria transar com o Menino Que Sobreviveu." Ele olhou para Harry com todo o ódio antigo e injuriante dos anos anteriores estampado em sua face. "E agora que já vi. . ." ele continuou, fazendo uma expressão de nojo, "descobri que eu. . . perdi o interesse." A expressão dele ficou gélida e ele cruzou os braços. "De todas as pessoas com quem eu já transei, Potter," ele disse com desdém, "você foi de longe o pior."
"Mas a gente não. . ." Harry disse muito suavemente, quase para si mesmo, pensando furiosamente agora. E você nunca! Ele se levantou para encarar o Draco, perguntas em seus olhos, procurando os de Draco por respostas. E ele perdeu o fôlego com o que viu naqueles olhos, assim como da última vez. Memórias de outro dia vieram à sua mente, de uma tarde perto do lago, um momento em que Harry percebeu que não importa o quão calmo, desconectado ou irritante Draco parecia ser por fora, seus olhos carregavam a verdade. Agora, apesar das palavras e do tom de voz e da expressão no rosto de Draco, naqueles olhos cinza Harry ainda viu tudo que ele amava, tudo em que ele confiava, o completo oposto de tudo que Draco estava lhe dizendo. Alguma coisa estava errada. . . e repentinamente ele percebeu. Nada que Draco havia dito era verdade! Agora – se pudesse apenas descobrir o que isso significava –
Rony pulou de sua cadeira, diretamente atrás de Harry, sua face ficando vermelha com raiva. "Seu maldito. . . nojento. . .bastardo!" Ele sibilou. Ele tentou atacar por trás de Harry, mirando no pescoço do Malfoy. Mas Hermione, com o rosto pálido, parecendo chocada e traída, apanhou seu braço. Harry bloqueou o Rony também, jogando um braço na frente do peito de Rony para segurá-lo.
"Não se preocupe, Rony," Harry disse, fingindo indiferença, jogando o jogo de Draco por enquanto, torcendo ansiosamente que estivesse certo sobre o que estava acontecendo, seus olhos ainda fixados nos de Draco procurando por dicas. "Ele não vale a pena," ele adicionou friamente, fingindo sua raiva. A momentânea faísca de aprovação que Harry leu nos olhos de Draco disse tudo que precisava saber. Ele hesitou por um segundo, então soltou o Rony e retirou seu anel. Ele conseguia sentir o Rony se contorcendo atrás dele e ouviu outra pessoa arfar. Sentindo como se seu estômago tivesse caído até seus pés, ele colocou o anel na palma estendida de Draco.
Draco fechou seus dedos sobre o anel, mas apanhou os dedos de Harry em sua mão, e por um brevíssimo momento, os apertou.
A pressão passageira falou ainda mais para Harry.
Então Draco passou por eles e caminhou até as portas do salão. Quando chegou ao outro lado do Salão Principal, no exato momento em que pisou no corredor, Draco correu na direção das escadas. Ele tinha que alcançar o Dumbledore antes que o diretor chegasse ao seu escritório.
…
…
Harry ficou parado, imóvel e desnorteado em razão do choque, observando Draco sair do salão. Apenas depois que ele desapareceu pelas portas que Harry finalmente se virou. Mas quando o fez, percebeu que Pansy Parkinson o estava encarando da mesa da Sonserina, um sorriso maldoso estampado em seu rosto. Repentinamente, outra peça do quebra-cabeça se encaixou quando Harry se lembrou que a Pansy sabia da verdade sobre eles. Julgando pela expressão metida e satisfeita dela, ela havia observado a cena do Draco e estava claramente adorando o que estava acontecendo. Era quase como se. . . ela soubesse que isso iria acontecer.
Harry afundou em sua cadeira e colocou a cabeça nas mãos. Ele tinha que pensar. E provavelmente seria bom, ele pensou, que Pansy achasse que ele estava chateado. Bem, ela não estaria errada, ele pensou. Eu estou chateado. Mas tinha que ter alguma explicação. . . Harry se lembrou do que Draco tinha pedido na noite anterior - "Independente do que aconteça, Harry. . . me prometa que não vai esquecer que eu te amo." E não obstante as ações de Draco nessa manhã, ele tinha visto amor naqueles olhos, tinha o sentindo no toque rápido de seus dedos no anel.
Harry sentiu outro toque gentil, agora em seu ombro.
"Você está bem, Harry?" Hermione perguntou com uma voz apertada.
"Tem alguma coisa errada," Harry disse quietamente.
"Eu concordo!" Rony disse calorosamente, caindo em sua cadeira. "Você me impediu de matar aquele babaca nojento!" Então ele se arrepiou. "Meu Deus, Harry," ele gemeu, "ele dançou Ti'kira com você! E eu estava planejando me desculpar para ele! Eu deveria ter sabido que não era real – "
"Não!" Harry disse urgentemente, por trás de suas mãos. "Você não entendeu." Ele pausou para respirar profundamente. Ele tinha que estar certo sobre isso – nada mais fazia sentido. "A Pansy Parkinson ainda está olhando para cá da mesa da Sonserina?" ele perguntou.
"Ela está saindo agora. . . com o Crabbe, o Goyle e o Zabini," a Hermione disse vagarosamente, perplexa com a pergunta de Harry. "Por quê? O que isso importa?"
"Apenas me escutem," Harry disse, levantando a cabeça para encarar seus amigos. A expressão dele estava tensa e preocupada, mas determinada. "O que aconteceu na noite passada foi real. O Draco não quis dizer nada do que disse nessa manhã – tenho certeza disso." Ele observou o círculo de rostos preocupados o rodeando e tentou explicar. "O que o Draco disse sobre nós. . . transando. . . não é verdade." Harry sentiu sua face ficar quente, mas ignorou isso, bem como os olhos arregalados de Seamus, e continuou falando alto, "E aquele movimento de xadrez que ele fez – não era possível. Eu acabei de apanhar aquele Bispo. . . e o Rei dele está em F1 – então não foi um movimento real. Isso significa que ele pegando o anel de volta também não foi real."
"Eu não entendo," Hermione disse, agora mais confusa ainda. "O que um movimento de xadrez tem a ver com tudo?"
"Esquece isso," Harry disse. "É só o jeito como a gente vem jogando – cada movimento tem um. . . significado." Ele correu uma mão pelo seu cabelo já desarrumado. "Mas isso tem que ser algum tipo de dica," ele disse, olhando esperançosamente para Rony e depois para a Hermione. "Draco contou para a Pansy na noite passada sobre nós dois, e agora pouco eu percebi que ela estava observando tudo. Parecia que ela estava regozijando, então eu acho que ela sabia o que estava acontecendo. Talvez ela tenha uma mão em tudo isso. Mas o Draco recebeu uma coruja pouco antes de eu deixar o quarto dele essa manhã. . . que pode ter vindo do pai dele." Ele pausou. "Alguma coisa está definitivamente errada, mas não entre eu e o Draco. Acho que ele pode estar encrencado."
"Isso é besteira, Harry!" Rony protestou. "Eu não sei como você ainda pode acreditar – "
"Eu sei o que eu sei," Harry insistiu, cortando o Rony. "Talvez eu não possa explicar muito bem, mas eu sei que ele estava fingindo tudo que ele disse nessa manhã." Harry se levantou decisivamente. "Eu tenho que encontrá-lo."
"Nós vamos com você," Hermione disse, levantando-se também. "Caso ele esteja encrencado e você precise de ajuda. Não é, Rony?"
"Vamos sim," Rony disse veementemente, pulando de pé. "Caso alguém precise ser assassinado."
"Avise se precisar de ajuda," Seamus se voluntariou, ainda parecendo um pouco assustado e chateado, mas lançando um olhar desaprovador ao Rony. Dean e Neville concordaram com seu amigo. A Gina estava mordendo seu lábio inferior e parecia perturbada, mas também acenou a cabeça.
Harry sorriu para seus amigos, sentindo-se tranquilizado de certa forma. "Obrigado," ele disse simplesmente, grato pelo apoio e pela disposição em acreditar nele.
Todos eles deixaram o Salão Principal, Harry na liderança. Nas escadas principais, eles se separaram – Rony e Hermione foram com Harry na direção da torre da Sonserina, enquanto o grupo com o Seamus foi para o salão comunal da Grifinória, prometendo procurar pelo Malfoy no caminho. Mas enquanto Harry e seus dois amigos se aproximavam da entrada da torre da Sonserina, eles puderam ver o Zabini, o Crabbe e o Goyle parados dentro da alcova, bloqueando as escadas.
"Espera!" Hermione sussurrou, urgentemente. Ela segurou os dois meninos e os arrastou novamente contra a parede antes que os Sonserinos os avistassem. Ela ignorou a reclamação murmurada de Rony e se virou diretamente para o Harry.
"Eu deveria ir falar com eles, Harry," ela disse, implorando um pouco, mas definitivamente tomando as rédeas. "Eles provavelmente não vão te deixar subir lá e você não quer começar uma briga. Eu sou Monitora-Chefe e o Draco é um Monitor. Eles vão ter que me deixar subir. Deixe-me tentar descobrir o que está acontecendo primeiro. Talvez eu consiga convencer o Draco a descer."
Harry relutantemente concordou, mas apenas com uma condição. "Eu tenho que falar com ele, Hermione," ele disse firmemente. "Independentemente do que você descubra, se ele não descer, eu vou subir. Não importa quem esteja no caminho."
Os olhos de Rony se iluminaram novamente com a possibilidade de confronto com os Sonserinos e ele sorriu para o Harry. Se ele não podia socar o Malfoy, ele não se importaria em encontrar um substituto próximo.
Hermione lançou olhares severos para os dois, mas ela sabia que não conseguiria impedir que Harry tentasse subir para falar com o Draco. Rony, entretanto, era outra história, e ela jogou seu olhar mais severo nele. "Vocês dois vão voltar e ficar fora de vista até que eu descubra o que está acontecendo," ela disse. "Eu venho encontrar vocês assim que eu souber de alguma coisa." Ela ficou observando até eles desaparecerem no corredor, então se virou e caminhou resolutamente até a alcova, pronta para encarar os Sonserinos. Ela conseguia escutar a conversa deles enquanto se aproximava.
"Quanto tempo temos que ficar aqui?" Goyle reclamou. "Eu queria ir até a Dedos de Mel para comprar doces para eu comer durante as férias."
"É," Crabbe concordou. "Eu também."
"Só até a Pansy voltar," Zabini disse com irritação. "Ela queria uma chance de conversar com o Draco e não quer ser interrompida por – " Ele cortou suas palavras no meio da sentença quando avistou Hermione. Mirando um sorriso arrogante para o Crabbe e o Goyle, ele cruzou os braços e se plantou bem no centro da entrada da alcova. "Olha o que temos aqui," Zabini provocou enquanto ela vinha parar na frente deles. "Uma coisa sarnenta escapou da Grifinória."
Crabbe e Goyle riram.
Hermione sentiu suas bochechas ficarem quentes, mas ela encarou Zabini nos olhos, sem se intimidar com a brincadeira maldosa. "Eu tenho que tratar de assuntos de Monitoria com o Malfoy," ela disse azedamente.
"Jura? Mas que pena," Zabini falou. "Malfoy está ocupado e não quer ser perturbado."
Crabbe riu novamente, mas Goyle parecia confuso e se inclinou para frente e sussurrou com a voz alta, "Mas eu achei que era a Pansy que não queria - "
Zabini deu-lhe uma acotovelada, proporcionando ao Goyle um rápido e muito efetivo ajuste de memória vindo direto do seu estômago.
"Ooof," Goyle soltou, suas bochechas gordas infladas e seus olhos saltando como de um peixe.
