-O que houve com a sua bochecha, Yuy? – perguntou Trowa assim que parou em frente ao amigo na entrada do tribunal. Heero tinha uma grande marca roxa na bochecha esquerda, sendo acentuada pela carranca que estava em seu rosto.
-Uma porta estava no meu caminho. – respondeu sisudo, ganhando um erguer de sobrancelha de Trowa. –Você vai esperar pelo senador aqui fora? – perguntou ao amigo, terminando de subir as escadas do tribunal.
-Parece que vou. – respondeu Trowa, vendo o outro entrar no grande prédio, envolto por uma aura de mau humor. Se Zechs se metesse muito no caminho dele, hoje, com certeza não viveria muito para contar história.
Heero caminhou a passos duros pelos corredores tão conhecidos do tribunal, seu humor afastava qualquer um que tentava se aproximar dele. Outros advogados passavam pelo colega de profissão, lhe dando boa sorte, mas o japonês apenas dava um leve aceno de cabeça e continuava o seu caminho, com a expressão mais mortal que já dominara o seu rosto. Aquele Maxwell era um enviado de Lúcifer para atormentar a sua vida, só poderia ser isso! Ele não saía de sua cabeça, estava sempre cruzando o seu caminho, e destruiu uma rotina perfeita que ele já tinha montado para a sua vida. Tornar-se um grande advogado, ganhar nome, fortuna era o de menos porque isso ele já tinha, voltar para o Japão, assumir a liderança de seu clã, depois de seu pai, e morrer velho, sozinho e infeliz. Então aparecia esse americano idiota e destruía todas as suas tão perfeitas perspectivas.
-Baka, baka, baka, baka. – murmurou mal humorado, colocando a sua pasta sobre a mesa e a abrindo com força, começando a retirar os papéis de dentro dela.
-Uma porta entrou em seu caminho, Yuy? – uma voz encorpada e um pouco arrastada soou ao lado dele. Heero ergueu os olhos e deparou-se com a figura alta de Zechs Marquise, em seu terno cinza grafite e com os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo na altura da nuca. E aquele sorriso irritante de alguém que sabia que iria vencer, estava em seu rosto.
-Sim. – respondeu o japonês de maneira seca, não querendo confrontar-se com Marquise antes da hora.
As portas da sala de audiência se abriram e Trowa entrou acompanhado pelo senador, ambos sendo seguidos por seguranças e milhares de flashes piscando. Assim que as portas se fecharam, os seguranças postaram-se ao lado delas e o senador veio caminhando junto com Barton, para poder tomar o seu lugar ao lado de seus advogados.
-Sr. Yuy. – Kelly cumprimentou com um leve aceno de cabeça.
-Sr. Kelly. – respondeu Heero, já sentindo uma pequena dor de cabeça começar a latejar atrás de seus olhos. Que esse julgamento terminasse logo antes que ele explodisse de mau humor e cansaço.
-Todos de pé para a entrada do excelentíssimo Juiz Treize Khushrenada. – um guarda anunciou a um canto do salão e um homem alto, de porte nobre, olhos azuis e cabelos acobreados entrou no recinto, com a toga negra impecável cobrindo o corpo esbelto. Quando ele sentou-se, os outros que estavam na sala sentaram-se também.
-Está aberto o caso do Senador John Carter Kelly. Acusação: uso de dinheiro ilícito de tráfico de drogas para financiar campanha eleitoral e uso de entorpecentes. Queira começar promotor Marquise. – chamou Treize e o loiro se levantou, recebendo de sua assistente, Noin, suas anotações.
-Gostaria de chamar a primeira testemunha… – e assim começou o julgamento.
-Sem mais perguntas. – falou Zechs, depois de duas horas de cansativa audiência, dando as costas para a senhora O'Hara, que serviu como fonte para a matéria publicada por Duo Maxwell.
-A defesa tem alguma pergunta? – indagou Treize e viu Heero levantar-se. Na sua opinião, aquele caso já estava mais do que decidido, pois as provas contra o senador não pareciam muito concretas para levá-lo a alguma condenação.
