Capítulo 14
O cigano
O cavalo de Kate empinou diante da aproximação de Jack e ela segurou com força nas rédeas para manter o controle sobre o animal.
- Eia!- Jack falou com firmeza assim que seu cavalo parou ao lado do dela e tomou o controle das rédeas. Kate não fez objeção e deixou que ele a ajudasse. – Calma, garoto.- ele disse ao cavalo com a voz mansa. O animal se acalmou e ficou parado esperando novas orderns.
- Impressionante.- Kate disse ainda fitando-o profundamente nos olhos.
- Parece que a senhorita precisa de ajuda com o adestramento do seu cavalo.- Jack observou.
- O cavalo nem é meu.- Kate respondeu.
- Srta. Fields, se me permite perguntar, o que a senhorita está fazendo por estas bandas à essa hora da noite enquanto uma tempestade está por vir?
- Eu sei que o senhor disse que seria melhor não nos vermos mais, mas eu tenho um assunto importante para resolver com o senhor, doutor Shepard.
Ele observou o céu escuro, coberto de nuvens carregadas de chuva. O vento também se acentuava fazendo com que os cachos dos cabelos de Kate cobrissem parcialmente o seu rosto. A chuva viria logo. Se eles não se apressassem ficariam presos no meio dela em breve.
- Muito bem, senhorita.- Acompanhe-me até a minha casa por favor.- ele pediu. Kate assentiu com a cabeça. – Eia!- Jack gritou enquanto batia levemente com as esporas de suas botas no lombo de seu cavalo Wind direcionando-o rumo à sua fazenda que não estava muito longe. Kate fez o mesmo com seu cavalo e o seguiu.
Pingos grossos de chuva começaram a cair depressa, aumentando de intensidade rapidamente. O vento gélido passou a açoitar-lhes as costas. Kate gemeu de frio.
- Já estamos quase lá, senhorita!- Jack anunciou quando avistou o portão da antiga propriedade de sua família.
Ele não teve que se dar ao trabalho de abrir a porteira porque esta tinha sido aberta pelo vento.
- Vamos!- ele chamou e Kate o seguiu através da porteira para dentro da fazenda.
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O acampamento estava em chamas. Os homens corriam para todos os lados. Uns empunhando suas espadas e procurando os responsáveis pelo fogo, outros apenas fugiam tentando salvar suas vidas. Em meio ao caos, Sayid avistou um indivíduo com uma tocha preparado para incendiar outra tenda do acampamento. O árabe trincou os dentes e se esgueirou em meio ao fogo na direção do homem. Ele tentou acertar-lhe o cavalo com a espada para que o homem caísse. Mas o sujeito era muito hábil e conseguiu desviar o animal para o lado oposto. No entanto, o homem não fugiu. Ele galopou de volta até onde Sayid estava e o encarou diretamente nos olhos.
- Quem é você, cigano?- indagou Sayid, surpreso. Ele esperava encontrar um índio, já que a maior parte dos ataques sofridos por caravanas comerciais era feito por índios.
- Me diga o seu nome primeiro, mouro!- disse o cigano, petulante.
Sayid empunhou sua espada na direção dele.
- Quanta arrogância!- exclamou Sayid.
O cigano riu.
- Um homem que é capaz de raptar uma mulher que não lhe pertence não pode usar a palavra arrogância, mercador. Diga-me, aonde mantém as mulheres que o seu grupo roubou do seio de suas famílias?
- Do que diabos está falando, cigano?-retrucou Sayid. – Sou mercador de produtos e especiarias, não de mulheres.
Enquanto Sayid falava com o cigano invasor, alguns de seus homens se aproximavam furtivamente, preparados para rendê-lo. Quando ele finalmente percebeu que estava cercado, tentou fugir mas o fogo já tomava conta da maior parte do acampamento e o cavalo dele ficou assustado. O animal empinou para trás e o cigano caiu. Dois homens o agarraram pelos braços. Um terceiro acalmou seu cavalo para que ele não corresse direto para as chamas.
- Amarrem esse bandido!- ordenou Sayid. – Vamos levá-lo conosco para Dharmaville.
Os homens se afastaram do fogo caminhando na direção contrária.
- Quantas baixas tivemos?- indagou Sayid quando um homem trouxe seu cavalo.
- Dois homens não conseguiram fugir a tempo, senhor. Ficaram presos e não temos como recuperar os corpos.
Sayid franziu o cenho.
- E as mercadorias?
- Conseguimos recuperar um terço delas, senhor. Em sua maioria joias. O restante o fogo levou.
O mercador olhou para o cigano e proferiu algumas palavras ríspidas em árabe.
- Onde está a princesa, mercador?- gritou o cigano.
Sayid o ignorou.
- Vamos sair daqui e avisar as autoridas o mais rápido possível sobre o fogo.
A tempestade começou a cair, agindo direto sobre o incêndio. Sayid ajoelhou-se no chão, abaixou-se e tocou a terra com sua testa agradecendo à Alá pela chuva que agora se encarregaria de apagar o fogo.
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Naomi avistou o mercador e seus homens levando Yago para longe. O rosto dela estava tomado de lágrimas.
- Eles vão matá-lo!- ela sussurrou.
- Naomi, não encontrei nenhuma mulher neste acampamento. Você tem certeza de que estes homens são mercadores de escravos?- indagou Nuvem Negra.
Ela balançou a cabeça negativamente.
- Eu só queria que ele me levasse a sério...