Hermione limpou a garganta altamente em irritação e colocou as mãos em seus quadris. Por um longo momento, ela apenas encarou os três em silêncio. Então, utilizando sua melhor e mais ameaçadora voz de Monitora-Chefe, ela disse vagarosamente, "a não ser que vocês três queiram passar o resto da tarde esfregando todos os vasos sanitários do dormitório Grifinório. . ."
Os olhos de Zabini ligeiramente se cruzaram e seu lábio superior se curvou, mas ele não se mexeu.
"Com. . . suas. . . escovas. . . de. . . dentes," Hermione adicionou, enunciando cada palavra. "Eu sugiro que vocês me deixem passar. Agora!"
Alguém soltou um som como se fosse vomitar, e a pose confiante de Zabini caiu visivelmente. Crabbe e Goyle pareciam ter encolhido, deslizando às sombras da alcova. Mas antes que Zabini pudesse efetivamente abrir caminho para ela, ela ouviu passos vindo das escadas atrás deles.
Pansy, obviamente confusa e irritada, apareceu na alcova, falando altamente, "Eu subi todas aquelas malditas escadas e ele nem está lá!" Ela avistou Hermione e parou onde estava. "O que você quer?" ela exigiu ofensivamente, empurrando Zabini para confrontar a outra garota.
"Falar com o Malfoy," Hermione repetiu em seu tom mais autoritário. "Assuntos importantes de Monitoria."
Pansy estreitou seus olhos. "Ele não está no quarto. Eu acabei de checar." Ela lançou um olhar feio à Hermione. "E eu não sei por que você tem que ficar importunando ele o tempo todo – afinal de contas, ele não é o único Monitor na escola."
"Eu 'importuno' ele porque ele deveria ter sido o Monitor-Chefe," Hermione disse causticamente. "E porque eu confio na opinião dele muito mais do que na daquele Corvinal cabeçudo e idiota que é o Monitor-Chefe."
Algo mudou nos olhos de Pansy após ouvir isso, uma transformação de desgosto para relutante aprovação. "Então você vai ter que procurar por ele, se é tão importante. Ele não está aqui." Uma suave expressão de preocupação passou pelo rosto da Pansy. "Eu não sei onde ele foi."
Hermione estudou a face da Pansy pensativamente por mais um momento. "Se você ver ele, diga para ele vir me encontrar," ela disse. "Eu estarei no salão comunal da Grifinória, esperando." Ela se virou e andou para longe, procurando o Harry e o Rony. Harry não ia ficar feliz com isso.
Ela os encontrou sentados no primeiro degrau das escadas principais. Harry pulou de pé ansiosamente e veio encontrá-la.
"Você falou com ele?" ele perguntou imediatamente.
"Não. De acordo com a Pansy, ele não está no quarto."
As sobrancelhas de Harry se levantaram. "E você acreditou na palavra dela?" ele perguntou, incrédulo.
"Eu ouvi ela falando antes que ela soubesse que eu estava ali," Hermione disse, explicando pacientemente. "E ela estava preocupada também – estava claro no rosto dela. Ela não sabe onde ele está."
Harry suspirou. "Maldição," ele sussurrou, desapontamento e preocupação preenchendo-o. Ele olhou para a Hermione e o Rony com angústia e então determinação teimosa em seus olhos. "Então eu tenho que procurar por ele."
Hermione concordou com a cabeça. "Eu pedi para que a Pansy dissesse para o Draco me encontrar no salão comunal da Grifinória caso ela o visse. Então eu vou esperar lá." Ela pausou por um segundo como se estivesse se decidindo sobre alguma coisa, então falou firmemente para o Harry. "Eu acho que você deveria levar o Rony com você. Eu sei que você confia no Draco, e eu também, mas você ainda tem que ter cuidado. Talvez ele esteja encrencado e ele tenha tentado te avisar com todas aquelas mentiras nessa manhã." Ela olhou para o Rony, colocou uma mão no braço dele, e respirou profundamente. "Apenas me prometa que você não vai começar uma briga."
"Eu vou fazer o que for necessário," Rony protestou ardentemente, "para proteger o Harry. Se isso incluir matar o Malfoy, então. . ." Ele parou ao ver o olhar furioso e desaprovador da Hermione, "Tá bom, tá bom," ele disse, cedendo um pouco. "Eu só vou matá-lo se ele não fizer as pazes com o Harry!" Então ele se virou, murmurando para si mesmo. "Meu Deus, eu devo estar ficando louco. Não acredito que eu acabei de dizer isso. . ."
Harry hesitou. Ele realmente não queria arriscar outro confronto violento entre o Rony e o Draco, e se eles encontrassem o Sonserino, ele definitivamente queria que a conversa entre eles fosse privada. Mas Hermione, como sempre, estava provavelmente certa. Se Draco estava tentando avisá-lo de algum tipo de problema, ele não devia confrontá-lo sozinho. Ele acenou para o Rony. "Tá bom," ele disse. "Eu acho que devemos começar pelas masmorras."
Rony grunhiu com a ideia de ter que andar pelas masmorras úmidas, frias e sombrias. "Sabe," ele murmurou, "se você ainda tivesse o Mapa do Maroto, nós não teríamos que passar por isso – procurando por todo o lado por aquele. . . aquele. . . fuinha traidor!"
"Rony, não chama ele assim!" Harry disse, ofendido.
Rony fez uma cara irritada, mas arrependida. "Eu só acho uma merda que o Dumbledore tenha feito você trancar o Mapa no Gringotes no ano passado," ele disse. "A gente poderia tê-lo usado."
"Aquele mapa era perigoso!" Hermione declarou com irritação. "Eu achei isso desde o começo. Se alguém do lado do Voldemort tivesse acesso a ele. . . ninguém, especialmente o Harry, estaria a salvo. O diretor tinha toda a razão em trancá-lo! Se você perguntar o que eu acho, é que ele deveria ter sido entregue anos atrás e – "
"Chega," Harry disse, exasperado. "Por favor. Não tem por que brigar sobre isso agora." Ele olhou para o Rony. "Eu tenho que ir. Você vai me ajudar ou não?"
"Sim," Rony disse firmemente. "Eu não vou deixar você ir sozinho."
"Por favor, vocês dois, tenham cuidado," Hermione disse quietamente enquanto os dois meninos desciam na direção das masmorras.
Na hora do almoço, entretanto, ainda não havia sinal do Draco. Rony e Harry tinham vasculhado as masmorras, até mesmo indo nas pontas dos pés até o escritório de Snape e colocando os ouvidos contra a porta. Eles tinham procurado em todas as salas de aula no andar superior e na Torre de Astronomia. Ao meio-dia, eles finalmente desistiram e foram até o Salão Principal para encontrar a Hermione e almoçar, torcendo para que Draco aparecesse por lá. Mas para o desespero crescente do Harry, o Sonserino nunca apareceu.
Finalmente, quando as mesas estavam prestes a serem limpas, Harry, com a ajuda de Hermione, fez vários sanduíches da carne e do pão na mesa, enrolando-os em guardanapos e os guardando na mochila dele. "Eu vou voltar ao dormitório para pegar algumas coisas," Harry disse, "então eu vou esperar no quarto dele. Sozinho." Ele estava obviamente chateado e desencorajado, mas sua voz, agora que tinha se decidido, estava firme, e ele estendeu uma mão para parar qualquer argumento. "Ele tem que voltar mais cedo ou mais tarde. Se ele aparecer no nosso salão comunal primeiro, você pode dizer onde eu estou."
Hermione silenciosamente concordou com um gesto da cabeça. Ela estava rapidamente ficando pronta para ajudar o Rony a estrangular o Draco por fazer Harry passar por isso.
Os três caminharam até o salão comunal da Grifinória juntos em um silêncio depressivo. Quando Harry apanhou suas coisas, Rony caminhou com ele até o fim das escadas principais no Hall de entrada. "Tome cuidado, Harry," ele disse quietamente. "Eu vou esperar aqui pelo Malfoy – se ele não for até a Hermione lá em cima, eu vou dizer onde você está."
Harry engoliu um obstáculo em sua garganta, muitíssimo grato pela ajuda de Rony hoje. "Obrigado," ele disse suavemente. Ele fixou seus olhos na expressão de Rony, ainda brava, mas ao mesmo tempo preocupada. "Não se preocupe," ele disse resolutamente. "Se ele realmente quis terminar comigo, sem explicação melhor do que a que ele deu essa manhã, eu mesmo vou matá-lo."
…
…
Ainda não tinha passado uma hora do almoço quando o alarme de Pansy disparou. Ela correu para fora de seu quarto e, quando não viu ninguém, chamou às escadas. "Draco?" Ninguém respondeu e um segundo depois, ela chamou novamente, mais alto. "Potter? Eu sei que está aí!"
Harry, que já estava na curva da escada espiral em que ela não conseguia vê-lo, parou. Ele tinha passado pela porta dela apressadamente, mas ele tinha certeza que não tinha feito qualquer barulho. . . Então, tarde demais, lembrou-se do que ela tinha dito ao Draco na aula de Poções da manhã anterior. "Eu coloquei um alarme nas escadas do lado de fora da sua porta. . ." Então, ela obviamente tinha feito isso novamente.
"Ele não está aí em cima!" Pansy gritou.
Harry, enfurecido depois da manhã miserável que teve, arrancou a Capa da Invisibilidade, deixou cair sua mochila e marchou novamente escadas abaixo, apanhando sua varinha. "Onde ele está, então?" ele praticamente gritou.
"Como que eu vou saber?" Pansy retrucou quando Harry reapareceu, pulando os últimos dois degraus e caminhando com raiva para encará-la. "Eu não o vejo desde. . ." Ela sorriu com satisfação. "Desde aquela adorável cena no café da manhã."
"Parkinson, eu juro por Deus," Harry ameaçou, levantando sua varinha, "eu vou enfeitiçar seu cabelo para ele combinar com o seu coração podre e verde Sonserino. O que você sabe sobre o que aconteceu?"
Pansy deu um passo para trás ao ver a varinha de Harry, mas o queixo dela se levantou corajosamente. "Eu sei tudo a respeito," ela fez uma careta. "Ele fez aquilo por mim."
"Não me faça rir," Harry disse com grosseria. "Eu sei que ele te contou sobre nós – eu sei que você sabe a verdade. O que você fez?"
"Ah, nada, na verdade," ela disse com um dar de ombros imprudente e um sorriso malicioso, " - apenas uma pequena. . . persuasão da mente."
"Chantagem, é o que você quer dizer," Harry disse curtamente. Ele apontou a varinha na cara dela. "O que. . . você. . . fez?"
Ela se manteve firme dessa vez. Ele podia ameaçá-la à vontade, ela não ia ligar. Ela não era tão estúpida a ponto de acreditar que ele realmente iria atacá-la, e ela certamente não seria tão facilmente intimidada. Mas ela pausou, afetada pela situação. Era tão terrivelmente injusto. Ela tinha perdido o Draco, e agora Potter estava tentando roubar até mesmo esse pequeno momento de triunfo dela ao ser tão insistente. "Ele me fez sofrer, Potter," ela disse defensivamente, repentinamente brava também. "Eu só queria – "
"O quê? Fazê-lo sofrer também?" Harry olhou para ela, vastamente agravado e impaciente. "Ou sou eu que você quer machucar?"
"Sim, você," Pansy soltou, fazendo uma careta. "Não ele. Nunca ele."
"Bem, não funcionou," Harry declarou. "Eu sabia que ele não estava falando sério."
"Ah, que bom para você," ela disse calorosamente. "Mas você não sabe onde ele está! Você ficou chateado e preocupado a manhã inteira pensando que alguma coisa de errado tinha acontecido. Seus amigos estão todos preocupados. Eu diria que tudo funcionou perfeitamente." Ela encarou Harry direto nos olhos, tentando parecer insolente e firme, sua raiva na medida da dele, intimando-o a ir em frente com sua ameaça. Mas. . .
Ah. . .
