Capítulo 14: Primeiros Problemas

Éramos apenas os dois naquele ateliê e Hyoga estava em meus braços. Havíamos acabado de entrar em um estranho acordo, que ia contra muitas de nossas crenças e ideologias. Sabíamos disso muito bem e meu lado racional dizia que eu deveria me sentir mal diante do que iniciávamos ali. Porém, eu não conseguia. Estava me sentindo inebriado por uma sensação gostosa demais, acalentadora, revigorante... Eu me sentia bem demais para ser capaz de forçar-me a me sentir mal.

Então, pato…– Eu começo a falar, afastando-me um pouco dele para poder apreciar aquele rosto que agora eu poderia adorar sem reservas. – Se nós vamos ser amantes... O que fazemos agora? – Eu falo com um sorriso charmoso.

Agora, nós pintamos o ateliê do seu irmão, antes que alguém apareça aqui pra fiscalizar o serviço...– sorrio. – Mas antes, eu adoraria ser beijado, sabia? – Sei que devo me sentir um lixo, pelo que estamos fazendo, mas não consigo deixar de sorrir. Ikki me faz bem, me traz uma paz de espírito que jamais senti com qualquer pessoa. Como isso poderia estar errado?

Você quer um beijo meu? – Respondo com um sorriso ainda mais sedutor. – Vai ter que merecer...– Eu aproximo muito meu rosto do dele, quase roçando meus lábios em sua boca, mas então me afasto rápido, rindo de leve. Vejo como Hyoga faz uma breve expressão de criança que perdeu o doce e acabo rindo um pouco mais alto. – Eu adoro arrancar essas expressões de você...– Trago o meu loiro, pela cintura, para junto de mim, de forma algo possessiva. Mergulho dentro daqueles olhos cor de céu e sorrio novamente, mas, dessa vez, um sorriso singelo. E então, eu o beijo com calma, como se soubesse que, a partir de agora, eu não precisasse mais ter pressa.

Há algum tempo, eu nunca me imaginaria sozinho numa sala com Ikki, sendo beijado por ele. É a melhor sensação do mundo, posso dizer. Com sua língua invadindo minha boca com uma suavidade que eu julgava inexistente nele, eu me sinto flutuar. Perco a capacidade de raciocínio e a única coisa que me importa é Ikki, com suas mãos passeando por minhas costas, seu corpo colado ao meu e sua boca cobrindo a minha. – Eu gosto de como você me beija...– sussurro, depois que quebramos o beijo.

Faço um carinho suave nos cabelos dourados de Hyoga, percebendo como cada toque meu nele é sempre delicado. É engraçado; eu o trato como se ele fosse feito de algum material raro, frágil... – E eu gosto de beijar você. Então, acho que funcionamos bem, juntos. – Percebo que aquele momento está começando a se intensificar e, se continuar assim, eu vou encontrar sérias dificuldades para discernir o que é adequado ou não de se fazer nesse momento. Por isso, separo-me dele, passando a mão pela nuca, como quem busca se acalmar e me ajoelho perto das latas de tinta, tomando um dos pincéis em minha mão: – É melhor começar logo com isso, senão daqui a pouco...– Eu falo, olhando para o russo, convidando-o a se juntar a mim. E não termino a frase, porque acho que o simples ato de dizer o que eu preferia estar fazendo com ele, já me faria perder a razão naquele momento.

É, você tem razão. Sei exatamente o que vai acontecer se não nos distrairmos com outra coisa.– suspiro, pegando outro pincel e me juntando a ele. Segundos depois que começamos a pintar, Shiryu aparece na porta, carregando duas cervejas e um pratinho com aperitivos. – Então, já é seguro entrar aqui? Vocês já se resolveram?– ele pergunta, num tom divertido.

Volto meu olhar para o Dragão e me surpreendo ao ver que consigo abrir um sorriso sem grandes esforços: – Tudo resolvido.– Limito-me em responder e lanço um olhar divertido para Hyoga. – Foi até bastante fácil de resolver. Basicamente, o pato só teve que aceitar que eu estou sempre certo e ele, sempre errado... aí tudo entrou nos eixos.– Eu brinco, provocando-o de forma aleatória. Em parte, para que ninguém desconfiasse de algo, afinal, isso que eu e o loiro tínhamos devia ser mantido em segredo. Mas, por outro lado, porque eu gostava de provocar o russo, mesmo sem motivo algum para fazê-lo.

Você sempre certo, Ikki? Nos seus sonhos, talvez.– retruco, aceitando a cerveja de Shiryu e tomando um grande gole. O Dragão nos olha de forma curiosa, mas sorri e nos deixa sozinhos novamente. Pintamos em silêncio por um tempo, até eu perceber que estava prestes a sujar minha camisa favorita. Retirei-a imediatamente, guardei em um cantinho e voltei a realizar minha tarefa. – Então, como vão as coisas com a Esmeralda? – pergunto como quem não quer nada.

A pergunta me faz olhar para trás, porque pintávamos paredes diferentes. Quando vejo que Hyoga tirou sua camisa, eu esqueço um pouco do que ia falar. Mas sacudo a cabeça, lembrando que essa não era a hora e nem o momento, e que eu não precisava agir como se estivesse desesperado; não mais. – A Esmeralda?– volto a me concentrar na pintura. – Vai bem. Ela tinha entendido meio errado o que aconteceu naquele domingo e me ligou bastante nesse último mês. Eu retornei de volta uma vez, explicando que estava ocupado e tentando ver se ela entendia que havia se enganado...– Respondo com naturalidade.

