Capítulo 14
O silêncio das árvores deveriam ser um verdadeiro grito para elfos de florestas, mas Legolas não viu a multidão se aproximando.
Elladan e Elrohir como sempre patrulhavam as bordas de seu reino, mas nesse instante eles estavam inversamente na direção oposta. Legolas não sabia que ele estava no local mais vulnerável.
Por treze semanas Orcs liderados pelo menos estúpido deles estiveram vigiando Rivendell sem descanso. Eles sentiam o cheiro da carne de elfos, mas com a nova poção dada por Saruman, os elfos é quem não notava o odor destas criaturas horrendas. Eles estiveram muito perto. Certa vez quase conseguiram em número de cem, atacar os famosos Elladan e Elrohir, cuja existência parecia se limitar á vingança pela mãe deles. Todos Orcs temiam os gêmeos. Se possível, o líder Orc desejava uma emboscada sem ter de enfrentar a fúria idêntica dos dois filhos de Elrond.
Sauron odiava o Lorde de Rivendell. Ele considerava o famoso Curandeiro um dos responsáveis pela sua queda. Era o país élfico que ele mais atacava, e hoje não era diferente. Desta vez ele tomara as precauções necessárias: os generais e comandantes Orcs enviados desta vez, eram os primeiros cruzamentos de uma experiência de Saruman na tentativa de criar guerreiros chamados Uruk-Hais. As tentativas foram todas frustradas mas ao menos os Orcs agora no comando não morreram. Saruman desejava que eles fossem enormes, fortes, inteligentes e sem medo de dor. Eles deveriam ser opostos aos elfos que eram delicados e ágeis, os Uruks seriam grandes, massivos, e no lugar da agilidade, seriam duros para aguentar a luz do sol, o oposto dos Orcs o que limitava muito a ação para os planos de Sauron, e poderiam correr até a morte, de tanto fôlego que teriam.
O líder dos Orcs observava Legolas e sua boca salivava. Embora sem muita carne, os elfos pareciam ser deliciosos e algo no interior dele fazia com que ele se sentisse atraído aos Primeiros da Criação. Este era mais belo do que qualquer outro elfo que ele tivera a chance de ver, não que isso lhe interessasse. Mas a idéia de poder torturá-lo, de vê-lo gritar e poder desfigurar sua forma tão perfeita quase o deixava louco. Ele babava porque queria fincar suas presas manchadas de marrom naquela carne, queria poder devorar o elfo vivo mas começando por partes do corpo que não o matassem, para poder vê-lo agonizar por dias. Ele jamais pudera experimentar ainda, mas fantasiava que o sangue élfico era o mais saboroso de toda Arda.
Ao ver como os outros elfos atiravam suas flechas, ele gargalhou em silêncio. O tal belo elfo era claramente um guerreiro nato, pelo que ele vira. Mas os outros...estes seriam fáceis demais de submeter à suas malícias. Ele olhou para trás, para os Orcs burros e pestilentos atrás dele e viu que todos babavam também. Ele daria alguns dedos élficos para estes mas ficaria com o professor. Seus outros companheiros também meio Uruks, meio Orcs teriam que juntos, controlar os Orcs, que pensavam mais com o estômago do que com a cabeça. Ele deu uma última olhadela com desgosto à sua companhia fedida e se voltou para uma visão mais bela.
Em seu coração ele também invejava os elfos. Eles pareciam felizes e continham uma luz que o ofuscava e também o irritava sem limites. Por isso queria torturar um. Como seria ver a luz ir se apagando, enquanto lentamente, dia após dia ao arrancar um dedo, uma mão, uma perna e ver o elfo beirando a loucura para finalmente cair em um abismo de fogo? Seu corpo se estremeceu ao imaginar o professor louro, não muito distante dele tornando-se lenta e gradativamente louco. Ele então traria o elfo atormentado, em pedaços e depositaria em um lugar para Elrond encontrá-lo. O Lorde que aos olhos dos Orcs era arrogante e se achava mais importante do que o próprio Sauron então teria mais uma vez a bela visão de um elfo torturado, assim como há centenas de anos atrás ele testemunhara Celebrian quase à morte. Sauron mal podia esperar para ver seu rival sofrer de novo. Ele dera cabo de Isildur, agora era a vez de matar Elrond devagar. Seu ódio ao mundo dos Homens, aos reinos de Lothlórien e Mirkwood nem se comparavam com o que ele queria fazer com aquele que sucedeu Gil-Galad.
A figura magra estava de costas, tão perto dos arbustos na qual os Orcs estavam escondidos. Com um sorriso que pingava saliva, horrendo e torto, o líder se virou para os Orcs. Era o sinal que todos esperavam.
Com um grito assustador eles avançaram.
Os olhos azuis se arregalaram, e Legolas virou-se depressa, fazendo seus sedosos cabelos caírem em seu rosto, tampando um pouco sua visão.
Ele já havia visto Orcs antes, mas o primeiro pensamento que lhe passou na mente foram seus aprendizes. Com um desespero que quase lhe tomara por inteiro, Legolas largou seu próprio arco e num movimento impossível de acompanhar para olhos humanos, ele sacou suas facas longas e gêmeas; um dos últimos objetos que lhe restavam de seu antigo lar.
Não dava tempo para acertá-los com flechas. Ele olhou em volta e parecia que todos os Orcs do mundo estavam lá. Certamente havia centenas deles. Legolas passou sua faca pelo pescoço de um. A luta não seria justa pois enquanto ele dava cabo de uma criatura nogenta, ele sentiu o punhal de outra espada entrar em contato com suas costelas, a dor quase tirou-lhe todo o ar e mesmo curvado ele atacou seu agressor, enfiando sua arma bem nos olhos dela. Ele constatou a terrível verdade de que o sangue Orc era quase preto, e este jorrou em seu rosto.
Enojado, Legolas viu um novíssimo elfo, um de seus estudantes ao longe. Sem se importar com a própria vida, ele correu em direção ao rapaz, quase uma criança e encostou suas costas á dele.
-Fique perto de mim! - Ele gritou.
