Capítulo 13 – Is This Love?


Ele não tem namorada.

Consegui arrancar essa informação de Rosalie ontem à noite, com o pretexto de perguntar sobre todos os vizinhos. Parece que houve uma garota em Gloucester – mas isso acabou há meses. O caminho está livre. Só preciso de uma estratégia.

Enquanto tomo banho e me visto na manhã seguinte, estou totalmente fixa nos pensamentos em Jasper. Sei que reverti ao comportamento de uma adolescente de 14 anos; que vou estar rabiscando "Alice ama Jasper" com um coraçãozinho servindo de pingo do i. Já estou até combinando nossos nomes: Alisper ou Jalice. Mas não me importo. Afinal de contas, ser uma profissional madura e de alto nível não estava dando muito certo para mim.

Escovo o cabelo olhando para os campos verdes cobertos de névoa e sinto uma leveza inexplicável no coração. Não tenho motivo para estar tão feliz. No papel, tudo continua catastrófico. Minha carreira decolada acabou. Minha família não tem idéia de onde estou. Estou ganhando uma fração do que ganhava antes, num trabalho que implica pegar no chão a roupa de baixo suja dos outros.

No entanto não consigo deixar de cantarolar enquanto arrumo minha cama.

Minha vida mudou e estou mudando com ela, como se a velha Alice convencional e monocromática tivesse se desbotado até virar uma boneca de papel. Joguei-a na água e ela está se dissolvendo até o nada. E em seu lugar há uma nova eu. Uma eu com possibilidades.

Nunca corri atrás de homem antes. Mas, afinal, até ontem eu nunca havia assado um frango. Se posso fazer isso, posso convidar um homem para sair, não é? A velha Alice teria ficado sentada esperando a abordage. Bem, a nova Alice, não. Já vi os programas de namoro na TV, conheço as regras. Tudo tem a ver com olhares, linguagem corporal e conversa cheia de flerte.

Vou ao espelho e, pela primeira vez desde que cheguei, examino minha aparência com um olhar honesto e inabalável.

Imediatamente me arrependo. A ignorância era melhor.

Para começar, como alguém pode parecer bonita num uniforme de náilon azul? Pego um cinto, prendo na cintura e puxo o uniforme até que a parte de baixo esteja uns dez centímetros mais curta, como usávamos na escola.

- Oi - digo ao meu reflexo, e casualmente jogo o cabelo para trás. - Oi, Jasper. Oi, Jazz.

Agora só preciso de um monte de delineador preto mal aplicado e estarei de volta ao meu eu de 14 anos em todos os detalhes.

Pego a bolsa de maquiagem e passo uns dez minutos aplicando e tirando maquiagem, até conseguir algo que pareça natural e sutil, mas definido. Ou então que pareça que gastei dez minutos. Não faço idéia.

Agora vamos à linguagem corporal. Franzo a testa tentando lembrar as regras da TV. Se uma mulher se sentir atraída por um homem, suas pupilas se dilatam.

Além disso, vai inconscientemente se inclinar adiante, rir das piadas dele e expor os pulsos e as palmas das mãos.

Experimentalmente me inclino para o reflexo, estendendo as mãos ao mesmo tempo.

Estou parecendo Jesus. ¬¬'

Tento acrescentar um riso de flerte.

- Ha, ha, ha! - Exclamo em voz alta. - Você me mata de rir!

Agora pareço um Jesus alegre. ¬¬'

Realmente não sei se isso vai melhorar minhas chances.

Vou para baixo, puxo as cortinas, deixando entrar o sol brilhante da manhã, e pego a correspondência no capach. Estou folheando a Revista de Propriedades em Forks para ver quando custa uma casa por aqui, quando a campainha toca. Um cara de uniforme, segurando uma prancheta, está parado do lado de fora, com um furgão na entrada de veículos.

- Entrega da Equipamentos Chefe de Cozinha Profissional - diz ele. - Onde devo pôr as caixas?

- Ah, certo - digo apreensiva. - Na cozinha, por favor. Obrigada.

