Capítulo 14: Revoluções por minuto
Aquela estranha sensação ainda o inquietava há algum tempo, e o frio aumentava com o decorrer dos dias. Ainda bem que no momento Gintoki não tinha nenhum serviço, porque não tinha ânimo algum para sair naquele frio danado.
Ginmaru já estava com o braço direito completamente recuperado e praticava mais uma vez com a espada. Em seguida, o garoto deu uma pausa, já que não dava para ir ao dojo Shimura por conta do frio.
A TV estava ligada no noticiário, no qual agora entrava em cena Ketsuno Ana, a eterna musa de Gintoki. Logo atrás dela, o palácio onde o Shogun vivia e fazia suas atividades burocráticas, como governante do país.
Assim que a voz da repórter se fez ouvir na TV, Gintoki correu para vê-la.
- Estamos falando em frente ao palácio do Shogunato, pois, segundo fontes extra-oficiais, acaba de ocorrer um golpe de Estado. Aguardamos, dentro de alguns instantes, o pronunciamento oficial para confirmar ou desmentir esse boato. Ainda segundo essas mesmas fontes de informação, há a suspeita de que a facção do Kiheitai esteja por trás disso e que o Shogun Tokugawa Shige Shige tenha desaparecido durante esse suposto ataque.
- Kiheitai...? – o Yorozuya estava processando aquela informação. – Espera aí... Como o Takasugi conseguiu isso?
Pela TV, a Ketsuno prosseguiu após alguns instantes:
- Está confirmado: Cai o Shogun Tokugawa Shige Shige, e acredita-se que ele está desaparecido! O Kiheitai, com alguns aliados, conseguiu invadir o palácio e, com um ataque silencioso, se infiltrou no local e derrotou a todos que cuidavam da parte externa. Após isso, uma junta foi escolhida para assumir o governo e se pronunciará em alguns minutos.
"O... O SHOGUN...?!", Gintoki pensou. "Como é que o derrubaram?! E o que o Kiheitai ganha com isso? Cara... O Zura vai ficar 'P' da vida!"
Após esse noticiário, a programação de TV voltou ao normal, na qual agora estava sendo exibido um programa de comédia. No entanto, o albino estava pensativo. Como o Kiheitai conseguira derrubar o teoricamente sólido shogunato? Quem eram seus aliados? Certamente a facção Joui, liderada por Katsura, não estava no meio disso tudo. Conhecia Zura tão perfeitamente que sabia que todos os homens do Jouishishi eram apenas terroristas de araque, perto do que fora o Joui de outrora, do qual fora integrante quando mais jovem.
Por outro lado, conhecia Takasugi muito bem para saber que havia algo a mais ali naquela invasão. Ao contrário da facção Joui, o Kiheitai era bem mais radical, sendo uma facção formada por terroristas de verdade, que queriam acabar com o shogunato e destruir Edo para liquidar com todos os Amantos que infestavam aquela cidade. E sabia que o ex-companheiro de guerra era capaz disso...
... Porque Takasugi Shinsuke era capaz de liquidar até antigos amigos para chegar ao seu objetivo. Não importava a ele se fosse necessário pisar os cadáveres de Sakamoto, Katsura e de Gintoki. O importante era o fim, não os meios.
Se Takasugi chegava ao poder, significava que o Yorozuya poderia se preparar para ser o primeiro alvo, querendo ou não, por conta de sua interferência em vários momentos, como a rebelião do Shinsengumi anos atrás. Apesar dessa possibilidade, ele não tinha medo. Assim como seu ex-companheiro de guerra, era um veterano.
E bem que tinha vontade de acertar as contas com ele pelo o que houve oito anos atrás. Sempre tivera vontade de cravar no peito de Takasugi a mesma espada que cravara no peito de Kamui, a fim de vingar Kagura. Ninguém tirava de sua cabeça que ele poderia ter feito um acordo para que o Yato liquidasse a irmãzinha, que era a mais forte do trio Yorozuya. Afinal, sabia que tudo aquilo fora arquitetado por Takasugi para tirá-los do caminho.
E ficar oito anos sem praticamente se mover era bem estranho. Tinha algo maior que justificava esse tempão todo de inatividade por parte da facção do Kiheitai. E isso acabava de se revelar.
De repente... POF! Uma pancada acerta a cabeça de Gintoki, que sentiu a imensa dor e imediatamente levava as mãos ao local atingido e começava a rolar pelo chão e, mais um pouco, veria estrelas dançando diante de seus olhos.
Assim que se refez da pancada que tomara em seu cocuruto, levantou-se e viu ali o filho que tentava esconder em vão a espada de madeira do pai, que logo soltou a bronca:
- DÁ PRA PARAR DE ACERTAR A MINHA CABEÇA, GINMARU?
- Ops, desculpa...! – Ginmaru respondeu meio sem jeito.
- Me dá essa espada, AGORA! – Gintoki ordenou.