Ele ouviu o tinir metálico e ficou aliviado que o jovem tentava se defender, ou ao menos oferecia resistência.
Seu alívio logo se esvaiu quando ele ouviu o outro gritar, ferido. Legolas fez o que sabia não ser bom, mas se voltou. Ele deu as costas ao inimigo quando ele estava próximo demais, mas se tivesse que escolher entre as duas vidas, a de seu aluno era bem mais importante. Seu adversário enfiou a lâmina comprida de sua espada na parte de trás de sua perta. Legolas gritou mas não se voltou. Ele viu que seu aluno fora ferido mortalmente abaixo do ombro, quase no coração e havia ido ao chão. Ele segurou um golpe vindo para cima do pescoço de seu protegido, depois outro e assim ficou por um tempo, até que ele se acostumou um pouco com a dor e se levantou de novo.
Legolas ignorou sua perna machucada e se pôs em pé novamente. Ele se tornou apenas uma mancha entre os Orcs, fatiando gargantas e acertando apenas um golpe mortal entre eles, achando que deixou seu aluno à salvo e saindo à procura dos outros. Ele viu um de seus alunos, um dos dois terrivelmente ruins com arco e flecha, morto no chão. Seus olhos verdes envidraçados, fitando a imensidão do céu com uma expressão de horror. Legolas quase gritou de desespero.
As lágrimas caíam pelo seu rosto. Ele alcançou outro aprendiz e o defendeu, este estava todo ensanguentado e Legolas se apavorou, mas precisou continuar.
Ele lutava como um animal cercado. Uma flecha, vinda de algum lugar que ele não pode ver, acertou-o no ombro. Legolas nem gritou mas a dor era quase insuportável. Apenas a fervente vontade de salvar seus pupilos o fez continuar em pé. Os Orcs já estavam com medo dele, alguns mesmo com um número maior cercando o elfo, recuavam quando ele os olhava. O professor parecia um ser de outro mundo, e era poderoso demais, ágil demais, rápido além da conta.
-Não hesitem, seus idiotas! - O líder gritou furioso. Mas viu como seus comparsas temiam a criatura. E decidiu dar cabo dele sozinho. - Deixem ele comigo!
O líder se aproximou e sentindo a consciência querendo se esvair, Legolas encarou-o altivo, com uma força que ele não possuía mais. Ele se manteve ereto embora tudo o que seu corpo parecia querer fazer era cair no chão.
Então o líder atacou. Legolas não conseguia contra-atacar, apenas se defendia dos golpes. Ele sentiu quando a arma do líder, algo tão diferente das espadas Orcs, entrou em seu braço. Ele não gritou novamente, mas as lágrimas de dor caíram.
O Orc, confiante com o que conseguira, e vendo tantos ferimentos no elfo, se aproximou ainda mais no ataque, deixando sua guarda baixa. O cheiro do sangue da bela criatura era enlouquecedor. Tudo o que ele queria fazer era parar a luta e lamber todo o líquido vermelho que saía de Legolas. A fome estava distraindo-o.
Foi quando Legolas fez o que ele não esperava. Ele nem viu o elfo alcançar a arma secreta as suas costas, nem deu tempo de ver quando a flecha ia entrar bem no meio de seus olhos. A escuridão o tomou e junto com ela, uma dor insuportável.
Legolas ofegava e não conseguiu mais ficar em pé, caindo de joelhos no chão. Sua mente queria levá-lo à seus alunos. Ele já os amava, mas seu corpo não se movia. Ele sentia a escuridão se aproximar. Tudo estava gelado, os sons à sua volta tão baixos, ele estava prestes à desmaiar.
Ele viu então o mundo subir e percebeu que sabe-se lá de onde encontrara forças, por um milagre, ele estava em pé novamente. Mas ele não conseguia correr, ele andava lentamente em procura de seus estudantes.
Ele duelou com dois, três, nove, quinze Orcs de uma vez. Uns recuavam com medo da criatura que deveria estar morta, mas ensanguentada, ainda vinha em sua direção. Outros confiavam na aparência morta-viva do elfo e atacavam confiantes. Então Legolas sentiu suas costas serem perfuradas e não houve mais nada que ele pode fazer. Ele não estava mais acordado quando caiu ao chão, e não sentiu quando seu nariz quebrou.
*
Enquanto ensinava seu grupo de alunos, Haldir 'ouviu' o silêncio das árvores. Ele olhou diretamente para elas. Satisfeitas de terem chamado sua atenção, elas então disseram em uma única canção: 'Eles chegaram'.
Haldir estava com as mãos nos ombros de um aluno, guiando-o para uma melhor pontaria com o arco e flecha, e seus braços caíram ao longo de seu corpo.
-Não larguem suas armas, mas corram e avisem Lorde Elronde que Imladris está sendo atacada.
Todos os respeitavam e o admiravam, e ninguém questionou suas ordens. Mas todos olharam em direção aonde Haldir olhava e não entenderam porque ele parecia estar vendo alguém na floresta que eles mesmos não podia enxergar.
Haldir correu como se sua vida dependesse disso. Em seu coração ele já sabia que algo terrível acontecera com Legolas. Seu protegido havia levado um pequeno grupo de estudantes para o campo vazio. Haldir se preocupara mas fora dito que Imladris tinha patrulhas para todos os lados. Ele mesmo já participara inúmeras vezes e sabia ser seguro, mas justo hoje talvez algo dera errado.
Foi exatamente isso que ele descobriu. Ele chegou em tempo à ver Legolas ser mortalmente atingido. O tempo pareceu parar, mas lutando contra as próprias reações de seu corpo, ele começou à lançar flechas. Ele continuava à correr enquanto o fazia, se aproximando do grupo ameaçador de Orcs. Quando estava próximo o suficiente, ele empunhou sua espada e começou o combate corpo à corpo.
Glorfindel saltou em seu cavalo e um grupo com mais de cinquenta elfos, armados com arcos e flecha, adagas e espadas o imitaram. O estrondo dos cascos de cavalos fizeram o chão tremer. Á muito tempo os guerreiros não se uniam com tanta urgência. Elrond observou-os partir, seu rosto possuía calma, algo que era imensamente inverso ao que ele sentia por dentro.
