SAMSÂRA
(XIV Mandala)
Makrinitsa, Região deMagnésia, Grécia
As nuvens altas aproximavam-se emergindo com vagar, tal um manto longínquo que crescia da linha do horizonte a poente. De aspecto grumoso e vagamente acinzentadas, avançavam pelo mar em direcção à encosta de Makrinitsa, cobrindo o sol de Outono que em tempo normal iluminava o lençol resplandecente do mar com a sua claridade fria e transparente. O vento soprava de forma cadenciada espalhando as folhas castanhas e avermelhadas do Outono pelas ruelas da aldeia, deixando os ramos das árvores numa nudez quase total.
Ao seu sentido de olfacto chegava um delicioso aroma a lenha queimada, que fugia das chaminés de lareira acesa. Respirou pausadamente, deixando os olhos verdes fecharem-se aos poucos e cedendo àquele estranho torpor no qual era capturado ultimamente. Tudo na casa ainda dormitava à meia-luz no decorrer fresco do final da manhã, silencio apenas perturbado pelo ranger casual de uma madeira, pelo tiquetaque hipnótico do relógio de parede e o ocasional palrar das gaivotas que fugiam à tempestade marítima.
Deixou os ombros descaírem, o corpo cansado acomodar-se no cadeirão que o amparava todas as manhas nas últimas semanas. Não conseguia dormir, a sua mente fervilhante não lhe permitia descanso. A quietude que a sua alma tinha provado nos primeiros dias naquele lugar paradisíaco começava a esvanecer-se, quase lhe parecendo uma memória longínqua na qual a sua alma atormentada ainda parecia ter salvação.
"…derrubar o Grande Mestre…"
Kanon.
Os olhos tremiam-lhe, o ressurgimento daquela voz vinda directamente do reino de Hades para atormentá-lo. O sentimento de culpa atacava-o novamente, como uma besta que tinha conseguido manter adormecida na sua alma. Uma fera selvagem e sedenta que, apos longas semanas em hibernação, acordava para saciar a fome acumulada devorando-lhe o espírito enfraquecido.
Estava perdido. A cada momento de sonolência ouvia a voz do irmão chamando por ele. A cada despertar via-lhe o rosto desfigurado pela dor.
Estremeceu. Tudo naquele lugar edénico tinha-se começado a transformar, mutando-se numa concretização dos seus maiores pesadelos. O som apaziguante do bater das ondas nas rochas que ainda chegava ao alto da encosta; os raios de sol que lhe acalentavam o âmago; o silêncio transcendental que provava nos momentos de solitude. Estava tudo perdido nos confins da sua memória. Agora só conseguia provar a repulsa que tudo aquilo lhe proporcionava. A aversão ao sol que lhe começava a queimar a alma, nojo do cadenciar das ondas pérfidas que lhe relembravam o lugar de suplício do irmão, no dia em que o deixara em Sounio para morrer.
Fez-se um súbito vazio no seu espírito. No meio do abrupto mutismo geral, apenas o tiquetaque do relógio de parede permaneceu imperturbável, reverberante no silêncio. Tique Taque... o martelar continuo daquele barulho era a única coisa que conseguia ainda ouvir. O ar que respirava saía e entrava na mesma cadência monótona daquele estranho tiquetaque.
"Tique taque…"
Tudo parecia irreal. Era como se uma nuvem negra e densa tivesse assentado sobre o mundo, sinistra e maléfica, asfixiando a luz que o fazia viver. Tinha mergulhado na vasta sombra do caos. A vida era o Sol, mas as nuvens no céu tinham sido as mensageiras do crepúsculo, aquele efémero instante em que o dia se apagava no fio do horizonte.
Os olhos verdes abriram-se numa lentidão demorada, revelando um olhar perdido, a alma ausente daquele espaço e tempo.
- Tique…taque… - a voz rouca reverberava pelas paredes de pedra, acompanhando o ritmo do relógio – tique…taque…
Estava perdido. Já não tinha forças para nadar e manter-se ao de cimo do mar da sanidade mental. Sentia sobre ele ser deitado o manto escuro da noite, aos poucos, como uma chama que se extingue lentamente até se instalar enfim uma treva opaca e abominável – Tique…taque…doze paladinos…
O fio de um sorriso percorreu o rosto de Saga, a cabeça pendendo para cima. Levantou a mão sobre o rosto tapando os raios de sol que ainda escapavam às nuvens cinzentas, observando a pouca luz que emanavam e deixavam um rasto de sombra entre os dedos.
Riu.
Aquilo que observava tinha desencadeado aquela estranha reacção - Tique… - voltou a proferir numa cadência perfeita, estranhando o som da própria voz - taque… - remexeu os dedos, vidrado no líquido vermelho e pegajoso que deles escorria e caia sobre o chão de pedra.
Estava louco.
Olhou para o sangue nas mãos com impassibilidade e, naquele instante de terrível plenitude, compreendeu que estava perdido para sempre. Já sem se conseguir conter, soltou uma sonora gargalhada, ao mesmo tempo que os seus olhos se embaciavam de lágrimas e escorriam soltas pelo rosto moreno.
"…derrubar o Grande Mestre…"
Deixou-se ficar longos minutos sentado sob a obscuridade do céu coberto apreciando e deliciando-se com a sua nova condição. Tomou naquele instante consciência de que a fronteira entre o sonho e o pesadelo era tão delicada como uma pétala atirada ao vento… a transição entre a esperança e o desespero tão ténue como um fio de seda.