- Você o colocou numa posição muito difícil. Agora teremos problemas com as autoridades dos brancos.
- O que vamos fazer, Nuvem Negra? Ele vai ser enforcado, eu tenho certeza!- choramingou Naomi.
- Ele não será enforcado sem um julgamento. Esses mercadores estão seguindo para Dharmaville e eu sei como chegar lá. Vamos retornar. Precisamos de reforços!
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Jack entrou em seu quarto e fechou a porta cuidadosamente atrás de si. Pegou uma toalha rapidamente no guarda-roupa e suspirou tentando imaginar o que Mônica Fields queria com ele que não poderia esperar até o amanhecer para que pudessem conversar em seu escritório. A chuva os tinha pegado ainda na entrada da fazenda e ele ficaram ensopados. Assim que eles entraram na casa ele pediu a moça que ficasse à vontade enquanto ele ia buscar uma toalha para ela.
"Ela é linda!"- disse sua mente. – Mas ela é uma prostituta.- Jack acrescentou como se brigasse consigo mesmo e com a atração que sentia por aquela garota. As palavras do xerife no jantar daquela noite também vieram em sua mente: "Todas as mulheres são maravilhosas. As prostitutas são aquelas que não tiveram escolha."
Ele por fim e retornou à sala segurando uma toalha cinza felpuda. Kate tinha retirado sua capa escura. Jack prendeu a respiração. Por baixo da capa ela usava apenas um espartilho preto, tão apertado que fazia sua cintura fina parecer ainda menor. Os seios pequenos também estavam apertados debaixo do corpete fazendo com que se empinassem para cima. Juntamente com o espartilho ela usava uma saia longa vermelha de franjas. Jack sentiu uma pontada de desejo na virilha e amaldiçoou a si mesmo em pensamento por não estar conseguindo se controlar.
- Senhorita...- disse ele estendendo-lhe a toalha. Kate agarrou-a das mãos dele e começou a secar-se. Seus movimenos eram deliberadamente sensuais. O médico engoliu em seco.
- Doutor Shepard...- ela começou a falar. – Não gosto de ser rejeitada. Por isso eu vim aqui lhe perguntar por que o senhor não gosta de mim? O senhor disse no seu consultório que o fato de eu ser prostituta não era a razão. Então o que é? Eu vejo como olha pra mim, estou vendo esse olhar agora mesmo.- ela tocou o topo de seus seios e o coração de Jack bateu mais forte.
Ele se aproximou dela devagar e disse:
- Senhorita, eu sou médico e como representante da saúde lhe digo que espartilhos apertados podem estar associados à causa de doenças pulmonares.
- O quê?- Kate piscou, sem entender.
Jack ficou frente a frente com ela.
- Espartilhos apertados e molhados podem ser ainda piores.- ele acrescentou acariciando os ombros dela devagar. – Por isso eu aconselho que a senhorita se dispa desse espartilho agora mesmo.
Kate sorriu com malícia.
- Eu vou tirar se o senhor me ajudar.
No momento seguinte Jack colava seus làbios aos dela. Jà estava cansado de lutar contra a atração fatal que sentia por aquela mulher. Precisava tê-la nem que fosse uma única vez. Kate o beijou de volta sondando sua boca com a língua dela. Jack a agarrou pelo bumbum e a ergueu do chão antes de deitá-la no sofá. Beijou-a profundamente mais uma vez e desceu os beijos pelo pescoço dela chegando ao decote.
- A senhorita é tão delicada.- elogiou ele beijando o topo dos seios dela. Kate gemeu baixinho e sussurrou no ouvido dele:
- Doutor, o senhor precisa me ajudar. Não quero ficar doente por causa desse espartilho.
- A senhorita tem razão.- disse ele enterrando o rosto no decote dela.
Ele a agarrou novamente fazendo com que ela se virasse para que pudesse ter acesso aos cordões que prendiam o espartilho ao seu corpo. Kate o ajudou erguendo os longos cabelos. Jack começou a soltar os fios com maestria revelando a pele de porcelana dela para ele. Quando ele terminou de soltar todos os fios beijou-lhe a nuca e os ombros enquanto acariciava-lhe as costas causando arrepios de prazer pelo corpo dela. Seus seios se enrijeceram. Ele atirou o espartilho dela no chão e envolveu ambas as mãos em seus seios cobrindo-os. Kate gemeu ao toque dele enquanto sentia os dedos deles pressionando seus mamilos túmidos.
- Eu o quero, doutor. Quero muito!- ela sussurrou.
Jack a virou de frente novamente e se deitou por cima dela no sofá, beijando-a. Kate envolveu-lhe o pescoço com seus braços. Ele desceu os beijos dos lábios para o colo dela. Beijou-lhe ambos os seios antes de inserir um mamilo rosado em sua boca sugando-o com vontade.
- Jack!- Kate suspirou.
Ele logo envolveu o outro seio com seus lábios mordiscando e lambendo o peito dela gentilmente. Kate arqueou os quadris querendo mais. A parte mais sensível entre suas coxas queimava de desejo por ele. Jack continuou sua exploração pelo corpo até erger-lhe a saia de seda até a cintura. A mão dele deslizou por entre as coxas dela, por cima da calçola de renda negra sentindo-a úmida.
- Deus!- ele murmurou. Agora não tinha mais volta. Depois de anos em total celibato seu corpo clamava por liberação.
