Talvez

Morgana Elvendork

Quando James Potter saiu para o trabalho naquela manhã, não pode deixar de notar a pequena movimentação existente no apartamento em frente ao seu. Vizinhos novos, pensou indiferente.

"Vizinhos novos?" uma voz conhecida pareceu ler seus pensamentos. Era seu melhor amigo e colega de apartamento, Sirius Black.

"Acho que sim," respondeu ele.

"Quem será que é?" Sirius questionou, observando os entregadores carregando pesadas caixas para dentro do apartamento.

James deu de ombros, não estava nem um pouco interessado em saber quem eram os novos vizinhos. Ele apenas queria chegar no trabalho, fazer todo o seu serviço, e finalmente ir para casa no final da tarde. Ele odiava segundas-feiras.

Ele nunca pensou que uma segunda-feira poderia mudar sua vida totalmente.

"Cuidado com essa caixa, as louças de minha avó estão nelas."

Lily suspirou alto. Que bela maneira de começar a semana, fazendo mudanças. Mas a mudança era a melhor coisa que ela poderia fazer de sua vida. Era temporário, mas o local era bem próximo de seu trabalho e ela ainda poderia ficar de olho nos últimos preparativos para seu casamento e nos ajusteis finais do apartamento que iria morar quando se casasse com Matthew.

Ela apanhou uma caixa de dentro do carro e entrou no hall do prédio, se distraindo com a capa de um álbum de fotos que se encontrava na superfície da caixa. Lily nem sequer tinha pisado no primeiro degrau das escadas quando sentiu alguma coisa vindo de encontro a ela.

"Ai!" ouviu alguém exclamar.

A caixa voou para o chão e seu conteúdo ficou espalhado. Ela olhou para o local onde havia esbarrado e avistou um belo rapaz de óculos e cabelos despenteados, parecendo meio assustado. Do lado dele, havia outro rapaz, ainda mais bonito, dando uma gargalhada que lembrava um latido. Ela sentiu um frio no estômago que não lhe pareceu um bom sinal.

"Você é cego mesmo, hein, James?"

"Ah, me desculpe eu não te vi," o tal James disse a ela, sorrindo constrangido. Lily observou que uma de suas mãos voou imediatamente para seus cabelos, deixando-os ainda mais despenteados. Lily não soube dizer o porquê, mas acho o gesto charmoso.

"Tudo bem, eu estava distraída," ela fez menção de começar a recolher seus pertences do chão, mas James a impediu.

"Não, não," disse ele em um tom quase agudo, passando mais uma vez a mão pelos cabelos. "deixe que eu ajunto," ele curvou-se e começou a recolher os objetos espalhados pelo chão.

"Não, está tudo bem" respondeu Lily, juntando-se a ele. "Vocês estavam de saída, não estavam?"

"Nós não temos pressa," insistiu ele.

Logo, todo o conteúdo estava reposto na caixa, James a levantou e ofereceu-se para levá-la para cima.

"Você é a vizinha nova do 201? Deixe que eu a levo para cima."

"Não precisa, obrigada" ela apanhou a caixa dos braços de James, e em seguida acrescentou "É, eu estou me mudando para o 201."

"Seremos seus vizinhos de porta então," disse James sorrindo mais uma vez "seja bem-vinda!"

"Obrigada, bem eu tenho que ir. A gente se vê," ela sorriu constrangida e, passando no meio dos dois rapazes, subiu as escadas em direção ao seu apartamento.

Achar um rapaz charmoso e ficar encantada por ele não é trair o seu noivo, concluiu em seus pensamentos.

Bem, isso, realmente não era.

"James?"

Se Sirius não tivesse lhe chamado, ele provavelmente teria ficado o dia todo ali, encarando as escadas, atordoado com a beleza da jovem que acabara de conhecer.

"Ah, o quê?" disse ele confuso, virando-se para o amigo.

"Ficou encantado pela garota, não foi?" Sirius perguntou, sorrindo maliciosamente.

"Bem, você não viu como ela era linda?" disse James, voltando sua atenção para as escadas, como se a garota ainda estivesse ali.

"É, era uma garota atraente," concordou. "Mas isso não significa que você precisa ficar de boca aberta que nem um idiota olhando para o nada."

James revirou os olhos e caminhou para a saída do prédio.

"Cala a boca, Sirius, e vamos embora antes que a gente se atrase," disse ele mal-humorado, tentando mudar de assunto.

"Não era você quem estava sem pressa?" ouviu Sirius debochando, mas seus pensamentos voltaram para a ruiva com quem esbarrara há poucos minutos atrás.

Ela era realmente linda. Os cabelos longos e ruivos desciam como uma cascata pelo seu rosto delicado e por seus ombros. Os olhos, os olhos eram os mais verdes que ele já havia visto em toda a sua vida. Não era uma beleza comum, como se vê em qualquer mulher hoje em dia, mas também não era uma beleza vulgar, que se vê naquelas mulheres que chamam mais atenção. Era diferente. Ela era diferente.

Mas o que ficaria diferente a partir de agora era sua vida.

Passou-se uma semana desde a mudança de Lily para o pequeno apartamento, e foi esse tempo que ela levou para finalmente conseguir colocar tudo no lugar. Aquela semana foi dividida entre o trabalho, a escolha do cardápio do Buffet de seu casamento, jantares com Matthew e quando ela estava em casa, colocava tudo em seu devido lugar.

Ela não havia conhecido muitos outros vizinhos se não os da porta a sua frente, mas não chegara a conversar muito com eles. Foram apenas "bom-dias" e "boas-noites" quando se cruzavam pelos corredores do prédio. James sempre era o que dava o maior sorriso, e o outro, Sirius, ela ouvira uma vez James o chamar, sempre olhava de James para ela de uma maneira maliciosa, como se estivesse vendo algo que ela não pudesse ver.

Ela só esperava que não fosse porque ele tivesse percebido que ela corava toda vez que via o rapaz.

Talvez fosse apenas impressão dela, afinal, eles mal se conheciam, e eles ainda nem sabiam o seu nome.

E ela corar a cada vez que via James era um bom motivo para começar a se preocupar. Ainda bem que ela nunca havia o visto quando estava com Matthew.

Ela estava voltando para seu apartamento após levar o lixo para baixo no domingo de manhã quando encontrou com James saindo de seu apartamento.

"Bom dia, vizinha!" cumprimentou ele sorrindo e levando uma mão ao seu cabelo. Quanto mais ele repetia esse gesto, mais Lily achava a mania adorável.

"Bom dia, James," cumprimentou ela de volta. "Já vai passear assim tão cedo?" Opa, porque eu fui dizer isto?

