Os treinos seguiram diariamente, e em algumas semanas Kurama já notava que ela apresentava melhoras visíveis em aspectos como concentração e força. Ela era dedicada, ele admitia, e comemorava animada cada pequeno avanço. As coisas pareciam estar indo bem para ela, que chegava a ansiar pelo encontro com Kurama todas as tardes. Uma vez, eufórica por um desempenho que julgou acima do comum ("excelente!", teria dito o ruivo), o convidou para um sorvete. "Por minha conta", ela fez questão de frisar.
Na escola, já tinha sido apresentada à Kuwabara e até à Keiko, depois do incidente com Yusuke. Mal se importava para as caretas que recebia das amigas da Keiko toda vez que a menina educadamente a cumprimentava nos corredores. Até suas crises de pânico pareciam sob controle, e ela se permitia roubar uma garrafa de cerveja do pai vez ou outra. Não que as coisas em casa estivessem melhores, mas ela nem esperava que algum dia estivesse, de todo modo. Vista com essa nova ótica, a vida até que pode ser boa. Ela só não imaginava que esse sentimento fosse durar tão pouco.
(...)
Kurama estava quase fechando os cadernos depois de uma noite de estudos. Teria prova dali a dois dias e queria manter a média que vinha conquistando durante todo o semestre. A lua já estava alta no céu e ele olhou o relógio na mesinha de cabeceira, se dando conta que passava das nove da noite. Teria tempo de revisar a matéria por mais uma hora, se não tivesse sido interrompido por um barulho na janela do quarto que chamou sua atenção. Girou o corpo em direção ao ruído e encontrou uma Kiki de olhar assustado, com uma das mãos se apoiando na parede.
– O que você está fazendo...
Ele interrompeu a pergunta ao perceber a mancha de sangue na camiseta, na altura da barriga, que ela apertava com força com a outra mão. Levantou rápido e foi em direção a ela, conduzindo-a à cama.
– Sente aqui, Kiki, eu já volto — ele disse antes de sair do quarto.
Ela obedeceu, ainda se recuperando do choque. Ele voltou com uma caixa de primeiros socorros na mão, e fechou a porta do quarto, dando-lhes privacidade.
Ajoelhou na frente da menina e enrolou sua camiseta para cima, deixando o abdomen descoberto. O sangue ainda escorria lentamente pela ferida aberta. Com uma pequena toalha umedecida, cuidadosamente limpou o sangue que manchava seu corpo.
– Quem fez isso?
– Ninguém...
Ele interrompeu a ação e levantou o rosto, a encarando.
– Você aparece no meu quarto essa hora da noite, cheia de sangue, e não vai me dizer o que aconteceu?
Ela mordeu o lábio.
– Foi um pivete — mentiu — Tentou me assaltar, eu reagi e ele pegou uma garrafa vazia que estava na rua e me atacou. Saiu correndo quando viu o sangue e eu não sabia para onde ir...
Ela torceu para ele engolir a história sem mais perguntas e sorriu timidamente enquanto ele ainda olhava para ela. Ele baixou o rosto novamente, voltando sua atenção ao machucado da menina.
– Você precisa tomar mais cuidado — se limitou a dizer. Puxou uma nova toalha pequena e estendeu à garota, para que limpasse as mãos sujas de sangue.
Ela suspirou aliviada, grata por ele não insistir no assunto. Mentalmente, pediu desculpas pela falta de verdade. Ele a tratava tão bem que ela se recriminava pelas mentiras, mas não tinha outra saída. Não saberia, ou melhor, não queria explicar a verdade. Como contar que o agressor era o próprio pai?
Claro, ela estava acostumada. A primeira surra veio quase dez anos atrás, semanas após a morte da mãe. Ela estava desenhando na sala quando um baque surdo explodiu no seu ouvido esquerdo e ela sentiu a pancada forte que jogou sua cabeça contra o chão. Se virou assustada a tempo de ver a mão do pai se levantar de novo contra ela e repetir o tapa uma, duas, inúmeras vezes enquanto despejava palavras duras que a acusavam da morte da mulher que ele mais tinha amado na vida. O choque havia sido tão grande que ela ficou paralisada durante toda a agressão, e a dor e a vergonha vieram assim que ele se afastou, em um mar de lágrimas que escorreu sem fim pelo rosto.
A surpresa diminuiu com o tempo, a medida que a violência crescia. Havia épocas em que as surras eram quase diárias e previsíveis, enquanto em outras eram escassas e repentinas. Ela aprendeu a esperar por elas. Podia ser pelo atraso no jantar, por matar aula na escola, por ele ter sido mandado embora do emprego pela quinta vez naquele ano, pelas contas que deixavam de ser pagas, pela chuva que uma vez estragou seus planos para o dia, e claro, pela morte da mãe — que ele fazia questão de lembrar todas as vezes.
Ela nunca revidava ou tentava impedir. No fundo concordava com ele: a culpa era dela. Ela foi a responsável pela morte da mãe e, consequentemente, pela vida que passaram a ter depois do episódio. A culpa era dela pelo pai ter virado um alcoólatra e não conseguir parar em emprego nenhum. Afinal, isso não teria acontecido se sua mãe ainda estivesse lá, viva e feliz ao lado dele. Ela merecia cada tapa, cada soco, cada empurrão contra a parede, cada olho roxo. Pela primeira vez, no entanto, ela teve medo.