Jack arrancou a calçola dela o mais depressa que pôde de seu corpo deixando apenas as meias de seda preta. Mônica puxou uma respiração diante do gesto ousado dele. O cheiro do corpo dela deixou-o inebriado. Ela cheirava a rosas vermelhas e paixão. Ele afagou-lhe os pelos macios de seu sexo e beijou-a intimamente. Ela deixou escapar um grito de prazer ao sentir os lábios dele sugando seu delicado botão.
- A senhorita é tão doce.- ele elogiou.
Ele levantou-se de cima dela o suficiente para que pudesse abrir as próprias calças e libertar seu membro que já estava ansioso para tomá-la.
- Dentro de mim, doutor... – ela disse entre gemidos, extasiada com a beleza do corpo dele, com seu sexo pulsante pronto para ela. Jack terminou de abaixar as calças e as ceroulas tirando em seguida a camisa. Kate o abraçou quando ele voltou a se deitar em cima dela. Ele mordiscou-lhe o pescoço e começou a se inserir dentro dela adorando cada segundo daquele ato. Tinha se esquecido o quanto era bom fazer amor, o quanto necessitava disso, daquele corpo feminino cálido que o acolhia sem barreiras.
Foi nesse momento que Jack perdeu completamente o controle, se esquecendo até mesmo de quem era. Começou a se empurrar contra ela com força sentindo-a batendo os quadris contra os dele, com a mesma paixão.
- Adoro-te!- ele suspirou entre gemidos. – Adore-te, meu amor.
- Tão bom assim...doutor...me sinto tão cheia de amor.
- Amo-te!- Jack gritou. – Amo-te, Sarah!
Os olhos verdes de Kate se alargaram ao ouvir aquele nome que certamente estava longe de ser o seu.
- O quê?- ela exclamou indignada. Mas Jack não percebeu o que tinha dito, apenas sentiu seu interior se derramar dento dela denunciando seu prazer indescritível. Apesar de ele tê-la chamado por outro nome, Kate não conseguiu conter o prazer que a tomou e explodiu junto com ele no mesmo ritmo.
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O uivo dos coiotes soou distante no horizonte. O sol nascia lentamente, preguiçoso depois de uma noite inteira de tempestade. A chuva que caíra na noite anterior tinha transformado a terra poeirenta da pequena cidade em lama, mas as cisternas agora estavam cheias de água limpa. Os cavalariços, em geral garotos adolescentes acordavam muito cedo para cuidar dos cavalos de seus patrões. Os majestosos animais bebiam contentes da água refrescante da chuva que fora coletada para eles na noite anterior. Chuva era sempre bom para afastar a secura das terras do oeste.
Karl, um dos empregados do prefeito tinha acabado de desmontar seu cavalo em frente ao armazém que abria muito cedo para comprar ovos frescos para o café da manhã de seus patrões quando avistou um grupo grande de homens adentrando a cidade em seus cavalos. Assim que o grupo se aproximou mais Karl reconheceu Sayid Jarrah cavalgando à frente dos outros homens que não pareciam nada bem. As carroças que antes tinham sido usadas para carregar mercadorias agora transportavam os homens feridos que tinham escapado do incêndio no acampamento aos pés do penhasco. Ao perceber a condição em que se encontravam os mercadores, Karl soou o sino de emergência da cidade que ficava pendurado na varanda do armazém.
Ao ouvir o sino Madame Lana, a dona do pequeno mercado de conveniências saiu de lá de dentro esbaforida.
- Neil!- ela gritou chamando o marido que estava preparando pão para assar.
- O que foi desta vez, Lana?- ele indagou aparecendo diante das portas duplas de seu estabelecimento.
Rose apontou para os mercadores enquanto Karl continuava a balançar o sino.
- Minha nossa senhora das necessidades!- exclamou Nial benzendo-se.
Logo a cidade inteira estava de pé nas ruas. A maioria ainda usando trajes de dormir. O sino da cidade era uma coisa muito séria. Quando tocava todos sabiam que deveriam deixar suas casas e se encontrar no centro da cidade. Shannon Jarrah tinha acabado de levantar-se de sua cama quando ouviu o barulho estridente do sino tocando. Vestiu seu penhoar de lã depressa por cima da camisola de linho cor-de-rosa, calçou seus tamancos de madeira e correu para a rua. Levou um susto enorme quando viu a caravana de seu marido destruída com homens assustados e feridos conduzindo seus companheiros ainda mais machucados nas carroças que deveriam estar carregando mercadorias.
Ela levou a mão à boca e deu um grito estridente ao avistar o marido em seu cavalo coberto de fuligem da cabeça aos pés. Nancy ouvia o sino e a manifestação lá fora. Ela tinha olhado pela janela e tinha visto que todos já estavam na rua.
- Benjamin!- ela chamou o marido que ainda roncava na cama. – Benjamin?
- O que foi, Nancy?- ele indagou mal-humorado. – Ainda é muito cedo, me deixa dormir, mulher.- ele enterrou o rosto no travesseiro,.
- Você não está ouvindo o sino homem de Deus?
- Ah, devem ser aquelas crianças mal-educadas de novo.
- Não!- ela gritou. – Tem alguma coisa acontecendo! Benjamin Linus você é o prefeito dessa cidade.- ela atirou um travesseiro pesado nele que caiu direto em sua cabeça.
- Au!- ele reclamou.-
- Levanta Benjamin!