"Vou apenas dar uma caminhada," respondeu, e depois acrescentou rapidamente, "ei, sabe de uma coisa? Você ainda não me disse seu nome."

Lily sorriu e sentiu seu rosto corar mais uma vez. Droga!

"Lily," respondeu tímida.

"Lily," repetiu ele. "É um prazer em conhecê-la, cara Lily," disse em um tom teatral que a fez rir de uma forma que ela considerou ridícula. Ele sorriu para ela em resposta. "Vamos combinar alguma coisa, alguma hora dessas?"

Lily corou ainda mais. "É, vamos."

Ele acenou para ela e desceu as escadas.

Lily Evans! Você acaba de aceitar um convite de um recém-conhecido para sair? Você esqueceu que é comprometida? É melhor dizer a James que você não pode sair com ele, antes que Matthew descubra.

Mas naquele exato momento, Lily não estava nem um pouco afim de dar atenção a sua consciência.

Os pensamentos de James estavam longe enquanto ele caminhava naquela manhã. Lily, era esse o nome dela. Ela disse que faria alguma coisa comigo uma hora dessas. Será que devo convidá-la de verdade para sair?

"Remus, você não vai acreditar," disse James quando parou na casa do amigo durante sua caminhada. "Lembra da vizinha nova que te falei?"

Remus suspirou. James não entendeu o porquê de Remus estar aborrecido com um assunto tão importante quanto este.

"Lembro," disse ele entediado.

"O nome dela é Lily," James contou solenemente.

"É?"

"É," respondeu, "e eu meio que a convidei para sair."

"E o que ela disse?" perguntou, começando a se interessar pelo assunto.

"Ela disse que sim," James sentiu um frio no estômago ao contar aquilo ao amigo, sensação que ele nunca havia sentindo antes.

"James," começou Remus, "você está se apaixonando por ela?"

"Apaixonando?" James franziu a testa. "Não, eu nunca me apaixonei antes. Não estou apaixonado."

"Não é o que está parecendo," Remus contrapôs.

"Não, eu não estou apaixonado," disse James decidido, e depois murmurou num tom tão baixo que não saberia dizer se Remus ouvira, "eu acho."

Lily ouviu o som de três batidas em sua porta. Desligou a TV e foi atendê-la. Sentiu um frio repentino em sua barriga quando constatou quem era.

Era James.

"Olá, J-James," disse ela, desejando que não estivesse gaguejando.

"Oi, Lily," respondeu ele. Como sempre, sua mão voara imediatamente para o cabelo.

Os dois ficaram se encarando por alguns segundos.

"Você quer alguma coisa?" perguntou Lily, encostando-se no batente da porta.

"Ah, sim," disse James, como se tivesse acabado de se lembrar o que queria dizer. "Nós pedimos pizza, e pensei em chamar você para se juntar a gente, se quiser."

Lily corou. "Eu não vou incomodar?"

"Claro que não," James apressou-se em responder. "Vamos!"

Lily hesitou por um momento e depois concordou.

"Tudo bem." Ela apanhou suas chaves e acompanhou James para o apartamento do rapaz.

Chegando lá, ela notou a presença de dois outros rapazes que ela não conhecia.

"Ah, você não me disse que tinha visitas," disse ela sem jeito.

"Não tem problema, eles já são de casa," respondeu James a vontade. Ele apontou para os dois rapazes sentados no sofá maior. "Lily, esses são Remus e Peter."

"Olá, Lily!" cumprimentaram os dois.

"Oi, Lily!" disse Sirius sorridente. Ele é mais bonito que James. Porque eu não sinto nada quando o vejo?

"Fique a vontade, Lily," James ergueu o braço, convidando-a para se sentar. E lá vem o arrepio de novo!

Ela ainda sentiria muito este arrepio.

"E aí, o que vocês acharam dela?" perguntou James aos amigos, depois que Lily havia se retirado.

"Ela é linda mesmo, James. Acho que você deveria investir," encorajou Peter.

"É, e você está apaixonado mesmo. Eu tenho certeza," concluiu Remus.

James suspirou.

"Como você tem tanta certeza disso?" perguntou James, sem saber se realmente queria ouvir a verdade.

"Você olha de um jeito todo abobado para ela, e você nunca esteve tão idiota antes," quem respondeu foi Sirius.

James ignorou a resposta do amigo e olhou para Remus, esperando alguma resposta sensata.

"Bem, James, por incrível que pareça, o Sirius está certo,"

"EI!"

"Mas acho que você não precisa se desesperar," continuou Remus, sem dar atenção ao protesto de Sirius.

"Por que" perguntou James. Se é isso mesmo, vamos ao que interessa.

"Ela também olha diferente para você," explicou.

James sorriu. Ele não sabia dizer por que, mas havia ficado muito feliz com aquilo.

Quando Lily chegou em seu apartamento após o jantar com James e seus amigos, logo constatou que havia uma chamada perdida em seu celular. Era de Matthew. Uma mensagem dele combinava um almoço para o dia seguinte.

Ela respondeu a mensagem confirmando o almoço. Não queria ligar para ele aquela hora. Isto poderia levar a perguntas e ela não estava afim de discutir com ninguém naquele momento.

Na verdade, os seus pensamentos estavam em James. Afinal, o que ela sentia por ele? Uma afeição, talvez? Mas ela não havia sentido isso com nenhum dos outros rapazes. Atração física? Ele era um rapaz com charme, não seria algo absurdo ela se sentir atraída por ele. Mas ela não era comprometida? Atração não significa que você queira se envolver com a pessoa, ou que você está apaixonada por ela. Mas atração física te deixa com a sensação de borboletas no estômago e sem ação quando vê a pessoa?

Ela tentou lembrar-se de quando sentiu isso pela última vez. Fora quando começou a se interessar em Matthew. Mas ela tinha levado tempo para se interessar nele, não tinha? Com James ela sentiu isso assim que viu ele pela primeira vez, não havia como existir amor a primeira vista, ou será que havia? Não, não. Ela não poderia estar apaixonada por James. Ela amava Matthew.

A manhã custou chegar para Lily. Ela lavou o rosto e tomou seu café da manha rapidamente antes de descer para ir ao trabalho. E para sua sorte (ironicamente ou não), a primeira pessoa que ela viu quando abriu sua porta fora James.

"Vamos descer juntos, então?" disse ele sorrindo largamente. Que belo sorriso, James.

Esse sorriso ainda daria muita dor de cabeça para ela.

"Quando você vai convidar a Lily para sair, cara?"

"Eu não sei" disse James pensativo. "Logo, eu acho."

Ele e Peter estavam almoçando no refeitório da empresa enquanto discutiam o assunto.

"Bem, tem o seu aniversário daqui a duas semanas, não tem?" sugeriu Peter.

