"Srta. Granger, é você?"
Mione congelou, parada na ponta dos pés.
Droga.
Depois de várias horas caminhando, conversando, contando rosas silvestres e evitando perguntas sobre dois Ulrics, Mione, afinal, despediu-se das donzelas e dos Cavaleiros de Morânglia. Ela esperava poder voltar para o castelo sem que ninguém notasse. Mas o plano não deu certo.
Pelo menos não foi o duque que a pegou.
"Sim, Duncan?"
"O que é isso em suas mãos, Srta. Granger?"
Mione baixou os olhos para seu xale amarrotado e sujo. Ela estava carregando aquilo desde seu interlúdio com Harry naquela manhã.
Envergonhada, ela colocou a peça atrás de si.
"Oh, não é nada."
"É o seu xale?", ele perguntou.
O homem tinha um olho de atirador quando se tratava de roupa suja. Ela suspirou, colocando o xale para a frente outra vez.
"É. Eu... Como você pode ver, houve um pequeno acidente."
Céus. Como ela iria descrever o que tinha acontecido com aquele xale? Ela deveria tê-lo jogado no fosso. Não seria possível salvá-lo.
"Dê para mim."
O criado o tirou de sua mão. Ele examinou o tecido delicado e fino e estalou a língua.
"Terra... grama... minha nossa. Estas são manchas de sangue? Em bordado de seda?" Ela mordeu o lábio, rezando para que Duncan não ficasse bravo com ela pelo machucado recente do duque. Ou pior, para que ele não exigisse uma explicação completa de como aquilo tinha acontecido. "Srta. Granger, nem sei como dizer isto. É..." Ele sacudiu a cabeça. "Isto é maravilhoso."
"Maravilhoso?", ela se espantou.
"Sim." Ele agarrou o tecido com as duas mãos. "É para isso que um criado pessoal vive. Remover manchas impossíveis de tecidos de qualidade. Faz meses que não encaro um desafio desses. Preciso ir para a lavanderia, agora mesmo. Se deixarmos que as manchas se fixem por mais tempo, nunca vou conseguir tirá-las."
Achando aquilo divertido, Mione o seguiu até o quarto designado como lavanderia. Ele alimentou o fogo, pôs uma chaleira para ferver e pegou sabão, um ferro e tecidos.
"Estas manchas de grama vão ser as mais teimosas." Ele colocou o xale sobre uma bancada de trabalho e avaliou cada marca. "Suco de limão e um enxágue frio, primeiro. Se isso não funcionar, vamos tentar uma pasta de bicarbonato."
"Posso ajudar em alguma coisa?"
"Não, Srta. Granger." Ele pareceu um pouco horrorizado. "Você estragaria minha diversão. Mas é muito bem-vinda para me fazer companhia."
Mione pegou uma cadeira e assistiu a Duncan trabalhar, divertindo-se com a cuidadosa campanha para atacar as manchas. Primeiro ele as raspou com uma faca. Depois as esfregou com uma escova de cerdas macias. Só então ele pegou suas garrafinhas marrons de álcool e sais.
Ela sentiu como se estivesse vendo um médico trabalhar.
"Duncan, como foi que aconteceu? O acidente do duque."
O criado fez uma pausa no ato de aplicar vinagre em uma mancha de grama.
"Srta. Granger", ele disse, bem devagar, "nós já falamos disso. Um bom criado não fala do seu empregador."
"Eu sei. Eu sei e sinto muito por me intrometer, mas... agora eu também trabalho para ele. Não é isso que empregados fazem? Fofocas sobre seu patrão?"
Ele arqueou uma sobrancelha, um gesto silencioso de repreensão. Ela detestava parecer tão fútil e não queria quebrar sua palavra dada a Harry, revelando a dor de cabeça que ele sentiu na outra noite. Nem mencionar a carta que ele amassou e jogou na lareira.
