Capítulo Quatorze

Jared's POV

- Qual o próximo voo para San Antonio, Texas? – Eu pergunto a atendente do aeroporto.

- O próximo será... – Ela diz enquanto encara a tela de seu computador. – Será às cinco da manhã. – Ela informa.

- Eu quero uma passagem, por favor. – Eu peço e sinto minha voz falhar. Será que estou agindo certo?

Sento numa poltrona, e pego meu celular, ligando-o. Há nove mensagens de voz, todas de Jensen. Eu não sei se quero ouvir, mas mesmo assim aperto o botão, e escuto a primeira.

"Jared, por favor, assim que você ouvir essa mensagem me ligue... Vamos conversar, eu... Eu não quero e eu não posso te perder de novo Jared, eu... Me desculpe, eu não queria te enganar, mas se eu contasse a verdade você nunca aceitaria a minha ajuda, e droga! Por que eu não posso te ajudar? Eu sou seu namorado, eu te amo! Não é isso que as pessoas fazem quando est..."

O tempo da mensagem acaba eu ouço a seguinte. É uma continuação da primeira. Ouço as outras. Ele pede desculpas e diz que me ama. Eu as apago e desligo o aparelho novamente.

Fecho os olhos lembrando os momentos em que passamos juntos depois que voltamos e em todas as vezes que ele prometeu que não me enganaria novamente e que confiaria em mim. Por que ele não consegue confiar em mim?

A madrugada avança e as cinco em ponto meu voo é anunciado no alto falante. Ainda tentei cochilar, mas fora o fato de a minha cabeça estar a mil, a poltrona é muito pequena e desconfortável pra mim. Quem sabe durante o voo eu consiga parar de pensar em Jensen e dormir um pouco?

Dentro da aeronave eu ponho o cinto de segurança e olho pela janela.

- Jensen, eu nem sei o que dizer...

- Diz que me ama...

- Eu te amo!

Eu sorrio sem vontade com a lembrança de quando estávamos no avião dele, indo para Quebec, sem acreditar que meia hora depois que a tínhamos voltado, ele já estava mentindo novamente. Por que ele não disse logo que era dono do hotel? Teria evitado tudo isso. Mas ele não consegue.

Será que já não é suficiente para ele pagar tudo quando a gente sai, quando a gente viaja? Não é suficiente ele me encher de presentes? Ainda quer pagar meu salário? Me sustentar? Isso não é certo!

Por que ele não consegue aceitar isso? E por que não consegue confiar em mim e no meu amor? Por que ele precisa sempre ter o controle sobre tudo? De onde eu trabalho, com quem tenho amizade, quanto eu ganho...?

Eu suspiro e fecho os olhos. Preciso pensar no que eu realmente quero e sem a interferência dele.

- Bem-vindos a San Antonio, a temperatura local é de... – A voz do piloto me acorda.

Pego minha mala e saio do aeroporto sem acreditar ainda que estou de volta ao Texas. Quanto será que dá um táxi daqui até a minha casa? Será que devo ligar para avisar da minha chegada?

- Jared! Oh meu Deus! Jared! – Minha mãe abre a porta e começa a gritar quando me vê, me abraçando e beijando em seguida.

- Oi mãe... – Eu a abraço apertado, cheio de saudade dela.

- O que houve? Você está bem? – Ela pergunta enquanto eu entro em casa.

- Eu tive uma folga no trabalho e resolvi fazer uma visita surpresa, tudo bem?

- Claro meu filho!

- Cadê todo mundo?

- Seu pai e o Jeff estão no trabalho...

Eu sorrio.

- Por que não disse ao Jeff que viria? Por que não veio com ele?

- Eu só fiquei sabendo que ganharia essa folga ontem mãe.

- Jared, essa sua visita inesperada tem algo a ver com a volta do Chad?

- Como a senhora sabe que ele voltou?

- Ele esteve aqui, e me contou que quis te trazer junto, mas que você não quis. Mudou de ideia?

- Não mãe, não tem nada a ver com o Chad... Eu só estava com saudade, só isso.

- Eu também meu filho... – Ela sorri e me abraça novamente. – Você está muito magro Jared, vou fazer um almoço bem reforçado hoje.

- Você não muda, não é mãe? – Eu olho no relógio e vejo que são onze horas da manhã. O que será que Jensen está fazendo? Será que está me procurando?

