Buried


Disclaimer: As personagens pertencem a JKR e companhia. Algumas coisas pertencem a Chris Carter também!

Censura: M, para linguagem, descrição de cenas e violência. Eu avisei!


Capítulo 13 Elegia


Obs.: Este capítulo se passa quase duas semanas depois do capítulo anterior.


Little Whinning – Londres
Rua Totthenham Court, n.° 13, apartamento 20.
Quinta-feira
01:18 a.m.

A porta foi aberta de maneira silenciosa. Pequenos flashes de luz iluminaram o quarto, quebrando a monotonia escura do ambiente, quando o homem entrou.

Ele fechou a porta, espreitou os olhos, acostumando-os para a escuridão que retomou o quarto e avançou para a cama, cuidadoso, nunca perdendo de vista a mulher que dormia. Ela deve ter pressentido a presença, porque abriu os olhos e girou a cabeça na direção dele. Ela piscou, sonolenta, tentando ajustar a visão à falta de luz. Parado de pé, ao lado da cama, ele não era nada além de uma sombra.

"James?" – ela chamou, coçando os olhos com os pulsos.

"Shh."

"Que horas são?"

"É tarde, querida. Volte a dormir."

"Você está bem? Você parece diferente."

"Volte a dormir."

Lily fechou os olhos novamente, quando sentiu o colchão afundar ao lado dela, enquanto o homem acariciava gentilmente seus cabelos. Ela já não estava mais sob os efeitos de analgésicos, mas seu corpo ainda pedia tanto repouso quanto ela podia ter. Ela esperou que James se deitasse ao lado dela em seguida, e a abraçasse, mas ela não ficou acordada tempo suficiente para notar que o homem levantou-se e partiu tão silenciosamente quanto tinha entrado.


Little Whinning – Londres
Rua Totthenham Court, n.° 13, apartamento 20.
Quinta-feira
04:53 a.m.

Ainda estava escuro quando James chegou. Ele não gostava de ficar longe de Lily durante tantas horas, mas Dumbledore fora inflexível sobre adiar aquela reunião por mais uma semana. Com Lily praticamente recuperada, Dumbledore queria que as investigações fossem retomadas e James deveria estar a frente do processo.

Snape tinha pedido seu afastamento do caso, alegando motivos pessoais, deixando Dumbledore sem outra escolha a não ser nomear James de volta como o chefe da investigação, ainda que isso tivesse deixado seus superiores aborrecidos. As últimas semanas não haviam rendido tanto quanto era desejado, com James trabalhando apenas meio período na Agência; Lily tinha sido contra a decisão de James de ficar o resto do período em casa por conta dela, mas seu teimoso parceiro, como ela gostava de chamar, apenas ignorou seus protestos, e manteve sua dupla jornada. Mas o diretor-assistente estava ficando impaciente com as cobranças da mídia e de seus superiores, e James foi obrigado a passar as últimas noites quase inteiras em reunião com seus agentes.

O agente da Yard estava cansado e frustrado, porque desde o acidente com Lily e a morte de Peter, nenhuma outra pista havia sido encontrada. Era como se Lord Voldemort não existisse. Ele tinha parado; simples e puramente, parado com seus crimes.

James sabia que podia levar anos até que esse assassino se revelasse novamente; décadas até que o monstro dentro dele despertasse e ele voltasse a cometer seus atos de loucura. Mas James não estava disposto a esperar.

Ele já tinha perdido Peter, quase tinha perdido Lily e passava os dias ansioso, a espera de novas noticias, sobre novas vitimas até então desconhecidas.

Mas tudo parecia muito calmo e silencioso. Ele podia dizer, por sua própria experiência, que não ficaria assim por muito tempo. Algo grande estava vindo, ele podia sentir. Lord Voldemort estava preparando o grand finale. E James precisava estar lá, antecipando tudo.

Mas por hora, ele estava de volta para o encantador apartamento de Lily, a familiaridade que o aliviava de suas crises de ansiedade e temor, enquanto ele andava pelo corredor em direção ao seu novo porto seguro; e mesmo na penumbra do quarto, ele conseguia ver sua parceira adormecida. Ela estava aconchegada num canto da cama, talvez esperando para quando ele voltasse para ocupar o outro canto, numa dança que se repetia todas as noites, desde que ele e sua parceira passaram a ter um novo entendimento sobre a relação deles.

Os limites do relacionamento ainda eram delicados e as diferenças patentes, em cada pequena coisa da rotina íntima que tinham, não passavam despercebidas para nenhum dos dois, e tanto James quanto Lily podiam ser teimosos quando se tratava de defender suas ideias. Ainda havia muito a ser falado e esclarecido. Eles não estavam de acordo sobre a volta de Lily a Agência e James nunca parecia encontrar o momento certo para tratar sobre Emmeline.

E então existiam os momentos em que ele se encontrava estranhamento distraído, especialmente quando ele tomava um tempo para contemplar sua parceira. Ela parecia ter sempre um sorriso guardado para ele, mesmo quando brigavam. Cada vez que ela sorria, o coração dele inchava e aquecia, e ele não resistia em agarrá-la e beijá-la e não existia mais nada no mundo que importasse para ele, que não fossem os lábios e mãos e cada parte do corpo de Lily.

Um sorriso travesso cruzou o rosto do agente, enquanto ele tirava o terno e o jogava sobre a poltrona do quarto e descalçava os sapatos – ele podia estar cansado, mas ele sempre parecia arrumar energia extra para ela. Ele tinha tido sorte nas últimas noites, com Lily sempre disposta a dar um tempo em seu sono para dar as boas vindas a James.

O agente retirou o cinto e arrancou as calças sociais, chutando-as para longe antes de se arrastar para debaixo das cobertas. Ele alcançou o corpo de sua parceira, puxando-a para perto dele, inalando o suave perfume de seu cabelo. Ele beijou gentilmente o canto do pescoço dela, e riu quando ela tremeu em resposta.