Não querendo ser maldoso, mas vai ser difícil ela entender... Acho que nem se você usasse uma camiseta escrito: "Esmeralda, não estou a fim de você", ela entenderia.– eu ri, mais por certo ciúme do que por considerar a moça uma tapada. Tomo mais um gole de minha cerveja, um pouco afobado pelo riso, e deixo escapar um pouco da garrafa. O líquido escorre pelo meu peito, o que me deixa totalmente sem-graça por me revelar um desastrado.

Não fale assim dela, Hyoga.– Respondo, enquanto dou algumas pinceladas que faltam para cobrir uma parte. – A Esmeralda já sofreu muito por minha causa. Ela é uma pessoa ótima e merece encontrar alguém que a faça feliz.– Finalmente, volto-me para trás a fim de pegar minha cerveja, para beber um gole como recompensa pelo pedaço que eu havia terminado. Porém, a cena que tenho diante de mim é desconcertante e me impede de completar minha ação. O russo, além de estar sem sua camisa, tinha agora um pouco de cerveja escorrendo por seu peito nu, enquanto com a costa da mão, ele limpava o queixo, de uma forma incrivelmente sexy.

Desculpe, não falo mais assim.– respondo, enquanto olho em volta a procura de algo para secar meu peito. Então, meu olhar para em Ikki, que me encara estranhamente. - O que foi?– pergunto.

O que foi? E você ainda pergunta?– Começo a me aproximar dele, como um felino que cerca sua presa. - Quantas vezes eu vou ter de dizer, pato?– Retiro da mão dele a garrafa que ele ainda segurava e me abaixo para colocá-la no chão. Entretanto, ao me levantar, deixo que minha boca se cole àquele peito tentador, lambendo e chupando o rastro da cerveja nele, subindo para o pescoço até o queixo, no qual termino dando uma mordida de leve. Só então me afasto e sorrio para o loiro: – Não brinca com fogo...

Surpreendo-me diante de sua atitude inesperada. Mas não demoro a me recuperar do choque e logo estou beijando sua boca, dessa vez sem calma alguma. Agarro-me a Ikki com vontade, totalmente descontrolado. Por um instante, não me interessa onde estamos, o desejo fala mais alto.

Apesar de ter provocado, eu me assustei momentaneamente com o beijo do russo, mas o susto passou muito rápido e logo a calma e a falta de pressa que eu julgava que prevaleceriam em nossa relação a partir de agora me pareciam o maior absurdo sobre a face da Terra. Acabo me atracando a Hyoga, devolvendo o beijo desesperado, demonstrando a urgência de um mês inteiro. Talvez por conta disso, esse beijo mais parecesse uma luta enfurecida e nossos corpos caminhavam desgovernadamente pelo cômodo, o que nos fez derrubar as latas de tintas e uma escada que estava aberta, para pintar mais em cima. O barulho foi alto e, antes que pudéssemos reagir apropriadamente, Shun escancara a porta, de supetão, e nos vê com os braços um sobre o outro, num beijo recém-partido que muito bem poderia parecer uma briga recém-iniciada: – Ah, não. Não acredito que já estejam brigando de novo! – Shun fala demonstrando em sua expressão e seu tom de voz o quanto ele estava chateado. - Shiryu, você não tinha dito que estava tudo bem aqui? – Ele fala virando-se para o Dragão, que apareceu logo atrás do meu irmão.

Imediatamente, empurrei Ikki e comecei a gritar xingamentos para ele, tomando o cuidado de fazer algum sinal para que entendesse que deveria participar do show. Nossa atuação foi perfeita, já que Shun e Shiryu trataram logo de nos separar, enquanto nos debatíamos em seus agarres, com a falsa intenção de nos agredirmos. Não queria que as coisas chegassem a esse ponto, mas não podíamos revelar nada a ninguém, e não tínhamos outra alternativa.

Muito bem, agora chega!– Eu escuto meu irmão falar enquanto finjo que tento me desvencilhar dos braços de Shiryu, que visam me impedir de partir para cima de Hyoga nesse teatro que ele deu início. Não gostei de ter que agir assim, mas não havia outra saída. – Eu tentei te dar o espaço que você me pediu, Ikki! Deixei que viesse aqui conversar com o Hyoga!– Shun fala, posicionando-se em frente ao russo, como se servisse de barreira humana a fim de impedir que o loiro se aproximasse de mim. – Mas, pelo visto, você não conseguiu resolver as coisas ao seu modo. Pois agora, vamos fazer do meu jeito! – Meu irmão parece tão nervoso agora que mal o reconheço. - Eu não quero que essas brigas de vocês estraguem a minha festa, então agora vocês dois virão com a gente para a sala e vão pintar junto com todo mundo, bem longe um do outro, para não ter mais problema! Entenderam?– Shun olhava de mim para Hyoga, questionando-nos com uma expressão bastante séria em seu rosto.