Aviso que vou tomar banho e levo minha mala para meu antigo quarto, que agora é um quarto de costura, mas minha cama ainda está aqui.

Depois do banho eu me deito e solto um longo suspiro, pensando em tudo o que me aconteceu desde que resolvi me mudar para o Canadá com o Chad.

- Jared... Jared... – Escuto alguém me chamar e abro os olhos, percebendo que dormi. – Vem almoçar meu filho.

- Que horas são? – Eu olho meu relógio. São quase duas da tarde.

- Eu vi que você estava dormindo e fiquei com pena de te acordar, mas agora vem comer.

- Ok...

oOo

- A sua comida ainda é a melhor mãe! – Eu digo com a boca cheia. Estamos conversando e ela ainda insiste que alguma coisa aconteceu pra eu ter voltado tão repentinamente. Mães e seu sexto sentido aguçado.

- Pode comer tudo meu filho. Eu fiz só pra você. E quando seu pai chegar eu... – A campainha a interrompe. – Quem será? – Ela pergunta e se levanta.

Me sirvo de mais um pouco de lasanha e a escuto me chamando. Me levanto e quando chego a porta, meu coração para de bater quando eu o vejo.

"Mas como?"

- O que você está fazendo aqui? – Eu pergunto numa mistura de raiva e surpresa.

- Está tudo bem, meu filho? – Minha mãe pergunta num tom preocupado.

- Sim mãe... – Eu disfarço e forço um sorriso. – Esse é Jensen Ackles, um amigo de Vancouver que eu não sabia que estava aqui em San Antonio.

- Ah! Muito prazer... – Ela aperta a mão dele que sorri abertamente para ela.

- O prazer é meu, senhora Padalecki. – Jensen a cumprimenta e me olha.

- Quer entrar? – Minha mãe pergunta a ele.

- Acho melhor nós conversarmos aí fora, não é? – Eu o encaro.

- Senhora Padalecki... – Jensen diz cordialmente e se afasta.

- Jared, que falta de educação! – Ele sussurra e eu digo que está tudo bem.

Jensen está com uma cara péssima, parecendo que não dorme há vários dias. Eu ainda não acredito que ele está aqui no Texas.

- Como descobriu que eu estava aqui? – É a primeira coisa que eu pergunto quando chego perto dele.

- A sua vizinha me deu uma dica e eu deduzi que você tinha vindo para cá. Por que fugiu assim Jared?

- E como descobriu meu endereço? – Eu insisto.

- Não existem muitas famílias Padalecki em San Antonio Jared. – Ele diz e eu encaro o chão.

– O que você quer Jensen?

- Eu quero conversar, você não quis me ouvir ontem à noite.

- Não temos mais nada para conversar Jensen. – Ele diz, mas eu não sinto firmeza em sua voz.

- Então é isso? Acabou? – Eu pergunto desesperado.

- Jensen, eu vim pra cá porque eu quero ficar sozinho. Eu preciso de um tempo longe de você pra poder pensar em tudo isso.

- Eu não vou voltar a Vancouver sem você Jared. Isso não é uma opção.

- Jensen... Você está dificultando as coisas agindo assim.

- Eu não posso te perder de novo... – Minha voz sai baixa. Eu tento tocá-lo e ele se afasta.

- Então por que você age assim? Por que faz coisas que você sabe que eu não gosto? – Sinto que ele tem vontade de gritar, mas está se segurando. - Eu te perguntei se você era dono do hotel e você disse que não Jensen! Você já estava mentindo pra mim, meia hora depois que a gente tinha voltado. Eu resolvi te dar mais uma chance, você prometeu que ia mudar, mas no fundo você não vai mudar nunca!

- Quando você me contou onde seria a entrevista eu fiquei aliviado, porque no fundo eu estava me sentindo culpado por você estar desempregado e sabia que lá você receberia um bom salário. Eu só quis te ajudar Jared, que mal há nisso?

- Se queria só me ajudar por que não contou a verdade? – Ele pergunta.

- Porque você não ia aceitar! Olha Jared, eu...

- Eles já sabiam quem eu era quando fui à entrevista? – Ele interrompe. "Merda!"

Se eu mentir só vou piorar minha situação com ele. Quem sabe se eu contar toda a verdade, ele me perdoe e volte comigo para Vancouver?

- Sim... – Eu respondo e ele suspira pesado.