"Onde você esteve?" – a voz rouca de Lily teve efeito imediato em James. Ele se apertou contra ela, esfregando uma recém acordada ereção contra o traseiro da parceira.

"Você sabe onde estive" – ele grunhiu, confuso – "Uma hora a mais naquela reunião e eu ia começar a atirar em alguém" – ele brincou, de repente, muito interessado em despertar a parceira. Ela se retraiu, meio sonolenta, meio desperta, quando James se aproximou ainda mais, seus corpos quase grudados, e a beijou profundamente antes de ajeitá-la sobre seu peito – "Oi" – ele disse, soando muito tímido, quando seus olhos se encontraram.

"Oi" – ela respondeu de volta – "Achei que já tivesse chegado" – sua mão subiu para acariciar gentilmente o rosto do parceiro – "Pensei ter visto você aqui, mais cedo. Acho que sonhei com você esta noite, então". James se mexeu, parecendo dolorosamente desconfortável, quando ela encaixou as pernas nas dele.

"O que você sonhou?" – a voz falha dele era sugestiva e mesmo na escuridão do quarto, Lily podia apostar que os olhos de James tinham escurecido um tom, reação ao desejo desperto.

"Oh, Potter" – ela riu falsamente indignada, batendo no ombro dele – "Nada desse tipo de coisa!" - depois suspirou – "Sonhei que estava deitado aqui comigo."

"Desculpe por estar tão ausente esses dias" – ele depositou um beijo no topo da cabeça de Lily, de repente, se sentindo muito culpado.

"Não é sua culpa, você tem trabalhado muito" – ela o tranquilizou – "Eu deveria estar lá para te ajudar. Eu sou sua parceira, afinal."

"Não faça isso, Evans" – ele reclamou. James sabia onde Lily iria chegar com aquela conversa – "Você ainda está em licença. Eu posso perfeitamente terminar esse trabalho sozinho" – ele pontuou calmamente, sabendo o efeito que cada uma de suas palavras teria em sua parceira. Ela se remexeu sob ele, e o agente podia sentir os ombros de Lily tensionarem. Não era preciso dizer muito para saber que qualquer momento mais íntimo entre os dois naquela noite estava completamente descartado.

"Minha licença termina amanhã. Segunda-feira estarei de volta ao trabalho" – Lily retrucou, irritada. Era a terceira vez, em duas semanas, que tinham aquela conversa. James parecia relutante em aceitar que Lily continuasse a trabalhar em campo como sua parceira. O acidente com Snape no galpão tinha feito com que o agente da Yard passasse horas apontando todos os motivos pelos quais ela deveria repensar sua decisão em continuar naquela investigação – "Não vamos voltar a esse assunto, por favor" – ela pediu, cansada, levantando-se da cama para encarar o parceiro.

"Evans" – ele suspirou – "Você parece não entender a sorte que tem. Se aquela bala tivesse sido alojada um pouco para cima ou para baixo, eu estaria chorando sobre seu túmulo nesse momento. Ele a conhece, ele a viu" – a voz de James pareceu quebrar – "Eu ainda não entendo se ele errou de propósito aquele tiro ou se foi apenas um aviso".

"Foi um acidente" – ela insistiu – "Hora e lugar errados, lembra? Ele não quer nada comigo, você sabe disso. Eu não estou no perfil dele!"

James bufou. "E Peter estava?" – ele balançou a cabeça, quando Lily não respondeu – "Não importa. Não sabemos mais qual é o perfil dele de forma conclusiva. O que aconteceu naquele galpão bagunçou toda nossa investigação".

"Eu vou voltar e então podemos recomeçar. Nós vamos pegá-lo, você estará comigo e eu ficarei segura" – a voz dela era um pedido para James. Mas era inútil; ele não iria ceder. Ela soube disso no momento em que os olhos dele se desviaram para a parede – "Olhe para mim, James" – ela demandou.

Ele não a atendeu. Ao invés disso, ele correu as mãos pelo cabelo, nervoso, e saiu da cama.

"Volte para cá. Não precisamos falar disso hoje" – ela sugeriu, sentindo-se derrotada, enquanto seu parceiro andava em direção ao banheiro – "Você precisa descansar um pouco, volte para a cama".

Mas James não voltou atrás, seu coração quebrando a cada passo que dava para longe dela. Ele entrou no banheiro e acendeu as luzes, e afastou as memórias que dançavam em sua mente. Lily ferida. Lily sangrando. Peter morto. Lily no hospital. Emma morta. Lily o beijando. Era demais para ele. Por que ela não podia entender?

"James?" – ela pediu, o tom de voz sugerindo que ela estava a ponto de chorar. Ele podia ser um idiota total quando queria, mas valeria a pena se isso pudesse manter Lily a salvo. Ele podia sentir os olhos dela queimando em suas costas; então, relutante, ele parou sob o batente e virou-se para ela. Nenhum dos dois parecia disposto a perder a briga. Ele podia voltar para a cama e adiar a conversa, como ela tinha sugerido. Mas não havia como postergar a volta de sua parceira. Ele não aceitaria isso sem lutar; era a única forma de fazê-la entender.

"Não posso ficar" – ele respondeu, por fim – "O diretor-assistente espera um relatório na primeira hora da manhã. Preciso voltar para a Agência".

"Não faça isso" – ela se irritou e levantou da cama – "Não me feche para fora dessa forma, eu te imploro. É o meu trabalho, você não pode ficar bravo porque eu o quero de volta!"

"Você pode voltar" – ele se defendeu – "Mas existem outras áreas, seções mais seguras. Você pode dar aulas em Quântico, pode dar palestras, trabalhar como consultora da Agência, mas não precisa estar em campo".

Lily bufou, e andou até James – "Seguras?" – cruzando os braços na frente do peito, se aproximou do parceiro, suas bochechas coradas pela raiva – "Você não me deixa sair desse apartamento, Potter" – ela soltou uma risada afiada – "Você não pode esperar que eu viva eternamente na sua bolha de proteção!"

James deu a ela um olhar confuso - "Nós saímos do apartamento!"

