CAPÍTULO 14
Na manhã seguinte acordei mais cedo que o normal, pensando na ida de Anna para Hogwarts e no perigo no qual ela se encontrava. As investigações dos aurores continuavam, mas a sensação que eu tinha era que andávamos em círculos.
Tínhamos deslocado alguns aurores para ir até Azkaban, falar com Lúcio Malfoy, mas o comensal da morte já estava completamente insano e não tinha sido capaz de dar qualquer resposta. Também tínhamos voltado a conversar com a sra. Emelina Weber (que tinha sido feita refém pelo grupo de bruxos das trevas que perseguia Anna), mas a velha bruxa não tinha mais nenhuma informação além das que já nos havia dado.
O pior eram os dois aurores desaparecidos na noite da tentativa de sequestro de Anna, até então não tinha se tido qualquer sinal deles. As famílias estavam inconsoláveis, e o Ministério cada vez tinha mais dificuldades para ocultar que algo grave estava acontecendo. Na última semana, as circunstancias levaram a publicação de uma curta nota no Profeta Diário, dando conta do desaparecimento de dois aurores em missão secreta.
Nossas maiores descobertas foram feitas no contato com os aurores no exterior. Havíamos descoberto a profecia era bastante difundida em grupos formados por bruxos das trevas no Oriente, sobretudo na Europa Oriental, no Oriente Médio e na Índia; sendo praticamente desconhecida no Ocidente.
A Rússia parecia ser o país no qual o movimento era mais forte, conclusão a qual havíamos chegado devido à colaboração internacional. Essa informação ia ao encontro do fato de que a sra. Weber tinha identificado que seus sequestradores conversavam em russo. Além disso, através da investigação do corpo inconsciente do homem que tentara sequestrar Anna (que ainda permanecia no Departamento de Mistérios, guardado) tínhamos concluído que a varinha do homem fora produzida por um fabricante russo.
Eu estava muito preocupado com a saída de Anna de casa, porque eu sabia que ao menos parte desses bruxos já tinham identificado nela a menina da profecia. Eles estavam na Inglaterra e o meu receio é que encontrassem aqui mais aliados.
- Você está preocupado com Anna não é? – questionou Draco, que tinha acordado e me encarava com sagacidade.
- Estou. – eu admiti. – Já faz mais de um mês e nós descobrimos tão pouco...
- O que vocês já sabem? – Draco perguntou e então se interrompeu. – Sei que talvez você não possa me contar tudo...
- Consegui uma autorização com os aurores para que eu possa responder qualquer pergunta que você tenha, devido sua atual condição como pai de Anna. – eu expliquei, lembrando-me daquela vitória que eu tivera em uma das últimas reuniões dos aurores, quando alguns colegas tinham apresentado suas ressalvas quanto a confiar em Draco Malfoy. – Embora a adoção tenha sido orquestrada pelos próprios aurores, o fato é que legalmente você é responsável por ela, de modo que não pode ser negada a você quaisquer informações sobre Anna.
- Que explicação mais jurídica. – ele falou, parecendo achar graça – Parece que você já teve que fazer essa defesa no Ministério...
- Sem dúvidas. – eu lhe devolvi um sorriso. – Mas respondendo à sua pergunta: sabemos muito pouco. Nossos contatos no exterior nos mostraram que a Rússia é o país onde a profecia é mais difundida em círculos de bruxos das trevas, o que combina com o fato de que o homem que tentou sequestrar Anna era russo.
- Ele foi identificado? – Draco perguntou.
- Sim, o nome dele é Vladimir Hoskov, pertence a uma antiga família bruxa, muito rica. – eu expliquei. – Sabemos que o Ministério da Magia russo está procurando por ele, mas temos um contato de confiança entre os aurores russos que sabe que ele está conosco e que se encontra inconsciente devido ao lilac mortem. É esse auror que tem nos passado informações para nós, mas eu não conheço sua identidade. É Dawlish quem tem contato com ele.
- Além do contato com aurores de outros países, o que mais vocês tem feito? – ele questionou.
Eu gostaria de poder dar uma enorme lista de ações, mas a verdade é que não tínhamos identificado muitas possibilidades que poderiam ser postas em prática.
- Não muita coisa. – eu disse, desanimado. – Algumas equipes de aurores foram escaladas para refazer o caminho no qual Anna e a mãe passaram. Conseguimos reencontrar os vilarejos nos quais elas viveram, fizemos algumas perguntas mas ninguém estava muito disposto a falar sobre a menina. Sobretudo porque elas viveram sempre em vilarejos trouxas, acredito que tentando ficar escondidas do mundo mágico, e acabaram gerando muita superstição. Em todos esses lugares, Anna e a mãe foram vistas como pessoas amaldiçoadas, que depois de alguns meses começaram a trazer discórdia, infelicidade, chuvas sem fim e outros infortúnios para os vilarejos. Claro que nós sabemos que isso não foi obra de Anna e da mãe, mas efeitos causados pela presença dos dementadores. Nós colhemos as informações que conseguimos e lançamos o obliviate nas pessoas com quem conversamos.
