Capítulo Quatorze
Say
O som de porcelana se quebrando, seguido de xingamentos frustrados acordaram Ron em uma semana de setembro. Alarmado, pulou para fora da cama e correu até a cozinha, apenas para ser parado pelo protego sibilado de Hermione. Ron quicou no feitiço que Hermione colocara na porta da cozinha.
- Espere até eu limpar.
- Certo. – Ron parou perto da porta. – Posso perguntar o que aconteceu? – perguntou, torcendo o nariz. O cheiro de torrada queimada pesava no ar.
Hermione tirou o feitiço e acenou a varinha para a bagunça no chão.
- Eu estava fazendo o café da manhã. – ela suspirou. – E estava lendo um estudo sobre mestre e servo em contratos, e quando a chaleira apitou, eu não estava prestando atenção para onde eu apontei a varinha e acertei a torradeira, e queimei a torrada. Quando percebi o que tinha feito, fui tirar a torrada e desligar o fogo sob a chaleira. – Hermione respirou fundo. – E derrubei os pratos e xícaras do balcão.
De repente, ela começou a chorar ruidosamente. Ron, depois de olhar para o chão para ter certeza de que não sobrara nenhum pedaço de porcelana esquecido, foi até Hermione.
- É só uma torrada, mulher.
- Eu vou ser uma péssima mãe. – urrou. – Eu queimei a torrada...
Ron a olhou inexpressivamente.
- É só uma torrada. – repetiu confusamente. – Você vai ser uma mãe brilhante.
- Você tem que dizer isso. – fungou. – E se o bebê crescer e virar um jogador de Quadribol, como Ginny? – Hermione secou o nariz na manga de seu roupão. – Eu sequer entendo de Quadribol!
- Hermione, isso ainda vai demorar anos. – Ron não tinha ideia do que mais dizer.
- Só faltam cinco meses! – ela corrigiu com a voz estridente.
- E anos antes de Quadribol se transformar em um problema, mulher. – Ron massageou a nuca de Hermione. – Além do mais, Angus pode nem gostar de Quadribol.
Hermione riu com zombaria
- Nessa família? Está louco? É claro que o bebê vai gostar de Quadribol. E quem, diabos, é Angus?
- O bebê. Não podemos ficar chamando de "bebê" o tempo todo, podemos?
- Você realmente quer chamar nosso filho de Angus?
- Não. Apenas por agora.
- Por que Angus?
Ron deu de ombros.
- Não sei. Pareceu uma boa ideia noite passada.
- Angus... – Hermione murmurou. – Angus. – repetiu, balançando a cabeça. Olhou para o relógio na parede. – Eu preciso ir.
- Ainda quer café da manhã? – Ron gesticulou para a torrada queimada na pia.
- Eu... – Hermione hesitou. – Deveria, mas vou me atrasar...
- Da última vez que pulou uma refeição, você desmaiou, Hermione. – Ron a lembrou.
Ela pareceu culpada.
- Eu sei. Mas Harry providenciou para que alguns elfos de Hogwarts fossem conversar comigo as dez. Eu preciso me preparar para eles.
Ron esfregou as têmporas. Não eram nem oito e meia e sua cabeça já estava doendo.
- Vou fazer algo para você levar. Vá se vestir.
Quando Hermione saiu da cozinha, Ron fez a torrada queimada sumir, e fuçou na caixa de pão, procurando pelos bolinhos que fizera no outro dia. Adicionou alguns pedaços de fruta da tigela sobre a mesa e encontrou uma garrafa térmica no fundo do armário, atrás de um bule grande. Serviu-se de uma xícara de chá e leu o jornal matutino, enquanto esperava Hermione terminar de se arrumar para o trabalho.
Hermione entrou na cozinha, prendendo o relógio no pulso, meia hora mais tarde. Ron lhe passou uma pequena sacola de papel.
- Bolinhos de mirtilo, uma maçã e uma banana. – lhe passou a garrafa térmica. – Suco de laranja. E suas coisas do pré-natal também estão na sacola. – Hermione piscou e lágrimas correram por seu rosto. Silenciosamente, Ron lhe passou a toalha de pratos que tinha pendurado no ombro. Ele não sabia o que dizer quando Hermione chorava quando não estava grávida. Agora, parecia que ela chorava por tudo. – Você vai se atrasar. – a lembrou gentilmente. Hermione secou os olhos com a toalha de prato e a colocou sobre a mesa.
- Mamãe vem para cá à noite. – Hermione disse, indo para a sala de estar. – Ela vai nos levar para jantar fora.