"Hm, você quer dizer para eu fazer uma festa e convidá-la?" perguntou.

"É," respondeu o amigo com simplicidade. "Ou melhor, nós a convidamos."

"Como assim?" James franziu a testa.

"Nós vamos organizar a festa para você, vamos dizer que você não quer muita coisa. Mas nós fazemos questão de preparar alguma coisa para você," explicou. "Fica mais convincente."

James arregalou os olhos para Peter. "E não é que você é esperto, Peter?"

Era uma ótima idéia. Ela iria a minha festa, nós conversaríamos, brincaríamos e nos conheceríamos melhor...

Essa festa iria dar o que falar.

Lily logo avistou Matthew quando chegou ao restaurante.

"Olá, querido," cumprimentou-o com um beijo rápido, sentando-se a mesa junto a ele.

"Oi, Lils," Lily pode observar o semblante sério do noivo.

"O que houve, Matt?" perguntou.

"Você saiu ontem à noite?" Matthew disse num tom interrogatório.

"Não, eu apenas estava no apartamento vizinho," ela contou.

"Eu te liguei duas vezes. Por que você não levou seu celular?" continuou.

"Eu me esqueci," explicou Lily, sentindo-se aborrecida pelos questionamentos do rapaz. "Foi tudo muito rápido. James bateu na minha porta e me chamou..."

"JAMES? Bateu na sua porta? Quem é James?" Matthew a interrompeu.

"Meu vizinho," ela exclamou arregalando os olhos. "Ele me chamou para ir até o apartamento dele comer uma pizza. Estávamos nós e os amigos dele."

"Ah, então você aceita o convite de um vizinho para ir até o apartamento dele comer pizza? E nem me conta nada?" o tom de voz dele estava se elevando. Os clientes das mesas ao lado davam olhadas rápidas para eles.

"Eu te falei que foi de repente. Não era como se tivéssemos combinado," disse Lily num sussurro. Achava que eles já tinham superado a fase dos ciúmes.

"Tudo bem, mas eu não acho legal a minha noiva indo no apartamento de outro cara," insistiu ele.

"Nós somos só amigos, está bem? Podemos falar sobre o casamento agora?" Lily tentou mudar de assunto.

Matthew bufou.

Eles conversaram sobre o casamento, mas os pensamentos de Lily paravam constantemente naquele que havia sido o motivo da discussão com o noivo.

Quase duas semanas haviam se passado desde ali quando Lily recebeu uma nova visita em sua porta: Sirius.

"Olá, Lily, tudo bem?" cumprimentou ele.

"Olá, Sirius. Posso ajudar você em alguma coisa?"

"Ah, bem," começou. "Sexta-feira é o aniversário do James, sabe, e nós estamos preparando uma festinha para ele. Ele disse que não precisa de nada, sabe, mas não podemos deixar isso passar em branco. Nós vamos fazer uma reunião de amigos aqui no sábado, você está afim de vir também?"

Lily pareceu um pouco surpresa com o convite. Ir a uma festa para James? Eles não haviam feito nada juntos desde aquela pizza, a não ser os constantes, e agradáveis, encontros pelos corredores do prédio. Pensou no que Matthew iria dizer, mas por um instante decidiu que não se importava com isso.

"Tudo bem," disse ela, por fim, sorrindo. "Nos vemos no sábado, então."

"Oito horas," disse Sirius dando uma piscadela para a ruiva e voltando para seu apartamento.

Lily continuou pregada no chão.

Ela iria a festa de aniversário de James Potter.

A sexta-feira demorou a chegar para Lily Evans e James Potter – e pelo mesmo motivo.

James, quando soube que Lily havia aceitado o convite passou a gastar todas as suas horas livres (e não livres) pensando no que dizer a vizinha quando ela chagasse em seu apartamento na sexta. Sirius dizia que ele havia pirado de vez, mas James nem sequer o ouvia.

Lily preocupava-se com mais de uma coisa: primeiro, como parabenizar James. Um aperto de mão? Muito formal. Um beijo no rosto? Muito íntimo. Um abraço? É, um abraço é o melhor, mais amigável. Amigável. Segundo, o que dar de presente a ele? Uma camisa? Uma bebida? Como é difícil comprar presentes para homens. E por último: o que dizer a Matthew? Se contasse a ele, ficaria bravo. Se não contasse, ficaria mais bravo ainda. Ela já não sabia mais o que fazer. Desde a pequena discussão que tiveram por conta de James, ele liga quase todas as noites para ela, como se quisesse se certificar que ela estava realmente em casa. Talvez dizer que vou sair com algumas amigas...

O telefone de Lily tocou enquanto ela terminava de se arrumar para ir ao aniversário.

"Alô?"

"Oi, amor. Você está em casa?" ouviu a voz de Matthew dizer.

"Sim," respondeu ela. "Mas estou de saída."

"Aonde você vai?" perguntou.

"Em um aniversário," Lily achou melhor não contar de quem era o aniversário.

"E eu não fui convidado também?" ela pode perceber o tom de estranheza em sua voz.

"Não," disse ela, e então se deu conta do que ainda não havia percebido. "Na verdade, ele nem conhece você.

"Ele?" Ops! Acho que falei demais.

"É, ele é um colega novo no trabalho", mentiu. "Nem cheguei a comentar com ele que sou noiva, ainda."

Ela ouviu Matthew suspirar do outro lado da linha.

"Tudo bem. Te vejo amanhã, então, pode ser?"

"Pode," disse ela.

"Beijo, te amo."

"Eu também te amo."

Ela desligou o telefone pensativa. Ela nunca havia mentido dessa maneira para Matthew antes.

Cada vez que James ouvia a porta bater, sentia alguma coisa gritar em seu estômago.

Boa parte dos convidados já havia chegado, mas a pessoa que ele mais queria que viesse ainda não estava lá: ela.

James odiava ter que dar razão a Sirius, mas ele já não tinha como negar. Estava apaixonado por Lily Evans.

Ouviu a porta bater mais uma vez e correu para atendê-la. Sua mão voou imediatamente ao cabelo quando constatou quem era.

"Olá, Lily! Que bom que você veio!" disse ele nervoso.

"Parabéns, James!" ela lhe deu um largo sorriso e o abraçou.

James sentiu um frio subir dos pés a cabeça ao seu toque. Quando eles se separaram, percebeu que Lily estava corada. Ela ficava linda corada.

"Venha, quer beber alguma coisa?" ele estendeu a mão e ela a aceitou.

Este, com certeza, já era o seu melhor aniversário.

Fazia tempo que Lily não se divertia tanto. Ela conhecera os outros amigos e amigas de James, rira com as histórias do rapaz e gargalhara com as histórias mais constrangedoras de James que Sirius e Peter fizeram questão de contar a ela.