Levantou-se finalmente, sentindo-se viver aquele instante em camera lenta, a terrível cena reproduzindo-se com interminável vagar. Avançou alguns passos até o limite entre a varanda e o quarto. Os olhos verdes flutuaram do pesado rasto de sangue que cobria o chão até aos seus pés para os dois corpos inertes e ensanguentados de Arles e Ekaterini estendidos no chão de mármore. Sorriu, encarando-os como dois bonecos partidos.
Quase sentindo o corpo separado da mente, Saga observou o sangue e a massa encefálica espalhados pelo chão à mistura com os cabelos grisalhos e castanhos. Riu determinado, percebendo-se subitamente anestesiado por dentro, a alma largando de reprimir o lado de fúria e insano que lhe nascia das entranhas.
- Doze paladinos brincaram com o bronze… - murmurou demente enquanto avançava pela poça de sangue, deixando pegadas à medida que se aproximava dos corpos inertes - um deles ceifou, e então ficaram onze…
Baixou-se, ajoelhando-se perto do corpo de Arles. O seu rosto abriu-se num sorriso radiante ao curvar o corpo para retirar a máscara ensanguentada que já pouco tapava da figura sem vida. A cara parcialmente desfeita pelos anos da doença e sobretudo pelo golpe que executara. Saga encarou os olhos vazios arregalados, passando a ponta dos dedos na pele enrugada e disforme da face do homem. Não admirava que nunca ninguém tivesse visto o seu rosto, de tão maltratado que se encontrava pelo tempo.
Levantou a máscara metálica à altura da cara enquanto caminhava até à cama. Sentou-se, mantendo as feições divertidas.
O ribombar longínquo dos trovões anunciava a lenta aproximação da chuva. Os olhos serenos agora avermelhados pelas lagrimas que não paravam de cair olharam o céu através da janela. Contemplou as camadas densas que se amontoavam a baixa altitude. Um enorme e opaco tecto que deslizava por toda a região; lançando uma penumbra triste e cinzenta.
O céu preparava-se para chorar com ele.
-oOo-
Santuário de Athena, região de Imitos, Grécia
- Chame mestre Chiaro! Agora!
Milo entreabriu os olhos, a primeira imagem aparecendo-lhe desfocada. Identificou um vulto branco passar diante de si, mas a visão era tão vaga e difusa que mais lhe pareceu uma alma perdida vagueando. Era uma imagem quase etérea. Escutou o barulho de passos longínquos, palavras murmuradas porém ainda incompreensíveis. A mancha nebulosa que lhe parecia uma pessoa sentou-se ao seu lado. Estava confuso, entorpecido… os olhos pesados demorava a focar as imagens, a mente divagava preguiçosa, incapaz de compreender o que se estava a passar…demasiado lenta para raciocinar.
Pense Milo! – Pensou para si próprio, os olhos desobedientes voltando a fechar-se.
Fez um esforço para se concentrar e procurou entender o que se passava.
- Rápido! – ouviu um grito feminino, antes da mesma voz murmurar ao seu ouvido – Mestre Milo… não se preocupe… esta tudo bem…
Milo arregalou os olhos, tentando desse modo libertar-se da neblina que lhe toldava a visão, e fez por apreender o que se passava à sua volta. Mas vencer o atordoamento era difícil. Tão difícil…
Fez um esforço para prender a atenção no vulto branco e os olhos focaram-no gradualmente. Era uma mulher, começou por apreender. Vestia um vestido branco que esvoaçava com a corrente de ar. Uma mulher conhecida… tinha-o chamado de "mestre", seria portanto alguém da casa. O olhar pousou-se na pulseira dourada que lhe ornamentava o braço, na qual reluzia um escorpião finamente trabalhado. Ah, claro… uma serva de Escorpião, concluiu a mente ainda empastelada.
- Mas que diabos… - a jovem olhava insistentemente para a porta, esperando por alguém que não vinha. – Como se sente mestre Milo?
- Hum… - ouviu-se murmurar. Sentia a garganta presa pela falta de uso.
O rosto delicado saiu-lhe da frente, afastou-se disparado pela porta e deixou-o sozinho no quarto. Milo olhou em redor, numa letargia despreocupada. Com algum esforço da memória, apercebeu-se que se encontrava no próprio quarto, na casa de Escorpião.
Sentiu o cansaço invadir-lhe o corpo e voltar a pesar-lhe nos olhos. Recostou-se na cama aconchegando-se na calidez dos lençóis, respirou fundo e deixou-se ir no embalo mole do sono. A dormência era excessiva para conseguir manter-se acordado muito tempo. Não se lembrava do que poderia ter acontecido para estar naquela situação, mas não fazia muita questão de pensar sobre o assunto. Suspirou fundo ajeitando as costas e deixou-se ficar amolecido, caindo gradualmente na dormência do sono.
Ao longe, bem longe, começou a ouvir passos apressados embaterem contra o chão de pedra. Avançavam rápida e impacientemente, tornando-se cada vez mais próximos. Milo remexeu-se, sentindo um arrepio percorrer-lhe a espinha, os ouvidos acordando da absurda embriaguez na qual se encontravam. Distinguiu uma voz masculina que praguejava alto à medida que se dirigia para o seu quarto. Uma voz conhecida…
- MILO!
Com um abrir repentino de olhos, Milo inclinou a cabeça e com esforço tentou adivinhar o vulto que cruzava a porta. Viu o homem que entrava disparado, revestindo uma armadura dourada que reluzia com a pouca luz que lhe entrava pela janela através da cortina, a longa capa branca que balançava fazendo um barulho trapeado.