-Ada? - Aragorn perguntou atrás de seu pai adotivo.
Elrond esquecera-se de responder a pergunta. Ele se voltou para Estel e Arwen que aguardavam atrás dele.
-Não Estel, você não pode ir com eles.
Aragorn pareceu ofendido mas não respondeu. Respeitava demais seu pai para isso. Elrond viu o ligeiro brilho de raiva que passou por seus olhos antes que ele abaixasse-os.
-Porque eu quero que vocês dois vá avisar os gêmeos.
Mais animado, os dois se afastaram. Estel e Arwen foram alcançar seus cavalos:
-Pensei que ele não confiava em meu treinamento com a espada, - Estel confidenciou.
-Ada apenas precisava que alguém fizesse isso, - Arwen apertou-lhe o braço.
Cada um pegou seu cavalo e cavalgou até certa distância juntos, até que se separaram para encontrarem Elladan e Elrohir mais rápido. Com os gêmeos, havia um exército com centenas de elfos.
E eles estavam patrulhando o lugar errado.
Quando Glorfindel alcançou o campo onde Legolas foram naquela manhã para um simples treino, ele mal pode acreditar no que seus olhos viram.
Com agilidade ele saltou de seu cavalo. Vendo um dos alunos de Legolas, milagrosamente ainda vivo, ele gritou:
-Pegue o cavalo e fuja!
Os outros guerreiros fizeram o mesmo conforme foram encontrando novos sobreviventes. O resto usou a força dos cavalos para penetrar no mar de Orcs. Com a ajuda dos animais eles tiveram vantagem contra aquele terrível mal e muitas criaturas horrendas sucumbiram ao serem pisoteados. Os elfos que vinham chegando naquele momento aproveitaram a distância para atirarem flechas. Os Orcs iam morrendo, um atrás do outro. Mas seu número ainda era maior do que os elfos.
Cavaleiros da primeira Raça à pisar a Terra-Média foram acertados sob seus cavalos e foram ao chão. Haviam Orcs em cima das árvores e Glorfindel não havia pensado nisso. Não podia sequer imaginar... porque Orcs jamais faziam isso... eles não possuíam cérebro. Ali estava a pergunta que o atormentaria por um bom tempo. Estariam as terríveis criaturas evoluindo?
No chão Glorfindel lutou sem ser atingido. Os Orcs que o reconheciam corriam para outro lado. Se este elfo fora capaz de acabar com um Balrog, que chance eles possuíam.
-Cerquem aquele elfo! - Gritou um dos últimos Uruk-Orcs sobreviventes.
Glorfindel não deixou de notar que este era diferente, levemente mais belo do que um Orc comum, um pouco maior e pelo jeito possuía um pingo de inteligência. Logo ele se viu cercado e seus soldados também vieram acudi-lo, fazendo um círculo para servir de escudo para ele:
-Podem deixar, eu dou conta deles. Procurem por Legolas, - ele disse calmamente.
-Ah, o famoso Glorfindel, talvez mais arrogante que o próprio Elrond, - o novo líder Uruk disse.
-Venha me enfrentar, - Glorfindel disse calmamente.
A luta não durou muito. Glorfindel se defendeu somente uma vez, e seus golpes acertavam o Uruk que possuía uma técnica inferior. Os Orcs restantes viram o útimo líder sucumbir e fracamente tentaram oferecer resistência, mas também foram exterminados pelo incrível guerreiro. Alguns Orcs corriam como se tivessem visto o Valar, gritando numa cena cômica. Outros nem queriam saber do que eles corriam, e o seguiram. A fama de Glorfindel entre os Orcs iria aumentar dali em diante.
Mas muitos Orcs ainda restaram. Eles preferiam morrer em batalha do que enfrentar a fúria de Sauron. Mas estes sucumbiram quando liderados por Elladan e Elrohir, um verdadeiro exército de cavaleiros élficos chegaram. As flechas voavam ás centenas e Orcs não paravam de cair. Por fim todos estavam feridos ou quase mortos, e os elfos, mais por compaixão do que por vingança, terminavam por matar quem sobrevivera com um certeiro e rápido corte no pescoço.
O campo cheirava morte e o fedor era insuportável aos elfos e seus cavalos.
À seu lado, Aragorn viu Arwen muito pálida, parecia querer vomitar e ele massageou-lhe suas costas. Ela tinha alguns pingos de sangue negro em seu rosto e vestido pois lutaram também.
Elladan, Elrohir, Glorfindel e outros elfos procuravam freneticamente por sinais de Legolas.
-Parece que Legolas estava ensinando aqui hoje, - Arwen comentou ao olhar indagador de Estel.
Aragorn claramente empalideceu e em instantes estava lá junto com os elfos à procura.
-Por que ele estava tão longe? - Ele indagou furioso.
-Esta foi minha culpa, - Glorfindel explicou. - Todos os terrenos estavam sendo usados antes e deixei que Legolas escolhesse onde iria lecionar hoje. Havia outros lugares mais pertos mas acho que ele não conhece Valfenda tão bem quanto eu imaginava.
Aragorn baixou os olhos para não mostrar a raiva irracional que passou por ele e continuou procurando uma cabeça loura embaixo dos corpos negros dos Orcs.
-Aqui general! - Um elfo gritou.
Glorfindel correu até onde foi chamado, vendo o elfo erguer o corpo de uma cabeça loura mas ao virar o corpo viu que não se tratava de Legolas, mas Haldir.
-Por Valar! - Ele disse, ajudando à outros carregarem o corpo até um cavalo. Um soldado pulou atrás de Haldir e o abraçou, inclinando o corpo contra o seu para melhor segurá-lo.
-Ele está vivo senhor, - o elfo disse.
-Leve-o depressa. - Glorfindel ordenou com urgência. - Leve de seis à dez soldados com você, caso esta tenha sido uma armadilha e mais Orcs os esperem no caminho.
