Capítulo XIII

Murtagh olhou a cicatriz nova pelo espelho. Um rasgo vermelho do lóbulo da orelha até abaixo do queixo.

Meu irmão está se superando.

Georhgio é mais forte do que imaginamos, Thor respondeu.

Esse é o nome dele então?

É o que o mestre diz.

Murtagh sentiu a angústia que tentava esconder de si mesmo. Não lhe agradava nem um pouco que seu dragão chamasse Galbatorix de mestre. Tudo estava errado. A lealdade forçada o obrigava a isso. Era o que tinha de fazer.

O "mestre" havia dado um dia livre para eles. Estava entretido com Saphira no cárcere. Ela não havia demorado a despertar. Rugiu e esperneou, tostou três guardas, mas Galbatorix conseguiu controlá-la com esforço.

Ele não ousava demonstrar, mas Murtagh sabia. Eragon estava mais forte do que nunca e fora difícil deixa-lo sob alucinações daquela maneira. O novo cavaleiro... Quase repugnância ao descobrir que era uma garota. De Violet não se esperava que conseguisse se livrar do encantamento e ainda parar a queda. Estavam subestimando os inimigos.

Escutara o mesmo discurso sobre o império, sobre a era do ouro que viria e mais mil vantagens de seu comando pela manhã. Estava cansado e Thor também. Não pertencia àquele lugar.

Sacudiu a cabeça e voltou ao argumento que o fazia continuar. Era o que tinha de fazer.

Quer dar uma volta?

Tudo bem. Respondeu Murtagh. E ele e o dragão carmim deixaram o quarto e o corredor estreito para ganhar o ar carregado.

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Eragon entrelaçou os dedos e apoiou os cotovelos nos joelhos. Mal saíra para comer ou falar com qualquer pessoa durante aquela semana.

A falta de Saphira trazia uma dor que não sentira quando da morte de Brom ou do tio que o criara. Sentia-se miserável e impotente. Ao menos tinha uma esperança.

Sairia no dia seguinte; não podia mais esperar. Pensar que seu dragão estava sendo subordinado aos encantos de Galbatorix, que estava sozinho e que não podia fazer nada a respeito lhe enfurecia e o poço de trevas rondava-lhe a alma. Nada era igual sem Saphira.

Retomou o plano. Quando tudo parecer perdido... E seu poder não for o suficiente... Não haveria outro momento. Sentia-se mais perdido do que nunca, nem imaginara sua vida sem Saphira ao seu lado. Talvez fosse a hora...

"Quando tudo parecer perdido e seu poder não for suficiente, vá até a pedra Kuthian e diga seu nome para abrir o cofre das almas", dissera Solembum.

Como achar a pedra Kuthian? Também não sabia como aquilo poderia ajudar. Mas era a única esperança. Penetrar em Uru'baen sem ser notado era impossível. Resgatar o dragão mais improvável ainda.

Procuraria Angela, ela deveria saber. Era isso. Tudo estava perdido... e seu poder nunca fora suficiente. Hora de partir.

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Carregava o livro que ela lhe dera sob o braço. Estava com tudo o que precisava para seguir o caminho que escolhera. Angela lhe dera as coordenadas que sabia, o resto era com ele e mais ninguém.

Sem despedidas claro. Se suspeitassem que partiria nessa aventura estúpida, não deixariam que colocasse o pé fora de Surda.

A cidade estava quase que macabra. Não havia lojas abertas e poucas velas estavam acesas nas casas. Mesmo durante o dia, o lugar ficava vazio, às moscas.

Feridos trazidos que morriam eram enterrados sem muita cerimônia. Alguns parentes faziam piras funerárias. A comida era pouca.

Eragon encarou a lua cheia que tomava o céu limpo. Já era tarde da noite e o silêncio era irritante. Sentiu saudade súbita do ruído de Saphira ao caminhar ao lado dele. Os olhos quase marejaram.

Arrumou a carga no cavalo que arranjara mais cedo. As patas do animal ecoaram pela rua deserta e Eragon virou-o para a saída. Deu de cara com Violet apoiada em Georhgio com os braços cruzados e um quase sorriso no rosto.

Ele a encarou. E embora ela fizesse uma pose marota, seu olhar foi reconfortante de alguma forma.

- Eu vou – Ele disse simplesmente. Violet não disse nada. – É melhor que me deixem ir.

- E para onde? – Ela perguntou, ainda com a mesma pose. Eragon a encarou de volta.

- Não tente me impedir. Saphira... – E ele parou. Violet suspirou e caminhou até perto dele. – Eu vou.

- Eu sei – Ela sabia mesmo. George bufou baixo; estava sendo excluído da conversa. Eragon estreitou os olhos.

- Não vai dizer pra eu ficar... Que é insano?

- Não – Ele a olhou novamente. Agonia por Saphira não diminuíra, mas sentira-se levemente chateado. Violet não imploraria que ficasse e não corresse riscos? – Não vou Eragon. Você diz que vai partir...

Nós aceitamos a decisão. Disse George. Violet sorriu.

- Mas nada impede que partamos com você.

- Mas... Não. É arriscado. Isso...

- É trabalho seu? – Violet disse sarcástica. – Já fiz minhas malas.

Isso mesmo. Estamos prontos.

- Não... – Ele não sabia o que dizer.

Pessoas fora de si como você não fazem planos decentes para situações como essa.

Violet assentiu concordando. – Não perco isso por nada.

Ela dizia como se animada, mas sabia que Violet queria estar com ele e ajudá-lo. Eragon não conseguiria convencê-los do contrário. Quis negar ou então agradecer, mas a frase certa não veio.

Estavam prontos para subir à sela de Georhgio quando alguém pigarreou.

- É bom que não se esqueçam de mim, oeí? – Orik aproximou-se.

- Pra quem mais vocês contaram? – Perguntou Eragon com uma sobrancelha erguida. Violet corou envergonhada.

- Ninguém me contou, Matador de Espectros – Disse Orik. Eles se olharam em silêncio.

George... Você pode carregar nós três?

Acho que sim. Subam.

Ajeitaram-se como puderam e Georhgio ganhou o ar. Eragon lhe deu coordenadas e explicou superficialmente para onde iriam e o que fariam lá.