-Sim meritíssimo. – falou Heero, ajeitando o paletó enquanto saía detrás da mesa e caminhava até a senhora O'Hara, que sentiu um certo tremor percorrer-lhe a espinha debaixo daquele intenso olhar frio azulado. –Senhora O'Hara, - o japonês a mirou com uma expressão mortalmente séria, e a mulher engoliu em seco, assentindo levemente com a cabeça. –a senhora afirma que viu o senador sair do apartamento 507, ao lado da senhora, acompanhado por Mordred Willis, um dos maiores traficantes procurados do país?
-Sim. – respondeu a mulher com convicção.
-A senhora tem certeza disso? – insistiu Heero.
-Não estou tão velha assim para a minha visão estar começando a me pregar peças, meu jovem.
-Está realmente certa dessa afirmação? – Heero deu as costas para ela e caminhou até a mesa, onde Trowa lhe estendeu algo. –Prova A da defesa, meritíssimo. – disse, entregando a Treize uma pasta de documentos. –Essas são contas e despesas pagas pelos filhos da senhora O'Hara em clínicas de desintoxicação. – explicou e voltou a mesa, pegando outra pasta estendida por Trowa. –Prova B da defesa. Uma requisição legal para poder declarar a senhora O'Hara como psicologicamente incapacitada de cuidar de si mesma.
-Oras! Aqueles aproveitadores só estão atrás do dinheiro do meu seguro. – resmungou a senhora.
-Prova C da defesa. – continuou Heero. –Contas atrasadas. A senhora não paga seu seguro de vida há dez anos. E as suas contas pessoais ficam por conta de seus filhos. Aí também consta uma declaração assinada pelo senhor Dorwell, dono do pequeno mercado na esquina do prédio da senhora O'Hara, afirmando que toda a semana ela está presente em seu mercado comprando três garrafas de whisky, duas de scott e cinco de martini. A senhora ainda afirma que foi o senador Kelly quem viu sair do apartamento vizinho ao seu? Poderia ser alguém muito parecido.
-Bem… eu… - a mulher hesitou um pouco e decidiu ficar quieta.
-Sem mais perguntas meritíssimo. – declarou Heero, voltando para o seu lugar e dando um olhar de relance para Zechs, que ainda continuava com a postura arrogante de sempre, como se já tivesse ganhado o caso, o que na verdade não era a situação. As testemunhas e provas que ele apresentou foram boas, mas previsíveis, Heero havia conseguido tudo para poder rebater qualquer argumentação do loiro. Esse caso com certeza estava ganho.
-A senhora pode se retirar sra. O'Hara. – disse Treize e a mulher ergueu-se, sendo levada para uma sala ao lado acompanhada de um guarda. –A promotoria ainda tem alguma testemunha a mais para apresentar a esse tribunal? – perguntou o homem e Zechs levantou-se com um ar de que estava preste a tirar o Às da manga.
-A corte chama para depor o senhor Duo Maxwell. – declarou e Heero sentiu uma fisgada em seu cérebro, acentuando ainda mais a dor de cabeça que estava latejando em seus olhos desde o início do julgamento. O que aquele americano baka estava fazendo aqui? A porta ao lado do banco dos réus abriu-se e um guarda guiou um Duo, em trajes mais formais, que eram compostos por uma camisa social e calça de linho, até o banco. Outro guarda fez o juramento e minutos depois o rapaz sentou-se.
-Scheiße! – xingou o advogado. Era só o que ele precisava. Duo foi o que reuniu todas as provas, foi por causa de sua matéria que o Supremo Tribunal entrou com o processo, ele era uma testemunha chave para esse caso. Seu caso! E ele estava prestes a arruinar uma vitória bem sucedida.
-Sr. Maxwell… - Zechs começou. -… o que levou o senhor a investigar o senador Kelly?