- MILO DE ESCORPIÃO! - o grego sobressaltou na cama, sentindo os lençóis serem repuxados com força – Nem pense em voltar a dormir, criatura! Depois de tudo o que passei para o manter em vida!
Milo abanou a cabeça numa tentativa de afastar o atordoamento. Os seus olhos arregalaram-se, revelando genuína preocupação pelo que acontecia à sua volta. Sentiu uma descarga de adrenalina percorrer-lhe o corpo obrigando-o a sentar-se na cama, os olhos vidrados na figura majestosa do mestre envergando a armadura de escorpião. Atrás dele, parecendo travar uma luta psicológica para decidir se entrava naquele confronto ou não, a serva que tinha ficado ao seu lado quando acordou – Mestre Chiaro… - cambaleou ao seu alcance – Mestre Milo acabou de acordar… talvez não…
Um simples olhar do italiano, fora o suficiente para calar qualquer tentativa de acção. A jovem baixou o rosto obediente, intimidada, e com uma vénia curta e um balbuciar de palavras soltas voltou as costas e saiu pela porta.
- Agora nós… - Chiaro disse finalmente, a voz num tom contido, como um leão que oculta o rugido feroz por baixo de um ronronar manso. Voltou a fitar o mais novo, o olhar faiscante parecendo trespassá-lo por completo.
Milo estremeceu e, pela primeira vez na sua vida, sentiu realmente medo do homem que tratava por mestre.
-oOo-
Foi com alguma surpresa que, na sua busca pelo irmão, Aioros se deparou com uma cena de alguma estranheza ao percorrer os campos áridos que circundavam o Santuário. Tudo bem que aquele era um espaço resguardado e propício a todo o tipo de actividades… e sobretudo era o caminho predilecto dos desertores para escaparem às patrulhas! Mas com um anfiteatro tão amplo e com tantas condições, quem iria querer treinar ali, isolado de todos?
Libertou um longo suspiro, abancando numa das poucas rochas que cercavam a arena improvisada e distraiu-se a observar o treino do mestre e pupilo.
O longo cabelo negro de Sahîr preso num rabo de cavalo baixo como poucas vezes o tinha visto, agitava-se a cada soco suportado pelo pupilo. Não estava habituado a ver os Virginianos com roupas normais de combate… pensando bem, achava que nunca tinha visto o guardião da sexta casa combater corpo a corpo. Conhecia os grandes poderes psíquicos de Sahîr, já tivera oportunidade de assistir a algumas demonstrações que nunca acabavam bem para o seu oponente. Mas assistia pela primeira vez a um confronto físico entre cavaleiro e discípulo, e isso espantou-o. O que não deveria, considerando que Sahîr era um cavaleiro da elite, e como tal os seus poderes não se podiam restringir ao psíquico.
Os socos eram desferidos com tal violência que pareciam rasgar o ar, fazendo-o quase se desequilibrar apesar de se encontrar bem afastado. Mas apesar do treino árduo, nenhuma palavra era trocada entre os dois. Nenhuma indicação de Shaîr, nenhum gemido de Shaka quando o golpe do mais velho o chegava a atingir. Era completamente impossível o cavaleiro não dar instruções ao pupilo considerando alguns erros tácticos deste.
Com certeza estariam falando telepaticamente.
Uma nova pancada, agora um murro desferido no lado direito da cabeça do mais novo com tal violência que Shaka se desequilibrou e tombou para o lado esquerdo com um gemido atordoado. Estendido no chão, o peito subindo e descendo a uma velocidade alucinante, sentia a face latejando com o impacto. Por breves minutos Aioros viu o jovem aprendiz descer da pose perfeita que tinha adquirido com o mestre, tornando-se um jovem mortal como todos os outros. Shaka caía e sofria como todos...
À sua frente, apesar da intensidade do treino ao qual sujeitava o pupilo, Sahîr parecia ter acabado de começar. A respiração calma, a postura perfeita e o olhar sereno; aparentava não ter mexido um dedo durante aquele tempo todo. Se não fosse a fina camada de suor que lhe cobria a testa, colando parte da franja ao rosto, Aioros teria duvidado de tudo o que os seus olhos tinham visto até ali.
Então assim era parte do poder do cavaleiro da sexta casa… não eram conhecidos por ter um grande poder físico, mas as suas capacidades faziam-nos parecer mais resistentes aos olhos dos seus adversários.
Avançando alguns passos na direcção do pupilo, Sahîr estendeu-lhe o braço enfaixado. Tinha-lhe permitido alguns momentos de descanso deitado, baixando a guarda, mas estava na altura de voltar ao trabalho. Com um último suspiro pesado, um fio estreito de sangue escorrendo-lhe pela face, Shaka aceitou a ajuda do mestre e levantou-se prontamente. Passou de leve a mão na bochecha limpando-a, os olhos azuis fixos no mais velho.
De repente, como se de outra pessoa se tratasse, Shaka ergueu o rosto de uma serenidade perfeita e a respiração controlada. A postura impecável como se no mestre se espelhasse, parecia um jovem totalmente diferente do afogueado minutos antes. Shaka parecia estar tão saudável como no inicio daquele treino.
Aioros arregalou os olhos ao perceber a simplicidade com que o aprendiz conseguia seguir as pegadas do mestre, apesar da diferença de idade. Acordou dos seus devaneios ao sentir que do céu nublado pingavam pequenas gotas de água. Olhou rapidamente para cima, observando as nuvens escurecerem ameaçadoras… não tardaria a chover torrencialmente, e ele tinha-se perdido do seu intuito principal: encontrar Aioria!