Ginmaru, obediente, entregou a espada ao pai, que o mandou se sentar num canto para que pensasse melhor sobre o lugar certo para treinar kendo sem, de preferência, acertar a cabeça dos outros. Tinha que dar um pouco de disciplina ao filho, caso contrário ficaria difícil de controlar o moleque.
Enquanto o garoto curtia um canto – só que não – mais uma vez a programação da TV foi interrompida.
- Interrompemos mais uma vez a programação, para trazer as últimas notícias a respeito da queda do Shogunato. Direto do palácio de Edo, falaremos com a repórter Ketsuno Ana. Ketsuno, está me ouvindo?
- Sim. Estamos ao vivo do palácio de Edo, onde, em alguns instantes, haverá um pronunciamento do novo governante escolhido pela junta responsável por dar o golpe que ocasionou a derrubada do shogun Tokugawa Shige Shige. Esta junta é formada por integrantes do Kiheitai, alguns dissidentes do Jouishishi e também alguns Amantos da raça enjiliana. O novo governante, aliás, pertence a essa raça e definiram que ele seria o mais apto para o cargo.
Agora é que nada mais fazia sentido para Gintoki naquilo tudo! Desde quando o Kiheitai se aliaria a Amantos para enfrentar Amantos, como eles apregoavam desde aquela guerra perdida de anos atrás?
A menos que Takasugi fosse tão esperto a ponto de querer apunhalar pelas costas os tais enjilianos. Era bem o estilo daquele sujeito caolho. Manipular e apunhalar. Mas...
- População de Edo, aqui quem fala é Kasler, o novo governante no lugar de Tokugawa Shige Shige. Sob minha liderança, esta cidade deixará de ser um local decadente para começar a percorrer o caminho da glória. Encontrei tudo uma bagunça, então a partir de hoje estarei começando a "arrumar a casa". Para iniciar, será instaurada uma arrecadação involuntária de impostos para repor o caixa do governo e também está decretada Lei Marcial, na qual todos os direitos estão suspensos temporariamente. Essas medidas visam uma melhor avaliação da situação e facilitará a contenção de arruaceiros pró-shogunato. Ajudem-nos a tornar a cidade de Edo uma cidade melhor.
- Cara, que chato...! – Gintoki murmurou enquanto se levantava para procurar o controle remoto pra desligar a TV. – E esse tal do Kasler parece que mergulhou num tanque de tinta azul pra sair daquela cor.
Assim que desligou a TV, ouviu a campainha. Com cara de entediado, o albino se levantou e viu que Ginmaru ia se levantando para sair do canto no qual estava de castigo. O Yorozuya logo olhou feio para o filho, que mudou de ideia e permaneceu no mesmo lugar.
Ao chegar à porta corrediça, abriu-a e deu de cara com um Amanto com cara de raposa e outro com anteninhas na cabeça e pele vermelha, mais com cara de peixe do que de outra coisa. Eles não tinham cara de quem apareceria para pedir um serviço. Os uniformes bem alinhados reforçavam essa possibilidade.
- Caro humano – começou o cara de raposa. – Estamos aqui por ordens do Lorde Kasler para coletar o imposto a todos os cidadãos de Edo, para fins de contribuição para o novo governo. Para isso, todos foram monitorados. Sabemos o ganho de vocês e nos foi ordenado que recolhêssemos noventa por cento de toda a renda de cada família.
Gintoki fechou abruptamente a porta corrediça e disse:
- Não tenho dinheiro pra doações, passar bem.
Foi para dentro e tirou Ginmaru do castigo. Já tinha dado tempo suficiente de canto para o garoto pensar no que tinha feito para ter que ficar lá. Logo que o mandou sair, a porta corrediça foi violentamente derrubada, fazendo um grande estardalhaço.
"De novo, não...!", pensou. "Vou ter que cobrar daqueles idiotas do Shinsengumi o conserto da porta! Toda vez que correm atrás do Zura, eles têm que arrebentar a minha porta...!"
- EI, SEUS BABACAS! – esbravejou. – PAREM DE ARREBENTAR A PORTA, A VELHA AINDA VAI ME AUMENTAR O ALUGUEL SE CONTINUAR ASSIM! É MELHOR VOC...
Gintoki se interrompeu quando reconheceu os dois funcionários do novo governo, na cara dos quais fechara a porta. Imediatamente, duas espadas de lâminas muito bem afiadas foram apontadas para seu pescoço. Diante disso, o Yorozuya engoliu seco, pois estava desarmado.
- Ei, ei... – Gintoki tentou usar um tom conciliador. – Não podemos negociar, não...? Noventa por cento é meio caro pra mim, sabe?
O cara de peixe aproximou ainda mais a espada do pescoço do albino:
- Ou é noventa por cento, ou é a sua vida!
Gintoki engoliu seco novamente. O que fazer agora? Tinha que pensar rápido, ou senão sua cabeça correria o sério risco de ser separada do corpo.