-Bem… um dia eu estava na redação, quando recebi um telefonema da sra. O'Hara, dizendo que ela havia visto o senador saindo do apartamento ao lado do dela acompanhado do traficante Mordred. No começo eu fiquei um pouco receoso sobre o assunto, porque o endereço que ela havia me dado era muito suspeito. O bairro não é considerado de boa índole, mas mesmo assim eu resolvi investigar. Andando pela vizinhança eu descobri que Mordred possuía uma amante que o ajudava nos pontos de venda daquele local, e que coincidentemente era moradora do apartamento ao lado da senhora O'Hara. Descobri com os moleques de rua que a cada duas semanas um sujeito de aparência rica aparecia no bairro e ia naquele apartamento. Claro que também poderia ser que a mulher moradora do apartamento fosse amante do senador, ou fosse seu traficante. Ou ele fosse um viciado em drogas com grandes contatos dentro do submundo. Claro que isso daria uma boa matéria, um senador que prega em sua campanha moralidade e união da família, ter uma amante e ser viciado. Então eu resolvi ir mais a fundo, saber dos precedentes dele, investigar mais a sua vida social e particular. Foi quando eu descobri os aumentos nos gastos da campanha.
-Prova A da acusação, meritíssimo. Aqui está o orçamento da campanha do senador Kelly. E aqui está os valores estabelecidos pelos patrocinadores e pelo partido. Vê-se claramente que eles são duas vezes menores que os da campanha. E aqui está um inventário de todos os bens do senador. Nenhum deles foi alterado, nenhum negócio novo surgiu, nenhum patrocínio novo apareceu. Por isso, ele deve ter tirado dinheiro de algum lugar. Sr. Maxwell, o que o levou a confirmar que o dinheiro vinha do tráfico de drogas?
-Bem, se eu não conseguiria nada pelo senador, tentei ir pelo traficante. Com alguns contatos e alguns fuxicos, descobri que dentro da folha de serviços prestados de Mordred estava o nome do senador. Um terço do que ele lucra com o tráfico apenas em Boston foi para a campanha de Kelly. Os números batem perfeitamente.
-Prova B da acusação, uma cópia da folha de serviços de Mordred. – Zechs estendeu a folha para Treize e depois se voltou para Duo, dando um sorriso charmoso para ele e uma pequena piscadela. Duo retribuiu o sorriso e relaxou ainda mais na cadeira. Em seu lugar, Heero soltou um grunhido irritado. Aqueles dois estavam aprontando alguma coisa. –Sem mais perguntas meritíssimo. – declarou o loiro e com um último sorriso ao americano, voltou a sua mesa.
-A defesa tem perguntas a fazer? – Heero levantou-se abruptamente, com o olhar mais gélido que cruzou o seu rosto. Ao seu lado, Trowa soltou um suspiro. Isso não era bom.
-Sr. Maxwell. – sibilou o nome, caminhando e parando em frente ao jornalista. Duo sentou-se ereto em sua cadeira e ganhou uma expressão desafiadora. A dor em seu abdômen apenas o fazia querer quebrar aquela postura perfeita de Heero. Por mais lindo que ele ficasse com aquele olhar frio e aura selvagem, Heero ainda era controlado demais, perfeito demais para o seu gosto. E ele lhe lembrava muito o seu ex-namorado. Será que era por isso que eles não se entendiam? Talvez sim, talvez não.
-Sim? – disse com escárnio.
-Como o senhor conseguiu penetrar o tão perfeito esquema de segurança de um traficante tão conhecido e perigoso, para poder conseguir essas provas? – perguntou e Duo sentiu seu sangue ferver. O modo como Heero entoou a pergunta deu a entender que Duo também usara de métodos ilegais para poder conseguir as provas.
-Sabe qual é a minha maior característica? Persuasão, sr. Yuy. Eu sei como levar uma pessoa na conversa. Esse sujeito era contador de Mordred, mas estava com a sua família ameaçada por um traficante rival. Vendo que mesmo sob a asa de Mordred ele não conseguiria muita coisa, ele abriu o bico, desde que tivesse proteção policial. Por isso falei com uns amigos do FBI e eles conseguiram isso. Afinal, ajuda no caso deles. E então, eu consegui fontes e provas, e o FBI conseguiu uma testemunha. Simples assim.
-Simples assim. Então você apenas entrou no ninho de um traficante e conseguiu persuadir o contador dele a lhe entregar o ouro? É um grande poder que você tem mesmo, sr. Maxwell. Onde o conseguiu? Nas ruas? – Duo quase explodiu. Como ele poderia ter descoberto isso?
-Não sei do que você está falando.