"Nós, Potter, nós. Não eu. Eu não posso sair sozinha, eu tenho que ficar aqui quando você sai, porque você acha que ele estará na esquina, esperando para me pegar e eu não vou saber me defender. Você manda seus amigos me vigiarem e não faça essa cara, estou te avisando. Eu sei que Sirius e Remus têm rondado meu quarteirão quando você não está aqui. Você pode pensar o contrário, mas eu não sou estúpida!"

James olhou para baixo, parecendo envergonhado - "Não acho que seja estúpida, Lily. Mas não quero arriscar com a sua segurança."

"Você confia em mim?" – ela perguntou, ignorando a jogada de James. Ele só a chamava pelo primeiro nome quando tentava vencer uma discussão – "Você confia em mim para ser sua parceira na Agência?"

"Eu confio em você com a minha vida" – ele a desconcertou, os olhos dele buscando os dela. Eles estavam próximos, e James só precisava esticar o braço para que estivesse tocando Lily. Mas ela parecia saber a intenção do parceiro, porque deu um passo para trás, defensiva, seus olhos brilhando. As lágrimas estavam lá, mas Lily não choraria. James sabia que ela não demonstraria tal fraqueza.

"Então, se confia em mim, quero que me escute, que ouça o que vou te dizer" – Lily descruzou os braços e apontou um dedo na direção de James – "Tenho aceitado suas condições e medidas de segurança porque sei que se preocupa e sente-se culpado por mim. Mas já estou recuperada e pretendo voltar ao meu trabalho e não vou mais deixar que me diga o que posso ou não fazer. Sou sua parceira, agente Potter, não sua subordinada, e nada do que tem acontecido entre nós dois vai mudar isso. Se não pode lidar com minha decisão, então você pode mudar de área e procurar uma seção mais segura. Eu vou continuar na seção de crimes violentos e vou trabalhar incansavelmente até pegar aquele homem, a não ser que o diretor-assistente me diga o contrário. Por favor, diga que entende e que não vamos mais discutir por isso" – ela estreitou os olhos para o parceiro, num gesto ameaçador, desafiando-o a confrontá-la.

Os lábios de James se curvaram rapidamente para cima, num sorriso que desapareceu em seguida. Ele tinha muito orgulho dela, ela deveria saber. Lily deveria saber que a resistência dele não era por julgá-la incapaz. Mas o mero pensamento de que ela pudesse se ferir novamente fazia com que respirar fosse extremamente doloroso.

"Responda-me, James" – Lily pediu, aproximando-se do parceiro e lançando seus braços ao redor do pescoço dele – "Diga alguma coisa. Qualquer coisa, por favor!"

James a abraçou com força, milhões de pensamentos correndo por sua mente, mas ele se sentiu incapaz de falar, sua garganta apertada em desespero.

Eu não posso perder você.

Acho que estou apaixonado por você.

Por favor, fique em segurança.

"Eu preciso me arrumar" – ele a soltou quando era seguro falar – "Não me espere acordada hoje".


Little Whinning – Londres
Rua Totthenham Court, n.° 13, apartamento 20.
Sábado
18:26 p.m.

Lily consultou o celular para verificar se James tinha mandado alguma noticia. Tal como três minutos antes, nenhuma mensagem de texto ou de voz. Ele estava se esforçando em ignorá-la.

James não tinha voltado para a casa dela na quinta-feira à noite, nem na sexta-feira, nem no sábado de manhã e, aparentemente, não pretendia voltar em momento nenhum daquele fim de semana.

Ele a tinha deixado quando ainda era muito cedo, na quinta feira de manhã, partindo pra cuidar de seus relatórios e reuniões e não tinha voltado desde então.

Lily sabia que ele estava chateado e irritado com a insistência dela em voltar a campo e continuar a investigar o caso Voldemort, mas ela não via porque devia ceder naquilo.

James teria desistido mais facilmente se eles ainda fossem apenas parceiros? Ele teria se importado menos se aquele primeiro beijo trocado nunca tivesse acontecido? Ele desejava que nunca tivesse acontecido? Ele estava arrependido?

Isso certamente explicaria a ausência dele durante quase três dias. Ele ligou algumas vezes, mandou umas poucas mensagens de texto, sempre perguntando por ela, lembrando-a de se alimentar e repousar, mas nunca mencionando quando voltaria para casa. Quando Lily o questionou sobre isso, James inspirou alto antes de responder que estava terminando de resolver assuntos importantes e que a veria em breve. Lily perguntou se ele estava ao menos tirando algumas horas para dormir, mas seu parceiro não precisou responder. Ele soava cansado e aborrecido. Ela podia apostar que ele estava enfurnado em sua sala na Agência, tentando entrar naquele lugar em sua mente onde habitava a escuridão. Lily queria estar lá, junto dele, para trazê-lo de volta. Mas ele a tinha fechado para fora, como nos primeiros tempos de parceria. Ele iria sozinho tentar pegar Voldemort, e Lily tinha medo que fosse uma viagem sem volta. Não importava para James que ela não estivesse assustada; não importava o fato de que ser ferida por aquele homem apenas a tinha tornado mais obstinada, ao invés de fazê-la querer correr para longe.

Ele só entenderia quando a visse novamente em campo. Ela tinha aprendido, ela não erraria novamente. James iria respeitá-la, tal como ela estava respeitando a necessidade dele por espaço. Ainda que isso a incomodasse profundamente. A ausência dele a estava matando.

"Dois podem jogar esse jogo, agente Potter" – Lily disse em voz alta, tentando se convencer disso, mas falhando miseravelmente. Ela deveria simplesmente desligar o celular, isso enlouqueceria James. Ele tentaria ligar para o telefone fixo da casa, mas ela não atenderia. Ele não teria outra saída a não ser averiguar pessoalmente se ela estava viva.

Isso, ou ele mandaria seu cão fiel fazer o trabalho sujo.