Levantou-se num salto, dispensando um ultimo olhar calmo para a luta que continuava a desenrolar-se entre os dois virginianos. Sorriu, percebendo que o mais velho não daria o treino terminado por causa de uma simples chuvada. Se eram cavaleiros de Atena, teriam que estar prontos para lutar em qualquer circunstância.
Sahîr era um bom mestre, à altura da alcunha que lhe davam de "iluminado".
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Derevnya Nadezhdy, Magadan Oblast, Sibéria
Os olhos cristalinos de Raziel estavam presos às chamas que queimavam na lareira. Sentado, dedilhava a pequena mesa de madeira que lhe servia de secretária. Os dias seguiam-se rotineiros, quase permitindo-lhes esquecer das suas vidas de cavaleiros e do Santuário em terras tao longínquas. Mas apesar de tudo, ao sétimo dia de cada semana o aquariano era confrontado com os seus deveres da ordem sagrada, redigindo um relatório detalhado sobre a evolução do pupilo e a situação em Nadezhdy. Todas as semanas escrevia o relatório com extrema minucia… aquele primeiro ano na Sibéria passava numa cadência estranha. Apesar de estar tudo nos eixos, o sexto sentido de Raziel teimava em avisá-lo que algo estava para acontecer. A cada carta que recebia do Santuario, ora escritas pelo Patriarca ora por Sahîr, sentia o receio que antecipava o desconhecido a cada vez que cortava o selo do Santuario.
Ouviu o som característico do farfalhar da neve sob o peso de alguém fora da Izba. Desviou o olhar calmamente na direcção da porta quando esta rangeu ao ser aberta - YA vernulsya! (1)
Raziel observou o pupilo entrar. A voz de adolescente que começava a ganhar feições de adulto, o cabelo ruivo parecia mais vivo em contraste com o branco da neve que o cercava. Tinha uma facilidade particular para aprender o idioma, dominando-o aos poucos. Ele próprio não se lembrava do momento exacto em que começara a falar com Camus em russo. Aos poucos o mais novo tinha inserido algumas palavras eslavas no vocabulário, incitando-o a entrar no ritmo. Para ele era fácil deixar-se levar, já que o russo era a sua língua mãe.
- Venha aquecer-se.
Camus fechou a porta, esfregando vigorosamente o cabelo para sacudir a neve acumulada. O pupilo estava-se adaptando gradualmente ao frio daquelas terras. Apesar de ser um aprendiz a cavaleiro de gelo, os anos de treino contínuo em regiões Gregas tinham-lhe adaptado o corpo a temperaturas mais amenas. A aclimatação ao frio Siberiano teria que vir gradualmente, seguindo o decorrer das estações.
- Spasibo maister (2), mas não é necessário…
Raziel observou o mais novo avançar na sua direcção. Era uma imagem que tão bem conhecia… as íris acastanhadas bem menores que o normal devido à dilatação das pupilas, a pele extremamente pálida à excepção das bochechas que ganhavam um tom rosado, a respiração descompassada…
O mestre levantou-se e aproximou uma mão da sua testa, afastando a franja rubra que a cobria. Elevou o cosmo poderoso envolvendo o francês, ao que este reagiu intensamente contra vontade. Camus sentiu a pele arrepiar e os tremores percorrerem-lhe o corpo sem os poder conter.
- Camus, consegue controlar as reacções do seu corpo ao frio mas não se esqueça que essas reacções são importantes para a sua sobrevivência – a respiração do mais novo era rápida – faz bem em querer ultrapassar as barreiras do seu corpo, mas nunca o silencie. Ele sabe melhor do que o espírito como mantê-lo em vida – Camus sentiu a visão ficar turva - Você não percebeu pelo controle dos sintomas, mas está à beira da hipotermia, Camus.
Num gesto intuitivo, o mais novo tentou afastar-se da pessoa que lhe estava a bloquear o cosmo, impingindo ao seu corpo aquelas reacções – venha aquecer-se… - ouviu o mestre dizer, indicando a pele de urso que cobria o chão perto da lareira – tire a roupa encharcada e deixe-se esquentar…
Camus assentiu num suspiro vigoroso, aproximando-se do fogo. Sentou-se e retirou lentamente a camiseta de manga curta e a calça de treino, assim como sapatos, meias e caneleiras felpudas que usava para absorver a água da neve. Apenas de roupa intima, dobrou os joelhos e encostou-os ao peito numa tentativa de se aquecer mais depressa. Sobressaltou quando, inesperadamente, uma manta grossa foi atirada para as suas costas, e uma chávena fumegante da qual emanava um delicioso odor a limão foi pousada ao seu lado no chão. Água quente com limão… era um velho hábito de Raziel que tinha ressurgido recentemente.
- Spasibo maister – estranhou quando a voz lhe saiu trémula. Levantou os olhos e observou o mais velho levantar-se e voltar ao seu lugar inicial.
Sentado na cadeira, recomeçou a escrevinhar na folha de papel amarelada.
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Jamiel, região de Ü-Tsang, Tibete
Começando a sentir uma ligeira dormência no braço, Mu levou a palma da mão ao golpe por onde jorrava o sangue vermelho vivo. Respirou pausadamente como o mestre tinha indicado e concentrou-se, elevando gradualmente o cosmo. Sentiu agradado o corpo reagir e a ferida do pulso começar a sarar até estar completamente restabelecida. O seu corpo ainda jovem não lhe permitia dispensar muito sangue de cada vez, mas aos poucos ia conseguindo o suficiente para restaurar partes da armadura de Hydra jogada no chão.