Por alguma razão, eu mal conseguia controlar a vontade de rir. Sei que estava enganando meus amigos, mas eu nunca tinha visto o Shun tão sério. Respirei fundo e parei de me debater. – Ok, Shun. Faremos como você quiser.– aceito, sem disfarçar a leve frustração em minha voz. Se eles soubessem o que realmente haviam interrompido...

Eu nem tenho tempo de responder, porque quando vejo, Shiryu já vai me encaminhando para o corredor. O Dragão parece mais sério que o normal também. Pelo visto, a minha suposta briga com Hyoga havia irritado bastante não só o meu irmão. - Foi mal, cara.– Acabo dizendo, sentindo que Shiryu talvez tenha se chateado por pensar que eu pudesse ter mentido naquela hora, quando disse que estava tudo bem. - Tava tudo numa boa, mas aí o pato provocou. Foi ele quem começou... – Não minto. A culpa é toda de Hyoga. Quem mandou ele derramar cerveja naquele peito delicioso?

Assim que Shiryu e Ikki deixam o ateliê, eu me preparo para segui-los, mas Shun segura em meu braço, impedindo-me de deixar o cômodo. – Oga, o que está acontecendo? Vocês nunca extrapolaram assim!– ele me pergunta e não sei onde enfiar a minha cara, de tão embaraçado que fico.

Vai ficar tudo bem, Shun. Foi só uma briguinha boba, depois me acerto com seu irmão.– tento justificar, enquanto busco caminhar para fora do ateliê, louco para sair dali, já que detesto mentir para Andrômeda.

Pensei que era exatamente isto que vocês fariam aqui dentro. - ele diz, com um olhar de repreensão.

Shun, você sabe como eu e seu irmão somos. Resolvemos tudo e estávamos conseguindo nos controlar, até que eu o provoquei novamente e recomeçamos tudo de novo...– de certa forma, sei que não menti.

Está bem, Hyoga. Você promete que vão se controlar agora? Por favor, é a primeira festa que dou aqui, ficaria mal se vocês dois arruinassem tudo.– concordo com o que ele diz apenas com um aceno de cabeça e logo caminhamos para a sala, juntando-nos ao outro grupo.

Cheguei à sala com Shiryu e percebi que havia já uma sujeira considerável no local. Aliás, olhando bem, parecia haver mais tinta sobre os jornais que cobriam o chão que nas paredes propriamente. Os amigos de Shun e alguns antigos conhecidos nossos pareciam divertir-se bastante pintando uns aos outros, em um clima bem descontraído.

Aqui. – Shiryu falou em um tom seco, enquanto me entregava um pincel. – E tente ajudar, dessa vez. – Olhei para ele, com minha cara de quem manda a pessoa cuidar da própria vida. – Shun queria muito que você estivesse aqui hoje, mas não para estragar a festa dele. – O chinês disse ainda, antes de se retirar, diante do meu olhar cada vez mais rude.

Peguei então o pincel e comecei minha tarefa. Afastado dos demais, eu passei a pintar a parede – e parecia ser realmente o único que fazia isso por lá. Mas não me importava, nunca liguei de ficar isolado no meu canto. Só me incomodava o fato de Hyoga estar demorando a aparecer. Pintava, mas meus olhos estavam sempre atentos ao corredor, de onde eu esperava ver o russo surgir.

Quando eu e Shun entramos na sala, eu finalmente compreendi que o propósito da festa não era tão ruim assim. Todos pareciam se divertir muito, com exceção de Ikki, que estava isolado num canto. Esbocei um sorriso discreto quando o vi e logo peguei um pincel para me juntar aos amigos de Shun. Não pude evitar e acabei entrando na brincadeira também, já que toda aquela guerra de tinta estava muito divertida.

Assim que vejo Hyoga entrando, sorrio um pouco porque a simples imagem desse loiro me arranca sorrisos que eu não consigo evitar. Então, observo como rapidamente o Cisne se junta ao grupo baderneiro e, em meio a risos e brincadeiras, ele começa a pintar a parede. Bom, na verdade, isso não dura muito, porque logo um dos amigos de Shun resolve bancar o engraçadinho e dá uma pincelada nas costas do "meu" loiro. Está bem; todos ali estão se pintando, mas eu não gostei nem um pouco do modo como aquele idiota agiu, e menos ainda do sorriso que ele deu para o "meu" russo depois que Hyoga se voltou para ver quem o tinha pintado de surpresa. Eu bufo e tento me concentrar na parede que estou pintando. Lembro o que Shiryu disse. Não posso estragar a festa do meu irmão...

Apesar de notar o quanto Ikki está contrariado, permaneço no mesmo lugar. Não posso me aproximar dele agora, por mais que sinta essa vontade. – Hey, isto não vale! Como vou tirar a tinta das costas depois? – reclamei com o amigo de Shun que me pintou. - Eu posso te ajudar na hora do banho, se quiser.– ele responde, deixando-me completamente sem-graça e corado. Afastei-me discretamente, dançando ao som da música alta que tocava no apartamento. Não que eu não esteja acostumado a cantadas do tipo, mas não queria ter passado por essa situação diante de Ikki. Fui para outro canto, e só então voltei a brincar novamente, desta vez seguro de que não haveria mais qualquer constrangimento.

