Chapter 14
Beating Heart
Eyes make their peace in difficulties
With wounded lips and salted cheeks
And finally we step to leave
To the departure lounge of disbelief
And I don't know where I'm going
But I know it's gonna be a long time
And I'll be leaving in the morning
Come the white wine bitter sunlight
Wanna hear your beating heart tonight
Before that bleeding sun comes alive
I want to make the best of what is left hold tight
And hear my beating heart one last time
Before daylight
And the canyon underneath the trees
Behind the dark sky, you looked at me
I fell for you like autumn leaves
And never faded ever green
And I don't know where I'm going
But I know it's gonna be a long time
Cause I'll be leaving in the morning
Come the white wine bitter sunlight
I can't face this now
Everything has changed
I just wanna be by your side
Heres hoping we collide
Narcissa´s POV
Ginevra caminhou até mim.
-O que houve? – perguntei, tentando bloquear da sua vista a moldura dourada.
-Eu gostaria de ir até as Corporações Malfoy – respondeu ela.
-Você está pálida! – contestei.
-Compras demais. Acho que exagerei – respondeu, com um sorriso.
Era mentira. Mas, em contrapartida, ela me diria se fosse algo sério.
-É a primeira vez que eu ouço "exagero" e "compras" na mesma frase! – ri. -E o que vamos fazer na empresa? – questionei.
Ela me mostrou um estojo negro. De dentro, tirou uma bengala, com uma cobra de nove cabeças na ponta prateada.
-O que acha? – questionou ela.
-É muito bonita! Mas Draco não é um grande fã delas – enunciei.
-Mas esta não é uma bengala comum – respondeu ela. – Acho que há a possibilidade de ela ter pertencido à Paris Theodore Malfoy.
-Draco vai gostar bastante disso. O avô costumava contar a história de como... - Me interrompi. Seus olhos pareceram brilhar. – Ele já te contou essa história?
-Já – respondeu ela. – Além disso, Draco está mancando. Segundo o médico, a tendência é piorar, à medida em que o remédio perde o efeito. Se ele começar a usar agora, as chances de alguém notar quando ele realmente precisar dela são menores.
-E as chances dele notar que você o está ajudando são menores, quando você lhe oferece um presente tão significativo – concluí, notando seu jogo.
-Exatamente – respondeu. – Por isso vou mandar encrustar esmeraldas nos olhos da hydra.
-É perfeito – respondi, notando que um pouco de sua cor voltava.
-Por outro lado – começou ela – qual o problema de Draco com receber ajuda?
Sorri.
-Qual o problema dos homens com receber ajuda, você quer dizer! – ri. – Acho que tem alguma coisa a ver com o ego viril deles, ou algo assim.
-E eles são Malfoys, não é isso? – voltou a perguntar ela, com um pouco de humor.
-Isso. O que quer dizer que é muito pior – resumi.
A vendedora que me atendia saberia enviar a moldura até a Mansão Malfoy, bem como a conta, de forma que não me preocupei em dizer mais nada. Seria uma surpresa!
Caminhamos juntas até a saída. Senti Ginevra tencionar ao meu lado, enquanto passávamos por Pansy Parkinson e mais duas garotas – uma delas, notei, era a garota que fui visitar por indicação da própria Ginevra.
Descemos da carruagem em frente à grande porta de vidro das Corporações Malfoy. Admito que éramos uma visão um tanto inusitada: eu era alta, magra, loira e de olhos claros. Ginevra era esguia, ligeiramente menor, com cabelos ruivos e olhos castanhos.
As pessoas não atravessavam nosso caminho.
Fomos diretamente até a sala de Hilaryon Hichckovich, o designer de joias da Joalheria Malfoy. Baixei meu capuz, por um segundo, para que a secretária visse que era eu quem entrava na sala sem permissão, mas voltei a colocá-lo imediatamente.
Eu queria ver como Ginevra se sairia.
Uma vez lá dentro encontramos Hilaryon de costas, mas ele se virou imediatamente, com um olhar de ódio.
Isso não a deteve. Ginevra entrou na sala, e sentou-se, ciente de que tudo ali lhe pertencia.
Como devia ser.
-Mas o que está acontecendo aqui? – questionou Hilaryon.
Ela retirou a bengala de dentro do estojo, e a colocou sobre a mesa, em frente ao ourives.
-Quero que encruste esmeraldas nessa peça – disse Ginevra, com suavidade – agora mesmo.
Eu não teria sido tão suave. Interessante!
Hilaryon sorriu, seu sorriso de açougueiro.
-E eu quero que as Harpias de Hollyhead ganhem a taça – retrucou ele. – Mas ambos sabemos que isso não vai acontecer.
Ginevra baixou o capuz, e o sorriso de Hilaryon murchou um pouco.
-Eu sei que uma coisa vai acontecer – disse ela. – O senhor fará o favor de incrustar esmeraldas nos olhos da hydra.
-A pedido de quem? – questionou o homenzinho, desconfiado.
Ao invés de responder, Ginevra tirou sua capa. O colar que Draco lhe dera se destacando em seu colo claro.
Hilaryon olhou de Ginevra para a peça em êxtase.
-Como quiser, Senhora Malfoy – respondeu ele.
-Obrigada – Ginevra respondeu, com um sorriso.
Ginevra´s POV
Abri a porta do saguão de entrada com expectativa.
Às minhas costas, Draco esperava.
Entrei, sentindo meu coração bater tão forte que parecia doer. Meus passos ecoaram pelo mármore caro, quase tão alto quanto meu coração. Draco entrou segurando minhas mãos. Ficara melhor do que eu poderia esperar.
Minha casa.
Me virei para ele, com ansiedade.
Draco era do tipo que tinha opiniões definitivas, e que formava uma primeira impressão das coisas. Esperei, enquanto ele analisava cada pequeno detalhe, antes de dizer o que tinha em mente. Seus olhos exploraram todos os cantos, partindo dos detalhes e dos pequenos conjuntos para o todo.
-E então? – perguntei, sem conseguir me conter. – O que achou?
O saguão ainda estava um pouco vazio. Havia apenas as cortinas, daquele tom de dourado-claro que, de alguma forma, havia se tornado minha marca registrada; o piso do mármore mais negro, refletindo o teto de vidro sobre nós; o tapete felpudo que parecia uma ilha de pureza em meio ao negro perfeito do chão, e o piano de cauda. Meu piano.
Era imenso. Minha voz parecia ecoar nas paredes, alta demais em meus ouvidos. Mas, ainda assim, era como eu gostava daquele lugar. Grande, limpo, e sem entulhos.
-É perfeito – disse ele, por fim.
-É claro que não está terminado, ainda – emiti, trazendo-o levemente pela mão até o tapete, para que ele pudesse senti-lo sob os pés. – Mas teremos tempo.
-Você tem todo o tempo do mundo para transformar este lugar no seu lar – ele acariciou meu rosto com leveza.
Mas eu me sentia mais entusiasmada do que me lembrava de ter me sentido antes. Era como se minha vida começasse agora. E eu queria segurar as rédeas dessa vida e correr à toda velocidade.
-Consegue sentir? – perguntei, fechando os olhos e respirando fundo diante dessa nova sensação que eu não sabia bem de onde vinha.
-Sentir o que? – perguntou, inspecionando meu rosto quando abri os olhos. Alguma coisa que ele viu fez com que seus olhos brilhassem, satisfeitos.
-A...liberdade. Expectativa. Tranquilidade – falei. – A sensação de que vai ser muito feliz nesse lugar.
Ele sorriu para mim. Um sorriso que eu ainda desconhecia, mas que gostei mais do que todos os outros sorrisos.
-Você vai ser muito feliz aqui – anunciou.
-E você? – questionei, subitamente insegura. – Acha que pode ser feliz aqui?
-Eu posso ser feliz em qualquer lugar em que você esteja – respondeu.
DEZ MOTIVOS PELOS QUAIS VOCÊ QUER SER GINEVRA MALFOY
Por Ritinha Skitter (filha de nossa melhor correspondente de notícias sobre celebridades).
1 - ELA JÁ NAMOROU COM HARRY POTTER. - Dizem fontes muito seguras em Hogwarts que, depois de dois anos de um relacionamento tão perfeito que nos fazia suspirar, o enlace dos dois chegou ao fim depois que O Eleito fez uma aposta em um duelo. O objeto da aposta não foi revelado, mas o oponente do Gato-que-sobreviveu? Ninguém menos que Draco Malfoy!
2 - ELA JÁ DEU UM FORA EM HARRY POTTER (quantas pessoas podem dizer isso?). – Vamos encarar a realidade, ela é a única pessoa viva que pode dizer isso. E a única que teria coragem para tal, também...
3 - ELA SE CASOU COM O HERDEIRO DA MAIOR FORTUNA DA EUROPA – e da África, e da Ásia, da Australia...
4 - ELA É A ESPOSA DE DRACO MALFOY. – Embora Harry Potter tenha um charme natural e a meiguice que derrete os corações de todas as bruxas adolescentes do momento, não podemos deixar de notar que Draco Malfoy tem uma beleza estonteante. O único capaz de rivalizar com o Gato-que-sobreviveu, Draco Malfoy é inigualavelmente sexy em suas calças de couro – e sabe disso!
5 - ELA GANHOU UM COLAR DE APROXIMADAMENTE UM MILHÃO E MEIO DE GALEÕES. – Diamantes são os melhores amigos de uma garota! Mas isso não é problema para ela. Ginevra Malfoy foi fotografada em mais de um momento usando a joia, formada por um imenso (imenso mesmo!) coração de ônix e uma corrente formada por corações de brilhantes. Dizem que Malfoy encomendou pessoalmente a joia ao melhor designer do mundo – que, convenientemente, trabalha para ele! Tudo isso em seu primeiro dia como a Senhora Malfoy, em um jantar no topo da Torre Eiffel. Famoso por suas conquistas amorosas e pela frequência com que o lugar ao lado de sua cama ficava vago, quem diria que o homem mais sexy – e o mais rico – seria também romântico?
6 - SEU CASAMENTO FOI NÃO APENAS O MAIS SOFISTICADO, MAS TAMBÉM O MAIS DISPUTADO EVENTO SOCIAL DA HISTÓRIA. – Centenas de pessoas se acotovelaram para ver o dia épico em que uma Weasley e um Malfoy trocariam alianças. O casamento movimentou tanto a economia (através da negociação de convites no mercado negro e as apostas - se os dois iriam mesmo se casar!) que foi ofertada uma enorme quantidade de dinheiro para que Draco Malfoy adiasse o casamento por alguns dias. A resposta: Malfoy disse que não atrasaria em um segundo sequer seu enlace matrimonial. Não é que a pequena Weasley fisgou mesmo o loiro?
7 - ELA SE CASOU COM O VESTIDO MAIS CARO E MAIS DESLUMBRANTE DO SÉCULO. – Desenhado por Carolina Herrerra, o modelo já havia sido escolhido por centenas de bruxas como o vestido dos sonhos de qualquer uma. Mas não é só isso: aquele vestido havia sido usado no segundo maior casamento de todos os tempos: o de Narcissa Black e Lucius Malfoy. Segundo maior porque, como se sabe, o casamento de Draco e Ginevra superou até mesmo o de seus pais. Quando questionada a respeito do vestido, Narcissa Malfoy disse: "Ginevra é a mulher perfeita para Draco. E me sinto muito honrada que ela tenha escolhido meu vestido para seu casamento!".