Pat, a filha dos dois já tinha ido para a rua, curiosa em saber o que estava acontecendo. Ela assistiu Sayid desmontando de seu cavalo e correndo para abraçar a esposa histérica. Shannon acalmou-se quando ele veio até ela e não se importou quando ele a abraçou sujando-a de fuligem.
- Meu amor, o que aconteceu?- ela sussurrou para ele contendo o próprio choro.
- Fomos atacados em nosso acampamento, querida esposa.- ele respondeu.
- Índios!- exclamou Charlie que tinha acabado de se juntar ao resto dos moradores da cidade com a esposa Claire que carregava o bebê deles no colo.
- Não.- respondeu o mercador. – Ciganos!
- Ciganos?- retrucou Charlie, surpreso.
- Aonde está o xerife Donald?- perguntou Sayid.
- Donald está aposentado agora. Foi embora de Dharmaville. Nós temos um novo homem da lei nessa cidade agora.- contou Charlie, empolgado.
- E onde ele está?
- Me deixem passar agora mesmo! Me deixem passar!- dizia o prefeito Linus empurrando as pessoas que se aglomeravam ao redor dos mercadores.
- Prefeito!- exclamou Charlie retirando seu chapéu assim que Benjamin se aproximou.
- Mas o que está acontecendo nessa cidade?- ele bradou.
- Meu marido foi atacado, prefeito!- disse Shannon, dramática. – Puseram fogo no acampamento dos mercadores.
Benjamin Linus arregalou os olhos que se tornaram ainda mais esbugalhados que de costume.
- Índios!- ele exclamou, assustado. – Devem ter sido os mesmos selvagens que atacaram aquela diligência ontem de manhã.
- Não foram índios prefeito!- disse Sayid.
- Foram ciganos!- falou Claire embalando o filho que começava a chorar.
- Ciganos?- disse Nial que acabara de escutar o que Claire dissera.
- Ciganos!- exclamou outra pessoa. Pouco a pouco os membros da comunidade começaram a falar sobre os ciganos, discutindo o quanto eles eram perigosos e amaldiçoados.
- Eu preciso ver o xerife!- falou Sayid com convicção.
- Para prestar queixa é claro.- concordou Linus. – Pois nós temos um novo xerife em Dharmaville, Sr. Jarrah. Um homem extremamente corajoso!
- Honesto e trabalhador.- acrescentou Charlie.
- Respeitador.- disse Shannon.
- E bonito!- informou Claire com um sorriso. Charlie franziu o cenho quando ouviu a esposa dizer isso. Claire pigarreou e se afastou com a desculpa de que estava acalmando o bebê.
- Enfim um verdadeiro homem da lei.- concluiu Linus.
- Ótimo!- disse Sayid. – Porque eu vou realmente precisar dele, mas não apenas para prestar queixa, temos um prisioneiro para interrogar.
E dizendo isso, Sayid apontou para uma das carroças onde um homem moreno, de cabelos longos e cacheados com profundos olhos negros estava sentado com mãos e pernas amarradas. Havia um homem de cada lado da carroça vigiando o prisioneiro. Um sonoro "ohhhhhhh" foi proferido pela população de Dharmaville.
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Enquanto todos estavam surpresos e chocados com a volta da caravana de mercadores de Sayid Jarrah e o prisioneiro cigano que trouxeram consigo acusado de atear fogo às mercadorias do comerciante, o xerife Sawyer vulgo homem da lei, honesto, respeitador, corajoso e bonito dormia tranquilamente em sua cama no ex-rancho do velho Donald depois de uma tórrida noite de amor com a esposa. Ele ressonava suavemente enquanto abraçava a dois travesseiros de penas de ganso achando que se tratava do corpo cálido de Ana-Lucia.
No entanto, ela já não estava mais na cama a algum tempo. Tinha acordado antes do sol raiar com o primeiro canto do galo e foi direto para a despensa ver como o homem machucado que tinha acolhido estava se sentindo. Quando ela abriu a porta do quarto para sair, o cabritinho Dimitri entrou no quarto e pulou na cama aconchegando-se a Sawyer. O calor do corpo do animal alimentou ainda mais a ideia de que Ana ainda estava na cama.
Ana-Lucia coou um café para o homem e levou para ele junto com um generoso pedaço de pão com manteiga. Ele estava acordado quando ela adentrou a despensa. Sorriu quando a viu, mas nada disse.
- Bom dia.- saudou ela pousando a cesta com o café da manhã em uma mesa. – Como está se sentindo, senhor?
Ele não respondeu, mas sua aparência sem dúvida parecia melhor.
- Fico feliz vendo que parece melhor. Mas não acredito que esteja curado, Eko. O ferimento foi muito profundo.- ela apontou para o ferimento no abdômen dele e Eko deixou que ela tirasse as ataduras.
Ana-Lucia franziu o cenho. O cheiro de carne infeccionada tinha diminuído, mas a ferida ainda tinha muito pus e a infecção poderia piorar novamente.
- Eu falei com o médico da cidade ontem... – ela começou a dizer, mas parou de falar quando viu o olhar assustado dele.
Eko balançou a cabeça negativamente.
- Está tudo bem, Sr. Eko. Nós podemos confiar no doutor. Ele não contará nada ao meu marido. Eu já fiz tudo o que pude para ajudá-lo e temo que não tenha sido o suficiente.
Eko assentiu..
Ana-Lucia sorriu.