Tive que respirar fundo. Duas, três, quatro vezes. Não posso estragar a festa do Shun, eu fico repetindo pra mim mesmo. Mas o meu irmão bem que podia arranjar uns amigos menos imbecis... Tentei fixar meus olhos na parede, a fim de não ver mais o que estava quase me fazendo perder as estribeiras. Até porque, ao menos, Hyoga havia se afastado do cara sem-noção que tinha passado dos limites com ele. Mas então... Eu vi como o imbecil, ainda mais sem-noção, acabou indo atrás do "meu" loiro. Que droga, pato! Tem que ficar dançando desse jeito? Tá passando todos os sinais errados pro retardado, que não é capaz de perceber que está incomodando. E, se continuar assim, alguém vai ter que ensinar a esse idiota qual o lugar dele!

Sacudo a cabeça. Acalme-se, Ikki... tento repetir para mim mesmo, pela milésima vez. E só então percebo que estou pincelando uma mesma parte obsessivamente. Droga. Estraguei esse pedaço. Vou ter que buscar um removedor para consertar essa parte. Contrariado, eu me levanto a fim de buscar o que preciso para arrumar aquilo e vou até um outro canto da sala, um pouco mais perto de onde Hyoga está.

Fiquei indiferente ante a presença do amigo de Shun, mas ele não pareceu notar isto. Continuava pincelando minhas costas, procurando me irritar para conseguir alguma atenção. – Quantos anos você tem? Dez? Não está crescidinho demais pra este tipo de brincadeira? – perguntei entre dentes, mas não querendo ser grosseiro demais em respeito ao Shun. – Acompanhe-me até o banheiro, que eu te mostro o quanto posso ser crescidinho... – retrucou ele, acariciando minha barriga. Olhei imediatamente para Ikki, torcendo para que ele não tivesse escutado isto e temendo pela reação que viria.

Eu não estava perto o suficiente para ouvir exatamente o que falavam, mas estava me dando nos nervos aquela brincadeira que não tinha a menor graça para mim. E tudo piorou de vez quando eu vi aquele cara passar a mão na barriga do Hyoga. Meus olhos encheram-se de fúria e eu não pude mais me conter:

Agora chega! – Acabei falando alto, sem me controlar. E só então me dei conta do que tinha acabado de fazer. Todo mundo naquela sala estava olhando para mim, sem entender. Shun me encarava completamente atônito, sem a mínima ideia do que eu quis dizer com aquilo. – Eu... – Meus olhos passaram por todas as pessoas naquele cômodo, que me interrogavam a respeito daquela frase. E então meus olhos pousaram sobre Hyoga e aquele cara que continuava perto dele. Perto demais. Olhei para o idiota de forma intimidante e as palavras surgiram naturalmente: – Acho que agora já chega de toda essa bagunça. Eu vim ajudar o meu irmão a pintar o apartamento, mas parece que eu sou a única pessoa aqui fazendo isso. Que ótimo que vocês estão se divertindo e tem tempo de sobra para ficar brincando, mas eu tenho muito serviço pendente. Se for pra continuar desse jeito, eu não vejo porque continuar aqui numa coisa que já perdeu seu objetivo de vista. – Eu falo, muito sério.

Ikki, mas... o propósito da festa era que as pessoas se divertissem. – Percebo que Shun ficou um pouco constrangido. Mas não me sinto mal. Eu até consegui agir de forma razoavelmente educada, considerando que a minha vontade mesmo era de dar uma lição no amiguinho sem limites do meu irmão...

Deixa, Shun. – E não é que o imbecil resolveu se manifestar? E me encarando como quem não sabe com quem está lidando. – Seu irmão é um estraga-prazeres mesmo. Se ele tem tanto trabalho a fazer, deixa ele ir. Não precisamos dele aqui para continuarmos a festa, que estava tão divertida até agora. – É um idiota mesmo. Não tem noção de que está provocando a última pessoa nesse mundo com quem ele deveria mexer. – Vamos continuar. Estava tão legal, não é? – Ele finaliza, já se virando para o "meu" russo, dando agora uma pincelada no queixo dele. – Opa, sujou aqui... – Todo sorridente, ele leva a mão ao queixo do Hyoga, como quem quer limpar, mas fazendo uma carícia nele.

Era o meu limite. Caminhei até o cara, com fogo queimando nos meus olhos, dei um empurrão nele, jogando-o contra a parede e o prendendo com a minha mão em seu pescoço, imobilizando-o assim: – Repete o que você acabou de falar, idiota. – Apertei a mão com mais força contra ele: – Anda, repete! Não estou conseguindo ouvir! – Em meu rosto havia um misto de ódio e sadismo, ao ver o desespero do cara que agora tinha perdido todo aquele ar de dono da situação, o que me deixou bem satisfeito.

Eu, Shun e Shiryu corremos para conter Ikki. Enquanto os dois se esforçavam para soltar a mão de Fênix do pescoço do amigo de Shun, eu abracei Ikki por trás e espalmei minhas mãos no peito dele. Em meio aos gritos e o burburinho que havia na sala, sussurrei em seu ouvido. - Solta ele, frango. Deixa isso pra lá, é só um idiota inconveniente que não sabe respeitar limites. Acalme-se e deixe-o ir, por favor.– implorei.