- Certo. – Ron assentiu distraidamente. – Vou chegar às seis. – beijou a bochecha de Hermione e ela aparatou para o Ministério.
Ron tomou banho e se vestiu. Aparatou para a loja e começou a se preparar para o dia. O comportamento de Hermione era confuso. Ele sabia que era por causa dos hormônios mais do que qualquer outra coisa, mas não estava preparado para a velocidade com que o humor dela mudava. Qualquer coisa podia provocá-la — desde a falta de molho de tomate em uma batata até a falta de progresso no quarto do bebê. Podiam fazer isso com magia, mas Ron queria fazer da maneira Trouxa. É claro, eu poderia adiantar alguma coisa se ela escolhesse logo a maldita cor, suspirou para si mesmo. Ela mudava de ideia sobre isso quase todos os dias, aparentemente.
- Só mais cinco meses. – informou aos Mini Pufes. Eles ronronaram suavemente em resposta. Esse grupo em particular gostava quando falavam com eles. Ron colocou alguns punhados de lixo dentro da gaiola. – Só mais vinte semanas. Cento e quarenta dias. Mas quem está contando?
- Falando sozinho? – George entrou pela porta da frente da loja.
- Não. Com os Mini Pufes. – distraidamente, Ron usou a varinha para colocar um espanador sobre as prateleiras de Bruxa Maravilha. Olhou para George pelo canto dos olhos. – Alguma vez você ficou com medo de ir para casa? Quando Katie estava grávida dos gêmeos?
- Absolutamente. Se ela não estava mascando chicletes como se fossem a única coisa a mantendo sã, ela estava chorando por algo, como o umbigo saltado. Ou limpando a casa sem magia. Acho que usamos uma caixa de Removedor Mágico Multiuso da Sra. Scower. – George pausou, contando mentalmente. – Em três semanas. – correu a mão pelo cabelo algumas vezes. – Eu fiquei verdadeiramente assustado durante o quinto mês.
Ron empalideceu e suas sardas se sobressaíram em seu rosto assustadoramente branco.
- Por quê? – perguntou hesitantemente.
George começou a estocar as prateleiras.
- Katie vivia me atacando. – confessou em voz baixa.
- Te atacando? – os olhos de Ron se arregalaram.
George pigarreou algumas vezes.
- Eu gosto de fazer amor com a minha esposa tanto quanto qualquer um. – admitiu, sem encontrar os olhos de Ron. – Mas todas as benditas noites... – um forte corar começou a subir pela nuca de George. – Eu não conseguia mantê-la longe de mim. Chegou ao ponto de eu quase esperar ela estar adormecida, antes de ir para a cama. – George tossiu algumas vezes. – Mas também, olhando para trás, talvez eu não devesse ter feito isso. Demoramos meses, depois de os gêmeos nasceram, para que pudéssemos fazer qualquer coisa.
- Por quê? – Ron estava começando realmente a achar que deveria ter lido aquele livro que Hermione deixara em seu criado mudo.
- Por que não vai perguntar essa para o Harry? – George perguntou, claramente desconfortável.
Ron abriu a gaiola dos Mini Pufes e tirou um deles, acariciando-o distraidamente, fazendo-o ronronar em prazer.
- Ginny.
George olhou para Ron e ergueu uma sobrancelha.
- Desculpe? O que Ginny tem a ver com o preço do chá na China?
- Por que, sempre que eu penso em perguntar essas coisas para Harry, tudo no que consigo pensar é nele fazendo isso com Ginny. – Ron estremeceu dramaticamente.
- Ótimo. – George suspirou e olhou para o relógio. – Depois que o bebê nascer, a última coisa que Hermione vai querer fazer é deixar que você transe com ela, menos ainda deixar que você a veja nua. Ela vai ter uma aparência diferente. Ela vai pensar que está gorda e feia. Vai demorar alguns meses até que algum de vocês consiga dormir mais do que poucas horas, então acredite, nenhum de vocês vai estar com vontade.
"Ser pai... Realmente te muda. O que você achava ser importante antes não é uma prioridade." George foi até o cômodo dos fundos e pegou suas vestes. Vestiu-as. "Não consigo imaginar minha vida sem Katie ou os meninos. Não tenho certeza de que gostaria. E isso quer dizer algo, considerando todo o caos que um bebê trás para sua vida.
Ron colocou o Mini Pufe na gaiola com os outros. Ficou anormalmente quieto pelo resto do dia. George tinha lhe dado bastante no que pensar.
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Ron aparatou em frente à porta do apartamento. Ficou parado ali, sua mão descansando sobre a maçaneta. Estava parado ali há algum tempo quando ouviu Jane subir as escadas.
- Ron?