Ela deu um sorriso enviesado. Ela parecia conhecer James tão bem. Agarrada ao celular, ignorando o quão patética se sentia, Lily apertou o número 3 de sua lista de contatos. James tinha reprogramado a lista de contatos do celular dela, adicionando números seletos para as emergências.

A chamada foi atendida antes de completar o segundo toque. "Eu não sei onde ele está, princesa" – a voz de Sirius Black cantarolou pelo aparelho.

Lily deu um suspiro cansado. "Não brinque comigo, Black. Não estou no clima para jogos".

Sirius deu aquela risada que sempre lembrava a ela um latido – "Eu não sei o que aconteceu entre vocês, mas Prongs parece estar determinado a deixar você de castigo."

"Há há, muito engraçado" – ela não se importou em soar aborrecida – "Se falar com ele, diga a ele para me ligar, sim? E por favor, peça a Remus para voltar para casa. Posso vê-lo pela janela da sala, escondido, e ele parece não estar muito bem. Não faz qualquer sentido permanecer de guarda na minha porta, eu não vou a lugar algum, eu prometo."

"Eu vou pedir"- Sirius aquiesceu, parecendo muito sério, de repente – "Até mais tarde, princesa. Cuide-se direito, senão James vai arrancar minha pele."

Lily desligou o telefone. Ela foi até a janela da sala, para ver se Remus iria embora. Ele tinha uma expressão cansada, e parecia mais magro do que a última vez que ele a visitara, na semana anterior. Ela viu quando ele se atrapalhou, assustado pelo toque de seu celular, deixando o aparelho cair na calçada. A agente riu quando ele se encolheu ao atender, balançando a cabeça e dando rápidas olhadas em direção a janela em que ela estava. Ele acenou levemente para ela, em reconhecimento, antes de seguir pela rua e desaparecer.

Minutos, talvez horas se passaram. Ainda nenhuma notícia de James. Cansada de esperar e muito irritada com a atitude de seu parceiro, Lily estava pronta para ligar para ele, pela 10ª vez naquele dia, quando bateram suavemente em sua porta.

"James" – ela chamou, ansiosa, correndo para abri-la. Ela esperava ver James parado, uma mão apoiada no batente, sua melhor expressão de desculpas no rosto. Era bom que ele soubesse que precisaria de muito mais do que isso para que ela o perdoasse.

Mas, ao invés disso, ela encontrou Emmeline Vance, com seu cabelo loiro perfeitamente cortado, sua maquiagem cuidadosamente feita e seu melhor sorriso presunçoso, seus braços cruzados sob o peito, parecendo realmente aborrecida em estar ali.

"Então, você realmente está viva" – a agente Vance sorriu, empurrando Lily para o lado, para que a passagem ficasse livre. A mulher entrou, sem esperar convite, rodeou a pequena sala do apartamento, reparando em cada pequena coisa, antes de finalmente se virar para Lily.

"O que posso fazer por você, agente Vance?" – Lily não se importou em esconder o desagrado que sentia por olhar para a outra agente. Ela não tinha esquecido.

"Agente Vance?" – a risada dela ecoou pela sala – "Ora, Lily, acho que podemos pular essas formalidades, não acha? Acredito que somos o que se pode chamar de íntimas."

"Não tenho qualquer intimidade com você, Vance. O que faz aqui, afinal?" – Lily fechou a porta atrás de si, sentindo-se, de repente, oprimida.

Emmeline tomou um minuto para avaliar sua rival antes de tomar um dos assentos do sofá – "Acho que as pessoas que dividem um segredo podem ser consideradas íntimas, minha querida" – ela roçou a unha em uma das almofadas, encarando Lily com animosidade – "Vim aqui para discutir nosso pequeno segredinho".

James.

Lily sustentou o olhar de Emmeline, mas a coloração avermelhada em suas bochechas a traiu – "Não tenho nada a discutir com você, Vance."

"Eu ouso discordar, Evans. Faça o favor de descer do seu pedestal e parar com essa atuação porque você não me engana. Pode ter enganado James, mas eu sou muito mais esperta do que ele" – Emmeline deu uma risadinha afetada. Depois, largando a almofada de lado, levantou-se e caminhou em direção a Lily, mas a outra agente não se intimidou.

"Se veio até aqui falar sobre o agente Potter, perdeu seu tempo. Não tenho nada que seja do seu interesse para discutir" – Lily mentiu. Ela podia sentir o cerco fechando ao redor dela; Emmeline a tinha exatamente onde queria.

"Da última vez que eu constei, era do meu total interesse saber com quem James andava transando" – ela apontou para Lily, seus olhos estreitos – "Afinal, é meu direito como esposa saber com quem meu marido se aventura".

Emmeline esperou uma reação de choque ou surpresa de Lily, mas a agente não teve qualquer reação.

"Devo dizer que não estou surpresa" – a agente da Europol suspirou, desconcertada. Ela esperava causar um estrago, mas, aparentemente, Lily sabia muito bem onde estava metida – "Ele te contou?"

Não, James não tinha contado. Ela esperou, ao longo das duas últimas semanas, que seu parceiro a abordasse. Teve vezes que ele a contemplou por longos minutos, ansioso, e Lily tinha certeza que ele estava tentando encontrar uma forma de trazer o assunto. Mas depois ele apenas sorriu e a beijou e era como se não houvesse nada para contar.

Mas Emmeline não merecia saber sobre isso.

"Nós não temos segredos um com o outro, Vance" – Lily mentiu, incapaz de permitir que aquela mulher a vencesse. Se James não tinha contado ainda, era porque devia ter seus motivos. Ele não era um infiel, ele não ficaria com Lily se fosse, de fato, casado. Ele podia ter um pedaço de papel que o ligava a Emmeline, mas o coração dele não estava incluso nesse contrato.

"Isso é realmente tocante, Evans" – Emmeline sorriu – "Fico surpresa em saber que você aceita bem o papel de amante."