Estava com os olhos vidrados naquele cara e parecia hipnotizado naquele momento. Minha adrenalina tinha subido à estratosfera; tinha muito tempo que eu não batia de frente assim com alguém. Eu ouvia o barulho ao meu redor, as pessoas gritando que eu soltasse o amigo do Shun, mas eu parecia perdido naquela situação, que me trazia de volta uma sensação que há muito tempo eu não sentia. Por isso, não me movia, não reagia à comoção ao meu redor. Não sei quanto tempo eu me perdi nessas sensações sombrias dentro de mim; só sei que quando senti um calor conhecido me envolver, eu finalmente despertei. Hyoga falava comigo e eu, só então, voltei a mim. Liberei o pescoço dele e dei alguns passos para trás, sentindo-me puxado suavemente pelo russo. No mesmo instante, Shun foi ver como estava o amigo dele, que tossia com a mão massageando o pescoço onde antes eu o segurava. Shiryu auxiliava meu irmão, enquanto os outros convidados rapidamente formaram uma barreira humana em torno deles, querendo ver se o cara estava bem.

Então olhei para Hyoga e quis dizer algo a ele, mas não pude. Seiya apareceu nesse exato momento, interrompendo: – Pô, Ikki! Tenta se controlar mais da próxima vez! É a festa do Shun, custa você ser um pouco mais simpático? Ou menos chato? – o burro alado fala comigo com os olhos cheios de reprovação. – Vem, Hyoga. Vamos ali ficar com o pessoal, senão daqui a pouco o Ikki resolve começar a encrencar com você também. De novo. – Ele enfatizou o "de novo", recordando-me que já era a segunda vez que eu causava algum tumulto na Paint Party de Shun. Olhei nos olhos de Hyoga e vi que ele não tinha muita escolha, a não ser acompanhar o Seiya. Afinal, o que ele poderia fazer? Felizmente, ninguém tinha percebido algo diferente entre nós dois, apesar do barraco que eu aprontei.

Aliás... Felizmente? Parecia que a ficha começava a cair. Se eu e Hyoga seríamos amantes, teríamos que esconder isso de todos. Isso significava não ficar juntos na frente dos outros. Significava ver outros caras dando em cima dele sem poder fazer nada. Significava tantas coisas que eu já não me sentia capaz de assimilar...

Aproveitei a deixa. Seiya puxou Hyoga e, enquanto a bagunça estava instaurada, eu poderia sair sem chamar a atenção nem ter que me despedir de qualquer pessoa. Com o Shun, eu me entenderia depois. Então, fui até a porta e sem olhar para Hyoga novamente, peguei minha jaqueta jeans e saí. Precisava colocar algumas ideias em ordem na minha cabeça...

Depois da saída de Ikki, a festa esfriou consideravelmente. Ficou um clima péssimo, principalmente por conta da tristeza de Shun. Porém, Seiya e suas brincadeiras não deixaram a festa morrer, e logo todos estavam se divertindo novamente. Isolei-me um pouco, depois disso. A culpa pela falta de controle do Ikki foi toda minha e não conseguia parar de pensar nisso. Estava atento em minha pintura quando o inconveniente amigo de Shun se aproxima. – E então, loirinho, o que vai ser? A oferta ainda está de pé. Quer ir ao banheiro brincar um pouquinho?– Desta vez, eu não deixaria barato. Não depois da situação que ele causou. – Escuta aqui, idiota. Eu não sei em que mundo fantasioso você vive, mas está na hora de cair na real. Eu não estou interessado! Estou comprometido e, mesmo se não estivesse, você não faz meu tipo! Agora, se você puder me deixar em paz, eu agradeço.– apesar da grosseria, procurei falar o mais baixo possível, para não magoar Shun ainda mais.

Incomodado e preocupado como estava, não demorei muito a criar uma boa desculpa para ir embora da festa. Assim que pisei fora do prédio onde Shun mora, retirei meu celular do bolso da calça e liguei para Ikki.

Eu estava em um bar, que fica próximo ao meu prédio. Quando estou a fim de beber sem limites, esse é o lugar para onde gosto de vir. Aqui, posso beber até não poder mais e voltar a pé para casa, sem necessitar de alguém para me buscar. Nunca gostei de necessitar de outras pessoas. Por isso, nem mesmo Shun sabia desse meu refúgio. Viro mais um copo de uísque barato e percebo meu celular vibrando. Retiro-o do bolso e vejo que é uma ligação do Hyoga. Por um instante, quis fazer o mesmo que vim fazendo durante o último mês e ignorar essa chamada. Porém, me lembrei que tão logo deixei o edifício do Shun, eu liguei meu celular. No fundo, esperava que ele ligasse, queria que ele me encontrasse. E, depois de tudo o que conversamos, eu não poderia agir de forma covarde agora. Respiro profundamente e atendo o aparelho: – Oi, Hyoga.– Eu falo sem muito ânimo, enquanto agradeço com os olhos ao barman que enchia meu copo outra vez.

Eu sinto muito, Ikki. Você está bem?– o desânimo na voz dele me deixa apreensivo.

Estou.– Respondo de forma mecânica. – Ainda está na festa do Shun? – Pergunto, sem pensar, e me descubro enciumado com a simples possibilidade daquele cara estar perto dele.

