Capítulo 14 – O tempo de cada coisa

Take these broken wings
And learn to fly again
And learn to live so free

(Mr. Mister: Broken Wings – Mr. Mister, 1987)

Yamcha observava a Cidade do Leste do alto de uma colina. Ele deixara a cidade há pouco mais de um ano e meio, mas parecia que havia partido há muito mais tempo. Seus cabelos estavam muito longos, ele parecia novamente o rato do deserto que fora um dia, não o famoso jogador de basebol que se tornara depois.

Quando partira, um tanto sem rumo, decidira voltar à base da torre do mestre Karin, onde encontrara o índio Bora e seu filho Upa, agora um jovem forte que aspirava subir a torre, como o próprio Yamcha fizera um dia, anos atrás. Treinou com ele por três meses, mas em vez de voltar para a temporada de baseball, se ofereceu para jogar num time bem mais modesto de uma cidade nas cercanias da torre, contanto que eles pagassem apenas a multa contratual que ele tinha com os Taitans, o que foi um ótimo negócio para o time e para ele, que podia treinar o todo seu tempo livre. Voltou a sentir o gosto de estar próximo à natureza, uma vez que fora morar numa tenda emprestada por Bora e ia apenas duas vezes durante a semana para a cidade, um dia para um treino tático e outro para o jogo daquela liga. Ninguém reclamava da sua conduta porque ele levou o time a vencer o campeonato.

No fim daquela temporada, porém, ele decidiu não voltar a jogar e ajudou o jovem Upa a subir a torre do Mestre Karim, que recebeu os dois com seu habitual ar enigmático:

– O que você está fazendo aqui? – ele perguntou a Yamcha. – já não há nada que eu possa te ensinar! E na plataforma celeste não há nada para você também.

– Eu decidi ajudar Upa a subir a torre – disse ele, mostrando o jovem.

– Entendi, está fugindo de uma dor do passado.

– Não ligue – sussurrou Yajirobe , que agora morava na torre, assim que o gato sábio se afastou – ele fala coisas sem sentido o tempo todo.

– Fez algum sentido para mim – disse Yamcha, um tanto amargurado.

Nos dias seguintes, ele percebeu que o mestre tinha razão: podia manter a forma com aqueles exercícios, mas chegava ser tedioso acompanhar Upa, que era muito inexperiente. Havia muito tempo ainda até a chegada dos androides, mas ele simplesmente não fazia ideia de como realmente chegaria a ficar forte a ponto de poder enfrentar adversários tão fortes.

– Você não precisa lutar – disse Yajirobe, quando Yamcha conversou com ele – deixe Goku e os outros resolverem isso. Se aquele tal Vegeta estiver do nosso lado, acho muito difícil perder a luta.

Claro que ele nunca seria tão forte quanto Vegeta, mas também, não queria ser covarde e virar as costas a um combate que animava seu rival de uma forma que ele não conseguia entender. Com o passar dos dias, foi ficando irritado e isso não escapou à percepção do Mestre Karim:

– Você sabe o que é um tolo, Yamcha? Um tolo é aquele que insiste em seguir por uma estrada que não o leva aonde ele quer chegar.

E assim, ele deixou a torre, e, levando Pual às costas, retornou, por um caminho diferente do que o trouxera até ali, à Cidade do Leste. No caminho esteve com Tenshin Han – que era um dos seus melhores amigos – e os dois conversaram bastante sobre seus relacionamentos fracassados:

– Eu nunca me imaginei casado com Lunch ou coisa parecida – disse Tenshin – mas a personalidade dela me atraía muito, lembrava um pouco como eu era antes de abandonar o caminho do mal... talvez eu tivesse uma esperança que ela se tornasse alguém diferente... e ela se tornou, mas era alguém que já não gostava de mim.

– Eu e Bulma mudamos muito... mas, não sei, pode ser que depois desse tempo todo ela me perdoe.

– Você sempre teve muitas garotas atrás de você. Nos campeonatos eu me lembro bem de Bulma possessa com o assédio.

– Verdade... e acho que eu nunca vou deixar de gostar de ter garotas atrás de mim mas também nunca vou saber lidar muito bem com elas.

Depois de dois meses treinando juntos, sempre lutando um contra o outro, os dois admitiram que tinham níveis de poder parecido, portanto, não era tão desafiante treinarem juntos se um já conhecia o suficiente da técnica do outro. Assim, Yamcha seguiu viagem novamente, reconhecendo às vezes lugares que ele já estivera com Pual, Bulma e Goku e, num dia ensolarado, chegou à Cidade do Leste.