Em alguns momentos, Lily chegou a pensar que James estava dando mais atenção a ela do que aos outros convidados. Mas ela não se importava. Descobrira que gostava muito da companhia dele, tanto que por vezes se esquecia de que havia mais convidados no local.

Já era tarde quando Lily resolvera voltar para seu apartamento.

"Eu estou indo, James, obrigada pela companhia," disse ela dirigindo-se ao rapaz.

"Eu lhe acompanho até o corredor," disse ele em resposta, acompanhando-a até a porta.

"Feliz aniversário, James!" desejou ela mais uma vez, dando-lhe um abraço de despedida.

James não dissera nada, apenas passara seus braços em volta de sua cintura fortemente. Lily sentiu um arrepio percorrer por sua espinha, e antes que ela pudesse se soltar do abraço, James a beijou.

Desde que começara a seu relacionamento com Matthew, há cinco anos, ela não havia beijado mais ninguém, mas ela sabia que não deveria estar sentido isso pelo beijo de James. Era diferente de tudo aquilo que sentiu quando beijou Matthew pela primeira vez. Havia uma sensação de como se ela estivesse esperando aquilo há séculos, como se já conhecesse aquele sabor. Era como se apenas ali e agora fosse importante, e de nada importava o resto.

Passou a mão por seus cabelos e correspondeu ao beijo.

Ela estava apaixonada por James Potter.

James a observou sorrir encabulada quando eles separaram daquele beijo que poderia durar eternamente. Ele retribuiu o sorriso a ela antes de lhe dar mais um beijo rápido e desejar-lhe boa noite.

"Boa noite," ela respondeu baixinho, e James limitou-se em apenas observá-la se dirigindo para seu apartamento, os longos cabelos ruivos caindo como cascatas pelas suas costas.

Naquela noite, James sonhou com um chalé simples em um pequeno vilarejo, e um bebê de cabelos negros e olhos muito verdes.

Acordou decidido a falar com Lily.

Ele esperou ouvir algum movimento no corredor para sair de dentro de seu apartamento. James notou Lily corar quando o viu.

"Ah, bom dia, James," dia ela sorrindo de leve.

"Bom dia, Lily," disse ele casual, aproximando-se dela. "Escute, sobre ontem à noite..."

"Tudo bem," Lily interrompeu-o, "você não precisa falar nada."

"Não," foi a vez de James a interromper. "Eu preciso falar com você."

Ele olhou fundo nos olhos verdes da garota e sentiu que poderia se perder neles.

"Você está livre hoje à noite?" continuou. "Poderíamos ir jantar em algum lugar."

Lily permaneceu calada com o convite de James. Jantar com ele? Ela não poderia, não seria correto. Mas porque isso soava tão atraente?

E então se lembrou que havia combinado de se encontrar com Matthew. Suspirou.

"Me desculpe, James," respondeu ela. "Hoje eu não posso. Que tal na segunda?" – Ei! A última parte não era para ter saído em voz alta!

James lhe deu um daqueles seus sorrisos cativantes.

"Segunda está ótimo! Eu passo aqui as sete, está bem?" ele a olhava com uma espécie de adoração, e ela sentia estranhamente bem com isso.

James voltou para seu apartamento e Lily desceu as escadas pensativas.

James era um cara incrível, ela sabia disso. Mas isso não seria motivo para ela estar se apaixonando por ele, ou será que seria? Além do mais, se apaixonar por ele era errado, muito errado. Ela já tinha Matt, que sempre fora tão gentil com ela.

Matthew. É. Era isso. Seu lugar era com Matt. Hoje ela iria passar o dia e se divertir com ele, seu futuro marido. Ela iria cancelar seu jantar com James e contar a ele que era comprometida...

Ou ela poderia ir ao jantar e deixar para contar lá.

Mas Matt não iria gostar de saber disso – se bem que ele não precisava saber.

E ela descobriu que estava mais ansiosa para o jantar com James do que ver Matthew.

Decidiu afastar James de sua cabeça e curtir seu dia com o noivo. Ela o amava, eles estavam juntos há cinco anos, anos em que ela fora muito feliz. Eles iriam se casar, ter o mesmo sobrenome, dividir a mesma casa, e um dia construiriam uma família. Ele era um rapaz responsável, que tinha uma boa profissão, que desejava crescer na vida, que tinha planos para o futuro. Como poderia haver alguém mais perfeito para ela?

É. Ela conhecia James há apenas dois meses, e se divertira em todos os pequenos minutos que passou com ele, ele era um rapaz mais espontâneo, que gostava de curtir a vida, totalmente imprevisível, e eram esses detalhes que faziam com que ela apreciasse tanto sua companhia. Seria ela mais feliz com James do que com Matthew?

Não. Seu lugar era ao lado de Matthew. Seu noivo.

Fechou os olhos e tentou imaginar o dia de seu casamento. Ela entrava na igreja vestida de noiva, Matt a esperava no altar sorrindo apaixonadamente. Lily se aproximava cada vez mais dele. James deu alguns passos, tomou a sua mão, e levou-a para o altar.

Ah! Ela tinha que fazer alguma coisa.

James andava nervosamente em volta de sua sala. Chegara o grande dia em que iria jantar com Lily, e estava aguardando mais alguns minutos para ir chamá-la. Não queria parecer muito ansioso. Olhou para seu relógio. 7:02. Estou dois minutos atrasado, já é mais do que suficiente. Ele deu mais uma olhada em seu visual no espelho e virou-se para Sirius, que no momento se encontrava atirado no sofá assistindo a algum programa qualquer na televisão – ou fingindo que assistia, por que ele estava mais interessado em debochar de James.

"Sirius, eu estou indo," anunciou.

Sirius deu uma risada alta antes de responder. "Boa sorte com a ruivinha, James."

James não respondeu. Levando uma de suas mãos ao cabelo, abriu a porta de seu apartamento para atravessar o corredor e bater na de Lily. Ela não demorou a atender.

"Olá, James. Você veio cedo!" cumprimentou ela animada. Ela estava mais linda do que nunca naquela noite. Seus cabelos pareciam mais volumosos, e seu leve vestido preto realçava seus olhos muito verdes. James viu Lily corar e percebeu que ele estava a encarando.

"Vamos, então?" perguntou ele, nervoso.

"Vamos," disse Lily em meio a um suspiro.

James era realmente incrível. Doía pensar que teria que dizer a ele que era comprometida. Se bem que ele não tentara fazer nada com ela até agora, ficaram apenas conversando. Ele nem tocara no assunto sobre o beijo ainda...

"Ah, Lily," disse ele hesitante, passando a mão pelos cabelos. "Eu queria conversar com você sobre o que aconteceu naquela noite..."