Não, acabei de sair. Estava pensando se posso te fazer companhia...

Hesito um pouco antes de responder. Eu não queria que ele me visse ali, naquele lugar. Mas também não tinha a mínima vontade de sair. Não antes de me ver entorpecido o bastante. – Você não tem que ir ver seu namorado?– Acabo soltando e me dando conta de que minha língua já não estava muito controlada.

Por um instante, a pergunta dele me deixou sem reação. O que ele queria dizer? Estava arrependido da nossa decisão? – Não, eu não tenho. Eu quero te ver, posso?

Solto um suspiro, talvez audível até demais. – Claro. Eu estou num bar que fica a uma quadra do meu prédio. Chama-se Hook's.– Acabo revelando e me lixando para o que o russo possa vir a pensar disso. Apenas começava a escurecer e eu já estava em um bar. E daí? Por acaso, se eu fizesse a imagem de bom moço, ele escolheria ficar comigo e abandonaria o Isaac? Não. Então, que se dane.

Pra mim, ficou bastante claro que ele não queria minha companhia. Sei que deveria respeitar a vontade dele, mas não faria isto. Se respeitasse o isolamento de Ikki agora, jamais conseguiria entrar em sua vida da forma que quero. – Eu te encontro aí, então.– desliguei o telefone, caminhei até meu carro e parti para o tal de Hook's.

Não demorei nem quinze minutos para chegar até o bar e, logo que entrei, avistei Ikki no balcão, segurando um copo de uísque. Sentei-me ao seu lado e sorri, mesmo que não sentisse tanta vontade assim de fazê-lo. Alguma coisa estava errada e a tensão já estava me deixando apavorado. – Sei que já te perguntei isso, mas... Você está bem?

Eu já respondi que sim.– Respondi, não tão rude, mas definitivamente nada simpático. E mantinha meu olhar preso ao televisor, no qual passava algum jogo de futebol que, na realidade, eu não estava assistindo. – Você não precisava ter vindo.– Eu falo e então viro o copo, para logo fazer um gesto pedindo que viessem enchê-lo novamente.

Eu não esperava essa recepção. Porém, por mais que tentasse, Ikki não me afastaria tão facilmente. – Como eu disse, vim porque queria te ver...– pedi uma cerveja ao garçom e me acomodei melhor na cadeira, voltando minha atenção para a TV. – Quem está jogando?– tentei puxar conversa.

Não faço ideia.– Respondo sinceramente e finalmente olho para ele. – Hyoga, por que está aqui, sendo simpático comigo? Eu acabei de ser um completo cretino lá na festa do meu irmão. Você não viu? – Quis completar que também estava sendo um cretino agora, falando tão friamente com ele. Ainda assim, ele continuava ali, insistindo, mas sem bater de frente comigo. Por que esse russo não se intimida nunca comigo? Por que ele continua vindo atrás, mesmo quando eu o trato assim? Por que ele faz isso e por que eu espero sempre que ele faça isso mesmo?...

Você teve suas razões pra agir daquela forma. Ao contrário do que o seu irmão e todos os outros estão pensando, você não explodiu com ele por causa de um simples comentário. Ele te provocou de outras maneiras, nós dois sabemos disso. – expliquei sem mencionar a palavra "ciúme". – Olha, provavelmente eu faria a mesma coisa, se a situação fosse contrária.– segurei a mão dele sobre o balcão e olhei em seus olhos. - Tá, não acho que eu tentaria sufocar o sujeito, mas seria difícil não distribuir alguns socos por aí. Então, não se culpe tanto. – sorri. Olhei a minha volta, examinando o bar. – Então, você vem sempre aqui?

Isso ficou parecendo uma cantada barata, pato.– Acabei rindo um pouco. Então olhei também ao redor, como se analisasse aquele lugar. – Venho sempre que preciso colocar a cabeça em ordem. Tem horas em que começo a pensar tanta coisa de uma vez só que preciso parar pra beber um pouco. Isso ajuda a esvaziar a cabeça.– Rio de canto. – A melhor forma de começar a ordenar as ideias é esvaziando a mente, concorda? – Solto minha mão da dele e passo a ficar brincando com o copo em minhas mãos, com os olhos fixos no líquido dourado que balança dentro do vidro.

E o que está incomodando você? Não diga que é o incidente na festa do Shun, porque eu sei que não é só isso.– tomei minha cerveja, olhando fixamente para Ikki.

E você ainda pergunta?– Falo com algum sarcasmo. – Hyoga, eu não gostei do modo como agi na casa do meu irmão. – Volto a olhar para ele e percebo como aqueles olhos claros parecem incrustados em mim. - Eu demorei muito para conseguir me reerguer e deixar de ser aquela pessoa em que eu tinha me transformado quando voltei da Ilha da Rainha da Morte. Mas o que aconteceu lá no apartamento do Shun...– Solto uma grande quantidade de ar pela boca, como se buscasse forças assim. – Ser seu amante não implica só poder estar com você, Hyoga. Se fosse só isso, eu não teria do que reclamar. No entanto, eu... – Deslizo minha mão pelos meus cabelos até a nuca. – Eu acabei de perceber que esse negócio de manter tudo em segredo... ter de fingir que estamos constantemente brigando... ter de fingir que não me importo se algum cara der em cima de você... ter de fingir que não me importo com o fato de você estar com Isaac...– Desvio meus olhos dos dele depois dessa última frase e volto a olhar para o televisor, enquanto termino meu uísque. – Ter de guardar todos os sentimentos nocivos que eu sei que vou sentir dentro de mim não vai me fazer bem. Eu reconheci o resultado disso. E eu não posso voltar a ser uma pessoa daquele tipo, Hyoga. Não posso me dar ao luxo de ficar perdendo o controle assim, porque eu tenho medo de não conseguir recuperá-lo depois.– Falo com os olhos presos à TV.