Os olhos cor de esmeralda vidravam-se na ombreira lascada enquanto o sangue que acabava de oferecer era absorvido lentamente nas entranhas do bronze. Respirou fundo libertando o espírito, tarefa que se tornava, a cada dia, mais fácil e imediata. Aos poucos os veios rubros tornaram-se visíveis aos seus olhos agora atentos, percorrendo o metal de par em par. Tomando a domínio do seu corpo, continuava com uma respiração lenta e funda para que o próprio coração batesse mais devagar, seguindo as pulsações de energia trémula que se soltavam do metal. Aos poucos sentiu o seu espírito libertar-se e fechou os olhos languidamente, bem devagar, como se tudo nele começasse a emergir da massa física do seu corpo e fundisse com a energia exalada da armadura de bronze. Mu provou de uma serenidade e elevação que ia para além de tudo o que havia vivido até então, como se aquele efémero momento se estendesse para o infinito.
Apenas naquele momento em que Mu sentiu o coração bater em uníssono com as rajadas de energia libertada pela armadura, permitiu-se estendeu a mão numa lentidão agoniante e tocou na textura fria do metal.
Sentiu o ar falhar-lhe de repente.
Uma sucessão de imagens incoerentes percorriam o seu espirito a uma velocidade louca, como um filme velho passado de forma rapida. Imagens trémulas de guerras passadas, corpos inertes no chão poeirento, imersos no próprio sangue; por momentos o tibetano podia jurar ter ouvido os urros da discórdia militar durante um assalto de maior dimensão. Entre mortes e feridos o ariano não reconhecia ninguém… eram rostos completamente desconhecidos, vidas passadas de pessoas que tinham revestido a armadura em guerras distantes. Imagens angustiantes e de uma tremenda violência.
Mas quando tudo parecia não exceder aquilo, o fluxo dos seus pensamentos mudou drasticamente. Mu viu rios e campos verdejantes, a lembrança de momentos de paz no Santuário, de amizades profundas e solidariedade entre irmãos de armas. Viu risos de felicidade, brilhos nos olhares esperançosos, festividades de vitoria… absorveu todas as memorias que a armadura lhe queria transmitir, como um desabafo de segredo à demasiado tempo escondido. Aquelas vidas mereciam ser ouvidas, lembradas e revividas! Era o seu dever continuar com o seu legado.
Mu abriu os olhos, um brilho pairando na iris verde originado por um grande sentimento de honra que lhe percorria a alma. Voltou a elevar o cosmo emitindo suas próprias ondas energéticas e fez uso do seu poder telepático para encaminhar martelo e cinzel dourados directamente para as suas mãos. Fez um gesto ligeiro com a mão direita enfaixada e o pó de mistura de Oricalco e Gamanio elevou-se como por magia. Com agilidade e precisão começou a sua difícil tarefa de reparo do bronze, rajadas de energia explodindo a cada investida, o som metálico ecoando pela sala ampla.
Tudo era feito com uma precisão mecânica, como se Mu fosse uma máquina bem afinada.
Sentia falta da vida no Santuário. De ter gente à sua volta. Apesar do tempo que tinha passado, não tinha criado laços de amizade muito profundos com nenhum dos outros aprendizes a cavaleiros, além de Shaka. Mas agora, passado aquele tempo de treino árduo no pico do mundo isolado, começava a sentir não só a falta do indiano, como das restantes pessoas que faziam parte da sua vida do dia a dia no Santuário. Aldebaran e a sua grande amabilidade… era o mais próximo de uma amizade que podia considerar no meio dos aprendizes. Saga e Aioros, aqueles que o tinham ajudado a integrar-se na sua chegada à casa de Áries… apesar do pouco contacto que tinha com eles nos últimos tempos, as palavras reconfortantes de ambos e as dicas durante os treinos físicos fizeram parte da sua aprendizagem.
Sentia saudade dos treinos em conjunto, dos passeios de final de tarde com Shaka em reconhecimento das doze casas. A saudade da infância em Lankshmana. Tudo aquilo parecia-lhe longe naquele momento. Memorias de um passado longínquo perdido nas amanhas do tempo. Mas Mu não se importava… tinha ganho consciência do seu papel enquanto discípulo de Shion e da importância que tinha como uma das únicas pessoas capazes de consertar armaduras e de guardião da primeira casa zodiacal. A sua dedicação tinha que ser plena, mesmo que isso lhe impingisse ficar mais algum tempo naquele lugar isolado.
O tibetano respirou fundo à medida que dava um último golpe na armadura de bronze. Fechou os olhos por breves segundos, passando o braço na testa humedecida pelo esforço. Sentiu-se aliviado quando a gaze que lhe cobria os braços absorveu parte do suor que lhe colava o cabelo ao rosto e dos lábios semiabertos escapou um suspiro pesado. Pousou os instrumentos no chão com cuidado e esfregou as mãos uma na outra, percebendo os dedos começarem a calejar pelo toque persistente com o metal. Voltou a aproximar as mãos da armadura e por várias vezes as esfregou nas zonas consertadas, tacteando para delinear a qualidade do próprio trabalho. Tinha que ficar perfeito, as fissuras invisíveis e o conjunto tão homogéneo como se tivesse sido criado de uma única peça. Sabia que, uma racha mínima que fosse, poderia ser fatal para o portador daquela armadura em altura de combater.