Eles foram encontrando mais alunos de Legolas, e infelizmente não havia qualquer sinal do Príncipe. Eles constataram que de sete de seus alunos, seis estavam vivos. Glorfindel pôs sua grande mão no rosto do jovem elfo e uma lágrima escorreu pelos seus olhos azuis. Ele conhecia este menino. Seus pais relutaram o desejo do garoto em se juntar à defesa de Rivendell, e o próprio general sabia que ele não possuía talento algum. Ele o vira cantar e tocar a arpa em algumas reuniões no Salão do Fogo e esperava apenas que o elfo reconhecesse que nascera para as artes da música, e não da espada. Mas cedo demais Mandos reclamara sua alma.
-Eu sinto muito, - ele sussurrou.
Glorfindel decidira naquele dia que jamais permitira um jovem sem talento à se juntar ao exército. Que eles lidassem com a rejeição.
Apenas meia hora depois, quando o cheiro fazia seus estômagos revirarem, eles encontraram Legolas.
Ele parecia terrívelmente morto. O Príncipe parecia ter sido ferido por todo seu corpo, ele estava quase completamente coberto de sangue e apenas após encostar sua orelha pontuda sobre o peito de Legolas que Glorfindel constatou que ele ainda estava vivo.
O próprio lendário guerreiro tratou de levar o Príncipe de volta. Mas ele não foi à frente. Elladan e Elrohir lideravam o grupo. Os outros cavaleiros empunhavam arco e flecha, elfos conseguiam cavalgar segurando-se somente com suas coxas e assim não baixavam a guarda. Havia algo estranho naquele ataque. Glorfindel silenciosamente desejava que Elrond não tivesse mandado todo mundo para as bordas, que como ele também suspeitasse agora que aquilo fora uma armadilha talvez para que as moradias estivessem sem defesas.
Mas seu medo foi infundado, primeiro ao encontrar dezenas de guardas protegendo a Casa de Elrond, eles estava em toda a volta. Segundo porque Elrond já cuidava de Haldir lá dentro:
-Você precisa cuidar de Legolas primeiro. - Ele disse.
-Eu já o examinei e fiz tudo o que podia. - Elrond respondeu. - Pelo Valar, não sei porque aquele menino precisa passar por tantas provações.
-Ele não é mais um menino, meu caro Lorde. Sozinho ele defendeu quase todos seus alunos. Constatei isso quando o encontramos. Thranduil pode ter tratado-o como a pior das criaturas, mas Legolas é uma relíquea. - Ele disse emocionado. Elrond consentiu, sentindo o mesmo. - Ele é nobre de coração e é um grande guerreiro.
-Não podemos perdê-lo. - Elrond disse com um olhar distante. - Ele ainda precisa ser feliz.
*
Era noite e a ala hospitalar estava na penumbra, iluminada apenas pela luz da luz que vinha de fora quando Estel entrou no quarto. Ele viu que Haldir dormia, na outra cama, estava Legolas.
Ele se aproximou e tomou a mão magra e pálida nas suas. As lágrimas caíram e ele sentia um remorso incontrolável.
-Esmmm - Legolas murmurou.
-O que disse, meu amigo? - Aragorn indagou emocionado.
-Estel - foi apenas um sussurro.
Aragorn caiu de joelhos no chão, e encostou sua testa à mão fria do elfo. Ele chorou por muito tempo, murmurando pedidos de perdão à Legolas.
No terceiro dia, Legolas despertou. As palavras de Estel foram ouvidas e apenas o espírito de Legolas se lembrava delas, e isso lhe deu forças para despertar mais depressa. Ele viu Haldir sentado, com uma bandeja no colo e este lhe sorria encantadoramente.
-Lass! - Ele disse contente.
-Haldir? - Legolas indagou surpreso. - O que aconteceu?
-Você e seus alunos foram atacados, as Árvores falaram comigo Lass. Eu fui lá e pensei que você tivesse morrido.
-O que aconteceu com meus alunos? -Ele indagou temeroso.
-Foi foi muito bravo. Estou muito orgulhoso de você. Você os defendeu... - Haldir disse mas Legolas sabia que ele escondia algo.
Um mês depois, apesar da insistência de Elrond, Legolas já estava fora da cama. Tudo ainda doía e ele desconfiava que essas dores o acompanhariam por todos invernos. Ele tivera cortes profundos demais, venenosos e isso era terrível quando em carne de elfos.
Ele seguiu até a casa do aluno que ele não soube defender. Para sua surpresa eles o receberam com amor e gratidão.
Legolas estava cansado disso. Toda a Imladris o tratava como heróis. As pessoas levantavam suas cabeças quando ele entrava no salão e por isso muita vezes ele comia em seu quarto, aceitando somente a companhia de Haldir.
Sua ânsia, tanto do coração como corporal por Estel diminuíra levemente, tornando-se suportável. Tanto que das últimas vezes que o humano batera em sua porta, tão tarde da noite, ele não abrira. Eles precisavam conversar antes.
Num dia bonito, enquanto Legolas estava sentado numa rocha com arco e flecha, fazendo parte da patrulha do norte, ele sentiu um frio percorrer sua espinha quando reconheceu imediatamente o cavaleiro que vinha vindo pela estrada ziguezagueante: aquele era um mensageiro de Mirkwood.
Ele levantou-se depressa e correu a metade do caminho.
-O que você está fazendo aqui? - Ele indagou ao se aproximar do outro elfo. - Aconteceu alguma coisa com meu pai?
-Não alteza, -disse o mensageiro, surpreendendo um pouco Legolas pelo uso do título. - Seu pai... ele vive. Mas há um problema grave que é preciso ser do conhecimento de Lorde Elrond antes que seja tarde demais.
Legolas saltou no cavalo atrás do outro e eles cavalgaram até onde o Príncipe o guiou até o escritório do Líder de Imladris.
Legolas se curvou ao apresentar o mensageiro, e voltou-se para sair:
-Não Legolas. - Disse Elrond. - Fique.