- Você pediu para me oferecerem um bom salário?

- Não, eles pagam bem e eu realmente já sabia disso quando você me contou sobre a entrevista. – Eu digo com sinceridade e o encaro.

- E os dias que eu iria trabalhar?

- Eu pedi que te dessem folga aos fins de semana... – Eu baixo a cabeça envergonhado. – Mas eles disseram que só seria possível um dia no fim de semana.

- Você proibiu a entrada de alguém? – Eu demoro a responder. – Jensen?

- Jared, eu...

- Isso porque você ia mudar! – Ele ri. – Não adianta Jensen! Você nunca vai confiar em mim! Espero que agora você entenda porque eu não aceito a sua ajuda... Você não quer me ajudar e sim me controlar.

Nós ficamos em silêncio por uns instantes.

- Sabe quem estragou tudo entre nós? – Eu congelo com as palavras dele. – Foi você mesmo Jensen, com esse seu ciúme exagerado e a mania de querer controlar a minha vida. E é realmente uma pena, porque eu... – Ele para de falar e abaixa a cabeça. – Porque eu realmente te amei Jensen...

- Você não me ama mais? – Eu pergunto num fio de voz, preferindo morrer a ouvir que ele não me ama mais.

- Não sei... – Ele limpa um lágrima que escorre pelo seu rosto e eu sinto vontade de abraçá-lo. Eu me aproximo novamente e ele se afasta bruscamente.

- Jared...

- Eu preciso ficar sozinho Jensen. Por favor, volte para Vancouver.

- Eu não vou voltar sem você Jared, eu já te disse.

- Eu entro em contato com você em breve.

- Não Jared! Eu não vou desistir de você... Eu sei que você está com raiva de mim agora, mas eu sei que você ainda me ama. – Eu digo com a voz calma e tento tocá-lo outra vez.

- Jensen, você não entende! – Ele não se afasta, e sinto que ele está um pouco confuso.

- Eu entendo Jared... – Eu me aproximo mais e tento beijá-lo.

- Eu estou na casa dos meus pais Jensen... – Ele diz e eu desisto do beijo, mas sem me afastar.

- Volte comigo Jared, por favor...

- Jensen, eu preciso pensar, eu preciso ficar longe de você pra conseguir isso, entenda, por favor. – Ele não tem mais a mesma segurança em sua voz.

- Jared, me perdoe. Eu prometo que... – Eu afasto alguns fios que estão caindo sobre seus olhos. – Que eu vou mudar. Tudo vai ser diferente daqui pra frente. – Eu passo a língua pelo lábio e ele encara a minha boca.

- Jensen, eu... – Eu sinto a esperança preencher meu peito, mas ele me empurra e entra, fechando a porta. "Merda!"

Eu ainda fico parado por alguns minutos, pensando se eu bato na porta ou não. Não quero assustar sua mãe e resolvo voltar para o carro, ligando imediatamente para Alona, para saber onde ela fez a minha reserva. Não sei quanto tempo ficarei em San Antonio, pois só volto ao Canadá com Jared.

As palavras dele ecoam nos meus ouvidos sem parar, mas eu sei que ele me ama e vou provar que eu posso mudar. Só preciso que ele me dê mais uma chance.

Quando estou instalado no Mokara Hotel, eu me sirvo de uma dose se uísque e me sento na cama, quando me lembro de algo que faz meu sangue ferver. Em meio ao meu desespero não lembrei que Chad voltou para cá há alguns dias atrás.

Minhas entranhas se torcem ao imaginar ele consolando Jared.

- Alô. – Ligo para a casa de Jared, pois seu celular ainda está desligado e sua mãe atende.

– Senhora Padalecki? – Eu pergunto tentando esconder minha ansiedade.

- Sim, quem é?

- Jensen Ackles, eu estive em sua casa há pouco, sou amigo do Jared... – Eu explico impaciente.

- Oh como vai Jensen? – Ela se desculpa pela falta de educação do filho por não ter me convidado a entrar e eu insisto que não teve problema. Pelo jeito como ela está me tratando, Jared não deve ter dito nada sobre a gente.

- O Jared pode atender?

- Ele saiu assim que você foi embora, acho que ele foi até a casa do Chad, você o conhece?

Eu fecho os olhos e controlo meu tom de voz. Não posso descontar a minha ira na mãe de Jared.