Lily sabia que isso aconteceria, no momento em que encontrou a agente Vance a sua porta. Mas nada a preparou para ouvir aquela palavra. Amante. Era só isso o que ela era? Amante de um homem casado, que também era seu colega de trabalho. Ela tinha atravessado todos os limites, descido tão baixo assim? Sua relação com James podia ser ainda mais clichê do que isso?

Ela nunca tinha efetivamente pensado sobre si mesma daquela forma. Ela sabia que James era casado, mas era como se fosse mentira. Lily tinha visto os dois juntos, eles não eram um casal. Talvez por isso, ela nunca tenha qualificado a sua relação assim. Talvez por isso ela nunca tenha visto a si mesmo como uma amante.

"Como eu disse, não temos nada para discutir. Talvez você devesse tentar encontrar James e tratar desse assunto diretamente com ele" – Lily reuniu toda dignidade que lhe restava para parecer indiferente. Mas Emmeline apenas sorriu em resposta.

Vance era uma agente da Europol, com anos de experiência. Ela sabia ler uma pessoa como ninguém. Até James teve que reconhecer a superioridade dela, uma vez ou outra. Ele era um excelente profiler, mas Emmeline podia tirar todas as informações que queria de uma pessoa, sem precisar se esforçar muito. Lily percebeu isso tarde demais.

"Você não sabe onde seu parceiro está, sabe, agente Evans?" – ela soltou uma risadinha condescendente – "Ele sempre faz isso, acredite em mim" – ela piscou, e Lily quis puxar os cabelos da mulher que a encarava sorridente.

"Faz o que, agente Vance?"

"Ah, minha querida" – Emmeline suspirou – "Isso" – ela apontou com desdém para Lily – "Ele sempre arruma alguém para brincar quando eu apareço, ele acha que isso me afeta de alguma forma" – ela esperou alguma resposta da outra agente, mas quando Lily permaneceu em silêncio, ela continuou – "Eu pedi o divórcio anos atrás, mas ele se recusa a assinar os papeis. Ele nunca superou o fato de eu ter escolhido ir para outra Agência a ficar com ele. Jim sempre tentou me fazer voltar atrás, voltar para ele. Eu nunca repensei minha decisão, até ontem. Ele apareceu no meu hotel, pediu para que conversássemos. Eu fiquei receosa no começo, mas quando ele terminou, eu vi que ele tinha razão."

"Razão em que?" – Lily não se importou com o fato de que sua voz parecia levemente esganiçada – "Vá direto ao ponto, Vance. Diga logo o que quer dizer."

"James e eu vamos retomar nosso casamento" – Emmeline alcançou sua bolsa de mão, ajeitando a alça sobre o ombro enquanto andava até a porta. Antes de sair, porém, ela se virou para encarar Lily pela última vez – "Eu quero que você deixe meu marido em paz, Evans."


Sede da Agência da Scotland Yard, Londres
20:04 p.m.
Escritório do Agente Especial James Potter
Sábado

Pastas abertas se espalhavam pela mesa do agente Potter, junto com caixas vazias de comida, mas James parecia estar alheio a isso tudo. Ele não dormia há dias, sua mente trabalhando incessantemente no perfil do homem que o assombrava.

Ele checou o celular pela terceira vez naquela noite, ouvindo a mensagem de voz que Lily tinha deixado em sua caixa postal, pedindo que ele voltasse para a casa dela – o que foi deliberadamente ignorado. James estava sendo teimoso e isso certamente arruinaria sua parceria e talvez sua nova relação também, mas ele sabia que estava certo. Assassinos seriais não erravam, e não deixavam suas vitimas vivas. Mas havia essa sensação que não abandonava James. Algo estava errado. Talvez Lord Voldemort não fosse um assassino serial comum. Talvez ele sequer fosse um psicopata.

Lily estava em perigo, mas ninguém parecia se importar. Ela brigava por voltar ao trabalho e o diretor-assistente Dumbledore achava que James estava obcecado com uma ideia sem fundamento. Ele concordava que Lily tinha sido vitima de um acidente. Local e hora errados. Ela era uma agente treinada, o que poderia dar de errado? Além disso, Dumbledore não estava satisfeito com o relatório de James. Ele desfez o perfil anterior, alegando que o assassinato de Peter fugia ao padrão, mas não conseguia traçar um novo perfil.

As peças estavam ali – os corpos, as marcas, o modus operandis, tudo. Mas James não conseguia mais juntá-los. Peter não deveria ter sido uma vitima. Não fazia qualquer sentido. Nada mais parecia fazer sentido.

Sentindo o corpo dolorido, James se esticou em sua cadeira. Ele sabia que teria que enfrentar Lily, ter uma conversa definitiva sobre eles e talvez convencê-la de que era mais sensato permanecer longe da Seção de Crimes Violentos, pelo menos enquanto Lord Voldemort não fosse capturado. Mas talvez não naquela noite. Ele tinha falado rapidamente com a parceira depois da briga que tiveram, na quinta feira de manhã, sem dar qualquer espaço para que Lily o convencesse a voltar atrás na ideia de tirá-la do caso. E desde então, manteve pouco contato com ela, limitando-se a checá-la em rápidos telefonemas e mensagens de celular, além dos relatórios que Sirius e Remus enviavam, eventualmente.

O agente da Yard alcançou novamente o celular e discou o número da parceira, mas desistiu antes de completar a ligação. Ele precisava resolver aquilo, fechar aquele caso e trancar Lord Voldemort em uma prisão de segurança máxima, antes de voltar para Lily. Ela nunca o entenderia; não entenderia que era como reviver a perda de Emma mais uma vez. Ele tinha perdido a irmã, mas não iria perder Lily.

Pegando o esboço do novo perfil, James fechou os olhos para se concentrar. Ele pensou no galpão, pensou em Peter e em Lily. Por que? Por que Peter? O galpão sujo e velho, rodeado de terra, o medalhão, a cobra. Os dedos de Peter estavam sujos de terra, mas ele não tinha sido enterrado, como as outras vitimas. Ele não cavou caixa e terra para tentar sair de sua morte certa, então, por que teria terra embaixo de suas unhas?