Ela perdeu o fôlego repentinamente e seu coração deu um sobressalto, caindo abruptamente em território perigoso. Ah, Deus. . . Os olhos dele eram tão verdes, tão claros e vibrantes e vívidos com raiva, tão. . . cativantes. Ela sentiu um calor vagarosamente tomar conta de seu rosto. . . e entendeu nesse momento exatamente como o Draco pôde ter descoberto amor no meio de todas as suas brigas furiosas com esse menino. Harry Potter, em um desafio cara-a-cara como esse, era firme, elétrico, confiante, carregando uma corrente de força e poder crus, virtualmente brilhando no ar ao redor dele – tudo que atrairia o Draco.
Tudo que ela não era. As palavras de Draco daquela manhã vieram à sua mente, a verdade que elas continham era inegável. "Você realmente achou que eu poderia amar alguém tão. . . comum. . . como você?"
As palavras bravas dela falharam e morreram e derreteram em algo inesperado. "Eu só quero saber uma coisa," Pansy disse, engolindo um repentino nó em sua garganta, consciente do fato de que se o objetivo dela era ser desafiadora, ela estava falhando espetacularmente. "Você realmente o ama?"
"Eu amo ele," Harry disse, suas palavras precisas e empáticas. "Mais do que você pode imaginar."
Pansy virou o rosto para o outro lado, mordendo seu lábio inferior. "Era para ele ficar comigo," ela disse, sua voz ligeiramente trêmula.
Com um suspiro sofrido, Harry deixou seu braço cair, para que a varinha não mais apontasse para ela. "Isso nunca iria acontecer, sabe. Mesmo que ele não estivesse comigo. . ." Ele tentou dizer de forma gentil, mas um espaço gigante de exasperação estava logo abaixo de suas palavras.
Virando novamente, ela o encarou, uma curiosidade desesperada em seus olhos. "Ele é diferente?" ela perguntou hesitantemente. "Quando vocês estão sozinhos? Quando você e ele. . . sabe. . ." Ela pausou, olhou para o chão. "Eu sempre achei que se ele amasse. . . alguém, ele seria diferente. Afetuoso. . . talvez até mesmo. . . gentil."
Harry estudou a face caída dela por um momento, sua raiva escorregando com essas palavras e se tornando aquele vazio doloroso e familiar, sentindo falta do Draco, querendo abraçá-lo, precisando do toque dele. "Ele é," ele disse, sua voz baixa e constrita. "Ele é exatamente assim."
"Eu queria essas reações dele. . ." Ela suspirou. "Pelo menos eu estava certa sobre alguma coisa." Ela voltou o olhar ao Harry, então soltou uma risada curta e sarcástica. "Ah! Harry Potter e Draco Malfoy," ela provocou. "Amantes! Deus, quem jamais imaginaria isso! Na noite passada, eu estava certa de que vocês dois queriam mutuamente se rasgar em pedacinhos sangrentos. Como que vocês chegaram a isso?"
Harry rolou os olhos. "Com certeza um dia nós podemos todos nos sentar e ter uma boa conversa sobre o que aconteceu," ele disse, irritação novamente clara em seu tom. "Mas no momento eu preciso encontrá-lo. Você não tem a mínima ideia de onde ele pode estar?"
"Nenhuma," Pansy disse, dizendo a verdade, mas internamente feliz por não saber. Tudo bem que ela teve que admitir derrota ao Potter nisso; mas mesmo assim, ela não precisava ajudá-lo.
"Maldição," Harry murmurou, virando para o outro lado. Ele se sentou no último degrau que levava ao quarto de Draco, cotovelos descansando em seus joelhos, cabeça nas mãos. "Onde ele está?"
Após um momento, a Pansy se aproximou e se sentou ao lado dele. "Eu acho," ela disse relutantemente, "que se não pode ser eu, eu deveria estar contente por ele estar com você – quero dizer, você é o famoso Harry Potter – pelo menos eu não tive que abrir mão dele em pró de um joão-ninguém. Eu não aguentaria se ele realmente estivesse com aquela menina do sexto-ano."
Harry a lançou um olhar de profunda irritação e se levantou. "Eu vou esperar no quarto dele," ele disse decisivamente. Ele deu três passos, então pausou e se virou. "Se você realmente se importa com ele, Parkinson," ele disse, "você poderia tentar ser amiga dele. E amigos não chantageiam amigos."
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Quando Harry entrou no quarto do Draco, ele re-acendeu o fogo na lareira, e então se viu completamente perdido. Estava nevando novamente lá fora, e Harry ficou um momento com seus cotovelos apoiados na janela, observando os flocos de neve gordos e pesados, caindo em espirais e rapidamente cobrindo o chão. Mas a neve apenas o fazia se lembrar daquele maravilhoso dia que ele passou com o Draco, voando sobre floresta depois de Hogsmeade. Esse pensamento repentinamente o relembrou de que ele tinha deixado sua Firebolt aqui nesse quarto. Ele se virou para procurá-la e a encontrou encostada com a Nimbus 2001 na estante de livros.
Caminhando até lá, ele escaneou os títulos dos livros nas prateleiras de Draco. Havia, é claro, o massivo Poções Pelos Séculos: Uma Enciclopédia Histórica, que Draco tinha usado na noite que eles tinham tentado fazer a Poção de Refletir Maldições. Ao lado estava A Antiga Arte De Cura: Os Segredos da Herbologia Mágica, bem como Poções e Explosivos: Como Evitar Misturas Mortais em Poções, e então o livro de Cockaynem Leechdoms, Wortcunning and Starcraft of Early England² em três volumes. Harry teve que admitir que Draco tinha uma coleção muito impressionante de manuais de Poções e livros referentes a ingredientes de Poções , incluindo os livros que eles utilizaram nos sete anos de escola – mas não tinha nada de muito interessante para ele.
Finalmente, ele se sentou na poltrona na frente do fogo e encarou o tabuleiro de xadrez em cima da mesa. Ele estudou as peças novamente, reconfirmando o que tinha percebido nessa manhã – que o movimento que o Draco tinha feito era completamente impossível. Ele sabia que não tinha como Draco fazer um erro desses, então tinha que ter sido de propósito, tinha que ser algum tipo de dica. Harry também observou o movimento que Draco tinha quase feito na noite passada antes do Baile Anual, e balançou a cabeça. Como que Draco o tinha chamado? Suicídio? Realmente era.
Então isso permitia apenas outro movimento possível, um movimento que deixava Harry com uma perseguição potencialmente longa atrás do Rei de Draco. Harry agora percebeu com um pressentimento ruim e com profundo desapontamento, que eles provavelmente não teriam tempo de terminar o jogo antes que Draco fosse embora na manhã seguinte. Talvez, escondido ao meio de todos os possíveis movimentos futuros, Draco realmente tivesse uma estratégia incrível e brilhante que ele não conseguia ainda avistar, mas era inútil continuar encarando o tabuleiro. Era a vez de Draco, e não poder fazer nada apenas aumentava sua frustração. Ele se inclinou na cadeira, sentindo-se tenso e desesperançado, observando tristemente o fogo. Para onde Draco poderia possivelmente ter desaparecido tão completamente?
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Draco estava correndo novamente, pulando dois degraus por vez na Torre da Sonserina como tinha feito após o Baile Anual na noite anterior. Já estava no fim da tarde, e ele não tinha visto o Harry o dia inteiro. Se não fosse pela maldita interferência de seu pai e aquele maldito feitiço no anel, ele pensou com raiva, eles teriam tido a manhã inteira juntos. Ao invés disso, ele teve que passar a manhã inteira esperando para falar com o Dumbledore, e então teve que explicar tudo, e depois disso teve que esperar até que o feitiço no anel tivesse sido retirado, e finalmente, teve que convencer o Dumbledore a dar para ele o que ele precisava para continuar seu plano, e então teve que esperar por isso. Demorou horas.
Dumbledore foi muito compreensivo, muito prestativo e preocupado – tinha, em outras palavras, caído perfeitamente no esquema do Draco. O diretor tinha até mesmo pedido almoço para eles em seu escritório. Draco sentiu-se bastante culpado em enganar o velho bruxo, mas ele se relembrou que não tinha escolha. E durante todo esse tempo, ele esteve preocupado com o Harry – com o que Harry estaria pensando enquanto as horas se arrastavam vagarosamente. Draco tinha quase certeza que Harry tinha entendido a situação nessa manhã, mas dúvida e ansiedade ficavam voltando para atormentá-lo.
Depois que ele finalmente deixou o escritório de Dumbledore, ele foi diretamente ao Salão Comunal da Grifinória, procurando pelo Harry. Felizmente, ele pensou, a amizade que eles tinham confessado no Baile Anual permitia-lhe fazer isso. Mas a Mulher Gorda no retrato acima da entrada tinha prontamente recusado até mesmo que ele enfiasse a cabeça para inquirir sobre o Harry. O sr. Potter e o sr. Weasley, ela havia o informado com indignação, tinham saído há mais de uma hora atrás e não haviam retornado, e ao menos que ele soubesse a senha. . .
"Então me deixe falar com a Hermione Granger," ele insistiu, tentando não perder a paciência e tentar futilmente arrancar o retrato da parede em frustração. "Ela é a Monitora-Chefe e eu sou Monitor," ele adicionou, agarrando-se a qualquer coisa que pudesse convencer o retrato teimoso. "Eu tenho que perguntar algo para ela – é importante!"
Ele pareceu tão desesperado naquele momento que a Mulher Gorda cedeu, abrindo a porta apenas o suficiente para que ele conseguisse olhar dentro do Salão Comunal.
Para o profundo alívio de Draco, ele encontrou a Granger ali esperando por ele. Harry, ela disse friamente, tinha ido até o quarto do Draco para esperar, após ter passado a manhã inteira procurando por ele, acreditando que Draco não quis dizer as coisas que falou no café da manhã. Draco a garantiu que Harry estava certo e que ele iria até seu quarto imediatamente para falar com ele. Foi então que ele voltou a correr, passando pelas escadas mágicas, apenas para ser impedido pelo Weasley nas escadas principais do Salão Principal.
Ele tinha se livrado do ruivo agressivo com uma explicação rápida: ele estivera falando com o Dumbledore sobre sua volta para casa; sim, ele e Harry estavam bem; ele não tinha tentado avisar Harry de nada perigoso; era tudo culpa da Pansy e se ele pudesse apenas ir e falar com o Harry agora. . . por favor. Aquele por favor tinha ficado praticamente preso em sua garganta, mas o Weasley o soltou. Enquanto ele corria pelas escadas e passava pela porta da Pansy, ele ouviu a porta sendo aberta, mas ele já estava quatro, então seis degraus acima, depois da curva, e ela não o chamou. Ele não teria parado de qualquer jeito.
…
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Harry ainda estava sentado na cadeira no quarto do Draco, seus olhos fechados, cansado de encarar o fogo. Ele retirou seus óculos por um momento, esfregando seu nariz. Eram quase duas e meia da tarde e ninguém tinha visto o Draco desde que ele deixou o Salão Principal depois do café da manhã. Harry estava começando a ficar desesperado, e planos alternativos estavam começando a se formar em sua mente. Ele estava prestes a se convencer de que esperar ali não era uma boa ideia, afinal de contas, e que ele deveria ir até o diretor e avisar que Draco estava desaparecido, quando ouviu os passos corridos e a porta foi aberta atrás de si. Por um segundo ele ficou rígido, com medo de acreditar – ele esperou tanto. . . "Draco?" ele chamou, sua voz quebrando ligeiramente. Então ele se levantou da cadeira para ver.