Legolas olhou-o surpreso quando o mais velho sorriu:
-Tenho total confiança em você, como se fosse um de meus filhos, ou Glorfindel ou Erestor. E este elfo vem de Mirkwood, qualquer assunto de lá poderá lhe interessar, eu acredito.
Legolas fez um movimento de cabeça, agradecido e voltando-se, sentou-se ao lado do visitante.
-Por favor, pode começar, - Elrond disse enchendo uma xícara de chá aromático para o mensageiro.
-Obrigado, senhor. É com grande lamento que meu Rei Thranduil lhe trás esta mensagem. Há pouco mais de meio ano atrás, Mithrandir chegou com um fardo atrás de si, amarrado por uma corda. Uma criatura terrível em medo e sofrimento, e não fácil de se olhar. Ele se chama Gollum e é aquele que ficou com o Um Anel por centenas de anos. Ele confiou em nossos calabouços para que trancafiássemos a criatura e o interrogou.
Como a criatura não tomava sol há tantos meses, foi decidido entre nosso general que ele fosse amarrado à forma como Mithrandir o trouxe e que se deixasse que entrasse em contato com nossas Árvores, tão benéficas para os seres vivos. Mas de alguma forma um plano havia sido arquitetado, e Gollum sabia sobre tal pois naquele fatídico dia Orcs vieram resgatá-lo. Ele havia subido ao topo de uma árvore, e quase não houve luta. Não imaginamos como Orcs de Sauron poderiam armar tamanho plano, não possuíam inteligência até então e isso por todos estes longos milênios, mas eles conseguiram nos enganar, e o levaram.
Elrond pensou por longos minutos. Legolas tinha seus pensamentos em seu pai, na qual ele já havia percebido, ele ainda amava. Ele não sabia nada sobre a criatura ou porque ele jamais vira Elrond tão preocupado mas imaginava que o Lorde lhe contaria tudo quando o mensageiro se retirasse.
-Desculpe, estive perdido em meus pensamentos. - Elrond disse depois de um bom tempo enquanto estivera com o olhar distante. - Vou fazer um conselho para discutirmos este problema, acomode-se e descanse o quanto tempo precisar aqui. Mas ao fim de sua estadia, leve à seu Rei a mensagem de que Imladris caiu em um plano bem elaborado de ataque por Orcs. Nós também constatamos que eles estão mais inteligentes do que nunca mas Glorfindel deu uma olhada em tal líder de raciocínio superior e constatou que não só isso mas seus corpos também são diferentes. Eu tenho uma teoria mas esperarei Mithrandir vir visitar à nós também para ter certeza. Eu desconfio dos Maia, pois tal arte de cruzamento e magia só poderia vir deles. Se algum deles uniu forças com Sauron, talvez tempos negros virão. Os Orcs já dão trabalho o suficiente para nós, não precisamos que ainda sejam inteligentes.
Avise-o. Fale para Thranduil se precaver. Diga para que não deixe sua morada desprotegida, não importa quantos Orcs ou aranhas estejam atacando as fronteiras.
O mensageiro estava pálido. Os elfos de Mirkwood queriam acreditar que tudo se tratou de uma coincidência, mas agora ter comprovada a elevação de grau de inteligência Orc faria com que a vida negra em Mirkwood se tornasse ainda pior.
-Eu sinto muito, - Elrond disse lendo-o completamente bem.
O elfo se ergueu e com uma reverência respeitosa, se retirou. Um elfo à entrada que esperava do lado de fora o levou até seus aposentos.
Elrond então pôs-se à explicar à Legolas toda a história do Um Anel. Ele se surpreendeu de novo como um Rei deixou seu próprio filho longe desse conhecimento perigoso, coisa que ao menos os elfos deviam saber pois sem eles o Um Anel poderia ser esquecido e não sendo destruído, isso não era permitido. Ele viu o pobre Príncipe se chocar com a história, mas então quando tudo foi absorvido um olhar de maturidade se fez e ele viu Legolas amadurecer ainda mais, bem em frente à seus olhos.
-Agora quando se retirar, por favor traga Estel pois ele precisa saber sobre sua linhagem e sobre sua missão. Por mais que eu quisesse proteger meu filho, esta verdade esteve apenas aguardando para ser revelada.
Quando Legolas bateu a porta de seu amante, foi com o coração apertado que ele passou o recado que seu pai o esperava. Mas ele o fez casualmente para prolongar a ignorância de Estel por mais um tempo.
-Mas antes precisamos conversar. - Aragorn apertou seu braço. Havia um fogo em seu olhar e Legolas se desvencilhou.
-Está bem Estel, mas antes fale com seu pai.
Legolas foi dormir junto com as árvores para não ter que cumprir o prometido. E fez o mesmo durante semanas, até que todos recados foram enviados, até que Gandalf, representantes de Anões, Homens e até estranhas criaturas chamadas Hobbits chegassem à Última Casa Amiga. Aragorn estivera ausente durante esse tempo. Parece que seu amante fora ele mesmo garantir que tais Hobbits chegassem à Imladris.
Durante esse tempo Legolas refletia sobre a decisão que pensava em tomar.
E quando o Conselho de Elrond se deu, ele se voluntariou para salvar o mundo. E representou a raça dos Elfos.
*
O caminho era tortuoso. Eles mal tinham esperanças de concretizarem o plano. Frodo era tão pequeno e estava nas mãos de tal pequena criatura à enfrentar Sauron de frente. Enquanto exércitos, raças e até países unidos tentaram sem conseguir, como poderia apenas um Hobbit exterminar tamanho mal da Terra-Média? Esse mal sempre existiu, primeiro na forma de Melkor para então seu aprendiz o suceder e ainda ser tão temível quanto seu mestre, se não ainda mais do que ele.
A Sociedade do Anel foi criada e permaneceu forte, e então Mithrandir caiu. Legolas escondia o desespero em uma falsa expressão de tranquilidade. Cada um deveria fazer sua parte e Legolas analisava todas suas atitudes durante as inúmeras noites que ele se ofereceu para vigiar o acampamento. Ele era quem menos dormia.