-Fez parte de gangues, já andou por lados obscuros de Boston, com certeza deve ter muitos conhecidos por essas áreas. – acusou Heero. Não iria perder esse caso por causa do americano idiota. Esperou que Duo negasse mais uma vez tudo o que ele havia dito, mas o homem de trança apenas recostou-se em sua cadeira e deu um sorriso escarninho.
-Bem, com certeza não serei o primeiro nem o último adolescente a me meter em uma confusão. Sim, arrumei umas brigas, umas pequenas fichas na polícia por arruaça, alguns amigos suspeitos, alguns conhecidos em áreas menos nobres, mas qual garoto já não fez isso na vida e depois cresceu e virou um homem, amadurecendo no processo? Isso daqui é a América meu caro, e por mais que tentem pintar, não é tão perfeita assim. Por quê? Isso não agrada o senhor, sr. Perfeição? – Heero fez uma carranca, tendo a certeza de que atrás de si Zechs dava um sorriso vitorioso.
-Está querendo me dizer que conseguiu isso tudo por pura sorte? – estava perdendo, seu caso perfeito estava escorregando por entre seus dedos. Maldito americano.
-Mas é o que eu sempre tenho, são as minhas armas principais no meu trabalho. Charme e sorte, muita sorte.
-Sem… - disse o japonês entre dentes. -… mais perguntas meritíssimo.
-Senhor Marquise, mais alguma pergunta?
-Não meritíssimo.
-Mais alguma testemunha?
-Não! – responderam ambos o advogado e o promotor. –Sr. Maxwell, o senhor pode se retirar. Esse tribunal entrará em recesso por uma hora para poder haver a sentença. – Treize bateu o martelo e ergueu-se de sua cadeira, saindo por uma porta lateral. Os advogados também se ergueram e saíram da sala. Agora só restava apenas esperar.
Heero jogou água no rosto, para ver se o latejar em sua cabeça diminuía, e depois apoiou as mãos nas laterais da pia, soltando um grande suspiro. Estava cansado. Precisava urgentemente de férias. Mas com a firma cheia de casos para poder resolver, ele duvidava que conseguiria algo tão cedo. Esse caso do senador lhe tomou todo o tempo, assim como toda a sua energia. Ele pesquisou a fundo, catou todas as provas possíveis para inocentar o homem, pensou no que Zechs poderia dizer para poder rebater as acusações, tentou virar a mesa, para no fim ter tudo destruído por causa de um testemunho. Não que ele se importasse muito, pois colocar o senador livre era apenas a sua obrigação como advogado contratado para defender o homem. Mas ainda sim era um trabalho, e ele levava todos os seus casos a sério e os defendia com afinco. Com que propósito? Iria perder mesmo, sabia disso. Zechs estava um ponto a sua frente. Da próxima vez, ele pegaria um caso menos, como poderia dizer… "cabeludo" para poder resolver. E com menos desafios, por mais que ele gostasse deles, pois senão realmente iria enfartar.
A porta do banheiro se abriu e fechou, mas o japonês não levantou os olhos para ver quem estava lá. Ouviu passos caminhar pelo piso de mármore e parar atrás dele. Cansado e pronto para mandar alguém para os quintos dos infernos, ele ergueu os olhos apenas para ver o americano idiota, refletido no espelho a sua frente, parado atrás de si.
-O que você quer? – rosnou.
-Parece que o senador vai ser considerado culpado. – disse Duo displicente.
-É! – Heero ergueu-se abruptamente, virando-se e apoiando-se na pia de porcelana. –Tudo graças a você. Eu tinha um caso perfeito e você o destruiu.
-Aceite perder Yuy. Além do mais, o homem está até a testa de lama. Viva com isso.
-Viver com isso? – Heero deu um passo à frente, tentando se aproximar daquele americano com ar petulante. Instintivamente Duo recuou um passo, mas mantendo a expressão de desafio. –Eu estava trabalhando dia e noite nesse caso há meses, para você me aparecer com a sua maldita boca grande e estragar tudo.
-Eu fui intimado! – Duo recuou mais um passo quando viu Heero dar outro em sua direção. O olhar do advogado era de dar medo, mesmo que ele ainda se mantivesse na sua postura desafiadora perante o japonês. –Sem contar que o homem visivelmente não presta!