Draco estava parado logo depois da porta, sua mão ainda na maçaneta, cabelo pálido caindo em seus olhos. "Harry?" ele disse, um pouco sem fôlego de toda a corrida. Eles se encararam por um segundo, e então Draco, deixando a porta fechar atrás de si, deu um passo para se livrar da distância entre eles e jogou seus braços ao redor do pescoço do outro garoto. Os braços do Harry vieram ao redor das costas do Draco e eles se seguraram apertadamente por vários longos minutos, apenas se abraçando, até que Draco, finalmente recuperando o fôlego, disse, "Você entendeu minhas dicas? Você sabe que eu não quis dizer aquilo no café da manhã?"
"Sim," Harry disse, afastando-se e acariciando uma mecha do cabelo do Draco. "Eu entendi as dicas." E eu vi a verdade nos seus olhos, ele pensou para si mesmo.
"Foram ótimas dicas, não foram?" Draco disse com um sorriso aliviado, orgulhoso de sua própria esperteza. "Mas eu fiquei preocupado o dia inteiro," ele adicionou seriamente, "com medo de que você não tivesse entendido."
Harry riu, exasperado. "Você ficou preocupado! Draco, eu fiquei louco de preocupação. Ninguém sabia onde você estava!" Toda a frustração da longa procura dessa manhã e tarde correu por Harry. "Eu entendi nessa manhã que você não estava realmente terminando comigo," ele continuou, vocalizando suas perguntas frustradas, "mas eu ainda não sei o porquê. E quando você desapareceu daquele jeito. . . e nós não conseguíamos encontrá-lo, eu temi que coisas horríveis pudessem ter acontecido com você!" Ele pausou e respirou fundo. "Eu quero saber o que está acontecendo."
"Eu sei," Draco disse, inclinando-se para beijar o Harry. "Eu vou te contar. . . em um minuto." Ele conseguiu roubar um beijo curto antes que Harry se afastasse novamente.
"Agora," Harry disse, mas seu tom de voz tinha suavizado em razão do beijo. "Eu sei que tinha alguma coisa a ver com a Pansy – eu falei com ela nas escadas, mas por quê? O que ela fez? E onde você esteve o dia inteiro? Eu procurei todos os cantos por você." Sua voz tremeu ligeiramente. "Eu achei que nós teríamos o dia inteiro juntos. Fiquei com medo – que a coruja dessa manhã fosse do seu pai – que você estivesse encrencado."
Draco balançou a cabeça. "A coruja era do meu pai, mas está tudo bem – ele só estava bravo porque eu não tinha escrito para ele como ele tinha demandado, então eu tive que responder a carta antes de descer para o café da manhã." Ele pausou por um segundo, encontrando os olhos verdes questionadores com os seus sem hesitar. "E quanto à Pansy, ela subiu aqui," ele explicou, "logo depois que você foi embora, e ameaçou contar para o meu pai sobre nós. Ela tinha escrito uma carta para ele e queria que eu fizesse uma cena em troca do silêncio dela. Então foi o que eu fiz." Ele sorriu um meio-sorriso rápido e peralta. "Apesar de eu ter esquecido de contar a ela sobre as dicas." Então a expressão dele ficou sereno enquanto ele retirava o anel do bolso e estendia sua mão. "Desculpe por ter pegado o anel," ele disse suavemente. "Ainda é seu."
"Ela ia contar para o seu pai!" Harry respirou, chocado e alarmado. "Ah, Deus," ele disse, lembrando-se da conversa que tivera com a Pansy nas escadas. "Ela disse que queria me fazer sofrer e eu. . . eu disse que não ia funcionar – que eu soube o tempo todo que você não estava sendo sincero. Ela disse que funcionou perfeitamente, na opinião dela. . . mas você acha que ela vai enviar a carta agora, de qualquer jeito?" Ele perguntou ansiosamente, "por causa do que eu disse?" Ele colocou uma mão na de Draco quase sem perceber e deixou Draco colocar o anel de volta em seu dedo.
"Não," Draco disse com certeza. "Para começar, eu não acho que ela realmente tinha a intenção de mandar a carta. Ela só queria causar problemas, e se ela ficou sabendo que você ficou correndo de um lado para o outro chateado e procurando por mim, ela conseguiu o que queria. Além do mais," ele sorriu com satisfação, "eu peguei a carta dela e queimei. Ela teria que escrevê-la desde o começo e, conhecendo a Pansy, isso seria muito empenho." Ele apertou a mão de Harry. "Mas agora," ele adicionou, urgência clara em sua voz, seu sorriso desaparecendo rapidamente em uma seriedade mortal, "me prometa que você nunca mais vai retirar esse anel. Por qualquer razão. . . não importa o que aconteça."
"Tá bom," Harry disse, observando o pequeno dragão prateado que circulava seu dedo. "Eu prometo. Mas por quê?"
"É muito importante para mim, só isso," Draco disse rapidamente. "Saber que você estará com ele, enquanto eu estiver longe."
"Eu vou usá-lo todos os minutos, então," Harry disse com um sorriso confortante.
Draco retornou o sorriso e puxou Harry para seus braços, beijando-o novamente.
Dessa vez Harry não se afastou, permitindo que o beijo e o conforto do corpo do Draco pressionado contra o seu aliviasse a tensão que ele ainda sentia devido ao stress dessa manhã.
"Para responder à sua segunda pergunta," Draco continuou, ligeiramente sem fôlego depois que eles se separaram. "Eu estive com o Dumbledore a manhã inteira. Eu conversei com ele sobre minha ida para casa. Eu disse como você estava preocupado."
"Finalmente!" Harry exclamou, felicíssimo com a novidade. "E. . . ele te disse para ficar aqui, não é?" ele perguntou esperançosamente.
"Não. Mas eu pedi que ele me fizesse isso." Draco deu um passo para trás, afastando-se gentilmente do abraço de Harry e alcançou dentro do seu bolso. Ele retirou uma pequena moeda. "É uma Chave de Portal para aquela clareira que encontramos no caminho para Hogsmeade," ele disse. "Dumbledore a fez com uma palavra de ativação – se algo acontecer, tudo que eu tenho que fazer é segurá-la e dizer a palavra. Eu vou ficar com ela todos os minutos, Harry, eu prometo."
Draco respirou profundamente, sabendo que suas próximas palavras eram essenciais, eram o primeiro passo em atrair o Harry para o que tinha planejado para o seu pai. Ele encontrou os olhos verdes vívidos com uma expressão que ele esperava que parecesse honesta, e disse, "Mas, como eu tenho a Chave de Portal, eu decidi que não vou ficar em casa o feriado inteiro, até mesmo se nada acontecer. Tenho certeza que eu vou conseguir voltar um dia depois do Natal, no fim da tarde, talvez até mesmo umas três da tarde."
"Isso não vai deixar seu pai ainda mais suspeito?" Harry perguntou, surpreso. "Se você ficar em casa dois dias e então desaparecer repentinamente para voltar para cá?"
"Ele espera que eu esteja lá no dia do Natal," Draco explicou, "mas depois, com sorte, ele irá embora. Depois disso, não vai fazer diferença. Se for necessário, eu vou pensar em alguma desculpa para eu voltar mais cedo – que eu tenho que estudar ou qualquer outra coisa." Draco colocou a Chave de Portal novamente em seu bolso. "Você me encontraria lá?" ele perguntou, segurando a respiração. "Na clareira da Chave de Portal?" A resposta de Harry era mais que importante.
"Sim, é claro que sim." Harry afirmou. "Mas Draco, por que lá? Por que o Dumbledore não te fez uma Chave de Portal para te trazer diretamente aqui, no castelo?"
"Porque nós não podemos confiar no meu pai," Draco disse com gravidade. "Se essa Chave cair em mãos erradas por algum motivo. . . e eles me forçarem a falar. . ."
Harry moveu a cabeça, compreendendo. ". . . eles poderiam entrar em Hogwarts."
"Isso."
Harry suspirou. Não era o que ele teria preferido, mas era muito melhor do que não ter o Draco ali o feriado inteiro. "Tá bom," ele disse. "A não ser que você me diga o contrário, eu estarei lá para te encontrar," ele prometeu. "No dia depois do Natal, às três horas." Ele sorriu. "Então nós teremos o castelo só para nós dois por vários dias."
Draco sorriu também e se aproximou para abraçar Harry novamente, mas o sorriso desapareceu assim que eles se abraçaram e ele soube que Harry não podia ver seu rosto. Seu coração estava doendo – por esconder a verdade, por saber a verdade. Ele desejava que Harry não precisasse acreditar que eles ficariam juntos depois do Natal. Ele desejava que fosse verdade. Ele queria prometer ao Harry que eles teriam todos aqueles dias depois do Natal, e todos os dias posteriores, juntos para o resto de suas vidas, mas na realidade, tudo terminaria no dia depois do Natal, às três horas da tarde. O futuro deles terminaria exatamente então. E todo minuto que passava os trazia mais próximos a esse fim, todo minuto que passava fazia mais difícil que Draco ignorasse os pensamentos que o atormentavam. Ele colocou a cabeça no ombro do Harry, sentindo-se cansado e sofrido. Harry agora esperava passar o feriado com ele, e Draco, sabendo o que realmente aconteceria, arrepiou-se.
"Draco?" Harry perguntou suavemente, sentindo o arrepio. "Você está bem?"
"Senti sua falta," Draco disse com a voz baixa. "Desculpa por ter sumido por tanto tempo – eu não sabia que ia demorar tanto," ele adicionou, repentinamente precisando de perdão por várias outras coisas também. Ele levantou a cabeça e encontrou o olhar preocupado de Harry. "Agora a maior parte do nosso último dia já se foi."
"Não se preocupe," Harry disse, beijando-o levemente, uma mão se elevando para tocar sua face. "Nós temos a noite inteira, e então em dois dias você vai voltar."
Draco não respondeu; ele apenas retornou o beijo ardentemente.
Os braços de Harry foram ao redor do Draco, segurando-o perto, derretendo-se no beijo. Ele se sentiu seguro e confortável mais uma vez; todas as suas perguntas respondidas. Repentinamente, apenas por saber que o Draco voltaria muito antes do que esperavam, por saber que eles teriam tempo juntos no feriado, fazia com que se sentisse muito melhor. Se eles pudessem aguentar os dois dias de separação. . .
Ele sentiu a língua do Draco gentilmente provocando seu lábio inferior e ele abriu a boca, recebendo aquela invasão macia, aprofundando o beijo. Pequenas faíscas e arrepios corriam por sua pele – e seus braços apertaram, trazendo Draco para mais perto. Meu Deus, como ele queria isso, como ele queria o Draco. Ele se lembrou do que estivera pensando na noite anterior enquanto segurava o outro garoto adormecido em seus braços. Draco apenas ficaria longe por dois dias, mas ele ainda poderia estar em perigo, e Harry não conseguia aceitar o pensamento de se separar dele, mesmo por esse pequeno período de tempo, sem que eles antes fizessem amor.
Harry se afastou vagarosamente do beijo e abriu os olhos para observar o rosto do Draco. Por alguns segundos, Draco manteve seus olhos fechados, e então os abriu, cinza aveludado brilhando com calor e desejo, e Harry suspirou suavemente. "Por favor, vamos terminar o jogo de xadrez," ele disse, suas palavras um mero suspiro contra a bochecha de Draco enquanto ele se inclinava para beijar o loiro novamente. "Nós só temos essa noite antes que você vá embora. E é a sua vez."
Draco fechou os olhos novamente e respirou fundo, pausando por um longo momento antes de responder. "Não," ele disse quietamente. Ele levantou o olhar, encontrando os olhos de Harry sem hesitação. "Eu quero guardar meu próximo movimento. . . para quando eu voltar."
Harry foi apanhado completamente despreparado. "O quê?" ele disse, chocado, sua voz quase um sussurro.
"Nós vamos terminar o jogo quando eu voltar," Draco reiterou, ainda de maneira silenciosa, uma onda de sofrimento em seus olhos.