Equipamentos do Chefe de Cozinha Profissional. Acho que deve ser para mim, a Chefe Profissional. Eu meio que esperava que isso só chegasse daqui a alguns dias.

- O que é esse furgão, Alice? - grita Rosalie, descendo a escada vestida com roupão e sandálias altas. - Flores?

- É o equipamento de cozinha que a senhora encomendou para mim! - De algum modo consigo um tom entusiasmado.

- Ah, bom! Finalmente. - Rosalie sorri de orelha a orelha. - Agora você vai poder nos atordoar com sua culinária! Esta noite será brema do mar com legumes, julienne, não é?

- É ... sim! - engulo em seco. - Acho que é.

- Cuidado com as costas!

Pulamos de lado enquanto dois entregadores passam com caixas empilhadas nos braços. Sigo-os até a cozinha e olho a pilha crescente, incrédula. Quanta coisa os Cullens encomendaram, afinal?

- Bom, nós lhe compramos tudo - diz Rosalie, como se lesse minha mente. -Ande! Pode abrir! Tenho certeza que você mal pode esperar!

Pego uma faca e começo a abrir a primeira caixa, enquanto Rosalie rasga o plástico de outra com suas unhas de navalha. Da profusão de pedacinhos de isopor e plástico-bolha tiro uma ... coisa brilhante, de aço inoxidável. Olho rapidamente a etiqueta na lateral da caixa. Forma Savarin.

- Uma forma savarin! - Exclamo. - Que maravilhoso. Exatamente o que eu queria.

- Nós só compramos oito dessas - diz Rosalie preocupada.- Basta?

- Ah... - olho para aquela coisa, perplexa. – Deve ser suficiente.

- Agora as caçarolas. - Rosalie abriu uma caixa com brilhantes panelas de alumínio e estende uma para mim cheia de expectativa. - Disseram que estas são as de melhor qualidade. Você concorda? Como chefe diplomada?

Olho a panela. É nova e brilhante. Só poderia dizer praticamente isso.

- Vamos dar uma olhada - digo tentando parecer profissional. Seguro a panela com jeito avaliador, depois levanto-a, passo o dedo pela borda e, para completar, bato na superfície com a unha. - Sim, esta é uma panela de boa qualidade - digo finalmente. - A senhora escolheu bem.

- Ah, que bom! - Rosalie ri de orelha a orelha, mergulhando em outra caixa. - E olhe isso! - Ela espalha espuma revelando uma geringonça de forma estranha,com cabo de madeira. - Eu nunca vi um negócio desse! O que é, Alice?

Olho para aquilo em silêncio. O que será, em nome de Deus? Parece um cruzamento entre uma peneira, um ralador e um batedor. Olho rapidamente a caixa em busca de pistas, mas a etiqueta foi arrancada.

- O que é? - pergunta Rosalie de novo.

Qual é! Sou uma chefe diplomada. Obviamente sei o que é isso.

- Isto é usado para uma técnica culinária altamente especializada - digo finalmente. - Altamente especializada.

- O que você faz com isso? - Rosalie está olhando boquiaberta. - Mostre! - Ela empurra o cabo na minha direção.

- Bem. - Pego "A Coisa" com ela. - E meio que... misturar ... um movimento circular... manter o punho leve... - bato o ar rapidamente algumas vezes. – Mais ou menos assim. É difícil mostrar direito sem as... ah... as trufas.

Trufas? De onde isso veio?

- Na próxima vez em que for usar eu lhe mostro - acrescento, e rapidamente coloco na bancada.

- Ah, faça isso! - Rosalie parece deliciada. - Então, como se chama?

- Eu sempre conheci isso como um ... batedor de trufas _ digo finalmente. - Mas pode ter outro nome também. Quer uma xícara de café? - acrescento depressa. - E mais tarde desempacoto tudo.

Acendo o fogo da chaleira, pego o bule de café e olho pela janela. Jasper está caminhando pelo gramado.

Ah, meu Deus. Alerta total de paixonite. Paixonite completa, cem por cento adolescente e antiquada.