E então James era Peter. Ele era Peter e Peter estava no galpão, olhando tudo em sua volta, procurando uma saída. Peter não corria. Peter cavava. "Sim, mestre", ele respondia, sua voz carregada de adoração. E ele estava lá, em sua capa preta, olhando para Peter – para James – seus olhos negros, escurecidos pela loucura. "Cave", o mestre ordenou.

E ele cavou. Mas ele já não estava no galpão e sim no cemitério, cavando, cavando e então bateram na porta.

Os olhos de James se abriram, suor escorrendo de sua testa, quando ele se deu conta de que estivera perdido, naquele lugar escuro de sua mente. Ele ouviu os passos pelo corredor, tinham desistido de esperar por ele, e James não se importou em levantar-se e checar quem era ou o que queriam dele, porque ele tinha entendido a presença de Peter no galpão.

Seu pequeno e tolo amigo conhecia seu assassino. Se pequeno e tolo amigo era cúmplice de Lord Voldemort.

O agente sentia o coração disparado, um gosto ruim de sangue na boca, os olhos molhados pela dor. Traição. Peter fora morto por traição. Peter o conhecia, conhecia seu assassino, conhecia Lord Voldemort. Mestre. No que Peter tinha se metido?

James mal percebera que o celular tinha voltado para sua mão e que tinha discado o número do amigo. "Sou eu" – ele disse quando Sirius atendeu – "No que Peter andava metido, Pad?"

O suspiro cansado de Sirius, do outro lado da linha, declarou a James que seu amigo tinha chegado à mesma conclusão que ele. "Não sei, James" – ele respirou fundo por um momento – "Peter não era quem pensávamos".

"Ele era um traidor" – o agente da Yard declarou, sem cerimônias – "Ele conhecia Voldemort. Eu acho…Sirius, acho que Peter estava trabalhando com ele."

A risada de Sirius foi contundente – "Ele era covarde demais para matar alguém, Prongs."

"Talvez ele apenas ajudasse. Tinha terra embaixo das unhas dele, Pad. Terra. Mas ele não foi enterrado. Ele não foi morto como as outras vitimas. Voldemort não teve a mesma complacência com Peter, como se Peter não tivesse a oportunidade de ser morto da mesma forma. Por que?"

"Talvez ele não valesse a pena" – Sirius declarou.

"Não" – James concordou – "Ele não valeu a pena. Ele não mereceu uma morte limpa."

"James, vá para casa" – Sirius pediu – "Você está cansado. Lily deve está preocupada com você".

A menção ao nome da parceira fez o estomago de James se retorcer. "Acho que Lily não vai querer me ver essa noite", ele confessou. Sirius deu uma risada divertida ao ouvir o tom do amigo. "Não ria", James pediu, chateado, "ela insiste em voltar para esse caso. Eu estou preocupado, Pad. Serial Killers não costumam errar. Ele vai voltar a procurá-la".

"Você não pode saber isso, cara. E não pode obrigar Lily a ficar fora disso. Ela é uma agente treinada. Você vai apenas irritá-la com essa proteção" – James fez uma careta para o celular. Sirius parecia, de repente, ter se tornado um grande conhecedor de sua parceira.

"Onde você está agora?" – o agente interpelou, sentido um ciúme desconfortável.

"Exatamente onde me pediu, meu caro agente Potter" – Sirius sorriu – "A propósito, sua adorável parceira está dançando nua na frente janela…obrigado pela chance de presenciar esse espetáculo, Prongsie!"

James rosnou em resposta antes de desligar o celular - "Fique de olho nela, Sirius. E não quero ouvir mais nenhuma brincadeira a respeito de Lily", ele ameaçou.

A risada de Sirius ainda ecoava no ouvido do agente da Yard quando ele se direcionou para a porta do escritório, o terno em uma mão, o celular na outra. Ele pretendia ir para casa, a casa dele – para variar -, antes de pensar no que fazer com Lily quando o pé dele chutou a caixinha.

Era tão pequena que ele mal teria notado, ali, escondida embaixo do batente da porta, se não a tivesse chutado, sem querer. Era escura, pintada em tinta preta, embrulhada por um laço verde e prata. James se abaixou para pegá-la, sentindo a leveza do objeto em suas mãos e de repente, o coração acelerado.

Talvez fosse uma sensação besta, ou uma intuição qualquer, mas o agente sabia a quem aquela caixa pertencia.

James levou a pequena caixa até sua mesa, aproximando-se da grande luminária antes de abrir o pacote. Ele soltou o laço e abriu a tampa da caixinha com cuidado, esperando encontrar, talvez, um pedaço de um corpo, como um dedo ou assim, mas não havia nada.

Ele iluminou o interior da caixa, a virou de ponta cabeça e nada. Não havia nada.

"Idiota" – James resmungou, irritado. Ele jogou a caixa no lixo e se virou para desligar a luminária e foi só então que o viu. Perdido em cima da mesa, no meio da bagunça, ele restava discreto. Tão fino que era quase transparente, não fosse a cor avermelhada que reluzia diante da claridade da lâmpada.

O agente se abaixou, seus olhos arregalados pelo medo, para pegar um único fio de cabelo, que devia ter caído da caixa quando James a virou. Ele examinou o discreto pedaço de material. O pequeno fio de cabelo vermelho que lhe fora enviado como aviso. E James soube que era de Lily.

Pensei ter visto você aqui, mais cedo. Acho que sonhei com você esta noite, então.

Bastou meio segundo para que a escuridão o tomasse novamente.


Little Whinning – Londres
Rua Totthenham Court, n.° 13, apartamento 20.
Domingo
01:04 a.m.

Ele bateu à porta de forma suave. Parecia impróprio usar a chave do apartamento naquele momento, como se fosse invadir um recanto muito particular. Ele apreciou o momento, enquanto encarava a porta, no que parecia ser a última vez. James conhecia Lily o suficiente para saber que ela não o perdoaria pelo que ele iria fazer.