Todas as vezes que Draco tinha evitado o assunto, evadindo as perguntas de Harry ou apresentando razões que não explicavam nada repentinamente retornaram; toda a frustração de desejar o Draco e não saber por que o outro garoto estava evitando a situação cresceu dentro de Harry, e ele se afastou do abraço solto de Draco, sofrendo. Ele sempre soube que era possível eles não conseguirem terminar o jogo nessa noite, mas agora Draco estava dizendo que sequer faria seu próximo movimento! Uma memória lhe ocorreu fortemente – a voz de Rony dizendo: "Talvez ele esteja evitando o sexo porque ele não quer fazer – e ele está apenas te enganando nesse relacionamento – enquanto, na verdade, ele está planejando outra coisa - "
Harry se virou, deu um passo para trás, e por um segundo esteve perto de apanhar sua mochila e sair dali. Mas Draco tocou seu braço e ele soube que ir embora era, na realidade, a última coisa que ele queria fazer.
"Harry, eu apenas tenho que esperar."
"Quando você começou tudo isso, Draco," Harry disse com a voz baixa, "você disse que seria honesto comigo." Ele olhou para o outro, não mais disposto a ser enrolado sem uma explicação. "Você fica dizendo que quer estar comigo, mas então fica encontrando motivos para me evitar. Agora você diz que você precisa esperar. Toda aquela conversa de querer esperar porque eu não estava pronto era uma mentira - "
Draco hesitou, mas parecia ter percebido que Harry não iria mais aceitar suas evasões. "Não exatamente. . ." ele murmurou.
"Então o quê, exatamente?" Harry perguntou, sua raiva surgindo. "Foi tudo uma mentira? Você nunca teve a intenção de fazer amor comigo?"
"Não! Eu mal consigo pensar em outra coisa," Draco disse, sua voz apertada, constrita com emoções. Ele se virou e caminhou até a janela. "Eu quero você há tanto tempo," ele disse com a voz baixa. "Você não tem nem ideia."
Harry veio ficar a alguns passos atrás dele, sua raiva sumindo tão rapidamente quando veio diante das palavras de Draco. O ar parecia tremer com a profundidade das emoções correndo entre eles, e Harry as sentiu como um tremor em seu coração. "Eu acho que eu tenho uma ótima ideia," ele disse suavemente. "Então por quê?" ele perguntou novamente, sua voz quieta, mas desesperada. "Todo esse tempo, tem alguma coisa que você não me contou. Apenas diga. Por favor."
"E se alguma coisa realmente acontecer quando eu for para casa?" Draco perguntou, encarando para fora da janela. Flocos de neve dançantes batiam contra a janela e derretiam sem um som. Ele virou sua cabeça para olhar para o Harry por cima de seu ombro. "Mesmo com a Chave de Portal, alguma coisa pode dar errada," ele disse, voz tensa. "E se eu não voltar, não poder voltar?"
"Draco, isso é exatamente do que eu tenho medo," Harry disse, seu medo e sua frustração instantaneamente acendendo mais uma vez. "É exatamente por isso que eu não quero que você vá!"
"E eu pensei que já tínhamos resolvido isso!" Draco respondeu, seus olhos cinzas flamejando, refletindo a mesma frustração que Harry estava sentindo. "Eu te disse, tenho que ir!"
"Mas agora parece que você tem certeza de que alguma coisa vai acontecer!" Harry acusou. Sua voz falhou.
"Você sabe o que o meu pai é," Draco disse com um tom grave, virando para novamente olhar pela janela. "Eu não posso ter certeza de nada," ele adicionou amargamente.
Harry suspirou internamente, dividido entre não querer machucar o Draco ou brigar com ele e precisar saber por que Draco estava determinado a evitar a intimidade que ambos queriam tão ardentemente. A dor nas palavras de Draco o tocou profundamente, mas ele não conseguia parar suas perguntas. Ele tinha que entender isso. Ele andou até a janela para ficar ao lado do Draco e, com uma voz mais gentil, perguntou, "Mas o que isso tem a ver com o que você me disse antes – que você queria que eu tivesse certeza?" Ele pausou e respirou fundo. "Eu acho que ainda tem algo que você não está me contando, e isso me assusta," ele disse, pressionando Draco por uma resposta. "Do que você está tentando me proteger? E nem tente negar isso – eu senti na noite passada."
Houve um longo silêncio enquanto Draco procurava uma resposta.
Harry esperou.
"Eu não queria ser como aquela menina com quem você estava," Draco finalmente disse, ainda olhando para fora da janela. "Eu não queria te machucar como ela fez. Você disse que se arrependia de ter dormido com ela. Então você disse que queria que significasse para sempre comigo." Ele respirou profundamente e sua cabeça caiu um pouco, seu cabelo escondendo seus olhos. "Eu não aguentaria se alguma coisa acontecesse comigo e eu não pudesse voltar. . . e que você se lembrasse disso entre nós e se arrependesse." Ele virou o rosto para encarar o Harry, puxando uma mecha morena para trás com uma mão delicada, seus olhos perturbados estavam tão cinzas e nublados quanto o céu lá fora. "Se nós fizermos amor, eu queria me certificar de que pudesse significar para sempre."
Harry se lembrou das palavras suaves de Draco naquela noite em que conversaram sobre a Cho - "Se isso acontecer entre nós, Harry, eu prometo que vai significar para sempre para mim," e se sentiu chocado e tocado em seu coração.
"Eu só queria ter certeza que eu voltaria antes. . ." As palavras de Draco falharam e ele desviou o olhar.
Com um sentimento de alívio e então exasperação afetuosa pelo fato de que apenas o Draco poderia possivelmente encontrar uma maneira de complicar tanto algo, Harry se aproximou do Sonserino. "Mas eu entendo porque ela fez aquilo agora," ele disse ansiosamente. "Eu não me arrependo mais." Seu coração se revirou ao ver a tensão ansiosa evidente na linha dura das costas de Draco. "Meu Deus, Draco, como você pode pensar que eu me arrependeria de fazer amor com você?" ele perguntou suavemente. "Eu sei quão incertas as coisas são." Ele colocou sua mão levemente entre os ombros do Draco, massageando gentilmente a tensão com seu dedão, e sentiu Draco tremer com seu toque. "Você não sabe que se alguma coisa acontecesse com você agora, o arrependimento do resto da minha vida seria o futuro que nós nunca pudemos ter, todas as coisas que nunca pudemos fazer juntos?"
Draco deixou sua cabeça cair em seus braços na beira da janela, seu coração doendo. Ele soube disso bem no fundo, mas tinha egoisticamente ignorado, mesmo acreditando que estivera tentando evitar a intimidade. Ele quis evitar que Harry ficasse muito envolvido, para que não se machucasse, e tinha falhado. Ele tinha desejado tudo que Harry pudesse dá-lo, e por causa disso ele permitiu que Harry se aproximasse muito mais do que deveria. Agora era tarde demais para dar um basta. Nada iria salvar o Harry de se machucar agora.
"Draco, amor," Harry disse, sua voz baixa, cheia de calor. "Eu entendo agora porque você quis esperar, e se você ainda quiser, não tem problema." Ele levantou sua mão e gentilmente acariciou o cabelo loiro e macio na nuca do Draco. Então disse as palavras que finalmente quebraram o outro menino. "Mas e se esse for todo o tempo que tivermos? E se as únicas memórias que eu possa manter de nós forem as dessa semana? Por favor não torne isso mais uma coisa que nós nunca pudemos compartilhar um com o outro."
Draco levantou a cabeça e se virou para encarar o Grifinório, e nos olhos cinzas, Harry viu dor e desejo e uma esperança desesperada tão forte que Harry não precisava de palavras para saber o que Draco iria perguntar, ou qual sua resposta seria..
"Você não se arrependeria, então . . . se nós fizermos?"
"Nunca," Harry sussurrou. "Eu venho te dizendo isso há dias."
Eles se encararam por um longo momento suspendido no tempo. Draco deixou seus olhos caírem, cor em suas bochechas.
Harry respirou fundo, sabendo que tudo dependia dessa próxima pergunta. . .e da resposta do Draco. Ele puxou Draco para si, suas mãos descansando nos ombros dele. "O que você quer fazer?" ele perguntou.
"Compensar pelo tempo perdido," Draco respondeu suavemente, levantando o olhar, seu coração em seus olhos. Ele alcançou pelo Harry e Harry estava bem ali, em seus braços, seu, todo seu, sem mais reservas.
Os braços do Harry foram ao redor do pescoço do Draco e eles ficaram ali se segurando por um bom tempo, rostos pressionados de orelhas a bochechas, apenas respirando, apenas sabendo. E então, Harry beijou e acariciou a orelha do Draco e perguntou com um sussurro. "E agora?"
Draco sorriu no lado do rosto de Harry. "Por que está me perguntando?" ele sussurrou. "É você quem tem experiência aqui."
"Com uma menina, Draco." Harry disse com uma risada. "Que você não é." Ele se afastou um pouco para ver a face de Draco, e seu coração deu um sobressalto ao ver o sorriso suave e entretido, e a antecipação brilhando naqueles olhos cinzas.
"Definitivamente não," Draco concordou com uma risada sedutora, seus braços se apertando ao redor da cintura do Harry, pressionando os corpos deles juntos, sua cabeça se inclinando para beijar o outro.
Draco beijou o Harry apaixonadamente, e Harry se perdeu no beijo, sentindo a diferença imediatamente – não havia nenhuma reserva nesse beijo – Draco estava oferecendo tudo, e ele conscientemente ofereceu tudo em resposta. Suas mãos escorregaram dos ombros de Draco para ficarem entre eles, suas palmas pressionando o peito do Draco, e então ele vagarosamente desfez os botões na camisa do loiro, um por um. Harry sentiu o Draco suspirar embaixo de sua boca, sentiu ele tremer quando suas mãos foram dentro da camisa dele, passeando pela pele quente.
"Vem cá," Harry sussurrou, afastando-se gentilmente, quase indisposto a se separar do outro. Ele apanhou a mão de Draco e o levou para a cama.
…
…
Dumbledore observou por cima de seus óculos de meia-lua, seus olhos azuis que usualmente brilhavam agora estavam sérios enquanto ele servia chá para o Professor Snape e a Professora McGonagall em seu escritório. "Eu chamei vocês dois aqui," ele disse, "porque eu temo que um de nossos estudantes, e possivelmente dois, estejam em grave perigo."
Nenhum dos professores disse nada, mas os olhos pretos de Snape se estreitaram e a boca de McGonagall se firmou em uma linha fina e tensa.
"Estou me referindo a Draco Malfoy," Dumbledore continuou. "Eu passei várias horas com ele mais cedo trabalhando em um anel que Lucius Malfoy o enviou alguns dias atrás. Draco tinha colocado uma poção muito forte e, eu devo confessar, esplendidamente feita, de Repelir Maldições no anel," o diretor disse, balançando a cabeça na direção do Snape. "Ele disse que ele estava ao mesmo tempo praticando para a aula de Poções e tentando se proteger para sua viagem para casa durante o feriado. Apenas depois que ele terminou de submergir o anel na poção pelo tempo requerido, ele me disse, que ele suspeitou que seu pai talvez tivesse previamente colocado um feitiço no anel. Ele pediu que eu o testasse e eu encontrei um feitiço de vontade extremamente poderoso nele." Dumbledore acariciou sua barba e fixou os dois professores com um olhar triste. "Eu não preciso dizer a vocês," ele disse quietamente, "que era Magia Negra do pior tipo. O feitiço teria deixado o recipiente completamente indefeso contra a Maldição Imperio."
Snape inspirou ar rapidamente, soltando um chiado.
A mão da McGonagall pressionou contra seu coração. "Mas você removeu o feitiço, certamente?" ela perguntou, claramente alarmada.