Não consigo afastar o olhar dele. A luz do sol está batendo nas pontas de seu cabelo castanho-alourados e ele está usando jeans velhos, desbotados. Enquanto olho ele pega um enorme saco de alguma coisa, gira-o com facilidade e joga em algo que pode ser uma pilha de adubo.

Minha mente se enche de súbito com uma fantasia em que ele me pega do mesmo modo. Girando-me facilmente nos braços grandes e fortes.

Quero dizer, não posso ser muito mais pesada do que um saco de batatas...

- Então, como foi seu fim de semana, Alice? - Rosalie interrompe meus pensamentos. - Nós praticamente não a vimos! Foi à cidade?

- Fui à casa do Jasper - respondo sem pensar.

- Jasper? - Rosalie parece pasma. - O jardineiro? Por quê?

Percebo imediatamente meu erro gigantesco. Não posso dizer exatamente "Para ter aulas de culinária". Encaro-a idiotamente por alguns segundos, tentando inventar um motivo instantâneo, convincente.

- Só... para dizer olá, na verdade... - respondo por fim, sabendo que não sou convincente. E também que minhas bochechas estão ficando vermelhas.

De repente o rosto de Rosalie salta para a compreensão e seus olhos se arregalam muito, do tamanho de pratos.

- Ah, sei - diz ela. - Que lindo!

- Não! - respondo depressa. - Não é... Honestamente ...

- Não se preocupe! - Rosalie me interrompe com ênfase. - Não vou dizer uma palavra. Sou a discrição em pessoa. - Ela encosta o dedo nos lábios. – Pode contar comigo.

Antes que eu possa dizer qualquer coisa ela pega seu café e sai da cozinha. Sento-me em meio ao material de culinária e das caixas e fico mexendo com o batedor de trufas.

Essa foi mal. Mas acho que não importa. Desde que ela não diga nada inadequado a Jasper.

Então percebo que estou sendo idiota. Claro que ela vai dizer alguma coisa inadequada ao Jasper. Vai fazer alguma insinuação pretensamente sutil. E então quem sabe o que ele vai pensar? Pode ser realmente embaraçoso. Pode arruinar tudo.

Devo deixar a situação clara para ele. Dizer que Rosalie me entendeu mal e que não tenho paixonite por ele nem nada.
Ao mesmo tempo, obviamente, deixando claro que tenho.

Obrigo-me a esperar até ter feito o café-da-manhã para Rosalie e Emmett, guardado o novo equipamento de cozinha, misturado um pouco de azeite e suco de limão e colocado dentro os filés de brema do mar para esta noite, exatamente como Esme ensinou.

Então levanto o uniforme um pouco mais, coloco um pouco mais de delineador para dar sorte e saio ao jardim, segurando um cesto que achei na despensa. Se Rosalie quiser saber o que estou fazendo, estou colhendo erva para cozinhar.

Depois de caminhar pelo jardim por um tempo encontro Jasper no pomar atrás do muro antigo, sobre uma escada, amarrando uma corda numa árvore. Enquanto vou até ele começo de súbito a me sentir ridiculamente nervosa. Minha boca está seca - e será que minhas pernas acabaram de bambear?

Meu Deus, é de pensar que eu teria alguma postura. É de esperar que o fato de ser advogada por sete anos teria me preparado um pouco melhor. Ignorando os tremores do melhor modo possível, vou até a escada, jogo o cabelo para trás e sorrio para ele, tentando não franzir os olhos sob o sol.

- Oi!

- Oi. - Jasper sorri para baixo. - Como vão as coisas?

- Ótimas, obrigada! Muito melhor. Por enquanto nenhum desastre ...

Há uma pausa. Subitamente percebo que estou olhando com um pouco de intensidade demasiada para suas mãos apertando a corda.

- Eu estava querendo um pouco de... alecrim. - Indico meu cesto. - Você tem?

- Claro. Vou cortar um pouco. - Ele pula da escada e começamos a andar até a horta de temperos.