-Hah! A frigideira velha dizendo que a panela é preta. – o moreno deu mais um passo a frente e o jornalista recuou outro, quando percebeu que não tinha mais para onde fugir, pois estava preso entre o advogado enfurecido e a porta do cubículo do reservado.
-Eu ao menos só fiz umas besteiras de adolescente! Mas nunca roubei ninguém e nunca fui um viciado em drogas.
-Quem garante? –Heero riu sardônico, aproximando-se mais e pressionando o corpo de Duo com o seu, contra a porta, apoiando um braço ao lado da cabeça do repórter.
-Parece que você gosta muito de me ver nessa posição, não é Yuy? – escarneceu o homem de trança, sabendo que rebater as provocações de Heero não iria levá-los a lugar algum. Talvez uma nova estratégia de abordagem resolveria melhor o problema.
-Sim… ainda mais se eu estiver te batendo até você entrar em coma. – respondeu Heero gélido e Duo deu um sorriso que era uma mistura de malícia e sarcasmo.
-Não era isso o que eu estava dizendo. – respondeu provocante, sentindo todas as curvas do advogado contra o seu corpo. Deus, estava perdendo o controle com ele tão próximo assim de si, furiosamente sexy e com aqueles olhos azuis brilhando como duas chamas coléricas. –Você gosta de me ver submisso a você, não é mesmo? Satisfazendo todos os seus desejos mais impuros. – Heero rosnou diante da ousadia dele de acusá-lo de estar atraído por ele.
-Creio que você deve preferir isso mais com o Marquise, não é mesmo? Pois estavam quase pulando um em cima do outro no tribunal. E depois você me acusa de mulherengo, e o senador de traidor. Oh senhor das virtudes.
-Eu não estava dando em cima de ninguém no tribunal. – rebateu Duo furioso.
-Verdade? – o japonês deu uma risada escarninha. –Não foi o que me pareceu.
-Pois você está vendo demais Yuy, porque eu… - começou o americano, sentindo o corpo de Heero pressionar mais contra o seu e uma das mãos dele apertando dolorosamente o seu braço, como se isso fosse a única coisa que impedia o advogado de lhe bater. Porém, as chamas que brilhavam nos olhos azuis tinham mudado, com a proximidade deles dois, de ódio para alguma coisa a mais. Desejo, luxúria e… ciúmes. O todo poderoso Heero Yuy estava com ciúmes? –Está com ciúmes Yuy? – provocou.
-De você? – deu uma risada seca.
-Eu não mencionei nomes sr. Pedra de Gelo. – zombou o homem de trança e Heero arregalou os olhos por breves segundos, depois os estreitou perigosamente.
-Ainda está para surgir o dia em que eu sentirei qualquer coisa por você além de desprezo.
-Verdade? – Duo não parecia muito abalado pela ofensa, na verdade ele parecia ter o mesmo brilho vitorioso que Zechs, agora a pouco. –Tem razão, eu devo ter me enganado. Você não está com ciúmes, simplesmente porque você é muito covarde para admitir isso.
-Como é? – a mão que lhe apertava o braço voou rapidamente para o seu pescoço, o comprimindo ainda mais contra a porta do reservado. –Repete se for homem. –bradou o japonês, não acreditando no que aquele imbecil havia dito. Primeiro o acusava de sentir ciúmes dele, o que ele negou veementemente não apenas para o americano como para si mesmo, agora o chamava de covarde? Quem ele pensava que era?
-Sim, covarde! Covarde por não se permitir sentir, covarde por não tentar novamente depois de anos! Sim Yuy, Kohako me falou sobre você e a sua ex-noiva! Covarde porque não consegue deixar o passado para trás. Covarde por não admitir que se sente atraído por um homem. COVARDE POR NÃO ACEITAR QUE ESTÁ AFIM DE MIM! – um soco teria doído menos do que as palavras de Duo no momento em que elas entraram em seu cérebro. Sim, estava sendo um covarde. Seu orgulho o impedia de admitir que estava com medo de tentar de novo, com medo de se deixar sentir. Duo não era Relena, longe disso, com certeza o americano seria muito mais fiel do que a mulher jamais fora. Então, o que o impedia de tentar? Nada.