- Ele vai estar aqui logo. Pedi a ele que viesse logo cedo, assim que meu marido saísse para o trabalho.
Ela pegou a cesta com o café da manhã e entregou a ele que começou a comer, satisfeito.
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Jack acordou de súbito quando se deu conta de que já era dia. Estava deitado no sofá, nu. Apenas um cobertor o cobria da cintura para baixo. Diante dele estava Mônica Fields vestida novamente com sua capa preta e um olhar zangado no rosto.
- Bom dia, dr. Shepard.- ela disse. – Eu só estava esperando o senhor acordar para lhe dizer que agora estamos quites.
- Do que está falando?- Jack retrucou confuso.
- Quero dizer que agora que dormimos juntos eu não lhe devo mais nada! Por isso vou indo!
Ele se levantou do sofá com o lençol enrolado na cintura e a seguiu enquanto ela se encaminhava para a porta.
- Senhorita Fields, eu...
- Está tudo bem.- disse ela com um sorriso falso no rosto. Eu posso pegar meu cavalo sozinha no estábulo.
Jack ficou parado olhando para ela, tentando entender o que a tinha aborrecido tanto. Sawyer tinha dito a ele que Mônica o queria, por isso ele dormira com ela. Por isso quebrara seu celibato. Ela não era nenhuma donzela para ter ficado chateada com os avanços dele na noite anterior.
- Espero que minha performance tenha valido os dólares que o senhor pagou por mim.- ela disse abrindo a porta para sair. Foi nesse momento que algo veio à mente de Jack.
- Espere um momento, senhorita. Por favor.- ele pediu.
Kate parou imaginando que talvez ele fosse lhe pedir desculpas por tê-la chamado pelo nome de outra mulher. Ainda que Mônica Fields não fosse seu primeiro nome, o fato de ser chamada por um nome completamente diferente do que o que usava como disfarce só mostrava que o médico, assim como outros homens que se deitavam com prostitutas não dava a mínima para ela. Ela era apenas uma coisa, um objeto de prazer.
No entanto, o que Jack fez no momento seguinte deixou Kate ainda mais aborrecida. Ele dirigiu-se ao seu escritório particular e de uma gaveta retirou algumas moedas de prata num valor bastante generoso. Retornou à sala de visitas e colocou as moedas nas mãos de Mônica.
- Mil perdões senhorita Fields por ter lhe pagado menos do que sua performance merece.
Kate arregalou os olhos e sem pensar jogou as moedas em Jack antes de estapeá-lo no lado direito do rosto. A face dele queimou e ele instintivamente colocou a mão no próprio rosto.
- Mas eu pensei que a senhorita...
Ela nada disse, apenas deixou a casa caminhando a passos duros. As esporas de suas botas fizeram barulho enquanto ela caminha pela varanda de piso de madeira rumo aos estábulos. A Sra. Rose Murray, esposa do barbeiro e arrumadeira de Jack, também conhecida como a mulher mais fofoqueira do oeste chegou a tempo de ver Mônica saindo da residência do médico enquanto Jack permanecia parado na porta acompanhando-a com os olhos. Ele ainda segurava o cobertor ao redor da cintura para esconder sua nudez.
- Bom dia, doutor Shepard.- saudou Rose com um sorriso malicioso, medindo o patrão.
- Bom dia, Sra. Murray.- respondeu Jack em um tom sério. – Por favor, perdoe os meus trajes.
- O senhor não tem nada pelo que pedir perdão, doutor.- Rose acrescentou com um sorriso. – Benza Deus! Quem era a sua amiga?- ela piscou quando perguntou. – Uma paciente?
- Exato.- ele respondeu sem dar maiores informações.
Jack entrou na casa e Rose o seguiu para dentro fechando a porta.
- Doutor Shepard, o senhor não vai acreditar no que está acontecendo na cidade.
- Está tudo bem, senhora Murray. Pode me contar outra hora. Agora preciso me arrumar para sair. Não precisa se preocupar com o meu café da manhã. Eu vou comer na cidade.
- Mas a cidade está um verdadeiro caos, doutor Shepard!
- Como assim?- ele questionou já nas escadas, preparado para subir ao seu quarto.
- Parece que ciganos atacaram a caravana do Sr. Jarrah ontem a noite e queimaram todo o acampamento.
- Ciganos?- Jack questionou, surpreso.
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O barulho estridente de alguém batendo com força na porta do xerife Sawyer naquela manhã o fez acordar com dor de cabeça. Ele tentou se levantar da cama, mas deu de cara com o cabrito que ainda dormia ao seu lado. Ao vê-lo acordado o bichinho ficou alegre e deu-lhe uma lambida diretamente em sua boca. Sawyer fez cara de desgosto e afastou o animal.
- Son of a bitch!- exclamou. – Ana-Lucia?- ele chamou por ela ao ver que ela não estava na cama. – Ana-Lucia?
As batidas na porta continuavam incessantes e logo foram seguidas de uma voz masculina:
- Xerife, o senhor está aí?
- Mas que diabos, o galo ainda nem parou de cantar e já tem gente me acordando?
Ele levantou-se da cama e procurou rapidamente por suas roupas. Desceu logo em seguida ainda chamando pela esposa.
- Ana-Lucia!
Ela apareceu nesse momento, entrando pela porta dos fundos da cozinha. Trazia consigo uma cesta cheia de ovos.
- Bom dia, xerife.- ela disse, sorridente. – Estava pegando ovos para o nosso café da manhã, amor. As galinhas que o senhor trouxe ontem já começaram a trabalhar.