Está totalmente silencioso aqui, longe da casa, exceto por um ou outro inseto zumbindo e o som do cascalho pisado no caminho. Tento pensar em algo leve e fácil para dizer,mas meu cérebro está vazio.

- Está quente - consigo dizer por fim.

Fantástico.

- Ahã. - Jasper assente e passa com facilidade por cima do muro de pedras entrando na horta de temperos. Tento acompanhá-lo com um salto leve e prendo o pé no muro. Ai.

- Tudo bem? - Jasper se vira.

- Ótimo! - Eu rio, mesmo que meu pé esteja latejando em agonia. - Ah... lindos temperos! – Indico a horta ao redor, em admiração genuína. É organizada numa forma hexagonal, com pequenos caminhos em cada seção. - Você fez tudo isso? E incrível.

- Obrigado. Estou satisfeito com ela. – Jasper sorri. - Pronto. Aí está o seu alecrim.

Ele pega uma tesoura num negócio de couro parecido com um coldre e começa a cortar um arbusto verde-escuro e espinhento.
Meu coração começa a martelar. Tenho de dizer o que vim dizer.

- Então... ah... é bem esquisito - começo com o máximo de leveza que posso, apertando as folhas perfumadas de um arbusto farto. - Mas parece que Rosalie teve uma idéia errada a nosso respeito! Parece que ela acha que nós... Você sabe.

- Ah. - Ele assente, com o rosto virado.

- O que obviamente... é ridículo! - acrescento com outro riso.

- Ahã. - Ele corta mais alguns galhos de alecrim e os estende. - Basta para você?

- Na verdade eu gostaria de mais um pouco – digo e ele se vira de novo para o arbusto. - Então... não é ridículo? - acrescento desesperada, tentando instigá-lo a dar uma resposta de verdade.

- Bem, claro. - Por fim Jasper me olha direito, com a testa incrivelmente branca franzida. - Você não vai querer se meter em nada, durante um tempo. Principalmente depois de um relacionamento ruim.

Olho-o inexpressiva. O que, afinal...?

Ah, é. Meu relacionamento ruim.

- Certo - digo depois de uma pausa. - É, isso.

Droga.

Por que inventei um relacionamento ruim? O que estava pensando?

- Aqui está o seu alecrim. - Jasper põe um maço perfumado nos meus braços. - Mais alguma coisa?

- Ah... sim! - digo rapidamente. - Pode me dar um pouco de hortelã?

Olho enquanto ele anda com cuidado por sobre as fileiras de temperos até onde a hortelã cresce em grandes vasos de pedra.

- Na verdade... - Obrigo-me a parecer despreocupada. - Na verdade, o relacionamento não foi tão ruim. Na verdade acho que praticamente já superei.

Jasper ergue a cabeça, abrigando os olhos do sol.

- Você superou um relacionamento de sete anos em uma semana?

Agora que ele coloca desse modo, parece meio implausível. Remexo depressa na mente.

- Tenho grandes reservas de resistência - digo por fim. - Sou como... látex.

- Látex - ecoa ele, com a expressão ilegível.

Será que látex foi uma escolha ruim de palavra? Não. Ora, látex é sensual.

Jasper acrescenta a hortelã ao alecrim que está nos meus braços. Parece que tenta me avaliar.

- Mamãe disse... - Ele pára, sem jeito.

- O quê? - pergunto meio sem fôlego. Será que os dois conversaram sobre mim?

- Mamãe ficou pensando se você... sofreu maus-tratos. - Ele olha para longe. - Você é tão tensa e encrespada!

- Não sou tensa e encrespada! - retruco imediatamente.

Talvez isso tenha sido meio tenso e encrespado.

- Sou naturalmente encrespada - explico. – Mas não fui maltratada nem nada disso. Só que... sempre me senti... presa.
A palavra sai, me surpreendendo.

Tenho um clarão da minha vida na Carter Spink. Praticamente morando no escritório em algumas semanas. Sempre levando pilhas de trabalho para casa. Respondendo a e-mails a cada hora. Talvez eu me sentisse meio presa.