"Eu só estou preocupada, só isso. O duque é tão..." Teimoso. Melancólico. Loucamente atraente. "Tão bravo. Com o mundo, parece, mas em especial comigo. Ele está sempre tão pronto a interpretar tudo da pior maneira possível, e eu acho que o problema não é só o ferimento dele. Eu gostaria de entendê-lo melhor."
Duncan parou de esfregar um pouco para cuidar da chaleira que assobiava.
"Srta. Granger, não seria digno, para um criado, contar histórias de seu empregador."
Mione aquiesceu. Ela estava decepcionada, mas não iria insistir mais. Afinal, ele estava salvando seu melhor xale.
"Mas", o homem de cabelo grisalho continuou, "como você é a Srta. Mione Granger e gosta tanto de uma história, talvez eu possa lhe contar uma sobre... um homem completamente diferente."
"Ah, sim." Ela se endireitou na cadeira, tentando não trair sua empolgação. "Um homem ficcional. Um que não tenha nada a ver com Potter. Eu adoraria ouvir uma história dessas." O criado lançou um olhar desconfiado ao redor deles. "Não vou contar para ninguém, eu juro", ela sussurrou. "Veja, eu mesma começo. Era uma vez um jovem nobre chamado... Bransom Fayne, Duque de Mothfairy."
"Mothfairy?", Duncan estranhou.
Ela deu de ombros.
"Você tem uma sugestão melhor?"
Ele apoiou a chaleira no fogão.
"Ele nunca pode saber disso."
"É claro que não", ela disse. "E como saberia? Esse homem de quem estamos falando não existe. Esta é a história de seu passado trágico. Em sua juventude, o inexistente Duque de Mothfairy..."
"Estava só. Muito só. Sua mãe tinha morrido no parto."
Ela aquiesceu. Até aí ela tinha ouvido do próprio duque.
"E seu pai poderia até ter morrido no mesmo dia. O velho duque se isolou do mundo para sofrer e passou a tratar o filho com muita frieza. Depois que esse 'Bransom' atingiu idade suficiente, ele começou a procurar... companhia." O rosto do criado se contorceu enquanto ele procurava as palavras. "Companhia feminina."
"Ele espalhou suas sementes por aí, você quer dizer."
"Plantações inteiras. Céus. Ele se tornou um semeador profissional."
Mione acreditava nisso. Ela tinha visto as contas.
"Mas aos 30 anos, ele finalmente se dispôs a cumprir a principal obrigação de seu título. Que é, claro, produzir o próximo Duque de..."
"Mothfairy", ela completou.
"Isso." Duncan pigarreou. "Ele escolheu a debutante mais disputada da temporada em Londres e declarou sua intenção de cortejá-la. Os dois logo ficaram noivos."
"Potter ficou noivo?", Mione ficou boquiaberta. Ela entendeu, então, porque ele entrou em pânico com a tolice que ela fez ao dizer a palavra "casamento".
"Não." Duncan lhe deu um olhar severo. "Bransom ficou noivo. O Duque Que Não Existe. Ele ficou noivo de uma jovem chamada Lady Gi..." Uma expressão de desespero passou por seu rosto. "Lady Giana."
"Lady Giana?" Mione riu por dentro. Duncan estava começando a entrar no espírito da coisa.
"Isso. Lady Giana Liverpail. Filha de um conde." O criado voltou ao trabalho. Ele destampou uma garrafinha cujo conteúdo cheirava limão. "Quando o noivado foi anunciado, os criados do duque – que sofriam há muito tempo – ficaram encantados. Alguns membros da equipe serviam a família há trinta anos sem uma duquesa. Eles estavam ansiosos por uma nova patroa."
"Incluindo o distinto e confiável criado pessoal dele?", ela arriscou. "Que por acaso se chamava... Dinkins?"
"Principalmente o criado distinto e confiável. Dinkins estava ansioso para remover os últimos resquícios de maquiagem das roupas do duque. Ruge é uma coisinha difícil de remover."
