Mais gente, é.
Hahaha
Cap. II – Runaway
Lisbon ficou revezando entre a consciência e o desmaio durante o vôo todo. Agora ela viajava sentada numa das poltronas, com o cinto bem afivelado e longe de qualquer arma que pudesse encontrar.
"Jane, eu te odeio…" Ela murmurou ao acordar mais uma vez, com os olhos quase fechados. "Me deixe em paz." Ela não sonhava. Apenas aproveitava a oportunidade de estar acordada pra deixar claro que não queria estar ali e que era tudo culpa minha.
Mashburn estava na poltrona ao lado da dela. Acariciava sua cabeça com cuidado, como se ela fosse um bebê a dormir. Vez ou outra, me encarava. Dava pra ler em seus olhos que estava espantado com meu estado. Não dormia bem há muito tempo. Meus ombros estavam caídos, cansados. Acho que minha barba estava por fazer. Estava completamente decadente.
Era a situação de quem havia perdido tudo, e mais que isso, feito quem ama perder tudo.
A única coisa que restava à Lisbon era a vida.
E mesmo esta começava a escapar-lhe.
"Eu não quero ser uma fugitiva." Murmurava Lisbon, de olhos fechados.
"Você não é. Não fez nada de errado. Só está lutando pela sua vida." Disse Mashburn, baixo, no ouvido dela.
Meus sentimentos por Lisbon me causavam uma confusão imensa de sensações. Junto com o amor, o natural, alegria. Mas me dava medo. Medo que os ecos do meu passado voltassem. Eu não queria perdê-la. E o medo de perder nos faz jogar com cautela. Pensar antes de agir. Nos torna lentos. Bloqueia as atitudes.
Não se engane pela palavra alegria.
Esta era limitada a simplesmente poder vê-la dormir.
Era o único raio de bons sentimentos que havia naquele momento.
Afinal, ela me odiava.
E, sendo um mentalista, não consegui, até agora, rastrear uma única fagulha de amor vindo daqueles olhos. O que quer que ela sentisse por mim, simplesmente desapareceu.
Mashburn olhou pela janela e avisou que logo estaríamos pousando. Usou seu celular para ligar pro hospital e pedir uma ambulância no aeroporto com urgência. Não tínhamos tempo para nada. Em questão de horas, haveria policiais atrás de nós. Seu celular ainda tocou outra vez, e ele atendeu depressa. Fiquei receoso quando à essa ligação. Ele olhou para mim e fez sinal para que não me preocupasse. Voltou-se ao telefone e disse: "Como não sabe? O vizinho da besta, seu patife." E desligou, voltando-se para mim. "Paguei uma fortuna pra esse celular não ser rastreavel, relaxe."
Tiramos Lisbon da poltrona e ele a carregou para fora tão logo o avião pousara. A ambulância já estava parada, esperando.
"Vá com ela". Disse Mashburn. "Vou mandar trazer meu carro e logo estarei lá".
Entrei na ambulância, onde ela havia sido imobilizada. Despertou por breves segundos mais uma vez. "Onde está Walter?".
"Ele vai chegar logo. Acalme-se".
Então ela fechou os olhos, e esse foi o último lapso que teve até chegarmos no hospital.
Quando seu passado insiste em te aterrorizar, não há nada pra se fazer a não ser enfrentá-lo mais uma vez.
Eu já tinha virado as costas para Red John e tudo que ele representava, mas seu fantasma ainda não me deixaria em paz por um bom tempo.
Pensei nisso tudo quando vi um homem entrando na sala de espera e olhando para mim, como se me conhecesse.
Vi em seus olhos um ódio muito familiar. Porém ele desviou-se rápido de minha análise e voltou-se à recepcionista.
Segui-o com os olhos. Ele entrou na área indicada apenas para pacientes, médicos e acompanhantes.
Mashburn chegou logo em seguida, e correu até mim, imediatamente estranhando por que eu havia me levantado.
Não tive tempo para responder-lhe. Fui apressadamente até a porta por onde o homem entrou e a abri. Uma enfermeira barrou minha passagem. O vi bem ao fundo, andando rápido, com uma mão dentro da camisa.
Corri.
Mashburn atrás de mim pensou duas vezes antes de me seguir, mas o fez.
Corri como se minha vida dependesse disso.
Pensando bem, dependia.
O homem olhou para trás e, ao me ver correndo, pôs-se a correr também. O caminho todo que fazia era muito óbvio: direto para o quarto de Lisbon.
COOOORRE, JANE!