- Conheço sim, obrigado senhora Padalecki.

Não foi difícil descobrir o endereço daquele filho da puta, e meia hora depois estou parado na sua porta.

- Jared! – Eu salto do carro e bato com força na porta. – Jared, eu sei que você está aí! – Eu o chamo espumando de ódio. Nada e nem ninguém vai me impedir de tirá-lo de perto desse imbecil.

Escuto pessoas falando dentro da casa e reconheço a voz de Jared.

- Jared! – Eu bato mais uma vez.

- Jensen? – Ele abre a porta e sai rapidamente, parecendo assustado.

- Era isso que você queria? Reatar seu namoro com ele? – Eu grito sem pensar. – Você precisava de uma desculpa para voltar não é?

- Você acha realmente isso Jensen?

- Cadê esse filho da puta? – Eu digo ainda mais alto. – Aposto que ele tá adorando te consolar!

- Jensen! Para com isso! O Chad não te fez nada!

- Tá protegendo ele por quê? – Eu pergunto sem conseguir controlar minha raiva.

- Aqui é a casa dos pais dele! Pelo amor de Deus! Você está fazendo escândalo à toa.

- Achei que fosse demorar mais tempo pra você correr pros braços do ex namorado, Padalecki! O que foi? Se arrependeu de não ter voltado com ele antes? – Eu digo sentindo o ciúme controlar cada parte do meu ser.

- Jensen, por favor, vá embora... – Jared olha para os lados e eu vejo que os vizinhos de Chad saíram de suas casas. Provavelmente ouviram meus gritos.

- Eu não vou embora sem você! Não vou te deixar aqui com ele! Chad! – Eu tento bater mais uma vez na porta, mas Jared me segura.

- Já não basta você ter mentido pra mim, ter me enganado, você ainda quer me humilhar na frente dos meus amigos? É isso Jensen? Você quer que eu te odeie? – Ele grita a última frase.

- Não Jared... – Eu o encaro, me assustando com suas palavras. - Eu quero que volte comigo para Vancouver, só isso. – Eu diminuo o tom, mas ainda estou muito irritado.

- Mas eu não quero! Eu não quero voltar Jensen!

- Jared, eu te amo... Por favor, volte comigo.

- Insistir não vai adiantar Jensen! Tudo isso que você está fazendo agora, só está servindo para te afastar cada vez mais de mim. Eu te dei uma chance e você desperdiçou totalmente.

- É por causa do Chad que você não quer voltar? – Eu fecho meu punho e pergunto entre os dentes.

- Claro que não Jensen! – Ele diz e parece indignado. – Tira isso da sua cabeça!

- Então me diga por que você quer ficar aqui? Ou o que posso fazer pra você voltar comigo?

- Jensen, você vai voltar para Vanc...

- Não Jared! – Eu o interrompo totalmente descontrolado. "Merda!"

- Jensen...

- Eu não vou aguentar ficar sem você! – Meus olhos começam a queimar. - Olha amor... – Eu me aproximo mais dele. – Vamos viajar... Vamos pra França! Você vai amar, o que acha? – Minha voz sai baixa, mas qualquer um pode perceber meu desespero.

- Jensen, os nossos problemas não vão se resolver com uma viagem à França...

- Você escolhe outro lugar! Austrália, Inglaterra, Brasil... Qualquer lugar do mundo.

- Jensen, você vai voltar para Vancouver... Sozinho. E vai esperar eu te ligar, ok?

- Não Jared... Por favor, não me faça implorar!

- Não implore Jensen, porque não vai adiantar. – Sinto em sua voz que ele está decidido.

- Jared, por favor... - Ele se vira e entra novamente na casa de Chad. Sinto vontade de chutar a porta e arrancá-lo de lá a força, mas me contenho, sabendo que nada do que eu fizer vai adiantar.

"Tudo isso que você está fazendo agora, só está servindo para te afastar cada vez mais de mim."

Eu me viro e sinto os olhares reprovadores da plateia sobre mim. Entro no carro ciente que estraguei tudo mais uma vez.

- Para onde senhor? – O motorista pergunta.

- Para o hotel e depois para o aeroporto. – Minha voz sai praticamente inaudível. Eu sinto meus olhos se encherem e não impeço as lágrimas de descerem, sem conseguir lembrar quando foi a última vez em que eu chorei.

Continua...