A amizade entre ele e Aragorn cresceu e ele não mais o chamava de Estel. Aragorn ainda queria continuar o que eles começaram na bela Rivendell, mas Legolas negava. Ele sofrera demais com a rejeição e quando quisera conversar, Estel o ignorara. Ele não o fazia para se vingar, algo simplesmente mudava dentro dele. A missão à sua frente tomava tanto tempo de seus pensamentos que ele mal podia se analisar. As poucas horas até o amanhecer pareciam muito pouco para Legolas.
Ele observava como Aragorn parecia carregar o peso do mundo em suas costas, principalmente depois da queda do mentor, mestre, da luz da Sociedade. Sem Gandalf, Legolas questionava ainda mais onde estava a esperança de serem sucedidos. Ele viu e admirou Aragorn tomar seu papel como líder e vivê-lo muito bem. O humano era forte. Ao deixar a responsabilidade para o Mago, Estel parecia quieto e apenas um seguidor. Quando ultrapassaram Moria o homem mostrara-se quase insensível para a morte do Istar. Ele os liderou para Lothlórien onde eles falaram com a Senhora da Luz. Seus corações se curaram um pouco do luto, mas aquela dor permaneceria para sempre. Todos amavam Gandalf.
Legolas ficou com os de sua raça, os elfos em sua estadia nos bosques dourados, mas ao mesmo tempo ele levava Gimli consigo e incrivelmente e talvez pela primeira vez, um Elfo virou amigo de um Anão. Ele se lembrava do tal de Glóin. Esse era o motivo maior da desavença de Gimli para com ele: Thranduil prendera o pai do Anão quando este inocentemente andara em terras de Mirkwood. A situção não poderia se tornar mais irônica mesmo que tentassem.
Ele sabia que durante toda a estada no reino de Galadriel Estel o procurou, e esse foi um dos motivos pelo qual ele só retornou na última noite antes da partida, para um festivo jantar de despedida. E também porque desta vez haveriam muitas pessoas.
Estel jamais encontrara outra chance de conversar com o Elfo às sós.
Boromir traiu a Sociedade, seus amigos. Foi apenas un deslize. Momentâneo, mas o suficiente para fazer Frodo tomar coragem e ir embora dali, coisa que ele sabia dever fazer muito antes. Por sorte ele não foi sozinho e Sam lhe fez companhia. Legolas se viu desesperado com como a situação se desenrolou e se desconfiava que Os Nove não chegariam vivos em Mordor, dois minúsculos Hobbits sozinhos parecia ser a declaração de que eles haviam sido derrotados.
Por um lado foi uma sorte que eles tivessem que resgatar Merry e Pippin. Eles estavam sempre poupando os Hobbits por não serem maiores do que crianças - diferente dos Anões que eram fortes, robustos e adoravam uma guerra - e por descuido dos mesmos é que os pequeninos foram pegos. Isso não deveria ter acontecido de jeito nenhum mas então o Elfo se viu percorrendo terras sem fim com o Anão e o Homem, atrás de um grupo de Uruk-hais. Ele se lembrou imediatamente da semelhança com aquele líder que quase foi o seu fim em Rivendell. Eles pareciam aperfeiçoados, melhores versão de Orcs.
Eles jamais recuperaram Merry e Pippin, mas reencontraram Mithrandir. Ele estava mais poderoso do que nunca e podia agora ver mais longe. Mithrandir não estava mais com eles, mas em busca de ajuda quando Legolas, Gimli, Aragorn e todos os Rohirrim que restaram e Meduseld lutaram contra dez mil Uruk-hais. Tais guerreiros aperfeiçoados pela perversidade de Saruman eram o pesadelo vivo para Legolas e Estel, que foram os primeiros no mundo à verem aquelas abominações. Saruman trabalhara rápido, eles jamais esperaram que tamanho número tivesse sido criado. Aragorn os vira e isso dera um pouco de tempo para eles se prepararem para a guerra.
Á todo o instante no Abismo de Helm, Legolas procurava por Aragorn. Ele deveria dar sua vida ao homem para que o mundo tivesse uma chance. Os elfos estavam partindo e se eles não ajudassem à aniquilação do mal, então não haveria lugar para Hobbits, Anões e Homens coexistirem.
Era um juramento silencioso: proteger Aragorn. Gimli também o fizera. Durante a batalha Elfo e Anão fizeram de tudo para protegê-lo. Isso fez ele se afeiçoar ainda mais à Gimli.
Quando a batalha sangrenta, ensurdecedora terminou com Gandalf trazendo Éomer e toda a ajuda possível, Legolas se viu em meio à crianças rohirrim mortas e ele chorou, cantando um lamento élfico para almas que partem. Tão pequenos, inocentes e partindo para o mundo desconhecido dessa forma... Quanta crueldade vê-los brandir espadas maiores que seus corpos. Que terrível ver o medo nos olhares daqueles pequenos humanos. Se isso tivesse acontecido em reinos élficos as crianças teriam sido mandadas para além do mar. Os homens não possuíam tal escolha. Eles também não eram imortais, essas crianças e suas mães não tinham o consolo em saber para onde iriam, quem os receberia em sua morte. Era como se suas almas fossem para a escuridão e quem ficava precisava sobreviver sua ausência. Legolas chorou pelas crianças, a inocência perdida, por suas mães... Quando Aragorn o encontrou e o abraçou, ele despejou algumas lágrimas em seu ombro. O homem acariciava sua cabeça com carinho e assim que se recompôs Legolas se afastou, e não permitiu ser seguido.
Naquela fatídica tarde, após quatro dias sangrentos, Legolas parou em outro ponto cheio de corpos, decidindo ali demonstrar seu respeito pelos que se foram e sabendo que não seria mais interrompido pelo humano. Após três canções um pensamento inesperado tomou-lhe a mente, e ele se viu ansiando pela presença de Haldir. Isso sempre acontecera, durante toda sua vida quando passava por dificuldades e medos, mas desta vez era diferente. Ele via imagens de certa vez quando ele era pouco maior do que uma criança. Legolas estivera atrás de seu protetor pois sabia que o Guarda Real havia terminado seu expediente. Ele foi para o talan onde sabia que Haldir morava e então ouviu sons de água próximos ali. Mais uma vez ele olhou para o topo da árvore e teve a sensação de que Haldir não estava em casa, então foi seguindo seus ouvidos ao som de água espirrando.