Apenas quando se viu satisfeito com o próprio desempenho, foi quando voltou a levantar-se do chão dando o trabalho como terminado. Elevou o cosmo uma ultima vez e, com um movimento da mão direita provocou uma rajada de vento que varreu os restos de pó em excesso que ainda cobriam as faces metálicas.
Estava pronta.
Com um sorriso de satisfação nos lábios rosados, foi gradualmente baixando a intensidade do cosmo de forma a quebrar aos poucos a sintonia na qual se encontravam. Sentia o corpo ceder aos poucos à descida de adrenalina, a falta de sangue começando a pesar.
- Bem Mu… - a voz branda de Shion ouviu-se da escuridão de um canto – Muito bem… ultrapassou todas as expectativas.
Mu alargou o sorriso, virando os olhos verdes cristalinos na direcção de Shion – Obrigado mestre… - observou atentamente o mais velho aproximar-se devagar e ajoelhar-se próximo da obra acabada. O olhar ametista dissecou as faces brilhantes do bronze com uma atenção minuciosa, os dedos longos bem próximos, mas evitando tocar-lhe. A armadura emanava uma aura característica, uma energia que arrancou um sorriso cândido do grande mestre. A armadura estava completamente rendida ao seu jovem pupilo… a energia de Mu escapava do metal frio como se dele próprio se tratasse.
- Saiu-se muito bem, Mu… - comentou percebendo a inquietude do pupilo - Continue assim e não tarda as armaduras douradas estarão em suas mãos.
Mu permitiu-se um longo suspiro de alívio pela aprovação do mestre, vendo que este se levantava e se aproximava dele. A mão calejada pousou-se na sua testa, as íris roxas procurando as suas repletas de genuína preocupação. Sentiu a aura serena e quente de Shion envolve-lo, repondo parte das suas forças perdidas durante aquele final de tarde – Tome um banho e descanse. Vai demorar algum tempo a repor o sangue que perdeu.
– Sim mestre Shion… - respondeu prontamente encarando os olhos serenos. O olhar de bonomia, mas que sabia ser severo quando preciso. Sentiu-se mergulhar naqueles olhos que o fazia provar da segurança que um pai proporciona a um filho, calmos e serenos. Deixou-se levar como se a sua alma tivesse saído do corpo e era transportada para longe, bem longe daquele pagode.
Sem perceber como, viu-se flutuar como se de um fantasma se tratasse, em meio das altas pilastras que suportavam o Hecatompeon. Estava de regresso ao Santuário? Teria adormecido devido ao cansaço? Seria um sonho? Reconheceu a sala de audiências, um vulto sentado na cadeira do Grande mestre. Com alguma dificuldade devido à nevoa que cobria as imagens, percebeu que era Shion. Fez por avançar pelo tapete vermelho que o levaria ao mestre, mas ao contrário do que imaginava ser aquele momento, a cada passo dado uma angustia terrível apoderava-se dele. Pouco a pouco, bem lentamente. Parou já perto do vulto o suficiente, a respiração pesada, ofegante, aflita. Havia outro vulto escondido por detrás do trono, algo tão escuro e pesado que era-lhe impossível distinguir a forma. Mu teve ganas de fugir dali, a ameaça desconhecida parecendo-lhe terrivelmente assustadora. Tentou fechar os olhos para controlar o pânico, mas um estalo na sua percepção obrigou-o a mante-los bem abertos, fixos no rosto de Shion.
No cadáver de Shion.
Os olhos roxos baços de um corpo sem vida, a pele mais pálida que nunca enquanto uma enorme poça de sangue o separava do corpo inerte. Mu não conseguiu conter o terror ao cair em si e perceber o sorriso na sombra disforme atras de Shion, uma adaga dourada ceifando-lhe a vida.
"Mu…"
Um clarão dispersou aquela imagem agonizante, fazendo-o voltar a si. Quando deu conta, estava de novo de volta ao pagode, os olhos serenos de Shion fixando-o. Apenas aí sentiu o animo voltar-lhe, a esperança encher-lhe a alma e a força regressar-lhe ao corpo. – Mestre Shion – sentiu os olhos embaçarem-se de alívio por ter sido apenas um sonho. Tinha sido um sonho… apenas um sonho, obrigava-se a pensar enquanto os dedos alvos agarravam a longa túnica do mais velho com receio. Ele tinha a resposta, Shion era o único que sabia o que lhe tinha acontecido. E tudo não tinha passado de um sonho. Um delírio da sua mente. Mas apesar das tentativas, o seu consciente sabia que não havias coisas tais como "sonho" para um cavaleiro de Áries… de certa forma esperava que nada daquilo tivesse acontecido. Esperava pelas palavras reconfortantes do mestre para explicar aquele delírio que o tinha transportado para longe.
Mas infelizmente, a resposta que recebeu não era a que queria ouvir.
- Ah… entendo… - Shion sussurrou de leve, afastando-se do mais novo. Respirou vagarosamente, o olhar pesando sobre o pupilo - …não só treinou o seu poder de clarividência com a armadura, como teve o seu primeiro contacto com outro tipo de capacidade… diga-me, Mu, viu o passado ou o futuro?
Mu cravou as unhas nas palmas das mãos. Sentiu os músculos dos ombros e do pescoço pesarem como pedras, desviou o olhar do mestre deixando-o cair no chão à sua frente. Não sabia o que responder aquilo, nem ele tinha a certeza. Na sua cabeça ainda havia esperança que toda aquela cena não tivesse passado de um pesadelo terrível do qual tinha conseguido acordar. Nada respondeu.