- Oh, oi, Jane. – inclinou-se e beijou a bochecha de sua sogra.
- Há quanto tempo está parado aí?
Ron olhou para seu relógio.
- Dez minutos.
- Por quê? – ela perguntou curiosamente.
- Estou tentando descobrir quem está do outro lado da porta. – afirmou calmamente. Perante o olhar perplexo de Jane, continuou. – Ela tem estado um pouco... Emocional, ultimamente.
- Ah. – Jane assentiu sabiamente. – As mudanças de humores.
- Isso não é mudança de humor. – Ron retorquiu, sua voz falhando levemente. – É mais como eventos sísmicos. – puxou o ar lentamente, se preparando para o que quer que fosse encontrar do outro lado da porta. – Vamos? – perguntou, abrindo a porta e gesticulando para Jane entrar primeiro no apartamento.
Ron estava surpreso por não encontrar Hermione esperando impacientemente para que ele e Jane entrassem. Olhou para seu relógio novamente. Já era seis e vinte e cinco. A bolsa de Hermione estava perto da porta, ao lado dos sapatos que ela usara naquele dia.
- Sinta-se a vontade. – Ron disse para Jane. – Ela provavelmente está dormindo. Vou acordá-la.
Jane se acomodou no sofá, tirando um livro da bolsa.
- Demore o quanto quiser. Estou adiantada. A reserva é só as sete, de todo modo.
Ron começou a ir para o quarto, mas deu meia volta e foi até a cozinha pegar um pastel de abóbora. Não é suborno, disse a si mesmo, tirando um da geladeira e usando um feitiço para aquecê-lo. É uma oferta de paz. Ron riu zombeteiramente para si mesmo. Não há muita diferença... Conseguiu ouvir Jane abafar o riso. O quarto em si estava escuro, mas um raio de luz passava sob a porta do banheiro. Ron bateu suavemente, e abriu a porta.
- Hermione?
Ela estava deitada na banheira, as bolhas até seu queixo, o cabelo preso no alto da cabeça. Um dos livros de Ginny estava na borda da banheira, um pedaço de pergaminho marcando a página. Ron franziu o cenho. Ele sabia que ela não deveria ficar de molho na água quente. Colocou uma mão na água para testar a temperatura. Estava apenas morna. Hermione abriu um olho.
- Está só um pouco mais quente que a temperatura ambiente. – ela o informou. Abriu os dois olhos, e sorriu ao ver o pastel na mão de Ron. – Eu amo você. – disse em um tom doce, secando as mãos em uma toalha perto da banheira, e pegou o pastel. – Você parece cansado. – comentou, entre uma mordida e outra.
- Um pouco. – Ron admitiu, se sentando na borda da banheira. – Dia longo.
- Você poderia se juntar a mim. – Hermione levou as mãos até os botões da blusa de Ron.
A boca de Ron se abriu.
- Hermione! – sibilou. – Sua mãe está na sala de estar!
Hermione olhou para a porta do banheiro pensativamente. Tirou a varinha de Ron do bolso dele, acenando-a para a porta, que se fechou e trancou. Voltou a apontar a varinha para a porta e murmurou, muffliato. Deixou a varinha de Ron ir ao chão com um barulho.
- Pronto. Tudo melhor.
Ron olhou para Hermione. Queria tirar o resto de suas roupas e entrar naquela banheira. Jane tinha um livro. E eles tinham tempo.
- Eu não sei. – disse inquietamente. Ainda se sentia desconfortável em beijá-la em frente de Jane.
Hermione se ajoelhou e começou a desabotoar a camiseta de Ron.
- E todas aquelas vezes que estava frio demais para irmos até a casa da árvore aos domingos, antes de nos mudarmos para o apartamento sobre a loja, eh? – zombou. – Onde estávamos?
- Meu quarto. – Ron engasgou. Por horas com feitiços de silêncio na cama, na porta, e todo o resto.
- E a família toda estava em casa. – Hermione murmurou.
Ron apertou os dentes, tentando manter seu autocontrole. Mentalmente, contou as semanas desde o meio de maio. Dezoito. Dezoito semanas e absolutamente nada entre a concepção do bebê e agora. Os dois primeiros meses de gravidez, Hermione estivera dormindo ou comendo algo tão nojento que Ron perdia o apetite. Ela estivera se sentindo melhor ultimamente, mas ele estivera muito ocupado na loja e estava exausto quando chegava em casa.
Não podia mais pensar. Todo o sangue tinha saído de sua cabeça.
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- Você é uma mulher muito, muito cruel. – Ron informou sua esposa. Saiu da banheira, molhando o chão.