Haldir saía do rio naquele instante. Ele estava completamente nu. Seu cabelo escorria em duas mechas sobre seus ombros, pingando. Seu corpo era bem torneado e sem jeito, Legolas correra dali depressa para escalar ainda mais rápido o talan.
Mas então de volta ao Abismo de Helm a imagem causava-lhe calafrios e somado à falta que Haldir lhe fazia, ele franziu a testa, completamente confuso.
Ele notava agora que se afastara de Haldir por causa de Estel. Se seu protetor soubesse do que ele estava fazendo com o humano talvez ele se enfurecesse. Ele sempre soubera disso. E agora ele via que tomara a decisão errada.
Após desejar que todas aquelas almas, infantis, jovens e até as velhas encontrassem os Salões de Mandos dos Homens, Legolas se foi para dentro do forte. As pessoas se preparavam para retornar à Meduseld, e intrigado com o rumo de seus pensamentos, ele se sentou em uma cadeira feita de pedras que ficava sempre presa ao chão. Ele observava os campos onde apenas horas antes tudo o que se podia ver eram Uruk-hais.
Após analisar suas próprias atitudes e decisões idiotas que sempre tomou na vida, ele percebeu que após se sentir útil, ter sua auto-confiança e certa dose de autoestima, ele deixara de precisar por pessoas como seu pai ou Estel. Sem saber de seu próprio valor e sentir-se como o câncer que seu pai dizia que ele era, Legolas sempre aceitara ser mal tratado. Hoje tudo o que ele queria era estar perto de Haldir: aquele que fizera - tudo - por ele. Ele não teria sobrevivido sem seu protetor. Aquele que o salvou de todas as formas possíveis.
Uma lágrima escorreu quando ele imaginou se Haldir não ficara magoado com a primeira coisa que Legolas fez ao começar à morar em Valfenda: se afastar dele.
Que ingrato ele fora!
Legolas queria sobreviver. Ele precisava agradecer Haldir, e mais ainda: pagar o que lhe devia. Ele sentiu-se pequeno em comparação ao seu antigo protetor e mentor. Haldir sempre fora nobre onde ele não era, era forte onde Legolas fraquejava e pensando no quanto o Príncipe já temera, fugira e sentira pena de si mesmo, era um milagre que Haldir jamais perdesse a paciência com ele e o abandonasse. Durante mais de dois mil anos, Legolas fora somente um fardo.
Não mais.
*
Contra todas as estimativas, eles foram abrindo caminho nos obstáculos. Talvez isso se dera somente porque eles não desistiram. Legolas seguiria e protegeria Aragorn até os portões de Mordor se fosse preciso, e foi isso mesmo que aconteceu.
O futuro Elessar tinha uma decisão à tomar e quando ele escolheu ir até Mordor, Legolas não pensou duas vezes para segui-lo. Gimli é claro, heróico e corajoso, também não foi embora. Nesse ponto Elladan e Elrohir vieram trazer-lhe Narsil, reforjada e perfeita após três mil anos. O último que a usara fora Isildur e todos observaram admirados Aragorn empunhá-la e não podia estar mais claro que ele era o dono da espada por direito. Elladan e Elrohir trouxeram também a bandeira de Gondor, feita por Arwen e Legolas viu Aragorn tocar em seu pingente, e sua desconfiança de que aquele era um objeto feminino, mas mais do que isso, que havia alguma coisa intangível entre ele e Arwen, se confirmaram. A bela Estrela da Tarde não parecia tratar Estel da forma como lidava com os gêmeos.
Legolas sentiu uma dor no coração mas perguntava-se se tratava de ciúmes ou ela era causada por ter sido enganado. Se ele fora um mero brinquedo para Estel, hoje as coisas eram diferentes. Desde que ele quase morrera para salvar seus alunos, que só cresceram em número depois do incidente, Aragorn e toda a Imladris respeitou-o ainda mais.
A chegada dos irmãos que estiveram sempre ao lado dele pareciam ser a força que faltava para Estel. Legolas sentiu alegria em ver o futuro rei de Gondor, com sua vestimenta exibindo a Árvore Branca da esperança em seu peito. Embora todas suas esperanças negativas não tenham sido concretizadas - a de que era uma questão de tempo para que apenas Nove da Sociedade do Anel fossem derrotados - Legolas agora sentia-se quase como morto, como bois que vão ao matadouro derrotados sabendo que suas cabeças cairão em alguns instantes, ele também não podia deixar de admirar aonde haviam chegado. Vencer o inacreditável número de Orcs nos campos de Pelennor para ele fora um milagre. Se ele achou que morreria nos Abismos de Helm, ele tinha certeza que sucumbiria em Pelennor. E agora seguindo para as portas do próprio Mordor, sua certeza era absoluta de que eles caminhavam para o fim.
Nem Gandalf sabia se Frodo vivia. Legolas acreditava que não. E ele admirou e amou - não da forma como achou que amara - Aragorn. De toda a dor que o Homem lhe causara, Legolas o perdoava simplesmente por isso. O futuro Rei de Gondor ia para sua própria derrota, deixando para trás os fracos de espírito e arriscando tudo para simplesmente servir de distração para Frodo. Legolas olhou em volta enquanto cavalgava Arod. Nos olhos dos rohirrim e especialmente os gondorianos havia... devoção. E eles estavam certos, qualquer um faria bem em seguir um líder como Aragorn.
Era normal cometer erros, Legolas sempre quis saber porque Estel se levantara de sua cama e partira na manhã seguinte mas hoje isso não fazia mais diferença.