Longos segundos se passaram antes da porta ser aberta e o rosto pálido da parceira aparecer. Ela tinha os olhos avermelhados e inchados e o coração de James se apertou pelo fato de entender que Lily tinha chorado. Provavelmente por causa dele. Isso só tornava as coisas ainda mais difíceis.

"Desculpe" – ele se adiantou, passando por ela, seus pés o levando para dentro do apartamento que ele dividiu com ela por duas semanas – "Antes de tudo, Lily, me desculpe."

Sua parceira o olhou com cuidado, como se a visão dele, naquele momento, causasse algum tipo de pavor nela. Ele viu a boca de Lily se contorcer, pensando, por um momento, que ela estivesse sentindo alguma dor. Mas antes que ele tivesse qualquer reação, Lily foi até o quarto, deixando-o sozinho e confuso, antes de reaparecer na sala, trazendo uma mala fechada numa das mãos, e uma caixa de papelão na outra.

"Você está indo a algum lugar?" – James perguntou, surpreso por aquela reação.

Ele viu a parceira respirar profundamente, antes de entregar a alça da mala para ele, e depositar a caixa aos seus pés.

"Não, Potter" – ela respondeu, cansada – "Você é que está."

"Eu já esperava por isso" – ele confessou – "Como você descobriu?"

Uma risada afiada saiu da boca da parceira – "Como você acha?" – ela retorquiu irritada, e James notou como Lily parecia lutar para não chorar. Quando ele não respondeu, ela o empurrou em direção a porta. "Vá embora, James."

O pedido dela foi ignorado. James a segurou firmemente, obrigando-a a olhá-lo nos olhos. "Não", ele balançou a cabeça, "Não vou embora até você me escutar".

A tentativa de se soltar arrancou um resmungo de dor por parte dela, e então James afrouxou o aperto, mas sem soltar Lily completamente. Poderia ser a última vez que ele a tocaria, e ele queria ter certeza de aproveitar a ocasião.

"Quem te contou?" – ele insistiu – "Foi Dumbledore?"

O olhar de choque e surpresa no rosto de Lily deixou James surpreso. "Obvio que não. Como o diretor-assistente saberia disso?"

"Ele teve que saber, senão eu não poderia ir em frente com isso" – James explicou.

"Você contou a ele primeiro?" – Lily soou ofendida – "Você conversou com ele antes de falar comigo? Qual é o seu problema?"

James largou a parceira e deu um passo para trás, correndo as mãos pelo cabelo. "Ele é o meu chefe", ele explicou, "Eu precisava que ele me apoiasse."

Lily o olhou indignada e o empurrou para a porta novamente. "Parece que estão todos de acordo com sua decisão, Potter. Eu agradeceria a você por ter tido a hombridade de me contar pessoalmente, antes de dividir isso com qualquer outra pessoa, mas me parece que Emmeline teve mais consideração por mim do que você ousou ter. Agora saia daqui."

"Emmeline?" – o choque no rosto de James era visível. Lily poderia ter rido dele, e comentado sobre a atuação do parceiro, mas ele pareceu perturbado demais para estar fingindo – "O que ela te contou?"

"Não se faça de idiota, Potter, e por favor, não faça a mim de idiota", Lily respondeu furiosa, "Você poderia ter me contado. Eu teria me esforçado para entender."

"Entender o que?"

"Ela me contou sobre vocês dois, ela me disse como você a procura e pede para que ela o aceite novamente" – a agente da Yard balançou a cabeça - "Mas agora não importa. Saia daqui e volte para sua mulher, James."

"Minha mulher? Lily, do que você está falando?"

"Não era por isso que veio, James? Me contar que vai retomar seu casamento com Emmeline? Não foi por isso que me manteve longe todos esses dias?" – Lily encarou o parceiro, esperando ele vacilar diante da acusação. Mas James balançou a cabeça, parecendo incrédulo por um momento. Então, ele tateou o bolso do terno e retirou um envelope fechado. A força da mão dele amassou o papel e fez um vinco que retorceu de forma bizarra o símbolo da Agência, que estava ali impresso. Um arrepio percorreu o corpo de Lily, quando ela teve uma intuição ruim do que sairia dali.

"Eu não estive com Emmeline em momento algum dessas ultimas semanas, e não existe qualquer possibilidade de eu retomar meu casamento com ela, Lily" – os olhos de James eram sinceros, mas isso não apaziguou a agente – "Eu não sei o que ela te disse, mas nós não vamos voltar. Meu casamento foi um erro, e eu não repetiria esse erro novamente" – ele suspirou com pesar e fechou os olhos, consternado – "Eu queria ter te contado tudo sobre isso, sobre meu passado com a agente Vance. Eu não agi certo e você merecia mais de mim. Mas nunca parecia ser o momento certo para trazer o assunto à tona. Se eu puder te pedir uma coisa, só uma, peço que acredite em mim. Emmeline não faz parte da minha vida há anos e continuará a ser assim."

Ele esperou algum sinal da parceira, mas ela não esboçou qualquer reação. James entendeu isso como um sinal para continuar. "Eu me mantive longe de você esses dias porque queria colocar um ponto final nesse caso. Eu pensei que poderia pegá-lo de alguma forma, mas percebo agora que tenho estado errado desde o inicio."

James riu, mas o som que saiu de sua boca era triste. Ele engoliu com dificuldade, como se sentisse um gosto amargo em sua boca.

"Por que está aqui então, James?" – Lily perguntou finalmente, quando entendeu que o assunto que o parceiro iria tratar nada tinha a ver com a mentira de Emmeline – "Você passou três dias longe, me evitando de todas as formas. Me deixou no escuro, ignorou minhas ligações e meus pedidos para voltar para casa. E agora você está aqui e seus olhos...por que está me olhando assim, James?"

"Eu gostaria de poder te contar, Lily, eu juro. Tem tantas coisas que você não entende e não consigo fazer você entender. Sinto muito, eu queria que fosse diferente, queria que eu não precisasse fazer isso" – ele esticou a mão e ofereceu o envelope para a parceira – "Mas você não me deixou outra escolha. Por favor, não me odeie."