"James, não," interrompeu-o. "Você não precisa dizer nada. Na verdade, sou eu que devo lhe confessar algo."

"Tudo bem," disse ele. "Mas eu só preciso dizer que o que aconteceu naquela noite," ele pegou em sua mão e ela sentiu um arrepio percorrer de seu braço até sua nuca, "não foi por simples acaso."

Lily o encarou perplexa. Ele não ia dizer o que ela estava pensando, iria.

"Eu..." continuou, fazendo uma pausa para dar uma respiração profunda. "Eu te beijei porque... porque eu estou apaixonado por você."

Lily continuou a o encarar, esquecendo-se momentaneamente do que precisava dizer a ele. Ele disse que estava apaixonado por ela. Como ela poderia contar a ele que era comprometida depois disso? Ela não queria o vê-lo triste. E porque cargas d'água ela estava sentindo-se feliz e com borboletas no estômago por causa disso?

"James, eu..." começou ela, mas James a interrompeu, colocando a mão que não estava sobre a dela em seus lábios.

"Me desculpe se te assustei," disse ele, parecendo um pouco mais confortável por ter revelado aquilo, e ao mesmo tempo, constrangido. "Você não precisa me responder nada agora. Mas eu precisava te confessar isso. Eu senti algo diferente desde a primeira vez que te vi, quando nos esbarramos no dia de sua mudança. Eu nunca senti isso por ninguém em toda a minha vida."

Lily olhou fundos nos olhos de James e viu que não havia nenhuma mentira no que falava. Ela segurou o impulso de beijá-lo (e trair o noivo) para finalmente dizer alguma coisa.

"James," suspirou. "Eu nem sei o que te dizer eu... eu... queria poder..." ela parou de gaguejar para encarar mais uma vez os olhos do rapaz. Eu não posso esconder dele que sou noiva, mas também não posso esconder que sinto algo por ele. "Eu queria ter te contado isso antes mas... eu não consegui."

"Contar o quê?" perguntou James com a voz calma, apertando sua mão contra a dela.

"Eu também sinto alguma coisa por você, mas," ela acrescentou o "mas" rapidamente, ao ver um sorriso começar a brotar nos lábios de James. Ele parou de sorrir e ela continuou. "Mas eu sou comprometida."

Fizeram-se segundos tenebrosos de silêncio

"O quê?" perguntou ele em voz baixa. E Lily sentiu que poderia morrer se ouvisse mais uma vez este tom triste em sua voz.

"Eu estou noiva," disse ela, mostrando a ele a aliança mão direita. "Eu nunca te falei, você nunca percebeu," suspirou fundo. "E nós nos aproximamos."

James soltou de sua mão, parecendo arrasado.

"Mas... Mas por que então você correspondeu ao beijo? Por que aceitou de sair comigo? Por que deixou que nos aproximássemos tanto."

"Porque eu não consegui evitar," disse ela com a voz fraca. "Eu não consegui. Eu sei que isso foi errado. Foi errado com você, comigo e principalmente com meu noivo. Mas toda a vez que eu via você," ela respirou fundo e segurou as lágrimas. "Toda a vez que eu via você, eu parecia me esquecer desses detalhes. E não me preocupava com mais nada."

Eles se encararam por alguns segundos e ela continuou com seu discurso.

"Eu não sei o que está acontecendo comigo. Eu só sei que eu posso estar apaixonada por você. E por mais que isso soe errado, eu não consigo aceitar que seja."

Ela terminou de falar a baixou a cabeça, levando as mãos ao rosto. Quando voltou sua atenção a James, notou uma nova expressão decidida em seu rosto.

"Então me deixe te ajudar a tirar essa dúvida," disse ele, antes de se aproximar dela e a beijar apaixonadamente.

Um dia, talvez, ela saberia que não havia dúvida nenhuma.

Lily acordara no dia seguinte sem saber se a noite anterior havia sido um sonho ou não. E como em um filme, ela lembrou-se de todos os acontecimentos de seu encontro com James: ele batendo em sua porta, tímido. Ele fazendo-a rir com suas histórias, e confessando que estava apaixonado. Ela contando que era noiva e tudo o que sentia. O beijo. O olhar. O outro beijo. E o outro, e todos os outros. O beijo de boa noite. O sono tranqüilo.

Voltou a pensar em Matthew. Ela não poderia fazer isso com ele. Era errado. Queria poder contar a ele o que estava acontecendo, mas tinha medo de sua reação. Não queria perdê-lo. Ela sabia que o amava.

Assim como ela sabia que também sentia algo muito forte por James.

Ela sabia que tinha uma decisão a ser tomada. Ela não podia enganar Matt, assim como também sabia que não podia enrolar James. Ela não queria enrolar James.

Ela poderia dizer a Matthew que estava se interessando por outra pessoa, mas não queria romper seu noivado. Ela poderia dizer a James que não poderiam ficar juntos, mas ela não queria ficar longe de James.

"Arh!" ela exclamou, pressionando seu rosto contra o travesseiro. Atirou-se para fora da cama e foi até o banheiro lavar seu rosto. Fitou-se no espelho: os últimos vestígios da maquiagem que usara ontem ainda se encontravam em seus olhos.

Suspirando, trocou de roupa e tomou um café rápido antes de sair para trabalhar. Lily estava decidia a ser concentrar totalmente em seu trabalho naquela manhã. Precisava ocupar sua mente com outras coisas.

"Lily, que cara é essa?" perguntou sua melhor amiga e colega, Mary, quando chegou na clínica.

"Como assim que cara é essa?" perguntou, sem querer tocar no assunto.

"Dá para ver em seu rosto que você saiu ontem à noite. Você nunca vem trabalhar com tanto lápis no olho e você está com um olhar bem cansado. Parece preocupada. O que houve? Você e o Matthew brigaram?"

"Não," respondeu ela com um suspiro, atirando-se em sua cadeira.

"Então?"

Lily viu a expressão curiosa da amiga e soube que ela não iria desistir tão fácil assim. Bem, talvez fosse melhor se abrir com alguém.

"Mary," começou, no que a amiga pôs-se em uma postura mais séria em sua cadeira. "O que você faria se estivesse se interessando em outra pessoa?"

"Você está se interessando em outra pessoa?" repetiu ela perplexa. "Quem é ele, Lily? E o Matthew?"

"Ei, eu não estou te contando isso para ser interrogada, okay?" pediu Lily irritada. Ela respirou fundo e continuou. "É aquele meu vizinho, James. Eu o conheci no dia de minha mudança e desde ali temos nos aproximado muito. Ele me beijou na sexta feira passada e ontem me convidou para jantar."