- Xerife!- a voz insistiu, juntamente com as batidas.
- Quem é?- Ana indagou.
- Alguém que não tem nada melhor pra fazer.- grunhiu ele indo abrir a porta.
Encontrou Steve do outro lado, acompanhando de seu irmão Scott.
- Posso saber o que é tão importante assim pra vocês dois virem me acordar tão cedo?
- O prefeito nos mandou aqui, Xerife.- disse Steve. Scott balançou a cabeça assentindo.
- O que houve?
- O Sr. Jarrah e seus homens foram atacados noite passada nas planícies não muito longe daqui, xerife.
Scott continuou balançando a cabeça.
- Queimaram todo o acampamento e destruíram grande parte das mercadorias.
Scott fez um gesto com as mãos que significava explosão.
- O Sr. Jarrah e e seus homens foram dizimados?- indagou Sawyer, preocupado.
- Tiveram duas baixas, senhor, mas a maiorua sobreviveu. Alguns estão feridos.
Scott cutucou o irmão e fez alguns gestos juntando as mãos umas nas outras e em seguida colocando-as atrás das costas.
- Sim, mano, eu vou contar pra ele.- disse Steve.
- Contar o quê? Ainda tem mais?- perguntou Sawyer.
Steve e Scott assentiram ao mesmo tempo.
- O Sr. Jarrah sabe quem atacou o acampamento porque ele conseguiu prender um dos responsáveis.- contou Steve.
- Um índio?- Sawyer concluiu.
- Não senhor.- disse Steve. Scott balançou a cabeça negativamente. – Um cigano.- ele completou.
Ana-Lucia que estivera ali parada ouvindo toda a história, ao ouvir a palavra cigano deixou cair a cesta com os ovos no chão. Alguns deles se espatifaram espalhando clara e gemas pelo piso de madeira da sala de estar.
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- Sr. Widmore. Bom dia!- disse Libby ao ver o conde Charles Widmore descendo as escadarias para o andar de baixo do saloon. – Eu ouvi uns barulhos...- ele mencionou ainda bocejando.
- Nós temos um problema na cidade agora.- Libby explicou. - O Jarrah retornou com os mercadores bem cedo hoje. Parece que foram atacados por ciganos noite passada. Queimaram o acampamento e destruíram mercadorias.
- Ciganos! Mesmo?- retrucou Widmore.
- É o que o Jarrah está dizendo. Ouvi dizer que ele tem um prisioneiro...
- Se foram mesmo ciganos, minha querida Libby lhe digo uma coisa, vamos fazê-los pagar as nossas mercadorias com o ouro deles. Onde já se viu isso? Eu espero esse tipo de coisa dos índios.
- Eu concordo inteiramente com o senhor.- disse Libby.
- Sorte a desse prisioneiro que hoje eu estou de muito bom humor. Tive uma ótima noite!- contou Widmore, satisfeito.
- Então gostou da Mônica?- Libby inquiriu.
- Ela é a melhor garota da casa, minha querida, com exceção de você é claro.- ele tocou a mão de Libby e beijou-a.
- O senhor é um galanteador, Sr. Widmore.
- Ah, e antes que eu me esqueça...- disse ele colocando a mão no bolso direito de seu casaco. – Eu já paguei a Srta. Fields, mas gostaria de adicionar este bônus para a senhorita e seu saloon maravilhoso que nos encanta com todas estas belas garotas. – ele entregou a Libby quatro moedas de ouro.
- Muito obrigada, senhor Widmore.- disse Libby, sorrindo. – O que seria desta casa sem clientes como o senhor?
Assim que Widmore deixou o saloon, Libby subiu as escadas correndo em direção aos aposentos de Mônica.
- Mônica? Mônica, querida eu posso entrar?- ela indagou batendo na porta, mas não obteve nenhuma resposta. Ela então abriu a porta. Encontrou a cama desarrumada, os lençóis amarfanhados. – Parece que eles realmente se divertiram bastante noite passada.- disse Libby um pouco enciumada, afinal Widmore era o seu cliente favorito. Mas Mônica parecia ter feito um excelente trabalho.
Ela deixou o quarto e encontrou Danielle no corredor carregando uma pilha de lençóis para lavar.
- Danielle, você viu a Mônica?
- Não Madame Libby. Ainda não a vi esta manhã.
- Quando a encontrar diga que eu gostaria de ter uma palavrinha com ela, sim?
- Sim, senhora.- respondeu Danielle colocando a pilha de lençóis em um canto do corredor. Ela então correu para os fundos onde ficavam os estábulos para ver se Mônica já teria retornado com o seu cavalo.
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- Não, Ana-Lucia. Você não pode vir comigo!- bradou Sawyer enquanto Ana-Lucia colocava sua combinação e anágua.
- É claro que eu posso e vou!- respondeu ela agora procurando por um vestido no guarda-roupa. Escolheu um azul de babados estampado com bolinhas brancas.
- Pare de se arrumar!- disse o xerife, ríspido. – Eu a proibo de vir comigo para a delgacia. Esse homem é um meliante que ateou fogo no acampamento dos mercadores.
- Ele é um cigano!- insitiu, Ana-Lucia. – E o senhor não sabe se ele é realmente culpado.
- E nem a senhora!- rebateu Sawyer.
Ana terminou de colocar o vestido e virou de costas para ele, dizendo:
- Fecha pra mim!
