Capítulo 13

Lembrei-me que Carlisle um dia me falou que depois da transformação, esquecemos algumas coisas da nossa vida humana. Eu torci para que essa fosse uma lembrança que apagasse da minha mente no momento que eu me tornasse vampira. Eu torci para que nunca mais precisasse ver vampiros drenando idosos. Eu torci para que a lembrança do abandono duplo de Edward saísse da minha cabeça. Eu torci para que o olhar de tristeza de Charlie quando eu disse que queria ir embora, enquanto fugia de James, desaparecesse de mim. Eu torci para que o olhar demoníaco de Victoria saísse da minha cabeça. Eu torci para que a tristeza de Jake por eu ter arriscado minha vida por quem me deixou, não me atormentasse. Eu torci. E dormi.

[...]

Segunda-feira

Terça-feira

Quarta-feira

Quinta-feira

Escutei passos entrando no quarto. Passos pesados. O barulho da cortina se arrastando e revelando o sol forte lá fora me fez abrir os olhos que pesavam. Eles começaram a arder e eu comecei a lacrimejar. Minha cabeça doía. Sentei-me na cama e senti uma leve tonteira. Minha boca estava amarga e seca. Olhei para a criatura que havia me acordado. Gianna estava em frente à minha janela. Sua face estava séria e preocupada. Olhei para ela sem compreender o porquê do semblante.

- Já está na hora de você sair dessa cama e comer algo.

Eu bufei. Eu não queria comer. Eu não queria sair da cama. Puxei meus cobertores cobrindo meu rosto, respirando fundo. Senti o colchão se afundar ao meu lado e tirei o cobertor da cara para protestar.

- Bella, querida, sei que o que presenciou domingo passado na sala branca é difícil de esquecer em tão pouco tempo. Aro me enviou para tentar fazer você enxergar de que precisa passar por outras coisas antes da sua transformação.

Meu estômago embrulhou. Ainda tinha mais. Eu havia me esquecido disso. Eu ainda precisava ver como um recém criado se comportava. E alguém ainda me passaria as regras dos Volturi. Eu me desanimei imediatamente. Olhei para Gianna, lembrei-me de que a humana na minha frente desejava o mesmo que eu, e que passara por um momento significativo na sala branca, momento pior que o meu, já que quem foi drenado, foi sua família. Senti-me egoísta e ridícula por duvidar de que Gianna não conseguiria me entender. Perguntei-me se essa seria uma boa hora para perguntar a ela como ela esquecera. Não pensei muito.

- Gianna, como superou isso?

Gianna olhou para mim e deu um leve sorriso. Atravessou o quarto pegando a bandeja que continha meu almoço, pousando-a no meu colo.

- Tente comer algo, sim? Aro quer sua presença hoje na sala branca. Alguns vampiros vão chegar e ele quer testar seu bloqueio.

Eu estremeci. Eu havia traçado uma meta de ficar no meu quarto por um mês inteiro. Mas parecia que para Aro, isso não seria viável. Meu estômago roncou, protestando pelos três dias seguidos sem comida. Percebi que estava morrendo de fome e comecei a comer. Gianna abriu um sorriso.

- Que bom que voltou a comer Bella, já estávamos ficando preocupados com você.

Olhei interrogativamente para ela.

- Demetri passa aqui todas as noites para te ver, Bella.

Parei meus movimentos. O garfo ficou no ar e minha boca aberta, até eu me dar conta de que a comida ia esfriar. Recomecei a comer e continuei olhando para Gianna.

- Eu sei que quer uma resposta. Bom, eu realmente superei com o passar do tempo. Sabe Bella, eu vi minha família ser morta por vampiros. Mas antes de ela sofrer com bocas sugando seu sangue, ela sofreu com humanos tirando seu dinheiro. Quando eu tinha apenas cinco anos, meus pais foram expulsos de onde moravam por não estarem com a conta em dia. – ela olhou para mim, os olhos carregavam lágrimas que Gianna parecia conter por anos - Passamos três dias com fome e sem onde dormir. Morávamos na rua. Meu pai me carregava no colo, e minha mãe vendia cestas feitas de palha em troca de comida. Isso durou anos. Eu cresci Bella, mas meus pais envelheceram, e precisavam de ajuda. Eu tinha que conseguir algum emprego. Eu vim para Volterra tentar algo, eles não quiseram me deixar sozinha. Com a beleza que eu tinha, eu poderia conseguir alguma coisa. Fomos atraídos por Heidi, e o resto você já sabe.