"Não," Dumbledore disse seriamente. "Eu temi que remover o feitiço fosse muito perigoso, e que deixaria Draco, mesmo com seu próprio feitiço no anel, muito desprotegido. Então eu reverti o feitiço, ao invés disso. Dessa forma, em um primeiro exame, o feitiço aparecerá intacto, mas o efeito será o oposto do que o pretendido." Ele pausou por um momento enquanto os dois professores murmuravam sua aprovação, e então continuou. "Mas isso é apenas o início do problema," ele disse com a voz severa. "Estou certo que vocês dois sabem de que com recentes. . . mudanças, qualquer perigo ao Draco pode muito bem colocar Harry Potter em perigo também."
As sobrancelhas do Snape se abaixaram em um franzido. "Eu quero deixar claro que não aprovo desse relacionamento entre os dois de forma alguma," ele disse friamente. "Eu disse a ambos," ele adicionou empaticamente, "que eles estavam se colocando em considerável risco. Nenhum deles me deu ouvidos." Seu lábio superior se curvou em desagrado. "Na verdade, quando falei com o Potter, ele estava completamente ignorante não apenas do perigo de que ele próprio sofria, mas também do perigo a que ele estava submetendo o Draco."
"Eu também avisei o Harry," McGonagall disse, colocando sua xícara na mesa, vindo à defesa do Grifinório. "Mas ele estava muito preocupado. Ele me implorou para que eu impedisse o Malfoy de ir para casa."
"O que nós não podemos fazer se ele está determinado a ir," Dumbledore disse com firmeza, cortando qualquer resposta do Professor Snape. "Mas vocês também deveriam saber que o Draco pediu minha ajuda. Eu lhe passei uma Chave de Portal que irá transportá-lo a uma clareira entre o castelo e Hogsmeade caso surja alguma emergência. Entretanto," ele continuou, após um momento de hesitação, "temo que isso possa ser insuficiente – motivo pelo qual eu chamei vocês aqui."
Dumbledore encarou os professores com profunda preocupação em seus olhos azuis claros. "Por causa da excessiva intenção no feitiço que Lucius Malfoy colocou naquele anel," ele disse, "eu suspeito que ele tenha algo planejado. Draco parece acreditar ser muito importante que nada seja alterado em sua rotina que possa alertar o seu pai, mas eu definitivamente percebi que ele está muito inquieto em ir para casa durante o feriado. Então, apesar de eu ter cedido aos seus pedidos nessa manhã sem questioná-lo muito detalhadamente, eu tive a distinta impressão que ele pode estar mais encrencado do que ele me falou."
"Há alguma possibilidade de o Draco estar. . . deliberadamente enganando o Harry. . . por algum plano do seu pai?" McGonagall perguntou, sua voz ligeiramente trêmula.
"Considerando o feitiço naquele anel," Snape protestou acidamente, "o fato de o Draco concordar ou não com seja lá o que seu pai está planejando parece irrelevante."
Dumbledore elevou uma mão, seus olhos sérios. "Eu acredito que a afeição do Draco pelo Harry é genuína, mas por segurança, nós não podemos descartar qualquer possibilidade." Ele analisou os dois professores seriamente. "Com isso em mente, eis o que eu decidi fazer. . ."
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Acordando na manhã seguinte, Harry ficou imediatamente ciente de que estava sozinho. A presença quente de Draco não estava mais na cama; as cortinas da cama do lado do Draco estavam afastadas e abertas. O quarto estava muito quieto, com apenas o sussurro baixo e estalante do fogo soando pelo vazio. Harry se sentou abruptamente com um sentimento de pânico correndo por si – seu primeiro pensamento de alarme foi que Draco tinha saído e ido embora sem acordá-lo. Ele escorregou até o lado do Draco da cama para apanhar seus óculos da cabeceira e então conseguiu avistar a mochila do Draco ainda na cadeira ao lado da porta. Relaxando ligeiramente, e olhando ao redor do quarto com mais cuidado, ele percebeu que a janela estava aberta e a vassoura do Draco tinha sumido do seu lugar ao lado da estante de livros. Ele riu um pouco de si mesmo, imaginando por que Draco teria saído para voar tão cedo de manhã, mas se sentiu confortado agora, sabendo que ele voltaria. Tomara que logo, ele pensou, querendo o Draco de volta em seus braços, na cama com ele.
Com esse pensamento, ele voltou a se deitar e puxou os cobertores, fechando os olhos e sorrindo enquanto as memórias da noite anterior corriam por sua mente. Draco tinha enfrentado a primeira experiência sexual entre eles com uma mistura de entusiasmo, sensitividade e vergonha que Harry achou irresistível e completamente charmosa. Ele sorriu com a memória, sem se importar quando começou a corar. Nada em sua limitada experiência o havia preparado para as ondas absolutas de prazer que ele encontrou nos toques íntimos do outro garoto. E ah, Deus, ele pensou, corando novamente, Draco era tão lindo. O afeto caloroso naqueles encantadores olhos cinzas, as linhas graciosas e elegantes do corpo do Draco, o jeito perfeito como eles tinham se encaixado, tudo isso o deixou sem fala, muitíssimo emocionado.
Mas olhos cândidos e inabaláveis e carícias suaves e quentes, mãos dadas com firmeza e beijos longos e afetuosos, corações martelando e suspiros cortantes e sem fôlego diziam o que palavras nunca poderiam. Harry conseguia visualizar o Draco tão claramente em sua memória, olhos fechados em êxtase, seu pescoço estendido para trás, respondendo ao toque de Harry, tremendo com alívio –
Um repentino farfalhar na janela o arrastou de seus pensamentos, e Harry, com antecipação apressada, sentou-se novamente.
A janela foi aberta, e um segundo depois Draco voou para dentro, manejando sua vassoura com cuidadosa precisão no local estreito. Enquanto pousava, ele imediatamente olhou na direção do Harry e, ao vê-lo acordado, sorriu, uma sobrancelha levantada provocativamente. "Eu achei que você fosse dormir o dia inteiro," ele disse, brincando.
"E eu pensei que você já tinha ido embora," Harry disse, gentilmente censurando-o, "até eu ver que a sua vassoura tinha sumido." Então a curiosidade tomou conta dele, e submetendo-se, ele sorriu em resposta. "Então, o que você estava fazendo lá fora, afinal de contas?"
"Eu sai para observar a neve," Draco respondeu com um sorriso envergonhado. Ele colocou a vassoura novamente em seu canto e veio se sentar na beira da cama com o Harry. Suas roupas ainda carregavam o cheiro do ar gélido lá de fora e a face dele estava rosada em razão do frio, mas suas mãos e boca estavam quentes quando ele apanhou uma mão de Harry e se inclinou para beijá-lo. "Você definitivamente devia ir lá fora depois e ver por si mesmo," ele disse, ainda provocando, mas agora com um tom de excitação em sua voz. "A vista daqui é espetacular."
Harry sorriu, entrelaçando seus dedos com os de Draco. "A noite passada foi espetacular," ele disse suavemente, seus olhos encontrando os de Draco. Seu coração se revirou ao ver os olhos cinzas se transformarem em prata derretida com calor diante de suas palavras.
"Foi mesmo," Draco concordou, sua voz baixa com afeição. Ele apertou a mão de Harry e a soltou, alcançando para retirar os óculos de Harry e colocá-los na cabeceira. "Deite-se," ele sussurrou contra a boca de Harry enquanto o beijava novamente.
Harry se deitou e fechou os olhos, um tremor silencioso de excitação correndo por si quando Draco se inclinou para beijar o início de sua garganta. Ele sentiu a mão do Draco descansar levemente no seu peito por um segundo, e então os dedos se curvaram na ponta dos cobertores, puxando-os para baixo, pouco a pouco, afastando-os do caminho de seus beijos.
Draco não se apressou, pressionando beijos leves, reverentes e longos, gradualmente descendo em seu corpo, cada um uma declaração de sentimentos muito vívidos para serem expressos, cada um uma mensagem que derretia na pele do Harry, cada um uma nota musical de fogo tenro, até se tornarem cordas quentes e refrões aquecidos de carinhos silenciosos cantando pelo corpo do Harry.
Harry apertou com mais força a mão do Draco que ainda segurava, seu coração martelando enquanto os cobertores eram gentilmente retirados e os beijos do Draco desciam cada vez mais. Draco estava fazendo amor com ele. Era muito devagar, provocando-o, segurando-o na beira da eternidade com toques e beijos suaves até que ele se perdeu inteiramente na seda quente que era a boca do Draco. . .
Depois, Draco levantou novamente os cobertores e se sentou ao lado do Harry, inclinando-se para abraçá-lo. Os braços trêmulos do Grifinório foram ao redor do pescoço do Draco e o segurou apertadamente; a presença sólida do outro garoto era sua única âncora enquanto o mundo, dissolvido em um crescente arco de calor, reformava-se gradualmente, tornando-se firme e sólido ao seu redor mais uma vez. Força retornou aos seus ossos derretidos, seu coração e respiração acelerados se acalmaram.
"Eu tenho que ir," Draco finalmente sussurrou. Eles estiveram se abraçando por um momento longo e aparentemente infinito; um momento que agora tinha acabado muito rapidamente. "Não," Draco disse quietamente quando Harry se moveu para se levantar. "Não desça comigo. Eu quero pensar em você aqui, na minha cama, enquanto eu estiver no trem."
Harry olhou nos olhos de Draco; eles estavam nebulosos, tristes, cinzas como a chuva. "Eu quero ver você ir embora," ele protestou fracamente. "Eu não quero me despedir aqui. . . ainda não."
Draco mordeu seu lábio inferior e, por um segundo, desviou o olhar. Os dedos do Harry se apertaram nos seus, firmando-se com reafirmação e uma pergunta, e ele levantou novamente o olhar. "Eu não consigo," ele disse suavemente. "Eu não consigo dizer adeus para você lá, não na frente de todas aquelas pessoas na plataforma."
Harry entendeu, mas era difícil, tão difícil, deixar Draco ir. Ele traçou uma linha leve pelo rosto o outro garoto com dedos gentis, querendo se lembrar desse olhar nos olhos do Draco, salvar em sua memória a tristeza, o desejo e o amor que via neles agora. "Você pode passar uma mensagem minha para o Rony, então?" ele perguntou finalmente, cedendo. "Porque senão ele não vai entender porque eu não fui me despedir dele e da Hermione."
Draco concordou e trouxe um pedaço de pergaminho, uma pena e tinta de sua escrivaninha. Harry se sentou, seus joelhos recolhidos embaixo das cobertas para lhe servir como suporte, enquanto o Draco se sentava silenciosamente aos seus pés, cabeça abaixada e braços cruzados.
Rony,
Estou escrevendo esse bilhete com o Draco ao invés de descer até a estação. Estou perfeitamente bem – é só que me despedir dele é difícil e a estação é muito pública. Nenhum de nós quer causar uma cena. Mas eu queria desejar um Feliz Natal para você e para a Hermione, e eu desejo que tudo ocorra como você planejou com o anel e tudo mais. Tenho certeza que a Hermione vai amar já que, é claro, ela ama você. Você deveria saber também que o que aconteceu no café da manhã ontem não foi culpa do Draco; ele estava sendo chantageado pela Pansy Parkinson. Mas ele me compensou na noite passada milhares de vezes seguidas e fez todos os meus desejos se tornarem realidade. Eu nunca fui tão feliz.
Repasse todo o meu amor e bons desejos para a sua família.
Harry.
Ele dobrou o bilhete e o passou para o Draco, sua face corada ligeiramente pelo que tinha escrito ao fim. Mas era verdade. Ele nunca se sentiu tão feliz como estava se sentindo agora, ou tão preenchido de tristeza e desejo. Draco se levantou e se virou na direção dele, e os olhos deles se encontraram, verdes e cinzas, o equilíbrio do planeta capturado naquele olhar longo, momentâneo, e ligado ao seu coração. Os braços do Harry foram ao redor da cintura do Draco, puxando-o para perto mais uma vez, descansando sua cabeça no peito do loiro. Ele conseguia escutar o coração bater embaixo de sua orelha. Os braços do Draco circularam os ombros do Harry, sua cabeça abaixada, seu rosto escondido no cabelo moreno macio e bagunçado. Eles se seguraram novamente por um momento que foi demasiadamente curto, e então Draco relutantemente afastou-se.