8 - EM SEU ANIVERSÁRIO DE DEZESSETE ANOS, O MARIDO LHE DEU UMA ILHA DE PRESENTE. – A família Malfoy não confirmou nem negou o fato, mas o grego Andriei Pascidophilus, antigo proprietário, teria insinuado que a venda foi concluída. Não sei vocês mas, no meu último aniversário, eu ganhei uma pena de repetição automática! Imagina agora seu marido, gatíssimo em calças de couro, lhe dizendo "Toma aqui essa ilha. Surpresa!". Enfarto, na certa...
9 - ELA SE TORNOU UM ÍCONE DE MODA – e todos os estilistas mais renomados disputam com unhas e dentes para ter um de seus modelos no corpo dela. Todos estranharam quando a então Ginny Weasley começou a se comportar de modo levemente estranho, e seus vestidos floridos (que eram hit) desapareceram misteriosamente. Agora sabemos a razão. Ela está sempre surpreendendo em modelos exclusivos que deixam estilistas e fotógrafos loucos com seu estilo clássico – mas com um toque de ousadia.
10 - ELA FAZ ATÉ MESMO UM MERO RABO-DE-CAVALO PARECER "BADASS" – depois que ela e o marido foram fotografados saindo de um restaurante exclusivo de Paris, todas as garotas enlouqueceram com o rabo-de-cavalo torcido de Ginevra Malfoy e foram correndo à bruxa cabeleireira fazer o seu. O penteado fez tanto sucesso, que o mais famoso comentarista de moda francês, Jean-Pierre Seydoux, radicado em Londres, nomeou o estilo como Ginevra´s Pony-Tail.*
Aparentemente, qualquer coisa usada pelo Senhor e Senhora Draco Malfoy vai imediatamente para a wish-list** de todas as garotas. Fique atenta, e não perca nada do que está rolando na vida do casal mais discreto e misterioso do momento!
Semana que vem: Ginevra Weasley e Draco Malfoy – amor ou interesse? Por Ritinha Skitter.
*O rabo-de-cavalo de Ginevra
**Lista de desejos
Molly Weasley amassou o jornal cuidadosamente.
Depois, como que arrependida, voltou a abri-lo. Passou os olhos, meticulosamente, sobre cada uma das fotos.
Aquela não era sua filha.
Sua filha era meiga, suave, mas explodia como uma granada quando a irritavam. Sua filha era uma criança, uma garotinha adorável, que gostava de flores como ela e usava os vestidos alegres e coloridos que a mãe lhe comprava. Sua filha era apaixonada por Harry Potter, e corava simplesmente à menção do nome dele. Sua filha era radiante, parecia com uma explosão de alegria onde quer que passava, e todos à adoravam. Aquela era a filha que conhecia. Aquela era a filha que adorava.
Aquela era a filha que compreendia.
Mas a moça nas fotos não era sua filha. De algum modo, a havia perdido. Seu rosto ainda estava lá, suave e jovem, e seus cabelos vermelhos também - mais vermelhos que o de todos os outros filhos. Mas havia alguma coisa estranha. Alguma coisa que a havia quebrado, tornando-a essa moça de sorriso enigmático e difícil. Alguma coisa havia matado sua vivacidade e sua infantilidade, transformando-a de garota em mulher. Ela parecia confortável em todas as fotos. Não parecia coagida; nem havia estranheza entre ela e o garoto Malfoy. Ela parecia uma rainha, e todos a tratavam como se ela fosse a nona maravilha do mundo bruxo...
Molly Weasley não conseguia compreender aquilo. Ela não conseguia compreender como alguém poderia ser feliz sem rir alto, sem uma casa branca com janelas azuis, e sem uma porção de filhos para correr à sua volta e quebrar coisas.
Era assim que ela vira o futuro de Ginny. Ainda podia vê-la, na varanda de uma casa grande, segurando uma criança ruiva e com o ventre inchado pela próxima, enquanto Harryzinho desgnomizava o jardim com os dois filhos mais velhos. Ainda podia ouvir com clareza como Harryzinho iria ensinar os meninos, e então ela e Arthur iriam chegar e Harry ficaria tão feliz de tê-los ali! Ela ajudaria Ginny a fazer o jantar, enquanto Arthur e Harryzinho conversavam sobre o ministério ou qualquer outra coisa sem graça. Mais tarde, Rony e Hermione se juntariam a eles, com seus próprios filhos, e Molly teria uma porção de crianças chamando-a de vovó.
Tantas vezes ela partilhara aquela imagem com Ginny. Tantas vezes Ginny havia, ela própria, acrescentado imagens e cores àquele sonho, alimentando-o. Como ela poderia não entender?
Como ela poderia não querer aquilo tudo?
Draco´s POV
A manhã começava a invadir nosso quarto quando abri os olhos.
Por um momento, não soube onde estava. Não estava familiarizado com os móveis escuros, nem com o lugar. Mesmo assim, foi o cheiro de Ginevra a primeira coisa de que tive consciência, e isso me impediu de sequer pensar em me preocupar.
O quarto estava com as cortinas abertas, e os poucos raios de sol que despontavam preguiçosamente, banhavam sua pele clara e suave.
Eu adorava vê-la dormir. Nos noventa e cinco dias em que estávamos casados, descobri que eu adorava observá-la fazendo qualquer coisa: eu gostava de vê-la atravessando um cômodo até chegar a mim, a maneira graciosa com que suas costas se arqueavam eretas enquanto andava; a maneira como ela sorria; eu adorava observá-la imitando meu olhar sarcástico; adorava observá-la enquanto lia, ou enquanto dava ordens aos elfos, sempre tão suave; adorava o modo como ela pousava a mão no pescoço enquanto conversava, seus dedos finos e delicados acariciando a pele da clavícula; e adorava como ela passava os dedos pelo lábio inferior quando sabia que eu a observava.
Mas, mais do que isso, eu adorava observá-la pentear os cabelos. E, mais ainda, vê-la dormir.
Conforme a luz avançava, e as sombras regrediam, seu contorno ganhou ainda mais vivacidade. Ela estava parcialmente sobre mim, sua cabeça recostada sobre meu peito, uma das mãos entrelaçadas com a minha. Eu podia sentir seu coração batendo, tão próximo e tão confortavelmente, que poderia ser meu próprio batimento cardíaco. Mesmo com a cabeça apoiada sobre minha clavícula, seus pés não alcançavam os meus, nossas pernas se alternando uma à outra.
Uma das pernas estava para fora do lençol que nos cobria, bem como todo o seu tronco. Eu podia ver os ossos de sua coluna, um a um, e podia contá-los, se quisesse. Seus cabelos estavam sobre o lençol, apenas uma pequena porção manchando sua pele. Sem me conter, passei o dedo indicador da mão direita no meio de suas costas, sentindo as ondulações de suas vértebras sobre meu toque. Ela gemeu.
Enquanto ela se acomodava melhor, ainda em seu sono, seu rosto se voltou um pouco mais para mim. Pude observar seus cílios, longos e cheios, seu nariz perfeito, e os lábios vermelhos. Ela parecia um milagre.
Meu milagre pessoal.
Ela suspirou, e percebi que acordava. Me arrependi por isso.
-Bom dia, Draco – disse sua voz, rouca e enrolada de sono.
-Bom dia, Ginevra – respondi.
-Que horas são? – perguntou, ainda de olhos fechados.
Olhei em volta, tentando prever. O sol havia saído completamente agora, e estava alto. Por quanto tempo eu a havia observado?
-Quase oito, eu diria – disse.
Seus olhos se abriram de imediato.
-Porque não me acordou? – questionou.
-Porque você estava, claramente, dormindo – respondi, rindo.
Ela se ergueu sobre os cotovelos, para me encarar. Depois, sorriu.
-Tenho muito que organizar, hoje – anunciou. Seus lábios encostaram nos meus.
Eu estava pronto para puxá-la para mim, e beijá-la por uma hora ou duas, mas ela havia desaparecido. Havia se levantado, e vestia o robe de seda escura. O verde da seda, contra sua pele clara e nua, me dava luxúria.
Mas ela congelou no meio da ação.
-Está tudo bem? – perguntei.
Me levantei, e fui até ela. Seus olhos pareceram cegos por alguns momentos, imóveis, as pupilas contraídas, antes de voltarem ao normal. Seus lábios estavam azuis, e o rosto pálido.
-Você está bem? – perguntei novamente.
-Sim – ela respondeu.
Então sorriu, e voltou a ser ela mesma, me deixando completamente pasmo.
-Ginevra – alertei – o que...?
Mas ela me beijou. Por mais que eu não quisesse ceder agora, beijá-la era algo que eu nunca podia deixar para depois.
-Eu estou bem – disse, com os lábios ainda juntos dos meus.
-Você está pálida – retruquei.
-Eu levantei rápido demais – contra atacou ela. – Vou procurar os elfos, e preparar o café da manhã.
Ela se virou, prestes a sair, mas eu a puxei de volta pela mão.
-Já aconteceu antes – disse ela, enquanto eu a segurava perto de mim.
-Você acha que... você pode... – tentei. A mera possibilidade fazia meu coração bater dolorosamente.
-Não – respondeu. Com certeza. Depois baixou os olhos, constrangida.
Segurei-a pelo queixo, forçando seus olhos a encararem os meus.
-Tem certeza? – perguntei.
Ela assentiu lentamente.
-Menstruei no dia dez – falou, em um fio de voz.
Aquela não era toda a verdade. Havia alguma coisa que ela estava me escondendo, então tentei raciocinar apesar da sensação de que eu afundava em algo negro e gosmento.
Dia dez. O aniversário dela havia sido no dia treze, por isso eu não havia notado. Foram nos três dias em que eu havia ficado de cama. Mas tinha mais...
-Cinco dias. Seu ciclo adiantou cinco dias – enunciei.
Ela pareceu confusa.
-Como sabe? – questionou.
-Vi seus exames pré-nupciais – respondi. – Doutor Simmons me entregou.
Fiquei parado ali, tentando encontrar uma forma de justificar que ela estivesse grávida, mesmo sabendo que não era possível. Meu estômago afundava, e eu parecia diminuir diante da sensação esmagadora de que havia fracassado.
Eu vinha fracassando há três meses!
Ginevra não estava grávida.
Ela baixou os olhos, e evitou meu olhar. Parecia envergonhada. Magoada, talvez.
-Está mesmo bem? – insisti.
-Precisa parar de se preocupar comigo – respondeu.
Ela tinha razão.
Durante noventa dias, eu a tivera só para mim. Ao alcance das minhas mãos. Nunca mais distante do que minha voz poderia atingir. Mas, ainda assim, não parecera suficiente. Minha mente parecia focada nela todo o tempo. Eu precisava parar de pensar nela, nem que fosse apenas por algumas horas do dia. Eu precisava me distrair.
-Tem algo que eu queria dizer – anunciei.