- Sim, mas você me ama. – Hermione disse, se espreguiçando languidamente.
- Sim, amo. Não ia querer que fosse de qualquer outro modo. – Ron se inclinou para pegar sua varinha. Estudou suas roupas molhadas. Suspirando, as secou o melhor possível com a varinha, antes de vesti-las. Passou o roupão de Hermione para ela. – Vamos, mulher, vamos nos atrasar.
- Suponho que sim.
Ron acenou a varinha para a maçaneta. A porta se abriu levemente. Espiou pela abertura, temeroso.
- Você acha que ela ouviu alguma coisa? – murmurou.
- Não, mas vai ouvir se você ficar falando sobre isso. – Hermione cutucou a base da coluna de Ron. – Vamos lá, então. Nós dois precisamos nos vestir.
Ron colocou a mão para trás e segurou a de Hermione. Atravessaram o corredor até seu quarto na ponta dos pés, Hermione abafando os risinhos o tempo todo. Hermione tirou o roupão e o esticou no pé da cama. Ron pausou no ato de tirar sua calça e realmente viu o corpo de sua esposa pela primeira vez, depois de um mês. O quarto girou perigosamente quando viu o inchaço significativo da barriga dela. Sentou-se no chão com força e colocou a cabeça entre os joelhos, ofegando.
Sentiu a mão de Hermione em sua cabeça.
- Você está bem? – ela perguntou preocupadamente.
- Sim. – só recebendo um soco no estômago com a ideia de que vamos ter um bebê, só isso. Ergueu os olhos e tentou sorrir, mas sabia que parecia mais uma careta. – Ótimo. Estou bem, mulher. – Ron se ergueu e tirou o resto de suas roupas. Rapidamente vestiu roupas secas e foi para a sala de estar, onde Jane ainda estava sentada no sofá, aparentemente entretida com seu livro. – Hermione vai sair em um minuto. – disse bruscamente, se sentando na ponta de uma poltrona.
Jane o olhou por cima de seu livro. Ron se lembrou, desconfortavelmente, dos olhares que Hermione lhe dava quando ela sabia que algo estava o incomodando. Ron se remexeu levemente, enquanto sentia seu pescoço corar. Droga, pensou. Ela sabe! Como?
- Você pode querer dar um jeito nessa marca no seu pescoço. – Jane disse distraidamente, voltando sua atenção para o livro. Gesticulou vagamente para um ponto sob sua orelha esquerda. – Bem aqui. – disse, inconscientemente repetindo o que sua filha tinha dito há quinze anos. Jane virou a página.
Ron ofegou e pulou para fora da poltrona. Foi até o espelho preso à parede perto da lareira, e olhou com horror para a marca pequena e roxa sob sua orelha esquerda.
- Maldição. – murmurou. Apontou a varinha para o pescoço, murmurando: - Episkey. – a marca sumiu lentamente, deixando apenas uma leve sombra. Ron engoliu em seco e olhou para Jane por sobre o ombro. Ela parecia estar se esforçando para não rir, mordendo o lábio inferior.
Para sua sorte, Hermione entrou na sala nesse momento, poupando Ron de se envergonhar ainda mais.
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Hermione prendeu o cabelo em uma trança apertada e vestiu uma calça jeans que comprara na semana anterior. Era dois números maior do que vestia normalmente. Pelo menos, conseguia abotoar esse par. Passou uma das camisetas dos Cannons de Ron pela cabeça e vestiu mais um suéter antigo, enfeitado com o logo de W triplo das Gemialidades Weasley.
Já era outubro e as roseiras precisavam ser preparadas para o inverno. Ron estava na loja de Hogsmeade pelo final de semana que a escola visitava o vilarejo. Ele cuidaria das roseiras que tinham no jardim atrás do prédio.
Ela ia cuidar das roseiras de seu pai. Esse era o projeto do dia todo. Ron a encontraria lá e a levaria para casa. Ela tinha cada vez mais dificuldade para Aparatar ultimamente. Especialmente se estivesse cansada.
Hermione tinha seus próprios motivos para querer cuidar sozinha das rosas. Precisava conversar. Não queria realmente conversar com alguém em particular. Ninguém que estivesse vivo, pelo menos.
Jane não estaria em casa. Ela não se aposentara depois que Richard morrera. Ela deixava o consultório aberto por algumas horas aos sábados, pelos pais que não conseguiam levar seus filhos durante a semana. Melhor assim. Hermione tinha algumas coisas que precisava dizer, e não queria que mais ninguém as ouvisse.