As mãos deles se juntaram e se seguraram por mais um momento, e Harry, levantando o olhar, disse com a voz falha, "o dia depois de amanhã. Três da tarde."
Draco concordou com um gesto da cabeça, e apertou a mão do Harry. "Te vejo então," ele disse suavemente, finalmente se afastando do abraço do Harry.
Com uma dor crescente em sua garganta, Harry observou Draco caminhar até o outro lado do quarto, apanhar sua mochila da cadeira e abrir a porta. "Feliz Natal," Harry disse, sua voz quebrando.
Draco ficou em frente à porta aberta por um segundo, virando-se para observar Harry por uma última vez; o sorriso que ele tentou soltar saiu pequeno e apertado e sofrido. "Feliz Natal," ele disse com a voz constrita e baixa, e então ele foi embora.
Apenas, por favor, volte para mim, amor, Harry pensou enquanto a porta fechava. Ele abraçou o topo de seus joelhos e deixou sua cabeça cair em seus braços. Por favor, fique a salvo.
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Draco encontrou o Rony e a Hermione na plataforma do trem. Despedir-se de Harry havia lhe deixado doendo por dentro, e ele não queria conversar com os amigos de Harry de forma alguma, mas ele tinha uma mensagem para entregar. Ele passou o bilhete para o Rony sem falar uma palavra.
Rony apanhou o bilhete com uma careta. "Cadê o Harry?" ele exigiu.
"No meu quarto," Draco disse curtamente. "Ainda na cama."
"Eu acho bem estranho ele não ter vindo se despedir da gente," Rony reclamou. "Mas pelo menos enquanto você não estiver no castelo, eu não vou precisar me preocupar com ele."
Isso era quase mais do que Draco conseguia aguentar. Sabendo o que estava prestes a fazer, sabendo a dor que causaria. . . enquanto os amigos do Harry achavam que ele estaria a salvo. . . Ele observou o Weasley ler o bilhete em absoluto silêncio.
Rony leu o bilhete duas vezes, e então levantou o olhar para o Draco, com a cara vermelha. "Eu acho que te devo desculpas, afinal de contas, Malfoy," ele disse amargamente.
Isso era mais do que Draco conseguia aguentar. "Cala a boca, Weasley," ele disse, virando-se abruptamente, sua voz baixa e grossa, raiva camuflando a dor que sentia. Sem outro olhar para trás e com angústia em seu coração, ele andou para o lado oposto e entrou no trem.
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Mais tarde na manhã, após ter tomado uma ducha e se vestido, Harry se sentou na janela do Draco, encarando distraidamente o terreno coberto de neve, seus pensamentos completamente ocupados. Draco foi embora. O trem foi embora, assim como o Rony e a Hermione. O Natal era amanhã e ele estava sozinho. O dormitório Grifinório estaria deserto; ele estaria sozinho lá também, então não sentiu nem um pouco de pressa em deixar o quarto do Draco. Aqui, ele tinha memórias para manter-lhe companhia. Ele tocou o anel no seu dedo e pensou sobre o Draco, e pensou sobre o quanto se sentia diferente desde o dia anterior.
Fazer amor com o Draco não tinha sido nada parecido com a experiência apressada, meio culpada, e extremamente cuidadosa que teve com a Cho. Não, Harry pensou, não tinha sido nada disso. Ele e o Draco agiram com um pouco de vergonha no início, mas a união sincera deles, sua afeição e desejo, tinham rapidamente assoprado para longe qualquer embaraço. Sentado na janela agora, ele soube com certeza absoluta que estava profundamente apaixonado, e que era amado profundamente em retorno. Havia uma nova calma pacífica dentro de si agora, e um sentimento forte de compleição, como se todo desejo não atendido dentro de si tivesse sido profundamente respondido e satisfeito. Entretanto, ao mesmo tempo, ele sentia que nunca teria o suficiente do Draco, de abraçá-lo e tocá-lo, da adrenalina do toque do loiro em seu corpo, como fogo e conforto ao mesmo tempo. Cada plano e curva suave do corpo do Draco embaixo de suas mãos tinham sido excitantes de explorar; cada abraço, cada beijo tinham sido ao mesmo tempo emocionantes e um lugar seguro. Com o Draco, ele descobriu o prazer intenso de proporcionar prazer, e a liberdade abandonada de receber prazer por se entregar a outra pessoa em completa confiança. Ele sentia que podia, agora, confiar no Draco com a sua vida.
A primeira vez deles, Harry agora se lembrava com um sorriso bobo para si mesmo, tinha terminado tão rapidamente, que nem deveria contar. Eles estiveram muito ligados um no outro, muito sensíveis com desejo, e muito excitados com a novidade de tudo aquilo. Eles tinham durado meros cinco minutos até Draco ter que lançar Accio em uma toalha do banheiro para limpar a bagunça entre eles.
Mas isso não tinha sido tão vergonhoso. Na verdade, tendo tirado isso do caminho, eles conseguiram relaxar, aproveitar o tempo, explorando e provocando com gentileza, afeição evidente em cada sorriso, cada toque, cada beijo demorado. No começo, Harry não fez nenhuma magia - sua experiência com magia na noite anterior, mesmo quando eles estiveram apenas se beijando, havia sido muito esmagadora e seu controle muito limitado, e o que ele estava sentindo com o Draco já era incrível o suficiente; amá-lo já era mágica em e por si só.
Mesmo assim, apesar de não ter lançado nenhum feitiço, ele estava profundamente ciente das auras mágicas deles se unindo, daquele maravilhoso e baixo sussurro, a vibração mágica lhes rodeando, proporcionando um sentimento profundo de segurança e intricando os dois juntos de uma maneira que tornou a ligação entre eles ainda mais física. Harry conseguia sentir as auras deles se dissolvendo, fluindo uma na outra, criando uma união fluída e poderosa que conectava ele com o Draco em uma infinidade de maneiras sutis. Às vezes, Harry mal conseguia distinguir a sua pessoa da de Draco; ele sentia os batimentos cardíacos deles como ritmo e contraponto, música e eco. Ele sentiu Draco gemer suavemente como se fosse com sua própria voz, sentiu o calor de suas próprias mãos tocando o Draco como se fosse na sua própria pele. Era como se todos os pedaços dele tivessem encontrado uma cópia idêntica no Draco, encaixando-se juntos como a resposta a uma charada sem solução ou a chave a uma fechadura secreta.
Enquanto a tarde passava e o crepúsculo escurecia o quarto, cada carícia se tornou bonita e mágica enquanto as faíscas brilhantes de suas mãos ficavam visíveis. Então Harry fez magia o suficiente para que elas se tornassem visíveis para o Draco também, para que ele pudesse participar dessa visão adorável que eles criavam. E enquanto a paixão os dominava, faíscas surgiam onde quer que seus corpos se tocassem, douradas e brancas-cristal, brilhando todas ao mesmo tempo no momento do clímax. Nesse momento de união, houve também um brilho nas auras deles que Harry sentiu, mas mal percebeu, uma fusão irrevocável de energia de coração a coração.
Mais tarde, quando anoiteceu, preenchendo o quarto com a escuridão pacífica, e o fogo, cada vez menor, lançava um brilho rico rosa-âmbar pelo chão e sombras fracas e piscantes pela cama, Harry deitou abraçado com o Draco, desenhando vagarosos desenhos de glitter dourado na pele pálida do loiro. Ele se levantou em um cotovelo para observar o rosto do outro garoto. Os olhos do Draco estavam fechados, um sorriso entretido e feliz suavemente curvando seus lábios, e Harry não conseguia parar de olhar para ele. Após um momento, Draco abriu os olhos, o cinza aveludado tomado por amor, felicidade e desejo satisfeito, e Harry, encantado, inclinou-se para beijá-lo. Foi um beijo quase exatamente igual àquele primeiro beijo que Draco tinha lhe dado, tantos dias e tantas, tantas, mudanças atrás; um beijo extremamente delicado, dolorosamente lento, mas apenas por um momento, suave como uma pena, mas dessa vez ele carregava as palavras eu te amo tão claramente que era como se elas tivessem sido ditas em voz alta.
Draco suspirou e puxou Harry em seus braços novamente, e Harry deitou-se, sua cabeça descansando no ombro do Draco. Por um longo momento eles se abraçaram, e nenhuma palavra precisou ser dita.
Mas então, o estômago de alguém roncou suavemente e eles ririam. "Sabe, eu acho que a gente perdeu completamente o jantar," Draco disse preguiçosamente, arrumando uma mecha teimosa do cabelo preto atrás da orelha de Harry.
Harry sorriu. "Não importa," ele respondeu. "Eu trouxe sanduíches do almoço – eu não sabia se você tinha almoçado com o Dumbledore."
Draco se virou de lado para encarar o Harry. "Você me trouxe sanduíches?"
"Sim."
"Brilhante," Draco disse, recompensando Harry com um sorriso e um beijo.
Eventualmente eles se levantaram, apanharam suas cuecas da pilha de roupas rapidamente descartadas ao lado da cama, e abriram a mochila do Harry. Draco re-acendeu o fogo e eles se sentaram no chão em frente à lareira, abrindo guardanapos e colocando os sanduíches ali no estilo de piquenique. Eles comeram em frente ao calor estalante e à luz da lareira, cada um devorando dois sanduíches, o jogo de xadrez esquecido na mesa atrás deles.
"O Rony estava pronto para se desculpar para você," Harry disse, terminando a última mordida de seu sanduíche de carne, "até aquela cena que você fez no café da manhã."
"Ah, ele estava?" Draco riu.
"Sim, até você quase dar a ele mais um ataque cardíaco. Ele ficou bravo comigo, porque eu impedi que ele te matasse."
Draco ficou em silêncio por um momento. "Ele não tem motivos para se desculpar," ele disse, repentinamente ficando sério. "Eu mereço totalmente a opinião ruim dele."
"Mas agora você não merece," Harry protestou suavemente.
"Talvez," Draco disse com um leve dar de ombros, evidentemente não convencido. "E talvez eu ainda tenha muita coisa para compensar."
"Não para mim," Harry o assegurou, um tom de finalidade em sua voz. Harry passou a mão levemente pelas costas nuas do Draco e acariciou sua nuca.
Draco fez uma careta, "Eu preciso de um banho," ele disse.
Harry sentiu o calor subir até o topo de suas orelhas. "Eu posso. . .?" ele perguntou, e então parou. "Quero dizer, você se importaria," ele começou novamente, enquanto Draco se virava para encará-lo, "se eu for. . . com você?"
Draco sorriu em resposta, aquele sorriso adorável e genuíno que sempre transforma os ossos do Harry em gelatina.
Lembrando-se de tudo isso enquanto sentava na janela do Draco, Harry corou novamente com a memória. Dividir o chuveiro com o Draco havia sido até melhor do que imaginara. Draco molhado, quente, macio e escorregadio com sabonete e xampu foi. . . bem, indescritível. Harry sorriu para si mesmo com o pensamento. Depois do chuveiro, e depois que Draco arrumou sua mala para a viagem, eles voltaram à cama, deitando juntos, pele em pele limpa como cetim ao toque. Draco havia pedido que Harry fizesse o feitiço para adormecer nele nessa última noite, e Harry fez sem problemas, sabendo que, apesar de Draco não ter dito diretamente, ele estava ansioso com a ida para casa e chateado com a inevitável separação.