- Temos precognição nesse caso…
Mu arregalou os olhos ao ouvir a fatídica verdade vinda da boca do homem em quem mais confiava. Aquela pesada verdade que o embateu de frente, obrigando-o a lidar com o que tudo aquilo poderia um dia significar, e o verdadeiro peso dos seus poderes. – Mestre Shi…
Estagnou, quando de um simples gesto da mão, Shion o impediu de continuar. Os olhos violeta sustentavam calmamente o verde imerso em angústia e medo, sabendo de antemão que Mu previra algo de fatídico que iria mudar o rumo que traçara para o Santuário e os seus habitantes. Algo sinistro, que ele próprio pressentia chegar a passos largos fazia algum tempo.
- Oiça bem Mu… esses momentos de precognição serão excepções ao longo da sua vida. Poderão passar-se anos sem que volte a ter algum. Há casos em que esse poder se manifestou apenas uma única vez, outros em que esse nunca foi desenvolvido. Mas uma coisa tem que saber: o destino de cada um de nós está traçado e em nada deve ser mudado sob pena de quebrar a harmonia do universo. – entendendo o profundo aperto no coração do mais novo, Shion abriu-se num sorriso puro – Você é forte, Mu. Mais forte que o que pensa. Foi o escolhido pela armadura de Áries para se tornar um cavaleiro de ouro. Agora pode parecer-lhe tudo demasiado, mas acredite que detém a força interior necessária para lidar com a complexidade que os seus poderes implicam.
Shion viu o mais novo assentir às suas palavras numa luta terrível contra a sua vontade própria, decidindo-se a concluir - Não interferir no futuro não implica apenas acções físicas. Mu, é muito importante que entenda que nunca poderá falar das suas visões a ninguém, por mais próxima e confiável que essa pessoa seja…
Mu abriu a boca com o intuito de protestar, mas logo conteve a voz. Sabia perfeitamente do que aquilo se tratava… - … nem a Shaka… - deixou escapar num sussurro.
- Nem a Shaka…
- Mas…
- Muito menos a mim, Mu…
Mu assentiu pela milésima vez. Estava perdido, concluiu. Suspirou e resignou-se ao seu destino, tendo consciência de que nada podia ser feito para lhe escapar. Por momentos odiou-se e aos seus poderes por aquele fardo tão pesado e pela sua incapacidade de lhe dar a volta. Nos olhos verdes brilhava uma luz de uma intensidade desconcertante, o rancor crescente na sua alma, abominando aquele mundo que teimava em arrancar-lhe todos aqueles que mais amava; detestando aquela deusa incapaz de proteger os cavaleiros que dariam as próprias vidas por ela. E depois havia Shaka… repudiou o próprio Shaka por ser incapaz de precaver que aquela imagem se concretizasse realmente.
Aquilo era demais… olhou para o chão com intensidade e, naquele instante de terrível amargura, percebeu um futuro obscuro e uma felicidade prestes a ser perdida para sempre. Já sem se poder conter sentiu os olhos embaciarem-se de lagrimas, como se as comportas de uma barragem se tivessem aberto.
Apenas quando sentiu os braços de Shion envolverem-no pelos ombros, o peito e o calor reconfortante do corpo forte à sua frente o amparando, Mu deixou-se levar por breves segundos, as lágrimas escorrendo pelo rosto pálido.
-oOo-
Sedlec, Kutná Hora, Checoslováquia
O manto sombrio da noite envolvia a cidade numa escuridão quase total. A neve não tinha cessado de cair nos últimos dias, mas o frio não era suficiente para a manter limpa e imaculada à medida que chegava ao chão. Tinha-se tornado uma mistura paposa e lamacenta que cobria a praça da igreja.
Escondido no telhado, Mephisto observava o caos que se tinha apoderado da pequena aldeia normalmente tão quieta. Homens fardados a correr por toda a parte, gritavam-se ordens… era evidente que aqueles homens acabavam de chegar à pressa e tomavam posições, uns de pistola, outros de espingarda, alguns com armas automáticas. De cima, viu dois carros de patrulha acercaram-se da praça nesse instante, começando a jorrar militares de camuflado, ainda os veículos não se tinham imobilizado por completo.
Esboçou um sorriso sarcástico, quase doentio. Um país em guerra, deixado à mercê dos deuses, e todo aquele aparato que se destinava apenas a um homem… o qual ele próprio tinha vindo buscar. O homem que tinha caído no erro de fugir da quarta casa zodiacal, pouco tempo depois da sua tomada de posse da armadura sagrada.
Um homem que era procurado não apenas pelas forças militares tchecas, como pelo Santuário.
- ŠTEFAN SOBOTKA – um policial escondido atras da porta do carro tinha começado a gritar através de um megafone. Provavelmente tentavam fazê-lo render-se, apesar da pouca convicção que manifestava.
Štefan Sobotka era um homem morto. Apenas lhe restava uma escolha naquela vida: à mão de quem preferia morrer.
Longos minutos se passaram, sem que nada acontecesse. Os soldados cercavam a igreja Všech Svatých, sem mexer um músculo que fosse. Mephisto começou a perder a paciência. Nenhum daqueles homens parecia querer mover-se nos próximos minutos, e ele tinha perdido o interesse no espectáculo. Estava na hora de agir.