Quando a batalha começou não havia chance alguma de se proteger Hobbits, Gimli ou Aragorn. Era cada um por si sem o egoísmo da forma de dizer mas porque eles tinham de lutar contra cem Orcs para um. Eles certamente terminariam ali e por um momento, embora seu corpo não perdesse a agilidade, Legolas sentia Haldir e ansiava por um último adeus. Se como alma de um corpo morto ele pudesse rever aquele que só vivera por Legolas, então ele ficaria à seu lado para todo o sempre, nem que Haldir não pudesse enxergar ou ver que Legolas vagava à seu lado. Sua garganta deu nó mas ele se manteve firme.
Uma explosão na Montanha da Perdição fez Legolas virar-se depressa. Lava saía do topo e por uma lateral... aquela que parecia ter uma entrada.
Legolas não conseguia mais enxergar direito pois seus olhos estavam umedecidos. Então novo estrondo e sons como de vidro se quebrando se fez. Ele piscou depressa pois precisava ver, ele mal ousava acreditar. Será que estava acontecendo o que parecia estar acontecendo? O som não vinha da Montanha mas da torre. A torre com O Olho!
Legolas derrubou seu arco e ele não foi o único. Todos observavam boquiabertos quando o Olho pareceu entortar um pouco, mas não era isso, a base onde o Olho estava se desmoronava. A torre estava se quebrando. O Príncipe mal podia acreditar no que via, ele não ousara tentar, mas a verdade era mais bela, mais perfeita do que tudo o que ele já vira na vida, era mais lindo do que qualquer história já contada pelos elfos.
Melkor sumira de Arda. E agora Sauron...finalmente... o seguia!
A cena parecia se desenrolar devagar. Todos olhos ali, sem exceção, até mesmo dos Orcs e Trolls que não fugiram, seguiam o Olho. A figura mais forte desde muito tempo agora parecia a coisa mais frágil do mundo.
Como ele deveria ser!
O Olho não piscava mas era possível vê-lo se virar para cá e para lá, e embora não houvessem pálpegras, Legolas tinha certeza que ele estava arregalado. Que Sauron não podia acreditar no que lhe acontecia. O desgraçado contara com o encontro do Um Anel e que ele ressurgiria pior e mais forte que antes.
Gimli pulava, agora era possível vê-los pois os Orcs fugiram. Legolas teve de se desviar para não ser pisoteado por um Troll, as criaturas estavam agora apavoradas que o criador as deixara. Ele viu também os Hobbits gritarem: "Frodo! Frodo!" e Legolas riu, batendo palmas. Ele se lembrou e voltou-se para Aragorn. Os olhos cinzentos que tanto o fizeram passar noites em claro estavam molhados, cheios de emoção e então finalmente Legolas viu que eles partilharam da mesma emoção durante toda a jornada: incredulidade. Aragorn também duvidara da vitória, mas ele seguira em frente mesmo assim.
Talvez todos eles duvidaram mas não compartilharam seus temores porque então isso seria a ruína do grupo como um todo.
Ele olhou então para Gandalf e o viu sorrir, e chorar, o que encheu de felicidade.
Como ele amava seus amigos!
Legolas lembrou-se de sua distração enquanto admirava o fim de tudo pela qual eles lutaram, e pegou seu arco no chão.
Ele gastou todas suas flechas para cima dos Throlls que fugiam. Muitos homens o viram e o imitaram mas ao fim apenas Legolas conseguia alcançá-los com sua visão superior. Não havia problema, ele e Gimli ainda sairiam muito para caçar Orcs e ele tinha certeza que Elladan e Elrohir ainda fariam o mesmo. Legolas e Gimli iniciaram essa brincadeira de competirem quem dava cabo de mais Orcs, em dias de paz vindouros agora eles fariam isso com calma.
Foi então que nova explosão se deu e desta vez metade da Montanha da Perdição foi destruída também.
Todos olhavam sem acreditar, e Legolas logo chorou pelo maior herói de todos eles: Frodo. E Sam.
Ele ouviu os Hobbits caírem em desespero. Merry e Pippin choravam e começavam à gritar, a dor imensa. Legolas correu para os pequenos e passou o braço por sobre os dois. Eles choravam no chão e os Hobbits partia-lhe o coração. Gimli se juntou á eles e batia nas costas dos pequenos.
Gandalf conversava com o Senhor de todas as Águias gigantes. Muitas delas vieram ajudá-los quando os Nazgûls desceram do céu como dragões, mas mais terríveis que eles. Ele descidiu partir com eles e pediu para que Aragorn se fosse.
A viagem de volta foi quieta, ninguém mais falou nada. A felicidade da vitória sumira. Um dia eles dariam valor para a vida de paz que o mundo ganhara, mas o custo fora grande demais. Legolas daria sua vida mil vezes se a vida de Frodo tivesse apenas sido polpada. Sam também não merecia tal fim, não tão cedo. Ele que auxiliou seu patrão de todas as formas possíveis sem jamais ter pedido reconhecimento. Durante o tempo em que viajaram e acamparam juntos, Legolas podia ver frequentemente a devoção do jardineiro para com Frodo e o único consolo quando o portador do Anel partiu foi que ele levara a melhor companhia possível com ele.
As lágrimas caíram novamente. Legolas carregava Gimli com ele, e viu Éomer que não sabia como consolar Merry e Gandalf às vezes murmurar uma coisa ou outra para Pippin em seu cavalo. Ele sentiu-se partir em dois ao ver a tristeza dos Hobbits.
Eles foram para Gondor e após algum tempo, partiram para Rivendell. A casa de Legolas. Era assim que ele via o reino de Elrond agora.
Gandalf não mandara notícias mas certamente fora para lá e os esperava. A viagem foi longa e os Hobbits pareciam ansiosos. Desta vez Gimli não reclamou sobre montar em cavalos.
Rivendell lembrou-o de Frodo e a última vez que Legolas viu ele, Sam e Boromir vivos. Ele sentiu uma dor forte no peito mas ao mesmo tempo tentava reprimir a ânsia de ver Haldir e saber como ele estava. Legolas imaginava que Haldir lutara as guerras que escolhera, mas não sabia ainda se ele estava bem.
Ele não sabia sobre Haldir muito antes de ter partido. Ele se afastara e propositalmente. Ele só podia culpar à si mesmo.