Pegou sua pequena mochila, com uma troca de roupa e um livro, e foi até o metrô. Hermione não estava com vontade de Aparatar. A viagem de uma hora lhe dava tempo sozinha. Tinha se encontrado com os Elfos de Hogwarts quase todos os dias pelas últimas semanas. Eles estiveram mais do que dispostos a falar com ela, uma vez que Harry os tinha assegurado que ela não ia tentar convencê-los a aceitar roupas, mas para se certificar de que todos os Elfos fossem tratados tão bem quanto os Elfos da escola eram. Tinha sido uma surpresa para Hermione descobrir que os Elfos de Hogwarts tinham a liberdade para partir, se quisessem. Mas nenhum deles partia, na grande maioria. Alguns deles eram descendentes de Elfos que tinham recebido roupas de suas famílias quando estas entraram em dificuldade. Ou a família tinha morrido sem ter um herdeiro direto. Não ia ser uma tarefa fácil codificar um modo de tratamento seguindo o modelo da escola. Alguns bruxos e bruxas sangue puros, que trabalhavam no Departamento de Execução da Lei da Magia, tinha dito que demorariam anos antes de qualquer mudança acontecer. Talvez nem mesmo em sua vida. Hermione não se importava. Só queria tentar.
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Cuidadosamente, Hermione limpou as pétalas, folhas e outras sujeiras de sob as roseiras, como também o estrume que Ron espalhara pacientemente sobre as raízes em junho. O chão congelaria logo, e poderiam colocar uma nova camada de estrume.
A monotonia acalmou a mente de Hermione.
- Oi, pai. – disse quietamente para o vento frio de outubro. Usou as mãos sujas para erguer as mangas do suéter. Os punhos ficavam escorregando. – Estou assustada, pai. Não apenas de que o bebê; que Ron chama de Angus, aliás; vá ser mais burro que William, ainda que não seja possível ser mais burro que ele. – Hermione tirou uma pequena pilha de estrume da raiz de uma roseira. – Só estou com medo de que serei uma péssima mãe.
Hermione se sentou sobre seus calcanhares.
- Eu trabalho demais. E comparada a Ron, eu não sei cozinhar. Ultimamente, não consigo nem fazer uma torrada sem queimá-la. – foi para a próxima roseira. Era um pouco alta demais e precisava ser aparada para evitar que o vento fizesse estragos. Hermione se levantou cuidadosamente. Seu equilíbrio mudava conforme ficava maior. Os materiais para aparar estavam na barraca.
- Eu nunca fui uma criança, pai. Não tenho certeza do que sou suposta a fazer. É diferente com Teddy e os outros. Eu interajo com eles, claro, mas ter um bebê. É permanente. Quero dizer, eu sei que tenho que alimentá-lo, e mantê-lo aquecido e limpo. Mas e depois?
- Eu costumava observar Harry brincar com Teddy quando ele morou n'A Toca depois da guerra. Desconcertante. Como Harry sabia que Teddy queria construir um castelo de blocos? Ou como ele sabia que deveria enfeitiçar o dragão de pelúcia para fazê-lo voar? Como ele sabia do que Teddy gostava sem que alguém lhe falasse?
- Eu não estou me sentindo muito maternal no momento. Quando James chorava, quando era bebê, Ginny sabia exatamente o que fazer baseado no som. O choro que lhe dizia que ele estava molhado e precisava mudar a fralda, era diferente do choro que lhe dizia que ele estava com fome. Francamente, eles pareciam o mesmo para mim.
Hermione derrubou um punhado de galhos aparados na pequena pilha de lixo que criara.
- E se o bebê não gostar de mim? – perguntou em um murmúrio. – Não posso falar sobre isso com Ron. Ele tem que me dizer que o bebê vai gostar de mim. Ele é casado comigo. Como se ele fosse dizer, "Sabe, Hermione, você está certa. Não acho que essa criança vai gostar muito de você". Eu li todos os livros em que consegui colocar as mãos. E pela primeira vez na minha vida, pai, os livros não me deram a resposta.
Hermione foi até o arco e começou a amarrar os galhos da roseira que se enroscara no arco, antes de cobri-lo com aniagem. Dedilhou os desenhos do arco com um dedo coberto de terra. Hermione pegou a garrafa térmica que trouxera com chá de menta e se acomodou sobre o banco sob a fraca luz do sol de outubro. Estava prestes a tomar um gole de chá quando sentiu um movimento de ondas, como as que se formavam no lago atrás d'A Toca quando jogava uma pedra na água.
Uma de suas mãos pousou sobre a curva de abdômen, os dedos esparramados sobre o lugar onde o bebê estava.
Continua...
Tradução do título do capítulo: Diga.