E o que você quer dizer com isso? Você não quer mais ficar comigo, é isso? – mordo meu lábio inferior, sem saber exatamente o que dizer para convencê-lo a não voltar atrás. De forma alguma eu poderia forçá-lo a permanecer numa situação que fazia mal a ele. Eu jamais me permitiria fazer mal a Ikki.

Não tiro os olhos do televisor, mas me pergunto interiormente o que ele acabou de dizer. Eu não quero mais ficar com ele? - Não estou acostumado a ser o outro, pato...– Falo, ainda sem encará-lo. - Eu sou possessivo, você viu. E se quando eu quiser ficar com você, em algum momento, você não puder vir porque está com o Isaac? Já parou pra pensar nessas situações? Porque, se formos amantes, essas coisas vão acontecer.

Eu não posso deixá-lo agora, Ikki. Isaac não suportaria, eu já te disse isto. Você tem razão, não será fácil para nós dois. Situações como essa de hoje e muitas outras ocorrerão e teremos que lidar com elas.– acariciei a boca da garrafa vazia, negando-me a olhá-lo. – Se você acha que não vale a pena, eu não vou insistir. A última coisa que quero é te prender a mim, numa situação que seja desconfortável para você. Queria te trazer felicidade, Ikki, não problemas. Talvez... A amizade seja a melhor solução pra gente. Não é como se fôssemos dois animais, incapazes de controlar nossos instintos.– o que saía de minha boca, não é o mesmo que estava em minha mente, muito menos no meu coração. Mas eu não podia trazer chateações a Ikki, meu objetivo era justamente o contrário e, já que não conseguiria cumprir meu intento, provavelmente era melhor retirar meu time de campo. Passei a mão pelos meus cabelos, prendendo a franja atrás da orelha. Respirei profundamente e olhei para Ikki, aguardando seu veredito.

É, o Isaac tem de ser a prioridade.– Silenciei por alguns segundos. - Nossa amizade já é boa o bastante, não é mesmo?– Eu pergunto, como se buscasse a confirmação para algo em que eu mesmo não acredito. E ainda não consigo olhar diretamente para ele. Mas, com o canto dos olhos, vejo seu reflexo no espelho que fica atrás das prateleiras em que ficam variadas e coloridas garrafas. Vejo como ele mexe em seus cabelos e eu mesmo já me sinto tentado a envolvê-lo nos meus braços e deslizar meus dedos por esses cabelos. Porém, eu preciso me conter. Isso é importante. – Não é só por mim. Você não ia ficar bem numa situação dessas, Hyoga. Já imaginou? De repente, você está lá no meu apartamento, comigo, seu telefone toca e o Isaac te chama dizendo que precisa de você. Você teria que sair correndo, ia ser estressante demais... Sua vida ficaria muito complicada... Não acha? – Termino criando coragem para encará-lo. Era como se eu precisasse olhar para ele, para ver qual seria sua resposta.

É, acho que você tem razão.– concluo, louco para sair correndo dali e permitir que o choro que se acumula em minha garganta finalmente se liberte. – Você vai continuar me ignorando, daqui pra frente? Ou posso contar pelo menos com sua amizade?– pergunto mantendo minha cabeça baixa.

Não era a resposta que eu queria. Mas era a resposta correta, eu acho. – Eu não vou te ignorar, Hyoga. Nunca mais eu faço aquela estupidez, prometo.– Vejo como ele mantém a cabeça baixa e agora, tudo que eu queria, era que ele abrisse aquele sorriso dele. – Ei.– Toco de leve em seu queixo, para que ele olhe para mim. – Quer dar uma volta? – Sorrio de leve. Minha forma de mostrar que não vou me afastar. Se amizade é tudo o que poderíamos ter, então amizade é o que teríamos. Pelo menos até... bom, melhor não pensar nisso agora. Ficar idealizando um futuro que nem se sabe se poderá acontecer não era uma boa.

Claro.– sorrio, apesar de sentir um aperto no coração. Digo a mim mesmo que a amizade dele é suficiente, mas não consigo me convencer. Porém, não sou capaz de me afastar, não quero ficar longe de Ikki e, se este é o preço que devo pagar, faço-o com prazer. – Aonde vamos?– Retiro uma nota da carteira e coloco sobre o balcão, para pagar a cerveja. Agradeço ao garçom com um gesto de cabeça e ele pisca pra mim. Ignoro e imediatamente começo a pensar que, se não houvesse aquele cara inconveniente na festa, eu e Ikki chegaríamos à mesma conclusão agora.