Harry também estava chateado com a separação. Ele ainda estava muito preocupado com a ideia de Draco indo para casa, apesar de estar um pouco mais aliviado agora que ele tinha uma Chave de Portal para trazê-lo de volta. Mas, ele pensou para si mesmo, ele tinha várias memórias para ajudá-lo nesses dois dias, várias memórias que, com sorte, o ajudariam com sua preocupação com o Draco durante a ausência dele. Apenas dois dias e eles estariam juntos novamente, e Draco estaria a salvo. Harry olhou para fora da janela, imaginando onde Draco estaria agora, imaginando o que ele estaria fazendo. E pensando nele agora, sentindo falta dele intensamente, ele conseguia quase sentir o Draco ali com ele, conseguia quase imaginar que conseguia sentir o toque daquelas mãos elegantes e gentis, o eco daquele segundo coração tão próximo ao seu.
Ele olhou a neve fora da janela, e finalmente algo que ele estivera vendo esse tempo todo, mas ignorando, começou a criar uma impressão consciente nele. A neve no campo de Quadribol estava estranhamente marcada. Harry forçou os olhos contra a luz brilhante refletindo no campo coberto de neve e seu coração repentinamente pulou em sua garganta. Algo estava escrito lá! O que Draco tinha dito? "Você definitivamente deveria ir lá fora depois e ver por si mesmo – a vista daqui é espetacular."
Harry soltou um largo sorriso, pulou da beira da janela e apressadamente encontrou sapatos, capa, protetor de ouvidos e luvas, vestindo-os o mais rápido possível, e então apanhou sua Firebolt. Ele sentiu a adrenalina da antecipação enquanto abria a janela e deu um pulo adentro do vento brusco e gelado. Pairando em cima do campo de Quadribol, ele prendeu a respiração em surpresa e então sua risada ecoou pelo terreno cheio de neve. Escrito na neve e cobrindo todo o campo estava o contorno de um coração gigante. E dentro dele, em letras enormes, estava escrito: M-F AMA M-C!
Ele circulou o campo uma vez, então ficou pairando novamente, alto em cima do centro, sorrindo, suas bochechas vermelhas por causa do ar frio e da constrição eufórica em seu coração. Foi enquanto ele estava pairando ali que a coruja foi até ele. Era uma suindara pequena e amarelo-clara, uma daquelas tipicamente usadas por correios públicos como aquele em Hogsmeade. Ela voou ao redor dele até ele estender um braço para ela pousar. Então ela estendeu uma perna, presenteando Harry com um pergaminho fechado que não tinha endereço indicado na frente, e voou para longe assim que Harry o removeu.
Curioso, Harry se apressou até o quarto do Draco – a carta não podia ser do Draco, e ele não tinha a mínima ideia de quem mais poderia ser. Quando entrou no cômodo, ele fechou a janela, derrubou seus agasalhos no chão e inclinou sua Firebolt contra a parede. Sentou-se na cadeira na frente do fogo, quebrou o selo e desenrolou a carta. Imediatamente, com um sobressalto de descrença, ele reconheceu a letra. A letra única de Cho preenchia a página. Querido Harry, ela escreveu:
Eu não consigo te dizer como eu sinto muito pelo jeito ruim como as coisas terminaram entre nós, e por não ter te contado a verdade – eu sei o quanto te machuquei. Eu queria explicar tudo durante a nossa última manhã juntos, mas você não me deu a chance. Eu espero que você acredite que se eu soubesse que meus pais tinham arranjado meu casamento, eu nunca teria me envolvido com você. Mas não vou me desculpar pelo que fiz, ou pelo que nós fizemos. Por favor, tente entender que eu não conseguia aguentar a ideia de perder minha virgindade para um homem que eu não amava, que eu nem conhecia. Eu queria que fosse com você. E eu acho que eu também torcia para que houvesse uma cláusula de virgindade no contrato de casamento e que ele pudesse ser cancelado. Meus pais ficaram muito bravos quando eu contei o que tinha feito e não permitiram que eu escrevesse para você. Mas eles não podem me impedir agora, e eu tenho algo importante para te contar que não pode mais esperar. Espero que agora você já tenha tido tempo para me perdoar o suficiente e me permitir de volta na sua vida.
Harry franziu as sobrancelhas enquanto lia – mas em um momento, ele parou de respirar, seu pulso acelerando. Ele leu novamente, e então se inclinou contra a cadeira, seus olhos fechados, totalmente chocado. Foi um longo momento depois que ele conseguiu ler mais uma vez. Ah meu Deus. Como ele iria contar isso para o Draco?
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Draco se sentou em uma cabine no trem, encarando sem foco para fora da janela, a enormidade da situação de que estava rapidamente se aproximando o preenchia com um horror anestesiante. Ele estava sozinho naquela cabine, algo que ele havia conseguido facilmente ao encontrá-la cheia de calouros e simplesmente ordenando que eles dessem o fora dali. A paisagem névoa passava pela janela, borrada em raios vertiginosos de luz refletida brilhante e de sombras azul-escuras intermitentes em frente ao seu olhar desfocado. Ele fechou os olhos, nesse momento, sentindo-se tonto.
Tudo tinha ocorrido perfeitamente com o Dumbledore. O velho bruxo tinha acreditado na sua história completamente. Ele deveria estar feliz, ele pensou, então por que se sentia tão desapontado? Teria ele secretamente desejado que Dumbledore ficasse suspeito e o impedisse? Seria ele covarde a tal ponto, afinal de contas? Tarde demais, agora. . . sussurrou o ritmo das rodas do trem nos trilhos. Tarde demais. . . tarde demais. . .
Ele afastou esse pensamento e pensou, ao invés disso, no Harry. Acordar nessa manhã com o Harry dormindo ao seu lado depois da tarde e noite maravilhosas que eles compartilharam parecia nada mais do que um milagre. Ele havia deitado imóvel por bastante tempo, apenas observando Harry dormir, enquanto ondas de afeição e um oceano de arrependimentos corriam por seu corpo. Harry estivera tão certo sobre as memórias. O que eles tinham compartilhado um com o outro na noite passada seria algo que ele iria valorizar em todos os momentos nos próximos dois dias, e ele desejava ardentemente que, depois que tudo acabasse, Harry pudesse valorizar aquele momento também. Harry tinha dito que nunca iria se arrepender, não importando o que acontecesse, e Draco torcia para que essa fosse a verdade.
Ele imaginou o que Harry estaria fazendo agora – seria que ele já tinha saído do quarto do Draco, ou estaria ele ainda lá, curvado na cadeira na frente do fogo, talvez? Draco consiga imaginar com tanta facilidade; Harry apenas parecia fazer parte do seu quarto agora, como se ele pertencesse ali. Eles pertenciam um ao outro, ele e o Harry. Draco sabia disso com todo centímetro de seu corpo, até o fundo dos seus ossos, e viajar para longe dele desse jeito, sabendo o final que ele certamente iria causar entre eles, estava acabando com ele. Ele tentou se concentrar na lembrança de como foi ficar com o Harry na noite passada, e o relâmpago de emoções foi quase esmagador. Ele colocou uma mão em cima do pendente que pendurava secretamente e adorado dentro de sua camisa, contra sua pele, e sentiu seu próprio coração batendo embaixo de sua palma. A batida do Harry, ele também conseguia imaginar, assim como tinha ouvido na noite passada, acelerando junto com o seu –
A porta da cabine foi repentinamente aberta atrás de si, assustando-o de seus pensamentos e ele instintivamente ficou tenso, mas não se moveu.
"Draco?" veio a voz da Pansy, confirmando as suspeições de Draco acerca de quem tinha entrado.
"Eu não estou no clima para ter companhia," Draco disse friamente, sem se preocupar em olhar para ela. "Certamente não a sua."
"Ah, qual é, Draco," ela fez um bico. "Não seja assim. Você voltou com o Potter, não é? Eu sei que ele ficou com você a noite inteira." Ela fechou a porta atrás de si e se inclinou ali com os braços cruzados. "Você não pode me culpar por uma pequena e inofensiva vingança. Se eu realmente quisesse criar problemas, eu teria mandado a coruja para o seu pai sem te contar. Você não teria a chance de me impedir."
"O que você fez não importa," ele disse curtamente, ainda olhando pela janela. "Eu só preciso ficar sozinho."
"O Crabbe e o Goyle estão na outra cabine comigo," ela disse, implorando, tentando uma tática diferente, exasperação em sua voz. "Eles sentem a sua falta. Eu também sinto a sua falta. Venha se sentar com a gente. Nós praticamente compramos todo o carrinho de doces. Eu guardei Sapos de Chocolate para você."
Draco então se virou para encará-la, sua expressão fechada e dura. "Não, obrigado."
Ela o observou, indisposta a desistir. "Então, é hora de contar tudo para o papai, hein?" ela provocou. "Aposto que você não vai contar para ele. Quero dizer," ela disse com um pequeno ronco de risada, "eu não consigo imaginar que você junto com o Harry Potter venha a cair muito bem com ele."
"Está errada," Draco disse quietamente, sua voz dura, seus olhos estreitos com desprezo fracamente escondido. "Eu não tenho nada a esconder. Eu apenas fiz o que ele me mandou fazer."
Pansy se moveu para se sentar ao lado dele, mas o olhar nos olhos dele a impediu e ela se sentou na frente dele, ao invés disso, analisando-o atentamente por um longo momento. "O seu pai mandou você se envolver com o Potter?" ela perguntou, incrédula. Então ela pensou melhor e chegou à inevitável conclusão. "Então era um plano esse tempo todo, como o Blaise disse. Não foi real. Você não o ama." Draco virou as costas para ela e olhou pela janela novamente, mas não antes de ela ver um raio de sofrimento na face dele. "Meu Deus, Draco, você ama ele." Ela respirou profundamente, chocada. "Você faria isso? Amá-lo e traí-lo desse jeito? Isso é horrível! Até mesmo para um Sonserino."
"Sai daqui," Draco sibilou. "Sai da porra daqui!" Apenas depois que a porta da cabine foi batida atrás dele que Draco se permitiu desabar. Eu nunca quis que isso machucasse ele. Ele inclinou seu rosto contra a janela fria, seus olhos fechados contra a neve borrada que caía lá fora, lutando contra a vontade de chorar. Eu nunca achei que ele fosse me amar também. Sua garganta se fechou com dor e por um longo momento tudo que ele pôde fazer era respirar profundamente. Mas após alguns minutos, sua determinação implacável reafirmou-se. Tinha algo que ele tinha que fazer, e ele absolutamente não iria falhar.
Draco alcançou um bolso interno de sua capa, retirou a Chave de Portal que Dumbledore fez para ele e retirou sua varinha. Ele colocou a Chave de Portal no assento ao lado do seu e lançou um feitiço de duplicação, o mesmo feitiço que tinha usado nas vestes formais para o Harry usar no Baile Anual. Com um pequeno raio azul-violeta, uma moeda prateada idêntica deitava ao lado da primeira. Draco apanhou ambas e as segurou por um momento, lado a lado em sua mão, então as colocou em seu bolso com severa satisfação. Pelo menos essa parte do seu plano estava pronta para quando fosse falar com o seu pai.
Mas seja lá o que Pansy havia visto no rosto dele, ele teria que se empenhar mais para esconder. Seu pai nunca poderia ver.
Fim do Capítulo 14
Fim da Parte II
Eu percebi, apenas na agora na tradução do capítulo 14 (=p), que estive variando o nome do Lúcio/Lucius (versão no português e versão nas outras línguas). Como utilizei mais o termo Lucius, vou continuar com ele até o final da história.
Trata-se de livros reais, em 5 volumes, da autoria de Thomas Oswald Cockayne. O primeiro volume foi publicado em 1864. Não existe tradução para o português. Do pouco que consegui encontrar na internet, trata-se de uma coleção de documentos, ilustrando a história da ciência na Inglaterra (incluindo Botânica, Astronomia, etc.), anteriormente à conquista da Normandia.