Queria muito ver Bulma. Mas reconhecia que a viagem o deixara com uma péssima aparência, então, antes de tudo, voltou ao seu velho apartamento, fechado há muito tempo, verificou sua situação bancária, que ainda era bem confortável, cortou os cabelos, mandou lavar seu belo carro esporte, explicou a Pual que naquele dia ele queria falar em particular com Bulma e então, partiu para a Corporação Capsula, onde a mãe de Bulma o recebeu muito bem, falando amenidades, perguntando como ele estava. Até ele perguntar por Bulma.

– Ah, Bulma... acho que ela vai gostar de vê-lo. Vou chama-la, ela está no laboratório... eu digo que ela não deveria trabalhar tanto no estado que está mas Bulma é muito teimosa... – ela saiu para chamar Bulma por uma porta lateral, deixando-o sozinho na sala.

Yamcha não entendeu direito a história do "estado" de Bulma, será que ela estava doente? Cinco minutos se passaram com ele sozinho na sala, lembrando os longos amassos dos dois, ainda adolescentes, naquele mesmo sofá, o momento em que apenas amassos não bastavam, as brigas e reconciliações, as despedidas cada vez que ele ia treinar...

– Olá, Yamcha – a voz de Bulma soou bem atrás dele e ele se levantou, virando-se para levar o maior susto de sua vida.

– Bulma! Meu Deus, poderoso Kami, como você pode estar grávida?

Bulma não pôde deixar de rir. Pior, ao vê-lo percebeu que realmente nunca conseguiria deixar de achá-lo engraçado.

– Ah, Yamcha, como você acha que esse filho foi feito?

– Mas... mas... – embora ele soubesse que a criança não poderia ser dele, seu cérebro se recusava a registrar a ideia que Bulma esperava um filho de outro.

– Acho que a pergunta que você quer fazer é "quem é o pai?". Certo?

– Exatamente – ele disse, mas já não tão certo se queria saber a resposta.

Ela o encarou, os olhos azuis o contemplando quase com pena. E antes que ela dissesse, ele soube.

– O pai é Vegeta – Ele disse e ela confirmou silenciosamente.

Ele caiu sentado novamente no sofá, meio que tentando processar tudo enquanto ela explicava:

– Eu e ele acabamos nos envolvendo...

– E onde ele está? Continua treinando? Vocês se casaram? – a torrente de perguntas saiu de uma vez, com ele mal disfarçando o rancor a cada palavra.

Bulma cruzou os braços e sentou-se de frente para ele, no outro sofá e disse:

– Eu acho que há mais um ano e meio deixei de te dever satisfações... – o olhar dela era desafiador – parece que você está sofrendo de uma perda de memória súbita e esqueceu em que circunstâncias aconteceu nossa última conversa...

Ele se acalmou. Não ia ajudar ficar inquirindo Bulma agora. Mas ele queria muito entender, embora já desconfiasse que isso poderia acontecer, como acabara perdendo Bulma para o Sayajin.

– Me perdoe – ele disse – eu estive fora muito tempo e agora que voltei achei que talvez... – ele a encarou – a verdade é que eu errei e queria que você me perdoasse... mas pelo visto...

– Yamcha, eu te considerei perdoado muito tempo atrás... só que descobri que não te amava mais. E segui em frente.

– Mas precisava seguir em frente logo com o Vegeta?

– Sinto muito. Aconteceu – ela deu de ombros – e eu realmente não sei nem mesmo se iremos continuar juntos.

– O que você quer dizer com isso?

Bulma suspirou. Era doloroso tocar nesse assunto:

– Ele foi embora, foi para outro planeta tentar se tornar super sayajin.

– E te abandonou grávida, aquele canalha?

– Eu não queria que ele soubesse, mas ele descobriu. E a verdade é que foi melhor assim. Eu não me perdoaria se ele ficasse aqui na Terra e não conseguisse chegar ao nível que espera e acabasse, sei lá, morto na tal luta com os androides...

– Faltam ainda um ano e dois meses para a data em que o rapaz disse que eles vão chegar, ele poderia muito bem treinar aqui.

– Ele treinou quase um ano e meio e não teve progresso algum, Yamcha.

– E por que ele achou que fora daqui conseguiria? Quem te garante que ele não fugiu de você?

– Você pode não acredtar, Yamcha... mas eu agora o conheço melhor que ninguém. Eu sei que ele vai voltar. Eu simplesmente sei. Você soube do grande furacão? Naquele dia ele quase conseguiu, treinou lá fora, sozinho na tempestade... e concluiu que só num ambiente muito hostil conseguiria atingir a transformação.