Meu prato já estava vazio. Mas eu não conseguia fazer um movimento. Escutava a história de Gianna como se fosse um Conto de Fadas triste. Ela se levantou da minha cama, pegando a bandeja das minhas mãos e caminhando para a porta.

- Sabe Bella, meus pais sofreram muito nas mãos de humanos. Humanos vêem humanos como um caminho mais curto para ganhar dinheiro. Não dão valor à vida. Minha mãe foi espancada por seus chefes. E meu pai humilhado em público. Eu via tudo, e não podia fazer nada. Caminhamos para a morte no dia que entramos nesse castelo. Os Volturi vêem humanos apenas como comida. Eles não têm a necessidade de fazer mal a algum, apenas precisam do seu sangue para sobreviver. Agora eu lhe pergunto quem são os monstros. Os vampiros?

Com isso ela abriu a porta e me deixou sozinha. Eu finalmente tinha percebido porque Gianna conseguia lidar com vampiros tão bem. Nós humanos, mesquinhos, sempre pensando mais em como nos dar bem, sem pensar no próximo. Os vampiros matavam por necessidade de sobrevivência. Nós matávamos por coisas supérfluas. Eu tive raiva da minha espécie assim que escutei a história triste de Gianna. Mas isso não significava que eu achava normal Jane brincar com sua comida, torturando-a, nem que Demetri fosse tão frio ao enterrar seus dentes no pescoço de uma jovem prestes a ter uma vida inteira pela frente.

Mexi-me na cama, agora meu corpo não doía tanto e a tonteira tinha passado. Devia ser apenas falta de comida. Lembrei-me que Aro me queria na sala branca. Suspirei e saí debaixo das cobertas caminhando até o banheiro.

Tirei a camisola que vestia e me olhei no espelho. Meu corpo já não tinha as manchas roxas que Demetri outrora havia deixado. As olheiras eram fundas devido aos dias de depressão passageira. Os lábios estavam secos. O cabelo bagunçado. Parecia que eu fitava outra pessoa.

Balancei a cabeça e entrei na ducha de água fria. Isso me despertou. Lavei meus cabelos duas vezes. Saí do banho, escovei os dentes e passei um creme hidratante na pele. Caminhei até o armário e coloquei uma roupa, jogando o manto preto por cima. Arrumei rapidamente minha cama. Ela estava com um leve cheiro de canela. Lembrei-me do que Gianna falou sobre a preocupação de Demetri.

Saí do quarto e caminhei até a sala branca, abrindo a porta grande de madeira. Aro estava no mesmo lugar de sempre. Seu sorriso se alargou quando ele me viu cruzando a sala.

- Bella! Está melhor pelo que vejo. Excelente, vou precisar de você esperta hoje, querida.

Assenti sorrindo para ele. Aro sempre me tratara bem, eu teria que compensá-lo de algum jeito. Mas meus pensamentos foram parar em Demetri, como ele estaria perante seu mestre? Aro sabia que eu havia tido uma noite com Demetri. Apenas uma noite. Será que ele achava que não passaria disso? Passei os olhos pela sala e só consegui ver Jane e Alec. Os outros da guarda não estavam presentes. Vinquei a testa.

- Procurando por Demetri, Bella?

Eu engasguei, puxando o ar com força e comecei a tossir. Aro conseguia ser muito direto quando ele queria. Eu fui ficando vermelha e abaixei a cabeça, não sabendo o que poderia responder.

- Ele estará aqui em instantes.

Seu rosto era inexpressivo. Mas seu olhar era significativo. Ele colocou a mão no meu ombro e assim que eu escutei a porta se abrindo, meu coração se acelerou.