- E quanto ao corpo da mãe de Anna? – ele perguntou. – E a casa na qual elas viviam no último vilarejo, aqui no Reino Unido?
- A casa não tinha nada além de alguns pertences pessoais. – eu contei. – No corpo da mãe encontramos apenas a varinha e um papel com um texto escrito em runas antigas, mas que depois do trabalho de tradução descobrimos se tratar da profecia, sobre a qual você já havia nos informado.
- A varinha da mãe não deu a vocês nenhuma informação? – Draco, assim como eu, sabia que muito poderia ser conhecido sobre um bruxo através da sua varinha.
- Descobrimos que ela era indiana, através da identificação do fabricante, mas isso Anna já havia nos contado. – eu expliquei. – Também, através do Prior Incantato, descobrimos que o último feitiço feito pela mãe de Anna tinha sido um escudo de proteção.
- Foi assim que Anna conseguiu se salvar no dia que a mãe foi assassinada? – Draco questionou.
- Sim, conversei com Anna sobre isso. – eu contei. – Ela me disse que a mãe a mandou para dentro da casa e que ela viu pela janela quando os homens cortaram a garganta dela. Ela tentou correr na direção da mãe, mas não conseguiu. Em seguida os homens tentaram entrar na casa para pega-la, mas também não conseguiram. Anna me disse que depois de algumas horas eles foram embora, quando souberam que os aurores ingleses já estavam a caminho para investigar o acontecido. No caso, estes aurores foram Rony e eu.
- A mãe dela deve ter lançado um escudo muito poderoso, para perdurar assim por horas, mesmo após sua morte. – Draco estava admirado.
- Acreditamos que a magia primitiva dela ter se sacrificado pela filha potencializou o poder de proteção do escudo. – eu informei. – Parecido com o que aconteceu quando Voldemort tentou me matar... você conhece essa história?
- Sim. – Draco confirmou. – Ele perdeu os poderes porque sua mãe morreu para salvar você. Foi por isso que ele não conseguiu te matar.
- Quando um bruxo se sacrifica pelo outro, há uma força muito grande de proteção. Isso potencializa a magia. – eu falei, pensando não só na mãe de Anna e na minha própria, mas também em Draco que tinha se disposto a sacrificar por mim, de forma que hoje tínhamos esse vínculo mágico tão forte.
- O que vocês fizeram com o corpo? – ele perguntou, se referindo a mãe de Anna.
- Eu insisti para que fosse enterrada em uma clareira bonita, no meio de uma floresta na França. – eu disse para ele. – Foi lá também que enterramos a moça que era secretária no abrigo. Eu sei que a morte de ambas não podia ser divulgada, mas isso não significa que não devam ser tratadas com respeito.
Eu tinha algumas desavenças com determinados colegas aurores por causa de questões como aquela. Para mim, ser auror não poderia se resumir a caçar e prender bruxos das trevas. Tinha que haver uma dimensão ética, uma dimensão humana na profissão.
Eu tinha visto alguns aurores se regozijarem sem pudor quando souberam que a moça que trabalhava como secretária era uma estrangeira sem familiares vivos. De forma que bastou lançar alguns obliviates em seus conhecidos para que pensassem que ela se mudara de volta para o país de origem e o caso tinha sido completamente abafado.
Draco pareceu ver a indignação da minha voz.
- Você não gosta de como os aurores lidam com algumas situações, não é? – ele perguntou, enxergando dentro de mim.
- Eu não sou estúpido, sei que a morte dessa moça, o ataque ao abrigo, essas coisas não poderiam ser divulgadas. – eu expliquei. – Mas sair por aí lançando feitiços da memória para que as pessoas simplesmente pensem que ela foi embora... não te parece um pouco desumano? Um insulto à memória da pessoa?
Draco sorriu de leve para mim.
- A vida toda eu fiz o que era preciso. – ele me explicou, confessando. – como comensal da morte, eu queria apenas salvar minha mãe e proteger você contando todas as mentiras necessárias a seu respeito. No meio disso tudo, houve muitas pessoas que eu vi serem mortas e torturadas, pessoas que eu não salvei com medo de pôr tudo a perder.
- Também há pessoas que eu não pude salvar... – eu comecei a falar.
- Mas você é diferente, Harry. Você faz sempre todo o possível, não importa as consequências. – ele falou, a voz cuidadosa, parecendo não querer que eu me ofendesse. – Naquela noite da batalha final quando nos encontramos na Sala Precisa, você poderia ter ido embora sem salvar a minha vida, poderia ter me deixado para trás, para ser consumido pelo fogo. Mas você voltou.
- Claro que voltei. – eu disse, indignado. Seria possível que ele tivesse me dizendo que eu não deveria tê-lo salvado?
- Você se arriscou com essa decisão. – ele disse, muito sério. – Você arriscou não só a sua vida, como arriscou a vitória contra o Lorde das Trevas. Você sabia que todo o mundo mágico precisava que você o derrotasse, mas ainda assim você se arriscou por uma única pessoa.
- Você está dizendo que eu sou inconsequente? – eu questionei, um pouco incomodado.