Eu receava que ela me tratasse como um doente, diante da nova perspectiva. Que ela não compreendesse. Que quisesse me impedir, por receio da minha condição.
-Pode dizer.
-Estou pensando em voltar para as Corporações Malfoy – disse, sem preâmbulos. – Cuidar dos negócios, agora que estamos de volta a Londres.
-Draco, isso é ótimo – respondeu, abrindo um sorriso tímido. – Quando quer ir?
-Estou pensando em começar hoje – respondi sua pergunta.
-Isso é perfeito – respondeu ela. – Você precisa se distrair.
Me senti minimamente melhor, diante de seu apoio.
A apertei em meus braços e a beijei longamente. Mas ela se livrou de mim, me afastando com gentileza.
-Eu vou preparar o café da manhã, e você vai se arrumar – ordenou. – Não quero que meus sogros reclamem que o casamento o deixou preguiçoso.
-Sabe que não é exatamente isso o que vão dizer, não sabe? – questionei, com sarcasmo.
-Tente um dos ternos na segunda porta. São para usar no trabalho – disse, me ignorando e começando a caminhar até a porta do quarto.
-E você? – perguntei. – Tem certeza de que não vai se sentir sozinha enquanto eu estiver na empresa?
À beira da porta, Ginevra parou e sorriu para mim.
-Não se preocupe comigo. Estarei gastando todo o dinheiro que puder ganhar.
Narcissa´s POV
Lucius estava de pé, em frente à sua cadeira, discursando coerentemente.
Mas eu não estava ouvindo.
Através do vidro que isolava sua sala do saguão na sede de Extração de Pedras Preciosas e Joalheria das Corporações Malfoy, pude ver Draco caminhando em nossa direção.
E, Merlin, como ele estava diferente!
-Então, o que acha das novas minas de esmeraldas? – perguntou Lucius.
-Acho que Draco está apaixonado – respondi.
Lucius me olhou, confuso.
-E você concluiu isso com base... – incentivou.
-No olhar do seu filho – respondi.
Lucius olhou para fora da sala, enquanto Draco atravessava o saguão com distinção.
-Ele está mancando – notou Lucius. – É esse o sinal de que ele está apaixonado?
Draco realmente mancava, embora quase imperceptivelmente, da perna esquerda.
-Ele tomou sol – anunciei. – Suas bochechas estão mais coradas. Ele parece bem. Mas tem alguma coisa nos seus olhos que me diz que ele está apaixonado!
-Mulher, você me dá calafrios – Lucius brincou.
-Duvida de mim? – questionei.
-Claro que não. Não sei como você faz isso, mas sempre dá certo!
Nesse momento, Draco alcançou a porta e entrou.
-Bom dia – anunciou.
Ele parecia tão saudável.
-Está um pouco tarde para "bom dia", não acha? – questionou Lucius.
Me adiantei, e abracei meu filho.
-Bom dia, querido – respondi, repreendendo meu marido com os olhos. Lucius girou os olhos para mim. – Onde está Ginevra?
-Em casa – respondeu ele. – Ela disse alguma coisa sobre os acabamentos da cozinha estarem inaceitavelmente tortos. E fazer compras. E, ah!, gastar todo o dinheiro que eu pudesse ganhar.
-Sem mim? – perguntei, magoada.
Nesse momento, Jéssica abriu a porta. Eu não gostava dela.
Ela era a secretária da presidência no momento. Mas eu não gostava do modo como se insinuava para os homens. Ela era o tipo de mulher que queria se dar bem, independentemente de como. Com Draco ali, talvez ela deixasse de se insinuar para Lucius.
-Senhora Malfoy – anunciou ela, com sua voz estridente de criança desamparada – Chegou uma coruja para a Senhora.
Ela caminhou sinuosamente, com seu decote de cobra, até mim.
-Aqui está – ela me estendeu o envelope.
-Obrigada – respondi, sem simpatia.
Meu nome estava escrito, com capricho, em tinta vermelha. Os dois me olhavam, enquanto eu passava os olhos pela carta de Ginevra.
-Ah, que lástima! – suspirei. – Minha nora solicita minha presença urgentemente. Parece que não vou poder ficar e resolver a questão das minas de esmeraldas!
-Como se você estivesse ansiosa por isso – acusou Lucius.
O encarei, provocativamente, por alguns minutos. Depois, me voltei para Draco.
-O que está fazendo aqui? – questionei. – Pensei que só voltariam em duas semanas. De qualquer forma, não o esperava na empresa tão cedo.
-Nós também. Mas Ginevra não estava suportando receber dezenas de corujas do decorador e dos construtores todos os dias. Decidimos voltar para que ela pudesse terminar a Mansão Malfoy.
-Passei lá a semana passada. A cozinha está realmente hedionda, mas o saguão de entrada e seu quarto ficaram ótimos.
-Ginevra disse a mesma coisa – Draco riu levemente. A maneira como ele pronunciava o nome dela deixava claro que ele sentia alguma coisa. Que estava apaixonado.
-E o decorador disse que a banheira dourada vai virar o must-have* da estação. Ele já até recebeu pedidos de outros clientes – acrescentei.
-Pensei em voltar para a companhia – Draco acrescentou, abruptamente. – Enquanto vocês duas torturam o decorador e os elfos domésticos.
-Draco... – comecei.
Lucius colocou a mão sobre meu ombro, me interrompendo. Essa não era uma boa ideia. Ele poderia piorar, ter uma recaída, ou algo assim. Mas o vi se fechar como uma porta quando ameacei interrompê-lo. Seus olhos subitamente perderam o brilho quente que tinham.
Eu não queria ver meu filho doente. Não queria vê-lo sofrer.
Mas também não queria lhe negar esta satisfação.
-Tem certeza de que vão se comportar enquanto Ginevra e eu estivermos ocupadas? – emendei.
-Como se vocês não fossem se divertir com isso – Lucius me acusou novamente.
-De que lado você está? – retruquei. Mas Lucius sorriu.
-É a verdade – disse.
-Está bem. Não posso fingir que não esteja adorando tudo isso – comentei. – Tem certeza de que vão se comportar enquanto Ginevra e eu estivermos terrivelmente ocupadas nos divertindo e gastando seu dinheiro?
-Fique tranquila – Draco sorriu para mim. – Estaremos ocupados aqui, não atrapalhando vocês.
Dei um beijo em Lucius e outro em Draco antes de pegar minha capa de viagem.
-Estou tão entusiasmada – anunciei.
Joguei um punhado de pó de flu na lareira, e sorri para eles. Sua imagem já havia desaparecido, mas ainda pude ouvir a voz dos dois.
-Elas vão ficar insuportavelmente entusiasmadas, não vão? – questionou Draco.
-Você não faz ideia – Lucius respondeu.
Então deixei de ouvi-los também.
Ginevra´s POV
-Como foi que eles conseguiram fazer isso? – perguntou Narcissa.
Ela parecia ainda mais ultrajada do que eu mesma me sentia.
-Draco teve uma recaída. Ele ficou de cama durante três dias, e eu não quis deixá-lo. Em geral, eu sempre passava por aqui enquanto ele descansava após o almoço, mas nos três dias em que não apareci eles destruíram a cozinha.
-Isso é um desastre! – comentou ela.
-Com certeza.
Deixamos os pedreiros terminarem o piso da cozinha em paz, depois de uma leve insinuação de Narcissa de que eles jamais teriam paz na vida outra vez a menos que fizessem um trabalho decente e voltamos para o escritório.
Narcissa me analisava com olhos atentos e incisivos.
-Nunca pensei que construir uma casa desse tanto trabalho! – afirmei, me sentando no divã de veludo salmão.
-Bem, espere até ter que reformá-la – riu Narcissa. – Aí você saberá o que é trabalho de verdade.
Pensei por um momento, enquanto passava os olhos pela planta da casa.
-Homens não tem a menor noção do trabalho que dá, tem? – perguntei a ela, ainda com meu humor satisfeito. Narcissa riu ainda mais.
-Não fazem ideia. Eles não compreendem que é preciso ter noção de economia e administração para se cuidar de uma casa; de relações públicas e diplomacia para lidar com funcionários e de arte, decoração e influência contemporânea para decorá-la. Eles não tem noção de quanto conhecimento e trabalho estão envolvidos. Para eles, é só entrar em uma loja e escolher alguma coisa!
-Aposto que eles acham que estamos nos divertindo muito – concordei, com um sorriso.
-É claro que acham – riu ela.
-Eu estou me divertindo muito – anunciei. – E você?
-Terrivelmente – respondeu.
Sua excitação era quase tão grande quanto seu bom gosto, e o tato para lidar com as pessoas.
Narcissa era realmente muito boa nisso. Com um olhar, ela conseguia absorver os traços determinantes da personalidade de alguém e tratá-la de acordo com suas próprias expectativas e necessidades. Se ela lidava com uma pessoa que aceitasse bem a gentileza, então Narcissa era gentil; mas se ela lidava com uma pessoa que só respeitasse frialdade, então ela era fria como gelo. Narcissa podia ser muito boa, mas se ela decidisse que deveria ser ruim...
Então Narcissa era muito melhor.
Suspirei.
A cozinha estaria pronta até as cinco, as elfos tinham ordens para limpá-la e preparar o jantar assim que a cozinha estivesse pronta, e não havia muito que eu ainda precisasse fazer aqui. Não havia muito que eu pudesse fazer, também, uma vez que a cozinha estava interditada e estavam revirando os fundos para plantar o jardim.
-Preciso de um chá – comentei, atraindo a atenção de Narcissa. – Me acompanha?
-Claro – respondeu ela. – Onde iremos?
-Que tal a casa de Chá de Madame Ibis? – questionei.
Narcissa sorriu para mim – Perfeito!
Já que não havia condições de fazer sequer um chá na cozinha nesse momento, o Beco Diagonal era a opção mais próxima. Abandonamos as plantas sobre a grande mesa de mogno do escritório.
-Vou pegar nossas capas – anunciei.
Narcissa e eu aparatamos diretamente em frente à Casa de Chás.
Nos sentamos na mesma mesa em que, pouco tempo atrás, havíamos conversado sobre o tratamento de Draco e sua personalidade. Essa conversa parecia ter acontecido há anos, e não há poucos meses.
Enquanto nosso chá chegava, Narcissa continuava inspecionando meu rosto com certa curiosidade. Não sei o que ela pretendia encontrar em mim; de forma que não tinha como saber também se encontraria ou não.
-O que vamos fazer primeiro? – questionou ela, com o olhar ainda atento à minha expressão.
-O essencial – respondi. – Preciso comprar uma poltrona para o escritório, algo que seja do gosto de Draco. E um jogo de jantar adequado, porque pretendo receber meus sogros para jantar essa noite...
Sorri para ela.
-Alguma comemoração? – questionou ela, sorrindo de volta.
Meu estômago afundou, mas me forcei a não demonstrar.
-Que tal jantar de inauguração da nova Mansão Malfoy? – questionei.
-Soa ótimo – respondeu ela.
Madame Ibis entrou no espaço reservado com nosso chá. Sorrimos uma para a outra, enquanto ela nos servia e nos deixava com um aceno gentil. Mas os olhos de Narcissa ainda perscrutavam os meus.