Demetri e Felix entravam com mais duas criaturas lindas na sala. Minha curiosidade aumentou quando eu vi o corpo de Aro se enrijecer ao meu lado. Aro sempre estava calmo quando o vi, nunca tinha visto ele tenso.

Os vampiros eram bem vestidos, usavam ternos. Um era loiro, o outro tinha o cabelo ruivo preso em um rabo. Lindos. Demetri e Felix pararam do lado da sala assim que Aro caminhou até os visitantes para apertar suas mãos. Os dois usavam luvas.

- Pierre! Louis! Meus amigos, como é bom vê-los novamente.

Franceses. Claro. O ar aristocrático e o nariz empinado era uma marca registrada. Aro cumprimentou os dois. Mas o contato com a pele era impossível. Aro estava cego. Não podia ver o motivo da visita dos dois. Isso fez o ambiente ficar tenso. Eu estava atrás de Aro. Eles conversavam sérios. Mas eu não conseguia entender nada, as bocas se mexiam numa velocidade sobrenatural.

- Compreendo...

A voz de Aro soou pela sala. Eu olhei para Demetri e seus olhos estavam focados em seu mestre como se temesse pela sua vida. Parecia que não tinha percebido a minha presença na sala. Saí dos meus pensamentos quando escutei o meu nome em uma voz que não pertencia a nenhum Volturi.

- Bella?

Aro erguia o braço em minha direção. Peguei sua mão e ele me apresentou aos dois vampiros na minha frente. Seus olhos vermelhos me fitavam com curiosidade.

- Uma humana, Aro?

Aro sorriu e se virou para mim. Colocou as duas mãos em cima dos meus ombros.

- Uma humana que tem potencial. Eu quero que vocês conheçam Isabella Swan, minha nova pupila. Surpreendentemente ela é imune a quase todos os nossos dons.

Os pares de olhos vermelhos me fitavam com mais vivacidade e curiosidade. De repente me senti um atração de circo, meus lábios tremeram.

- Excelente! Posso?

Aro assentiu e o vampiro loiro se aproximou de mim. Eu podia jurar que ele estava salivando. Não pelo meu sangue, mas pelo fato de ele estar com os olhos muito focados nos meus, e eu continuar de pé.

- Incrível! Aro, você tem uma jóia rara!

Aro sorriu. Eu não estava entendendo nada. Parecia satisfeito de que seu objeto realmente possuía algum tipo de defeito que impossibilitava os vampiros à minha frente.

- Pierre tem o poder de desacordar qualquer pessoa, Bella. Ao que parece, você continua desperta, não?

Virei-me para o vampiro que me fitava, incrédulo. Seus olhos flamejavam de raiva. Mas um sorriso cínico perpassou por sua face. Ele parecia alguém que tinha uma surpresa desagradável para revelar. Eu arrepiei. Demetri olhava para o vampiro ruivo fixamente.

- Por que não deixamos que Louis tente atravessar o escudo desse tesouro? – a voz do vampiro soou pela sala, satisfeita e curiosa.

De repente eu não estava muito confiante no defeito do meu sistema. Jasper conseguia me deixar calma em segundos. Eu não era imune a todos. O vampiro ruivo passou por Pierre e se postou na minha frente. Vi de relance Aro olhar para Jane significantemente. Demetri fechou as mãos em punho.

- Olá Isabella. – a voz sensual reverberou pela sala.

Parecia que sua voz era algo dentro de mim. Eu olhava para os vampiros da sala, mas não conseguia diferenciar qual era qual. Eram vultos pretos parados na minha frente. A sala branca estava muito branca. Mas estava quente demais. Eu comecei a sentir meu rosto esquentar devido ao calor. Minhas mãos suavam e eu tirei o manto para ver se meu corpo esfriava. Mas o calor estava insuportável.

Passei meus olhos pela sala e senti uma lufada de vento muito agradável vindo de uma janela perto da porta. Caminhei a passos lentos e me postei em frente, abrindo mais o vidro. O vento que passou pelo meu rosto me deu uma sensação ótima. Mas o calor continuava, parecia que vinha de dentro do meu corpo. Seria febre? Olhei pela primeira vez para fora da janela na sala branca, um lago estava lá embaixo, cristalino. O calor começava a me fazer mal, me sufocava, parecia que meu cérebro ia sofrer algum colapso se eu não tentasse amenizar tal sensação.