- Mas agora estou bem. - Balanço o cabelo para trás. - Pronta para ir em frente... e começar um novo relacionamento... ou algo mais casual... tanto faz...

Uma transa de uma noite serviria...

Olho-o, esforçando-me ao máximo para dilatar as pupilas e levanto casualmente a mão até a orelha, só para garantir. Há um silêncio imóvel, tenso, rompido apenas pelo zumbido dos insetos.

- Você provavelmente não deveria se apressar para uma coisa nova - diz Jasper. Ele se afasta sem me encarar e começa a examinar as folhas de um arbusto.

Há uma falta de jeito em suas costas. Sinto que estou corando enquanto percebo isso. Ele está me dispensando de leve. Não quer nada comigo.

Aargh. Isso é medonho. Aqui estou, com a parte de baixo do jaleco repuxada e o delineador, fazendo toda a linguagem corporal que conheço, basicamente me oferecendo a ele... E ele está tentando dizer que não se interessa.

Fico mortificada. Preciso sair daqui. De perto dele.

- Está certo - digo sem graça. - É ... cedo demais para pensar em algo assim. Na verdade seria uma idéia terrível. Só vou me concentrar no emprego novo. Em cozinhar e... e... assim por diante. Preciso ir. Obrigada pelos temperos.

- Quando quiser - diz Jasper.

- É. Bem. Vejo você.

Apertando o maço de ervas com mais força, giro nos calcanhares, passo por cima da mureta, desta vez conseguindo não bater com o pé, e volto pelo caminho de cascalho até a casa.

Estou mais do que sem graça. Isso é que é a nova Alice!

É a última vez que vou atrás de um homem. A última. Minha estratégia original de esperar educadamente, ser ignorada e depois dispensada em troca de outra era um milhão de vezes melhor.

De qualquer modo, não me importo. Na verdade é melhor. Porque preciso me concentrar no trabalho. Assim que volto para casa ajeito a tábua de passar roupa, ligo o ferro, sintonizo o rádio e faço uma xícara de café forte. Este vai ser meu foco de agora em diante. Fazer minhas tarefas do dia. E não alguma paixonite ridícula pelo jardineiro. Sou paga para realizar um trabalho e vou realizá-lo.

No meio da manhã passei dez camisas, coloquei um bocado de roupa na máquina de lavar, e espanei a estufa. Na hora do almoço, espanei e passei aspirador de pó em todos os cômodos do andar de baixo e poli todos os espelhos com vinagre. Na hora do chá, coloquei mais um bocado de roupa na máquina, piquei os legumes no processador de alimentos, medi o arroz natural para se cozido no vapor e preparei cuidadosamente quatro embalagens de massa pronta para minhas tortinhas de frutas, como Esme ensinou.

Às dezenove horas joguei fora um lote de massa queimada, assei mais quatro, cobri com morangos e terminei com geléia de abricó esquentada. Fritei os legumes picados em azeite e óleo, até ficarem macios. Debulhei o feijão-fradinho. Coloquei a brema do mar no fomo. Também tomei uns bons goles de vermute que eram para a couve-flor, mas tudo bem.

Meu rosto está completamente vermelho e o coração bate rápido, e me movo pela cozinha numa espécie de realidade acelerada... mas acho que me sinto bem. De fato, quase me sinto empolgada. Aqui estou, preparando uma refeição sozinha... e praticamente montada na situação! Afora o fiasco do cogumelo. Mas eles estão em
segurança no lixo.

Arrumei a mesa de jantar com a melhor louça que encontrei e pus velas nos candelabros de prata. Tenho uma garrafa de Prosecco esperando na geladeira e esquentei os pratos que estão esperando no forno. E coloquei o CD de canções de amor de James Marrison, que Rosalie adora, no aparelho de som. Sinto como se estivesse dando meu primeiro jantar.

Com um tremor agradável na barriga, aliso o avental, abro a porta da cozinha e chamo:

- Sra. Cullen? Sra. Cullen?

O que preciso é de um gongo enorme.

- Sra. Cullen? - tento de novo.