Yamcha observou Bulma, sentindo a mágoa crescer dentro dele. Ela estava defendendo Vegeta porque o amava de um jeito que jamais amara a ele.

– Você o ama?

– Acredito que sim – ela disse, com a voz firme.

– E ele, te ama?

Bulma hesitou. Depois de um pequeno tempo disse, simplesmente:

– Eu não sei. Mas ele parecia apaixonado por mim.

– Ora, quem não se apaixona por você? – ele disse de um jeito quase cômico. – Mas agora você espera um filho, e ele vai nascer sem pai, Bulma! Eu... eu não me importaria de ser o pai dessa criança, se você me quisesse novamente.

– Ah, Yamcha... não percebe como isso seria injusto contigo? O nosso tempo, o tempo em que ficamos juntos... passou. E eu escolhi ter esse filho, mesmo que sozinha.

– Você tomou tanto cuidado sempre... como isso aconteceu? Você sempre me dizia que não queria ser mãe antes da hora e...

– Verdade. Mas parece que a hora chegou.

– A hora... ou a pessoa. – ele a encarou, magoado. No fundo sabia que não podia exigir nada dela. Suas atitudes imaturas haviam empurrado a mulher que ele amava direto para os braços de outro. A ele, agora, só restava lamentar.

De repente, Bulma sorriu para ele:

– Ei, Yamcha... eu sempre vou lembrar de você com carinho. E eu tenho certeza que você vai achar muitas outras garotas que queiram ficar contigo...

– Não sei. Não sou mais um jogador de baseball famoso. Sou só um vagabundo desempregado, de novo.

Ela sorriu novamente.

– Nada que um telefonema do meu pai não resolva. A empresa patrocina muitos times, e, acredite, os Taitans ainda lamentam sua ausência. Nunca mais ganharam um único jogo.

Pela primeira vez, ele sorriu. Sempre a admiraria, para ele ela seria sempre a garota mais especial do mundo. E ainda queria ajuda-lo.

– Eu te agradeceria imensamente se você me ajudasse. – ele falou – a verdade é que eu quero muito voltar ao baseball.

Depois do primeiro momento a mágoa de Yamcha passou e ele conseguiu passar o resto da tarde conversando com Bulma, como grandes amigos que eram, no fundo. Falaram sobre muitas coisas, sobre os amigos, o treinamento dele, Bulma disse que a gravidez estava no sexto mês e ela estava ótima, não enjoara, os exames estavam maravilhosos. A mãe dela trouxe um lanche e os dois continuaram conversando até que ele perguntou:

– E você já sabe se é menino ou menina?

– Já. É um menino. Vou chama-lo de Trunks.

– Trunks?

– É. Pensei nesse nome.

Quando Yamcha voltou para sua casa, à noitinha, Pual perguntou:

– E Bulma?

– Ela está muito feliz sem mim, Pual.

O gato se encolheu entristecido e Yamcha acariciou as costas do amigo, pensando que o tempo era algo estranho, e que quando passava, não podia ser recuperado. O tempo dele com Bulma havia passado, era melhor agora se dedicar a outras coisas. Antes do fim daquela semana, ele estava de volta à liga de baseball, agora em outro time. No seu primeiro dia de treino, havia uma multidão de garotas para pedir autógrafo. Uma menina de olhos azuis se aproximou com uma antiga foto dele, muito brega, que ele havia tirado ainda no começo de sua carreira como jogador. Ele perguntou:

– Para quem eu dedico a foto?

– Tiffany – disse a menina, sorrido para ele. Parecia que um novo tempo havia começado.


Notas:

1. Desculpem aqueles que queriam saber mais sobre o romance Bulma + Vegeta. Queria dar um fecho decente para a história dela com Yamcha, e mostrar os dois seguindo em frente como pessoas adultas. Às vezes é difícil, crianças, mas acontece.

2. Eu GOSTO do Yamcha. Não tanto quanto gosto do Tenshin Han, por exemplo. Mas acho uma sacanagem quando o colocam como um cretino. Ele tem algum valor.

3. Já o Pual eu gostaria de afogar. Mentira, sou contra maus tratos aos animais (mas o Pual e o Oolong são os personagens mais malas desse desenho na minha humildezinha opinião...

4. A Tradução da música do capítulo:

"Pegue essas asas quebradas

e aprenda a voar novamente

e a viver tão livre"

Boa sorte, Yamucha!