Eu subi no parapeito da janela. Não era tão alto. Abri meus braços para sentir um vento gelado batendo de encontro ao meu corpo, me proporcionando um prazer sem explicação. Decidi que o melhor seria pular no lago. Que mal faria? Eu escutei um rosnado alto e gutural vindo atrás de mim. Mãos me puxavam para dentro e eu não queria! Eu queria me refrescar! O calor era insuportável! Tire as mãos de mim! Eu me debatia. Senti um baque nas costas e percebi que tudo voltava ao normal, como se eu tivesse acabado de sair de um sonho.

Olhei para Felix, que estava em cima de mim, como se tivesse me impedido de algo. A janela estava próxima. O calor havia sumido e o frio da sala voltara em um piscar de olhos. Ele afrouxou o aperto e eu me levantei, olhando para fora da janela. A altura era imensa, embaixo se via apenas árvores. Tremi. Eu havia tentado pular? Compreendi o que tinha se passado e olhei incrédula para o vampiro responsável.

Ele estava preso na parede, pelo pescoço, por duas mãos compridas e masculinas, as mãos de Demetri. Seu corpo inteiro estava rígido, seus olhos negros. Ele rosnava alto. Descobri de onde veio o rosnado gutural. Aro parecia se divertir com a situação. De repente o corpo de Demetri tombou no chão e o vampiro loiro estava em cima dele. A velocidade era muita. Parecia a briga que Felix havia tido com Edward na mesma sala. Mas Demetri lutava com os dois com facilidade. Aro olhou para Jane, que revirou os olhos. Deu um passo à frente e olhou fixamente para a luta. Os vampiros caíram no chão no mesmo instante se contorcendo. E Demetri ajeitou a roupa. Se postando ao meu lado em uma posição defensiva.

- Jane?

A fada demoníaca olhou para Aro.

- Mestre?

- Bom trabalho, querida.

Os vampiros estavam se recuperando. Levantavam um pouco zonzos e se distanciaram da vampira pequena que estava perto. Pierre chegou perto de Aro e olhou para mim.

- Parece que seu escudo não é tão perfeito, Aro. Se o seu guarda não tivesse impedido Louis, sua humana estaria espatifada no chão.

Ouvi um rosnado severo ao meu lado. Demetri estava mostrando os dentes para o vampiro atrevido. Aro olhava a situação tranquilamente.

- Desculpe pelos atos do meu guarda. Acho que Demetri não gostou do que você fez à sua companheira.

Companheira? Essa era boa. Parecia que os dois vampiros acharam graça do mesmo modo que eu. Eles riram.

- Companheira? Uma humana?

- Isabella é humana agora. - A voz de Aro ficou mais severa – Mas seus poderes ficarão maiores quando a transformarmos.

Os vampiros se calaram. Acho que eles não sabiam que Aro pretendia me transformar. Acharam que eu seria um brinquedo o resto da vida?

- Felix, acompanhe meus amigos até a porta.

Aro olhou para os visitantes.

- Creio que os favores pedidos serão feitos em menos de semanas.

Os vampiros acenaram com a cabeça e saíram da sala com Felix os acompanhando. Aro me fitou e sorriu.

- Bom trabalho Bella! Claro que eu não deixaria nenhum mal acontecer a você. Demetri que se precipitou.

Senti um leve rosnado sair do peito de Demetri, ele olhava para o teto.

- Demetri, acompanhe Bella, sim? O jantar vai chegar ao seu quarto em instantes. Está em sua noite de folga.

Demetri assentiu e pegou minha cintura com força, me virando para a saída.

- Vamos.

Senti seu braço duro e frio no meu corpo e o cheiro de canela saindo de sua boca e me arrepiei. Havia sentido falta do seu toque. Eu só não falaria isso com ele. Com ninguém. Por ora, meus pensamentos ainda estavam protegidos de vampiros.