- Não fique irritado comigo. – ele falou. – Eu acho maravilhoso que você seja tão humano, é uma das coisas que mais gosto em você. Mas as vezes, é necessário que as pessoas façam essas escolhas que te parecem tão frias, tão antiéticas. Aquela moça, a secretária, ela já estava morta, não havia nada que pudéssemos fazer por ela, você mesmo me disse isso na noite que salvamos Anna. Será que honrar a memória de alguém é mais importante do que guardar um segredo que pode ajudar a proteger não apenas Anna mas todo o mundo mágico?
Eu permaneci em silêncio por alguns segundos, refletindo sobre tudo aquilo que ele tinha me dito. Eu não conseguia levar as coisas daquele jeito, nunca conseguiria. Mas ele estava certo quando insinuava que eu deveria respeitar as decisões dos demais aurores, afinal estávamos todos do mesmo lado, eles também estavam fazendo o possível para manter Anna e o mundo bruxo a salvo.
- Às vezes eu gostaria de ser mais sonserino. – eu reclamei.
Draco Malfoy soltou uma risada encantadora.
- Você não teria durado uma semana na sonserina. – ele sorriu, o olhar malicioso.
Eu me aproximei dele, abraçando-o. Ele me abraçou de volta, trazendo alguma paz para o meu peito. A sensação no entanto foi breve, pois logo ouvi a voz calma e controlada de Draco, me dizer em tom de consolo:
- Sobre o plano de ação dos aurores, me parece que vocês estão fazendo todo o possível...
- Mas não é o suficiente. – eu disse, uma nota de pânico na voz. – Na verdade o que me preocupa é que nada será o suficiente. Não se trata de um bruxo que a gente possa derrotar, como Grindelwald ou Voldemort.
- Eu já pensei nisso também. – Draco falou, em voz baixa. – Não podemos matar uma ideia. Por mais que a gente prenda algumas dessas pessoas, sempre haverá outras que acreditarão na profecia. É como a ideologia do sangue puro, você matou o Lorde das Trevas, mas não matou essa ideologia, ela persiste.
- Eu sei. – eu concordei. – Mas eu não posso permitir que nada aconteça a Anna.
- A profecia diz que ela pode se tornar uma bruxa das trevas, mas também diz que ela pode ser alguém que vai lutar contra tudo isso. – Draco ponderou. – Infelizmente acho que não podemos fazer mais nada, além de protege-la até que ela cresça e se torne quem ela escolher ser.
- Essa é a principal parte do plano dos aurores e da Ordem da Fênix nesse momento. – eu disse. – Estamos todos entendendo que proteger Anna e impedir que ela vá para o lado das trevas é essencial para todo o mundo mágico. Mas para mim, Draco, é muito mais do que o receio de que ela possa apresentar uma ameaça para todos nós...
- Eu sei. – ele assentiu, fazendo eco aos meus pensamentos. – Seu maior medo é o que farão com ela se a pegarem, o tipo de tortura, de lavagem cerebral a qual ela será submetida para se transformar no que eles querem.
- Exatamente. – eu concordei, surpreso. – Como você...?
- Como eu sei? – ele disse, sem me deixar completar a pergunta. – Porque eu me sinto igual a você. Eu sei que essa adoção foi parte de um plano, mas para mim Anna é como uma filha de verdade.
- Ela é nossa filha, nossa família. – eu respondi, porque não havia nada no mundo que me convencesse do contrário.
Draco segurou com força minha mão.
- E nós vamos lutar por ela. – ele garantiu.
- Kingsley está liderando o que parece ser uma missão que durará muitos anos. – eu contei. – Ele estabeleceu três objetivos principais para os aurores: a proteção de Anna, o controle internacional e o sigilo absoluto. O sigilo é para impedir que a profecia se espalhe e ganhe mais adeptos e o controle internacional tem sido feito junto a aurores de outros países, para mapear e manter sob vigilância grupos que possam estar atrás de Anna.
- Me parece um bom plano... – Draco apontou. – Dentro do que é possível ser feito.
- Eu esperava que pudéssemos fazer mais. – eu disse, insatisfeito com a situação.
- Eu sei, Harry. – ele me olhou, o rosto inundado de uma emoção que não consegui identificar. – Você sempre foi assim, nunca desistiu de nada. Por mais que te dissessem que não havia mais nada a ser feito.
Eu olhei para ele com ternura. Era tão bonito o jeito como ele me via, as palavras dele pareciam carregar um certo orgulho, as vezes, quando ele falava de mim.
Eu toquei o rosto dele, vendo-o se inclinar na direção da minha mão.
- Eu espero poder ser esse Harry Potter que você enxerga. – eu disse, com sinceridade. – Às vezes, sinto medo de não conseguir ser o homem que você espera que eu seja.
- A cada dia que eu passo perto de você, vendo o jeito como você age, ouvindo as coisas que você diz... – ele disse, com um fervor inesperado na voz. - A cada dia eu vejo mais em você o homem por quem me apaixonei.
Eu me aproximei dele, puxando-o para um beijo apaixonado. Draco Malfoy parecia ao mesmo tempo me fazer sentir tão confiante e tão inseguro, tão forte e ao mesmo tempo tão vulnerável.