-Eu vou te mostrar quem é o covarde. – sibilou e a mão escorregou do pescoço para a trança, puxando ao rosto do homem para perto de si e clamando os seus lábios em um beijo selvagem e sedento.
Duo agarrou-se aos cabelos castanhos rebeldes, deliciado por poder sentir a maciez deles novamente, assim como o corpo firme contra o seu. Sentiu mãos grandes deslizarem por sua cintura, enquanto a sua boca era atacada ferozmente pela do advogado. As mãos de Heero percorreram o cós da calça de Duo e com habilidade encontraram o botão e o zíper da mesma. O barulho de calça se abrindo foi à única coisa que soou no recinto preenchido apenas por eles dois e Duo gemeu quando uma mão deslizou para dentro do tecido.
-Heero… - murmurou ofegante e o japonês apenas soltou um pequeno resmungo incompreensível enquanto beijava e mordiscava a nuca do homem. O jornalista fincou os dedos nos ombros largos do japonês, sentindo um tremor percorrer o seu corpo quando uma mão fria tocou seu membro quente e pulsante dentro de sua cueca. Heero afastou-se um pouco do corpo esguio para poder olhar melhor para a criatura abaixo de si. Os olhos violetas brilhavam, os lábios estavam vermelhos, as faces coradas e ele ofegava. Era lindo, era…
-Vollkommen. – sussurrou com uma voz rouca e Duo sentiu-se derreter enquanto a mão continuava o estimulando. Não sabia que língua era aquela que Heero falara, talvez tenha sido alemão, mas ele ficava extremamente sexy quando falava coisas que ele não entendia, ainda mais naquele tom de voz. Com um grito e um tremor, o americano alcançou o orgasmo no lugar mais inusitado de sua vida. O banheiro de um tribunal.
-Acho que podemos ser processados por atentado ao pudor. – murmurou timidamente, sentindo Heero tirar a mão de dentro de suas calças e levar aos lábios, lambendo os dedos com uma certa apreciação.
-Eu poderia te processar… e aí te levaria a julgamento… e então você saberia o quanto eu posso ser mal dentro de um tribunal. – disse com um sorriso malicioso e Duo soltou uma gargalhada. E então, Heero fez algo que Duo considerou a coisa mais linda que vira na vida. Ele sorriu, um sorriso perfeito e genuíno, iluminado como muitos daqueles que ele já tinha visto no rosto de Kohako. –Ah, o que eu faço com você Maxwell? – sussurrou com uma voz cansada mas aparentemente satisfeita, encostando sua testa na do homem mais baixo. –Você apareceu em minha vida e destruiu todos os alicerces que eu tinha construído para ela.
-E isso é uma coisa ruim? – murmurou Duo, ajeitando as suas roupas. Novamente Heero deu mais um daqueles sorrisos brilhantes e o jovem de trança pensou que poderia ficar mal acostumado com aquilo.
-Bem, nesse momento? Não… não é nada ruim.
-Senador Kelly, diante das acusações apresentadas, eu o declaro culpado. Terá seu mandado cassado além de ter que cumprir cinco anos de reclusão, e perderá seus direitos a concorrer a qualquer cargo político novamente. – declarou Treize, batendo seu martelo sobre a mesa e erguendo-se, saindo novamente pela mesma porta lateral que tinha entrado.
-Foi um bom caso Yuy. – disse Zechs, apertando a mão de ambos os advogados de defesa. –Que tal um jantar para poder relaxar depois dessas horas exaustivas? – propôs o loiro, com Noin ao seu lado, sorrindo para ambos os jovens. Sim, Zechs e Heero eram adversários, mas apenas nos tribunais. Afinal, o loiro foi, um dia, um dos colegas com quem ele dividiu o apartamento, assim como Trowa, e foi graças ao pequeno caso que Heero teve com Noin que Zechs conheceu a sua futura esposa. Mas isso era algo que poucos sabiam. Afinal, eles tinham uma reputação a manter.
-Não, obrigado. Acho que vou para casa. – disse Heero, guardando as suas coisas na pasta.
-Pena. E você Trowa? – Noin virou-se para o amigo. –Talvez se a gente falar com o Treize ele também venha. – falou, Treize fora professor deles na faculdade, e também era um grande amigo. Outra coisa que poucas pessoas sabiam.