Acho que agora eu sabia o que ela procurava.
-Por favor – pedi, baixinho – pergunte.
Mas ela sorriu, delicadamente.
-Não é preciso, querida. Você já respondeu.
Sim. Eu sabia que sim. Mas como explicar a frustração, e esse sentimento estranho de inutilidade, que eu ainda não compreendia muito bem?
Eu havia me disposto a dar um filho a Draco. Ele havia me pedido isso! Quão vulnerável ele não deveria ter se sentido ao pedir – Draco, que parecia temer a vulnerabilidade mais que tudo!
Eu esperava estar grávida. Eu esperava poder caminhar até Draco e ver seu sorriso se abrindo enquanto ele percebia que estava salvo. Eu esperava descobrir como era essa experiência que minha mãe exaltava tanto – uma experiência que eu quase dispensei, quando me neguei a aceitar Harry em minha vida. E eu esperava, secretamente, poder abrir o segundo quarto à esquerda, no qual eu já havia colocado um berço sem que Draco ou Narcissa soubessem.
Mas, mês após mês, eu era obrigada a ver seu olhar de desesperança quando era obrigada a dizer que não estava grávida. Que não havia conseguido.
Eu sentia que eu tinha falhado. Eu era falha.
E, além disso, eu tinha medo de como meu corpo havia reagido ao que vinha se passando comigo. Minha menstruação havia adiantado cinco dias, provavelmente devido ao nervosismo de ver Draco tão doente. Como se não bastasse, meu fluxo vinha se reduzindo a cada vez, em um volume consideravelmente menor do que o que eu estava acostumada. E tinha as cólicas. Eu não costumava ter cólicas antes de... bem, ser mulher de Draco.
Eu tinha medo de que algo estivesse errado, e que esse erro se traduzisse em uma impossibilidade de gravidez.
E eu precisava perguntar a alguém. Mas eu não sabia como perguntar.
Esse assunto me deixava constrangida.
Narcissa passou suas mãos sobre a mesa, e acariciou a minha com as suas.
-Está tudo bem? – perguntou ela.
Eu não sabia como responder.
-Sim. Eu só pensei que, a essa altura, eu já estaria grávida – suspirei.
Os olhos de Narcissa ficaram, subitamente, cheios de uma ternura inesperada.
-Não se preocupe demais com isso – respondeu ela. – Tudo tem seu tempo.
Draco´s POV
-Pode usar essa sala, por enquanto – disse meu pai.
A sala era horrível. Nada do que eu esperaria para meu escritório. Era pequena, abafada, com uma janela pequena demais (eu apreciava a vista do trigésimo andar), e móveis simples e pequenos sem personalidade alguma.
Mas era a sala contígua ao escritório do meu pai, e de fácil acesso. Se eu pedisse a Ginevra, tenho certeza de que ela escolheria móveis mais do meu gosto, e eu poderia ter uma foto do nosso casamento sobre a mesa...
Eu estava pensando nela de novo!
Era bom trabalhar. Apesar do antigo desejo de meus pais de que eu me tornasse um Comensal da Morte, nunca foi o que eu quis. Eu poderia, sim, ser um comensal, e um dos bons. Mas, na realidade, o que eu sempre quis fazer era administrar as Corporações Malfoy. Eu tinha tino comercial, e era realmente muito bom nisso.
Mas o trabalho estava falhando comigo. Eu já deveria tê-la esquecido, pelo menos por um tempo. Ao invés disso, minha mente ficava convergindo a ela o tempo todo, sua ausência tão real e constante quanto sua presença.
-Vai servir – respondi a meu pai.
Ele estava me encarando.
-O que foi? – perguntei.
Meu pai parecia ligeiramente desconfortável. Como se quisesse iniciar um assunto e não soubesse como.
-Sua mãe – começou ele, cuidadosamente – acha que está apaixonado por Ginevra.
Pensei um pouco, antes de responder.
-E isso seria ruim porque... – insinuei.
-Eu não disse que seria ruim – rebateu ele.
-Também não disse que seria bom – contra argumentei.
Meu pai suspirou.
Percebi, então que ele não estava tanto desconfortável como estava tentando evitar demonstrar que estava se divertindo.
-Não se preocupe – disse ele, colocando a mão sobre meu ombro paternalmente – vai conseguir se concentrar melhor com o passar do tempo.
Gemi, frustrado. Ele sabia em que eu estava pensando.
-Quanto tempo? – perguntei, desviando os olhos, ansioso.
-Uns dois anos – respondeu ele, com um sorriso.
-Dois anos? – perguntei, descrente.
-Mas o que eu sei, não é mesmo? – questionou ele. – Me casei com Narcissa Black, que passei anos odiando só para descobrir depois que ela fazia cada pequena coisa muito melhor do que eu esperaria...
-E nós, Malfoys, temos sempre altas expectativas – completei.
-Exatamente.
Suspirei.
Eu não me julgava apaixonado por Ginevra. Eu estava apenas encantado por ela.
-Vamos voltar ao trabalho – disse, enquanto meu pai suprimia um sorriso prepotente dos melhores. – Eu fico com as minas de esmeraldas da China e as peças que não conseguimos vender. Você fica com as minas de rubi da Rússia e a Importação.
-Assumir o trabalho mais difícil não vai facilitar as coisas para você – disse meu pai, ao sair da sala.
-Vamos ver – respondi para a porta fechada.
Ginevra´s POV
-Gostou, Senhora Malfoy? – perguntou a vendedora.
Coloquei sobre o balcão à sua frente a pequena bolsa de veludo vermelho, repleta de galeões.
-Sim – respondi. – Vou levá-la.
Os olhos da vendedora brilharam diante da soma em dinheiro que eu pagaria pela poltrona do escritório.
-Vou mandar entregar agora mesmo – disse ela.
-Obrigada – respondi, polida.
Enquanto ela conferia o dinheiro, olhei à minha volta. Narcissa havia desaparecido na sessão de molduras. Eu estava sozinha.
-Vou anotar meu endereço – disse à vendedora.
Ela me deu um sorriso constrangido.
-Não é preciso – respondeu, baixinho. – Todo mundo sabe onde é a sua casa, Senhora Malfoy!
-Claro – suspirei.
Num cantinho obscuro da minha mente, essa atenção toda me incomodava um pouco. Era algo além da simples atenção exagerada, dos olhares que me seguiam em qualquer lugar, da inveja e da hostilidade. Eu já havia me acostumado com isso.
Invasão de privacidade era algo corriqueiro quando seu ex-namorado é o famoso Harry Potter. E também quando seu marido é Draco Malfoy, herdeiro da maior fortuna da Inglaterra e dono de um certo par de calças que causam comoção – apesar de eu nunca as ter visto.
Eu já estava acostumada com tudo isso, e sinceramente não me incomodava. O que me incomodava era o fato de que, aparentemente, qualquer coisa que eu tocasse virava ícone de moda e desejo. Eu era apenas uma garota normal, mas me elevavam ao nível de um deus. Era assustador.
-Bem – disse a vendedora, interrompendo meus pensamentos. – Existe uma outra peça que combina perfeitamente com a cadeira. Se a Senhora estiver interessada em ver...
Ser chamada de Senhora, aos dezessete, também era algo que soava estranho. Me fazia me sentir mais velha – exceto quando era Draco quem o fazia. Mas Draco ficaria ofendido se eu me opusesse e, além disso, não é como se eu não gostasse.
-Tudo bem – respondi.
-Por aqui, por favor – comandou, entrando em um corredor.
A segui por curvas sinuosas. As vantagens de ser uma Malfoy é que eu tinha atendimento privilegiado. A vendedora estava inteiramente à minha disposição.
Na última prateleira, ela parou. Esperei que ela galgasse os degraus, até que ela retirou um estojo preto e empoeirado de cima.
Ela desceu, e abriu o estojo para que eu pudesse ver o que havia ali dentro. Uma bengala de madeira, com o punho prateado formado por uma hydra. Os olhos eram cegos mas, ainda assim, era uma peça formidável.
E cara.
Analisei bem a superfície, em busca de imperfeições. Nada. Aquela peça era algo extraordinário e, como ela havia dito, combinava perfeitamente com a cadeira. Eu me lembrava de ter visto Draco usando uma outra bengala, com uma serpente no punho, antes do nosso casamento. Mas ele a havia usado apenas devido à sua debilidade.
Ele estava mancando, agora. E eu sabia que iria piorar.
Talvez toda essa atenção que estávamos recebendo viesse a calhar, afinal. Talvez eu pudesse usar isso a nosso favor.
Draco se recusava a aceitar ajuda. Ajuda consciente. Mas, se ele não soubesse que estava sendo ajudado... Se a bengala fosse apenas um acessório de moda, talvez ele a usasse, como eu usava o colar que ele me dera quase diariamente.
E ninguém notaria quando ele precisasse usá-la.
Sob uma das cabeças, havia um leve textura sob meus dedos. Olhei-a, com interesse.
P.T.M.
Essa bengala havia pertencido a alguém importante. P.T.M. O "m" era ligeiramente mais elaborado. Um monograma. Bastante parecido com o monograma Malfoy no portão da casa de meus sogros.
-A quem pertenceu essa bengala? – questionei.
-Não me recordo muito bem, Senhora. Acho que foi um tal Theodore... alguma coisa. Se quiser, posso perguntar ao dono da loja...
-Theodore... – murmurei.
-Acho que o "m" é de Montaigne. Ou esse era o nome da mulher dele? Alguma coisa assim.
Theodore Montaigne. Pensei um pouco. P. Paris...
Paris Theodore Malfoy, casado com Juliet Montaigne. Essa era a história que Draco havia me contado. Nas ruínas do Castelo de Bleue.
Eu precisava fazer algumas pesquisas. Mas podia ser verdade. Os Malfoys pertenciam à Sonserina há gerações.
-Eu vou levá-la – anunciei.
-Claro, Senhora Malfoy – e o sorriso da moça se alargou.
Ela voltou a colocar a peça dentro do estojo, desceu da escada e começou a voltar pelo corredor de onde viéramos. Os olhos cegos da hydra me incomodavam, mas eu poderia fazer algo a esse respeito mais tarde.
Hydra. Me lembrei de Draco, procurando a constelação de Signus, me ludibriando. Então me lembrei de suas mãos passando pelos meus braços, pelas minhas costas...
Senti uma onda de rubor se formar em meu rosto, e desviei o rumo dos meus pensamentos.
-É muito bom não ter limite de crédito, não é? – questionou uma voz.
Me virei, procurando quem falava comigo. Era Pansy Parkinson.
Que surpresa.
- Quase tão bom quanto ter limites na língua, Senhorita Parkinson – respondi.
Parkinson sorriu falsamente.
-Diga, foi por isso que se casou com Draquinho? – perguntou ela.
-Não gosto quando se referem ao meu marido no diminutivo, Senhorita Parkinson – expliquei.
-Ah, mas Draquinho nunca se importou – provocou ela. – O que me leva à questão principal: o que você usou para enfeitiçar o pobre Draquinho e roubá-lo de mim?
Senti o sangue ferver em minhas veias. Mas, ao contrário do que costumava acontecer, eu não queria agredi-la. Não valia o esforço. Eu só queria sair dali e não ter mais que olhar para a cara de buldogue da Parkinson.