Não há absolutamente qualquer resposta. Era de pensar que eles estivessem espreitando perto da cozinha a essa hora. Volto para a cozinha, pego um garfo e bato num copo, com força.

Nada. Onde eles estão?

Investigo os cômodos do térreo, mas estão todos vazios. Cautelosamente começo a avançar escada acima.

Talvez estejam num momento Alegria do sexo. Talvez eu devesse recuar.

- Ah... Sra. Cullen? - grito hesitante. - O jantar está servido.

Ouço vozes no fim do corredor enquanto dou mais alguns passos.

- Sra. Cullen?

De repente uma porta se abre com violência.

- Para que serve o dinheiro? - A voz de Rosalie vem esganiçada pelo ar. - Diga!

- Não preciso lhe dizer para que serve o dinheiro! - grita Emmett de volta. - Nunca precisei!

- Se você entendesse alguma coisa...

- Eu entendo! - Emmett parece apopléctico. – Não diga que não entendo!

Ceeeerto. Então provavelmente não é um momento Alegria do sexo. Começo a recuar em silêncio na ponta dos pés... mas é tarde demais.

- E Portugal? - berra Rosalie. - Lembra daquilo? - Ela sai do quarto num redemoinho de cor-de-rosa e pára ao me ver.

- Ah... o jantar está pronto - murmuro, os olhos fixos no tapete. - Senhora.

- Se você mencionar a porcaria de Portugal mais uma vez... - Emmett sai marchando do quarto.

- Emmett! - Rosalie o interrompe violentamente, depois faz um minúsculo gesto de cabeça na minha direção. - Pas devant.

- O quê? - pergunta Emmett com um muxoxo.

- Pas devant les... les... - Ela gira as mãos, como se tentasse conjurar a palavra que falta.

- Domestiques? - sugiro, sem jeito.

Rosalie me lança um olhar inexpressivo, depois se recompõe com dignidade.

- Estarei no meu quarto.

- O quarto também é meu, droga! - diz Emmett furiosamente, mas a porta já se fechou com estrondo.

- Ah... eu fiz o jantar... - consigo dizer, mas Emmett vai até a escada, me ignorando.

Sinto um jorro de consternação. Se a brema do mar não for comida logo, vai ficar toda murcha.

- Sra. Cullen? - Bato na porta. - Estou preocupada, o jantar pode estragar...

- E daí? - diz sua voz abafada. - Não estou com clima para comer.

Olho a porta, incrédula. Passei a droga do dia inteiro cozinhando para eles. Está tudo pronto. As velas acesas, os pratos no forno. Eles não podem simplesmente não comer.

- Vocês têm de comer! - grito. E Emmett pára na metade da escada. A porta do quarto se abre e Rosalie olha para fora, atônita.

- O quê? - diz ela.

Certo. Vamos com cuidado.

- Todo mundo precisa comer - improviso. – É uma necessidade humana. Então por que não discutir suas diferenças durante uma refeição? Ou adiá-las! Tomem uma taça de vinho, relaxem e concordem em não falar de... ah... Portugal.

Quando digo a palavra sinto pêlos se eriçando nos dois.

- Não fui eu que mencionei - rosna Emmett. Achei que o assunto estava encerrado.

- Só mencionei porque você foi tão insensível... a voz de Rosalie está subindo e ela afasta uma lágrima súbita dos olhos. - Como acha que eu me sinto, sendo sua... esposa troféu?

Troféu?

Preciso não rir.

- Rosalie. - Para minha perplexidade, Emmett está subindo a escada o mais rápido que sua grande massa corpórea permite.

- Nunca diga isso. - Ele segura seus ombros e a olha com ferocidade nos olhos. - Nós sempre fomos parceiros. Você sabe. Desde Sydenham.

Primeiro Portugal. Agora Sydenham. Um dia terei de sentar com Rosalie e uma garrafa de vinho e arrancar dela toda a sua história de vida.

- Eu sei - sussurra Rosalie.

Ela está olhando Emmett como se ninguém mais existisse, e de repente sinto uma pequena pontada. Eles realmente se amam. Posso ver o antagonismo se dissolvendo devagar. É como testemunhar uma reação química num tubo de ensaio.