- Ana...
- Fe-cha pra mim!- ela bradou.
Sawyer fechou os botões do vestido dela.
- Xerife, o senhor não consegue entender? Se o prisioneiro for mesmo um cigano, ele pode ser do meu clã e pode me ajudar a encontrar a minha família.
- Ninguém pode saber que você é uma cigana! Se descobrirem isso vão descobrir todo o resto. Você é quem não consegue entender.
- Eu preciso ver a minha família, Sawyer.
Ele respirou fundo e soltou o ar devagar de seus pulmões.
- Eu entendo, pequena. Mas eu primeiro preciso ver quem é esse homem. Se for seguro, eu prometo que te levo pessoalmente depois à delegacia para falar com ele.
Sawyer se aproximou e a abraçou. Ana-Lucia deixou-se envolver pelo abraço.
- Me deixa falar com ele primeiro, quindim.
Ana finalmente assentiu.
- Está bem.- disse.
O xerife a beijou e ela correspondeu ao beijo. Quando seus lábios se afastaram, ele colou sua testa à dela e sussurrou: - Vai ficar tudo bem. Agora eu preciso ir, bebê.
Ele deixou o quarto e não ouviu quando Ana murmurou consigo mesma: - Isso é o que nós vamos ver.
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Danielle estava esperando perto dos estábulos por Mônica quando ouviu risinhos vindos do beco que ficava atrás do saloon. Um casal de adolescentes se abraçava e se beijava encostados na parede de madeira. Danielle reconheceu os dois de imediato. A filha do prefeito, Patrícia e o empregado de seu pai, Karl. Foi então que ela ouviu passos de botas se aproximando, chafurdando na lama seguidos de uma voz feminina muito zangada:
- Pat, aonde você está, menina?-bradou Nancy Linus procurando a filha. – Nós temos que ir para casa agora mesmo.
- Meninos, Nancy Linus está vindo!- Danielle avisou.
Pat correu imediatamente. Karl sussurrou um rápido obrigado para Danielle e correu na direção oposta da garota. Nancy avistou Danielle e franziu o cenho quando a viu.
- Procurando alguma coisa, primeira-dama?- Danielle indagou.
- Eu não falo com prostitutas!- ela respondeu rispidamente e se afastou de Danielle ainda chamando pela filha.
Danielle nada disse. Assim que Nancy se afastou, Mônica apareceu cavalgando o garanhão negro dela direto para os estábulos. Ela seguiu para lá. Quando Mônica desmontou do cavalo, Danielle foi logo dizendo: - Por que demorou tanto? Madame Libby estava te procurando.
- Demorei porque eu sou uma idiota, Danielle.- respondeu Kate, chateada.
- Como foi com o doutor?
- Poderia ter sido melhor.- disse ela. – Obrigada pelo cavalo.
- Já sabe o que está acontecendo na cidade?
- O quê?
- Um grupo de ciganos ateou fogo ao acampamento dos mercadores noite passada. O Sr. Jarrah trouxe um prisioneiro de volta com eles. – contou Danielle. – Steve e Scott foram chamar o Xerife para interrogá-lo. Eu imagino que o doutor Shepard também deve vir para cidade em breve cuidar dos feridos.
Kate suspirou e disse:
- Sinto muito pelos feridos mas eu não quero mais ouvir o nome desse homem.
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Ana-Lucia esperou na porteira pelo doutor Shepard. Ele tinha prometido vir de manhã ver o homem a quem ela estava ajudando, mas agora com aquela confusão toda que estava acontecendo na cidade ela se preocupara que ele não fosse passar mais lá. Mas o médico apareceu em sua charrete Mercedez-Benz preta, modelo 1897. Ana nunca tinha visto um veículo como aquele.
- Bom dia, Sra. Sawyer.- saudou Jack descendo da charrete.
- Bom dia, doutor.- Ana-Lucia respondeu. – Que tipo de carrete é essa que funciona sem os cavalos?
- É um carro.- Jack respondeu. – Funciona com um motor.
- O que é um motor?
- É um dispositivo que converte outras formas de energia em energia mecânica de forma a impelir movimento a uma máquina ou um veículo.- Jack explicou.
- Isso é incrível!- exclamou Ana.
- Sra. Sawyer eu adoraria lhe explicar mais sobre veículos e motores mas eu realmente preciso ir pra cidade em breve. Preciso cuidar dos feridos do incêndio no acampamento dos mercadores, mas quis honrar seu pedido e vir visitar o ferido que a senhora está ajudando.
- Obrigada, doutor.- disse Ana. – Por favor, venha comigo.-ela apontou a direção da despensa da fazenda e Jack a seguiu.
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Sawyer estava preocupado. Se o cigano preso por Sayid fosse mesmo alguém do clã de Ana-Lucia, ele sabia que estaria prestes a ter terríveis problemas com a esposa. Ele achava que nos últimos dias os dois estavam se dando muito bem e que finalmente Ana estava começando a se acostumar em ser casada com ele e que ela estava feliz com sua vida no oeste. Mas quando ele viu o brilho no olhar dela ao pensar na possibilidade que havia alguém do passado dela em Dharmaville o xerife se sentiu inseguro. Apesar de ter prometido à ela que a traria para ver o prisioneiro depois que o interrogasse ele não podia deixar que ela o visse de jeito nenhum. Cigano do clã dela ou não, Sawyer arrumaria um jeito de mandar aquele homem para longe da cidade an que sua esposa pudesse vê-lo.