-Com licença – respondi.
Tentei passar pela Parkinson, mas notei que havia mais duas garotas atrás dela, atrapalhando minha passagem. Uma delas reconheci imediatamente: Anna Abbott, Grifinória. A segunda era uma Corvinal, Susan... alguma coisa.
Anna costumava ser minha amiga. Conversávamos, embora raramente, mas ela sempre fora gentil comigo.
Exceto agora.
Seu rosto estava contraído em uma expressão de desgosto, os lábios serrados. E ela estava em companhia da Parkinson – o que nunca era bom sinal.
-Anna Abbott – cumprimentei. – E Susan...
-Smith – respondeu a outra.
-Como pôde? – perguntou Anna.
-Desculpe? – perguntei, sem compreender. – Como pude o que?
-Trair sua família, desse jeito – respondeu ela.
Sério? Ela queria mesmo discutir isso agora?
-Sinto muito, Anna, mas não vejo como isso pode ser da sua conta – repliquei.
-Rony ficou arrasado! – continuou ela, como se eu não tivesse dito nada. – E Harry, pobre Harry...
Eu não tinha que ouvir isso.
Com agilidade, desviei da Parkinson e passei entre Abbott e Smith com facilidade. Nenhuma delas tentou me deter.
Mas abbott me seguiu.
-E a tia Molly, então? – comentou. Quase congelei no lugar. Precisei de toda minha força de vontade para continuar me movendo. Meu coração parecia que iria explodir. – Coitada! Ela chorou tanto que minha mãe pensou que teria de leva-la para o Saint Mungus. E, depois, ficou uma semana de cama...
Não respondi. Aquela era a minha escolha.
Minha mãe também tinha feito a escolha dela.
Cheguei até o balcão, sabendo que Abbott estava atrás de mim. A vendedora olhou dela para mim, mas não disse nada. Ela me entregou os recibos.
-Quer que eu entregue a bengala também, Senhora Malfoy? – perguntou.
-Eu mesma vou levá-la – respondi. Tive medo que minha voz traísse meu nervosismo, mas ela saíra firme.
E mais fria do que o usual.
A vendedora me passou a maleta, que segurei com força.
-Muito obrigada – agradeci. Me forcei a sorrir, embora tenha sido mais difícil.
-Volte sempre, Senhora Malfoy.
Acenei para ela, e me virei.
Como esperado, Abbott ainda estava ali, me encarando de olhos arregalados e escoltada pela Parkinson e pela Smith.
-Então é isso? – perguntou Abbott. – Foi realmente pelo dinheiro?
O simples fato dela pensar assim me ofendia. Mas percebi, com desdém e desgosto, que isso é o que ela pensaria de mim, independentemente de eu negar ou não.
Era isso que ela pensaria de mim.
Era isso o que a sociedade pensaria de mim.
Era o que eles queriam pensar.
Não havia verdade que pudesse se opor à vontade daquelas pessoas de pensarem que eu era uma aproveitadora.
Então a deixei sem uma palavra sequer, e fui atrás de quem acreditava em mim. De quem via a verdade. De quem me compreendia de verdade, sem me julgar ou superestimar.
Fui até Narcissa.
Lucius´ POV
Entrei na sala de Draco com nossas capas em um dos braços.
-Vamos? – perguntei.
-Só mais um minuto – respondeu, sem levantar os olhos.
Ele estava cercado por papéis, rascunhando qualquer coisa em uma velocidade impressionante.
Eu me sentia orgulhoso quando via o talento que Draco tinha para os negócios. E me sentia confiante de que poderia passar tudo o que a família Malfoy havia construído em séculos de esforço, charme e arrogância para ele, pois ele já estava pronto como eu mesmo não estava em sua idade.
Eu só temia não termos tempo para isso.
Para vê-lo triunfar e elevar ainda mais o nome da família.
-Lição número um do casamento – expliquei. – Nunca se atrase para o jantar!
Draco suspirou e ergueu os olhos para mim.
-Acho que tem razão – disse ele, sorrindo.
-É claro que eu tenho – o repreendi. – E elas são duas, agora! As chances não estão ao nosso favor.
Seu sorriso se alargou ainda mais.
Narcissa tinha razão novamente.
Aparatamos, as sete em ponto, no escritório da nova Mansão Malfoy.
Narcissa estava sentada em um divã salmão, com um livro aberto na mão direita e um copo de firewhisky estendido à esquerda, onde uma poltrona me esperava.
Ginevra usava um vestido branco e estava de pé, atrás de uma cadeira com estofado de veludo verde-sonserina, segurando o Profeta Diário em uma mão e uma dose de firewhisky – ligeiramente menor – na outra.
Olhei meu filho nos olhos.
"Nunca se atrase para o jantar".
Meu coração se acelerou para aquele ritmo já muito conhecido, o ritmo que só adquiria quando Narcissa estava por perto. Me aproximei dela, beijando-a na testa, enquanto ela me passava meu tão merecido aperitivo.
Me sentei, e observei Draco com a visão periférica. Ele olhou do copo para a esposa, com uma pergunta nos olhos. Ao invés de responder, Ginevra sorriu apenas com o lado esquerdo dos lábios, como ele fazia.
Narcissa e eu trocamos um olhar de cumplicidade.
-E então, como foi seu primeiro dia de trabalho? – perguntou Ginevra, enquanto indicava a cadeira para que Draco se sentasse.
-Não é como se eu tivesse feito alguma coisa – respondeu ele, se sentando e tomando um gole de seu firewhisky. – Passei a maior parte do tempo apenas me inteirando de como vão as coisas.
Ginevra se recostou em um braço da poltrona.
-E como foi a tarde de vocês? – questionei, embora eu já tivesse uma clara ideia, a julgar pelo sorriso satisfeito de minha esposa.
-Cansativa, eu diria – respondeu Narcissa.
Depois, ela trocou um olhar com Ginevra, e ambas sorriram.
-Gostou de sua poltrona? – perguntou Ginevra, olhando diretamente para mim.
Olhei, atento desta vez, para a poltrona em que havia me sentado.
Era um modelo bastante luxuoso, Luís XIV ou XVI, estofado em cinza escuro com pequenos detalhes em preto e prata.
-É muito bonita. É minha? – questionei, divertido.
-Apenas um mimo – respondeu ela. – Para quando vier nos visitar.
-Não deveria ser eu a mimá-la, e não o contrário? – questionei.
-Se eu não puder mimar meu sogro, a quem vou mimar? – riu ela.
-Que tal eu? – perguntou Draco, mal-humorado.
-Muito bem, Senhor Rabugento – riu ela – também tenho um presente para o Senhor.
-Certo. E onde está? – indagou, levantando uma sobrancelha para a esposa.
-Está sentado nele, Senhor Malfoy – riu Ginevra.
Era uma poltrona bastante impressionável. Feita de madeira escura, e larga o bastante para caber duas pessoas. Tinha o espaldar alto e os apoios para as mãos eram compostos por cobras de nove cabeças.
-É definitivamente muito bonita – disse Draco – obrigado!
-Mas? – questionou Ginevra.
-Eu não disse que havia um "mas" – respondeu ele, com o mesmo sorriso que ela lhe dedicava.
-Mas há um "mas" nessa frase – riu ela.
Narcissa os observava atentamente. Seus olhos iam de um para o outro, enquanto ela reprimia um sorriso.
-Que marido difícil de agradar esse meu – brincou Ginevra. – Por sorte, sou uma mulher precavida...
Ela abriu uma das gavetas da grande escrivaninha de mogno, à sua frente, e retirou um estojo preto e longo de lá, que estendeu a Draco.
Ele lhe lançou um olhar desconfiado. Depois de alguns segundos, apenas desistiu de confrontá-la e olhou para baixo, abrindo o estojo. De dentro, ele retirou uma bengala muito bonita, um clássico da aristocracia, em cuja ponta havia mais uma cobra prateada de nove cabeças. Em cada um dos olhos, brilhava uma pedra verde.
-Uma Hydra? – perguntou ele, ainda sem olhar para ela, avaliando o presente.
-Apenas uma lembrança... – respondeu ela.
Os dois se entreolharam, e trocaram sorrisos difíceis de descrever. Era como se eu estivesse perdendo uma piada particularmente engraçada.
-É maravilhoso – disse Draco, olhando novamente para a peça.
Nesse momento, captei um olhar trocado entre ela e Narcissa. Um olhar de...alívio? Aquele não era apenas um presente! Era para encobrir o fato de que Draco vinha mancando.
-Quer dizer que estou perdoada? – perguntou Ginevra, voltando para seu bom humor quase instantaneamente. – Por ter mimado meu sogro?
O sorriso de Draco foi resistente. – Talvez. Preciso pensar.
-E se eu casualmente mencionar que o antigo proprietário dessa peça foi Paris Theodore Malfoy? – disse ela, como se não fosse nada demais. – O que você diria?
-Eu diria que está jogando sujo, Senhora Malfoy – provocou Draco, voltando a olhar para a bengala, agora uma herança de família – Obrigado – acrescentou, baixinho.
-Me sinto negligenciado agora – resmunguei.
-Merlin, parecem crianças! – exclamou Narcissa. – Com ciúmes um do outro!
Nesse momento, um elfo doméstico entrou, interrompendo nosso momento lúdico.
-Senhora Malfoy, o jantar está pronto! – anunciou a elfo.
-Muito obrigada, Ruim – respondeu Ginevra. – Peça à Malvada para ajudá-la a servir. Já estamos indo.
-Ruim e Malvada são nomes muito criativos – anunciei, enquanto me levantava e estendia a mão para Narcissa.
-Espere até conhecer Pior-Ainda – respondeu Ginevra. – Sinceramente, ela me dá medo.
Draco´s POV
Me sentir orgulhoso era algo de que eu nunca me cansava.
Mas havia uma satisfação além do normal em me sentir orgulhoso diante de meus pais.
Ginevra me deu o braço, enquanto caminhávamos para fora do escritório em direção à sala de jantar.
Eu me sentei à ponta da mesa. Pela primeira vez, era eu quem estava à cabeceira. Ter meus pais sentados ao meu lado, na minha imensa mesa de jantar de mogno, era uma experiência nova e eletrizante. Mas, o melhor de tudo, era saber que eu podia, mais do que apenas honrar o nome Malfoy e merecer seu respeito, impressioná-los.
Notei que minha nova casa era altamente impressionável.
A toalha, os guardanapos e a louça eram todos do mais puro branco. Mas os pratos, notei, tinham o monograma da família Malfoy nas beiradas, uma série de elaborados "m" prateados entrelaçados. Os talheres eram de prata e também traziam nosso monograma, e as taças eram de cristal tingido de negro.
Ginevra se sentou ao meu lado, enquanto Ruim, Malvada e Pior-Ainda nos serviam.
Tivemos caldo de lentilhas de entrada, e salmão com maracujá e alcaparras como prato principal. Quando a sobremesa foi servida, um crème brûlée com a crosta de açúcar queimada por conhaque, eu já estava mais cheio do que julgaria possível.