"E você, foi?" perguntou, Mary, arregalando os olhos. "E o que aconteceu?"

"Ele me disse que estava apaixonado por mim," contou.

"E você... Ele sabe que você é noiva?"

"Eu contei para ele ontem," continuou. "Mas eu também disse a ele que estou confusa. Ah! Eu estou tão confusa, Mary! O que eu faço?"

Ela deitou a cabeça a sua mesa e não levantou até Mary lhe dizer séria.

"Você precisa tomar alguma decisão, amiga. E é só você quem pode saber o que é melhor. Você e Matt são noivos e estão juntos há anos, acho que vocês são perfeitos um para o outro. Mas esse tal de James parece ter mexido muito com você. Você não ficou assim nem quando começou a se interessar por Matthew."

Ela parou de falar e olhou nos olhos da amiga.

"Faça uma escolha que te faça feliz, Lily. E cuidado para não se machucar."

"Ela é NOIVA?" repetiu Sirius espantado. "Como assim? E o beijo de feliz aniversário no dia de sua festa?"

"Ela disse que estava indecisa, Sirius. Ela disse que sente alguma coisa por mim," contou.

James contara tudo que havia acontecido na noite anterior aos amigos. Este havia sido o único assunto de seus almoços naquele dia.

"E o que você disse a ela?" perguntou Remus.

"Eu disse que iria ajudá-la a se decidir. E a beijei," confessou, sorrindo constrangido.

"E ela correspondeu?" Peter arregalou os olhos. James apenas assentiu.

"O que você vai fazer agora, colega?" perguntou Sirius.

"Não sei. Eu gosto dela. E muito. Mas não quero ser feito de bobo, e também não quero a ver infeliz."

"Você precisa tomar alguma decisão, James," aconselhou Remus.

Mas a única coisa que ele havia decido até o presente momento era que ele amava Lily. E que ele estava disposto a lutar por ela até o fim.

Lily encontrou James no hall de entrada do prédio quando voltou para casa no final da tarde.

"Olá, James," cumprimentou ela, corando.

"Olá, Lils," ele se aproximou dela e a abraçou protetoramente. "Tudo bem com você?" perguntou, fazendo carinho em seus cabelos, enquanto se soltavam do abraço que fizera Lily tremer.

"Tudo bem," mentiu. Na verdade, ela não estava nada bem. Mas James pareceu ter percebido que ela não havia sido sincera.

"Olhe, me desculpe se te pressionei ontem," disse ele, e começaram a subir as escadarias juntos. "Eu vou entender se você não quiser mais falar comigo por causa disso. É lógico que você vai querer ficar com o seu noivo, mas," eles pararam em frente as suas respectivas portas. "Saiba que estou disposto a te esperar." James disse firme.

"O que você quer dizer com isso, James?" perguntou, sentindo seu coração subir a garganta.

"Que eu te amo, e não vou desistir de você tão cedo," respondeu ele, passando um de seus braços em volta de sua cintura e puxando-a para um beijo, que, sem dúvida, era o melhor que ele já havia dado nela. Lily respondeu o beijo, e naquele instante, sentiu que seria capaz de largar de tudo e ir para um lugar bem longe dali, contanto que James estivesse com ela.

Ela não sabia dizer por quanto tempo durou o beijo, mas sabia que não havia sido o suficiente. Contudo, não fora James que havia interrompido o beijo.

Foi Matt.

"Lily, o que você está fazendo?"

Os dois se separaram em um salto. Matt olhava de Lily para James com uma mistura de raiva, espanto e desprezo. Lily nunca havia visto o noivo assim.

"Lily, você pode me explicar o que está acontecendo?" disse ele nervoso, parecendo prestes a explodir.

"Matt, acalme-se, nós precisamos conversar," ela tentou acalmá-lo. Matt olhou para James.

"O que você pensa que está fazendo? Não sabe que ela é comprometida?" disse ele, aproximando-se de James.

James abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Lily o interrompeu.

"Matt, não!", disse com a voz firme, colocando-se em sua frente, e depois virou-se para James. "James, vá para dentro, depois a gente conversa,"

Ignorando os protestos indignados de Matthew, James assentiu para Lily e entrou em seu apartamento. Lily agarrou Matthew pelo pulso e o puxou para dentro do seu.

"Lily, o que foi aquilo? Então esse era seu amigo James, não é? Que tipo de amizade é essa?" seus olhos estavam arregalados e seu rosto estava vermelho.

"Matt, por favor se acalme," disse Lily em voz baixa. "Eu vou lhe explicar tudo."

"TUDO?" repetiu ele berrando. "Tudo o quê, Lily? Que você está me traindo a sabe-se lá quanto tempo? Que a pizza que você foi comer no apartamento dele naquele dia não era apenas uma pizza? Ah! E aquele aniversário provavelmente não era de alguém do seu trabalho, era? Eu não sou idiota, Lily!"

Lily sentiu seus olhos lacrimejarem. Ela não queria isso. Não queria magoar Matthew. Ela o amava e não gostava de vê-lo decepcionado por causa dela.

Matt pareceu perceber a tristeza nos olhos de Lily e se acalmou. Atirou-se no sofá e suspirou. "Por quê, Lily? Eu te amo tanto, o que eu fiz para merecer isso? Nós vamos nos casar, meu Deus! Por quê, Lily?" disse ele, sua voz já mais controlada.

"Eu também te amo, Matt" disse ela sentando-se ao seu lado. "Eu não sei o que aconteceu comigo. Eu sei que não deveria ter me envolvido com James, mas aconteceu." Ela olhou fundo nos olhos do noivo em busca de um perdão. "Me desculpe por ter mentido para você."

"Por que você disse que ia conversar com aquele idiota depois?"

"Não o chame de idiota!" Lily cortou-o.

"... Você vai acabar tudo com ele, não vai?" Matt indagou, sem dar atenção ao protesto de Lily.

O que aconteceu ao certo naquele momento, Lily não soube responder. Talvez fosse pelo fato de Lily não ter respondido a sua pergunta, ou talvez ela tenha deixado passar sua hesitação para ele. Mas Matt levantou-se decidido e olhou para ela com toda a decepção que seus olhos castanhos poderiam carregar.

"Tudo bem, Lily. Seja feliz com seu novo namoradinho," e antes que ela pudesse dizer algo, Matt virou-se em direção a porta e saiu do apartamento.

"Matt, ESPERE!" Lily correu atrás dele até a porta, mas ele não se virou. "MATT!"

Ela o viu descendo as escadas, decidido a não olhar para trás. Lily sentiu que poderia escorregar para o chão se não tivesse se encostado no batente da porta. As lágrimas já não hesitavam em cair.

Ela estragara tudo.