Quando ele chegou à delegacia encontrou o homem de negócios Sayid Jarrah sentado em seu escritório esperando por ele. No final do corredor, preso em uma das duas únicas celas da cadeia de Dharmaville estava o cigano, quieto, sentado em um canto. Ao ver Sawyer, Sayid se levantou de sua cadeira para cumprimentá-lo. O mercador tinha ido rapidamente à sua casa para tomar banho e trocar de roupa antes de conhecer o xerife. Um de seus homens tinha ficado vigiando o prisioneiro já que Dharmaville não possuía nenhum outro representade da lei além do xerife.
- Xerife!- saudou Sayid. – É um prazer conhecê-lo apesar das circunstâncias.
- Sr. Sayid Jarrah!- Sawyer o saudou de volta. Os dois homens apertaram as mãos. – Imagino que o senhor tenha passado por maus bocados. Como se sente?
- Graças à Alá estou bem. A maior parte dos meus homens conseguiu fugir do fogo, mas infelizmente tivemos duas baixas, não pudemos recuperar os corpos mas vou providenciar um funeral simbólico junto às famílias ainda hoje.
Nesse momento, outro homem adentrou a delegacia. Sayid sorriu quando o viu.
- Charles!- exclamou ele.
- Sayid.- Widmore disse de volta. Então atacaram a caravana?
Sayid assentiu.
- Onde está o desgraçado responsável por isso?- falou Widmore olhando na direção das celas.
Sawyer sentiu-se aborrecido por estar sendo ignorado por aquele homem que entrara de repente em sua delegacia e sequer se apresentara. Ele pigarreou antes que Widmore se dirigisse às celas chamando-lhe a atenção.
- Charles, esse é o novo xerife de Dharmaville.- disse Sayid.
- James Sawyer.- ele se apresentou.
- Oh, mil perdões, Sr. Xerife. Eu achei que o senhor se tratava de um dos empregados do Jarrah.-falou Widmore.
Sawyer deu um sorriso cínico, enfatizando as duas covinhas que tinha nas bochechas.
- Talvez a estrela no meu peito não esteja brilhando o bastante. Vou poli-la melhor.
Widmore deu uma gargalhada.
- Vejo que o senhor é espirituoso. Eu gosto disso!
De repente, o prisioneiro na cela proferiu algumas palavras em uma língua desconhecida ao xerife e Widmore, mas Sayid no entanto entendera cada palavra que o homem dissera. A mesma pergunta que ele lhe fizera ainda no acampamento em chamas.
- O que ele está dizendo?- indagou Sawyer.
- Ele está me perguntando aonde está a princesa.
O xerife engoliu em seco.
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Jack ficou impressionado com o curativo que Ana-Lucia fizera no estranho. Ainda havia infecção, mas no geral o homem parecia estar sarando bem. Durante todo o tempo em que o médico o examinara o estranho não proferira nenhuma palavra. Nem mesmo quando Jack perguntou o que acontecera com ele.
Quando terminou de fazer o novo curativo, Jack foi falar com Ana-Lucia do lado de fora da despensa.
- A ferida no abdômen ainda está infeccionada, masestar sarada a senhora fez um bom trabalho. O ferimento no braço está seco e vai estar sarado em alguns dias.
- Verdade?- Ana disse com um grande sorriso. – Fico feliz que ele esteja bem.
- A senhora tem algum treinamento na artes da cura?
- Aprendi algumas coisas com a minha avó. Ana contou.
- Estou impressionado.- disse Jack antes de pigarrear e indagar: - A senhora sabe alguma coisa sobre esse homem?
- Sei que seu nome é Eko, mas ele ainda não me contou da onde veio ou como se feriu.
- Eu aconselho a senhora a contar sobre esse homem ao seu marido o quanto antes. Acho arriscado mantê-lo aqui em sua despensa, principalmente porque a senhora passa muito tempo sozinha na fazenda.
- Doutor Shepard, eu lhe disse que não posso contar ao meu marido porque ele não entenderia o motivo de eu estar ajudando esse homem.
- E por que o está ajudando, dona Ana?
Ana-Lucia pensou em seus motivos. Ela desconfiava que Eko fosse um escravo fugitivo. Apesar da libertação dos escravos nos Estados Unidos ja ter acontecido em meados de 1800 ainda existiam pessoas cruéis, capazes de escravizar seres humanos. Ela mesma tinha sido uma escrava doméstica no bordel de Dom Guimarães.
- Tenho minhas razões, doutor e apreciaria muito se o senhor continuasse guardando meu segredo.
- Está bem.- Jack assentiu. – Mas por favor, tome muito cuidado.
- Tomarei.- Ana respondeu.
- Preciso ir à cidade. Cuide-se, Sra. Sawyer.
- Doutor Shepard?
- Sim?
- Será que o senhor poderia me dar uma carona na sua charrete? Preciso ir à cidade e não estou com vontade de cavalgar. Prometi ao meu marido que o encontraria para almoçar na pensão de Madame Wanzeler.- Ana mentiu.
- Por certo.- Jack respondeu.
Ana-Lucia sorriu. Se Sawyer pensava que ela acreditaria que ele a levaria para ver o prisioneiro cigano, estava muito enganado. Por isso ela faria as coisas do jeito dela e descobriria se o homem na cadeia pertencia ao seu clã ou não.
Continua...