Notei, mais uma vez, como nos dávamos bem. Meus pais e Ginevra, ela e eu. E como minha vida era perfeita, exceto pela doença. Quando tudo isso acabasse, eu teria de encontrar uma forma de compensá-la por tudo isso.
Compensá-la por sua perfeição.
Me lembrei de Pansy Parkinson, com quem passei anos pensando que me casaria. Apesar de ter berço, Parkinson não tinha um terço da graça natural de Ginevra, e tinha o péssimo hábito de preencher cada segundo com um falatório sem fim e sem conteúdo. Eu jamais teria me sentido orgulhoso se me casasse com ela. Eu jamais teria paz. Eu jamais ansiaria por apresentá-la como minha esposa, como acontecia com Ginevra.
Observei enquanto minha mãe estendeu o braço através da mesa, em direção a ela. Sem um segundo de hesito, Ginevra estendeu também o braço, e apoiou sua mão sobre a mão da minha mãe. As duas permaneceram de mãos dadas, rindo uma para a outra de algo que meu pai havia dito. Observei a curvatura de seu pescoço, e a leveza com que os fios soltos de seu cabelo ondulavam. Observei os cantos de seus lábios ligeiramente curvados para cima. Observei o brilho em seus olhos, quando ela olhava para mim e eu sorria.
Eu a compensaria por ser a mulher certa.
A compensaria por estar ali, ao alcance das minhas mãos.
Eu a compensaria por ter me escolhido.
Por me escolher quando eu mesmo não o faria.
Ela estendeu a mão, dessa vez, em minha direção.
-Por que está tão silencioso? – perguntou ela, passando as pontas dos dedos por minha palma aberta, até que enlacei meus dedos com os dela.
Sorri.
-Estava apenas pensando – respondi.
-Em que, exatamente? – questionou ela, sem reservas.
-Nas joias que a joalheria não consegue vender – respondi.
-Um homem que não para de pensar em joias – riu ela. – Inusitado!
Ginevra e meu pai riram, mas minha mãe não acreditou em minha pequena mentira.
-Na verdade – comentou meu pai – esse é um problema que vem se arrastando há algum tempo. E um investimento que consome milhares de galeões e que, neste momento, não está dando retorno.
-Qual o problema?- questionou Ginevra, interessada.
Os olhos de minha mãe continuavam fixos em mim.
-São joias que foram desenhadas há algum tempo – respondi, para me livrar do olhar franco de minha mãe. – Algumas foram cortadas há anos. E que, por algum motivo, não conseguimos vender.
-Não podem ser desmontadas? – questionou Ginevra, me olhando com curiosidade. – Reaproveitadas de alguma forma?
-Teríamos o dobro do prejuízo. O metal pode ser reaproveitado com facilidade mas, uma vez cortadas e polidas, as pedras não podem ser cortadas uma segunda vez – expliquei. – E então teríamos as despesas para forjar novas peças.
Ela havia apoiado a mão no pescoço, como frequentemente fazia quando me escutava.
-Parece um problema bastante sério – comentou ela.
-E é – respondi.
-Mas não precisamos resolvê-lo essa noite – interrompeu minha mãe.
Meu pai e ela se levantaram da mesa, fazendo um pouco de suspense. Eles abriram as portas duplas da sala de jantar, enquanto os elfos entravam trazendo um quadro em uma grande moldura dourada.
Era uma das muitas fotos que havíamos tirado antes do casamento. Nela, eu estava sentado na cadeira do escritório do meu pai, com centenas de livros às minhas costas. Ginevra estava de pé em um vestido verde-esmeralda, ao meu lado, com a mão no meu ombro.
Era aristocrático. Era grandioso. Era...Malfoy.
-Merlin, eu nem mesmo me lembrava dessa foto – exclamou Ginevra.
Segurei sua mão, enquanto ela analisava cuidadosamente a foto. Ela era tão quieta, que me deixava curioso. Eu raramente conseguia ter uma apreensão do que se passava em sua cabeça.
-Eu adorei – emitiu ela, por fim.
Segurei-a pela cintura, próxima a mim.
-Fiz uma cópia, para pendurar no saguão com a linhagem Malfoy, junto com as demais – disse minha mãe. – Mas achei que ficou tão boa que pedi que fizessem mais uma. Acho que vai ficar ótima...
-No escritório – completou Ginevra.
-Exatamente – sorriu minha mãe.
Ginevra se soltou delicadamente de mim, e caminhou até meus pais. Ela abraçou primeiro minha mãe, e depois meu pai.
-Obrigada – a ouvi murmurar.
Sorri. Mas, na verdade, eu me sentia desconfortável por ela ter saído dos meus braços.
Passar o dia fora não havia me feito esquecê-la nem sequer por um segundo. Havia apenas acentuado drasticamente a frequência com a qual ela ocupava minha mente.
Talvez minha mãe tivesse razão.
Talvez eu estivesse me apaixonando por Ginevra.
Harry´s POV
A festa havia começado às oito, e ainda não havia sinal dela.
Eu sabia que ela viria. Assim como o Malfoy.
Permaneci ligeiramente fora de vista, embora fosse difícil. Os fotógrafos ficavam de olho, me procurando, tentando conseguir closes que me favorecessem ou alguma foto bombástica, para o Profeta Diário de amanhã.
Se dependesse de mim, eles conseguiriam.
Era apenas uma questão de imagem é claro.
Permaneci perto das cortinas do salão do Ministério, meio escondido, enquanto todas as figuras notáveis de Londres se apresentavam.
Ela chegou à meia noite.
E, como era de se esperar, trouxe o apêndice prateado consigo.
Malfoy parecia anormalmente arrogante, como era de se esperar. Ginny havia conseguido muita notoriedade recentemente. Ela era, por si só, uma celebridade. Havia saído da minha sombra.
O que não era inteiramente ruim.
Observei-os descendo as escadarias do Ministério, e como todos os fotógrafos ficaram enlouquecidos com sua presença.
Ginevra usava um vestido preto e branco que realçava sua beleza. O corpo era do que parecia couro preto, e a longa saia era branca, arrastando ligeiramente enquanto ela caminhava. Seu cabelo estava preso de maneira elaborada, em um coque, com uma trança formando um arco em volta de sua cabeça. Seus lábios estavam tingidos de um rubro escuro.
Ela era perfeita.
Se a conseguisse de volta, eu certamente seria o bruxo mais famoso e reconhecido do mundo.
Tudo o que eu precisava fazer era me livrar do Malfoy.
Fácil.
Simmon´s POV
Entrei, um pouco inseguro, na sala.
Para minha surpresa, ela estava sozinha.
Foi um alívio. Eu não precisava ficar desviando do olhar desconfiado e hostil de Draco Malfoy, nem de seu humor ácido.
-Que bom que pôde me atender, Doutor Simmons – disse ela, levantando-se ligeiramente da cadeira, e apertando minha mão. Suas mãos estavam frias. – Espero não estar tomando muito do seu tempo.
-De forma alguma – respondi, me sentando. –Acredito que o Senhor Malfoy esteja bem?
-Está, sim. Obrigada pela preocupação – respondeu ela, amavelmente.
-Em que posso ajudá-la, então? – questionei, curioso.
Ginevra Malfoy baixou os olhos para as mãos, por alguns segundos. Depois, firme e claramente, narrou o que a preocupava.
Draco´s POV
Eu estava assinando os documentos para liberar um novo carregamento de pedras, juntamente com meu pai, quando Markovisky entrou em minha sala.
Meu pai levantou, imediatamente, uma sobrancelha para mim.
-O que foi Markovisky – enunciei, sem tirar os olhos dos papéis. – Estou ocupado.
-Eu sei, Senhor – respondeu ele.
-Então porque está me atrapalhando? – questionei, ainda sem olhá-lo.
-É a Senhora Malfoy – respondeu ele.
Deixei a caneta e levantei os olhos.
-Tem a minha atenção – disse.
-O Senhor pediu que eu avisasse caso alguma coisa diferente acontecesse – começou Markovisky. – Bem, sua esposa está no Saint Mungus.
Levantei da cadeira de um salto.
-Foi um acidente? – questionei, sufocando uma angústia inesperada. –Ela está machucada?
-Não, Senhor.
Olhei-o, furioso, e percebi que Markovisky engoliu em seco.
-Pretende explicar porque veio me incomodar ou não? – enunciei cada palavra devagar.
-Bem... – começou, incerto. – Foi um pouco estranho. Geralmente, sua esposa e sua mãe permanecem no cabeleireiro durante uma ou duas horas, e saem juntas. Mas sua esposa deixou a Senhora Malfoy lá, hoje, e saiu pela porta dos fundos. Ela parecia nervosa. Ficava olhando por cima dos ombros todo o tempo...
-Só isso? – questionei.
-Casey disse que ela parecia doente – murmurou ele.
Era estranho ver um homem do tamanho de Markovisky murmurar. Mas eu não estava me importando com Markovisky, agora.
Havia duas possibilidades que levariam Ginevra ao Saint Mungus. A primeira, seria se ela estivesse grávida. A segunda, seria se ela estivesse realmente doente, ou se estivesse desconfiada de estar doente.
Mas, se fosse a primeira possibilidade, porque ela não me diria nada? Nem mesmo à minha mãe?
Em geral, eu sempre sabia onde ela estava.
-Tudo bem, Markovisky – disse, lentamente. – Pode sair.
Assim que a porta foi fechada, meu pai se virou para mim com olhos acusadores.
-Mandou um segurança seguir sua esposa? – questionou, com indignação.
-Cinco - respondi, a contra gosto.
Meu pai riu.
-Espero que já tenha preparado o que vai dar para ela quando Ginevra descobrir – caçoou.
Me levantei, e passei a mão pelo cabelo.
-É para a segurança dela! – confrontei.
-Mas não é isso que ela vai pensar – ensinou ele. – Ela vai pensar que você não confia nela. Que está tentando controlá-la. E não importa quantas vezes você diga que essa não é a sua intenção, ela não vai acreditar! Eu sugiro flores. Todos os dias, durante umas duas semanas. E escolha uma das joias da família!
Me virei para ele.
-Como sabe o que ela vai pensar? – questionei.
-Ela é mulher – respondeu meu pai, com simplicidade. – E uma Malfoy, o que é tanto pior para você.
Desconfiei.
-Você já mandou os seguranças seguirem a minha mãe, não foi? – perguntei, cansado.
-Duas vezes – respondeu ele. – Me custou uma briga com a Tia Azalea e a Mansão da Suíça.
Suspirei.
Não parecia ser nada tão importante. Mas, ao mesmo tempo, meu peito parecia comprimido. Eu estava agitado demais para me sentar.
-Vá, logo – disse meu pai. – Você não vai parar de pensar nisso, e vai ser inútil aqui nesse estado.
-Tudo bem – respondi.
Peguei meu terno, nas costas da cadeira, e rumei para a porta.
-E se a sua mãe perguntar – anunciou meu pai – a ideia foi inteiramente sua!
Fechei a porta e saí.
Ginevra´s POV
A porta do consultório se abriu, e uma enfermeira entrou.
-Boa tarde, Senhora Malfoy – cumprimentou ela. – Sou Chloe.
-Boa tarde – cumprimentei de volta.