- Vamos comer - diz Emmett finalmente. - Alice estava certa. Deveríamos ter uma bela refeição juntos. Sentar e conversar.

Ele me olha e eu sorrio de volta com alívio. Graças a Deus. A brema do mar ainda deve estar praticamente...OK... só preciso colocar o molho numa jarra ...

- Certo, vamos. - Rosalie funga. - Alice, nós vamos jantar fora hoje.

Meu sorriso congela no rosto. O quê?

- Não se preocupe em cozinhar para nós – intervém Emmett, dando-me um tapinha jovial. - Pode ter a noite de folga!

O quê?

- Mas... eu cozinhei! - digo rapidamente. – Está pronto!

- Ah. Bem, não faz mal. - Rosalie faz um gesto vago – Coma você.

Não. Não. Eles não podem fazer isso comigo.

- Mas está tudo pronto para vocês lá embaixo! Peixe assado... e legumes à julienne...

- Aonde vamos? - pergunta Rosalie a Emmett, não ouvindo uma palavra. - Vamos tentar o Mil1House?

Enquanto fico ali parada, numa estupefação, ela desaparece no quarto, seguida por Emmett. A porta se fecha e sou deixada no corredor.

Meu jantar está arruinado.

Quando eles partiram à toda no Porsche de Emmett, vou à sala de jantar e lentamente retiro tudo. Guardo as taça de cristal, dobro os guardanapos e sopro as velas. Depois volto à cozinha e olho um momento para todos os meus pratos, arrumados e prontos para a ação. Meu molho,ainda borbulhando no fogo. Minhas guarnições de limão fatiado. Eu estava tão orgulhosa de tudo!

De qualquer modo, não há nada que eu possa fazer.

Minhas bremas do mar parecem sentir pena de si mesmas, mas coloco uma num prato e me sirvo de uma taça de vinho. Sento-me à mesa, corto um pedaço e levo à boca. Então pouso a faca e o garfo, sem provar. Não estou com fome.

Um dia inteiro desperdiçado. E amanhã terei de fazer tudo de novo. A idéia me dá vontade de afundar a cabeça nos braços e jamais levantá-la outra vez.

O que estou fazendo aqui?

Quero dizer, realmente. O que estou fazendo? Por que não saio agora e pego um trem de volta a Portland?

Enquanto estou ali, frouxa, percebo uma batida fraca na porta aberta. Levanto a cabeça e vejo Jasper encostado no portal, segurando sua mochila. Sinto um clarão de embaraço, quando lembro do encontro da manhã. Sem intenção, giro a cadeira ligeiramente para o outro lado e cruzo os braços.

- Oi - digo com um dar de ombros do tipo "se acha que estou interessada em você, está muito enganado".

- Pensei em dar uma passada e ver se você precisava de alguma ajuda. - Seu olhar percorre a cozinha, o pratos de comida intocada. - O que aconteceu?

- Eles não comeram. Saíram para jantar fora.

Jasper me olha por um momento, depois fecha os olhos brevemente e balança a cabeça.

- Depois de você passar o dia inteiro cozinhando para eles?

- A comida é deles. A casa é deles. Podem fazer o que quiserem.

Estou tentando parecer despreocupada e casual. Mas ainda posso sentir o desapontamento, pesado dentro de mim. Jasper pousa a mochila, vem até o fogão e inspeciona a brema do mar.

- Parece bom.

- Parece peixe cozido demais e frio - corrijo.

- Meu predileto. - Ele ri, mas não estou com clima para sorrir de volta.

- Então coma um pouco. - Indico o prato – Ninguém mais vai comer.

- Bem, então é uma pena desperdiçar. - Ele se serve de tudo, fazendo um monte altíssimo no prato, depois se serve de uma taça de vinho e senta-se diante de mim.

Por um momento nenhum de nós fala. Nem estou olhando para ele.

- A você – Jasper levanta a taça. - Parabéns.

- É, ta bom.