Estava se sentindo bem naquela tarde, e achou que merecia uma cerveja. Era uma das poucas coisas que nunca faltavam na geladeira, e o pai bebia tantas — dentro e fora de casa — que nunca dava falta se ela contrabandeasse uma para o seu proveito. Se jogou no sofá zapeando os canais da tv e acabou esquecendo a garrava vazia — que ela sempre cuidadosamente deixava no lixo fora de casa, com as demais — na pia da cozinha. Foi o suficiente para seu pai explodir ao chegar em casa. Ela foi acordada aos gritos do cochilo que tirava na sala. Sentiu o hálito de álcool do pai perto dela e abriu os olhos enquanto era arrastada pra fora do sofá. Os insultos de sempre vieram com a mesma força dos murros. Apertando seu braço com força, a jogou contra a mesa da cozinha e ela sentiu a quina machucar suas costas. Ficou de pé, apoiada na mesa, quando viu o pai pegar a garrafa vazia aos berros e bater o vidro contra a bancada, estilhaçando o objeto em mil pedaços. Protegeu o rosto contra os cacos que voaram em todas as direções, mas logo voltou os olhos para ele, que ainda segurava a garrafa quebrada pelo gargalo quando avançou novamente para cima dela, seus passos bêbados e trôpegos.
– Larga isso, pai — ela suplicou, o deixando ainda mais furioso. Arrastou uma cadeira para a frente dele, em uma tentativa inútil de impedir o avanço. Em vez disso, fez ele tropeçar e cair em direção a ela, a garrafa ainda na mão. O vidro pontiagudo entrou no seu corpo e ela sentiu a pele arder. Instintivamente afastou o pai, que se apoiou na parede para se equilibrar e olhou aturdido para a filha, tentando entender o que aconteceu. Kiki baixou os olhos para o próprio corpo e entrou em choque ao ver o sangue escorrendo por baixo da blusa. Saiu correndo de casa, pressionando firme a ferida que teimava em arder e foi para o único endereço que passou pela cabeça.
Agora ela estava lá, sentindo o toque gentil de Kurama na sua pele. Deu um gritinho baixo quando ele passou o algodão embebido em álcool para desinfetar o machucado, e ele reagiu com um sorriso.
– Achei que fosse mais forte que isso! — disse, em tom jocoso.
Ela sorriu de volta, apreciando o cuidado que ele tinha com ela. Com gestos precisos e delicados, prendeu um pedaço de gaze com esparadrapo, cobrindo a ferida.
– O corte não foi fundo, vai cicatrizar logo.
Ela abaixou a blusa, quase lamentando que aquele contato tenha chegado ao fim. Estava gostando de sentir as mãos de Kurama em seu corpo.
– Obrigada — ela respondeu enquanto ele fechava a caixa de medicamentos — mas posso te pedir mais uma coisa?
Ele olhou para ela, interrogativo.
– Posso ficar aqui mais um tempo? Não quero que meu pai me veja chegar em casa com a blusa manchada de sangue, ele vai surtar... se eu chegar mais tarde, ele já vai estar dormindo.
– Está bem, pode ficar mais um pouco — ele acabou dizendo depois de ponderar por alguns segundos — que tal um jogo de cartas? O que você sabe jogar?
– Que tal pôquer?
– Ótimo! É a minha especialidade — ele riu, embaralhando as cartas.
(...)
Kiki acordou cedo no dia seguinte, mas não se deu ao trabalho de ir para a escola. Passou a manhã trancada no quarto, com as imagens do dia anterior ainda na cabeça. A surra do pai, a garrafa, o sangue... e Kurama. Como ele podia ser tão forte, tão sério, e ainda assim, tão amável e delicado? Começou a censurar sua atitude de ontem, mas os sentimentos estavam por demais confusos na sua cabeça.
Eles estavam jogando cartas sentados na cama dele, conversando sobre a escola e outros assuntos amenos. Já era a quarta partida que ela ganhava, e isso a divertia.
– Já está se preparando para a escola secundária?
Ela deu de ombros.
– Não pretendo fazer... estudar não é pra mim. Além do mais, não conseguiria entrar em nenhuma mesmo.
– Que bobagem! Você consegue ir para qualquer escola que quiser. É só estudar.
– Pra você é fácil, que é inteligente! Não é igual a mim...
– Você é inteligente também.
– Claro que não sou — ela disse ligeiramente envergonhada.
– Bem, não é qualquer um que consegue me humilhar no pôquer dessa maneira — ele sorriu.
Ela sorriu de volta. Esperou alguns segundos, olhando atentamente para ele e por fim perguntou:
– Kurama, você tem namorada?
– Não — ele respondeu distraidamente, distribuindo as cartas para uma nova partida.
Sem pensar muito, ela inclinou o corpo para frente, apoiando os joelhos no colchão, e se aproximou, encostando seus lábios nos dele.
Ele ficou surpreso com aquele ato inesperado, mas passada a estranheza, não tentou a afastar; ao contrário, fechou os olhos, se deixando levar pelo momento.
Ela então se afastou e lentamente voltava para se sentar no seu lugar, quando foi impedida por Kurama, que, num impulso, segurou seu punho. Ela parou, sentindo a mão firme envolvendo seu pulso, porém sem a machucar. O gesto a encorajou; Kiki mais uma vez se debruçou na direção de Kurama e os dois se beijaram novamente.
Sem perceber, foram caindo lentamente para trás. A cama aparou o movimento e eles se viram deitados, um sobre o outro, a mão dele ainda segurando seu pulso. O olhar dos dois se encontrou quando enfim interromperam o beijo, seus rostos tão próximos que podiam sentir a respiração um do outro roçando a pele.
Ela sabia que não devia seguir adiante com aquilo, mas algo a impedia de levantar. Talvez fossem os olhos verdes, hipnotizantes; talvez fosse o corpo dele por baixo do dela, criando um misto de intimidade com embaraço que ela estranhamente apreciava, ou ainda a fragilidade emocional em que ela se encontrava naquela noite. Sabia que devia simplesmente ir embora. Mesmo assim, ela ficou.