Eu me lembrava dela. Era a mesma enfermeira que ficou me encarando na recepção do hospital, quando Draco passou mal na festa de Horácio Slughorn.
-Doutor Simmons está terminando a análise dos seus exames, e pediu que eu fizesse a ultrassonografia. Tudo bem? – perguntou.
Tentei sorrir, apesar do meu nervosismo.
-Claro.
Eu estava deitada em uma maca, com uma camisola azul de hospital que não me caía bem. Chloe colocou uma substância gelatinosa e fria sobre a pele da minha barriga, e começou a passar a ponta da varinha por cima, enquanto olhava para a tela de um aparelho.
Chloe espalhou o gel por toda a superfície inferior do meu abdômen. Tentei permanecer imóvel, mas estava ansiosa demais.
-Tudo bem. Só mais um pouquinho... – disse ela, sorrindo.
Enquanto ela pressionava a varinha na região central, ou à esquerda, eu não senti nada. Mas quando sua varinha pressionou meu lado direito, foi como se eu tivesse levado uma facada.
Gemi, levemente incomodada.
-Perdão – disse ela, ainda sorrindo. – Vou tentar mais devagar.
Ainda doeu, mesmo que ela não estivesse pressionando como antes. Senti que eu teria cólicas novamente. Eu estava realmente preocupada com as cólicas, e com meu fluxo irregular.
Mas Chloe arregalou os olhos diante da tela do aparelho. E comecei a desconfiar de que havia, realmente, alguma coisa muito errada.
-O que foi? – perguntei.
-Eu terminei seu exame – sorriu ela.
Mas não era o mesmo sorriso de antes.
-Tem alguma coisa errada, não tem? – questionei, ansiosa.
-Doutor Simmons virá em alguns minutos, e poderá perguntar a ele – explicou ela, com gentileza e um olhar de pena mal disfarçado.
Segurei seu braço quando ela fez menção de sair.
-Diga o que há de errado - pedi. – Por favor.
-Sou só uma enfermeira, Senhora Malfoy – disse ela. – Não posso dar diagnósticos.
Soltei seu braço, e deixei que saísse da sala.
Depois, com cuidado, me levantei. Peguei minhas roupas que estavam sobre um balcão, e me vesti lentamente. Tentei preparar minha mente para o que quer que fosse que Doutor Simmons tivesse para me dizer, porque eu sabia que não seria bom.
Deixei a sala da ultrassonografia e voltei para o consultório.
Doutor Simmons ainda não estava ali, de forma que me sentei e me resignei a esperar. Ele entrou poucos minutos depois.
Eu já estava aflita a essa altura.
Ele colocou os exames que trazia na mão sobre a mesa, antes de se sentar. Seu olhar era de pesar.
-Infelizmente, não tenho boas notícias Senhora Malfoy – disse ele. Me senti incapaz de produzir qualquer som, então me limitei a acenar. – A Senhora apresenta um quadro de Gravidez Ectópica.
Durante os primeiros segundos, tudo o que eu ouvi foi a palavra "gravidez". Eu estava grávida!
Então, bem devagar, minha mente registrou o fato de que, se havia uma catalogação para essa gravidez, não seria em absoluto algo de que eu gostaria.
-O que isso quer dizer? – me obriguei a perguntar.
-Quer dizer que, em uma gravidez comum, o óvulo fecundado se aloja no útero. Mas, no seu caso, o óvulo está alojado em uma das Trompas de Falópio. No lado direito.
-Não posso estar grávida – me lembrei, de repente - eu menstruei nos últimos três meses.
-E seu ciclo permaneceu inalterado? – perguntou ele.
-Não – respondi.
-É normal, nesses casos, que uma pequena quantidade de sangue apareça. Geralmente de cor mais escura e em menor volume do que o usual. Assim como as cólicas também são um dos sintomas.
-O que tenho que fazer? – perguntei.
-Primeiro, Senhora Malfoy, precisa compreender que não há como realocar o óvulo para o seu útero. O óvulo não se prenderá ao cólon. Segundo, precisa compreender que corre um risco sério de uma hemorragia.
-Está me dizendo que eu tenho que fazer um... – parecia haver uma laranja entalada em minha garganta. Mas me forcei a dizer a palavra – aborto?
-Não há chances de sobrevivência para esse óvulo – enunciou ele, devagar. – Em geral, uma gravidez ectópica é descoberta por volta da oitava semana. Mas a Senhora está na décima segunda semana. Isso quer dizer que os riscos de o óvulo obstruir as trompas e provocar um rompimento são muito grandes.
O ouvi entorpecida, como se estivesse com a cabeça embaixo d'água.
Eu tinha que matar o bebê que, eu havia esperado, salvaria a vida de Draco!
-As chances de recuperação são muito boas, caso se submeta agora à cirurgia – tagarelou ele. – Em cerca de quinze a vinte dias, poderá voltar às suas atividades normais.
Como eu poderia voltar às minhas atividades normais depois de um aborto?
-E se eu não fizer? – questionei.
Doutor Simmons pareceu surpreso com minha pergunta.
-Se o óvulo provocar o rompimento da trompa, vai gerar uma hemorragia. A Senhora terá um aborto espontâneo, que pode levar à perda de um ovário, ou do próprio útero. Devo alertá-la de que sua vida também está em risco, Senhora Malfoy!
Me senti subitamente muito cansada. Eu queria me deitar, ali mesmo, no chão do consultório e dormir. Dormir até que tudo estivesse acabado.
Mas havia Draco.
Como eu poderia sequer cogitar a hipótese de dizer isso tudo a ele?
Eu não suportava a ideia de ter de dizer a ele, tanto quanto odiava a possibilidade de ter de mentir. O que eu diria? Como eu diria?
Um burburinho começou a tomar conta do hospital. Vozes exaltadas e passos rápidos. Podia ser cruel da minha parte, mas eu não me importei.
-Pode me dar licença por um momento, Senhora Malfoy?- perguntou ele.
Acenei afirmativamente, porque ainda não me sentia capaz de falar.
Assim que ele deixou a sala, me senti aliviada. Abandonei a postura rígida em que estava, e senti meu rosto desmoronar com a tristeza que eu sentia.
Passei a mão pelo rosto, perdida.
Se eu dissesse a Draco que estava grávida, ele teria a mesma reação que eu tive. Não perceberia que havia algo de errado até ser tarde demais, e a decepção seria aterradora.
Eu não me sentia capaz de me submeter a um aborto. Toda a minha vida, fui terminantemente contra esse tipo de mutilação! Como eu poderia, agora, esquecer o que eu acreditava, simplesmente porque havia a chance de que eu também morresse? Como eu poderia ser condescendente a ponto de eliminar uma vida inocente – uma vida inocente que crescia dentro de mim?
Mas ainda havia tempo. Havia tempo para Draco! Não era muito, mas estava lá. Se eu tirasse essa criança, haveria tempo para minha recuperação e uma nova gestação. Mas, se eu me recusasse, então o tempo se esgotaria! Eu poderia perder o útero, ou o ovário, e me tornar tão inútil quanto me sentia agora. Eu poderia morrer. E, assim, condenar três vidas, ao invés de uma!
E eu poderia mentir! Eu poderia mentir para Draco, assim como havia mentido para Narcissa essa manhã. Eu poderia inventar uma desculpa boa o bastante, que justificasse uma intervenção cirúrgica de emergência. Essa, de alguma forma, era a pior das três possibilidades.
Narcissa sempre parecia saber o que eu escondia. Havia algum tipo de comunicação silenciosa que trocávamos, em que ela parecia adivinhar o que havia em meu coração! Eu poderia contar a ela, mas isso a obrigaria a também mentir para o filho. E Draco – eu sentia que Draco nunca me perdoaria se eu mentisse para ele sobre algo dessa importância.
Ele nunca havia me dado motivo algum para mentir para ele. Não importava o que eu dissesse, ele nunca parecia me julgar. Não importava quão baixa, vulgar ou mesquinha eu parecesse ser, para ele fazia parte da natureza humana ter sentimentos não tão valorosos e se deixar levar por eles, às vezes.
Eu não poderia mentir para ele.
Eu não poderia contar a verdade.
Eu não poderia fazer um aborto.
O que eu poderia fazer?
Apoiei a cabeça nas mãos, e me deixei ficar assim. Meu coração estava se comprimindo, me asfixiando.
Subitamente desejei que Draco estivesse ali.
Eu não queria ter de contar nada a ele, não agora, mas eu queria apenas a sua presença. Nós não precisaríamos conversar. Naquele momento, eu não queria ficar sozinha. Eu queria poder me deitar, sentir sua presença reconfortante ao meu lado, e ficar em silêncio.
Percebi que as lágrimas, que permaneceram o tempo todo escondidas durante a conversa com o Doutror Simmons, ameaçavam vir agora.
O barulho do lado de fora da sala começava a ficar insuportável. Seja lá o que estivesse acontecendo, deveria ser grave.
Decidi que deveria ir embora.
Mas eu não conseguia me mover. Me sentia petrificada, sem força de vontade o bastante para fazer qualquer coisa.
Eu teria que evitar encontrar com Draco.
Mas tudo o que eu queria, nesse momento, era tê-lo ao meu lado.
Draco´s POV
Doutor Simmons colocou as duas mãos à sua frente, para me impedir.
-Saia da minha frente – sussurrei.
Puxei o Medi-bruxo para o lado, e abri a porta.
Ginevra estava na sala, usando um vestido claro. Seus braços estavam sobre a mesa, a testa estava apoiada na mão esquerda, e a mão direita estava em seu pescoço.
Quando ela ergueu os olhos para mim, soube imediatamente que eu ainda não conhecia todos os lados de Ginevra.
Jamais pensei que fosse ver tamanha tristeza em seus olhos. Foi só por um segundo, antes que ela notasse que eu estava ali, e seus olhos se recomporem. Mas decidi que, o que quer que a deixasse daquela forma, não deveria existir.
-Senhor Malfoy, por favor, isso é um hospital! Não pode... – disse o médico, entrando atrás de mim.
-Sim, eu posso – retruquei, sem me virar para ele.
Ginevra voltou seus olhos, inexpressivamente, para o médico.
-Desculpe o inconveniente, Doutor Simmons, mas preciso falar com meu marido. O senhor se importaria...?
Ele demorou alguns segundos, mas eu finalmente ouvi a porta se fechar com um estalido baixo.
-Ginevra, o que aconteceu? – perguntei, preocupado.
Ao invés de responder, ela me surpreendeu. Caminhou até mim e enterrou a cabeça no meu pescoço.
Eu soube que, o que quer que havia acontecido, era muito ruim.
A apertei com força em meus braços. Sua respiração estava descompassada, mas ela não chorava.
A afastei com cuidado, vasculhando seus olhos à procura de algum indício do que havia acontecido. Afaguei sua bochecha, e minha mão pousou sobre seu pescoço.
Seus batimentos estavam tão acelerados que tive receio de que ela não suportasse.
-O que houve? – voltei a perguntar.
Ela abriu os lábios, e os moveu, mas não emitiu som algum. Então uma lágrima escapou de seus olhos. Ela tentou conter as lágrimas, limpando o rosto, e olhou para cima.