"Dá para imaginar." Mione imaginou o tipo de mulher que conseguiria afastar o duque de toda essa libertinagem. "Essa Lady Giana Liverpail... Como ela era?"
"Era, como se pode imaginar, uma debutante de sucesso. Linda, talentosa, com boas relações sociais. E jovem. Apenas 19 aninhos."
Mione reprimiu um suspiro de frustração. É claro. É claro que Lady Giana seria todas essas coisas.
"O que deu errado?", ela perguntou.
Duncan hesitou.
"Na história", Mione sugeriu. "Nessa fantasia completamente inventada que você está criando só para me entreter, porque sabe que eu adoro uma história de amor impossível."
"Tudo foi providenciado", ele disse. "Casamento, lua de mel, uma suíte ricamente decorada para a nova duquesa. E então, menos de quinze dias antes do dia do casamento, a noiva desapareceu."
"Desapareceu?"
"Sim. Ela desapareceu de seu próprio quarto no meio da noite."
Mione se inclinou para a frente, apoiando o queixo na mão. Aquela história começava a ficar bem emocionante. E parecia que Duncan estava gostando de, finalmente, ter uma chance de contá-la. Pobre homem, confinado naquele castelo há meses, vivendo um melodrama sem ter ninguém para quem contar. E sem ter manchas para tirar."
"Lady Giana", ele continuou, a voz derramando tensão dramática, "tinha fugido com um namorado."
"Fugido? Mas quem era esse namorado?"
"Um fazendeiro arrendatário da propriedade rural dos Liverpail. Parece que os dois escondiam seu romance há anos."
"Que escândalo. O que Pot..." Ela se sacudiu. "O que Mothfairy fez?"
"Nada de muito prudente. Ele deveria ter deixado aquela mocinha boba fugir e se arruinar. Desdenhar publicamente da educação dela para quem quer que perguntasse, fazer piadas sobre ter escapado por pouco de uma cilada, e então arrumar outra noiva na próxima temporada. Mas o orgulho dele não permitiu. Ele foi atrás do casal em uma perseguição furiosa."
"Sem o criado distinto e confiável?", Mione perguntou.
Duncan suspirou, irritado.
"Dinkins foi atrás dele, de carruagem. Infelizmente, Dinkins ficou mais de um dia para trás. E não teve tempo para evitar que a tragédia se desenrolasse."
Ela mordeu o lábio, já se encolhendo de medo.
"O duque caiu do cavalo?"
"Oh, não", respondeu Duncan. "Cerca de trinta quilômetros ao sul da fronteira escocesa, Mothfairy encontrou sua ex-futura-esposa com o amante em uma estalagem. Seguiu-se um confronto, espadas foram desembainhadas..." Ela estremeceu, como se pudesse sentir toda a extensão da cicatriz de Harry queimando sua pele, do couro cabeludo à maçã do rosto.
"Eu acho que posso imaginar o resto", ela disse.
"Você vai ter que imaginar. Não posso lhe dizer exatamente o que aconteceu. Eu não estava lá." Duncan deixou de lado todo o fingimento de estar contando uma história. Ele apoiou as duas mãos na bancada. "Quando eu o encontrei, ele estava há duas noites em um quartinho naquela maldita estalagem. Nenhum médico tinha sido chamado. O estalajadeiro estava simplesmente esperando que ele morresse. Eu mesmo tive que costurá-lo."
"Que horror", Mione exclamou. "E quanto à noiva fujona?"
"Já tinha partido. Coisinha fútil." Ele sacudiu a cabeça. "Ele não estava bem o bastante para viajar de volta a Londres, então eu o trouxe para cá. Faz mais de sete meses. Ele se recusa a partir e não me deixa nem mesmo executar meu dever como seu criado pessoal. A aparência dele está uma vergonha."
"Não sei se eu diria isso", Mione discordou. Ela gostava bastante da aparência bruta, malcuidada, do duque. E uma dúzia de donzelas suspirantes não podiam estar erradas.