- Sério, Alice. - Ele espera com paciência até que afasto o olhar do chão. - Quer eles tenham comido ou não, isto é um verdadeiro feito. Quero dizer, puxa! - Sua boca se retorce bem-humorada. - Lembra-se do último jantar que você preparou nesta cozinha?

Dou um sorriso relutante.

- Quer dizer, o cordeiro do juízo final.

- Os grãos-de-bico. Nunca vou esquecer deles. - Jasper pega um pedaço de peixe, balançando a cabeça com incredulidade. - Isso está bom, por sinal.

Uma imagem me vem: aquelas minúsculas bolotas retas; eu correndo num caos frenético; o merengue pingando no chão... e apesar de tudo quero rir. Desde então aprendi muito.

- Bem, claro, eu teria me saído bem naquela noite se você não tivesse insistido em me "ajudar" - digo com ar superior. - Eu estava com tudo sob controle até que você entrou no caminho.

Jasper pousa o garfo, ainda mastigando. Por alguns instantes só me olha, os olhos verdes franzidos com alguma coisa - diversão, talvez. Sinto a quentura reveladora subindo às bochechas, e quando olho para baixo noto que minhas mãos estão pousadas na mesa, com as palmas para cima.

E estou inclinada para a frente, percebo num terror súbito. Minhas pupilas provavelmente estão com meio quilômetro de tamanho, também. Não ficaria mais claro se eu escrevesse na testa "estou a fim de você" com uma hidrográfica.

Levo as mãos rapidamente ao colo, sento-me empertigada e adoto uma expressão pétrea. Não superei a mortificação desta manhã. De fato, poderia aproveitar a oportunidade para dizer alguma coisa.

- Então... - começo, no instante em que Jasper começa a falar também.

- Diga. - Ele faz um gesto na minha direção e pega outro pedaço de peixe. - Você primeiro.

- Bem. - Pigarreio. - Depois de nossa... conversa hoje cedo, eu só ia dizer que você está certo quanto aos relacionamentos. Obviamente ainda não estou pronta para nada novo. Nem mesmo interessada. De jeito nenhum.

Pronto. Falei. Não estou totalmente certa de até que ponto fui convincente, mas pelo menos salvei um pouco a dignidade.

- O que você ia dizer? - pergunto colocando mais vinho em sua taça.

- Ia convidar você para sair - diz Jasper, e quase inundo a mesa com vinho.

Ia o quê?

O negócio das mãos deu certo?

- Mas não se preocupe. - Ele toma um gole de vinho. - Eu entendo.

Recuando. Preciso recuar, muito, muito depressa. Mas com sutileza, para que ele não note que estou recuando.

Ah, dane-se, simplesmente vou ser incoerente. Sou mulher, tenho o direito de ser.

- Jasper - obrigo-me a dizer com calma – Eu adoraria sair com você.

- Bom. - Ele parece imperturbável. - Que tal na sexta à noite?

- Perfeito.

Quando rio de volta percebo subitamente que estou com fome. Puxo meu prato com brema do mar, pego a faca e o garfo e começo a comer.


(/NA: Is This Love? - Whitesnake)

Respondendo reviwes:::::::

MahRathbone: Que bom que você tá gostando... Alice e Jasper também são meus favoritos...

Mah HC: A paixonite da Alice vai longe nesse capítulo... Só por um corpinho? (bota corpinho nisso... *morri só de imaginar aquele corpinho*)... Também quero (muito) o Jasper!!

Vick Moreira Cullen: Sogra conquistada!!! *dando pulinhos*... A frase "Santa (alguma comida), Batman" é tipo um zoação, como se fosse "Amém!", algo do gênero.. =D' (autora na brisa)... Alice prendada, já pode casar!! Jasper com vergonha... *morri de novo*

Tiapastelera: Jasper SEMPRE!!! Até que a Alice aprende rápido... (Acho que eu não consiguiria...)

Obrigada pelas reviwes... Clique no botão verde e mande mais uma pra deixar a autora feliz!!! =D'

Obrigada também aos leitores nômades!!!!

Até o próximo capítulo....