Segurei seu rosto em minhas mãos.
-Tudo bem – eu disse. – Vai ficar tudo bem! Só me diga o que está acontecendo, certo?
Ela acenou afirmativamente e respirou fundo. Sua respiração saiu trêmula.
-Eu preciso fazer um aborto – disse ela.
Não consegui compreender de imediato. Seus olhos perscrutaram os meus.
Ginevra estava grávida.
Alguma coisa estava errada.
-Porque? – me forcei a dizer. Tentei manter a mente fria e raciocinar, antes de me deixar levar pela emoção.
Mas era muito difícil.
-O bebê está numa das trompas, e não no útero – respondeu ela. Apesar de estar com os olhos cheios de lágrimas, sua voz era clara.
Doutor Simmons havia me alertado sobre isso. Ele havia me dito, mas eu não quis ouvi-lo.
E agora, Ginevra sofreria as consequências.
A abracei com força.
Merlin, o que eu havia feito?
Segurei-a por um longo tempo. Não conversamos – não havia palavras necessárias ou úteis nesse momento. Também não choramos. Ficamos apenas abraçados.
Eu, Ginevra, e minha imensa culpa.
Nos separamos, com um olhar de compreensão mútua, quando uma batida na porta nos interrompeu.
-Senhora Malfoy – disse Doutor Simmons, entrando na sala. – Está tudo pronto.
-Agora? – perguntou, Ginevra, sua voz levemente histérica.
Senti sua mão apertar a minha com força.
-Não podemos perder tempo – respondeu o medi-bruxo. – Como eu disse, a Senhora já completou doze semanas. É muito arriscado esperar mais.
Doze semanas. Era o tempo que tínhamos de casados. Isso quer dizer que ela estivera grávida todo esse tempo...
– Quão arriscado? – perguntei.
-Se sua esposa insistir em tentar levar essa gravidez adiante, ela pode provocar uma hemorragia. Estamos falando de risco de vida para sua esposa, Senhor Malfoy.
-E o bebê? – perguntei.
-O bebê não está no útero. Isso quer dizer que não há como ele se desenvolver.
Isso decidia a questão.
-Certo – eu disse.
-Não – rebateu Ginevra.
Me virei para ela.
-Vai ficar tudo bem – eu disse, evitando pensar na sensação esmagadora que eu tinha de que nada ficaria bem, jamais. – Eu vou ficar com você.
-Não, Draco! Eu não posso fazer isso!
Segurei seu rosto, e forcei-a a me olhar nos olhos.
-É a sua vida, Ginevra!
-Eu não me importo – rebateu ela, muito baixo.
-Mas importa para mim – respondi.
-Não posso fazer isso agora, Draco! – murmurou ela. – Eu...não tenho condições.
Eu também não tinha condições de levar isso adiante. Mas eu não podia pensar em mim nesse momento. Eu precisava pensar nela.
-Ginevra – tentei insistir.
-Eu quero ir para casa – pediu ela.
Ela parecia tão pequena e tão frágil nesse momento! Eu não queria arriscar que algo lhe acontecesse... Mas, talvez, pudéssemos adiar até amanhã.
-Está bem. Vamos para casa – eu disse.
Coloquei meu braço em volta dela, e saímos do consultório. Doutor Simmons nos seguiu e tentou nos impedir, é claro, mas ambos precisávamos de um momento em família.
N/A: Eu sei que havia dito que postaria há muito tempo atrás. E, não me matem, o capítulo estava pronto para ser postado no mesmo dia em que eu att To Hell.
Mas, daí, eu decidi que precisava checar algo que eu já havia postado antes. Então, comecei a procurar nos capítulos anteriores, porque eu não me lembrava exatamente em que capítulo eu havia escrito sobre aquilo...
Pra resumir - acabei relendo toda a fic, o que foi muito bom porque:
1. Percebi a quantidade de erros hediondos que eu cometo. Eu sempre soube que uma coisa ou outra acabava passando, mas me assustei com o tanto de erros que cometi e decidi que precisava revisar melhor o texto!
2. Acabaria me contradizendo se não tivesse relido. Acho que o capítulo ficou bem melhor assim!
3. Para poder ajeitar as coisas, precisei escrever mais. Esse é o maior capítulo que a fic já teve. Quarenta e duas páginas! U-u
4. Descobri que quero me casar com Draco e ter uma Angeliquelândia!
Mas, é claro, isso levou tempo. Que eu espero que o capítulo tenha compensado.
Além disso, gostaria de agradecer a todo mundo pelas reviews lindas e maravilhosas que eu recebi!
Na vida real, ainda tenho um pouco de medo de confessar que quero ser escritora. Não porque eu tenha medo que desdenhem de mim (porque isso minha família já faz, pelo fato de eu ser meio esquisita..kkk), mas porque tenho receio de não conseguir, e ser aquela prima esquisita que, ainda por cima, achava que era escritora mas nunca publicou nada!
As vezes tenho a impressão de que, quando disser as palavras: "Sou uma escritora" terei a obrigação de ser. E, então, não vou suportar fracassar, porque sou dessas pessoas estranhas que, quando querem alguma coisa, não aceitam perder! Mas, aqui, estou livre de tudo isso.
E, o motivo, são as reviews lindas e comoventes que recebo, de gente que se importa o suficiente para ler (e, ainda por cima, comentar) o que eu faço! Então, obrigada.
Quero dizer que suas reviews e seu apoio são importantes para mim não apenas como escritora, mas como pessoa também.
Enfim...reviews:
Lyka Slytherin: tenho que confessar que eu estou tentando não matar ninguém...mas está difícil! Kkkk Sobrevivi à faculdade (grazadeus) e a meus professores, mas minha sanidade foi para o saco! E, é claro, toda aquela fofura e lindeza tinha que acabar em algum momento. Desculpe se a deixei apreensiva, mas eu estava ansiosa para chegar à parte em que as coisas começavam a se encaixar – que é agora! Mil obrigadas pela review, linda, e besitos!
Nat King: Deixa eu colocar uma coisa aqui:
Loucuras com caps-lock e números apocalipticamente exagerados: A-DO-RO! Kkkkkk
Acho digno mencionar aqui também, que, graças a você, consegui ler todas as reviews até o fim...U-hul!e Obrigada!
Dando um control v no seu comentário: "Sabe aquele "felizes para sempre"? Gosto da sua versão "depois do final feliz", porque está sendo escrito para ser mais que isso" –vc sintetizou tudo em que eu acredito para essa fic. È para ser MAIS do que eu final feliz! É para ser APOCALÍPTICO e ÉPICO! Porque quando um Malfoy e uma Weasley se aliam, tem que ser apocalíptico, e grandioso né?
Para encurtar: sabe aquela música Crazy in Love da Beyonce? Sabe aquela parte em que ela entra caminhando de salto alto sobre o ritmo frenético da música? Sou eu depois do seu comentário!
Muito, muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito obrigada pelas reviews, e pelas PMs, e pelo fã clube (rsrsrs)! Vc fez uma alma muito feliz...kkkkk
Bjinhuxx e até a continuação!
RavenaL: que bom que vc sobreviveu à sua semana de provas! E fico muito feliz que vc tenha parado um pouquinho para, nas suas palavras, "comentar apropriadamente o capítulo" – me senti importante!
Muito obrigada pelos seus elogios. Realmente, amarrar as pontas soltas pode dar bastante trabalho ( e esse foi o capítulo que me deu mais trabalho até aqui), mas seu comentário eliminou um pouco da minha sensação crescente de que, talvez, eu estivesse deixando as coisas passarem sem perceber. Sei que quase fiz isso dessa vez!
Queria muito responder suas questões de leitora agoniada mas, se chegou até aqui, elas meio que já foram respondidas, né?
Harry –idiota (sempre), Os Weasleys, a doença de Draco E o Baby Malfoy resolveram pular todos de paraquedas bem no meio da felicidade alheia!kkkk
Inspiração e energia elétrica eu já recuperei rsrs...está faltando um pouquinho de tempo, mas o natal está vindo para trazer meu capítulo favorito! Não vou dar spoilers (eu sendo má...kkkkk), mas vai ser bom! Pelo menos, tenho trabalhado para isso.
Muuuuuito obrigada pela review, e beijinhuxx.
Stellinha15: Possessividade e sensualidade são marcas do nome Malfoy, né?kkk
Pelo menos, é assim que eu vejo!
Posso demorar um pouquinho mais, um pouquinho menos, ou muito: meu amor por essa história não me deixa abandoná-la! E eu sei que vou sentir muita falta quando termina-la. Por isso vou escrever bastante, para demorar mais para acabar...hihihih
Enfim, quero cair dura e preta o dia em que ser comparada com Jane Austen for um insulto! Sou apaixonada pelas histórias dela (principalmente Emma e Orgulho e Preconceito) e acho que Ginny tem um pouco dessa coisa de se agarrar ao que se acredita que as personagens de Jane Austen também tem! Então muuuuuuuuuuito obrigada!
Gostaria de agradecer também pelo seu comentário quanto à maturidade do texto! Muitas vezes, quero escrever sobre temas mais complexos, que tenho medo de não conseguir explorar com a dignidade e a profundidade que merecem, para atingir o objetivo que tenho em mente! Sempre vi minhas fics como medianamente adolescentes, nunca com um conteúdo adulto! Mas, se vc acha que elas tem essa qualidade (e vc parece ter lido MUITO) então isso me impulsiona a tentar algo mais profundo e diferente! Então, obrigada! Obrigada, mesmo! E não se preocupe...esse livro vai ter todas as páginas! Bjo-bjo!
Ranata K: obrigada pela sua review linda! É muito bom saber que vc está disposta a esperar...só não quero mais desastres naturais, please! Minha vida está cheia deles! Como vc disse, ambos estão começando a se descobrir...eles ainda são muito jovens, e precisam passar por um monte de coisas até compreenderem completamente quem eles são!
Em geral, gosto de uma carnificina e um pouco de sangue. Mas, no caso de Draco, eu também não gosto quando ele sofre. E essa doença está fazendo com que ele sofra mais do que ele mesmo perceba! Mas, por mais pena que eu sinta dele, tudo isso é necessário para que ele atinja o que ainda está por vir...Mas, se tem alguém que pode aguentar, é o Draco! Então vamos comprar lencinhos de papel e aguardar, né! Kkkk Muito obrigada e até daqui a pouco (vou escrever assim pra ver se eu posto logo)! Beijão.
FefsMalfoy: muito obrigada pelo comentário. Sei que as vezes a gente não tem muito tempo, mas receber uma review é sempre maravilhoso, não importa o tamanho dela!
Que bom que gostou do capítulo! Bjinhuxx e até!
Annie B. Malfoy: sei que demorei um pouquinho, mas acho que foi uma espera até razoável, considerando-se que... bem, sou eu! Kkkkkk
Espero que o capítulo tenha valido a ansiedade!! Bjo –bjo e obrigada pela review!
Sassah Potter: OI linda!
Que bom que gostou da fic! Lê-la em um dia deve ser um sinal muito bom, né? Então estou super contente! Espero que não tenha demorado muito. Bjus e até.
Besitos para todos,
Angel.