-Desculpe, mas eu tenho um certo loiro me esperando em casa. – sorriu diante da perspectiva e lançou um longo olhar para Heero, que corou um pouco.
-Então a gente se vê. – disse o loiro e saiu da sala, levando a esposa junto.
-Eu sinto muito senador. –Trowa virou-se para Kelly.
-Eu ainda posso recorrer, não posso? – perguntou o homem e o advogado de olhos verdes assentiu com a cabeça.
-Mas creio que o senhor terá que procurar outra firma. Yuy-Barton e Associados está saindo de seu caso, senador. – respondeu Heero em um tom cansado. Kelly assentiu com a cabeça, sabendo que aqueles homens já fizeram de tudo por si, e caminhou até os seus seguranças para ser escoltado através dos repórteres que com certeza estariam lá fora. Assim que as portas se abriram, flashes começaram a serem disparados e enquanto Senador saia, uma figura se esgueirava para dentro da sala.
-Bem, noite Yuy. A gente se vê amanhã. – falou Trowa, passando pelo jovem que tinha entrado na sala e dando um pequeno cumprimento com a cabeça a ele.
-E você? Vai ficar aqui a noite toda? – Heero virou-se para ver um Duo sorridente parado ao seu lado. –O que pretende fazer agora?
-Ir para casa e dormir… - começou, mas lembrou-se que uma certa alemã muito irritada com certeza o estaria esperando em casa.
-O que foi? – perguntou Duo ao ver a careta que Heero havia feito.
-Minha mãe com certeza vai estar me esperando, e eu não quero mais dor de cabeça do que eu já tenho agora. – resmungou, pegando seu paletó sobre a cadeira e o jogando sobre a sua pasta.
-Ah… pobre dele. – Duo zombou, com um sorriso malicioso no rosto. -… Dor de cabeça? Eu posso te dar uma massagem, sabia?
-Massagem? Aqui? – Heero ergueu uma sobrancelha. O tribunal estava quase fechando, eles não teriam tempo para massagem nenhuma, e ele não sabia de outro lugar para onde eles poderiam ir.
-Não senhor Yuy… você não está acompanhado o meu raciocínio. – caminhou até ele com passos felinos, parando a sua frente com um brilho peculiar nos belos olhos violetas. –Eu tenho uma grande banheira em casa que com certeza está com o nosso nome nela. Um pai que vai passar a noite na casa da namorada e um irmão que com certeza deve estar na fraternidade dele. Sabe o que isso significa? Que eu estou apto a realizar todos os seus desejos mais impuros por hoje à noite.
-Duo… - Heero começou sério, passando um braço pela cintura do americano. -… você deveria ser preso, sabia?
-E qual seria a acusação? – perguntou inocentemente.
-Atentado ao pudor. – Duo desvencilhou-se do meio abraço de Heero e deu um pequeno passo em direção a porta.
-Mas… para isso, você teria que me pegar primeiro e então, talvez, a gente possa discutir os modos como você vai me prender. – sorriu marotamente e disparou porta afora, sendo seguido rapidamente por Heero, com as gargalhadas de ambos ecoando pelos corredores quase vazios. Parecia que Boston havia ficado menos fria a partir daquele dia, pois ao menos uma pedra de gelo a menos havia sido derretida. O coração de Heero Yuy.
N.A: Na verdade eu não sei bem quando a Lien começou a me ajudar com os seus bunny plots, por isso eu resolvi colocar os agradecimentos a ela aqui no final, pois assim abrange mais a coisa. De qualquer modo, obrigada mesmo Lien, suas idéias sempre maravilhosas. Misao, creio que parte de seus fetiches foram realizados. Sis Evil, não preciso nem dizer que eu te adoro e que seus comentários foram incentivadores. Yoru, seu incentivo é tudo de bom, e eu to esperando por você escrever aquelas idéias maravilhosas para "A Invasão". Ao pessoal todo que deixou review, muito obrigada mesmo, de coração. Adoro todos vocês. Beijões.
N.A: Fetiche da Da n° 7: Heero falando outra língua que não seja o japonês.
Scheiße =merda!
Vollkommen = perfeito.