"Mais da metade do tempo ele se recusa a usar uma gravata. É vergonhoso."
"Isso é verdade", ela concordou.
Ela concordava com isso. Os colarinhos abertos do duque tinham lhe causado muitos pensamentos vergonhosos. Duncan colocou o ferro de lado e levantou o xale imaculado para examiná-lo.
"Esta pequena tarefa preservou minha sanidade por mais um dia", ele disse. "Obrigado. Você não sabe como é insuportável passar a vida em uma profissão e então ser obrigado a abandoná-la."
Mione não respondeu, mas ela entendia aquele sentimento melhor do que Duncan podia imaginar. Quando seu pai morreu, seu trabalho morreu junto.
Duncan dobrou e lhe entregou o xale.
"Tenho estado tão desorientado que tenho recorrido a...", Duncan se interrompeu.
"O quê?"
"Eu nem sei. Esse é o problema, Srta. Granger. Eu já tentei meia dúzia de vícios diferentes e nenhum deles me satisfez. Charutos são repulsivos. Rapé não é muito melhor. Não tolero o gosto forte da bebida alcoólica e também não gosto de beber sozinho. O que sobra? Jogar? Com quem?"
"Imagino que restem as mulheres." Ela deu de ombros.
"Não serve", ele declarou. "Nesta casa, esse vício já tem dono."
Então Mione teve uma ideia. Ela enfiou a mão no bolso e entregou um punhado de doces para Duncan.
"Tente isso. Doces."
Ele olhou para a mão dela.
"Pode pegar", ela incentivou. "Você estará me fazendo um favor. As pessoas me dão estas coisas aos montes. Depois da minha manhã com as donzelas, tenho mais do que aguentaria." Ela apontou um dos doces. "Acho que este é damasco com mel."
Ele pegou o doce, desembrulhou e o colocou na boca. Enquanto mastigava, seus ombros relaxaram.
"Melhor?", ela perguntou.
"Melhor. Obrigado, Srta. Granger."
"É o mínimo que eu posso fazer." Ela deixou os outros doces sobre a bancada de trabalho. "Obrigada por salvar meu xale e por me contar a verdade. Quero dizer, não a verdade. Por me contar uma história fascinante."
Agora tudo fazia mais sentido para ela. Era natural que um homem, abandonado de forma tão insensível, e ainda quase morrendo em decorrência desse abandono, teria uma visão cáustica de amor e romance. Mas a verdadeira vítima dessa história era o orgulho dele, ou será que seu coração também tinha sido partido?
"Duncan?", ela começou.
"Hum?", ele murmurou, desembalando outro doce.
"Ele...?" Ela reuniu coragem para continuar. "Ele a amava?"
Nada de resposta.
Oh, droga.
Isso a ensinaria a não fazer uma pergunta delicada quando a pessoa acabou de enfiar um doce na boca. Duncan levantou a mão, pedindo um momento, enquanto mastigava.
Enquanto isso, as tripas de Mione se retorciam e formavam nós. Pior, ela teve tempo para se questionar. Por que importava se o duque tinha amado ou não sua noiva? Por que ela se importava tanto com isso? Não era como se ele fosse se casar com Mione.
Uma eternidade depois, Duncan engoliu o doce.
Mas ela teve a impressão de que esperou todo aquele tempo por nada.
"Eu não sei", foi só o que Duncan respondeu.
E depois de seculos... aqui estou eu de novo! Para compensar atualizei dois capítulos de uma vez e soubemos o que foi que aconteceu com Harry!
Li todos os comentários e não tenho palavras para mostrar o quanto adorei cada um deles e juro que na próxima atualização vou responder a todos como sempre faço, mas se eu for responder agora não iria conseguir atualizar ainda essa noite e acho que vocês preferem capítulos novos, estou certa? Muito muito muito obrigada por todo o apoio :D
