14. Verde

Parte II

Parecia que era a primeira vez que ele piscava em quinze minutos. Ele piscou, mas não ousava manter os olhos fechados. Fazer assim era o mesmo que assistir novamente aquele pesadelo horripilante. Pior ainda, fechar os olhos seria o mesmo que viver aquela dor na própria pele e levar todos os golpes assim como assistiu Zechs levar os dele.

Eles eram soldados e sabiam que ser capturados era uma possibilidade que nunca deveria ser descartada. A ciência desse fato, entretanto, não fazia a realidade mais aceitável. O sangue frio de Treize e sua forte autoconfiança foram testados e mesmo que ele se gabasse de sua bravura, um tipo novo e estranho de medo rastejava agora por sua pele.

O que ele diria a Noin?

E como ela reagiria?

Ele desligou a tela e segurou sua testa com as duas mãos entrelaçadas, formando um único punho, e suspirou.

Se o pior acontecesse… ele odiava ter de considerar esta opção. Mas se o pior realmente acontecesse, o que seria de Noin? Não importava que o pai do filho dela fosse um oficial, para a Marinha ela era uma mãe solteira e ela não receberia o suporte devido a uma viúva de guerra. A família de Zechs iria ajudá-la, claro, mas não seria a mesma coisa.

O tormento que Zechs estava passando afetava todos próximos a ele como em um efeito dominó. Treize precisava pensar sobre a mãe de Zechs também, que já havia perdido o marido e agora poderia ser proibida de receber seu filho. E havia Relena também, cuja juventude seria ferida por uma guerra que de repente não era mais tão distante dela.

Foram lhe dadas todas as garantias de que a situação já estava sendo cuidada prontamente e que o contato com os sequestradores já havia sido estabelecido. Mas ele não estava em nada tranquilizado. Ele queria estar lá. Ele iria falar com seu superior, com o almirante, com o presidente, mas ele iria acompanhar as negociações pessoalmente.

Mas, primeiro, ele precisava decidir o que iria contar a Noin.

A família de Zechs seria informada apenas se ele fosse classificado como MIA ou KIA ou só depois de ser resgatado e enviado para casa. Ele não conhecia Noin muito bem, mas tinha certeza de que ela iria querer saber da situação de Zechs assim que possível, mesmo que isto significasse receber péssimas notícias.

Visto que Une havia lhe deixado seu número de telefone, ele mandou uma mensagem para ela avisando que conseguira informações. Elas vieram três horas depois, aproveitando o intervalo do almoço. Incertas quanto se teriam tempo para comer, elas nem se trocaram e foram no uniforme de educação física mesmo.

_Boa-tarde, senhoritas. –seu cumprimento não veio com a naturalidade que havia planejado. Era impossível fingir absoluta calma.

Com olhares ariscos, elas o cumprimentaram de volta e aguardaram. Era óbvio que alguma coisa estava errada.

_Agora, queiram se sentar, por favor. –ele mostrou as cadeiras em frente da mesa e fechou a porta do escritório. –Como vocês tem passado, Une, Noin? –e sentando no canto da mesa, ele cruzou os braços e de uma boa olhada nelas.

A atmosfera pesada os esmagava. Tomando fôlego, ele começou:

_Sinto muito por não ter notícias melhores para dar a vocês. Zechs foi feito refém de uma guerrilha. O grupo quer trocá-lo por um companheiro levado como prisioneiro de guerra.

Noin queria ter tido uma reação diferente. Ela sempre se julgou forte e bem preparada para enfrentar qualquer tipo de adversidade com o queixo erguido e os olhos secos. Ela tinha sido bem sucedida até agora, sem derramar uma lágrima sequer por Zechs desde a partida abrupta dele. Mas era diferente quando se tratava de seus bebês.

Bebês. Gêmeos. Ela mal se acostumara com a ideia de ter gêmeos e agora era apresentada à possibilidade de ser mãe solteira.

Sua vida mudou completamente depois daquela noite negra… foi tudo culpa dela. Ela escolheu tudo aquilo. E agora ela tinha de escolher mais uma vez, entre remorso e resiliência, entre rancor e aceitação, entre angústia e felicidade.

Depois de ver a doutora Po interpretar a imagem de ultrassom para ela, depois de ouvir aqueles dois coraçõezinhos batendo, não havia dúvidas quanto ao que escolher.

Seu silêncio, mesmo que longo, foi respeitando por Treize e Une. Eles ficariam ali junto dela o dia inteiro se fosse necessário.

Ela não tinha vontade de falar apenas para fazer perguntas óbvias ou expressar pesar redundante. Mas guardar tudo para si tampouco lhe faria bem.

Deixando que o ar escapasse seus pulmões completamente, ela ergueu os olhos até os de Treize:

_Eu preferia ficar sabendo que ele está morto. –sua voz veio amarga e baixa e seus olhos se encheram de lágrimas como gotas de orvalho. A morte era irreversível. Era muito mais fácil de lidar com essa do que com a agonia da incerteza. Esperar machucava mais do que a ideia de tê-lo perdido para sempre.

Treize leu esses pensamentos por estudar os olhos dela ao passo que as lágrimas rolavam mudas por suas bochechas. Assentindo com um movimento lento de cabeça, ele continuou:

_Mas não perca todas as esperanças. As negociações já estão acontecendo. –e se sentiu como se estivesse mentindo para ela, mas era uma mentira em que ele também queria acreditar.

_Então isto quer dizer que ele será mandado para casa imediatamente após o resgaste. –Une decidiu destacar. –Vamos olhar pelo lado bom: Zechs vai voltar logo. –e, embora ela falasse de resultados positivos, sua voz não soava exultante. Pegando uma das mãos de Noin entre as suas, Une deixou seu apoio claro.

Contudo, por mais contraditório que parecesse, ele retornar era um tanto assustador. Noin começou a se perguntar quanto tempo ela teria de esperar para poder dar a notícia e como Zechs reagiria. De repente, tudo o que ela conseguia fazer era se preocupar. Ela nunca antes estivera em um terreno tão instável.

Será que era assim por que ela duvidava dos sentimentos que Zechs tinha por ela? Ele nunca declarou nada, nunca afirmou claramente… ele sempre se comportou como um conquistador. Mas pelos olhos ele lhe dizia o tempo todo que passaram juntos o quão apaixonado estava. Ela era muito mais para ele do que qualquer garota jamais fora. Ela precisava acreditar nisso, ter esperança e confiar em seu coração. E seu coração estava sofrendo por ele agora. Isso só podia ser amor.


MIA – sigla para Desaparecido em Combate, em inglês, Missing In Action

KIA – sigla para Morto em Combate, em inglês, Killed In Action


Gostaria de agradecer de coração todos os que leem e acompanham essa fanfic!

Desculpe o atraso!

Agradecimentos especiais a Jessica Yoko!

Deixem seus comentários!

Beijos e abraços!

19.08.2018