Aproximou-se da torre sineira, escalando agilmente até alcançar o parapeito da janela. Içou-se para o interior, apressando a baixar-se para evitar ser visto, e tomado pelo fugitivo. Um único sino ainda se mantinha fixamente pendurado, visivelmente pouco utilizado ao perceber o pó que o cobria. Calmamente, abriu o alçapão sob ele, revelando uma escadaria em espiral.
- Okamžitě šel vem (3)! – ouviu a voz do policial ecoar através do megafone - Okamžitě šel ven a zahájili palbu! (4)
- Maledetto! – praguejou baixo. Apesar de não entender a língua, conseguia perceber que a multidão começava a tornar-se irrequieta. Não possuía muito tempo para agir antes que aquela gentinha estragasse o seu momento.
Correu pela escada de pedra tentando orientar-se apesar da escuridão na qual se encontrava. Com a pressa, quase esbarrou contra a parede nas curtas galerias interiores, antes de virar à direita e encontrar a porta axial. Apesar de fechada, conseguia sentir o fedor a incenso impregnar-lhe as narinas, a luz ténue aureolando a porta através das fendas. Oh, como detestava igrejas, e Sobotka parecia sabê-lo. Sorriu interiormente à medida que abria a porta. Sabia muito bem de quem devia fugir…e parecia bem com mais pavor dele, um simples cavaleiro, do que de uma orla inteira de milícias.
Lentamente, cruzou a passagem e entrou na nave principal, os olhos de imediato atraídos para o firmamento do santuário, a pequena abóbada suportada por esguios pilares octogonais de pedra ricamente trabalhada. A luz suave da lua embatia nos vitrais da cúpula, enlaçando-se numa projecção geométrica multicolor.
Procurou com frenesim o homem que vinha matar, ou algum indício da sua presença. Nada. Respirou fundo inquieto, antes da sua atenção ser focada para um som muito ténue que ecoava naquele espaço. Passos. O som de passos atarefados fizeram a sua alma jubilar de antecedência. Susteve a respiração e aguçou a atenção para tentar perceber se não viriam do exterior, pois os homens na rua pareciam querer tentar algo. Não, eram bem do interior…mas de onde?
Avançou lentamente fazendo o mínimo barulho possível, atento ao foco daquele barulho. As catacumbas… como não tinha pensado nisso! A catacumba situada abaixo da Igreja era o local perfeito para esconderijo! Desceu a escada de madeira no lado direito da nave, ouvindo-a ranger sob o peso do seu corpo. Aos passos pararam, Mephisto sorriu. O insecto tinha percebido a sua presença, e estava agora encurralado, sem ter por onde fugir.
- Sobotka! – falou energicamente, contendo a vontade de gritar o nome do traidor, pois os homens no exterior podiam ouvir.
Avançou mais uns passos, ouvindo múrmuros não muito longe dali, numa língua estranha - Otce nas, jenz jsi na nebesich, posvet se jmeno tve, prijd kralovstvi tve… - a voz baixa saía tremula, por vezes perdendo a força. Uma prece… o italiano riu, entrando pela porta da catacumba.
- Bud vule tva jako v nebi, tak i na zemi… chleb nas vezdejsi dejz nam dnes, a odpust nam nase viny… (5)
Contra todas as expectativas, Mephisto arregalou os olhos e, assombrado, sentiu o coração disparar com o que aparecia à sua frente. Aquele lugar… não era apenas uma cripta. As três naves esguias percorriam o espaço obscuro, apenas iluminado por tochas dispersas aleatoriamente. Graças a essa pouca luz, os olhos do italiano percorreram o espaço num fascínio doentio, memorizando aquela imagem macabra. As suas paredes e os oito pilares encontravam-se totalmente revestidos com ossos e crânios dispostos numa ordem rigorosa, ligados aos muros por cimento pardo. As abóbadas de tijolo estavam pintadas com motivos alegóricos à morte, a pintura escurecida nos cantos devido ao fumo das tochas… tudo parecia relembrar ao visitante a sua própria mortalidade. No chão em pedra conseguiu ver uma inscrição que tentou ler, mas não conseguiu compreender o idioma. Do tecto, perto do altar, caíam duas ossadas completas presas por cordas, um do tamanho de um adulto, o outro bem menor…talvez uma criança.
Sentindo uma repentina explosão de felicidade, o italiano despontou num riso vicioso. Naquele momento, todo o seu corpo era percorrido pelo arrepio de um deleite agonizante, os pelos eriçando-se por completo. Tratava-se de um momento de epifania tão extraordinário e inspirador que encerrava o potencial de, por si só, alterar o curso dos seus pensamentos. Não havia Sobotka, não havia Santuario… havia apenas a morte. Aquilo era perfeito… explosivo… grandioso! Aquela sala era a coisa mais maravilhosa que alguma vez tinha visto na vida! Um elogio à morte, relembrando a transitoriedade da vida de cada ser vivo.
Os seus olhos faiscaram num brilho maléfico quando viu o homem que procurava debruçado perto do altar em sinal de prece. Dos seus lábios continuavam a sair sons incompreensíveis, os olhos fechados com intensidade por onde escorriam lágrimas de desespero.
- Štefan Sobotka – deliciou-se com o tremor do corpo esguio – é hora de morrer…
1) "YA vernulsya": Estou de volta!
2) "Spasibo maiter" : Obrigado, mestre
3) "Okamžitě šel vem" : Saia Imediatamente!
4) "Okamžitě šel ven a zahájili palbu!": Saia imediatamente ou abrimos fogo!
5) Oração « Pai Nosso » em Checo