Só vamos dar uma volta.– Pago pelo que bebi e não digo nada em relação ao pequeno flerte que presenciei. Apenas quando saímos do bar, eu me permito olhar para o loiro, com um sorriso triste: – E você me dizia que não tinha uma fila de caras atrás de você. Só hoje, você já poderia ter se dado bem duas vezes.– Tentei não soar tão amargo. Enfio as mãos nos bolsos da jaqueta jeans, que vesti por cima da camiseta preta com o desenho da Fênix desbotada, e comecei a andar pela calçada. – O cara lá no bar deve estar pensando o que um loiro como você, todo elegante, faz acompanhado de um cara como eu. – Olho de soslaio para ele e vejo que respingou um pouco de tinta em sua calça. – Aliás, você com essa pinta de modelo pode até andar com a calça manchada. Vão achar que é uma nova moda. Quanto a mim... eu poderia estar vestindo minha melhor roupa que, ainda assim, não pareço estar à sua altura.– Eu digo, como quem parece tentar encontrar todos os motivos possíveis para justificar por que não faz sentido ficarmos juntos.

A última vez que chequei, tinha espelho na sua casa. O que você fez com ele? Porque, pra dizer besteiras assim, só não se olhando no espelho, frango. Você é lindo, Ikki. E eu não sou o único que pensa assim. E quanto aos caras, eu realmente recebo muitos flertes. Mas nenhum que realmente me interesse e, como eu te disse, todos querem apenas uma transa de uma noite só. Isto não é o suficiente pra mim, quero mais do que isso... – Resolvo mudar de assunto.– Vamos no seu carro ou no meu?

Nenhum dos dois. Vamos andar, apenas.– Falo já sentindo aquele vento da noite vindo contra meu rosto. E sinto um delicioso cheiro de chuva no ar. – Você me acha bonito mesmo? – Eu não estava atrás de elogios vazios, nem queria sentir meu ego massageado. Eu simplesmente queria ouvir Hyoga dizer aquilo mais uma vez. Vindo dele, era tão mais significativo.

Está brincando? Você tem tudo que eu gosto num homem. Seus traços são fortes, másculos, harmoniosos... E tem um corpo maravilhoso. Você é um gato, Ikki, deveria se valorizar mais.

Obrigado, mas você deve saber que, mesmo eu tendo algumas qualidades físicas, o galã aqui é você. Sendo assim, você tem uma fila de admiradores e eu te garanto que nem todos se interessariam em apenas uma noite com você.– Olho para o russo enquanto andamos. – Tira isso da sua cabeça, tá? Nem sei de onde o Isaac tirou essas coisas, mas... é bom que você saiba que não é verdade. Você acredita em mim, não é?

Eu confio em você. Só não me considero tão galã quanto você pensa. E como vai o seu trabalho?– coloco as mãos nos bolsos e caminho ao lado de Ikki.

Ah, o meu trabalho... Está muito em dia. Afinal, eu realmente trabalhei demais nas últimas semanas.– Volto meus olhos escuros para Hyoga com um sorriso mais jovial. – Nesse ponto, eu não menti. Me enterrei em trabalho, mesmo. Já tem pessoas me odiando por isso, jurando que estou querendo roubar o cargo delas... – Rio um pouco, lembrando-me do quanto Hayashi tem esse medo infundado de mim. - Eu não quero ser fotógrafo de jornal ou revista, em lugares assim não tem espaço para um trabalho como o que eu gosto de fazer. Acho que, por isso, eu realmente precisava daquele site.– Acabo fazendo uma expressão meio engraçada, de quem sabe que fez besteira e quer pedir uma segunda chance. – Depois de tudo que aconteceu, você deve ter abandonado completamente o projeto do meu site, não é mesmo?

Bom... Na verdade eu o terminei. – digo, um pouco empolgado. – Eu fiquei tão furioso com você, que a minha forma de vingança foi fazer absolutamente tudo do meu jeito, sem procurar saber sua opinião. Mas acho que também tinha muita esperança de que ficássemos numa boa de novo, então... Não sei se você vai gostar, mas seu site está pronto. É só comprar o domínio e colocar na rede.

Está falando sério?– Precisei rir. Esse pato era incrível mesmo... – Essa é sua forma de se vingar? Fazendo exatamente o que a pessoa precisava? - Abro um sorriso mais largo. – Obrigado. E eu tenho certeza de que vou gostar, pato. Você tem bom gosto.– Paro de andar e fico de frente para ele. – Agora fiquei curioso. Quero ver como esse site ficou.

Quer ir lá pra casa? Eu posso te mostrar e, se você não gostar de alguma coisa, eu já faço as modificações.– proponho, evitando o olhar de Ikki para que ele não repare o meu desconforto com a situação. Não é seguro para a minha sanidade mental ficar sozinho com ele na minha casa.

Claro.– Respondo, tentando esconder o quanto esse convite mexeu comigo. Eu sabia que não seria fácil, mas era preciso um teste para que provássemos que era possível ficarmos juntos, sozinhos, em um mesmo lugar, só nós dois... Ok, já estava começando a pensar o que não devia. Preciso me lembrar qual o foco aqui. É possível compartilharmos de um mesmo ambiente sem nos atracarmos como dois animais. Isso. Não podia ser tão difícil...


Continua...