James ouviu o som de vozes altas vindo do corredor. Era lógico que ele estava com os ouvidos atentos em sua sala para qualquer movimento que indicasse que o tal noivo de Lily estivesse indo embora, mas ele não esperava ouvir vozes tão tensas. Principalmente a de Lily.

Ele apressou-se para chegar ao corredor e ver se ela estava bem. Ele a encontrou encostada no batente da porta, chorando compulsivamente. James sentiu um peso imenso em seu coração ao vê-la chorando. Era uma imagem quase perturbadora para ele.

James correu até ele e a abraçou com força. Ele sentiu Lily soluçar contra seu peito, e suas lágrimas molharem sua camisa. Ele massageou suas costas para tentar acalmá-la.

"Calma, Lily," disse ele baixinho. Ele notou que ela continuava a chorar, e então guiou-a para dentro de casa, fazendo com que se sentasse no sofá.

James sentou-se ao seu lado e ela imediatamente se aconchegou em seu ombro. Ele esperou até Lily se acalmar um pouco para falar.

"Ele não quis ouvir você?" perguntou, colocando uma mecha ruiva da garota atrás de sua orelha.

Lily fez que não com a cabeça. "Ele foi embora," disse ela em meio a um soluço. "Eu estraguei tudo."

"Não," disse James, tentando tranqüilizá-la. "A culpa é toda minha. Eu não deveria ter insistido em você sabendo que era comprometida."

"Não," foi a vez de Lily dizer. "Eu já estava me apaixonando por você há séculos."

"Lily, o que você..." James ia começar a falar, mas Lily o interrompeu.

"Não me deixe sozinha, por favor," ela pediu olhando fundo em seus olhos, e James soube que nunca poderia dizer não a ela.

Ele se aproximou ainda mais dela no sofá, e, segurando seu rosto com suas duas mãos, beijou de leve seus lábios, deixando que ela aprofundasse o beijo.

Lily passou seus braços em torno de seu pescoço, enlaçando seus dedos em seus cabelos rebeldes. Sentindo Lily colar seu peito contra o dele, James levou um de seus braços em torno de sua cintura, conduzindo-a para que se deitasse. Eles se separaram do beijo para apenas se ajeitarem mais confortavelmente no sofá. As mãos dele sem seus cabelos. As pernas dela em volta de sua cintura.

Ele sabia que precisava de Lily. E também sabia que ela precisava dele.

Os dias que se passaram foram resumidos em trabalho, casa e James. E por mais que ela estivesse se sentindo bem ao lado dele, ela precisava falar com Matthew. Ela não queria que as coisas terminassem assim. Ela precisava falar com ele pelo menos mais uma vez, nem que fosse para terminar.

James estava lhe tratando como um verdadeiro cavalheiro. Ele entendia que ela estava passando por um período difícil, e não a pressionava para esquecer Matthew e levava o relacionamento deles adiante.

Ela não sabia o que queria, na verdade. Ela amava ficar com James, mas sentia falta de Matthew. Sentia nojo de si mesma por desejar dois homens.

Lily estava dando o melhor de si no seu emprego, tentando esquecer um pouco de seus problemas. Ela sempre fora dedicada, mas agora, que o emprego era a única coisa certa em sua vida, resolveu se jogar ainda mais nele.

Fato que não passou despercebido aos olhos de seus chefes.

"Srta. Evans," chamou uma supervisora em certa tarde, "o senhor Roberts e eu desejamos falar com a senhorita na sala dele. Daqui há uma hora está bom para a senhorita?" perguntou ela.

"Está ótimo, senhora Thompson," respondeu Lily.

Curiosa para saber do que o assunto se tratava, Lily esperou dar a hora da reunião para se dirigir ao escritório de seu chefe.

"Os senhores desejavam falar comigo?" perguntou ela, anunciando sua chegada.

"Sim, senhorita Evans, sente-se, por favor," disse a sra. Thompson. Lily obedeceu ao pedido.

"Bem, senhorita," começou seu chefe. "Como a senhorita já deve ter ouvido falar, nós estamos tentando desenvolver novas tecnologias em nossa clínica."

Lily fez que sim com a cabeça.

"Nós recebemos uma indicação de um novo curso de cosmetologia, com tecnologia de ponta," continuou ele. Lily o encarou séria.

"Nós notamos uma grande melhora em seu desempenho, senhorita Evans, que já era excelente. E por isso achamos que você poderia ser uma de nossas funcionárias a realizar o curso. Nós nos responsabilizamos com todos os custos."

Lily finalmente conseguiu falar. "Nossa, isso é incrível! Obrigada," disse ela sorrindo. Finalmente uma notícia boa em sua vida.

"O curso é em Roma," completou sra. Thompson.

Era tudo o que ela precisava. Mais um conflito em sua cabeça. Eles havia dado a ela um tempo para pensar, mas ela achava que surtaria antes mesmo que ela pudesse dar alguma resposta a eles.

Ela ouviu um bipe em seu celular e viu que havia recebido uma nova mensagem.

Era de Matthew. "Precisamos conversar."

Lily suspirou. Ela precisava tomar alguma decisão em sua vida.

James sentiu Lily tensa enquanto ele depositava beijos leves em seu pescoço. Alguma coisa estava a incomodando. Ele só não esperava que fosse relacionado ao seu noivo, ou ex-noivo, espero.

"Lily, você está bem?" perguntou, afastando-se dela apenas o suficiente para encará-la. Lily não respondeu.

"O que aconteceu?" pediu ele mais uma vez, sentando-se na cama.

"Eu recebi uma proposta para fazer um curso. Em Roma," contou, também se sentando.

James sentiu seu coração derreter. Ela não podia ir embora. "E você aceitou?" perguntou esperançoso.

"Eu ainda não dei resposta," respondeu ela, e James sentiu que nem tudo estava perdido. Ele fez menção de voltar a abraçá-la, mas ela continuou a falar. "Matt me mandou uma mensagem. Ele quer falar comigo."

James apenas a encarou. Ela não poderia estar falando sério. Achava que ela já estivesse superando essa fase, que estava disposta a esquecê-lo. Ele estava fazendo de tudo para ajudá-la a esquecê-lo.

"Eu vou jantar com ele amanhã," disse ela baixinho.

"Por que, Lily? Achei que você estava queria esquecê-lo. Você não está comigo agora?" perguntou ele, arrasado.

"Estou," disse ela, passando a mão em seu rosto. "Mas eu preciso conversar com ele, está bem?"

"E se ele quiser voltar?" perguntou, e recebeu um silêncio como resposta. "Lily?"

"Ele é meu noivo, James. Ficamos juntos por cinco anos," Lily respondeu desesperada.