"Eu fui despedida?" – Lily perguntou incrédula, enquanto relia a carta de dispensa, assinada pelo diretor-assistente – "Por que?"

Ela viu o parceiro engasgar por um momento. "Eu e o diretor-assistente concordamos que seu acidente causou um você uma crise de stress pós-traumático, o que pode comprometer sua atuação como minha parceira."

Lily encarou o parceiro, seus olhos apertados pela raiva – "Que grande merda é essa? Stress pós-traumático com base em qual diagnóstico?"

"No meu diagnóstico" – James retorquiu, sua expressão pesando em culpa.

"Eu não estou em crise, agente Potter. Sabe bem disso. E se fosse o caso, isso não é motivo par ser demitida! Essa carta é uma farsa, e eu não vou aceitar isso. Eu vou ligar agora para Dumbledore…"

"Você pode ligar, mas ele não vai mudar de ideia." – James balançou a cabeça, decidido.

"Ele vai mudar de ideia quando eu apresentar um diagnóstico que ateste minha plena capacidade para trabalhar."

O agente da Yard deu a Lily um sorriso triste. "Lily, não insista nisso, eu te peço. Por favor."

Lily estreitou os olhos, em desafio. "Você não fez isso, James. Isso é baixo demais, principalmente para alguém como você."

"Eu fiz o que foi preciso, Evans" – ele suspirou e estendeu a mão na direção de Lily – "Preciso que me entregue sua arma e seu distintivo."

"Eu não vou fazer isso. Se você quiser ir até a rainha e reclamar, fique à vontade. Amanha eu volto para a Agência e vou tratar dessa carta estupida diretamente com Dumbledore" – Lily passou por James, indo em direção ao corredor. Ela não daria mais motivos para discussão. A agente não podia acreditar que James tinha apelado a esse tanto para tirá-la do caso, mas ela não ia perder essa batalha sem lutar.

Mas antes de chegar ao quarto dela, que pro alguns dias fora dele também, ele a chamou. O timbre baixo e rouco dele a alertou de que a conversa não tinha terminado.

"Eu já requeri seu desligamento da Agência, Lily. Nem mesmo Dumbledore poderá ajudá-la agora."

Lily se virou lentamente para encarar o parceiro. Ela andou até ele, e agora eles estavam tão próximos que ela podia sentir a respiração dele. "O que você fez, James?"

O magoado dela o afetou. Ele sentiu o coração quebrando em mil pedaços, mas ele tinha que fazer aquilo. Ele faria o que fosse necessário para mantê-la a salvo. "Eu fiz uma representação contra você e aleguei sua inabilidade técnica para atuar como agente de campo. Eu disse que você foi ferida em seu primeiro trabalho prático porque não é boa o suficiente para a tarefa e que, portanto, não tinha nenhuma utilidade como minha parceira, ou como agente na seção de crimes violentos. Com alguma sorte, você ainda poderá dar aulas na Agência ou atuar em consultoria, mas eu não contaria muito com isso" – James encarou seus próprios pés, incapaz de continuar a olhar para Lily – "Dumbledore achou que eu tinha provas suficientes para sustentar minha representação. Você está suspensa até a decisão final, e será intimada para participar do processo administrativo de demissão. Mas a verdade é que isso já está decidido e você está fora."

Ele não sentiu o tapa, embora o barulho surdo da mão de Lily contra o rosto dele não deixou dúvidas de que ele tinha sido atingido. Ele mal conseguiu enxergar quando ela lhe virou as costas e se refugiou no quarto que um dia ele dividiu com ela. Ele não se movimentou quando a porta bateu com força. Ele ficou sozinho na sala, a carta de demissão amassada sob os pés dele, o silêncio ensurdecedor da verdade pesando sobre ele: Lily não o perdoaria.

James deixou o apartamento e agradeceu quando a escuridão tomou conta dele novamente.


Sede da Agência da Scotland Yard, Londres
09:18 a.m.
Escritório do Agente Especial James Potter
Segunda-feira

Menos de 24 horas depois de desligado, e o celular dele tinha 4 mensagens gravadas na caixa postal.

"Cara, sou eu. Eu não entendi sua mensagem. O que aconteceu?"

James ignorou a mensagem de Sirius.

"Sou eu novamente. Lily deixou o apartamento há meia hora. Ela está naquela catedral, a mesma da outra vez. Estou do lado de fora, esperando. Você ainda não me retornou. O que aconteceu com vocês?"

Um calafrio percorreu a espinha do agente da Yard quando pensou em Lily sozinha na Catedral de São Paulo.

"James. Eu a perdi de vista. Ela entrou na catedral, mas não saiu. Eu achei que ela estava demorando, então fui atrás dela. Mas ela sumiu. A única pessoa que a viu disse que ela saiu pelos fundos, acompanhada de um homem. Ele vestia um casaco comprido, preto. Como se fosse...como uma capa. Eu acho que pode ser ele. Remus está tentando rastrear qualquer imagem da saída deles nas cameras de segurança ao redor da catedral. Atende o telefone, James."

O dedo dele tremia enquanto apertava a quarta mensagem. A voz de Lily soou por toda a sala. Pairando sobre ele, ao redor dele, dentro dele: o pedido mudo e o terror.

"James…"

Então ele soube que estava perdido.


N/a: Peço imensas desculpas a todos pela ausência no último ano. Estive ocupada, estudando, e não pude trabalhar na história como gostaria.

Esse capítulo saiu diferente do que o originalmente tinha planejado. Mas o fim foi esse: uma briga bonita, muita tensão e Lily desaparecida.

Espero que gostem e continuem acompanhando. Pretendo terminar a história até o fim do ano.

Gostaria de agradecer imensamente a todos os leitores fieis que continuaram me acompanhando e pedindo pela atualização. Apesar da minha falta, fico contente de saber que ainda tenho algum quorum. Espero também que gostem desse capítulo e comentem.

Beijos e até breve,

Annie.