James suspirou, depositando um beijo em sua têmpora antes de se levantar. "Me chame quando você se decidir, está bem?" e saiu do quarto.

Ele não queria ficar longe de Lily, não queria. Mas ele queria tê-la de verdade, para sempre.

Lily se aproximou em silêncio da mesa onde Matt se encontrava. Matt se levantou para cumprimentá-la com um abraço e um beijo em seu rosto.

"Como você está?" perguntou Lily, quando ambos já haviam se sentado.

"Eu vou bem," respondeu ele casualmente. "Estive pensando em tudo o que aconteceu."

Lily assentiu para que ele prosseguisse.

"Porque você se interessou por aquele cara?" perguntou com a voz calma. Lily suspirou.

"Foi tudo muito de repente. Ele me chamou a atenção desde a primeira vez que eu o vi. E aconteceu dele começar a se interessar por mim também. Ele não sabia que eu era noiva," contou.

"E quando foi que você contou a ele que era noiva?"

"Ele me chamou para sair uma vez. Aquele aniversário que eu fui, era verdade, era dele mesmo. Até aquele dia nós éramos apenas amigos. Então ele me beijou e eu acabei correspondendo. Depois disso que ele me chamou para sair, e lá eu contei a ele."

"E porque você não disse isso naquela hora mesmo, você não tentou evitá-lo?" ele manteve a voz calma, parecia ter se preparado muito para isso.

Lily balançou a cabeça. "Eu não consegui. Não sei porque, mas eu não conseguia evitá-lo. Eu me descobri realmente interessada nele, mesmo sabendo que era errado. Eu dizia a mim mesma que o que eu estava fazendo era errado, principalmente para você. Não queria te machucar. Eu estava muito confusa."

"Você gosta dele?" perguntou decidido, olhando firme nos olhos da ruiva.

"Acho que sim. Ele sempre ficou do meu lado, mesmo sabendo que eu era comprometida e estava confusa."

"Vocês ainda estão juntos?"

Lily balançou a cabeça mais uma vez, e sentiu uma imensa tristeza percorrer seu corpo.

"Eu contei a ele que você queria falar comigo. Ele perguntou o que eu faria se você ainda quisesse se casar comigo, e eu não respondi nada. Disse-me para que o chamasse quando eu decidisse."

"Ele gosta de você. Mas está cansado dessa sua indecisão," explicou Matthew. Lily admirou-se como ele poderia ter sido tão compreensivo com James.

"E eu também recebi um convite para estudar em Roma," continuou ela. Dessa vez, Matthew não disse nada.

Os dois fitaram-se em silêncio por alguns segundos.

"E o que você quer fazer?" foi a vez de Lily perguntar.

"Lily," começou, "eu fiquei com muita raiva de você naquele dia, de você e de James. Depois eu parei para pensar em tudo o que aconteceu desde que você se mudou para lá e analisando tudo o que você me falou agora, vejo que talvez não era para ser." Disse ele.

"Como assim?" perguntou Lily, sem entender.

"Eu sempre achei que te amava. Eu ainda te amo. Mas seu olho brilha quando fala de James e você pareceu muito triste quando disse que ele te deixou. Você gosta dele." Ele a encarou decidido.

"Eu gosto de você também," disse Lily com a voz fraca. Matt fez que não com a cabeça, sorrindo de leve.

"Não da mesma forma que ele. Vocês tiveram um amor a primeira vista Lily, a sua história com ele foi muito diferente da que foi comigo. Você gosta dele e por mais que eu odeie admitir isso, eu sei que ele vai te fazer feliz. E é só com isso que eu me importo."

Lily retribuiu seu sorriso. "E quanto a Roma. James deve não gostar de idéia, eu não gostaria. Mas é você quem ter que decidir."

Ele pegou a sua mão e a beijou. "Boa sorte, Lily. E seja feliz."

E, dizendo isso, partiu para que seus destinos se separassem para sempre.

Ela leu o folder do curso centenas de vezes antes de tomar sua decisão. Sua vida havida mudado muito desde que se mudara para aquele prédio. Ela precisava de novos ares.

Ela já não tinha mais Matt. Cruzara com James duas vezes naquela semana, mas nunca conseguia tomar coragem de falar com ele, e ele não tentou procurá-la.

Lily comunicou sua decisão de ir para Roma a sua supervisora e ambas trataram de organizar a mudança. Três anos longe dali fariam muito bem a ela.

No dia de sua partida, enquanto descia com sua última mala, ela encontrou com James e Sirius chegando em casa. James congelou seu olhar na mala em sua mão. Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas parecia estar sem voz.

"Ah, então, James, eu vou estar ali dentro, se você precisar e..." Sirius parou de falar, dando de ombros, e entrou em seu apartamento.

Eles se encararam por longos segundos até James perguntar.

"Então você vai embora?"

Lily assentiu. "Eu preciso. Aconteceu muita coisa em minha vida. Preciso me distrair um pouco."

"E o seu noivo?" perguntou, desviando seu olhar dela pela primeira vez.

"Nós terminamos. Não era para ser," disse ela.

James tornou a encará-la. "Então não vá embora," pediu ele, pegando sua mão. "Fique comigo, eu prometo que vou te fazer a mulher mais feliz desse mundo, Lily."

Por um instante, Lily teve vontade de jogar tudo para o alto e dizer a James que viveria com ele para sempre, mas ela soube que não era a decisão certa a ser tomada.

"Sinto muito, James. O que aconteceu entre a gente foi incrível, mas nós não começamos certo. Eu passei por muita coisa. Preciso de um tempo para mim," ela apertou ainda mais sua mão contra a dele.

"Quanto tempo você vai ficar fora?" perguntou.

"Três anos," respondeu.

"Então acho que esse é o fim, não é?" disse ele, os olhos mais tristes do que nunca.

"Adeus, James," ela ficou na ponta dos pés para lhe beijar os lábios. O último beijo. O beijo de despedida.

"Adeus, Lily," disse ela, quando se separaram do beijo. Suas testas ainda encostadas.

Lily fez força para se afastar totalmente dele e apanhou sua mala. Ela deu uma olhada rápida nele mais uma vez e sorriu triste, para então caminhar pelas escadas.

James a encarava a suas costas.

"Lily?" chamou ele.

"Sim?" respondeu ela, virando-se para ele.

"Você acha que um dia, talvez, a gente possa se reencontrar e começarmos tudo de novo?" perguntou, seu peito enchendo-se de esperança.

Lily sorriu fracamente. "É, talvez." E tornou seu caminho para longe de James.

Um dia, talvez.


Nota: Todas as fics que fizeram para esse projeto me enchem de orgulho e tal. E essa ENORME e especialmente querida. Era uma das propostas mais difíces e trabalhosas e ficou um amor!